Intrigantes misuras de Macapá

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Os fascinantes causos relativos a assombrações, que são contados pelo mundo à fora, também andaram tirando o sossego de muita gente por estas bandas. Cresci ouvindo histórias sobre cabeça de fogo, almas penadas, mulher que virava onça, homem que se transformava em porco e cavalo. Por volta do ano de 1951, quando comecei a freqüentar o “Oratório São Luiz”, organizado pelos Padres do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras-PIME, para atrair as crianças e catequizá-las, sempre evitava entrar no “Quintal dos Padres” através do portão lateral situado no Largo dos Inocentes. Ao lado do portão funcionava uma oficina e serraria, instalada em uma casa rústica, coberta de palhas de ubussu. Sobre o madeirame das tesouras que sustentavam a coberta da velha construção ficavam dois caixões cobertos de pano preto e isto me dava medo. Quando havia alguém trabalhando eu passava tranquilo. No intervalo do almoço e à noite, nem pensar.

Os antigos moradores do Largo do Formigueiro (Inocentes) diziam que os dois caixões eram do tempo dos padres da Congregação da Sagrada Família, instituição religiosa composta por belgas e alemães, a mesma à qual pertenceu o Padre Júlio Maria de Lombaerd. Estes religiosos atuaram em Macapá ente 1911 e 1948. Até 1944, ano da instalação do Governo do Território Federal do Amapá, a situação econômica da maioria da população macapaense era bem precária. Quando morria alguém carente de recursos, o cadáver era velado sobre a Eça, envolto em mortalha. Para ser conduzido ao sepulcro, no Cemitério Nossa Senhora da Conceição, o corpo era colocado em um dos caixões de indigentes. Ao chegar ao cemitério procedia-se a remoção do extinto diretamente para a cova, mas fora do caixão, que retornava para a velha oficina da então Paróquia de São José. Eu não era o único medroso dentre os moleques do Oratório São Luiz. Á noite, para assistir filmes no Salão Paroquial Pio XII, dentro do quintal dos padres, os moleques passavam pela oficina, um colado no outro.

O Padre Vitório Galianni dizia: “Má que cosa boba. O defunto não está aí, ficou no cemitério”. A meninada acreditava nos relatos dos mais antigos. Outra história dizia respeito a um motorista da Garagem Territorial, cidadão negro azeitona, que teria o poder sobrenatural de se transformar em porco ou cavalo. Bastava alguém ver um dos animais vagando pelas ruas ou áreas descampadas, depois das 18 horas para afirmar: ”Valei-me Jesus Cristo, olha o Jagunço ali”. Era mais frequente vermos cavalos, éguas e burros vagando no campinho da Matriz e na frente do antigo Fórum de Macapá. Não se via porcos em áreas descampadas e de terra firma.

E apenas um doido optaria por ser um porco, tendo em vista a carência alimentar do povo. Conhecia bem o Jagunço e jamais acreditei em metamorfoses tão esdrúxulas. É um absurdo partir de pessoas esclarecidas a crença de que bôto vira homem.Por que a bôta não vira mulher? Se o boto engravidasse as mocinhas incautas do interior a bota ficaria prenhe transando com os caboclos e índios. Mas, vá tentar convencer pessoas simplórias que as lendas não correspondem à verdade. Conheci um sujeito metido a corajoso, que aceitou o emprego de vigilante do Lóide Aéreo Nacional, empresa que operou em Macapá antes da Viação Aérea São Paulo-VASP. O avião DC-3 do Loide chegava a Macapá, diariamente, por volta das 17h30min. Pernoitava, e deixava a cidade ao amanhecer do dia seguinte. O aeroporto já havia sido transferido, do centro da cidade, para o local onde se encontra. Metido a corajoso, o Figueira colocava sua cadeira embaixo da aeronave e, de lanterna em punho, jogava o facho no rumo de onde provinha algum barulho. Quando ventava muito e chovia era um drama. Por esta razão o Figueira ficava trancado dento do avião, sem luz. O balançar do aparelho, sob efeito do vento fazia o vigia dormir. Uma noite, o vigilante ouviu um psiu vindo da cabine. Ao ligar a lanterna, o Figueira viu a mão de um aviador chamando-o. O medo foi tão grande, que ele apagou. De manhã, o comandante comentou sobre um acidente ocorrido na noite anterior, em que morreu um amigo seu, em piloto do Lóide.


Interessantes ditos populares

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Sou apreciador dos ditos populares. No meu tempo de criança, dificilmente um conselho dado pelos mais velhos não continha um ditado. Se alguns moleques estivessem “batendo perna” pelas vias públicas, alguém os mandava para casa, afirmando, que “boa romaria faz, quem em casa fica em paz”. Por ocasião de briga numa pelada futebolística, os contendores eram concitados a contarem o motivo da contenda “sem enfeitar o pavão”.

A primeira vez que ouvi esta expressão eu não entendi nada. Afinal de contas, eu não tinha a menor idéia de que pavão era uma bela ave de bela plumagem, que abria as penas do rabo em leque. Julguei tratar-se do Raimundo Ramos, um pouco mais velho do que eu, cujo apelido era pavão. Mas, por que diziam para não enfeitar o pavão? Um dia perguntei ao meu pai e ele esclareceu o mistério. Por ser belo, o pavão não precisa de enfeite. Outro ditado pitoresco é dizer, que um sujeito embriagado estava “meio pau, meio tijolo”. Quer dizer, que o indivíduo estava porre, mas nem tanto. O cabra cheio da cachaça era tido como “coçado”, ou seja, tinha levado uma coça(surra) da “maldita água que passarinho não bebe”. Só se for passarinho, haja vista que alguns animais adoram beber cachaça, como o gambá. Deve ser por isso, que uma pessoa “bebida” fica “mais porre que um gambá”. Certa vez, uns molecões praticaram um roubo no quintal de uma moradora do bairro central de Macapá levando toda a roupa que secava num varal. A pobre mulher ganhava o sustento da família como lavadeira e não tinha recursos para indenizar os fregueses lesados. A Polícia foi acionada e não demorou a identificar os autores da gatunagem. A pista foi dada por um deles, o mais pobre, que apareceu todo na pinta num tertulhão do dançará Hally Gally.

