O homem que adorava palavras novas

Como costuma acontecer, sempre que um incêndio ocorre em órgão público, a polícia instaura um processo para apurar as causas e a responsabilidade do sinistro.

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Em qualquer lugar deste mundo há pessoas que falam pelos cotovelos, são ávidas em dar noticias quentinhas e costumam usam palavras que ouvem nos meios de comunicação, mas nem sempre nem sempre sabem o que elas significam. Gente com essas características existem pelo Brasil inteiro e algumas delas já transitaram pela vida em terras do Amapá. A avidez em contar novidades, sem procurar saber se o que lhe contavam tinha algum cunho de verdade, acabou rotulando alguns cidadãos como “mentira fresca”, “sabe tudo”, “orelhudo”, “boateiro”, etc. Na década de 1960, na cidade de Amapá, aconteceu um fato bem interessante, envolvendo um sujeito que parecia ter a língua grande demais. Em tudo ele metia sua “colher enferrujada”, dando palpites e formulando acusações a terceiros sem ter as provas cabais. Certo dia, um incêndio ocorrido na Prefeitura Municipal de Amapá destruiu grande parte do arquivo da comuna, inclusive documentos contábeis.

O tal sujeito nem esperou o fogo ser apagado para sair espalhando que o responsável pelo incêndio era o Prefeito Leonel Nascimento, cujas prestações de conta estavam eivadas de irregularidades. A acusação contra o baiano Leonel Nascimento era descabida e isso ficou evidente quando o inquérito policial foi concluído. Porém, no foco dos acontecimentos, o sujeito falador dizia abertamente que o prefeito era o único culpado. Familiares, parentes e amigos aconselharam o presepeiro a parar com as bobagens que andava falando. De nada adiantaram os conselhos e as ponderações. Cada vez mais incisivo, o indivíduo destilava seu veneno sem medir as conseqüências. Seu ponto preferido para contar novidades duvidosas era um bar que ficava no inicio da Avenida Antônio Lemos, voltado para a praça, no canto oposto onde ficava o prédio da Prefeitura de Amapá.

Como costuma acontecer, sempre que um incêndio ocorre em órgão público, a polícia instaura um processo para apurar as causas e a responsabilidade do sinistro. Esta providência foi adotada em Amapá, mas ninguém se ariscou a atuar como testemunha de acusação, nem mesmo o contumaz orelhudo. No período em que os policiais passaram na cidade o boateiro andou sumido, provavelmente enfornado em fazenda de familiares. Depois da passagem dos policiais, chegaram à cidade de Amapá, sem qualquer alarde, os três membros de uma comissão de inquérito administrativo. À noite, no bar mais freqüentado da cidade, os integrantes da comissão tomavam um lanche quando apareceu o boateiro. As pessoas naturais de Amapá sabiam que havia forasteiros no bar, entretanto não tinham a menor idéia do motivo da visita. Como todo sujeito presepeiro gosta de jogar para a platéia, não demorou muito para que o orelhudo começasse a fazer suas costumeiras acusações contra o prefeito. Instigado por seus conterrâneos, ele até encenava o modo como teria agido o gestor municipal. Até parecia que o boateiro estava no arquivo da prefeitura quando o fogo começou.

Os membros da comissão de inquérito administrativo ouviam tudo com absoluta discrição, rindo com os jeitos e trejeitos que o acusador fazia. Em dado momento, o presidente da comissão perguntou ao tagarela se ele era homem suficiente para confirmar as denuncias caso fosse “inquirido” a fazê-lo. Radiante com o termo inquirido, que até aquele momento desconhecia, o tagarela se limitou a dizer “unrum”.

Diante da resposta, feita na presença de testemunhas, o presidente da comissão esclareceu o motivo de sua presença em Amapá e disse ao tagarela que ele seria intimado a depor. Pensando que iria sair bem do sufoco, o tagarela empregou uma palavra nova que tinha ouvido há pouco tempo: “assim não mestre, estou anexo ao caso”. E foi anexo mesmo, embora julgasse que o significado do termo fosse “estou fora”. Quem não ficou anexo foi o prefeito Leonel Nascimento que teve sua inocência reconhecida pelo Juiz de Direito da Comarca de Amapá. Leonel nasceu em Ilhéus/Bahia, no dia 13/4/1922. Chegou ao Amapá em outubro de 1945.Faleceu dia 25/1/2019, prestes a completar 97 anos de idade.Deixou páginas apinhadas de bons serviços prestados ao Amapá.


 
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