Reforma Eleitoral

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Volto a tratar, como o fiz há duas semanas, da reforma eleitoral e dos desencontros que comandam o debate no Congresso Nacional.

Sempre me interessei pelo estudo dos sistemas eleitorais e li bastante sobre o assunto. Durante meus 50 anos de vivência parlamentar, jamais deixei de participar de todas as proposições sobre o tema. Cheguei mesmo a publicar no Brasil e na França dois ensaios tratando dessa matéria, publicados na mais prestigiada revista de estudos políticos da Europa, a Commentaire.

Na Escola Superior de Guerra, proferi, em 1977, uma conferência sobre Partidos Políticos, que serviu de base para um ensaio publicado em livro. Apresentei, em 1972, um projeto de lei propondo o estabelecimento do Sistema Distrital Misto, adotado na Alemanha. Defendi o Parlamentarismo, sistema que sempre julguei melhor que o Presidencialismo.

Durante muitos anos, tenho acompanhado a tragédia da representação parlamentar brasileira com o sistema proporcional uninominal que adotamos, que destrói os partidos, favorece a fraude eleitoral, a corrupção e estimula a criação desordenada de partidos. Graças a esse tipo de voto, existem 35 partidos políticos, hoje, o que torna caótica a atividade na Câmara dos Deputados e implica na ingovernabilidade a que o País chegou. E há mais 63 partidos em formação no TSE!

Foi o ex-Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, quem reconheceu, ainda durante seu governo, que as novas técnicas de comunicação — com a tevê e as redes sociais — diminuíram a importância do partido político para a campanha eleitoral, mas que é impossível governar sem os partidos políticos, porque são eles que asseguram a governabilidade.

Agora discute-se no Congresso a Reforma Política e, ao que me parece, não existe consenso sobre nada. Lançaram a ideia do Distritão, de que discordo, por conter defeitos doutrinários e debilitar os partidos, afastando-os das eleições, enquanto fortifica o voto pessoal, o que é danoso para a democracia.

O STF julgou inconstitucionais a cláusula de desempenho para a existência de partidos e o financiamento de campanha por empresas. Esse é um grave problema porque cria o vazio. E a imprensa elimina o financiamento público, combatendo-o ferozmente. Quem vai financiar a eleição? A democracia tem um custo!

Raul Alfonsín, falecido Presidente da Argentina e meu grande amigo pessoal, denunciou a debilidade das democracias pobres. Se não existe financiamento, como fazer eleições? A alternativa seria a da força, em que, sem eleição, florescem os ditadores. Aí, ninguém gasta um tostão, e basta que os militares ou os tribunais indiquem presidentes, governadores, prefeitos e mais. Mas isso já se viu que não deu certo em nenhum lugar do mundo e levou ao derramamento de muito sangue!

Para mim, tem que haver financiamento privado, com regras claras e transparência, como na Alemanha e em muitos outros países. Sem financiamento público nem privado, os financiadores das eleições serão os dinheiros do crime organizado.

Com a falta de acordo entre os partidos e a Justiça insensível aos problemas do mecanismo eleitoral, estamos caminhando para um desastre que vai engolir a democracia. No clima em que estão, essa Reforma, a meu ver, mais uma vez, não chegará a nada. E ficaremos com a indagação: “Para onde vamos?”
Estão faltando nesse assunto liderança, articuladores e espírito público.


As leis eleitorais – II

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Esta semana, participei de uma reunião de líderes e experts em legislação eleitoral. O convite foi feito pelo Presidente da Câmara e do Senado, motivados naturalmente pelos meus quarenta anos de Senado e doze anos da Câmara dos Deputados. Esta longa vida parlamentar me levou a falar e escrever muitas vezes sobre esse tema que está em votação no Congresso. Assim, na linha do que escrevi na semana que passou, volto ao assunto, como prometi.

Comecei, na minha primeira eleição, em 1954, sendo votado nas chamadas “chapinhas”, que nada mais eram do que um pedaço de papel, com o nome do candidato e o cargo pleiteado, levado pelo eleitor; na mesa, era colocado num envelope, que o presidente da mesa rubricava.

