Confidências ao Mucuim

Os estudantes deveriam pesquisar nas bibliotecas das escolas onde estão matriculados ou na Biblioteca Estadual Elcy Rodrigues Lacerda. Ocorre, que elas não têm acervo histórico da forma como nos e outros pesquisadores possuímos.

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No decorrer da irradiação do Programa “À Hora dos Tucujú”, que eu e a Cristina Homobono apresentávamos através da Rádio Difusora de Macapá, um ouvinte residente no Buritizal ligou para saber notícias do Historiador Estácio Vidal Picanço, visto que, a maioria dos radialistas não citava seu nome. Informei-lhe que o Estácio enfrentava sérios problemas de saúde, contando com a abnegação de seus familiares para superá-los. O ouvinte tinha sido aluno do Estácio e torcia pelo Amapá Clube, agremiação onde o brilhante Historiador atuou como goleiro, usando o apelido de Mucuim. De volta á minha casa encontrei uma carta do Estácio, escrita à máquina, lamentando estar doente e praticamente esquecido. Decidi escrever algumas linhas ao ditoso professor, com o título de Confidências ao Mucuim:

“Meu caro Estácio Vidal. Convivendo com você no rádio, na educação, no jornalismo e nas lides esportivas, sou testemunha da tua luta para assegurar que a bela história do Amapá seja difundida e valorizada. Você mesmo fez isso com invulgar propriedade. Se hoje comemoramos a data da elevação do povoado de Macapá à categoria de vila, dia 4 de fevereiro, é porque suas cobranças ganharam adesão do Conselho Territorial de Cultura e ecoaram no Plenário da Câmara Municipal de Macapá, forçando a aprovação de uma lei determinando que assim fosse. Apenas nos dois tornamos evidentes nos meios de comunicação os clamores dos antepassados. Você divulgou os principais fatos da História do Amapá através de jornais. Eu continuo a fazê-lo pelas ondas do rádio e, devido a tua impossibilidade de atuar na imprensa escrita, tenho publicado alguns artigos. Mesmo escrevendo sobre fatos históricos, tenho angariado a antipatia de alguns neófitos jornalistas. Não sei o motivo dos achincalhes. Suponho que estou incomodando a alta estima dos parvos e dos sedentos por reconhecimento e consideração. Entretanto, nossos ex-alunos e os atuais estudantes, notadamente os universitários, nos prestigiam e nos valorizam. Insistem comigo em obter informações nos meus arquivos e tomar por empréstimo livros e fotografias. Agem exatamente como outros estudantes e professores fizeram no tempo em que o nobre amigo estava são e podia atendê-los. É curioso este fato.

Os estudantes deveriam pesquisar nas bibliotecas das escolas onde estão matriculados ou na Biblioteca Estadual Elcy Rodrigues Lacerda. Ocorre, que elas não têm acervo histórico da forma como nos e outros pesquisadores possuímos. Acervo conseguido a custa de muito esforço, perseverança e dispêndio de recursos próprios. Fizemos isso para suprir as nossas próprias carências de informação, pois, na condição de professores de História, nosso dever era repassar conhecimentos aos alunos. Não foram poucos os pedidos, que os lentes de História, nosso contemporâneos fizeram aos governadores, no sentido de ser constituído um grupo de pesquisa no seio na Divisão de Difusão Cultural/Secretaria de Educação e Cultura. O propósito era o de formar um banco de dados históricos, para uso público. Os invejosos, que sempre procuram ridicularizar medidas dessa natureza, disseram que a reivindicação não tinha sentido. Hoje, outros indivíduos prepotentes e despeitados ressoam os ditos do passado. Sem poder recorrer a uma fonte oficial, os estudantes desenvolvem pesquisas junto a pessoas inventivas, contribuindo para a deturpação dos fatos reais. A transmissão oral da “estória” não tem o valor incontestável da História.

Também existem os que não pesquisam e se valem dos escritos alheios para querer demonstrar conhecimento. Dá-se, a isso, o nome de saber de experiência feita. Camões dizia: “Não se aprende, senhor, na fantasia, sonhando ou estudando,mas vendo,tratando e planejando”. Nosso saudoso amigo Hélio Penafort costumava dizer que: “quando o caboclo não sabe alguma coisa, faz valer a imaginação”. A História não permite fantasias. O estudo da História tem que ser realizado com os olhos da História e não relacionado a conceitos atuais. A cultura é a ação consciente do homem para transformar a natureza em seu proveito. “Só os presunçosos não sabem”. Não se avexe, porque você nunca será esquecido.


 
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