Guadalajara

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Passei alguns dias em Guadalajara, convidado para fazer a conferência de abertura da Feira Internacional do Livro. Falei sobre “O Livro e a Internet”.

A discussão, atual e universal, vai além da dúvida sobre se o livro digital vai fazer desaparecer o livro tradicional feito de papel e tinta. A sociedade de comunicação, de que todos nós participamos, provoca uma transformação que vai além dos nossos costumes e nos traz uma indagação instigante sobre o que acontece com o nosso modo de pensar. Envolvidos por ela, não sabemos suas consequências ou sua duração. A escrita, o livro e a literatura evoluíram por muitos séculos, marcando momentos importantes da história da humanidade.

Alain Peyrefitte, que foi meu amigo e presidente do conselho editorial do Le Figaro, fez-me uma pergunta instigante: “Como será a cabeça dessa geração que vai da cultura oral para a visual sem passar pela cultura escrita?”

Mas voltemos a Guadalajara, onde se realiza a maior feira do livro em espanhol do mundo, rivalizando em projeção com a de Frankfurt — e me disse a escritora e governadora Beatriz Paredes que no próximo o ano ela passará a alemã. Ali já estive três vezes, a primeira delas em companhia de Garcia Márquez, que fez a fala inaugural, Vargas Llosa, Nélida Piñon e outros grandes escritores mundiais. Outra vez encontrei-me lá com Octavio Paz, Prêmio Nobel de Literatura, também meu amigo, que sempre teve palavras generosas sobre meus livros — quatro deles traduzidos pelo Fondo de Cultura Economica, o último A Duquesa Vale uma Missa, exposto no estande da editora. Reencontrei agora o grande historiador Enrique Krause, autor de uma fantástica coleção sobre os presidentes da Revolução Mexicana, Biografía del Poder, e tive a felicidade de rever o grande novelista, já bem velho, vencendo um grande derrame, Fernando del Paso, um ícone das letras hispânicas. E conheci o ganhador do Prêmio Cervantes, Emmanuel Carrère, filho de Hélène Carrère d’Encause, Secretária Perpétua da Academia Francesa — que me recebeu ali numa sessão memorável, em que tive a oportunidade de falar naquele templo de mais de três séculos. A conheci por intermédio do grande e saudoso amigo, Maurice Druon, que uma vez trouxe para conhecer a terra de seu avô, Odorico Mendes.

Em Guadalajara tive a assistência diária do grande artista mexicano Jesus Guerrero, outro velho amigo, de quem recebi na dádiva de sua generosidade duas obras belíssimas, que enfeitam minha casa em Brasília.

Guadalajara tem um grande carinho pelo Brasil. Não nos esqueçamos que foi nessa cidade que o Brasil fez a base para ganhar a Copa de 70. Eles até hoje não esquecem que lá jogamos muitas partidas, sempre com o calor de sua entusiasta torcida. Para fazer uma comparação, Guadalajara representa para o México aquilo que São Paulo representa para o Brasil, não somente por sua grande importância econômica, mas como centro cultural. Também devemos ressaltar o grande e maior orgulho da cidade, a Universidade de Guadalajara, que tem 280 mil alunos em seus diversos campos. Ali, como já contei, está o Hospicio Cabañas, com as obras de Orosco, o mundial conhecido, pintor mexicano.

Assim, entre recordações e livros, volto ao Brasil, pensando no meu destino dividido entre duas paixões, a literatura e a política, sem saber para qual tenho mais gratidão, se para uma que me fez Presidente da República, se para a outra que me fez já publicar 119 títulos e membro e decano da Academia Brasileira de Letras.


Conselho e água benta

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O Marquês de Pombal, muitas vezes chamado de “déspota esclarecido”, gostava de dar conselhos a todos aqueles que nomeava para postos de mando no mundo português. Assim, a um governador do Maranhão, seu sobrinho, o Marquês de Mello e Póvoas, Pombal fez uma carta dizendo-lhe como devia governar. Esta carta é, até hoje, um manual de bom senso.

Não era na linha de Maquiavel, da sobrevivência esperta, dos interesses do Príncipe, mas na direção do bem comum. O primeiro conselho que lhe dava era o de ter espinhos nos ouvidos, para que as coisas não entrassem de uma vez só. E que quem governa deve ter dois ouvidos, um para ouvir o presente e outro para ouvir o ausente.