Foi o tempo dos cabos eleitorais, cuja missão era trocar as “chapinhas” das mãos dos eleitores. Depois a UDN, meu partido, lutou pela chapa única, que devia ter os nomes de todos os candidatos, com um quadradinho ao lado para o eleitor marcar xis, colocando sua escolha. Essas chapas eram impressas por conta dos partidos e distribuídas por eles aos eleitores, que já as levavam marcadas.
No tempo do Juscelino a UDN defendeu a chapa oficial, o que foi uma grande conquista, já que passou a ser responsabilidade da Justiça Eleitoral fazer as chapas e entregá-las – no momento de votar – aos eleitores, que comprovavam sua condição com o título.

Veio a campanha do alistamento eleitoral, com a luta para colocar a foto do eleitor no título. Com o avanço da tecnologia, fui eu o responsável pelo projeto para que o alistamento eleitoral fosse feito pelo Governo, que já fazia o alistamento militar.

Quando fui Presidente da República, sendo presidente do TSE o Ministro Néri da Silveira, implantamos o título digital, uma espécie de cartão de crédito. Havia muitas dúvidas sobre a viabilidade do sistema eletrônico, mas ele foi paulatinamente implantado, com enorme sucesso, hoje reconhecido internacionalmente.

Mas, se o processo de votação tornou-se confiável, continuamos com o velho — e, quando foi criado, já anacrônico — voto proporcional uninominal. Esse sistema é o responsável pelo paradoxo de ao mesmo tempo termos a total ausência e a proliferação desenfreada de partidos no Brasil. Dele também nasce a vulnerabilidade das eleições ao poder econômico e às práticas heterodoxas de angariar votos. Hoje há total desvinculação entre o eleitor e o eleito. O palco dessa relação deveria ser a geografia, e a escala a da proximidade, ou seja, o distrito municipal; ora, hoje o candidato a deputado procura voto num distrito de um lado do estado, em seguida viaja mil quilômetros para pedir a um eleitor que nada tem em comum com o primeiro.

Em 1977, apresentei um projeto de voto distrital-misto, baseado no modelo mais atual, o alemão. Defendi o parlamentarismo. Introduzi, por projeto de lei, a obrigação do candidato declarar seus bens ao registrar-se. Participei em muitas e muitas reformas e tentativas de melhorar o sistema eleitoral, evitando a fraude e o abuso do poder político e econômico.

Para terminar lembro que a fraude era tanta que, quando fui candidato a Governador, depois de uma revisão eleitoral que eliminou 200 mil fantasmas, apareceu pintado no muro do Cemitério do Gavião, em letras grandes:

– Agradecemos ao TSE não termos de votar nesta eleição, respeitando o nosso direito de descansar em Paz!

Na próxima semana falarei das reformas que estão sendo discutidas.


As leis eleitorais — I

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Sempre fui um crítico da legislação eleitoral brasileira. Desde que cheguei à Câmara, interessei-me pelos projetos que ali tramitavam — e eram muitos! — dispondo sobre a modificação de diversas normas para as eleições. A começar pelo Código Eleitoral, que nasceu desatualizado.

Assim, algumas instituições nossas, como o voto proporcional, remontam ao século XIX, quando Assis Brasil promoveu uma grande campanha pela proporcionalidade nas eleições, baseado na ideia positivista de que todos os segmentos e credos filosóficos deviam ser representados no Congresso Nacional.

Finalmente, a sua ideia foi vitoriosa em 1932, quando redigiu o nosso primeiro Código Eleitoral. A adoção desse tipo de voto, portanto, já vinha envelhecida, e hoje não existe mais em um só país. A Finlândia tem uma coisa parecida, mas que não se compara à bagunça que é o nosso sistema proporcional uninominal.

Ao voto uninominal devemos a multiplicação e o enfraquecimento dos partidos, com a falta de fidelidade partidária. Passadas as eleições, os candidatos de um mesmo partido não podem sentar-se a uma mesa, porque seus adversários na eleição não foram os membros de outro partido, mas os do seu próprio, pois disputam com os companheiros a mesma vaga.

