Tal é o dia do batizado

A Coroa desencadeou o arrocho de impostos, destinado à reconstrução da capital Portuguesa. Joaquim José computou mais uma revolta íntima contra o poder lusitano. Para completar sua indignação, perdeu a mãe em 1755 e o pai, em 1757.

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Os filhos do casal Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier, seis ao todo, ou um rosário como dizia a matriarca da família, levavam a vida na base do vento a favor. O grupo recebia a intromissão de um moleque negro chamado Simplicio, amigo fiel de Joaquim José. O recanto da família era a Fazenda Pombal, à margem do rio das Mortes e próximo a Vila de São João Del-Rei, nas Minas Gerais. A fazenda passou a enfrentar problemas econômicos a partir de 1753, quando o ouro retirado à beira dos córregos e na lombada da colina começou a rarear. Metade dos escravos foi vendida, mantido o restante dos serviçais para tocar a lavoura do milho e da cana-de-açúcar. A cobrança excessiva de impostos contribuía decisivamente para a decadência da Fazenda Pombal. Domingos da Silva Santos não queria que os filhos se tornassem simples trabalhadores braçais da fazenda. Pretendia dar-lhes instrução e meios de vida menos penosa. Estudos em seminários era coisa comum na capitania de Minas Gerais. Seguindo o costume, Domingos Xavier, o filho mais velho, foi mandado para o seminário de Mariana. No princípio de 1754, Domingos da Silva Santos, procurou o mulato Mestre Lucas e matriculou os filhos Antônio e Joaquim José na singela escola que o amigo mantinha em São João del-Rei, instalada próxima a igreja de São Francisco. Mestre Lucas, que havia cursado as aulas do seminário de Mariana, ensinava as primeiras letras e rudimentos de música. Antônio tinha oito anos, Joaquim José, sete. Seis meses depois da matrícula, Joaquim José já lia e escrevia como gente grande, sendo apontado por Mestre Lucas, como exemplo a seguir. O mulato dizia que Joaquim José iria longe. Quanto aos outros alunos, sem palmatória e vara de marmelo não evoluíam. Um dia, Joaquim José regressava para casa quando viu, na saída da vila de São João del-Rei, sobre um poste de madeira plantado à margem do córrego do Lenheiro, a cabeça ensangüentada de um negro, de olhos abertos e língua pendente. A cabeça fora de um escravo condenado à forca porque agrediu o senhor, depois de chicoteado. Os olhos arregalados do negro pareciam seguir os transeuntes. A cena deixou o menino aterrorizado e enfermo por alguns dias. Ao fim de uma semana o pai foi levá-lo a escola, uma vez que ele se recusava a ir sozinho com o irmão mais novo. Ao passar pelo poste onde estava a cabeça do negro, Joaquim José verificou que os urubus já haviam devorado quase tudo. Em 1755, Domingos da Silva Santos foi escolhido para as funções de vereador à Câmara da Vila de São José, vizinha a São João del-Rei. Não podia fazer quase nada. Mas, o dinheiro ajudava bastante. Naquele ano ocorreu o terremoto de Lisboa. A Coroa desencadeou o arrocho de impostos, destinado à reconstrução da capital Portuguesa. Joaquim José computou mais uma revolta íntima contra o poder lusitano. Para completar sua indignação, perdeu a mãe em 1755 e o pai, em 1757. Os irmãos Domingos e Antônio estudavam no seminário de Mariana. Em 1759, a irmã Maria Vitória casou-se e foi morar na povoação de Santa Rita do Rio Abaixo, cerca de três léguas da Fazenda Pombal. O adolescente Joaquim José, agora, somava 14 anos de idade e dirigia com sucesso a Fazenda Pombal.

