As orelhas

“Coisa de animal” é como definiram esse tipo de esporte. Não sei se Freud o estudou para analisar o que leva as pessoas a gostar de ver indivíduos trocando sopapos, quebrando caras, maxilares, brutamontes enraivecidos, sangrando e todos pedindo mais.

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Por mim, o boxe não teria sucesso nem assistente. Não acho graça em um sujeito cair de murro no outro. Coisa de temperamento. Toda violência me agride. Não vi a tal luta de Mike Tyson nem a mordida de orelha que escandalizou o mundo. Mas ouvi muita conversa de gente indignada e de gente perplexa. “Foi coisa de animal”, disse o meu chofer. “O senhor não viu?” “Não, não vi”, respondi. “Pois veja” Eu disse, como diziam os franceses da Resistência: “Jamais” – e encerrei o diálogo.

“Coisa de animal” é como definiram esse tipo de esporte. Não sei se Freud o estudou para analisar o que leva as pessoas a gostar de ver indivíduos trocando sopapos, quebrando caras, maxilares, brutamontes enraivecidos, sangrando e todos pedindo mais.

Com certa perplexidade vi senhores sisudos, com ares de sábios, a Junta do Boxe de Nevada, num tribunal com todo o ritual da Justiça, proibindo Tyson de lutar, com o veredicto de que morder orelha desmoraliza o boxe. Ora, a orelha é um pedaço do corpo humano que tem raízes mitológicas. Ela era consagrada a Mnemósine, que, tendo como companheiro Zeus, foi mãe das nove Musas, cada uma tendo a seu encargo presidir uma ciência ou arte específica. Clio, a história; Talia, comédia e poesia; Euterpe, a música; Terpsicore, a dança; Melpômone, a tragédia; Erato, a lírica; Caliope, a épica; Polímnia, a retórica; e Urânia, a astronomia.

Pois é a orelha, com todos esses mantos de proteção, que Tyson violou. O padre Vieira, não propriamente da orelha, mas dos ouvidos que fazem parte do conjunto, dizia que os que governam tinham que ter dois ouvidos, um para ouvir o ausente e outro, o presente, acrescentando que o Espírito Santo tinha espinhos nas orelhas para que as coisas não entrassem de uma vez, dessem tempo à reflexão.

Popularmente, diz-se que fulano torceu a orelha, isto é, pagou pelo que fez, e muitas vezes para advertência o gesto que se faz é de “vou puxar tua orelha”. As velhas professoras do passado ensinavam com a mão agarrada na orelha, para que não se esquecesse do que se aprendia. Não sei se os lutadores do passado tinham as regras de Nevada ou se podiam morder as orelhas e dar golpes baixos.

Mas o certo é que Lucrécio, no seu “De Natura Rerum”, afirma que as armas antigas eram “manus, ungues, dentesque fuerunt”, isto é, mãos, unhas e dentes. No caso, Tyson entrou com os dentes e o Holyfield com a orelha. Costuma-se dizer que a briga de mulheres, não afeitas às armas, é com unhas e dentes. Depois, viu-se que no boxe isso também existe.

E na política, como é a luta? Acredito que com unhas, dentes, paus e pedras, facas no escuro e tiroteios. É uma luta, também, primitiva. É um vale-tudo. Comem-se orelhas de todo mundo, a toda hora, e ninguém é expulso, punido ou multado.

Na campanha presidencial que virá, na linguagem antiga, dir-se-ia ser hora de colocar as barbas de molho. Nos tempos modernos a coisa é diferente. Com reeleição e tudo é hora de proteger as orelhas das dentadas. Eu, de minha parte, usando a prudência, já estou procurando esconder as minhas.


 
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