Aliás, o inconformismo com os sistemas eleitorais faz parte de nossa História e vem desde a Constituinte de 23, quando já se discutia que tipo de sistema devíamos adotar para as eleições.
Ao longo do Primeiro e do Segundo Reinado, sempre existia alguém atribuindo ao sistema adotado, em qualquer tempo, a origem dos nossos males. Daí as inúmeras modificações que surgiram ao longo do tempo, buscando sempre a melhoria da legitimidade dos votos.

Não se pode comparar o que acontece hoje com o que ocorreu há quase 200 anos. O voto era censitário, aquele em que o candidato tinha que possuir determinado patrimônio para poder figurar numa chapa. Nem as mulheres, nem os escravos, nem os soldados votavam. Os poucos eleitores que restavam tinham que se submeter a uma eleição que nada tinha de legítima, pois terminava sempre em cacetadas: a arma usada para dissolver as seções eleitorais e quebrar as urnas.

João Lisboa, de quem Capistrano de Abreu dizia ser o melhor historiador brasileiro, no clássico estudo do Jornal de Timon sobre eleições da Antiguidade até o seu tempo, descreve com detalhes e com documentos, além do seu próprio testemunho, o que nelas acontecia.

No fim do Império, o Conselheiro Saraiva — que exerceu muitas missões diplomáticas, inclusive no Prata, foi membro do Conselho de Estado, Presidente do Conselho de Ministros, governador da Província do Piauí e fundador de Teresina — era obcecado por melhorias no sistema eleitoral e conseguiu impor sua reforma, que estabelecia as primeiras “diretas”, abolindo a Lei dos Círculos, nossa versão de voto distrital. A Lei Saraiva proibiu o voto dos analfabetos, restringindo os eleitores a 1% dos brasileiros.

Na República, Campos Sales, que foi Ministro da Justiça do Primeiro Governo do Deodoro, propôs a abolição do voto secreto, estabelecendo que o eleitor devia receber do presidente da mesa o documento assinado com a chapa em que tinha votado. Argumentava ele que a República, cuja origem era o voto popular, tinha que ganhar eleições, mas o que acontecia, na realidade, é que o povo era monarquista e não votaria em republicanos. Sendo assim, propunha ele fraudar as eleições.

Para ter certeza de que tudo ia bem, criou-se a Comissão de Reconhecimento, com que Pinheiro Machado, que a assumiu, podia aceitar ou ignorar o candidato vitorioso nas urnas.
Eu mesmo, em minha longa vida política, presenciei vários sistemas eleitorais. Na próxima semana contarei o que testemunhei e do que participei.


A graça da vida

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Um dos mais belos livros da Bíblia é o Livro de Jó. É uma profunda reflexão sobre a graça da vida. Nele há passagens que nos abrem os olhos e a alma: “O homem…. nascido da mulher… sai como a flor e seca; foge também como a sombra e não permanece”. Jó não maldiz o sofrimento e de seus lábios, “enquanto em mim houver alento não sairão iniquidades”. Ele sabe que o maior amor de Deus pelos homens é a graça de viver.

A comovente confissão de Mário Covas sobre a sua doença adquiriu, à época, dignidade transubstancial, porque não foi grito de pieguice nem concessão à fraqueza, mas um reconhecimento dos dias que Deus lhe deu, e não dos que ainda lhe podia dar. A essência de ser cristão é aquela de ter a paz interior, justamente a de agradecer o que lhe foi concedido, e não a de achar que viver é um caminho sem espinhos. Guimarães Rosa resumiu essa visão na famosa assertiva de que “viver é muito perigoso”. O padre Vieira diz que os nossos olhos foram feitos para “ver e para chorar” e argumenta que “os cegos não vêem, mas choram”. Covas mostrou as duas bondades dos olhos, a de ver e a de chorar. Lágrimas que conseguiu que fossem comungadas por milhões de brasileiros.