O investigador conhecido como Calango desconfiou do sujeito e foi chamar a lavadeira. De longe, a mulher começou a gritar: “Prendam este safado. A camisa de seda que ele está usando pertence ao Professor Pedro Ribeiro, meu freguês de lavagem”. Alarme dado e providência tomada. O toque especial deste caso partiu de um velho morador do Laguinho, que corujava a festa dançante: “O alheio reclama seu dono”. Outro observador comentou: “O sem vergonha quer luxar, mas não tem condições. Por isso apela pra ladroagem. Quem não pode com o pote não pega na rodilha”. Em pouco tempo um grupo de quatro pilantras estava atrás das grades. O mais ladino deles era sobrinho de um badalado lunfa macapaense, o que fez o Delegado Antônio Melo declarar: “Quem puxa aos seus, não degenera”. Nesta época, o Governo do Território Federal do Amapá mantinha um convênio com a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Pará, a conta do qual mandava para uma Escola Correcional, situada na Ilha de Cotijuba, perto de Belém, os menores delinquentes de Macapá. Ao comunicar as mães dos infratores, que seus filhos iriam ficar internos, para aprender um oficio e estudar, o Delegado Melo afirmou: “A medida se faz necessária, afinal de contas, mente desocupada é oficina do diabo”.

A estrutura educacional inicialmente implantada na ilha de Cotijuba (cotia amarela) visava a recuperação de adolescentes entregues a vadiagem e ladroagem. Com o fechamento da Escola Correcional foi implantado um presídio. Quando isto ocorreu, os jovens macapaenses já estavam reintegrados ao seio de suas famílias e não voltaram a praticar ações delituosas, comprovando, que “A instrução é a luz do espírito”. Dentre os moleques problemáticos, ganhou fama um afro descendente de boa compleição física, bom de carreira e de porrada.Costumava frequentar o Mercado Central para afanar pedaços de carne, que os açougueiros colocavam sobre os balcões dos talhos. O moreno agia com muita rapidez e ninguém se atrevia a tentar agarrá-lo. Era a forma de assegurar um caldinho no almoço. Pobres, o rapaz sabia,”que “Deus dá a farinha,mas o diabo fura o saco”. Depois da sua passagem pela Escola Correcional da ilha de Cotijuba virou outra pessoa e serviu como guarda-costas de um importante militar e gestor público paraense. “Mudam-se os tempos, mudam-se os costumes”. Sua mãe deve ter dito: “Antes a minha face com fome amarela,que vermelha de vergonha”.


Chacina nos porões do brigue Palhaço

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No dia 16.10.1823, uma portentosa agitação, agregando mais de mil brasileiros, sacudiu a capital do Pará. A manifestação foi engendrada por elementos que não eram favoráveis a adesão da Província do Pará à independência do Brasil e apregoavam a formação de um governo popular. Vale lembrar, que em janeiro de 1823, quando a adesão do Para ainda não havia ocorrido, o Cônego Batista Campos, apoiado principalmente por comerciantes brasileiros, chefiava um grupo de revoltosos denominado Os Patriotas.

Os integrantes do grupo se diziam liberais radicais e contavam com o apoio do povo das vilas de Cametá, Vigia Macapá, Mazagão, Monte Alegre e Santarém. Formaram uma junta governativa, sob o comando do Cônego Batista Campos, que foi destituída pelo Imperador Pedro I. No dia 11 de agosto, o oficial inglês John Pascoe Greenfel, oficial da Real Marinha Britânica a serviço do Império do Brasil, chega a Belém e declara os portos da cidade bloqueados. Notifica aos integrantes da Junta Governativa Provisória, que agirá com extremo rigor para impor a paz na região. Garante aos portugueses que aceitarem o desligamento do Brasil de Portugal como ponto pacifico a preservação de seus bens. Assegura que tinha vindo para oficializar a definitiva condição do Brasil como nação livre e manter a ordem na província. Pressionou a Junta Governativa para que a adesão paraense acontecesse com a máxima brevidade possível. Isso ocorreu no dia 15 de agosto. Voltando a apreciar o acontecido no dia 16 de outubro, dizemos que John Greenfel determinou a prisão de supostos agitadores, inclusive integrantes das tropas do 1º, 2º e 3º Regimentos de Infantaria e do esquadrão de Cavalaria, que se haviam amotinado. Cumprida sua ordem, os agitadores foram dominados por força das armas. No dia 17 de outubro em frente ao Palácio do Governo, ordenou a execução sumária de cinco elementos que ele mesmo escolhera aleatoriamente dentre os detidos. Através da brutalidade, Greenfel pretendeu amedrontar os sublevados. Tão grande era sua fúria, que mandou amarrar à boca de um canhão o Cônego Batista Campos, só não consumando seu intento de matá-lo porque membros da Junta Provisória interferiram, ponderando que o prisioneiro fosse remetido para o Rio de Janeiro. Entretanto, no dia 19 de outubro o religioso foi colocado em liberdade.