Há um brocardo muito nosso que diz que “conselho e água benta só se dá a quem pede”. E não há coisa mais difícil do que dar conselhos. Há muitas espécies de conselhos. Uma parte que se pode chamar de conselhos de bem-querer. São os dos amigos mais chegados, dos filhos, dos parentes e de todos aqueles que nos cercam com afeto. Em geral superestimam as nossas qualidades, são intolerantes com os que nos criticam, mas todos eles são voltados para o melhor e têm como base o amor.

Outro conselho é aquele do amigo sincero, porém pouco inteligente, que nos dá de boa-fé conselhos errados e muitas vezes desastrosos. Há o conselho dos bons amigos e inteligentes, experientes e com espírito público, que muitas vezes são duros, são claros, são difíceis de ouvir, mas estes são melhores e devemos nos aproximar deles.

Em geral são de pessoas que têm espírito público, que muitas vezes não têm tantos motivos de nutrir afetos por nós. Este é o bom conselho. É tão bom que se criou a devoção de Nossa Senhora do Bom Conselho.

Mas há o conselho pior de todos que é o dos bajuladores, dos interessados, daqueles que desejam aconselhar errado para que as coisas não dêem certo e eles possam prestar serviços e ganhar espaço. Este conselho tem o defeito de esconder-se nos mantos de todos os outros conselhos, é cheio de mimetismo e é muito agradável de ouvir. Fuja dele como o Diabo da cruz, como diz a boca do povo.

Faço estas reflexões um pouco gongóricas para lembrar-me de quantas vezes recebi conselhos, de quantas vezes errei em segui-los e como é difícil descobrir entre o bom e o mau conselho. Há o conselho da experiência, mas este conselho não é conselho, é testemunho. Dizer o que se fez por um conselho não significa que venha ocorrer os mesmos efeitos, embora existindo as mesmas causas.

Há -não devo entrar no terreno da sociologia- a chamada teoria do intervalo. O que acontece nesse tempo, que correu do antigo tempo ao novo tempo? Por outro lado há sempre aquele ceticismo quanto ao valor da experiência. Bernard Shaw dizia, naquele seu famoso humor britânico, que a experiência só serve para uma coisa: que a experiência não serve para nada.

A gente tem sempre a impressão de que tudo é fácil de ser corrigido e de que as decisões são fáceis. É mais ou menos aquela indagação de Garrincha ao técnico que dizia como devia jogar: “E o senhor combinou com o outro time?”

O melhor mesmo é o que está no espírito de nosso provérbio popular, de que conselho e água benta são coisas parecidas. Mas não são. Água benta se não faz bem, mal não faz. Um mau conselho, às vezes, é pior do que um mau amigo. Veja-se este de enviar a emenda da Previdência.


O corredor da Esplanada

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O argumento principal para a mudança da capital para Brasília era a atmosfera irrespirável do Rio de Janeiro, centro do caldeirão em que ferviam pressões de toda ordem, que vulneravam o poder e imobilizavam decisões. O argumento histórico do centro geográfico do país, da marcha para o interior do Brasil esquecido do Planalto, cedia lugar à evidência de que era impossível governar do Rio. Juntava-se o mau humor com o tráfego (sem tráfico), agitações de rua e uma indefesa localização dos edifícios-símbolo do poder, leia-se Catete, Laranjeiras etc. Sussurrava-se, como motivo oculto, livrar-se o governo da Vila Militar, tão presente na história do país. “A Vila vai descer”, temor dos presidentes.

A meu ver, havia outro motivo bem mais pessoal e circunstancial que deu a Juscelino a energia com que marchou para a mudança: a necessidade de fuga. Fustigado por Carlos Lacerda e nossa UDN, por grupos que vinham da República do Galeão, deu uma de d. João 6º: fugir para o Brasil. Era hora de fugir para Goiás e, assim, sair do caldeirão das ameaças institucionais. Pregava-se um regime de exceção por dois anos. Surgiam as revoltas de Jacareacanga e Aragarças e a UNE ao lado do Catete.

Juscelino mudou-se. Talvez, se tivesse ficado no Rio, haveria o perigo de deposição, renúncia ou suicídio, rotina histórica.

