Deus nos abençoa

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Entro em um pequeno comércio de manhã cedo e a dona logo me interpelou, dizendo-me: “Reverendo, o senhor se lembra quando abençoou o meu comércio no ano passado?” Eu respondi que foi antes do Natal. E ela retrucou: “Muito bem, a partir daí tudo melhorou nos meus negócios; pela primeira vez, depois de vários anos, não estou no ‘vermelho’. Agradeço a Deus pelo meu sucesso! Ah, mais uma coisa padre, eu estou dizendo pra todo mundo. Fui abençoada!” Perante os sucessos da vida, como dessa senhora, se reconhece a presença divina. Como Deus faz parte da nossa vida. E o salmo 66 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender a manifestação divina no cotidiano do nosso trabalho.

“Tenha Deus piedade de nós e nos abençoe, faça resplandecer sobre nós a luz da sua face, para que se conheçam na terra os seus caminhos e em todas as nações a sua salvação. Que os povos vos louvem, ó Deus, que todos os povos vos glorifiquem. Alegrem-se e exultem as nações, porquanto com equidade regeis os povos e dirigis as nações sobre a terra. Que os povos vos louvem, ó Deus, que todos os povos vos glorifiquem. A terra deu o seu fruto, abençoou-nos o Senhor, nosso Deus. Sim, que Deus nos abençoe, e que o reverenciem até os confins da terra.”

Este salmo é um agradecimento pelo bom êxito da colheita agrícola, expressa no versículo 7: “A terra deu o seu fruto, abençoou-nos o Senhor, nosso Deus.” Perante essa aclamação, o autor quer que isto fique bem conhecido para todos. Todos devem saber como Deus abençoa o percurso histórico do ser humano, favorecendo-o com o alimento para o seu sustento. Não é suficiente o trabalho humano, mas precisa a benevolência divina.

Diante dessa verdade, o ser humano exulta de alegria, porque se sente protegido e seguro. Assim sendo, a criatura humana quer partilhar essa verdade com todo mundo: testemunhar como Deus é protagonista na sua vida. No final, isto demonstrou também aquela senhora do comércio, reconhecendo a intervenção de Deus para reverter a sua situação da negativa pra positiva. De fato, o salmista diz no versículo 8 que todos ‘O reverenciem’, fundamento da profissão de fé em Ywhè (Deus).

É também com essa graça de Deus que se torna sinal de sua presença e do seu amor com a criatura humana. E essa obra divina universalista é descrita em todo o salmo. Nota-se uma intensa reciprocidade de reconhecimento entre o ser humano, cosmo e Deus. Por isso, todos os povos são convidados a se unir ao povo de Israel para cantar ao seu Deus. Deste modo, significa que ninguém é excluído para conhecer o ‘caminho’ de Deus, isto é, o seu projeto de salvação.

Também a essas nações, longe de Deus, é revelado o Reino Dele que julga e governa toda a humanidade e a conduz à paz e a vida sem fim. A bênção de Israel é vista como uma semente jogada no terreno da história, pronta a nascer e crescer, tornando-se uma imensa arvore que abriga todo mundo. Essa nova realidade faz germinar o novo povo onde todos os seres humanos participam. Sendo assim, todos podem esperar que a esperança de um Deus que perdoa e ama demais faz parte da vida deles. E o papa Francisco nos ajuda com essa reflexão tirada da carta apostólica ‘Misericordiaet misera’: “Antes de mais nada, sentimos necessidade de agradecer ao Senhor, dizendo-Lhe: «Vós abençoastes a vossa terra (…). Perdoastes as culpas do vosso povo» (Sal 85/84, 2.3). Foi mesmo assim: Deus esmagou as nossas culpas e lançou ao fundo do mar os nossos pecados (cf. Miq 7, 19); já não Se lembra deles, lançou-os para trás de Si (cf. Is 38, 17); como o Oriente está afastado do Ocidente, assim os nossos pecados estão longe d’Ele (cf. Sal 103/102, 12).(…) A misericórdia renova e redime, porque é o encontro de dois corações: o de Deus que vem ao encontro do coração do homem. Este inflama-se e o primeiro cura-o: o coração de pedra fica transformado em coração de carne (cf. Ez 36, 26), capaz de amar, não obstante o seu pecado. Nisto se nota que somos verdadeiramente uma «nova criação» (Gal 6, 15): sou amado, logo existo; estou perdoado, por conseguinte renasço para uma vida nova; fui «misericordiado» e, consequentemente, feito instrumento da misericórdia. (…) Cada dia da nossa caminhada é marcado pela presença de Deus, que guia os nossos passos com a força da graça que o Espírito infunde no coração para o plasmar e torná-lo capaz de amar. É o tempo da misericórdia para todos e cada um, para que ninguém possa pensar que é alheio à proximidade de Deus e à força da sua ternura.”


Aclamai a deus por toda a terra

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Certa vez em uma procissão religiosa, lembro-me de ter encontrado uma senhora que segurava nas mãos um terço e, emocionada, me falava que Deus era tudo pra ela: “Agradeço porque, sem Ele, não seria mais nada.” E, soluçando, dizia: “Tudo lhe devo! Tudo!” Aquela firmeza e convicção da mulher me confirmaram o quanto nós devemos ser agradecidos ao nosso Deus. A gratidão nos permite estreitar o nosso relacionamento com Deus. E, para isso, leia atentamente o salmo 65 das Sagradas Escrituras:

