Cartas
de amor são coisas do passado? É
possível que a primeira imagem que
nos venha à consciência, quando
pensamos nelas, seja a de pétalas antigas,
prensadas num livro velho. Pétalas
de outra época.
Mas as cartas de amor não têm
nada de superado. Apenas mudaram a forma e
conteúdo. Todo o mundo de vez em quando,
escreve alguma. Não precisa ser perfumada,
desenhada ou feita de versos. Basta que ao
final de um bilhete rápido onde se
dê "fui ao supermercado",
esteja escrito. "te amo".
Freud passou aproximadamente 4 anos trocando
intensa correspondência com sua noiva
Marta Bernays. Aqui estar a última
carta à sua noiva antes do casamento.
Viena, quita-feira, 13-5-1886. Meu adorado
amor. Não poderei escrever-lhe durante
minhas horas de consulta porque há
muito que fazer. A sala de espera está
cheia de gente e eu dificilmente terminarei
às 3 horas.
A receita ainda não está muito
brilhante, mas os pacientes que se valem dos
meus serviços são muito numerosos,
embora não haja muitos pagantes: a
senhora do professor M. que me dá muito
trabalho, o caso de ciática que está
quase curado e os dois policiais que vêm
uma vez por semana. Amanhã virá
T. Hoje meus ganhos alcançaram 8 florins:
3 de um policial e 5 novamente por intermédio
de Breuer, que mandou a senhora do Dr. K.
ela veio pedir conselho para aliviar o marido.
Vejo que para um médico o trabalho
e renda são suas coisas muito dife-rentes.
Às vezes se faz dinheiro sem levantar
um dedo outras vezes se trabalha como escravo
sem recompensa. Anteontem, por exemplo, um
médico americano veio ver-me com uma
doença nervosa - caso complicado de-vido
á relação que tem com
sua bela e interessante esposa, de quem também
tenho que cuidar e por quem vou ver amanhã
o professor Chrobak. Estou cansado demais
para descrever-lhe em pormenores todos os
delicados aspectos. Pareceu-me misteriosa
que ambas as ocasiões em que ela esteve
aqui a sua fotografia, que nunca se mexe tenha
caído da escrivani-nha. Não
gosto desses sinais e se fosse necessária
uma advertência... Mas não é
necessário.
E espera-se que um médico economize!
Aqui estou eu, contando todas as gulden, e
sou chamado para ver um conhecido distante
na Rua Stadtgnt, sem nenhuma remuneração,
é claro, e perdendo duas horas, pois
não posso pagar taxi. Hoje a mesma
coisa. Chego a casa e encontro um recado urgente
para ver o homem novamente. Desta vez, naturalmente
sou obrigado a tomar um taxi, e lá
se vai o que economizei em ceias nestes três
últimos dias.
Terça-feira dei uma conferência
no Clube de Fisiologia sobre o hipnotismo;
foi muito bem e a aplaudida. Anunciei a mesma
conferência para daqui a quinze dias
no Clube de Psiquiatria e no curso das próximas
três semanas ainda farei outra conferência
sobre as minhas experiências em Paris
na Associação Médica.
De modo que a batalha de Viena está
em pleno vapor, e se você estivesse
aqui eu lhe diria, com um beijo que não
abandonei a esperança de chamá-la
minha esposa dentro de seis meses.
Acho que terei que reservar uma segunda hora
de consulta três vezes por semana dos
3 às 4 para clientes gratuitos e para
os que precisam de leve tratamento elétrico.
Apesar de tudo minha posição
aqui é forte, como posso ver em vários
indícios.
Boa noite, meu doce amor.
Seu Sigmound
Que acha de um presente coletivo para sua
mãe, novamente, este ano?
A força do amor continua a mesma, movendo
os corações endurecidos.
*Professor, Especialista em Educação,
bioquímico, Ouvidor Geral do Estado,
Advogado e Pastor Evangélico.
E-mail:otonaracy@uol.com.br
"A receita ainda não está
muito brilhante, mas os pacientes que se valem
dos meus serviços são muito
numerosos, embora não haja muitos pagantes:
a senhora do professor M. que me dá
muito trabalho, o caso de ciática que
está quase curado e os dois policiais
que vêm uma vez por semana. Amanhã
virá T. Hoje meus ganhos alcançaram
8 florins: 3 de um policial e 5 novamente
por intermédio de Breuer, que mandou
a senhora do Dr. K. ela veio pedir conselho
para aliviar o marido."