No dia 20 de outubro, 256 presos que estavam na cadeia publica fazendo tremenda algazarra, foram transferidos para bordo de um brigue denominado Diligente, que ancorou no meio da baia de Guajará. O porão tinha aproximadamente 30 palmos de cumprimento, por 20 de largura e doze de alto. As escotilhas foram fechadas e apenas uma fresta ficou aberta para entrada de ar. O fortíssimo calor levou os presos ao desespero. Reivindicando a abertura das escotilhas, pois a falta de ar os fustigava, os presos irromperam em gritos, clamando por água e formulando ameaças á guarnição do navio e demais autoridades do Pará.

A guarnição atirou sobre eles água de má qualidade. Mesmo assim, a disputa entre os amotinados foi feroz. Os presos brigaram, apunhalaram-se, usaram unhas e dentes para ver que primeiro se serviria do precioso liquido. Temendo que a turba conseguisse sair do porão do navio, os guardas dispararam suas armas para dentro do brigue e depois lançaram sobre aquelas pobres criaturas cal virgem. Por duas horas os presos debateram-se em agonia. Em três horas reinava silêncio absoluto.

Na manhã do dia 22.10.1823, quando as escotilhas foram abertas, viu-se no fundo do porão um montão de 252 corpos, cobertos de sangue e dilacerados. Aos poucos os cadáveres foram sendo retirados e transportados para a margem esquerda da baia de Guajará até o local do sitio Penacova. Uma longa vala comum foi escavada para receber os corpos. Ao ser concluída a remoção dos mortos, a guarnição do brigue Diligente constatou, que ainda agonizavam quatro elementos. Levados para o tombadilho deram sinal de melhora, o que motivou a transferência dos mesmos para o hospital. Três deles morreram no transcurso de 4 horas. Apenas um rapaz de 20 anos escapou da morte, mas levou uma vida de constantes sofrimentos.


A corrupção nos tempos antigos

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Os romanos usavam o vocábulo corruptione para designar o ato ou efeito de corromper as normas éticas para cobrança de impostos, correta aplicação de recursos financeiros, concessão de serviços públicos, maneira de viver em sociedade e lidar com os bens materiais e imateriais do Império/República. O termo corrupto era, e ainda é empregado no sentido de podre, estragado, infectado, devasso, depravado, errado e viciado. Corruptore era utilizado para identificar aquele que suborna e faz de tudo para induzir outras pessoas á prática de atos ilícitos. Em linguagem bem popular, o corruptore é o agente ativo da ação nefasta, que peita quem encontra pela frente. O elemento que cedia diante da oferta do corruptor era o corruptu. Houve um período tão crítico na história de Roma, que o grande Cícero bradou: O’tempore, O’mores! A corrupção na cidade considerada “caput mundi” (capital do mundo) atingia níveis alarmantes de depravação e roubalheira. Este estado de coisas contribuiu para a ruína do Império Romano. Curioso é que os romanos criaram o Corpus Júris Civilis, que éà base do direito no mundo, mas no meio dos magistrados, imperadores, senadores, pretores, cônsules e demais funcionários havia os que, embora pregassem a moralitate (caráter), atuavam como corruptores e corruptos.

O tempo passou. As medidas moralizadoras para evitar a corrupção foram aperfeiçoadas, mas a ação nefasta dos corruptos também progrediu. Neste nosso Brasil varonil, a roubalheira vem desde o achamento, em 1500. Os melhores postos de direção eram ocupados por parentes dos Governadores Gerais, dos Capitães-mores e dos maiorais da Coroa. Eles não tinham o menor acanhamento para roubar. O Brasil progrediu assim mesmo, razão pela qual muita gente afirma que é melhor roubar, mas fazer, do que simplesmente roubar. Para alguns entendidos em manobras corruptoras, o melhor programa de governo para tirar proveito de verbas públicas é tocar obras e realizar compras. Além de a licitação ser direcionada, os valores das obras e das aquisições ultrapassam os limites aceitáveis em um processo normal. No caso das “compras”, o risco dos bens adquiridos não serem entregues é muito grande. Mais fácil de acontecer do que uma obra deixar de ser realizada ou pelo menos iniciada. Recentemente, a Polícia Federal realizou diversas prisões de pessoas tidas como suspeitas de envolvimento em corrupção. Até que a Justiça julgue estes casos, ninguém pode ser declarado culpado, Entretanto, quando os nomes dos envolvidos foram divulgados, a população condenou previamente quem já esteve mantido sob suspeita em outras ocasiões.

A corrupção tem seus agentes certos. Eles agem como se fossem autênticos anjos de candura. Há um código de conduta entre eles que os obriga a propalar a inocência de quem é flagrado cometendo delito. Surgem alguns amigos para dizer que o fulano é dotado de ilibada moral. Quem defende corrupto ou é um partícipe do crime, ou é conivente. Como é que alguém de bons princípios pode aceitar que órgãos colegiados de suma importância, como o Senado e a Câmara Federal, permitam que elementos despudorados permaneçam exercendo os seus mandatos? As evidências de culpa dos denunciados são tão flagrantes, que o processo de cassação de mandato deveria ser bem simples e rápido. O pior é ver o povo participa de passeatas protestando contra as medidas saneadoras. O povo se vê forçado a isso porque é massa de manobra e recebe “atendimento social” dos corruptos. Assim, para não perder a ajuda do “benfeitor”, o povo carente passa a ser conivente. Os falsos moralistas acham que tudo isso é normal. Mas não é. O mundo acompanha a roubalheira realizada na Petrobrás. As apurações têm revelado um montante fantástico de dinheiro público que foi parar em contas de diversos caciques do Partido dos Trabalhadores, empreiteiras, construtoras e entidades de natureza nebulosa. Em qualquer ponto do Brasil há registro de improbidade administrativa de governantes e integrantes de órgãos de vital importância para o bem estar do brasileiro. Quem é honesto não tem vez.