A glória política é feita de instantes. De momentos de brilho. Vivem das luzes da ribalta, das pequenas vaidades, dos aplausos, até os grandes momentos de excepcionais vitórias. Os políticos estão sempre expostos. Não têm o direito de falar baixo. Tudo que falam se exige que seja alto, que chegue aos ouvidos de todos, que eles não tenham privacidade, que não tenham fraquezas e defeitos. Ninguém os vê com grandeza nem compreensão. Devem ser sempre homens frios, quase de pedra, e muitas vezes de lama, por isso nunca os perdoam e os vêem com olhos de impiedade. É preciso que sofram, que sangrem, para que se compreenda que também são feitos de carne e osso. Joaquim Nabuco dizia que no Brasil era preciso que os políticos morressem para que suas qualidades fossem reconhecidas e tivessem justiça. Falo dos políticos, não dos que falsificam o ideal político.

Mário Covas mostrou que os políticos são feitos de carne e osso. São frágeis como todos os corpos e têm almas. A bravura com que enfrentou e o destino tornou-o objeto de respeito.

Tenho a isenção de quem não está entre seus legionários, mas do ser humano capaz de comover-se. Recordo-me de quando, em 1962, Covas chegava à Câmara dos Deputado,s em Brasília, nenhum de nós sabendo aonde o destino nos levaria. Éramos jovens e Saulo Ramos me dizia do seu talento político, que vinha das lutas de sua base eleitoral, Santos.

Com o mesmo ímpeto daqueles anos, vi-o, depois, desafiando o infortúnio e buscando forças no espírito, pelejando contra o destino, mas não esquecendo que o mais importante é “a graça da vida”.

Comecei a escrever citando o Livro de Jó. Este não sucumbiu à tentação de amaldiçoar o sofrimento, blasfemar contra Deus, odiar seus inimigos. O destino o feriu de todas as maneiras, mas ele resistiu porque era “sincero, reto e temente a Deus”.

Mário Covas nos deu exemplo de uma grande lição. E mais vale ensinar pelo exemplo do que pelas palavras.


“Vende-se” e “Aluga-se”

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Passei o mês de julho no Maranhão. Na rotina de matar saudades, revisitar amigos e conviver com a gente do povo, muita gente nova e poucos do meu tempo, desta geração que já está no caminho dos versos de Raimundo Correa, no célebre Soneto das Pombas, em que fala dos sonhos da mocidade e diz que “aos pombais as pombas voltam / e eles (os sonhos) aos corações não voltam mais”.
Mas meus incorrigíveis amor e preocupação pelas coisas do Maranhão não cessam de entusiasmar-me e nem tiram a força de indignar-me. Encontro o Maranhão com medo, não só o medo da insegurança como da matança que se verifica a cada fim de semana — só nas duas últimas semanas 16 mortos —, mais o medo das perseguições, das demissões em massa, da caça às bruxas e das perseguições que atingem funcionários, comerciantes, criadores, num clima de delação para abrir vagas e ocupar lugares. O temor do arbítrio, do autoritarismo, da raiva, da embriaguez que não é só do poder, mas da vingança.

O Maranhão sempre foi um Estado que respeitou a convivência e onde nunca houve clima de retaliações, nem de perseguição por posição política ou cerceamento da liberdade de opinião.
Tenho autoridade para falar sobre isso.

Tive adversários implacáveis que foram cruéis nos ataques e nas calúnias e injúrias sobre a minha pessoa, mas não posso acusá-los de perseguir outras pessoas por ser meu amigo ou eleitor. Eu fui Governador no tempo da ditadura militar, tinha em minhas mãos poderes absolutos de demitir, aposentar, propor cassações e usar o poder da polícia e do fisco para perseguir comerciantes e castigar por ódio, inveja, ideologia ou simpatia quem quer que fosse. Mas não cassei ninguém, não demiti nem persegui quem quer que fosse. Por isso a anistia não teve aplicação aqui contra qualquer ato do poder estadual — ninguém fora atingido. Não tenho inimigos e todos que se apresentaram para o ser foram por mim recusados. Não aceito inimigos e sim adversários, assim mesmo usando o direito de não permitir a entrada de voluntários nesse rol.

Mas todo esse clima que existe hoje mostra a falta de esperança do povo, que vive e sabe como era diferente nossa vida. Havia um clima de progresso, de grandes construções, do despertar o Maranhão como destino de investimentos, da visita diária de empresários nacionais.