“Aclamai a Deus, toda a terra, Cantai a glória de seu nome, rendei-lhe glorioso louvor. Dizei a Deus: Vossas obras são estupendas! Tal é o vosso poder que os próprios inimigos vos glorificam. Diante de vós se prosterne toda a terra, e cante em vossa honra a glória de vosso nome. Vinde contemplar as obras de Deus: ele fez maravilhas entre os filhos dos homens. Mudou o mar em terra firme; atravessaram o rio a pé enxuto; eis o motivo de nossa alegria. Domina pelo seu poder para sempre, seus olhos observam as nações pagãs; que os rebeldes não levantem a cabeça. Bendizei, ó povos, ao nosso Deus, publicai seus louvores. Foi ele quem conservou a vida de nossa alma, e não permitiu resvalassem nossos pés. Pois vós nos provastes, ó Deus, acrisolastes-nos como se faz com a prata. Deixastes-nos cair no laço, carga pesada pusestes em nossas costas. Submetestes-nos ao jugo dos homens, passamos pelo fogo e pela água; mas, por fim, nos destes alívio. É, pois, com holocaustos que entrarei em vossa casa, pagarei os votos que fiz para convosco, votos proferidos pelos meus lábios, quando me encontrava na tribulação. Oferecerei em holocausto as mais belas ovelhas, com os mais gordos carneiros; imolarei touros e cabritos. Vinde, ouvi vós todos que temeis ao Senhor. Eu vos narrarei quão grandes coisas Deus fez à minha alma. Meus lábios o invocaram, com minha língua o louvei. Se eu intentasse no coração o mal, não me teria ouvido o Senhor. Mas Deus me ouviu; atendeu a voz da minha súplica. Bendito seja Deus que não rejeitou a minha oração, nem retirou de mim a sua misericórdia.”

Este salmo se contextualiza na celebração litúrgica no Templo, onde o fiel agradece a Deus pela sua obra salvadora. De fato, o louvor é pelas tantas manifestações históricas de Deus na vida do seu povo. A celebração é uma resposta efetiva à presença de Deus, e todo mundo proclama o seu esplendor. Uma presença prodigiosa que se concretiza com a libertação do povo da escravidão do Egito e que vai até a conquista da terra prometida. É esse grande prodígio que define como seu povo Israel, povo escolhido por Deus. E as imagens que o salmista escolhe para representar esta opção de Deus pelo seu povo são: ‘nos provastes, ó Deus, acrisolastes-nos como se faz com a prata’, ‘carga pesada pusestes em nossas costas’, ‘submetestes-nos ao jugo dos homens’.
É uma simbologia que mostra a prova que deve passar o seu povo pelo seu Senhor. Isto significa que nada é fácil, mas que as provações fazem parte dessa caminhada de fé. Perante as superações das provas se elevam hinos de alegria. Nesse caso, um da assembleia, talvez um sacerdote, agradece Deus em nome de todos pelo dom da liberdade. A liberdade que tiveram não é fruto deles, mas do Senhor Deus. Foi a aproximação de Deus que garantiu a libertação da escravidão. Sem Deus nunca teriam se libertado. Por tudo isso eles entram no Templo e oferecem holocaustos para agradecer a Deus pela sua ação poderosa no meio do seu povo. Aquele Deus que libertou o seu povo da escravidão continua presente fazendo prodígios. Um Deus que não abandona o seu povo não obstante os seus pecados.

Recorda-nos o Papa Francisco na Missa de quinta-feira, 6 de abril de 2017:

“Deus é sempre fiel à sua aliança: foi fiel à promessa com Abraão e à salvação prometida em seu Filho, Jesus” (…) “Eu convido vocês a tirarem, hoje, cinco minutos, dez minutos, sentados, sem rádio, sem televisão; sentados, e pensar sobre a própria história: as bênçãos e dificuldades, tudo. As graças e os pecados: tudo. E olhar ali a fidelidade daquele Deus que permaneceu fiel à sua aliança, e se manteve fiel à promessa que fizera a Abraão, permaneceu fiel à salvação que prometera em Seu Filho Jesus. Estou certo de que entre as coisas talvez ruins – porque todos nós temos tantas coisas ruins, na vida – se hoje fizermos isso, vamos descobrir a beleza do amor de Deus, a beleza de Sua misericórdia, a beleza da esperança. E tenho certeza que todos nós estaremos cheios de alegria”. Concluindo, a nossa alegria se torna repleta na medida em que nós experimentamos o quanto Deus está próximo da gente.


A busca de Deus

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“Quem não tiver pecado atire a primeira pedra!”, falou Jesus para aqueles que queriam condenar a mulher que pegaram em flagrante pecado de adultério. E diz o evangelista que ninguém teve coragem de fazê-lo. Isto significa que todos tinham pecado. E nós também, depois de mais de 2000 anos daquele evento, reconhecemos que somos pecadores. E é a partir dessa consciência que precisamos do nosso Deus. Precisamos do amor Dele para preencher o vazio que provoca o pecado à nossa humanidade. Por isso, na medida em que reconhecemos a nossa fragilidade, a nossa condição de pecadores, buscaremos cada vez Deus.

De fato, não por acaso os santos se diziam sempre que eram os maiores pecadores, porque ardentemente buscavam, dia e noite Deus. O papa Francisco fala a respeito: “Deus perdoa sempre! Não se cansa de perdoar. (…) ‘Mas, padre, eu não me confesso porque fiz tantas, tantas coisas, que não receberei o perdão…’ Não. Não é verdade. Ele perdoa tudo.” A leitura desse salmo 64, das Sagradas Escrituras, nos ajuda a entender tudo isso.

“A vós, ó Deus, convém o louvor em Sião, é a vós que todos vêm cumprir os seus votos, vós que atendeis as preces. Todo homem acorre a vós, por causa de seus pecados. Oprime-nos o peso de nossas faltas: vós no-las perdoais. Feliz aquele que vós escolheis, e chamais para habitar em vossos átrios. Possamos nós ser saciados dos bens de vossa casa, da santidade de vosso templo. Vós nos atendeis com os estupendos prodígios de vossa justiça, ó Deus, nosso salvador. Vós sois a esperança dos confins da terra, e dos mais longínquos mares. Vós que, com a vossa força, sustentais montanhas, cingido de vosso poder. Vós que aplacais os vagalhões do mar, o bramir de suas vagas e o tumultuar das nações pagãs. À vista de vossos prodígios, temem-vos os habitantes dos confins da terra; saciais de alegria os extremos do oriente e do ocidente. Visitastes a terra e a regastes, cumulando-a de fertilidade. De água encheu-se a divina fonte e fizestes germinar o trigo. Assim, pois, fertilizastes a terra: irrigastes os seus sulcos, nivelastes e as sua glebas; amolecendo-as com as chuvas, abençoastes a sua sementeira. Coroaste o ano com os vossos benefícios; onde passastes ficou a fartura. Umedecidas as pastagens do deserto, revestem-se de alegria as colinas. Os prados são cobertos de rebanhos, e os vales se enchem de trigais. Só há júbilo e cantos de alegria.”