As jazidas de ferro do rio Vila Nova

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Em 1946, sem medir as consequências de seu gesto, o deputado federal João Café Filho iniciou uma campanha no âmbito da Câmara Federal com o propósito de obter o cancelamento do contrato entre o governo do Amapá e a empresa norte-americana Hanna Exploration Company para exploração dos depósitos de ferro do rio Vila Nova (Anauerapucu). Café Filho julgava que o ferro existente no Amapá deveria permanecer intocável, como reserva nacional, para ser explorado por empresas brasileiras. No momento em que Café Filho iniciou a campanha o Território Federal do Amapá ainda não tinha representatividade na Câmara Federal, que então funcionava na cidade do Rio de Janeiro.

No dia 25.4, o governador Janary Gentil Nunes foi recebido em audiência pelo Presidente Eurico Gaspar Dutra, apresentando-lhe um relatório dobre o aproveitamento das jazidas de ferro do Amapá, com as propostas firmadas pelas companhias norte-americanas The Hanna Exploration Company e Companhia Meridional de Mineração, com os pareceres de aprovação unânime do Conselho de Minas e Metalurgia, Departamento de Produção Mineral do Ministério da Agricultura e Conselho de Segurança Nacional.

O Presidente Eurico Dutra assinou o Decreto-lei nº 9.198, referendado pelo ministro Neto Campelo Júnior, autorizando o governo do Território Federal do Amapá a contratar o aproveitamento da jazida de minério de que for confessionário. Diante desse ato do chefe do país, espera-se, a todo o momento, que seja assinado o contrato com a Hanna Company, que apresentou condições que assegurarão uma situação excelente para o futuro da região. Alem da exploração, a contratada deveria construir uma estrada de ferro e um porto fluvial em Macapá. No dia 26/4, obedecendo aos termos do decreto do presidente da República, o governador Janary Nunes e o vice-presidente da Hanna Company, senhor Harry Leroy Pierce assinaram o contrato em rápida solenidade realizada na Representação do governo do Amapá, no Rio de Janeiro. Participaram do importante momento o senhor Carl Kimcaid, advogado da contratada, Glycon de Paiva, geólogo do Ministério da Agricultura, o coronel Simpson, do Exército norte-americano, o major Omar Emir Chaves, o ministro Gastão de Oliveira, diretor geral do Banco do Povo, o sr.André Cacinelli, diretor da A Equitativa, o jornalista Roberto Groba, o Vitor Leinz,geólogo,dr.Djalma Cavalcante, representante do governo do Guaporé(Rondônia), Coaracy Gentil Nunes, representante do governo do Amapá, Leal Ferreira, além de outras autoridades, jornalistas, etc.O fato foi repercutido pelos jornais cariocas “Jornal do Brasil”, “Jornal do Comércio”, “O Radical”, “A Manhã” e a “Tribuna Popular”,que fez restrição apenas ao prazo do contrato, considerando-o larguíssimo.

O jornal “O Globo”, que não se fez presente na solenidade de assinatura do contrato, daí não conhecer suas clausulas, evidenciou que a ferrovia e o porto ficariam controlados pelos capitais estrangeiros. O sr. G.M. Humphrey, presidente da Hanna Company, afirmou a empresa faria prospecções mais apuradas.Se elas fossem satisfatórias, justificar-se-ia a instalação do vultoso equipamento de mineração,bem como a construção da estrada de ferro e do porto. Sem conhecer os termos do contrato e agindo embalado por sua aversão aos yankees, o Deputado Federal pelo Rio Grande do Norte, Café Filho, manifestou-se contra o contrato e concitou seus pares a agirem de igual modo. Não convenceu ninguém e ainda recebeu manifestações de apoio ao Amapá. Em Macapá, no dia 13.6.1946, ocorreu uma ruidosa manifestação organizada pela Associação Comercial, Agrícola e Industrial, compreendendo uma caminhada pelas principais ruas da cidade, com saída da Praça da Matriz. À frente iam 4 bandeiras do Brasil, seguidas por uma banda de música e manifestando portando cartazes com diversos dizeres: “Concorrência só existe entre nações.Dentro de um país, o amparo deve ser dado ao que mais precisa e maiores vantagens oferece,” “Não vendemos aos estrangeiros a nossa borracha? Por que não podemos vender o nosso ferro?” “O Amapá não se vende! Vende o seu ferro para alicerçar a grandeza do Vale Amazônico.”


CBD, marcante sigla no futebol

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Data de 8 de junho de 1914, a fundação da Federação Brasileira de Sports, que passou à denominação de Federação Brasileira de Futebol em 1915.A entidade foi organizada para que o Brasil pudesse se reconhecido pelas congêneres internacionais e participasse de competições além de suas fronteiras. No dia 6 de dezembro de 1916, a entidade alterou sua denominação para Confederação Brasileira de Desportos- CBD, Cujo precípuo objetivo era coordenar as ações referentes aos desportos e suas modalidades. Até o ano de 1914, o Brasil não tinha uma seleção nacional e as suas seis primeiras partidas internacionais ocorreram em seu território contra escretes estrangeiros. Quatro destas seleções correspondiam a combinados formados com jogadores de São Paulo e Rio de Janeiro e duas do Rio de Janeiro.

