Um único elo com o melhor Flamengo

São alguns exemplos do rigor, da competência, do profissionalismo trazidos para o futebol brasileiro por Jorge Jesus, valores que lhe conferem absoluto respeito e obediência do elenco rubro-negro.

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No primeiro dia em que o português Jorge Jesus pisou no Ninho do Urubu, para conhecer um de seus locais de trabalho, ele se incomodou com a altura da grama do campo principal. Chamou o responsável pelo corte e perguntou: “Quanto você corta?” A resposta: “21 (e uma medida qualquer de altura de grama, que confesso desconhecer)”. A tréplica de Jesus: “Não, não, não. Agora vai cortar 16. Ou, de preferencia, 15”. Traduzindo: o técnico exige um campo impecável e grama mais curta, que possibilita um jogo mais veloz. Não à toa o Flamengo pisa no acelerador em campo, e não se complica. A velocidade existe até nas cobranças de falta, nas quais o time não perde mais tempo – caiu, levantou, bateu. E tampouco reclama da arbitragem, diminuíram muito os cartões por reclamação.

São alguns exemplos do rigor, da competência, do profissionalismo trazidos para o futebol brasileiro por Jorge Jesus, valores que lhe conferem absoluto respeito e obediência do elenco rubro-negro. Quando os resultados começam a aparecer no campo, e como falamos de Flamengo, começam a pipocar as comparações com o melhor Fla de todos os tempos – que começa a crescer em 1978, ganha o mundo em 1981 e fecha o ciclo em 1983.
O primeiro erro é a comparação em si. Pelo fato simples de que o time atual ainda não conquistou. Ora, como o anterior conquistou tudo, comparar é apenas jogar nos ombros do atual um peso inútil – nessa linha, se o time for campeão brasileiro, da Libertadores, mas não vencer o Liverpool, vão dizer que é ruim porque em 1981 ganhou. Mais: o futebol era outro esporte nos anos 80. Mais: o time dos anos 80 era quase todo formado na base do Flamengo, esse é quase todo de “estrangeiros” (por mais que o atual seja vitorioso, a identificação com o torcedor jamais poderá ser a mesma, até porque não haverá como esse elenco ser mantido por tantos anos, não se faz mais isso no Brasil há anos).

Para quem se acha que pelo investimento e pelo treinador que tem o Flamengo tem de ganhar tudo, é preciso lembrar que o time de Zico e Júnior não ganhou tudo. Em 79 ganhou dois estaduais e perdeu o Brasileiro; em 80, o inverso, campeão brasileiro, nada de estadual; em 81, ganha estadual, Libertadores, Mundial, mas perde o Brasileiro; em 82, ganha o Brasileiro mas perde estadual e Libertadores; e em 83 bisa o Brasileiro e perde o Estadual (este com Zico já na Itália).

Há contudo, um aspecto que já une o Flamengo atual com o melhor de todos os tempos – e se Jesus continuar, ou deixar esse legado, pode ser o ponto de partida para novos anos de glória. O técnico que iniciou a gloriosa caminhada em 1978, o capitão Cláudio Pêcego Coutinho, usava uma situação do boxe para exemplificar o que o Flamengo fazia: “Quando você encaixa um golpe no oponente, aproveite que ele está grogue e saia batendo firme até ele cair. Se o time fizer um gol, faço o possível para fazer dois, ou três para ganhar o jogo, se possível ganhar com folga.”


 
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