Mas os problemas emigraram da costa para o centro. Anchieta falava de uma marcha em que os índios correram. Ele pediu: “Parem! Vocês deixaram a alma para trás. Parem, vamos esperar que ela chegue.” Brasília foi assim. Andou depressa; e a alma das pressões chegou e transformou a cidade num centro ideal para que elas se exerçam. O que existia no Rio veio em dobro.
Basta ter um apoio logístico e a sedução de um passeio, uma causa (que necessariamente não precisa ser boa) e todos os caminhos convergem para um corredor: a Esplanada dos Ministérios, que desemboca na praça dos Três Poderes, o altar dos deuses.

Os manifestantes voltam para casa com a sensação do dever cumprido e a felicidade de ter visto e desafiado o monstro: o Poder.

O Brasil nos últimos anos tem exercitado e talvez esgotado toda a sua capacidade de confrontação. Vivemos numa panela de pressão com enfrentamentos sucessivos e cotidianos. Não se vislumbra um espaço ao entendimento. Esgarça-se a disposição para dialogar e perpassa um pessimismo geral.

Fizemos a República sem povo e, hoje, achamos que podemos fazer povo sem a república, política sem políticos, o futuro sem o passado. Tudo é ruptura, é confronto, é divergência, é luta, é desintegração. A casa está muito dividida, mas não é hora de esticar a corda.

Existe grande insatisfação mas nenhum apoio do povo a qualquer golpe.

Esse slogan de “fora, renúncia e impeachment” é primário e populista.

É preciso o Brasil ter um espaço para restaurar a paz e a convivência. Sair dos passos vazios do corredor da Esplanada e buscar o bom senso.


O AI-5 e um governador do Nordeste

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Há quase 50 anos, quando foi editado o AI-5, eu era governador do Maranhão. Àquele tempo, os jornais do Sul não chegavam com regularidade, não existia interurbano e não estávamos informados do âmago das coisas. Pelos fins de novembro, chega a São Luís, numa reservada viagem, Antonio Carlos Magalhães, me diz o que estava acontecendo e o que poderia acontecer. O ministro Gama e Silva, com olho no governador Abreu Sodré, de São Paulo, queria a intervenção nos Estados e fechar o STF.

O AI-5 viria no dia 13 de dezembro. No dia 11, estava em São Luís Juscelino Kubitschek para ser paraninfo da turma da Faculdade de Economia. Eu tinha sido seu adversário, vice-líder da famosa banda de música da UDN. Ofereci-lhe um banquete e prestei-lhe todas as homenagens. Juscelino ficou comovido. “De um adversário recebo o tratamento que mereço. Em Minas, o governador recomendou-me que, quando o procurasse, o fizesse pelos fundos do Palácio da Liberdade. Nunca mais ali pisei os pés!”, disse-me Juscelino. Esse era o clima daquele tempo. Ficou feliz com o tratamento que lhe dei. Fez-me uma carta de agradecimento extremamente generosa. No dia seguinte, 12, ele regressaria ao Rio. Seria preso ao saltar. Eu ia no mesmo avião para ser o paraninfo dos concludentes da Universidade da Paraíba.

Em Campina Grande, após a solenidade, o reitor informou-me, atônito, de que naquele instante estavam a repetir em rede nacional a edição do AI-5. Fui para o hotel rapidamente e ouvi o teor do Ato. Era de uma abrangência brutal. Acabava o Estado de Direito.

Às 10h do dia 14, regressei a São Luís. Tomei as providências para deixar o governo. Meu desejo era renunciar ao mandato. Mas resolvi enfrentar a situação e recusei-me a emprestar solidariedade ao Ato. Dirigi uma mensagem ao povo maranhense dizendo da minha atitude e que ficaria no governo até o dia em que pudesse exercê-lo com liberdade. Caso contrário, voltaria à minha casa de cabeça erguida. Fui o único governador que teve essa atitude contra o AI-5. Tinha na cabeça o livro de Custódio José de Mello em que ele fala do papelão feito pelos governadores da época da dissolução do Congresso por Deodoro, que, dez dias depois, desdisseram-se e aderiram a Floriano. Disse a Luis Viana: “Luis, você, que é historiador, cuidado, não vamos entrar na relação do almirante Custódio José de Mello!”.