No primeiro jogo, disputado por um combinado paulista/carioca contra o selecionado da África do Sul, amargamos uma contundente derrota pelo placar de 6×0, em 1906. Em 1908, registrou-se outro fragoroso revés, desta feita para a Argentina por 4×0. Em 1912, a seleção portenha voltou a obter dois expressivos resultados por 4×0 e 6×3. No ano seguinte os argentinos venceram de forma incontestável, 4×0. Neste mesmo ano, um combinado carioca representou o Brasil, obteve duas importantes vitórias: 1×0 contra Portugal e 2×1 diante do Chile. Porém, nos anais do futebol brasileiro, consta que, em 1914, uma seleção nacional, constituída por jogadores cariocas, abateu a equipe inglesa do Exeter City por 2×0, em jogo realizado no Estádio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro. Esta partida não é reconhecida pela Fifa.Alíás, o campo do Fluminense Futebol Clube foi palco de importantes jogos de futebol quando ainda engatinhávamos na prática do futebol association. É que a prática do futebol no Brasil foi iniciada pela elite branca, em 1894,a partir do retorno do estudante paulista Charles Miller ao Brasil após concluir seus estudos no Banister Court School trazendo duas bolas. Jogar futebol era dispendioso e os jovens das classes menos favorecidas economicamente não tinham condições de comprar bolas e o restante do material esportivo, todo importado da própria Inglaterra. Foi numa tarde fria do outono de 1895, que Charles Miller reuniu um grupo de amigos, entre eles alguns estrangeiros, para ensiná-los a jogar futebol. Transmitiu-lhes as informações básicas sobre o esporte bretão, notadamente sobre as regras adotadas para não permitir atitudes violentas dos mais afoitos.

Naquele dia 14 de abril, na Várzea do Carmo, em São Paulo, aconteceu o amistoso entre o São Paulo Athetic Club, o primeiro clube de futebol do Brasil formado por Charles Miller contra um time da Railway, empresa inglesa gerenciadora de transporte ferroviário. O São Paulo venceu por 4×0. Em 1898, despontou o primeiro time constituído exclusivamente por brasileiros da elite paulista, a Associação Atlética Mackenzie College. Dentre os primeiros times de futebol fundados no Brasil, o único que ainda permanece em atividade é a Associação Ponte Preta de Campinas, a “Macaca”, fundada no dia 3 de setembro de 1900. Mais antigo que a Ponte Preta foi o Sport Club Rio Grande, organizado a 11 de agosto de 1900, que não existe mais.

No Rio de Janeiro, o interesse pelo futebol foi difundido de forma mais sistemática por Oscar Cox, que havia voltado da Suíça, em 1901. Progressivamente foram surgindo as ligas de futebol pelos demais estados brasileiros, mas sem a inclusão de negros e pobres. A Copa Roca, disputada na Argentina, foi a competição oficial que o Brasil disputou no plano internacional. O jogo ocorreu no campo do Clube de Ginásia y Esgrima, com surpreendente vitória brasileira por 1×0. A o iniciar sua jornada, nossa seleção ainda não usava as cores da bandeira nacional e sim o branco. Coube ao Clube de Regatas Vasco da Gama implantar o profissionalismo no futebol de nosso país. Entretanto, sem ter a organização exigida para o futebol, a seleção do Brasil não era levado muito a sério. Entre os anos de 1916 a 1949, período em que foi disputado o campeonato sul americano de futebol, com 21 edições, o Brasil só foi campeão em três oportunidades. Seu maior feito nesta época compreende a vitória de 1×0 sobre o Uruguai, no Estádio das Laranjeiras, em 1919, feito que inspirou Pixinguinha a compor o chorinho 1×0. A partir do dia 6 de dezembro de 1916, a Federação Brasileira de Sports passou a ser reconhecida como Confederação Brasileira de Desportos-CBD. Permaneceu com esta denominação até 26 de janeiro de 1981, quando, por decisão da Assembléia Geral, foi transformada em Confederação Brasileira de Futebol. Som a égide da CBD, o Brasil conquistou as copas do Mundo de 1958,1962 e 1970.O Brasil é único filiado da FIFA que participou da 19 competições até hoje realizadas.Seguido pela Alemanha e Itália com 17 e Argentina com 15.A copa que começa no dia 12 de junho, é a 20ª.


Pauxi Nunes, um desportista esquecido

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Pauxy Gentil Nunes, filho do comerciante Ascendino Nunes e Laury Nunes, portanto irmão de Janary Gentil Nunes, primeiro governador do Território Federal do Amapá, nasceu na cidade de Alenquer, no Estado do Pará, no dia 27 de fevereiro de 1918. Estudou o primário na cidade natal. O Ginásio (primeiro ciclo) e o curso de Humanidades (segundo ciclo) foram feitos em Belém, no Colégio Progresso Paraense. Depois de passar alguns meses atuando em Macapá, integrando a equipe de governo do irmão, seguiu para o Rio de Janeiro onde passou a trabalhar no Instituto dos Bancários. Formou-se como Contador, no dia 5 de dezembro de 1947 e ingressou na Representação do Governo do Amapá na capital federal. Amante dos esportes, principalmente do futebol, Pauxy Nunes assumiu um papel relevante dentro da Representação do Amapá, articulando-se com os grandes clubes cariocas e com a Confederação Brasileira de Desportos no sentido de estruturar e desenvolver o futebol do Amapá.

