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OTON ALENCAR

Lembranças daquela manhã

O Sol levantava no horizonte. As sombras da madrugada com o seu translúcido véu envolviam com a diafaneidade do seu manto os primeiros raios da Estrela Maior que refulgiam.
A gaivota como que em busca do seu companheiro crocitava solitariamente dando voo rasante sobre a superfície do mar imenso.
A praia estava deserta. Um vento frio soprava no sentido da praia. As ondas quebravam ritmicamente gerando espumas que branquejava a divisão até onde a onda se espraiava na praia.
A musicalidade do canto da natureza entoada pelo desfazer das ondas, o vento que soprava e o canto triste da gaivota remetiam a quietude do espírito.
É neste cenário que se dá o encontro da serenidade da alma com a placidez do espírito. É onde a alegria da vida estende as mãos à alegria de viver.
Um tapete de areia alva e finíssima desenrolava-se à minha frente num perder de vista.
Imaginei a beleza da natureza, como que pintada num painel, com tintas irretocáveis um louvor manifesto à gloria do Criador.
Poderia Da Vinci, Michelangelo, Portinari ou Rembrandt retratar com seus pincéis mágicos aquele quadro que a natureza caprichadamente esboçava?
Van Gogh talvez não tivesse pintado o quadro "Natureza Morta", se tivesse conhecido essa.
Uma nuvem de borboletas migratórias inundou o céu margeando a praia. Qual o destino delas? Possivelmente centenas de quilômetros as aguardam, imaginei.
Sentei na areia da praia, ainda fria pelo sereno da noite.
Pensei novamente na arte de pintar. Retratar as diversas impressões da alma mediante o pincel. Mas, também saber ouvir é uma arte, ver a beleza de um quadro pintado ou as matizes das cores harmonizadas pelo pintor, também é arte. O som musicalizado no ritmo, melodia e harmonia é também. Faz arte o que domina o cinzel sob o martelo ao esculpir o mármore bruto. É a arte também saber trabalhar as palavras que a outros impressionam, dizendo o que a alma quer dizer.
É também arte, o que faz o arquiteto das palavras. Tal qual o escultor que com o buril esculpe a pedra disforme, junta as palavras lhes dando sentido que traduzem suas emoções, suas alegrias e tristezas.
O que não é arte? Aquilo que agride o espírito e não impressiona a alma.
Continuei nas minhas digressões. Vento, mar e praia, sempre foram os ingredientes buscados para a paz de espírito. A praia por certo pela sua beleza, pelos incontáveis grãos de areia que a compõe. Pela sua misteriosa constituição. E a pergunta intrigante. Quem a colocou ali?
O vento por ser enigmático, trás uma aura mítica que sempre inquietou os povos. E o mar a sua imensidão e por ser indomável quando embravece.
O Sol já não mais se confundia com a linha d'água. Os seus raios começavam aquecer a praia que havia dormitado sob o manto da noite. O sereno da madrugada se ia sob o aquecer dos primeiros clarões do Sol.
Levantei. Sacudi a areia e comecei caminhar.
A areia fofa dificultava os passos. Procurei a areia molhada, onde era mais firme. Comecei marcar minhas pegadas na areia. Pegadas fugidias que logo mais seriam tragadas pela maré que avançava.
As pegadas do homem no planeta Terra não devem ser efêmeras. Pensei... Devemos marcar nossas pegadas por este planeta com feitos perenes, que perpetuem a nossa passagem por aqui.
Teve razão quem falou: "O homem deve plantar uma árvore, escrever um livro e deixar sua descendência para dizer que viveu".
Á arvore dará uma floresta, o livro perpetuará o seu saber e a descendência a sua memória.
Estou escrevendo um livro, para cumprir a minha sina.
Absorto nas minhas elucubrações íntimas continuei caminhando até o Sol alcançar quase seu zênite.
Manhã inesquecível vivida naquele dia. Recordo aqui aquela manhã diferente das outras que já passei. Uma manhã à beira mar.

*Oton Miranda de Alencar, bioquímico, professor,
advogado, jornalista e pastor evangélico.

OTON ALENCAR
"O vento por ser enigmático, trás uma aura mítica que sempre inquietou os povos. E o mar a sua imensidão e por ser indomável quando embravece.
O Sol já não mais se confundia com a linha d'água. Os seus raios começavam aquecer a praia que havia dormitado sob o manto da noite. O sereno da madrugada se ia sob o aquecer dos primeiros clarões do Sol."
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