Alguns dias depois, fui à reunião de todos os governadores em Petrópolis, convocados pelo presidente Costa e Silva. Homem aberto, o presidente, ao receber-me, disse-me: “Sarney, fizeram tudo para que eu decretasse intervenção no Maranhão e lhe cassasse. Mas não vou desorganizar a Federação e você está fazendo um bom governo”. João Agripino, ao meu lado, apertou meu braço e sussurrou: “Você, eu e o Nilo…”.

Deram aos governadores poderes para aposentar, criar comissões de investigação, demitir etc. Eu não utilizei nenhum desses poderes. No Maranhão não foi preciso anistia. Ninguém foi punido em nível estadual.

Em 1979, já senador da República, o presidente Geisel me convoca para ser o relator da emenda constitucional que extinguiu o AI-5. O destino me levava a participar desse fato histórico. Hoje, tudo é passado.

Da sessão do Conselho de Segurança, depois divulgada, recupera-se a figura do presidente Costa e Silva. Ele foi a voz mais sensata da reunião, inclusive na solidariedade a Pedro Aleixo.


O mundo gira, a Rússia roda

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Visitei a Rússia como presidente da República em 1988. Era o tempo da glasnost e da perestroika. Gorbatchov flutuava em meio aos desmontes do combalido império soviético. Mas os símbolos da utopia socialista estavam vivos. A moeda em circulação trazia, numa face, a foice e o martelo, na outra, a efígie de Lênin. A bandeira vermelha tremulava em todos os mastros, o hino nacional tocava os acordes triunfais do orgulho nacional, com versos que invocavam: “A força do povo nos leva ao triunfo do comunismo”.

Voltei dez anos depois. Tudo mudado. A moeda da foice e do martelo fora substituída pela da águia bicéfala, símbolo dos Romanof, usado secularmente pela dinastia czarista que foi derrubada pela Revolução de Outubro. Nicolau 2º, assassinado com a família nos primeiros dias da vitória, tornara-se santo canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa. Entrei numa delas e vi o seu retrato rodeado de flores e pessoas rezando diante dele.

Mas o mais impressionante me aguardava ainda. Foi o que vi no velho restaurante São Petersburgo, em frente à igreja de São Salvador em Sangue, de luzes baças e polcas dançadas por belas jovens que saudavam as noites brancas de junho, eternizadas por Dostoiévski. Entrei e, após sentar-me, vi que ao meu lado estava Lênin, com seu boné, seu dólmã severo, seu cavanhaque inconfundível, sua pele amarelada, magro, o olhar fanático. Ao seu lado, um fotógrafo. Lênin, delicadamente, perguntou-me se podia sentar-se ao meu lado e ofereceu ser batida uma fotografia, que, esclareceu-me, custaria cinco dólares! O mito do século, com o corpo embalsamado no seu mausoléu, em Moscou, ali estava, como sósia de restaurante, lembrança turística da bela cidade de Pedro, o Grande!

Recordo esse fato porque li que Putin, atual presidente da Rússia, depois de uma consulta popular, resolveu recuperar símbolos nacionais. E fez uma salada. O país passará a ter duas bandeiras. Uma, a velha bandeira tradicional da Rússia czarista, branca, azul e vermelha; a outra, vermelha, da extinta URSS, que será de uso exclusivo das Forças Armadas, como seu estandarte. Como hino nacional, foi abandonado aquele que Ieltsin mandou compor e voltou o velho hino soviético, sem letra, porque a antiga, que falava “Lênin iluminou nossas vidas; Stálin nos deu formação”, já vinha sendo modificada desde os tempos de Kruschev. O novo escudo nacional voltou a ser, oficialmente, a velha águia de duas cabeças dos czares.

Quando a República foi proclamada, no dia 15 de novembro de 1889, levaram a Deodoro, no dia 17, proposta para substituir a bandeira e o hino. Ele decidiu: “A bandeira nacional, já tão conhecida e reconhecidamente bela, continua, substituindo-se a coroa sobre o escudo pelo Cruzeiro do Sul”. Depois, os positivistas acrescentaram “Ordem e Progresso”.

Na minha juventude, a frase mais divulgada e colocada em todos os lados não era “proibido fumar” nem sinais de trânsito, era uma regra de higiene: “Não cuspa no chão”.