A 26 de fevereiro de 1944, participou da histórica reunião que redundou na fundação do Amapá Esporte Clube. Ao lado de Francisco Serrano, Manuel Eudóxio Pereira (Pitaica), Zoilo Pereira Córdova, Eloy Monteiro Nunes (seu tio) e outros abnegados desportistas fez valer a preferência do grupo pelas cores do Botafogo de Futebol e Regatas. Posteriormente, quando a agremiação passou a figurar com o designativo Amapá Clube, as letras iniciais do nome foram colocadas no interior da “Estrela Solitária”. O futebol de Macapá era excessivamente amador. Os presidentes dos clubes, influentes no governo, promoviam a vinda de jogadores de Belém compensando-os com empregos nas repartições públicas. Entretanto, sem uma mentora regional organizada na forma da legislação exigida pela Confederação Brasileira de Desportos, o Amapá jamais participaria de uma competição oficial. A fundação da Federação de Desportos do Amapá, a 26 de junho de 1945 foi um acontecimento memorável.

A idéia da sua criação partiu de Pauxy Nunes, a quem os dirigentes de clubes conferiram a presidência. Até que ela funcionasse normalmente, muitos momentos de inércia foram registrados. Depois da criação da FDA os clubes preocuparam-se com o aspecto organizacional. Em 1947, aconteceu o primeiro campeonato e o Esporte Clube Macapá conquistou o titulo Por solicitação de Pauxy Nunes a CBD prometeu incluir o Território do Amapá nas disputas do Campeonato Brasileiro de Futebol entre seleções das unidades federadas, caso o governo territorial construísse um estádio. O espaço da Praça capitão Assis Vasconcelos (Veiga Cabral) não possuía área para acomodar o novo empreendimento. Aliás, o campo sequer possuía as medidas mínimas toleradas pela FIFA e CBD. No dia 15 de janeiro de 1950, o Estádio Territorial era inaugurado com o jogo Pará 1×0 Amapá. Desde este momento até julho de 1953 foi o Delegado da FDA junto a CBD, transferindo a função para Kepler Navegante Mota. No Dia 7 de novembro de 1954, por iniciativa de Pauxy Nunes, contando com o apoio do governo e da CBD, aconteceu, em Macapá, um congresso das federações desportivas do Norte e Nordeste do Brasil. Dirigiu o evento o senhor Rivadávia Correa Mayer, presidente da mentora mater nacional. Seu vice era Jean-Marie Goodefroide de Havelange. Idêntica promoção ocorreu em Salvador, nos dias 27 e 28 de 1957, de âmbito nacional.

O tenente José Alves Pessoa era o presidente da Federação de Desportos e o Prof. Mário Quirino exercia o cargo de presidente da Federação de Desportos Aquáticos. Pauxy Nunes se encontrava em Macapá, na condição de Secretário Geral (vice-governador) do Amapá e deus aos próceres mencionados todo o apoio necessário para que eles fossem a Bahia. Neste encontro foi lançada a candidatura de Havelange para a presidência da CBD. As ações de Pauxy Nunes visavam o esporte amador e foram sentidas nos Estados e Territórios Federais, Ainda nos dias atuais, na cidade de Icoaraci/Pará é realizado o Torneio Pauxy Nunes. Além do desporto, Pauxy tem o mérito de ter sido o primeiro governante a promover o asfaltamento de algumas ruas de Macapá, transferir o aeroporto para uma área mais distante do centro urbano e assistir melhor o interior.


Camerata Musicale

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À conta de um importante intercâmbio cultural musical entre o Brasil e a Alemanha, a Freundeskreis der Musikschule Giengem (Escola de Música Giengem), sediada na cidade de Munique, regida pelo maestro Horst Guggenberg e coordenada pelo engenheiro Piter Kraus, apresentou-se em Macapá, nos dias 17 e 18/6/2005. Acostumada a fazer a rota Nordeste/Sul, a Camerata Musicale acatou as sugestões do maestro cearense Poty Fontenele e do tenor Mauro Luiz, este último amapaense que então residia na capital alencarina e participava de uma orquestra em Fortaleza, para iniciar a costumeira turnê artística exibindo-se no setentrião brasileiro. A importante orquestra realizava essas excursões anualmente para divulgar seu trabalho e aperfeiçoar os conhecimentos de seus integrantes.

A Camerata não cobrou cachê por suas apresentações, mas os patrocinadores tiveram que arcar com as despesas de hospedagem, alimentação e transporte em âmbito local. As passagens aéreas foram pagas pelos próprios músicos. A Varig, Viação Aérea do Rio Grandense S.A. prestou memorável apoio aos alemães, concedendo-lhes um trecho grátis em cada três trechos comprados. Depois que a Varig encerrou suas atividades entre o Brasil e a Alemanha, a excursão da Camerata Musicale se tornou impraticável. A vinda da Camerata a Macapá só foi possível graças ao empenho do Nilson Montoril de Araújo Júnior, que se desdobrou na tarefa de conseguir patrocinadores no estado do Amapá. A busca por patrocínio foi penosa. Acostumados a promover apenas eventos regionais, quase sempre apadrinhados por políticos com poder de mando no governo, os órgãos gestores da cultura amapaense custaram a decidir-se pelo apoiamento ao empreendimento. Muito persistente, o jovem Montoril Júnior não esmoreceu e manteve permanente contato com as entidades convidadas para patrocinarem o show de música erudita. Outro detalhe interessante no trabalho que ele realizou precisa ser evidenciado. Por exigência dos alemães, as apresentações da Camerata Musicale, no Teatro das Bacabeiras foram franqueadas ao público e o promotor não obteve sequer um centavo de vantagem financeira.

