Nota 10

Jornalista amapaense é premiada com reportagem sobre perigos do movimento antivacina

Laura Machado produziu a reportagem em janeiro de 2021 e recebeu nesta quarta-feira (13) o prêmio estadual Robério Nobre, com o título de profissional da Comunicação 2021.

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Fotos: Secom/GEA e Laura Machado

De volta a 1904: Entenda os perigos do movimento antivacina para a saúde pública”. Este é o título da reportagem escrita que rendeu à jornalista amapaense Laura Machado o título de profissional da Comunicação 2021, categoria internet.

Falando sobre os perigos do movimento antivacina em 2021, quando o mundo ainda vive a pandemia da covid-19 e vivencia uma grande campanha de vacinação, a jornalista faz um recorte histórico até 1904.

O prêmio Robério Nobre, idealizado pela Secretaria de Tecnologia do estado (Setec), premiou nesta quarta-feira (13) diversos profissionais de várias áreas que contribuíram de alguma forma com o desenvolvimento da ciência e prestação de serviço público no estado.

 

Acompanhe a reportagem na íntegra:

De volta a 1904: Entenda os perigos do movimento antivacina para a saúde pública

O assunto do momento é a produção das tão sonhadas vacinas contra a Covid-19. Boa parte da população espera ansiosa pelo momento da imunização, para descansar tranquila, sem se preocupar com a contaminação pelo novo coronavírus. O problema em questão é a campanha massiva que vai de encontro a esse reforço na saúde: o movimento antivacina.

 

Por volta de 1904, a população passou a rejeitar a vacina contra a varíola, uma doença infecciosa altamente contagiosa e muitas vezes até fatal, originando o que ficou conhecido como ‘A revolta da vacina’. Uma das suposições que faziam parte das ideias conspiratórias era a de que o indivíduo que recebesse o imunizante ficaria com traços físicos semelhantes ao de bovinos.

 

O que deu origem a esse ‘argumento’ foi o insumo utilizado na criação, material biológico retirado de feridas de vacas contaminadas pelo vírus da varíola bovina, muito semelhante ao que adoece os seres humanos.

 

Recentemente, após um pronunciamento do Presidente da República, Jair Bolsonaro, afirmando que pessoas vacinadas contra a Covid-19 corriam o risco de virar “jacarés”, muita gente se manifestou contra a fala, e o discurso virou motivo até de piada na internet.

 

“Eu não vou tomar. Alguns falam que eu tô dando um péssimo exemplo (…) ô imbecil, ô idiota que tá dizendo que eu tô dando um péssimo exemplo… eu já tive o vírus, eu já tenho anticorpos, para que tomar vacina de novo? E outra coisa que tem que ficar bem claro aqui, lá na Pfizer tá bem claro lá no contrato: ‘Nós não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral’. Se você virar um chip… virar um jacaré, é problema de você, pô”, disse Bolsonaro.

 

Letícia de Oliveira, farmacêutica, e uma das profissionais que atua na linha de frente do combate à Covid-19 desde o início da pandemia, diz que esse pensamento não é recente. “O movimento antivacina no Brasil é muito antigo, vem desde a primeira campanha de vacinação no país, quando ocorreu a famosa revolta da vacina. O medo do desconhecido e a propagação de teorias da conspiração, durante anos, criou no imaginário do cidadão leigo a ideia de que vacinas fazem mal, que são responsáveis até pelo autismo em crianças, entre outras mentiras contadas”, explica.

 

Fake News

Não é de hoje que o atual governo é um velho conhecido por levantar notícias falsas, principalmente em redes sociais. Entre as afirmações, uma ideia levantada por Bolsonaro é de que a máscara é pouco eficaz no combate à Covid-19 e de que a Hidroxicloroquina não possui efeitos colaterais, ambas as afirmações já tiveram seus respectivos resultados divulgados cientificamente.

 

A máscara continua sendo uma barreira que diminui a probabilidade de contaminação. De acordo com estudos, duas pessoas próximas quando em contato (caso ambas estejam utilizando máscaras de proteção), possuem apenas 1,5% de chance de se contaminarem, caso uma delas esteja infectada pelo vírus. Se apenas uma das duas pessoas estiver usando máscara, a estimativa de contágio sobe para 70%.

 

O último boletim epidemiológico divulgado pelo Governo do Amapá no dia 17 de janeiro de 2021, mostra 204 novos casos, sendo 129 deles somente na capital Macapá. Ao todo, o estado tem 73.417 casos confirmados.

