Até o diabo obedece

Sei que foi alguém tocado pelo amor de Deus e se Deus manda, até o diabo obedece!

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Certo dia, uma senhora foi numa emissora de rádio para pedir ajuda. O esposo estava doente e desempregado. Em casa faltava comida e roupa para os filhos pequenos. Um ouvinte escutou o apelo e logo pensou que fosse a choradeira de sempre. Como acreditar em tanta desgraça? Porém teve uma ideia. Anotou o endereço da pobre mulher e, como de costume, mandou a sua empregada ao supermercado fazer as compras. Disse-lhe para comprar tudo em dobro. Depois, mandou que a empregada fosse na casa da família que estava passando dificuldade. Lá entregaria a metade das compras. Se a mulher pergun tasse quem estava enviando o “rancho” devia responder:

– Foi o diabo que mandou.
No entanto, a pobre senhora recebeu as sacolas e, muito agradecida, disse simplesmente:
– Deus lhe pague!
A empregada, titubeando, perguntou:
– Mas a senhora não quer saber quem mandou tudo isto?
Sorrindo a mulher falou:
– Sei que foi alguém tocado pelo amor de Deus e se Deus manda, até o diabo obedece!
Continuamos a leitura do evangelho de Marcos. Jesus foi um judeu obediente e cumpridor das leis religiosas. De sábado foi à sinagoga de Cafarnaum onde o povo se encontrava para rezar, proclamar e comentar as Escrituras. O evangelista nos diz que Jesus “ensinava” de um jeito diferente dos mestres da lei. Ele falava de coisas novas e como alguém que tinha autoridade. A nova “doutrina”, porém, não é explicada. Em resposta a esta possível curiosidade, o evangelista apresenta a queixa de um “espírito mau” e a ordem de Jesus: “Cal a-te e sai dele!”. Jesus “ensinava”, mas o espírito mau fala mais do que ele e faz uma declaração de fé, diz que Jesus é “o santo de Deus”. Com isso, deve ficar claro que não será a quantidade das palavras, ou somente o que é dito, que vai valer, mas quem fala. A atenção passa, portanto, das palavras em si à pessoa que fala. Ou seja: para entender o valor e o sentido das palavras ditas, precisa, antes, prestar atenção a quem as pronuncia. “O ensinamento novo dado com autoridade” é uma pessoa: é Jesus e ele ensina com palavras, gestos e ações. Não dá para separar as palavras de Jesus da sua maneira de agir. A manifestação humana de Deus, no Filho Jesus, não se deu simplesmente numa “doutrina”, mas numa maneira de viver. De fato, é a vida toda de uma pessoa qu e dá sentido às suas palavras e estas somente se entendem se colocadas na vida – e na morte – daquela mesma pessoa.

Ao longo da história da humanidade, sempre apareceram e vão aparecer pessoas fascinadas pelos ensinamentos de Jesus. Muitas das palavras dele são consideradas patrimônio universal da sabedoria humana, insuperáveis. Nunca lhes foram poupados elogios. Ainda são usadas e abusadas. Reinterpretadas e reviradas, pretensiosamente atualizadas e modernizadas. No entanto, tudo isso não tem nada a ver com a fé em Jesus. Acreditar nele é muito mais do que ser tocados pelas suas palavras, chorar ou vibrar com elas. O cristão pode decorar os ensinamentos do Mestre, mas sabe que o que deve fazer mesmo é viver como ele viveu. Por isso, o evangelista Marcos coloca esta “libertação” do homem possuído pelo espírito mau como primeiro gesto de Jesus no seu evangelho. Tudo, palavras e gestos de Jesus, são para que o ser humano volte a ser bom, muito bom, como Deus o tinha criado com a sua palavra original. O “espírito mau” do evangelho conhece quem é Jesus, mas mantem em seu poder a pessoa. Nós todos já deveríamos saber que têm palavras que encantam, mas amarram e escravizam. Têm palavras que parecem revelações, mas não comprometem a vida. Têm palavras que emocionam, mas só fazem voar, nunca aterrissar. Não fazem crescer o cristão, porque não o responsabilizam. Jesus não precisa de muitas palavras. Ele é a Palavra de Deus que se fez carne, vida, amor. Não diminuiu a autoridade dele. São a escuta sincera e a prática amorosa por parte dos cristãos que faltam. Por causa da sua palavra os espíritos maus gritam, mas obedecem. Mais do que nós. Já nem reclamamos e nem obedecemos. Estamos ficando indiferentes. Uma pena!


 
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