É um hino de louvor pela maravilha da criação. Um canto de festa. Porém, na primeira parte, é um testemunho do perdão dos pecados. E esse perdão é concebido como uma recriação da vida. Vivendo essa realidade renovada pela misericórdia de Deus, permite encarar a realidade de maneira mais viva e colorida. Por que isso? A experiência do perdão e de uma natureza verdejante e cheia de fecundidade permite uma maior proximidade com o Senhor da Vida. O perdão e a viva natureza nos ajudam a viver a beleza da nossa criação. De fato, pela visão bíblica, história humana e natureza são muito unidos, se compenetram.

A versão das Sagradas Escrituras nos mostra que a criação é a moradia do ser humano e o pecado é uma ameaça a essa harmonia do universo, do mundo. Por isso que a conversão e perdão proporcionam integridade e harmonia ao cosmo, à vida. Assim sendo, esse salmo é dividido em duas partes: a parte histórica do ser humano e a parte do universo que está em plena ligação entre eles. Em Sião, Deus é o salvador que tem misericórdia e perdoa. Todo ‘mortal’ invoca o Senhor para libertá-lo do mal. E uma vez que consegue essa remissão do pecado, essa libertação, o ser humano consegue entrar em comunhão com Deus.

Ele participa da intimidade divina. Portanto, à vida espiritual se une aquela da natureza. E com uma imagem bem agrícola apresenta o Senhor que cuida e faz crescer a vida do fiel como o agricultor que semeia nos campos para ter o fruto que alimenta e sustenta a vida. Deus prepara o terreno, molha-o para que possa frutificar. E assim a terra, parecida a uma rainha, celebra o seu rei e Senhor porque está resplandecendo com a sua maravilhosa fertilidade. Uma natureza majestosa e cheia de vida revestindo a humanidade eleva hinos de glória ao seu Senhor. E isto dá alegria a todo o cosmo. Por conseguinte, todas as criaturas humanas, se dirigem ao seu Criador rezando e dançando, louvando e cantando porque a vida reina entre eles. Uma vida coroada por uma perfeita harmonia entre o ser humano e a própria natureza confirma a ação salvadora da presença de Deus.
Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.
E-mail: clpighin@claudio-pighin.net

 


As calúnias ameaçam a humanidade

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Dias atrás, eu encontrei um senhor que estava catando comida no lixo da calçada de um luxuoso condomínio. Ele aparentava uma idade avançada, estava de barba cumprida e toda desarrumada. Vestia roupa bem humilde e rasgada. O rosto dele marcado pelas rugas emanava uma tristeza tão lacerante que não pude ir adiante e quis me entreter com ele. Começamos a falar perguntando o nome um do outro. Discorremos sobre a vida e a dureza dela. De repente ele me perguntou: “Sabe por que me encontro desse jeito?” Eu respondi que não tinha a mínima ideia a respeito. Ele, então, continuou: “Pela calúnia! Isso mesmo, foi pela calúnia!”. Então, eu insisti: “Como isso?” Ele, prosseguindo, me contou de maneira bem resumida, com as lágrimas descendo pelo seu rosto engelhado, que armaram uma tremenda cilada e acabaram com ele tanto profissionalmente quanto humanamente. E, sobretudo, me lembro essas palavras que ressoaram na minha mente como um eco sem fim: “Eis aqui um cara com um nível escolar superior, mas que não possui mais nada, se não mendigando…” Tudo isso me deixou inquieto e questionando-me: Será que se pode chegar tanto assim? O que é capaz o ser humano? Destruir pessoas também pelas mentiras, pelas falsidades, que por traz de tudo isso não tem nada mais, senão um puro egoísmo! E quantos como esse senhor vivem essa triste e vergonhosa situação. Perante tudo isso não me dei paz e busquei nas Sagradas Escrituras uma resposta. Encontrei o Salmo 63 que fala exatamente sobre isso:

“Ouvi, Senhor, minha lastimosa voz. Do terror do inimigo protegei a minha vida, preservai-me da conspiração dos maus, livrai-me da multidão dos malfeitores. Eles aguçam suas línguas como espadas, desferem como flechas palavras envenenadas, para atirarem, do esconderijo, sobre o inocente, a fim de feri-lo de improviso, não temendo nada. Obstinam-se em seus maus desígnios, concertam, às ocultas, como armar seus laços, dizendo: Quem é que nos verá? Planejam crimes e ocultam os seus planos; insondáveis são o espírito e o coração de cada um deles. Mas Deus os atinge com as suas setas, eles são feridos de improviso. Sua própria língua lhes preparou a ruína. Meneiam a cabeça os que os vêem. Tomados de temor, proclamam ser obra de Deus, e reconhecem o que ele fez. Alegra-se o justo no Senhor e nele confia. E triunfam todos os retos de coração.”

Essa oração é uma resposta a uma vida atravessada pela calúnia e a todas as suas consequências. O sofrimento que ela causa. E esse autor do salmo, caluniado e perseguido, busca uma resposta no Templo, onde a justiça de Deus está acima daquela humana. Assim sendo, o fiel aqui se torna o representante de todos os fieis de Deus perseguidos. Os adversários são apresentados como um bando de pervertidos e desonestos que unidos armam ciladas para prender e prejudicar o justo. Uma conspiração bem maquinada para tirarem proveito. São brutais que usam a palavra como uma espada de dois gumes ou uma flecha envenenada. O salmo nos propõe um contraste bem evidente, de um lado as calúnias representadas pelas flechas perigosas e do outro a grande defesa de Deus com as suas flechas contundentes e certeiras.

Em um primeiro momento, estão aqui os inimigos do fiel numa cena bem rumorosa de guerra, símbolo do mal que existe no mundo que estão prontos para eliminar o inocente, o justo. O combate é caracterizado pela língua, e as palavras são as flechas. As palavras enganosas, pervertidas são parecidas às flechas envenenadas. As ciladas dos que caluniam são escondidas, não transparentes e perigosas e sempre prontas para golpear os justos. No entanto, o fiel ameaçado não tem outra confiança se não em Deus: é Ele o único seu defensor. Por isso se refugia na oração. É essa a sua grande arma de defesa. Tem a certeza que Deus toma a iniciativa em seu favor e, portanto, por quanto possam ser venenosas as ações dos caluniadores não poderão nunca prevalecer à intervenção de Deus em seu favor.

