Senhor, ouvi a minha oração

O fiel se debate em um drama que parece cruel e sem fim. Um íncubo letal. De fato, o inimigo precipitou-o no perigo da morte.

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O salmo 142 das Sagradas Escrituras foi escrito no tempo do pós-exílio. É uma súplica penitencial, uma oração ao Senhor pela condição de pecado do ser humano. Dentre os 150 salmos, há sete que invocam a penitência: 6, 31, 37, 50, 101, 129 e o 142. Este último inicia por uma proclamação. “Não entreis em juízo com o vosso servo, porque ninguém que viva é justo diante de vós”. Aquilo que se pode perceber na leitura deste salmo é uma impostação ao redor de duas oscilações poéticas e temáticas que se entrelaçam por toda a sua narração. Dos versículos de 1 a 6, nota-se uma constante e persistente invocação ao Senhor, que é fiel à sua obra e ao seu amor, bem diferente do ser humano que é inconstante e que nada tem para se vangloriar.

O fiel se debate em um drama que parece cruel e sem fim. Um íncubo letal. De fato, o inimigo precipitou-o no perigo da morte. E assim o autor do salmo descreve tudo isso com: a “terra” qual alusão à morte, as “trevas” enquanto negação da via que conduz à luz do sol, e, enfim, os “mortos desde há muito tempo”: “O inimigo trama contra a minha vida, ele me prostrou por terra; relegou-me para as trevas com os mortos.” E logo em seguida o autor diz: “Desfalece-me o espírito dentro de mim, gela-me no peito o coração. Lembro-me dos dias de outrora, penso em tudo aquilo que fizestes, reflito nas obras de vossas mãos. Estendo para vós os braços: minha alma, como terra árida, tem sede de vós.”

É uma descrição de si mesmo, daquilo que experimenta e vive. É o profundo desejo da palavra e da intervenção de Deus para que o possa salvar. E essa expressão do fiel “estendo para vós os braços: minha alma, como terra árida, tem sede de vós” é um grito de socorro a Deus. Nos versículos de 7 a 12 é a oração que manifesta a sua máxima tensão. O fiel percebe como a morte o persegue: “Apressai-vos em me atender, Senhor, pois estou a ponto de desfalecer.” Assim sendo, se Deus oculta a sua face, o ser humano cai no vazio e “desce à sepultura”. Porém, o fiel é confiante que o final não será assim: que o desespero e a morte tomem conta da sua vida.

E com a imagem do dia que amanhece, deixando a noite escura das provas, Deus derrotará as trevas do sofrimento, rejeitando definitivamente as trevas da vida. Então, ele proclama: “Fazei-me sentir, logo, vossa bondade, porque ponho em vós a minha confiança. Mostrai-me o caminho que devo seguir, porque é para vós que se eleva a minha alma.” Deus, protagonista do fiel, se deixa conduzir pelo percurso da vida: “Em vós que ponho a minha esperança.” Continuando, diz: “Ensinai-me a fazer vossa vontade, pois sois o meu Deus. Que vosso Espírito de bondade me conduza pelo caminho reto.” E essa intervenção de Deus, além de oferecer a salvação do fiel, compreende também o julgamento rigoroso sobre os infiéis que serão eliminados porque ameaçaram o servo fiel do Senhor: “Pela vossa bondade, destruí meus inimigos e exterminai todos os que me oprimem, pois sou vosso servo.”


 
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