Proibição do uso de baladeira

O tal brinquedo corresponde a um artefato compreendendo uma forquilha de madeira, munida de duas tiras de câmara de ar e uma rede de couro, com o que se atiram pedras.

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Embora o governo do Território Federal do Amapá desenvolvesse diversos programas sociais para manter as crianças e os adolescentes ocupados com atividades produtivas, alguns menores rebeldes preferiam permanecer perambulando pelas ruas e pontos periféricos de Macapá, balando passarinhos e frutas com baladeiras. A despeito de ser considerada pelos macapaenses como um brinquedo de criança, a baladeira ou atiradeira pode causar sérios danos às pessoas e animais, além de provocar prejuízos nos telhados e janelas de vidro.

O tal brinquedo corresponde a um artefato compreendendo uma forquilha de madeira, munida de duas tiras de câmara de ar e uma rede de couro, com o que se atiram pedras. Em outras partes do Brasil prevalecem outras denominações como baleeira, beca, bodoque, badoque, badogue, estilingue, funda, peteca e seta. No Norte e no Nordeste do Brasil os meninos de rua eram rotulados como moleques e não respeitavam.

Em Macapá, o uso da baladeira era tão intenso, que volta e meia os pais dos usuários do artefato eram intimados pelas autoridades policiais para comparecerem à Divisão de Segurança e Guarda a fim de resgatarem seus filhos. A reprimenda que os genitores recebiam era terrível, merecendo mesmo ser chamada de esculhambação. Houve casos em que os moleques praticavam pequenos furtos, principalmente de animais domésticos e ainda balavam nos donos das galinhas e patos. Eles também quebravam as lâmpadas dos postes da rede elétrica e de residências. Os acertos de contas entre moleques desafetos eram frequentes. Ao balarem nas mangas pituriscas, acabavam atingindo telhados das casas quando não acertavam o alvo. Como não podiam agir livremente no centro de Macapá, os moleques baladores freqüentavam a praia, na maré baixa, tentando matar maçaricos, socós, mergulhões, gaivotas e tralhotos. Também eram vistos ao longo da pista de pouso do aeroporto da Panair do Brasil que ocupava uma extensa área onde seriam abertas as avenidas FAB, Procópio Rola e Raimundo Álvares da Costa e as ruas General Rondon, Eliezer Levy, Odilardo Silva, Jovino Dinoá, Leopoldo Machado, Hamilton Silva, Manoel Eudóxio Pereira e Professor José Barroso Tostes. Ali eram abatiam rolinhas, rolões, galegas, galo-da-campina, papa arroz e outros passarinhos. Entre os passarinhos havia um chamado João Tolo, mais esperto do que o cão. Ele se metia entre as moitas de capim e pulava quando cantava. Nunca ouvi dizer que alguém tenha conseguido matá-lo com baladeira.

Em 1953, a situação era tão preocupante, que o tenente Luiz Ribeiro de Almeida, advogado que se encontrava ocupando o cargo em comissão de Diretor da Divisão de Segurança e Guarda-DSG, baixou uma ordem de serviço nos seguintes termos: “Ordem de Serviço nº. 19. O Diretor E Comandante da Divisão de Segurança e Guarda pela presente Ordem de Serviço: Considerando a nocividade e a periculosidade decorrente do uso abusivo da baladeira, também conhecida por bodoque, tiradeira, etc., para a integridade cívica da coletividade, além dos danos materiais que vem causando; Considerando, que nos últimos tempos, a cidade vem sendo infestada por tão nocivo instrumento utilizado especialmente por menores desocupados ou mal orientados; Considerando, ainda,que inúmeros casos vêm se registrando nesta Divisão, com queixas constantes sobre acidentes, alguns mesmo de caráter grave e de conseqüências lamentáveis; RECOMENDO: a) Todo menor que for encontrado utilizando baladeiras, bodoques, tiradeiras ou coisa semelhante, deve ser conduzido a esta Divisão, notificando-se em seguida os pais ou tutores para, tomando conhecimento do caso, proibirem aqueles de tal prática sob pena de responsabilidade perante a Lei; b) O nocivo instrumento deverá ser apreendido e inutilizado; c) Em caso de reincidência, esta chefia determinará o encaminhamento do menor e respectivo responsável ao Exmo Sr. Dr. Juiz de Menores para os fins de direito. Dê-se Ciência e Cumpra-se. Macapá, 10 de novembro de 1953. a) Luiz Ribeiro de Almeida – Tenente Diretor da D.S.G.” A ação dos soldados da Divisão de Segurança e Guarda redundou na detenção de alguns menores delinqüentes sobejamente conhecidos das autoridades policiais e do próprio Juizado de Menores.Como não havia local apropriado para mantê-los sob processo socioeducativo, o Governador Janary Nunes autorizou o Dr. Marcílio Felgueiras Viana, Diretor da Divisão de Educação, a manter contato com o governador do Pará, no sentido de obter vagas para interná-los no Reformatório Educacional de Menores, na Ilha de Cotijuba. Firmado o convênio, os moleques arruaceiros, brigões e surrupiadores do bem alheio sumiram das ruas de Macapá. Daí em diante, bastava alguém ver um menor praticando desatinos para dizer: “ta doido pra ir pra Ilha de Cotijuba”.


 
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