Agora parou tudo.
O governo comunista todos sabem que não suporta empresários nem empreendedores e a todos quer asfixiar pelas ideias do Estado senhor de tudo. A Lei de Incentivos Culturais, como exemplo, deixou de ser para incentivar escritores e a cultura e se transformou numa fonte de recursos para promover o governo com festivais mixurucas; e as firmas perderam o direito de escolher a quem financiar. Só o governo escolhe e com procedimentos indevidos e lamentáveis.

O crescimento de PIB (produto interno bruto, em que se avalia as riquezas produzidas) diminuiu. Só o Maranhão, no Nordeste, teve a taxa de emprego reduzida, aumentou o desemprego — os comunistas não se incomodam.

Estão inaugurando até postes e bancos de pracinhas. O programa do leite prometido acabou, nem existe cesta básica para aliviar a fome do povo, nesse tempo de recessão em que vive o Brasil.
O Maranhão perdeu força nacional, desapareceu da República. Contam que aqui só um negócio está prosperando: a fabricação de placas com os dizeres “VENDE-SE” e “ALUGA-SE”. A cidade está cheia delas.


Vieira, 300 anos

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Há 320 anos, em julho de 1697, morria, em Salvador, Bahia, o padre Antonio Vieira.

A carta do padre Andreoni, comunicando o seu desaparecimento ao superior dos jesuítas, diz que foi “na primeira hora depois da meia-noite”, “adormeceu tranquilamente”. Informa, ainda, que estava com 90 anos e “com grande conformidade”, pois Deus tirara-lhe dois consolos: “da sua biblioteca” e “do retiro de sua capela (…) onde não podia demorar-se senão às escondidas, por causa do intolerável ardor e do penosíssimo incômodo da urina”.

Lembra o padre Andreoni que a dor de sua morte era a lembrança de sua vida, “passada principalmente na missão do Maranhão e nas longas e frequentes navegações que empreendera pela libertação e salvação dos índios”.

Usa-se, muitas vezes, a expressão generosa para alguns mortos de que “não morrerão jamais”. Mas morrem. Poucos os que desfrutam da vida depois da morte, da eternidade. Enquanto existir a língua portuguesa, Vieira existirá como o maior monumento de sua expressão barroca, em que se conjugaram a ação e a palavra. Vieira é o maior orador sacro da Igreja Católica.

Ninguém lhe excedeu no volume das obras, na profundidade dos seus sermões, na riqueza dos milhares de cartas que escreveu e na sua vida de pregador, evangelizador e homem de ação. Enfrentou reis, capitães-mores, desafetos, superiores eclesiásticos, a própria Inquisição, os mares, as florestas, as amarguras para levar o Evangelho e defender os índios contra a escravização. “Se eu torcesse minha batina, em vez de suor sairia sangue”, disse ele, e “a desgraça desta região (o Brasil) é causada pela injustiça e sofrimento impostos aos índios”.

Esse padre tinha a língua de fogo. Sua palavra queimava. Seu sermão pelo “Bom sucesso das nossas armas” é, sem dúvida, uma das mais altas manifestações literárias do gênero humano.
Ali, ele estabelece um diálogo com Deus e com ele argumenta: “Lembrai-vos, senhor, do vosso testamento, lembrai-vos de vossas promessas”. Esse Vieira que diria que não vem pedir pedindo, mas protestando e argumentando.

Na Missão do Maranhão ele passou nove anos. Muitas vezes fustigou os que mandavam (“Os príncipes sempre têm quem sirva mais depressa aos seus apetites que à sua honra”). Mas, em uma carta, indagado onde queria morrer, disse que era no Maranhão. Nossas igrejas estão cheias, dia e noite, do seu fantasma. Como não se sabe exatamente como eram e em que púlpito pregou, ele está em todas.

Mas há um lugar sagrado, um chão de terra batida, onde descobrimos o altar-mor na antiga igreja de Nossa Senhora das Mercês, ao lado do convento, hoje restaurado, que abriga a Fundação da Memória Republicana e o Memorial Sarney. Ali, é o único lugar em que se tem certeza que Vieira pregou no Maranhão, pois, na inauguração da igreja, há muito desaparecida, ele proferiu o famoso “Sermão de são Pedro Nolasco”, inaugurando o tempo, e lá profetizou: “Aqui tragamos nossos memoriais”. Esse memorial ali está, com a presença de Vieira.