Começamos o século como um país sem povo e chegamos ao ano 2000 com uma forte sociedade democrática e um PIB que vai se aproximando do trilhão de reais.

Dá vontade de lembrar Drummond: “mundo, vasto mundo” e plagiar um slogan de uma antiga transportadora: “O mundo gira, a Rússia roda”, e Lênin é atração num restaurante de São Petersburgo!!!


Reforma ou revolução?

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Esse é um dilema que desapareceu, mas continua tema para muita controvérsia. Aqui no Brasil, ele é antigo e soou como um grito de protesto quando o conselheiro Nabuco de Araújo, pai de Joaquim Nabuco, no século 19, lançou em discurso famoso o dilema: “Reforma ou revolução?”, para enfrentar a encruzilhada em que o país estava.

A reforma era o antídoto contra a revolução que se julgava inevitável desde que um sistema político entrava em colapso. Hoje, a palavra que dominou o pensamento político de mais de um século está sepultada. Entrou para o rol dos arcaísmos. No mundo moderno, os sistemas desmoronam pelas suas contradições, e não pelo uso da força. O comunismo, que tanto pregou a revolução, não foi vítima dela, ao contrário do que diziam muitos profetas, mas de si mesmo.

Mas a palavra reforma não teve o mesmo destino. Continuou a circular e foi a única sobrevivente do sistema comunista. Lênin dizia que foi o primeiro grande ataque da burguesia contra o proletariado a formulação revisionista de Eduard Bernstein (1850-1932), que afirmava ter Marx e Engels uma visão unilateral da história econômica. Bernstein propunha que fosse descartada a ideia da revolução, na busca de um socialismo que promovesse, gradualmente, a democracia e a elevação material do proletariado. Essas ideias foram os fundamentos da social-democracia alemã, basicamente revisionista.

Por outro lado, o capitalismo, na mesma direção, apontou para a necessidade de promover mudanças em suas concepções na busca de torná-lo menos egoísta e poder enfrentar as teses comunistas. O caminho? As reformas. Daí surgiu o que, hoje, se chama de neoliberalismo, cujas idéias podemos dizer que foram sistematizadas, no pensamento europeu, nos tempos modernos, por Raymond Aron, entre outros.

Assim, por caminhos diferentes e pela marcha do próprio tempo, revisionismo marxista e reformismo capitalista encontraram-se como uma coisa só. O objetivo é viabilizar o sistema que a globalização tornou único, ou seja, da economia de mercado e democracia liberal. A social-democracia e o neoliberalismo passaram a ter os mesmos objetivos: destruir o Estado do bem-estar social, inimigo do Estado-patrão e assegurar a livre circulação do capital, sem fronteiras, como exige o processo de abertura de mercados e a globalização.

Mas “nem tudo que reluz é ouro”. Essas formulações perfeitas são incapazes de superar suas próprias contradições. A crise da Ásia pode não ser uma crise da Ásia, mas uma crise profunda do capitalismo e de seus dogmas. Pode apontar para uma época de contração, de deflação, de recessão, imprimindo velocidade àquilo que hoje é a grande ameaça à humanidade: o homem sem emprego, as nações sem identidade e um superestado mundial financeiro governando um mundo que é injusto e desumano.

Não é por outro motivo que o papa João Paulo 2º assumiu a missão de denunciar os dois sistemas e seus derivados, pedindo uma ordem mundial mais próxima de Deus e da felicidade do homem.


Brasil pegando fogo

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Ninguém pense que vou falar de Gal Costa, essa beleza de artista e grande cantora baiana que nos anos 80 relançou a marchinha de Francisco Mattoso e José Maria de Abreu, “Pegando fogo”, um grande sucesso, que vinha desde 1939, quando foi cantada por Dick Farney.

A canção falava:
“Meu coração está pegando fogo / Fogo, fogo / Foi uma morena que passou perto de mim…/ Morena boa que passa… / Deixando a gente até mal… / Mande chamar o bombeiro / Pra esse fogo apagar.”
As morenas continuam aí fazendo corações em labaredas. Mas as que nos preocupam agora, e também apertam o nosso coração, são as chamas que se espalharam pelo território nacional, destruindo reservas ambientais, ameaçando até mesmo cidades interioranas, acabando com plantações.