À justiça divina ninguém pode se opor, e por tudo isso o fiel louva o seu Senhor. O papa Francisco falou a respeito: “Nunca falar mal de outras pessoas. A doença das bisbilhotices, das murmurações e das críticas. Desta doença, já falei muitas vezes, mas nunca é demais. Trata-se de uma doença grave, que começa de forma simples, talvez por duas bisbilhotices apenas, e acaba por se apoderar da pessoa fazendo dela uma «semeadora de cizânia» (como satanás) e, em muitos casos, «homicida a sangue frio» da fama dos próprios colegas e confrades. É a doença das pessoas velhacas que, não tendo a coragem de dizer diretamente, falam pelas costas. São Paulo adverte-nos: «Fazei tudo sem murmurações nem discussões, para serdes irrepreensíveis e íntegros» (Flp 2, 14-15). Irmãos, livremo-nos do terrorismo das bisbilhotices!”


Ó Deus, com ardor vos procuro!

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A realidade do nosso tempo parece, segundo a maioria do povo, tão deprimente e triste que não se enxerga uma luz no fim do túnel. A corrupção atingiu todo mundo: as instituições e poderes que garantem a democracia do país. Parece que com toda essa enxurrada de denúncias e processos poucos se salvam. É comum ouvir frases do tipos: ‘Em quem acreditar?’ ou ‘Desse jeito o que vai ser do nosso país?’, ‘temos ainda futuro?’. Perante os grandes problemas, catástrofes sociais e humanas, o ser humano tem muita dificuldade para se encontrar e ter serenidade para enfrentar a vida. Aliás, sente-se perdido. E as reações das pessoas são as mais diferentes possíveis. Porém, tem uma reação que gostaria de destacar nesse âmbito: a de quem acredita em Deus. O fiel se diferencia nesse sentido por estar acima de qualquer desafio. Por quê? Porque, buscando incessantemente Deus, não se sente abandonado. Deus é um seu aliado. O salmo 62 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender tudo isso. Leia atentamente:

“Ó Deus, vós sois o meu Deus, com ardor vos procuro. Minha alma está sedenta de vós, e minha carne por vós anela como a terra árida e sequiosa, sem água. Quero vos contemplar no santuário, para ver vosso poder e vossa glória. Porque vossa graça me é mais preciosa do que a vida, meus lábios entoarão vossos louvores. Assim vos bendirei em toda a minha vida, com minhas mãos erguidas vosso nome adorarei. Minha alma saciada como de fino manjar, com exultante alegria meus lábios vos louvarão. Quando, no leito, me vem vossa lembrança, passo a noite toda pensando em vós. Porque vós sois o meu apoio, exulto de alegria, à sombra de vossas asas. Minha alma está unida a vós, sustenta-me a vossa destra. Quanto aos que me procuram perder, cairão nas profundezas dos abismos, serão passados a fio de espada, e se tornarão pasto dos chacais. O rei, porém, se alegrará em Deus. Será glorificado todo o que jurar pelo seu nome, enquanto aos mendazes lhes será tapada a boca.”

Esse salmo é um amor místico do fiel ao seu Deus. Revela um abandono total ao Senhor tão intenso, envolvendo a vida toda dele. É um fiel que se projeta sem desconfiança para o seu Deus. Ele reza tão intensamente, tão natural, como se fosse apagar a sua sede na fonte refrescante dos dias quentes de verão. Assim sendo, rezar se torna uma necessidade determinante do ser humano para satisfazer a sua própria natureza, a sua vida. O fiel no Santuario do Senhor dirige várias invocações simbolizadas em imagens cotidianas que são: a fome, a sede e o juízo divino. A respeito da sede, o que quis dizer o autor desse salmo?

A sede, em primeiro lugar, é uma necessidade fisiológica natural que faz parte da composição do corpo humano. Sem agua não poderíamos viver. Aliás, a mesma superfície terrestre, sem água, se torna árida e incapaz de produzir frutos. E a partir destas constatações os crentes precisam de Deus para se manter vivos, dar um sentido a própria vida para que seja vigorosa e robusta: “Minha alma está sedenta de vós”. E agora a questão da fome. Quem encontra Deus fica saciado: “Minha alma saciada como de fino manjar.”

O autor aqui faz alusão ao banquete sagrado, característico do ‘sacrifício de comunhão’. Todos esses versículos se concentram em uma reflexão noturna, cheios de maravilha por estar tão próximo de Deus. Justamente as ‘asas’ de Deus são o sinal da ‘arca’, isto é, a sede da presença santa da divindade. E enfim a questão do juízo, expressado nos últimos versículos do salmo, quer manifestar o poder de Deus. Essas palavras são duras e sem piedade para os inimigos, que ‘cairão nas profundezas dos abismos’, e ‘serão passados a fio de espada, e se tornarão pasto dos chacais’.

Para o fiel desse salmo é essa a justiça divina. Um salmo de grande contemplação de Deus, que pretende além de mostrar amor infinito para Deus quer também a grande luta contra o mal. Um desejo inato do ser humano. E o papa Francisco na missa celebrada em Santa Marta, no dia 22/11/2016, fez a seguinte meditação: “Quando era criança”, quando ia ao catecismo, eram ensinadas quatro coisas: morte, juízo, inferno ou glória. Alguém poderia dizer: «Padre, isto assusta-nos». Mas, respondeu: «É a verdade. Pois se não cuidares do coração, para que o Senhor esteja contigo, e viveres sempre longe do Senhor, talvez haja o perigo de continuar assim, afastado do Senhor por toda a eternidade. Isto é muito triste!”. E “Hoje nos fará bem pensar nisto: como será o meu fim? Como será, quando eu estiver diante do Senhor?”. Por isso, o papa continua: “Sê fiel até à morte — oráculo do Senhor — e dar-te-ei a coroa da vida”. “Eis a solução para os nossos receios: A fidelidade ao Senhor: Ele não desilude. E se cada um de nós for fiel ao Senhor, quando chegar a morte diremos como Francisco: ‘Vem, irmã morte’. Ela não nos assusta”.


Só em Deus repousa minha alma!