O mesmo Vieira que, levado ao tribunal da Inquisição, tratou os seus juízes de “equíssimos doutores”. Chamado a atenção, esclareceu que não era de “equus” (cavalos, éguas), mas de equidade!…


Por quem gritam os biguás?

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Fala-se da ecologia com a mesma magia como no passado se falava de Deus e da criação. A visão vertical da Terra que nos foi dada pelas naves e instrumentos de ótica lançados ao espaço nos forneceu a imagem real que o pensamento humano formulava e não via: somos um pequeno nicho cósmico com recursos limitados e sujeitos às restrições do seu uso. Essa projeção passou a ser base de algumas verdades filosóficas. Todos sabemos que a Terra está doente e que, se não cuidarmos dela, acabam as condições de existir vida e ela transformar-se-á num planeta morto como tantos que existem no espaço.

Richard Falk, no seu livro “This Endangered Planet”, nos adverte sobre a contradição que vivemos de que “quanto mais o mundo se desenvolve, mais a situação da Terra piora”. E o homem, para lembrar Lévi-Strauss, é o grande poluidor.

Se tivéssemos que tirar um retrato da dor, do sofrimento, da denúncia, do desespero, ninguém tiraria um mais exato do que a foto daquele biguá negro, de bico aberto, olhos esbugalhados, asas encharcadas de óleo, gritando que não podia mais comer, voar, libertar-se do chão no prazer da vida.

O seu grito, que comoveu o Brasil e cuja imagem, publicada aqui, foi passada ao mundo inteiro, não era só por ele, mas por todas as espécies que estão ameaçadas. Pelo falcão-de-peito-vermelho do Amapá, pelo papagaio-cara-roxa de São Paulo, pela ararajuba do Maranhão, pela saíra-apunhalada do Espírito Santo, pelo sabiá-pimenta das Alagoas, pela araponga de todo o Nordeste, pelas tartarugas, pelas baleias, pelo cervo do Pantanal, pelo tatuapara, pelo mico-leão, pela preguiça, pelo peixe-boi que é cruelmente morto de pau e faca. O grito do biguá é também pelas florestas de mogno que estão sendo derrubadas, pelas queimadas, pelos rios, pelos céus.

Nada mais essencial à vida do que a água e o ar. São eles que estão sendo contaminados pelos homens numa proporção demolidora. O maior problema do século 21 será o da água doce. Na Europa, já é dramático. Aqui, os inseticidas, os pesticidas, os detergentes, as indústrias poluidoras, o lixo, o mercúrio, o desmatamento e tudo o mais nos faz pensar na urgente necessidade de salvar nossos rios que estão morrendo. Em relação ao ar, não é possível nem dimensionar o que ocorre. Os combustíveis fósseis, acumulados durante centenas de milhões de anos, estão sendo convertidos em gases e cinzas, resultando no aquecimento da atmosfera. O que irá acontecer? O efeito estufa, o buraco de ozônio e o degelo da calota polar nos indicam um desastre incompatível com a vida, nos moldes em que a conhecemos hoje.

É inacreditável que até hoje milhões e milhões de toneladas de petróleo transitem nos mares e diariamente se registre, aqui ou ali, um acidente de pequena ou grande proporção.

A mancha negra dessa catástrofe chegou à baía de Guanabara por um oleoduto da Petrobras. Não é culpa somente dela. É culpa de todos nós, que achamos ser a causa ambiental somente tema do ideário de jovens e ambientalistas.
Os biguás estão gritando por nós, que estamos matando as águas, e as aves marinhas, que vivem delas, lançam ao infinito a sua dor eterna.


Vamos ser compadres

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A fidelidade do povo maranhense aos santos juninos é não somente uma tradição, mas uma demonstração de fé. Veja-se até hoje como essas devoções tem atravessado séculos: Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo. Depois veio agregar-se a veneração a São Marçal. Depois do bairro do João Paulo receber a Avenida São Marçal, a ele coube a responsabilidade de juntá-lo às nossas festas de junho.