As queimadas são explicadas por termos tido as chuvas mais escassas de nossa História. Hoje elas atingem tudo, inclusive as belezas naturais, como a Chapada dos Veadeiros e, em nosso Maranhão, a área de Grajaú e Barra do Corda, de uma maneira brutal, que não destrói somente matas, mas ameaça as aldeias indígenas daquela região.

Parece que é verdade a teoria de que o aquecimento global que o mundo vem registrando nas últimas décadas é promovido pelo próprio homem, com o aumento das toneladas de carbono na atmosfera, outras formas de poluição e a destruição das florestas. O maior culpado, os Estados Unidos, que haviam reconhecido isso ao assinar o Acordo de Paris, são levados por Trump a dar marcha a ré, deixando com a China e a Europa, os segundos colocados nessa ordem negativa, a liderança do compromisso de salvar Terra.

A origem dessas queimadas é, muitas vezes, a ação criminosa de pessoas no descuido da agricultura primitiva feita na base do fogo, da coivara, com o adubo das cinzas que restam dessas catástrofes. Mas há muitas outras causas, desde ações de vândalos até fenômenos naturais, como a queda de raios, em que, infelizmente, o Brasil é um dos recordistas no mundo.

O Ministro do Meio Ambiente, Deputado Sarney Filho, está lidando com esse desastre no País inteiro, com muita dedicação e grande engajamento pessoal.

Nessa peregrinação, esteve esta semana em nosso Maranhão sobrevoando as áreas de queimada, que, infelizmente, são algumas das maiores do Brasil. O Ministro também, com sua visão de futuro e de ambientalista, que o é, tem evitado, na maioria dos casos, a expansão dessas já extensas áreas.

Agora está propondo ao Governo a modernização da sua frota de combate aos incêndios florestais, pedindo que o Presidente equipe a Aeronáutica com aviões-tanques, utilizados em outros países para combater esse desastre.

Infelizmente, o nosso planeta feroz, sujeito a terremotos, furacões, tufões, enchentes, secas, necessita de um cuidado cada vez maior para que continue sendo, como tem sido, a casa bela e acolhedora do homem. Mas se o Brasil está pegando fogo, Califórnia e Portugal, para citar os dois exemplos mais gritantes, estiveram em chamas, com tragédias maiores do que a nossa, que destruíram casas e deixaram mortos.
Se na canção de Gal Costa o nosso coração está pegando fogo por causa das morenas, não sabemos qual é a morena que faz com que as nossas matas estejam pegando fogo. De minha parte, pelas queimadas de nossas matas, meu coração está também ardendo de tristeza, sem deixar de pegar fogo pelas morenas.


Valei-nos, Nossa Senhora

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Numa tradição que vem de nossa colonização, o Brasil é um país profundamente religioso. Digo país pois, embora este seja laico, a fé domina nossa vida civil com suas festas e manifestações. A discriminação religiosa é proibida, mas ela só existe entre nós como uma anomalia, a regra é a de coexistência e convivência — e, ainda, de sincretismo. Não só na Bahia o candomblé — aqui no Maranhão “Mina” — e as religiões de origem africana dominam as festas de largo, em geral em comunhão com as celebrações católicas.

O País, esta semana, celebrou Nossa Senhora Aparecida. É nossa padroeira e nossa protetora. Há 400 anos ela foi encontrada, por pescadores que queriam agradar ao Conde de Assumar durante sua passagem por Guaratinguetá: pediam a intercessão de Nossa Mãe para que trouxesse os peixes raros, e eles surgiram, mas depois das redes encontrarem o corpo e a cabeça da imagem sagrada.

A devoção estabeleceu-se e foi — e é — forte. Com o tempo a Capela da Santa foi substituída pela Igreja da Aparecida, que foi rodeada de uma cidade, virou Basílica e coexiste com a grande Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, onde a Virgem Maria é reverenciada em sua pequena imagem por todos nós.

Muita gente ali vai em peregrinação. Os milagres são coisa de todo dia. A fé é palpável, quase podemos tocar, certamente podemos ver nos olhares e nos gestos. Quando a religião católica ainda não era separada do Estado, a Princesa Isabel, que não tinha filhos, e queria tê-los, fez a romaria e uma promessa, que voltou, 20 anos depois, para cumprir: dar-lhe uma coroa de ouro, com que foi coroada, por ordem do Papa Pio X.

