O cantar do galo

– É agora que vou morrer de fome! Seremos dois a repartir a minha pobre ração.

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Um ganso pertencia a um dono pobre e despreocupado. Sofria muita fome, porque se esqueciam de lhe dar de comer. Um dia, o dono comprou um galo e o fechou no mesmo galinheiro. O ganso ficou assustado ao ver o novo companheiro e, todo triste, disse-lhe:

– É agora que vou morrer de fome! Seremos dois a repartir a minha pobre ração.

– Não chore não – respondeu o galo – quando tenho fome eu sei cantar para lembrar ao dono a hora da ração. Assim, ambos comeremos!

O evangelho deste domingo nos traz a parábola do patrão que chamou operários para trabalhar na sua vinha. Até cinco horas da tarde, ainda convidou homens para o trabalho. Quando chegou o momento de pagar os trabalhadores, o dono deu a todos a mesma moeda de prata, a recompensa estabelecida por uma diária de serviço. Os primeiros operários, contratados de madrugada, reclamaram pelo o que eles achavam ser uma injustiça. Quem trabalhou menos, devia receber menos. Que justiça era aquela do patrão? A resposta do senhor da vinha não foi uma justificativa. Foi uma declaração de liberdade. Os primeiros não podiam reclamar, tinham sido contratados por uma moeda e estavam recebendo o certo, se, depois, o dono queria dar o mesmo aos demais trabalhadores, que haviam chegado depois, não estava ele livre de fazer o que queria com o seu dinheiro? A sua generosidade não deveria ser motivo de inveja, mas de surpresa e admiração.

Já disse que as parábolas de Jesus nunca são a simples apresentação de uma experiência ou de um costume daquele tempo. Sempre tem algo de novo que devemos descobrir e que torna as parábolas sempre atuais e desafiadoras. Nesse caso, a contraposição está entre um tipo de justiça, que nós chamamos de retributiva, e o jeito do dono da vinha agir. O que parece injusto, no critério do mérito, serve para tornar ainda mais surpreendente a bondade daquele patrão tão diferente e por nada aprisionado em medidas legalistas. Isso não quer dizer que as leis do trabalho não devam ser respeitadas e que o esforço de quem fadigou mais não mereça mais recompensa. A questão é outra , porque a vinha, os trabalhadores, os horários e o pagamento são todas comparações para entendermos a novidade do reino dos céus. Jesus quer nos dizer que os critérios do Pai, o dono da vinha, são diferentes das leis comuns e daquilo que, normalmente, esperamos. No “reino”, todos são filhos do Pai e ele gostaria muito que todos entrassem na sua vinha, nem que fosse na última hora. Na “vinha” estão a vida e a paz, o encontro entre todos os diferentes, primeiros e últimos. Pouco importa. O que vale é o estar juntos ao coração amoroso, misericordioso e compassivo do Pai. Não tem melhor recompensa e a comunhão com Deus será a única alegria igual para todos, superando todas as nossas mesquinhas divisões, separações e discriminações. Todos “filhos” amados pelo Filho e no Filho que o Pai enviou a chamar, a convocar, a servir e a dar a vida pela causa do “reino”.

Atualizando a Palavra. Por que a inveja dos primeiros operários? Por que acharam que mereciam mais? É porque cada um queria desfrutar sozinho o pagamento, o prêmio. O dono viu a divisão entre eles e não lhe restou que dizer a cada um: “Toma o que é teu e volta para casa!”. Mas não era isso o que ele queria. O Pai teria gostado muito que, ao final daquela jornada fadigosa, todos se abraçassem e pudessem celebrar juntos o fruto do seu trabalho, sem mais últimos ou primeiros. Só irmãos, na difícil missão de construir o reino dos céus, o reino do amor. Continuamos egoístas e gananciosos. Continuamos a pensar que a festa da vida será mais bonita se festejarmos sozinhos. Temos medo de ficar sem comida, s em conforto, sem privilégios. Continuamos invejosos uns dos outros. Deus nos entregou um jardim que daria para todos o necessário e algo mais. Bastaria partilhar mais as riquezas do planeta, da tecnologia e das conquistas da ciência. Usamos tudo isso para construir armas, para matar, não para festejar! A ração cotidiana não é tão fraca e o dono não é tão esquecido. Quem o galo deve acordar não é o dono, somos nós.


 
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