A tentação da violência

No primeiro Domingo da Quaresma encontramos sempre o evangelho das tentações de Jesus no deserto.

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Com a Quarta Feira de Cinzas iniciamos a Quaresma. Começamos também a Campanha da Fraternidade, uma iniciativa da nossa Igreja pensada para nos ajudar a viver este tempo forte, que nos prepara para a Páscoa de Jesus, de maneira concreta e transformadora. Durante a Campanha da Fraternidade somos sempre convidados a refletir sobre um assunto atual que nos convoca para a conversão e, ao mesmo tempo, nos impele a nos solidarizarmos com os mais pobres e sofredores, contribuindo para que projetos de melhoria de vida possam ser implantados pelo Brasil a fora. O “sacrifício” quaresmal tem por objetivo nos educar à partilha, motivados pela caridade fraterna. O tema da Campanha deste ano é a superação da violência, em todas as suas formas, as mais visíveis, as que entram, sorrateiramente, em nossas casas pelos meios de comunicação e aquelas que estão tão bem escondidas dentro de nós que nem mais percebemos a gravidade delas.

No primeiro Domingo da Quaresma encontramos sempre o evangelho das tentações de Jesus no deserto. O Evangelista Marcos não especifica quais tentações foram; simplesmente diz que Jesus “foi tentado” (Mc 1,13). Entendemos, com isso, que a tentação faz parte da nossa condição humana. Ninguém está isento. Todo dia tomamos decisões; algumas são importantes, mas a maioria nos parece pequenas ou banais, sem valor. Sempre, porém, deveríamos ter consciência das motivações que nos levam àquela escolha e das suas consequências. Em geral toda tentação se apresenta como uma opção entre algo mais fácil, agradável e vantajoso e algo mais difícil, exigente, talvez sofrido, com certeza, menos prazeroso para nós. Por isso, muitas situaç& otilde;es que deveríamos reconhecer como erradas ou prejudiciais para os outros, são escolhidas por nós simplesmente porque prevalece o nosso interesse e a nossa vontade. Assim o mal, ou o erro, se apresenta como um bem para nós, ou não tão negativo. Talvez uma punição necessária; em geral para os outros, dificilmente para nós.

É o caso da tentação da violência. Gritar, brigar, bater, fazer uma guerra, não são coisas boas em si. No entanto, em certos momentos nos parecem a solução mais fácil, ou cômoda, para sair de um conflito. Em casa, pensamos que um tapa resolva o desentendimento com uma criança ou um filho adolescente, em lugar de perder tempo para conversar com ela ou com ele. Mas um castigo, somente com grosserias, sem palavras e atenção, não resolve, irrita e revolta. Deixa rastos. Aumentando as dimensões dos problemas, também a sociedade considera justa a punição dos infratores das leis. Tiramos os criminosos de circulação e os mantemos presos. É uma solução imediata que nos faz sentir mais seguros, mas não chega às raízes da questão.Por que tanta violência e, pior, tantos jovens presos? Não vamos entrar na questão da recuperação dos infratores, ou seja, se eles, saindo da prisão, serão bons cidadão e honestos trabalhadores. Somente digo que devemos nos questionar como chegamos a ter as prisões superlotadas e de forma tão desumana. Por que a nossa sociedade, tão desenvolvida por certos aspetos, não consegue educar os seus membros a uma convivência pacífica, respeitosa e tolerante? Se vasculharmos um pouco mais a fundo devemos reconhecer muitas coisas erradas: bolsões de miséria, exclusão, falhas na educação, valores esquecidos, banalização e desprezo da vida. Por fim, assistimos impotentes, a troca de ameaças entre os poderosos do mundo que brincam com as bombas atómicas, gastando fortunas em misseis e armamentos, sem resolver os proble mas da fome, dos desequilíbrios econômicos, da poluição e das ameaçadoras mudanças do clima do planeta. Identificar as violências e as suas raízes é só o primeiro passo. Devemos encontrar saídas, aprender a vencer a tentação da violência, encontrar caminhos pacificadores para uma verdadeira cultura da paz. Como cristãos acreditamos na força do amor. Nas primeiras páginas da Bíblia encontramos o castigo do Dilúvio, mas, depois, o próprio Deus faz uma aliança e a promessa de não mais destruir a humanidade. A vida é o inestimável dom de Deus, ele não quer a morte de ninguém (Ez 18,32). Jesus veio para que tenhamos vida e vida plena (Jo 10,10). Ensinou que o amor maior é daquele que doa a própria vida para dar vida a amigos e inimigos. Assim ele fez e o Pai o ressuscitou.

Hoje respiramos violência; os outros são adversários, a vida parece uma disputa e um combate sem fim. Quando usamos violência todos perdemos. Desistimos de sermos humanos porque renunciamos ao que nos distingue como pessoas humanas: a inteligência, a palavra, o afeto e o perdão. Sejamos artesãos, construtores de paz, amorosos e fraternos. Somente assim será possível superar toda forma de violência, dentro e fora de nós.


 
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