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“Padre, estou cansado. Não tenho mais vontade de nada. Não sei o que fazer, não dá mais certo nada. Tenho todos contra mim. O que fazer? Sinto-me esgotado! Perdi o prazer da vida.” O desabafo é de um cidadão que no seu maior desespero me confiou a sua situação. Igual a ele, há muitos outros irmãos que passam pela mesma condição. Essa nossa realidade é feita de tantas alegrais, também de tantas tristezas. Isto significa que, por quanto nos esforçamos viver bem, nem sempre conseguimos esse objetivo. Parece que a vida foge do nosso controle. Aqui que está uma resposta de vida para essas frustrações dela: é em Deus que supero tudo isso! O que quer dizer? Posso enfrentar muitas dificuldades e desespero, mas com Deus se enfrentam diferentemente. Por isso, convido você a ler esse salmo 61 das Sagradas Escrituras para poder entender melhor isso.

“Só em Deus repousa minha alma, só dele me vem a salvação. Só ele é meu rochedo, minha salvação; minha fortaleza: jamais vacilarei. Até quando, juntos, atacareis o próximo para derribá-lo como a uma parede já inclinada, como a um muro que se fendeu? Sim, de meu excelso lugar pretendem derrubar-me; eles se comprazem na mentira. Enquanto me bendizem com os lábios, amaldiçoam-me no coração. Só em Deus repousa a minha alma, é dele que me vem o que eu espero. Só ele é meu rochedo e minha salvação; minha fortaleza: jamais vacilarei. Só em Deus encontrarei glória e salvação. Ele é meu rochedo protetor, meu refúgio está nele. Ó povo, confia nele de uma vez por todas; expandi, em sua presença, os vossos corações. Nosso refúgio está em Deus. Os homens não passam de um sopro, e de uma mentira os filhos dos homens. Eles sobem na concha da balança, pois todos juntos são mais leves que o vento. Não confieis na violência, nem espereis vãmente no roubo; crescendo vossas riquezas, não prendais nelas os vossos corações. Numa só palavra de Deus, compreendi duas coisas: a Deus pertence o poder, ao Senhor pertence a bondade. Pois vós dais a cada um segundo suas obras.”

O hino contrapõe dois modelos de confiança. De um lado a confiança na riqueza e na violência e de outro lado a confiança em Deus. A idolatria da violência e da riqueza rende o seu fiel vazio e sem futuro. Naturalmente, esse fiel pratica a mentira, aliás, ele se compraz com isso. Isto faz parte da estratégia para derrubar o justo. Uma pessoa assim, segundo as Sagradas escrituras, é já morta. Porém, em oposição a esse tipo de confiança se coloca a confiança em Deus, mostrada com uma rica simbologia militar, que é a fortaleza e o rochedo que garantem o repouso da alma.

Portanto, a centralidade do salmo roda ao redor dessa opção entre as duas confianças, duais morais completamente diferentes. Veja como o autor desse hino descreve essa opção: a confiança em Deus é revelada com imagens de solidez e segurança, quais ‘refúgio e defesa’. No entanto, a confiança à riqueza é expressa com os seguintes termos: ‘violência’, isto é, estratégias venenosas para desfrutar e depauperar o próximo. Além do mais, o ‘roubo’ e a ‘extorsão’ o autor desse salmo os classificas como ‘ilusão’ e ‘loucura’, porque leva a excessos sem limites.

Assim sendo, a riqueza que o ser humano busca se torna uma cilada que o leva cumprir atrocidades, coisas não boas. Essa confiança exclusiva na materialidade cega o ser humano e não lhe permite ter uma visão real da realidade. Esquece-se de ser um mortal e que essa idolatria à materialidade é igual a um sopro. A idolatria aos bens da terra são bens que passam e não garantem nada para o futuro. É verdade que essa materialidade faz parte da humanidade, mas precisa saber discerni-la para não se deixar mandar por ela. Essa materialidade por quanto possa ser importante, seu peso é quase nada sobre a balança do ser.

Assim sendo, é realmente absurdo ver que uma humanidade possa apostar sobre isso, que representa uma escada de valores ilusórios, falsos e frágeis. Portanto, fixar a concentração exclusiva da nossa vida sobre a riqueza, o poder e o bem-estar nos leva a uma vida inconsistente. Nesse sentido, que o autor do salmo insiste a importância da opção por Deus, que é eterno e sem fim. Somente Ele que pode ajudar o fiel a evitar a morte, o ‘nada’ da vida.

Sempre o papa Francisco nos fala a respeito, através do encontro com os jovens católicos que ocorreu em sua visita à Coreia do Sul: “Que vocês, jovens, possam combater o fascínio de um materialismo que sufoca os valores culturais e espirituais autênticos e se afastem do espírito de competição desenfreada que gera egoísmo e conflito”. Continuou Francisco no sermão: “Que vocês também rejeitem os modelos econômicos desumanos que criam novas formas de pobreza e marginaliza os trabalhadores.”


Com Deus não existe solidão

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Umas das coisas que estou constatando, cotidianamente, é a manifestação de solidão das pessoas. Nunca tinha entendido o porquê de tanto barulho nas casas, desde manhã cedo, e nos lugares públicos. Alias, é tão intenso o som que não consigo nem escutar direito quando falam. Parece-me que todo esse forte barulho queira substituir algo que a pessoa não tem. Precisa de tudo isso para dar sentido à vida. Eu tenho dificuldade de compreender. Eu me alegro, sim, por estar junto com os outros, mas não consigo entrar nessa balbúrdia. Acho que a sociedade, ou como diz o evangelista João, o mundo falta-lhe uma verdadeira experiência de Deus. Buscando Deus, a pessoa não pode estar só e, portanto, não vai em busca de coisas efêmeras. É invocando Deus que damos maior sentido à vida. O salmo 60 das Sagradas Escrituras nos ajuda nesse sentido:

“Ouvi, ó Deus, o meu clamor, atendei à minha oração. Dos confins da terra clamo a vós, quando me desfalece o coração. Haveis de me elevar sobre um rochedo e me dar descanso, porque vós sois o meu refúgio, uma torre forte contra o inimigo. Habite eu sempre em vosso tabernáculo, e me abrigue à sombra de vossas asas! Pois vós, ó meu Deus, ouvistes os meus votos, destes-me a recompensa dos que temem vosso nome. Acrescentai dias aos dias do rei, que seus anos atinjam muitas gerações. Reine ele na presença de Deus eternamente, dai-lhe por salvaguarda vossa graça e fidelidade. Assim, cantarei sempre o vosso nome e cumprirei todos os dias os meus votos.”