Hoje, com as cidades cheias de asfalto e a quantidade de carros ocupando ruas, avenidas e praças, desapareceu o ritual de, em torno da fogueira, aquecidos pelo calor do fogo e da devoção, escolher-se (assim muitas vezes presenciei na minha infância) um amigo querido para ser compadre.

E então, de mãos dadas, atravessavam a fogueira e faziam o juramento: “Juro por São Pedro e São Paulo que recebo (dizia-se o nome do escolhido) para ser meu compadre”.

O outro respondia o mesmo juramento. Depois eram o abraço e as cantigas de roda em torno da fogueira, com a temática de São João, a mesma das quadrilhas.

São Marçal veio depois, não era Santo do Interior, era santo venerado em São Luís. Foi aqui que eu o conheci e incorporei-o aos festejos joaninos, principalmente rumando para São José de Ribamar, onde criou-se a tradição de reunir os Bois para encerrar os festejos.

Como todas as tradições, com o tempo, elementos vão se juntando e depois fazem parte do todo. Assim é que o João Paulo era o limite para os Bois até 1966, sem poderem entrar na cidade porque era “Brincadeira de caboclo”. Eu acabei com isso abrindo-lhes as portas do Palácio dos Leões: ali a noite toda de São João os Bois dançaram e os “caboclos” beberam sua tiquira, que era a bebida de outrora que acompanhava a “pipoca”. Leio que agora ali no João Paulos se reúnem no dia 30 os Bois de matraca e durante o dia mais de trezentas mil pessoas participam dos louvores a São Marçal e aos Bois do sotaque de matraca. Quantos anos nosso grupo, eu, Tribuzi, Luís Carlos, Lucy, Floriano, Madeira, Evandro, Domingos Vieira Filho, Cadmo, Pedro Paiva acompanhamos a noite toda o Boi da Maioba, nós de matraca na mão, até o romper do dia quando se cantava a “despedida”: “Adeus, eu já vou me embora / é chegada a hora de partir. / Assim como o dia se despede da noite, / eu me despeço de ti.”

São Marçal foi mandado para a Gália por Décio e Crato para ser Bispo de Limoges, hoje a cidade da França célebre por suas belas louças, e de lá converter a Aquitânia. Uma lenda dizia que tinha sido apóstolo de Cristo, companheiro de Pedro, o que foi desautorizado pela Igreja.

São Pedro foi o apostolo dos circuncidados (judeus), já Paulo foi designado para pregar aos gentios (Carta os Gálatas) e é um dos maiores consolidadores da doutrina cristã. São João foi o apóstolo dileto e querido, a quem Deus entregou sua mãe Maria, e quem escreveu o mais belo dos Evangelhos e o Apocalipse.

Mas não podemos esquecer que as festas do Boi começam com o batismo no dia de Santo Antônio, 13 de junho, e se encerram no dia 30, de São Marçal.

Você, meu leitor, aceite, em torno dessa fogueira virtual — linguagem de hoje —, ser meu compadre em nome de São Pedro, São Paulo e São Marçal…


É chegado o momento de sermos bilíngues

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A propósito do artigo de Juan Arias sobre o espanhol e o português como duas línguas irmãs, devo dizer que o texto é antológico, embora tenha minhas ressalvas sobre o “ão”. É muito autoritário e bem lusitano. Me encanta o ritmo e o doce deslizar, como águas que passeiam, do castelhano. Afinal é difícil compará-las. São xifópagas.

A aventura da língua portuguesa é notável. Embora Camões diga ser “a última flor da Lácio”, na verdade era um dialeto do espanhol, que não tendo terra para falar, ganhou os mares, indo até Nagazaki,onde recolheu palavras e deixou palavras. Enriqueceu-se e também influenciou a sintaxe de idiomas como o papiamento e o iorrobo, além de marcar o vocabulário de numerosos outros idiomas do iorubano ao japonês e o crioulo de Cabo Verde, Guiné, São Tomé, etc…Foi língua de Corte na África, nos reinos do Benim, Congo e Warri, assim como o francês no século XIII, tinha sido na Europa.