No decorrer das apresentações da Camerata Musicale apresentaram-se em destaque os solistas Bertholdo Guggenberger (violino), Roman Guggenberger (violoncelo), ambos filhos do maestro Horst Guggenberg. Hospedados no Hotel San Marino, no bairro Jesus de Nazaré, os músicos tiveram como vizinho o bioquímico Rugatto Boettger, radicado em Macapá desde 17/2/1968. Embora o coordenador da Camerata, Piter Kraus falasse fluentemente o português, pois trabalhou nas obras da Hidrelétrica da Itaipu, o catarinense Rugatto foi encarregado de falar à platéia do Teatro das Bacabeiras traduzindo as palavras proferidas pelo Maestro Horst Guggenberger. Rugato é natural de Blumenau, Santa Catarina, fala a língua germânica, pois descende de alemães. Seu sobrenome significa “fabricante de barril”. Aliás, o Rugato teve uma atuação valiosa em termos de apoio logístico aos esforços do Nilson Montoril Júnior. Os músicos alemães também se apresentaram no Tribunal de Justiça e na Igreja de São José. No templo católico fizeram uma homenagem ao Bispo Diocesano D. Pedro José Conti. Em todos os momentos marcou presença o tenor Mauro Luiz que atualmente reside em Macapá e sempre é requisitado para cantar em solenidades especiais.

Os patrocinadores foram: a operadora de telefonia celular TIM, o Tribunal de Justiça do Estado do Amapá e o Governo do Estado. Os músicos alemães ficaram encantados com a recepção do povo amapaense e com as belezas naturais de Macapá. Utilizando o barco “Tribuna”, do Tjap, eles tiveram a oportunidade de singrar as águas barrentas do braço norte do Rio Amazonas e saborear iguarias regionais.

A Camerata Musicale permanece desenvolvendo suas atividades em Munique, mas o Maestro Horst Guggenberger, aposentado, passou a batuta e a regência ao filho Bartholdo. A vinda da Camerata Musicale a Macapá provou que os amapaenses curtem sim a música erudita. Ao deixar a cidade de Macapá, a Camerata Musicale exibiu-se em Fortaleza, Maceió, Aracaju e São Paulo.


Livro Mocotó

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Há muito tempo, as pessoas que acompanham a divulgação que faço dos fatos marcantes da História do Amapá me cobram a publicação de um livro. Costumo esclarecer, que atualmente isso é bem complicado, principalmente para quem não é filiado a partidos políticos e não tem padrinhos com cargos eletivos, notadamente no âmbito do Executivo do estado do Amapá. Relembro a luta dos confrades Estácio Vidal Picanço, Hélio Pennafort, Fernando Rodrigues e outros ilustres historiadores, que penaram para ter suas obras impressas. As divulgações que faço através do rádio datam de 1967, como forma de fazer nossa gente conhecer a história da sua terra. Fiz um trabalho exaustivo de pesquisa para fundamentar bem os fatos que eu transmitia aos meus alunos de História. Participei de alguns programas de rádio com a sequência “Um Dia na História”.

Os apresentadores, tidos como amigos, cederam à pressão dos que não apreciam o assunto e me alijaram. Em julho de 2011, o deputado Moisés Souza, presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Amapá, demonstrou o desejo de relançar o livro de biografias “Personagens Ilustres do Amapá”, que fiz em parceria com Coaracy Sobreira Barbosa. Sua intenção era incluir novas biografias. Comentou o assunto com o jornalista Reginaldo Borges e este se lembrou de mim e sugeriu minha atuação na concepção da obra. Na manhã do dia 14 de julho, uma quinta-feira, fomos ao encontro do deputado Moisés Souza, encontrando-o no térreo do prédio destinado à ampliação da Casa de Leis. Naquele local estavam políticos e empresários conversando animadamente. Com a minha chegada o papo foi interrompido. Tratamos da elaboração do livro, havendo da minha parte a ponderação de que fosse feita uma obra relatando os aspectos mais importantes da História do Amapá. A ideia foi aceita. Para assegurar maior viabilidade ao trabalho, ficou acertado que eu seria nomeado assessor parlamentar da presidência, coisa sugerida pela maioria dos políticos presentes. Lembro o nome de todos eles, mas não os citarei, por enquanto. Assim foi feito.

O livro ficou pronto, a despeito de inúmeras dificuldades encontradas. Na sala adjacente ao Gabinete da Presidência não havia sequer um velho computador. Realizei todo o trabalho às minhas custas: usei meu acervo histórico, material de impressão, computador, energia elétrica e transporte Tentei falar com o presidente por diversas vezes. O pessoal do Gabinete dizia que ele estava viajando e sem tempo para me atender. Quando, por determinação da Justiça Estadual, Moisés Souza foi afastado do cargo de presidente, o vice presidente Júnior Favacho, que o substituiu, exonerou os assessores de Moisés Souza para nomear “gente do seu grupo”. Isso ocorreu no momento em que foi diagnosticado que eu tinha um linfoma (câncer) no estômago. Mesmo sentindo os efeitos da doença, fui à Assembleia tentar falar com o Júnior Favacho, mas ele me ignorou.