Neste salmo, o fiel, que é um representante da assembleia litúrgica, reza para o rei em guerra possa triunfar e ter longa vida. De fato, a oração nos versículos 4 e 5 assim diz em síntese: “Habite eu sempre em vosso tabernáculo”, isto é, no Templo. O Templo que representa tudo na vida do fiel e, por isso, evoca com nomes diferentes e imagens até militares, enquanto é um refúgio, uma defesa. Todas essas linguagens são tentativas de manifestar a total confiança em Deus protagonista na vida daquele que acredita. Perante as provas da vida, as inseguranças, a instabilidade humana, as crueldades cotidianas, o mal que toma conta o autor desse salmo contrapõe um rochedo que lhe dá descanso. E, assim, que pode discernir a rocha da sua defesa que é o santo Templo.
É típico o uso nas Sagradas Escrituras da simbologia da ‘pedra’, que quer indicar a firmeza e estabilidade do Templo de Jerusalém, referência máxima da manifestação divina. Se você lembra, também Jesus evocava este tipo de linguagem. Por exemplo, quando chamou Cefa de Pedro, ou nas cartas que define ‘as pedras vivas’. A partir dessa experiência que o fiel encontra força e segurança sem fim. Tudo isso descrevendo como se estivesse numa torre forte e que os inimigos não têm como se aproximar ou assaltar. Assim sendo, as imagens militares se tornam ‘intimas’ e ‘pessoais’, bem representadas por essas palavras: “Habite eu sempre em vosso tabernáculo”.

Além do mais, “me abrigue à sombra de vossas asas”, isto é, a proteção do Senhor lhe garante uma demora definitiva onde se torna uma ‘tenda do encontro’ entre Deus e o ser humano. Naturalmente, isto dá muita alegria e, por isso, cantará hinos ao seu Senhor. Conclusão, essa experiência do encontro com o Senhor revela que o ser humano não é só, porque a graça e a fidelidade estão próximas e o protegem.

A respeito disso, o papa Francisco falou na ‘audiência geral’ de 26 de abril o seguinte: “Até quando perdurará a atenção de Deus pelo homem? Até quando o Senhor Jesus, que caminha conosco, até quando cuidará de nós? A resposta do Evangelho não deixa margem a dúvidas: até ao fim do mundo! Passarão os céus, passará a terra, serão anuladas as esperanças humanas, mas a Palavra de Deus é maior do que tudo e não passará. E Ele será o Deus conosco, o Deus Jesus que caminha ao nosso lado. Não haverá um dia da nossa vida em que cessaremos de ser uma solicitude para o Coração de Deus. Contudo, alguém poderia dizer: «Mas o que dizes?». Digo isto: não haverá um dia da nossa vida em que deixaremos de ser uma solicitude para o Coração de Deus. Ele preocupa-se conosco, caminha ao nosso lado. E por que faz isto? Simplesmente porque nos ama. Entendestes isto? Ele ama-nos! E sem dúvida Deus proverá a todas as nossas necessidades, não nos abandonará no tempo da prova e da escuridão. É preciso que esta certeza se aninhe no nosso espírito, para nunca mais se apagar. Há quem lhe dê o nome de «Providência». Ou seja, a proximidade de Deus, o amor de Deus, o caminhar de Deus ao nosso lado chama-se também «Providência de Deus»: Ele provê à nossa vida.”


Com o auxílio de Deus, faremos proezas

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Nossa história é sempre questionadora. Por isso, tem uma infinita gama de respostas. E uma dessas grandes questões é, com certeza, Deus. Nesses dias, um senhor de idade já avançada me disse que com o nome do Senhor se argumenta tudo e se pretende tudo. Prontamente, eu lhe respondi: como posso não falar e acreditar em Deus para quem eu dediquei toda a minha vida? É evidente que não se pode nem pensar em manipular Deus, porque, além do mais, Ele é muito poderoso e não o permite. Se poderá falar Dele, podemos encher a boca do nome Dele, mas isto não quer dizer nada. Deus está acima das nossas maquinações e manipulações. Porque Ele ama infinitamente. Ele é, sim, presente, mas não do nosso jeito. Quem nos ajuda a compreender melhor isso é o salmo 59 do Antigo Testamento da Bíblia.

“A lei é como o lírio. Poema didático de Davi, quando guerreou contra os sírios da Mesopotâmia e os sírios de Soba, e quando Joab, voltando, derrotou doze mil edomitas no vale do Sal. Ó Deus, vós nos rejeitastes, rompestes nossas fileiras, estais irado; restabelecei-nos. Fizestes nossa terra tremer e a fendestes; reparai suas brechas, pois ela vacila. Impusestes duras provas ao vosso povo, fizestes-nos sorver um vinho atordoante. Mas aos que vos temem destes um estandarte, a fim de que das flechas escapassem. Para que vossos amigos fiquem livres, ajudai-nos com vossa destra, ouvi-nos. Deus falou no seu santuário: Triunfarei, repartindo Siquém; medirei com o cordel o vale de Sucot. Minha é a terra de Galaad, minha a de Manassés; Efraim é o elmo de minha cabeça; Judá, o meu cetro; Moab é a bacia em que me lavo. Sobre Edom atirarei minhas sandálias, cantarei vitória sobre a Filistéia. Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me levará até Edom? Quem, senão vós, ó Deus, que nos repelistes e já não saís à frente de nossas forças? Dai-nos auxílio contra o inimigo, porque é vão qualquer socorro humano. Com o auxílio de Deus, faremos proezas. Ele abaterá nossos inimigos.”

Este hino é uma lamentação nacional de Israel num contexto de emergência. E essa lamentação se desdobra em dois momentos significativos. A primeira parte aparece Deus como se fosse um inimigo do seu povo: “Ó Deus, vós nos rejeitastes”. A desintegração do país, da nação, é porque Deus está irado, segundo o autor do salmo. Deus assim se tornou um terrível inimigo que desenfreia toda a sua força que abala tudo. Parece que Deus combate o seu próprio povo, e lhe faça pagar tudo sem piedade alguma. Porém, o autor depois de ter iniciado de maneira bem catastrófica e furiosa torna-se bem esperançoso, marcando assim uma presença amorosa de Deus: “Deus falou no seu santuário”.

