Macapá pitoresco

O Forte de Faxina, decorrente de taipa de pilão, não tinha muralhas e correspondia a uma base com anteparos e reparos para os canhões. Entenda-se que reparo é o suporte de uma boca-de-fogo, com dispositivos que permitem dar-lhe os movimentos necessários à execução da pontaria, limitar o recuo e facilitar-lhe o transporte.

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A cidade de Macapá tem coisas curiosas que surgiram ao longo da sua história. O local onde foi instalado o povoado era conhecido como Maca-Paba em novembro de 1751, vocábulo de origem nheengatu, que tanto pode ser entendido como “Estância das Bacabas” ou “Onde Acabam as Bacabas”. O primeiro significado prepondera sobre o outro, e parece mais apropriado. A povoação surgiu em torno de um Forte de Faxina edificado no platô de terra firme onde mais tarde seria erguida a portentosa Fortaleza de Macapá. Tudo era muito simples, prevalecendo os tipos de construção denominados “taipa de pilão”, “taipa de mão” e tijupá.

O Forte de Faxina, decorrente de taipa de pilão, não tinha muralhas e correspondia a uma base com anteparos e reparos para os canhões. Entenda-se que reparo é o suporte de uma boca-de-fogo, com dispositivos que permitem dar-lhe os movimentos necessários à execução da pontaria, limitar o recuo e facilitar-lhe o transporte. Em outras palavras, reparo é o carrinho onde o canhão repousa. Em 1758, quando traçaram a planta da Vila de Macapá, o “risco” reservou espaços para dois “largos”, o de São Sebastião e o de São José. O primeiro acabou passando a história como Largo da Matriz, depois Praça Capitão Assis de Vasconcelos e Praça Veiga Cabral. Naquela época, Largo era largo mesmo. O Largo de São José mudou para Largo de São João e Praça Barão do Rio Branco.
O povo dizia que a primeira praça era a de baixo e a segunda, a de cima. O traçado da Vila compreendia ruas e travessas. As antigas ruas hoje são avenidas. As travessas viraram ruas. Macapá pouco cresceu entre 1758 e 1943. O burgo, sede do Município de Macapá, pertencente ao Estado do Pará, era um lugar decadente onde a malária campeava. A partir de 1944 o panorama começou a mudar. Em abril daquele ano, o governador Janary Nunes iniciou a desapropriação das casas construídas em volta do Largo de São João, Praça de cima ou Barão do Rio Branco. Indenizou todos os moradores e fez surgir um novo bairro, o Laguinho. Em seguida, veio o bairro do Hospital. Como as casas eram construídas no topo das elevações que circundavam um lago, o pessoal de fora lascou o nome de Favela. As obras realizadas na cidade atraíram pedreiros, carpinteiros, mestres-de-obras, artífices, marceneiros.

O governo construiu a Olaria Territorial, produzindo tijolos, telhas, manilhas para esgoto, ladrilhos para assoalhos etc. À concentração de residências em torno do empreendimento, o pessoal deu o nome de bairro da Olaria. A área próxima era alagada e os gestores territoriais e municipais, optaram por fixar os proletários em espaço contíguo ao bairro da Fortaleza.

O crescimento foi rápido. Descobriram que naquelas terras havia sido instalado o trem de lapidação das pedras da Fortaleza. Trem é o conjunto de ferramentas e instrumentos necessários à realização de um trabalho. Foi o bastante para o bairro perder o designativo anterior e ganhar a alcunha de Trem, o bairro proletário, visto que a prole (filhos) dos moradores era muito grande. Os que viviam ligados às atividades próprias de ribeirinhos se fixaram no Elesbão. Entre o bairro da Fortaleza e o Elesbão, havia uma passagem tortuosa, em declive, onde morava uma senhora desprovida de beleza física, cujo rosto lembrava um marsupial amazônico. Seu apelido deu nome à ruela: baixa da Maria Mucura. Gradativamente a área municipal expandiu-se, com a formação de outros bairros: Igarapé das Mulheres, Morro do Sapo, Vacaria, Pacoval, Muritizal e depois Buritizal, CEA, Equatorial, Muca, Beirol. Alguns acontecimentos a nível nos contribuíram para a denominação de outros aglomerados: Jacareacanga, Malvinas, Coréia do Norte e Coréia do Sul e Nicarágua. O nome mais curioso foi dado a uma extensão da cidade no atual bairro Santa Rita, próximo ao Aeroporto: Planície dos Corruptos.

A área fora desapropriada e, devidamente dividida, foi destinada aos amigos de um governador acusado de ações ilícitas. Atualmente, nossa distinta e maltratada Macapá possui cerca de 40 aglomerados populacionais entre conjuntos e bairros: Centro, Laguinho, Trem, Perpétuo Socorro, Santa Inês, Beirol, Santa Rita, Jesus de Nazaré, Pacoval, Nova Esperança, Buritizal, Congos, Alvorada, São Lázaro, Renascer, Muca, Jardim Marco Zero, Zerão, Universidade, Jardim Felicidade I e II, Novo Horizonte, Infraero I e II, Cidade Nova, Aturiá, Jardim Equatorial, Pedrinhas, Boné Azul, Açaí, Brasil Novo, Cabralzinho, Pantanal, Marabaixo I, II e III, Liberdade, Morada das Palmeiras, Horto Floretal. Um dia um sujeito perguntou-me por que os amapaenses gostavam tanto dos Cubanos, a ponto de nominar um bairro como Cuba. Esclareci que o nome correto é Cuba de Asfalto, nada a ver com o velho Fidel. De barbicha, fantasioso e falastrão já basta um “aquelezinho” que perambula por estas plagas.


 
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