 

“Uma das saídas pra derrotar esse movimento é utilizar as mesmas armas deles. Precisamos democratizar a divulgação científica, espalhar informações confiáveis, de forma clara, para que toda a população entenda para que servem e como funcionam as vacinas. As pessoas só tem medo do que não conhecem“, diz a farmacêutica.

 

Vacina? Tô fora

A arriscada decisão de não tomar a vacina impacta diretamente no contexto social, já que uma pessoa não vacinada e contaminada pelo vírus pode contribuir para a propagação da doença. Como ocorreu nos casos de sarampo no Amapá, após 20 anos, várias pessoas foram confirmadas com o vírus, o que levou as autoridades sanitárias a reforçar as campanhas de vacinação contra a doença.

 

Gabriel Demarchi, formado em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), se posiciona contra a vacinação e diz que existem vários problemas, um deles é o placebo escolhido durante o estudo clínico da fabricação da vacina Coronavac. Ele afirma que ao invés de escolherem uma solução salina, a opção dada foi uma solução com “Adjuvante clássico”, nesse caso, o Hidróxido de alumínio.

 

“Às vezes só o vírus desativado, como é o caso da ‘Sinovac’, eles acoplam justamente o hidróxido de alumínio como um elemento não farmacológico potente. Depois de analisar isso, vi que acaba trazendo alguns problemas, porque na análise de eficácia, não que a eficácia seja baixa, provavelmente é muito próximo do que seria as vacinas de Influenza. O meu problema não é a eficácia em si, mas a forma como foi analisado os números brutos: o braço do placebo e o braço dos vacinados”, expõe.

 

“Não penso em segurança, penso em risco-benefício. Ou seja, a pessoa, dependendo do grupo de idade no qual ela pertence, teoricamente ela tem que saber assessorar ali qual é o benefício e qual é o risco. Em outras palavras, o grupo da minha idade que é entre 20 a 25 anos, se for pegar o risco absoluto, que precisa analisar a população inteira desse grupo, a mortalidade e a incidência de hospitalização e tudo mais, você vê que é uma incidência baixa, mais baixa do que outras causas de mortes, como homicídios, suicídios e acidentes em geral”.

 

A farmacêutica rebate as informações ditas por Gabriel como infundadas, já que pessoas leigas não podem avaliar o risco-benefício da vacinação. “Nessas análises se determinou os grupos prioritários como profissionais de saúde, idosos e doentes crônicos, mas isso não tira a responsabilidade dos jovens de se vacinar, assim que as pessoas dos grupos prioritários forem vacinadas, a população mais jovem não só pode, como deve se vacinar, levando em consideração que quanto mais pessoas estiverem imunizadas, menor o risco da doença continuar se espalhando. Além disso, quanto mais pessoas forem vacinadas, mais protegidos os grupos que não podem se vacinar (crianças e gestantes) estarão”.

 

Com mestrado em andamento na área de Ciências Farmacêuticas, Letícia ainda explica as funções do hidróxido de alumínio citado anteriormente pelo historiador.

 

“O hidróxido de alumínio é amplamente utilizado como adjuvante em vacinas, justamente para potencializar a resposta imunológica, fazendo com que seja necessário uma quantidade menor de vírus inativado para se obter o efeito. Ele foi escolhido para o placebo por também estar na composição da vacina, assim é possível determinar se a inflamação decorrente da aplicação da vacina se dá pelo vírus inativado ou pelo componente da fórmula”, salienta.

 

“É importante ressaltar que essa inflamação e outros efeitos mais brandos decorrentes da aplicação da vacina são completamente normais e esperados, já que a vacina vai estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos”, finaliza Letícia.

 

Mesmo com a chegada da vacina no Brasil, as autoridades de saúde reforçam que os cuidados devem ser mantidos ainda, nenhuma medida de restrição ou contenção do vírus foi suspensa até que toda a população esteja devidamente imunizada. O uso de máscaras é obrigatório, e o uso de álcool 70º e o distanciamento social ainda são as ações preventivas mais eficazes no momento.

 

Primeira pessoa vacinada no Brasil

Mônica Calazans, 54 anos, foi a primeira pessoa a ser imunizada no Brasil. A enfermeira trabalha na UTI do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo. Mônica foi vacinada na tarde do último domingo, (17). Em seu discurso afirmou a importância das pesquisas no avanço da sociedade. “Eu fui criticada com piadinha, memes, me chamaram de cobaia. Não sou cobaia, sou participante da pesquisa e estou muito orgulhosa. Meu nome tá aí para o mundo todo. 54 anos, negra, brasileira”, diz com orgulho.

 
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