Assim, se em um primeiro momento parecia que Deus tinha-se tornado inimigo, agora revela como Deus auxilia o seu povo. Essa esperança em Deus demonstra como Deus é o único e último juiz da história. Tudo isso é bem marcado através do controle de Deus sobre toda a Palestina e suas etnias. Revigorando-as. Desse jeito, o autor insiste que Deus é o verdadeiro Senhor da história e Israel pode confiar Nele, embora que às vezes não consiga entender. Na segunda parte de lamentação, porém, cheia de esperança, alimenta a possibilidade da salvação através do exercito de Israel que conquiste Edom.

Assim sendo, pela intercessão, Deus torna-se de novo o escudo do seu povo, ajudando-o a fazer grandes prodígios: “Com o auxílio de Deus, faremos proezas. Ele abaterá nossos inimigos.” A encarnação da Palavra de Deus compreende também essas formas de rezar, embora que seja grosseira e nacionalista. Todo o salmo mostra também como uma celebração do Deus da história, a quem se confia nos momentos tristes e trágicos, não seja indiferente às situações humanas. Pelo contrário, Ele leva em frente o seu projeto de salvação.

Veja o que nos diz o papa Francisco: “Caros irmãos e irmãs, nunca coloquemos condições a Deus, mas, ao contrário, deixemos que a esperança vença os nossos receios. Confiar em Deus quer dizer entrar nos seus desígnios sem nada pretender, aceitando inclusive que a sua salvação e o seu auxílio cheguem a nós de modo diverso das nossas expectativas. Pedimos ao Senhor vida, saúde, afetos, felicidade; e é justo fazê-lo, mas com a consciência de que até da morte Deus sabe haurir vida, que é possível experimentar a paz inclusive na doença e que até na solidão pode haver serenidade, e bem-aventurança no pranto. Não somos nós que podemos ensinar a Deus o que Ele deve fazer, aquilo de que temos necessidade. Ele sabe-o melhor do que nós e devemos ter confiança porque os seus caminhos e os seus pensamentos são diferentes dos nossos (Audiência Geral de 25/01/2017).


Meu Deus, liberta-me dos inimigos!

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Às vezes, nossa vida parece ficar mergulhada em uma profunda noite. Não se enxerga mais nada. Uma vida de trevas. Por exemplo, é o caso da escola ‘Papa Francisco’, em Belém. Ela é destinada para jovens pobres e, por isso, é totalmente gratuita. Nós acreditamos que essa escola é uma resposta à violência que aumenta cada vez mais na nossa sociedade. Digo sempre que a escola é uma obra de Deus. Mas, infelizmente, as nossas instituições públicas, além de não ajudarem, tornam-se obstáculos para a sua viabilização. Cobram impostos ou taxas como se nós tivéssemos especulações lucrativas e se esquecem de que a escola se sustenta por meio de doações. Temos sorte que existem pessoas que ainda acreditam na caridade. Mas, se fosse pelos órgãos públicos, a escola já teria acabado há muito tempo. Por isso, tem vezes que me sinto, realmente, como se estivesse numa noite profunda, sem saber mais o que fazer. Nesse sentido, me mergulho na Palavra de Deus para tentar entrever um raio de luz. Rezando o salmo 58, das Sagradas Escrituras, eu pude me identificar e ter um ‘sopro de vida’:

“Livrai-me, ó meu Deus, dos meus inimigos, defendei-me dos meus adversários. Livrai-me dos que praticam o mal, salvai-me dos homens sanguinários. Vede: armam ciladas para me tirar a vida, homens poderosos conspiram contra mim. Senhor, não há em mim crime nem pecado. Sem que eu tenha culpa, eles acorrem e atacam. Despertai-vos, vinde para mim e vede, porque vós, Senhor dos exércitos, sois o Deus de Israel. Erguei-vos para castigar esses pagãos, não tenhais misericórdia desses pérfidos. Eles voltam todas as noites, latindo como cães, e percorrem a cidade toda. Eis que se jactam à boca cheia, tendo nos lábios só injúrias, e dizem: Pois quem é que nos ouve? Mas vós, Senhor, vos rides deles, zombais de todos os pagãos. Ó vós que sois a minha força, é para vós que eu me volto. Porque vós, ó Deus, sois a minha defesa. Ó meu Deus, vós sois todo bondade para mim. Venha Deus em meu auxílio, faça-me deleitar pela perda de meus inimigos. Destruí-os, ó meu Deus, para que não percam o meu povo; conturbai-os, abatei-os com vosso poder, ó Deus, nosso escudo. Cada palavra de seus lábios é um pecado. Que eles, surpreendidos em sua arrogância, sejam as vítimas de suas próprias calúnias e maldições. Destruí-os em vossa cólera, destruí-os para que não subsistam, para que se saiba que Deus reina em Jacó e até os confins da terra. Todas as noites eles voltam, latindo como cães, rondando pela cidade toda. Vagueiam em busca de alimento; não se fartando, eles se põem a uivar. Eu, porém, cantarei vosso poder, e desde o amanhecer celebrarei vossa bondade. Porque vós sois o meu amparo, um refúgio no dia da tribulação. Ó vós, que sois a minha força, a vós, meu Deus, cantarei salmos porque sois minha defesa. Ó meu Deus, vós sois todo bondade para mim.”

A atmosfera desse salmo é obscura, noturna. Aqui o autor desse hino compara os seus adversários a uns cães brabos que no silêncio da noite latem e correm pelas ruas desertas em busca de alimento. Esses são os inimigos, os malfeitores, pessoas sanguinárias, poderosos, soberbos, perversos e blasfemadores. A cidade está à mercê destas pessoas perigosas. A vida de hoje parece que não mudou. O fiel identifica a ‘noite’ como o destino de Jerusalém cujos chefes são arrogantes e impuros como ‘cães’, filhos das trevas e da injustiça.

