A esposa obediente

Com o evangelho deste domingo continuamos a refletir sobre o ensinamento de Jesus a respeito do perdão. Ele responde à pergunta de Pedro: “Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21).

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Certa vez, um sábio e bom mestre voltava para a sua casa, acompanhado por alguns dos seus discípulos. Eles conversavam, descontraídos, sobre os acontecimentos daqueles dias. Ao dobrar uma esquina, uma mulher saiu ao seu encontro e despejou na cabeça do mestre um balde de água suja. A agressora foi logo reconhecida como a esposa daquele que todos sabiam ser o maior inimigo do sábio, o mais rancoroso e vingativo. Os discípulos ficaram revoltados e sugeriram ao mestre punir exemplarmente a atrevida. O mestre, porém, não deixou e lhes disse: “Não castigueis essa mulher. Com certeza ela agiu assim contra mim por ordem do marido; logo, reconheçamos que ela é uma esposa obe diente. Apesar de tudo, devemos admirá-la!”.

Com o evangelho deste domingo continuamos a refletir sobre o ensinamento de Jesus a respeito do perdão. Ele responde à pergunta de Pedro: “Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21). Antes de contar a parábola do servo cruel, Jesus responde a Pedro propondo o estranho número de “setenta vezes sete”. Para entender essa quantia, precisamos voltar atrás na Bíblia. Encontramos algo semelhante em Gênesis 4,23-24. Lamec diz aos seus familiares: “Matei um homem por uma ferida, um jovem por causa de um arranhão. Se Caim for vingado sete vezes, Lamec o será setenta e sete vezes”. A matemática b&ia cute;blica pode não bater com a nossa, mas o sentido é o mesmo, com a diferença que, no caso de Lamec, o assunto é o castigo e a vingança, ao passo que Jesus está falando de perdão. Aquela punição tão desproporcional deve ser substituída por uma misericórdia igualmente sem cálculos.

Sabemos, também, que a “justiça” que Jesus propõe no discurso do monte vai além do “olho por olho, dente por dente” (Mt 5,33-37). A “justiça” de Deus se chama misericórdia e o seu perdão é grande, sem limites. Essa é a novidade do evangelho. Não é uma justiça “sem lei”, onde tudo parece ficar impune. O pecado continua algo de errado, nunca vai se tornar um bem! É a justiça que é nova. O remédio para o erro e o pecado não será mais a punição, mas será o perdão. É um caminho longo e difícil, mas não tem outro se acreditamos na possi bilidade real da nova humanidade dos filhos do Pai Misericordioso. Esse Pai está pronto a perdoar todas as “dívidas” – os nossos pecados – também quando são de tamanho e gravidade diferente. No entanto, Ele nos pede para aprender, também, a perdoar aos nossos devedores. Só implorar o perdão dele para os nossos pecados e não saber exercer a compaixão e a misericórdia com os irmãos é oração interesseira e dureza de coração. Todos devemos perdoar, porque já fomos muito perdoados. Esse é o sentido da parábola dos dois servos endividados. Ao primeiro é perdoada uma dívida inimaginável e, portanto, impagável: algo como trezentas toneladas de ouro ou de prata. Um absurdo! A dívida do companheiro era somente de alguns meses de trabalho, valendo a diária de uma moeda de prata. A irrita&cc edil;ão do rei é compreensível, porque o primeiro empregado não soube, por sua vez, perdoar a dívida bem pequena do colega. Infelizmente, não aprendeu nada com a bondade desfrutada.

Acredito que, a cada dia, descobrimos como a justiça humana é difícil de ser praticada e administrada. É costume dizer que a “justiça de Deus tarda, mas não falha”, mas o que pensar da justiça humana que, além de demorar, ainda nos parece tão falha, cheia de meandros, entraves e justificativas? Como cristãos, porém, não podemos desistir. Buscaremos leis mais justas e equânimes, procuraremos educar a consciência dos cidadãos ao respeito dessas leis, contribuiremos para a recuperação dos encarcerados, através de um sistema penitenciário capaz de redimi-los e reintegrá-los nas suas famílias e na sociedad e. No entanto nunca deixaremos de acreditar na possibilidade do ser humano de retomar o bom caminho. O perdão sempre será o início de uma nova etapa de vida, fruto do infinito amor de Deus e do nosso, ainda tão limitado e vagaroso. Em todos devemos reconhecer algo de bom, também se obedeceram a algo de errado? Quem sabe?


 
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