Os papas lhe foram fiéis.

Pio XI a proclamou Padroeira e Rainha do Brasil. Paulo VI, Bento XVI e Francisco lhe ofertaram suas três Rosas de Ouro — como têm Nossa Senhora de Fátima, de Guadalupe, de Loreto. João Paulo II consagrou sua Basílica Maior.

Mas temos festa ligadas a muitas outras imagens, como a de Nossa Senhora de Nazaré, também achada, em 1700, num rio, o Igarapé Murututu, perto de Belém do Pará. Como em Portugal, na Vila de Nazaré, sua festa é no dia 8 de setembro. O Círio de Nazaré, em que a imagem é levada de sua Basílica para a Catedral, é uma festa gigantesca — dizem que a maior do Brasil —, com o ritual da corda e a tradição das representações em miriti, nosso buriti.

No Paraná a imagem encontrada foi a de Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Rocio, também imagem antiga, bicentenária, de grande devoção popular.

Nós também temos nossa festa ligada a uma imagem achada na água, no nosso caso no mar. Só que, em vez de ser da Mãe de Jesus, foi a de São José, que, em Ribamar, como nosso padroeiro, nos acolhe a todos com atenção paterna. Ali também fizemos uma grande igreja — que completou este ano 100 anos de sua inauguração. Construímos uma devoção forte e a tradição de celebrá-lo no começo de setembro.

Vivemos dias de crueldade e egoísmo. Tanta coisa ruim acontecendo. O melhor para enfrentar isso é a fé. Valei-nos, Nossa Senhora da Conceição Aparecida!


Brasil pegando fogo

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Ninguém pense que vou falar de Gal Costa, essa beleza de artista e grande cantora baiana que nos anos 80 relançou a marchinha de Francisco Mattoso e José Maria de Abreu, “Pegando fogo”, um grande sucesso, que vinha desde 1939, quando foi cantada por Dick Farney.

A canção falava:

“Meu coração está pegando fogo / Fogo, fogo / Foi uma morena que passou perto de mim…/ Morena boa que passa… / Deixando a gente até mal… / Mande chamar o bombeiro / Pra esse fogo apagar.”

As morenas continuam aí fazendo corações em labaredas. Mas as que nos preocupam agora, e também apertam o nosso coração, são as chamas que se espalharam pelo território nacional, destruindo reservas ambientais, ameaçando até mesmo cidades interioranas, acabando com plantações.

As queimadas são explicadas por termos tido as chuvas mais escassas de nossa História. Hoje elas atingem tudo, inclusive as belezas naturais, como a Chapada dos Veadeiros e, em nosso Maranhão, a área de Grajaú e Barra do Corda, de uma maneira brutal, que não destrói somente matas, mas ameaça as aldeias indígenas daquela região.

Parece que é verdade a teoria de que o aquecimento global que o mundo vem registrando nas últimas décadas é promovido pelo próprio homem, com o aumento das toneladas de carbono na atmosfera, outras formas de poluição e a destruição das florestas. O maior culpado, os Estados Unidos, que haviam reconhecido isso ao assinar o Acordo de Paris, são levados por Trump a dar marcha a ré, deixando com a China e a Europa, os segundos colocados nessa ordem negativa, a liderança do compromisso de salvar Terra.

A origem dessas queimadas é, muitas vezes, a ação criminosa de pessoas no descuido da agricultura primitiva feita na base do fogo, da coivara, com o adubo das cinzas que restam dessas catástrofes. Mas há muitas outras causas, desde ações de vândalos até fenômenos naturais, como a queda de raios, em que, infelizmente, o Brasil é um dos recordistas no mundo.

O Ministro do Meio Ambiente, Deputado Sarney Filho, está lidando com esse desastre no País inteiro, com muita dedicação e grande engajamento pessoal.

Nessa peregrinação, esteve esta semana em nosso Maranhão sobrevoando as áreas de queimada, que, infelizmente, são algumas das maiores do Brasil. O Ministro também, com sua visão de futuro e de ambientalista, que o é, tem evitado, na maioria dos casos, a expansão dessas já extensas áreas.