Esqueceu que seu advogado no tempo da campanha política era meu filho Nilson Júnior e que, por solicitação deste, nossa família lhe destinou votos. Deixei no Gabinete um escrito, cientificando ao Júnior Favacho que o livro estava pronto e que eu passava por tratamento de câncer. Nunca recebi resposta. Em 18/12/2012 fui à Assembleia, mas raríssimas pessoas estavam no prédio. Uma delas, o jornalista Cléber Barbosa, secretário de comunicação social. Falei com ele e expliquei minha situação. Entreguei-lhe uma pasta com cópia de todos os documentos exigidos para um suspeito recadastramento, não tendo sido feita a divulgação de qualquer edital neste sentido. O Cléber se comprometeu a encaminhar meus documentos ao órgão competente, coisa que nunca fez. Neste momento, estou cobrando-lhe publicamente a devolução da pasta. Fui exonerado sumariamente pelo senhor Júnior Favacho, que nunca demonstrou interesse na obra que escrevi. A postagem que ora publico não é um desabafo. Serve para mostrar aos que cobram de mim um livro sobre História do Amapá, que os políticos não prestigiam os que não vivem lhe fazendo a corte e os enaltecendo. Quero, porém, que o presidente da Assembléia Legislativa venha a público para dizer que o meu livro não lhe interessa.


O torturador Moacyr Fontenelle

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No dia 16.5.1964, o General Luiz Mendes da Silva, o primeiro governador do Território Federal do Amapá, do período revolucionário, nomeava o capitão Francisco Moacyr Meier Fontenelle para exercer o cargo em comissão de Diretor da Divisão de Segurança e Guarda e Comandante da Guarda Territorial. O capitão desenvolvia suas atividades no 26º Batalhão de Caçadores, sediado em Belém, mas tinha sido cedido ao governo do Amapá. O capitão chegou a Macapá no entardecer do dia 12 de maio, chefiando um contingente do Exército, que fora mandado desalojar da Fortaleza São José os insurretos da Guarda Territorial, que tinham se declarado solidários ao Tenente Charone, oficial ao qual o Secretário Geral Orlando de Sabóia Barros, no exercício do governo, repassou determinações do coronel Terêncio Furtado de Mendonça Porto no sentido de exercer forte pressão sobre diversos segmentos da sociedade macapaense, entre eles a Igreja Católica, notadamente o Padre Jorge Basile, redator do Jornal “A Voz Católica”, semanário que tecia duras, mas justas criticas aos elementos que agiam de forma truculenta em nome da Revolução de 31 de Março. Tenente Uadih Charone era, então, o Diretor da DSG e comandanta da GT. Ele argumentou com o Dr. Sabóia, que precisaria dispor de tempo para dialogar com as pessoas tidas como contrárias á revolução, algumas que ele isentava de qualquer hostilidade ao regime vigente no país.

A situação ficou mais tensa quando o governador em exercício mandou que o tenente prendesse o Padre Jorge. Charone disse que não cumpriria a determinação e não aceitaria sua exoneração. Comunicou que se alojaria na Fortaleza até o retorno do governador Terêncio. O Dr. Sabóia e seus bajuladores transformaram uma situação fácil de ser resolvida em um caso de segurança nacional. Ao saberem que o tenente Charone estava auto-recluso na Fortaleza, Delegados de Polícia, Instrutores e soldados da Guarda Territorial adotaram a mesma medida. Telegramas alarmantes foram passados ao governador Terêncio, ao Comando Militar da Amazônia, 8ª Região Militar, Ministros da Guerra e Justiça, além do Conselho de Segurança Nacional. Imediatamente, o Comando do 26º Batalhão dos Caçadores recebeu ordens para preparar um contingente bem armado, confiando à direção a um capitão linha dura. Ás 18h15min horas pousava na pista do Aeroporto Internacional de Macapá, um avião C 47 da Força Aérea Brasileira trazendo soldados bem apetrechados sob o comando do capitão Francisco Moacyr Meier Fontenelle. Do aeroporto os militares seguiram para o centro da cidade fazendo parada na Praça Barão do Rio Branco, onde dois Grupos de Combate desceram do caminhão e isolaram a área em que está edificada a residência governamental.

O capitão e os demais soldados rumaram para a Fortaleza. O Tenente Charone integrava o corpo docente da Escola Técnica de Comércio do Amapá-ETCA sendo bem relacionado com seus alunos. Os estudantes clamaram que a União dos Estudantes dos Cursos Secundaristas do Amapá-UECSA fosse prestar solidariedade ao tenente Charone e acompanhar a atuação dos militares vindos de Belém. O presidente UECSA era José Figueiredo de Souza, o Savino, que acabou detido. Em seguida, Fontenelle determinou que os estudantes e curiosos fossem dispersos. A intervenção do tenente Charone foi fundamental para evitar maiores problemas. Ás 21 horas, quando tudo estava tranqüilo, o Doutor, Orlando Sabóia se auto-nomeou Diretor da DSG e Comandante da GT. Ao mesmo tempo acumulava quatro cargos públicos, mantendo-se na titularidade dos mesmos até que Terêncio Porto voltasse. A partir da posse de Fontenelle, dezenas de pessoas foram presas, acusadas de nutrir simpatia ou pertencerem ao movimento comunista. Sua forma intempestiva e exacerbada de agir teve seqüência no decorrer da gestão do governador Luiz Mendes da Silva, devidamente instigado pelo Secretário Geral Roberto Rocha Souza. Em janeiro de 1970, quando já era major e atuava no Rio de Janeiro,Fontenelle participou do grupo que interrogou e torturou Mário Alves no DOI-CODI. Fontenelle é tido como um dos praticantes dos piores tipos de torturas. Era exímio utilizador de pau-de-arara, choque, espancamento e simulação de fuzilamento. Figura com amplas descrições no Tomo V dos volumes I e II e no Tomo II,volume III do “Projeto Brasil Nunca Mais”.