O marginal que se foi de mim

Levamos tiros, facadas, socos, entre drogas e amores, entre versos e crises existenciais

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Ele foi um ser que andou comigo por tempos vividos em pequenos infernos.

Levamos tiros, facadas, socos, entre drogas e amores, entre versos e crises existenciais – ele foi um anjo, um anjo ferido. Seu nome era o meu, sua voz era a minha; ele me falou que não éramos os piores perdidos do mundo. Como pode o homem combater o mal sem conhecer o inferno? Perguntou ele. O quê achas que redimiu os pecados do mundo, os peixes que alimentaram o povo ou a cruz que cumpriu a profecia?

A profecia estava escrita. Quem a cumpriria? Algum marginal, com certeza, alguém que fosse contra as leis dos sacerdotes do Templo, e assim sempre será. Alguém tem que renovar os pensamentos. Eu tipo por poesia procurava o submundo pra um dia subjugá-lo a mundo bom; a música que eu fazia doía de alguma forma e ia bater nos corações marginais e feridos; entrava na mente de quem buscava algo real num mundo de fantasias exóticas, e assim eu podia cantar o amor e fazer com que aqueles violentos ficassem mais cálidos e pensantes.

Lavamos nossos rostos ensanguentados nas poças de água da chuva após as brigas, falávamos com Jesus o tempo todo, ele estava sempre nos observando, sentíamos isso, e choramos por ele; não sabíamos como sofrer um pouco daquela dor, daquele medo que temperado com tanto amor sabia da morte certa e necessária para redimir um mundo de gente cruel, gente que usava o medo e a ignorância do povo para beneficios de sua ordem. Quando entrávamos nas tavernas íamos aos fariseus, pois era nessa mesa que a palavra era melhor discutida; ficamos andando juntos por muito tempo, quase nos matamos. Então numa noite quente de verão caiu uma estranha chuva, e ele se foi de mim. Foi aí que percebi que era um anjo muito ferido e com as roupas rasgadas e sujas de tanto me defender; ele trocou seu tempo de estadia comigo com outro anjo que me chegou dizendo: “Agora vamos tomar banho num rio de água corrente e cristalina, e vamos trabalhar”. Passei a fazer poesia e vender pra Deus; por cada poesia escrita com sangue ele me dava uma nota de vinte e um remédios que aliviavam minhas dores de monotonia.

Hoje fico escrevendo sobre esse tempo de ruas escuras, cantando coisas que aprendi nesse lado da vida que passei e sobrevivi graças ao anjo. Quando passo pelo Largo dos Inocentes vejo jovens assim perdidos; cada um tem sua própria história, mas tenho uma estranha sensação de que meu anjo marginal está por dentro de um deles; são crianças perdidas, talvez dentro da própria família ou dentro de si mesmas. Tomara que acham suas águas correntes e cristalinas.

Digo a meu filho, não ande sem Deus, nem sem os anjos, e aprenda que Jesus está para o mundo como a luz pra clarear o mais sombrio dos corações.

Bom domingo, Parabéns Macapá.


 
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