Agora está propondo ao Governo a modernização da sua frota de combate aos incêndios florestais, pedindo que o Presidente equipe a Aeronáutica com aviões-tanques, utilizados em outros países para combater esse desastre.

Infelizmente, o nosso planeta feroz, sujeito a terremotos, furacões, tufões, enchentes, secas, necessita de um cuidado cada vez maior para que continue sendo, como tem sido, a casa bela e acolhedora do homem. Mas se o Brasil está pegando fogo, Califórnia e Portugal, para citar os dois exemplos mais gritantes, estiveram em chamas, com tragédias maiores do que a nossa, que destruíram casas e deixaram mortos.

Se na canção de Gal Costa o nosso coração está pegando fogo por causa das morenas, não sabemos qual é a morena que faz com que as nossas matas estejam pegando fogo. De minha parte, pelas queimadas de nossas matas, meu coração está também ardendo de tristeza, sem deixar de pegar fogo pelas morenas.

 


Saudades verdes

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Garcia Lorca tem um poema célebre sobre o verde, que muito repetimos na minha juventude, em que insiste no pedido de “verde que te quiero verde”.

Ando, ultimamente, com uma saudade imensa da Baixada. Não somente dos Municípios em que passei os meus primeiros anos (e aí vem Pinheiro), como os da meninice, em que vivi em São Bento, em cujos campos, que marcaram a minha vida para sempre, o horizonte não acaba nunca.

E aí surge a casa do meu avô, com os pés de figo — e os de romã, com suas frutas cuidadas pelas mãos bondosas de minha mãe, colhidas no Natal para que as vermelhas sementes pudessem ser comidas e assim trazer a felicidade dos bons anos.

O poço não era realmente o poço, mas o espelho em que tantas vezes me debruçava nas bordas para olhar meu retrato no fundo das águas.

O rincão que colhia as chuvas imensas de pingos grandes que desciam pelo telhado esparramado e sob o qual nós, meninos, tomávamos banho, sob o protesto de minha avó, receosa das gripes, tão comuns e ameaçadoras da tuberculose, que dizimava gerações.

Do grupo Mota Júnior — que depois vim a saber ter sido um antigo prefeito da cidade — recordo o rosto das minhas colegas e dos meus colegas, que a vida espalhou, mas que, na minha lembrança, estão juntos e não envelheceram.

Os sinos da igreja batiam nas aleluias e nas alegrias e dobravam na tristeza dos finados.

As festas da padroeira e de Nossa Senhora dos Remedinhos, no bairro dos Remedinhos, que tomou o nome à Mãe de Deus.

E a sala dos retratos: do meu avô, da minha avó, do meu bisavô e dos irmãos da minha avó, entre os quais Augusto Olímpio, que ela, com muito orgulho, dizia ter atravessado os mares, isto é, visitado a Europa e estudado em Portugal.

Agora é o tempo em que os campos estão secando, com a suspensão das chuvas, que este ano disseram-me ter-se prolongado bastante, de modo que as águas até hoje permanecem invisíveis, com o capim de marreca de Pinheiro, a canarana e o andrequicé, de São Bento.

Enquanto sonho a minha infância, já com a carga de muitos e muitos anos, acordo para defender-me das flechas do flecheiro-mor da República, que, graças a Deus, não tem mais bambu, embora se vanglorie de não ter utilizado os galhos de marmelo, que ele dizia que, em Minas, serviam para as surras que davam nas crianças para que doessem muito mais.

O Governador Plácido Castelo, do Ceará, me confessou, certa vez, que a caneta que possuía era uma caneta milagrosa: fazia a felicidade ou a infelicidade das pessoas, admitindo e demitindo, multando ou mandando prender, mas tinha um grande defeito: quando a tinta acabava, não servia para mais nada — e ele ficava com o arrependimento das vezes em que cometera injustiça.

O ex-procurador-geral da República, que os jornais dizem agora estar voando para as Europas, não tem mais bambu, nem tinta.

Eu, graças a Deus, nunca utilizei bambu nem tinta e não senti falta nem de um, nem da outra, quando deixei os cargos executivos que exerci.

Lá do Maranhão, todos me dizem que, além de flechas e bambus, a perseguição corre solta, atingindo amigos e inimigos. E a verdade verdadeira é que o Estado está andando de marcha a ré.