Pois bem, o português quando os oitenta anos do domínio português das navegações entrou em declínio, encontrou as terras do Brasil e seguiu sua vocação andante. Matou as línguas nativas, a língua geral do novo território, o neengatu, e só parou no contraforte dos Andes. E aí o que encontrou? O espanhol de onde tinha se separado. EL PAÍS nos encontra e nos integra. Agora é chegado o momento de sermos bilíngues, já que caminhamos para uma coisa horrível, o portunhol ou o espanholês, uma agressão ao português e ao espanhol. Infelizmente, muitas vezes sou obrigado a socorrer-me desse monstro. Quando Presidente tentei colocar o espanhol no currículo de nossas escolas do ensino Médio.


O sucesso de ser infeliz

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Muito já se escreveu sobre a morte de Cássia Eller, sua tragédia e o mistério que sempre ronda o fim das celebridades, como ela, jovem, ousada, amadurecida no domínio de sua arte e, de repente, ferida em pleno vôo, fato que os romanos simbolizavam naquelas colunas partidas, marco dos heróis jovens tombados em plena glória. Volto ao tema para refletir sobre o destino.

As revelações que se fizeram sobre sua alma atormentada e triste nos remetem aos personagens mais pungentes de Dostoievski e de Dickens.

É difícil a convivência com o sucesso. E, cada vez mais, o sucesso é um exigente produto de consumo. O público tem fome de ícones e de símbolos. As pessoas são obrigadas a sucumbir ao sucesso. Os ídolos são cobrados e levados a extremos de sacrifícios e renúncias, sendo o menor deles o da privacidade. E privacidade não diz respeito somente à vida privada, mas ao direito de cada um ficar só, consigo mesmo, dentro do latifúndio da sua solidão, que é invadido pelos problemas que rondam o êxito: compromissos, vaidades, intrigas, disputas e toda sorte de sentimentos corrosivos do afeto. É preciso estar preparado para enfrentá-los.

Aí entra a questão básica da felicidade, da paz interior da doutrina cristã. O discurso mais comovente que já ouvi foi do senador Agenor Maria. Ele, simples marinheiro, de repente chega ao Senado. Começa a conviver com problemas políticos e pessoais. Em comovente pronunciamento, ele conta a sua vida de sucesso e de vitória. Mas, melancolicamente, conclui: “Tudo isso aconteceu comigo, mas o tempo mais feliz da minha vida foi quando eu vendia água em Caicó, no Rio Grande do Norte. Só possuía um jumento, dois tonéis e os meus fregueses. Não tinha nenhum dos problemas que me atormentam hoje”.

Quando vi a tragédia da cantora Cássia Eller, uma mocinha que saiu de Brasília, dos bares do circuito underground da cidade, com o baixo Hoffman na mão, olhos no futuro. Chegou ao mais alto ponto da fama com a alma arruinada, revoltada, escrava do sucesso de ser infeliz, que aumentou o seu infortúnio e a deprimiu.

O velho do Restelo, de Camões, diz aos que partem na aventura da busca de fortuna e fama em mares desconhecidos: “Oh! Vã cobiça dessa vaidade”. Para que serve tudo isso?

A sociedade industrial gera valores materiais. Os valores do espírito vão ficando como inúteis. A gente, sobretudo a juventude, mergulha no alcoolismo, nas drogas, no delírio das formas mais destruidoras da alegria. No fim desse túnel está a violência.

A história de Cássia Eller permanece interrogando nossos corações. A mocinha de Brasília, a jovem roqueira dos ritmos alucinantes, morre dizendo “não consigo mais relacionar-me com ninguém, só sirvo para ganhar dinheiro”, um testemunho e uma denúncia à nossa sociedade, voltada à busca compulsiva de bens e à sublimação de todos os prazeres.

É como se, numa premonição, Caetano Veloso, quando fez a composição “As Gatas Extraordinárias”, a ela destinada, estivesse falando pela voz do destino: “Tenho que pegar essa criatura / Tenho que pegar, tenho que pegar/ Tenho que pegar”.