Em 1767, Joaquim José deixou a fazenda e passou a andar cruzando sertões em todos os sentidos. Fazia de tudo para sobreviver. Mas, a vida de mascate não lhe trouxe fortuna. Era ruim de negócio. Doía a consciência sempre que o lucro obtido não se lhe afigurava justo ou honesto. Passou a ser pesquisador de outro e orientador de lavras. Fez muita gente nadar em prosperidade, enquanto ele mesmo, pouco auferia. O jovem idealista, Joaquim José, ganhou o apelido de Tiradentes, depois que passou ao ofício de dentista. “A esta habilidade de arrancar e colocar dentes juntou a de curar certas moléstias, principalmente da pele, por meios de ervas e raízes, e ainda a de realizar pequenas operações cirúrgicas”. Vagava pelos sertões incessantemente, consertando aqui uma boca, sarando ali uma ferida na perna, lancetando um tumor acolá. O novo ofício, rotulado pelo povo como “Tiradentes”, lhe valia pouco, porque sentia pena dos clientes. Joaquim José foi preso pela primeira vez, na Vila de Minas Novas, por ter agredido um português que chicoteava um escravo. Veio a sua mente a lembrança do escravo degolado em São João del-Rei.

Por volta de 1778, residindo no centro da Capital de Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier era, então, alferes do Regimento de Dragões. Tinha 33 anos de idade. Foi servir em Vila Rica , atual Ouro Preto. Usava vasta cabeleira e densa abarba. Era loquaz e alegre, passando por momentos de tristeza e silêncio, com o olhar perdido na distância. Fronte ampla, olhos brilhantes gestos decisivos, corajoso, dissimulado e extremamente generoso. A fama da sua valentia alcançara o próprio reino, de onde se expediram ordens para que lhe fosse entregue a ronda da serra da Mantiqueira, que os bandoleiros infestavam, tornando perigosas as viagens entre Vila Rica e o Rio de Janeiro. Também fazia a exploração dos sertões para saber e indicar se havia ouro ou não. O soldo que recebia não trouxe a Tiradentes a tranqüilidade com que contava. Apesar de ter livrado a serra Mantiqueira dos bandoleiros, nunca foi promovido. Os abusos de poder das autoridades o irritavam. Pediu licença do Regimento de Dragões e foi tentar a mineração. Pouco depois voltou à milícia, cada vez mais indignado com os governantes. Em 1788, no final do mês de março, ele partiu para o Rio de Janeiro, onde conheceu o Doutor José Álvares Maciel, natural de Vila Rica que estudava em Coimbra. No primeiro encontro o assunto Independência do Brasil veio à baila. Voltando a Vila Rica foi imaginando o Brasil independente. Pensou na bandeira: “Há de levar um triangulo!“. Um triângulo que representa a Santíssima Trindade. A idéia foi crescendo. Já não era discutida reservadamente entre Tiradentes e Álvares Maciel, mas também com Tomás Antônio Gonzaga, os Padres Toledo e Rolim, Cláudio Manoel da Costa e Coronel Inácio José de Alvarenga Peixoto. Alvarenga e Cláudio que tão bem conheciam o latim discutiam o dístico a ser adotado. De inicio, pensaram em “Libertas Oequo Spiritu”, logo abandonado, visto que constava na bandeira dos americanos e ingleses. “Evoluíram para Art Liberto, Art Mihil” e depois para “Libertas quae sera tamen”… (Liberdade ainda que tardia). A sugestão foi de Alvarenga Peixoto, aprovada por todos. A bandeira corresponderia a um retângulo branco, tendo ao centro um triângulo vermelho e abaixo dele o dístico “Libertas qual será também”. A senha instituída por imposição de Tiradentes era: “Tal dia é o Batizado”. A divulgação do movimento cresceu bastante, alcançando Tijuco, Serro, Montes Claros, Vila São José, Vila São João, Laje, Paraopeba, Tamanduá, Campanha, Baependi, Juiz de Fora, Matias, Barbosa, Prados, Borda do Campo, Sabará, Mariana, Congonhas do Campo e Carijós. Tudo ia bem até a adesão do Coronel Joaquim Silvério dos Reis, que denunciou o movimento em troca de regalias pessoais. (Continua no próximo domingo)


 
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