Assim, as pessoas corretas são obrigadas a fugir e se esconder para não serem destruídas. Porém, junto aos ‘cães’ aparece outro protagonista que toma conta da cena: Deus. O autor aqui apresenta Deus que age em relação a essas pessoas perigosas e ameaçadoras, eliminando-as de maneira gradativas e progressivas dando um exemplo de purificação que fica na história. Assim sendo, o povo não esquece e reconhece a presença de quem é o verdadeiro dono da história da humanidade. E perante essa justiça de Deus os justos verão a luz do dia e não serão oprimidos pelas trevas, a noite da humanidade.

Efetivamente, nunca os justos são abandonados, embora parecessem que estavam sós, porque os cães da vida os perseguiam. Na hora que menos pensa entra em ação o verdadeiro defensor que tudo sabe: Deus. Ele é o escudo dos ‘justos’. E o salmo ressalta assim que o sol está para surgir e a noite termina com as suas ciladas e os perseguidores são caçados de vez. Esta verdade leva o salmista a cantar e louvar a fidelidade de Deus com os seus justos filhos. Com esta certeza de fidelidade e de paz termina a noite obscura da vida. O sol venceu a noite. A perseguição e a maldade do poderoso são derrotadas. O fiel pode ficar tranquilo que o mal não pode vencer Deus.


O mal é derrotado pelo bem

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Onde se enraíza o mal na nossa sociedade? Podem perceber como cada cidadão, para ser vencedor na vida, deve disputar com outros e, naturalmente, nem todo mundo pode ser vencedor. Consequência disso: quem não consegue, fica para trás. Mas também têm outros que nem conseguiram entrar na disputa, e esses aí estão aguardando outras oportunidades, se ainda tiverem tempo. Assim sendo, essa vida é parecida a uma corrida que vai afunilando a participação das pessoas em uma vida de dignidade. Essa corrida gera poder e exclusão. Certamente, não favorece fraternidade, mas, sim, privilegiados e desfavorecidos. Gera poderosos e humildes. E essa relação se revela bem distante daquilo que nos prega a Palavra de Deus. Aliás, é tão conflitante que pode se chegar até a conflitos de perseguição e morte. A violência prevalece sobre a paz. A leitura do salmo 57, das Sagradas Escrituras, mostra como enfrentar esses antagonismos de opressão e injustiça.

“Será que realmente fazeis justiça, ó poderosos do mundo? Será que julgais pelo direito, ó filhos dos homens? Não, pois em vossos corações cometeis iniquidades, e vossas mãos distribuem injustiças sobre a terra. Desde o seio materno se extraviaram os ímpios, desde o seu nascimento se desgarraram os mentirosos. Semelhante ao das serpentes é o seu veneno, ao veneno da víbora surda que fecha os ouvidos para não ouvir a voz dos fascinadores, do mágico que enfeitiça habilmente. Ó Deus, quebrai-lhes os dentes na própria boca; parti as presas dos leões, ó Senhor. Que eles se dissipem como as águas que correm, e fiquem suas flechas despontadas. Passem como o caracol que deslizando se consome, sejam como o feto abortivo que não verá o sol. Antes que os espinhos cheguem a aquecer vossas panelas, que o turbilhão os arrebate enquanto estão ainda verdes. O justo terá a alegria de ver o castigo dos ímpios, e lavará os pés no sangue deles. E os homens dirão: Sim, há recompensa para o justo; sim, há um Deus para julgar a terra.”

Este salmo precisa ser bem compreendido. Não podemos nos deixar levar por uma leitura superficial. Efetivamente, essa oração tem palavras muito fortes e violentas, mas precisamos compreender a cultura semítica daquele tempo. Essa cultura tinha a característica de personificar o mal em um inimigo bem concreto e também de exacerbar os sentimentos e as expressões verbais. São essas expressões violentas que querem imitar a fala das pessoas do cotidiano. E esse compositor se deixa conduzir pelas manifestações de símbolos e emoções em rezar aquilo que está sentindo e passando. Esse jeito de comunicar violento, encontramos também nos salmos 108 e 136. Eles revelam uma repulsa profética contra o mal que toma conta da história da humanidade.
Uma ansiedade dos profetas para que seja feita a justiça e enfrente a opressão. Naturalmente, tudo isso evidenciando e cadenciando quanto a linguagem humana é exasperadora. Podemos, nesse sentido, entender como oração dos pobres, dos oprimidos e dos abandonados que se dirigem a Deus para que os socorra. E o salmo foca uma questão importante que o ser humano não pode se vingar, mas isto pertence somente a Deus. Dito isto, vejamos os sentidos dos símbolos. A imagem da ‘serpente’ mostra como não se deixa induzir pelo “mágico que enfeitiça habilmente”. Assim, a venenosidade viperina dos ímpios, dos maus, resiste a cada pedido de conversão. Perante este perigo dos malvados, os justos confiam o escândalo da injustiça à ação esperada e implacável de Deus, Senhor da história, que fará a verdadeira justiça.

A respeito das ‘presas dos leões’, significa que os ‘maus’ moem tudo com os próprios dentes ferozes. E Deus irá quebrar-lhes os seus dentes, tirando-lhes as vítimas das suas bocas. Não só, intervém através uma ação de total purificação do mal que deve ser ‘dissipado como as águas que correm’. O autor dessa oração imagina ainda que os injustos, os poderosos, opressores, serão pisados e parecidos ao ‘caracol que deslizando se consome, e o feto abortivo’, isto é, impotentes e nojentos com um destino macabro. Insistindo, o salmista, com uma poderosa declaração judiciária, visto que acabaram com muita gente, teria sido melhor que não tivessem nunca nascido.

Por fim, termina o autor com o resgate do oprimido, através de uma cena bem cruel, onde a justiça feita derrotando o opressor: “O justo terá a alegria de ver o castigo dos ímpios, e lavará os pés no sangue deles.” É Deus que liberta, porque Ele está acima de tudo e de todos e, portanto, pode cumprir a justiça. Assim sendo, o justo pode esperar confiante que um dia vai ser libertado pelo seu Senhor. Para compreender melhor isso, basta ler essas palavras de Paulo que escreveu aos Romanos: “Não pagueis a ninguém o mal com o mal, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: A mim a vingança; a mim exercer a justiça, diz o Senhor. Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem.”(12,17a.19b-20a.21).