Maria Imaculada

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O demônio apareceu a um monge disfarçado de anjo da luz e lhe disse:
– Eu sou o anjo Gabriel e fui enviado a ti.
O irmão, porém, lhe respondeu:
-Tem certeza de que não foi enviado a um outro? Eu não mereço a visita de um anjo. Imediatamente o demônio foi embora.
Neste segundo domingo, no caminho do Advento, encontramos a Solenidade da Imaculada Conceição de Nossa Senhora. Voltaremos a encontrar Maria e José no Quarto Domingo, o último antes do Natal. Mais uma vez, somo convidados a refletir sobre aquilo que, nós cristãos, chamamos de “mistério da encarnação”. “Mistério” porque o que aconteceu foi algo muito mais do que humano, foi “divino”. Perante a grandeza de Deus e a novidade dos seus planos, a nós, pequenos seres em carne e osso, só resta a surpresa e o encantamento. Desta vez, porém, tem mais, porque Deus decidiu partilhar a nossa pobre e fraca realidade humana. Para isso, para garantir a sua verdadeira humanidade, quis ter uma mãe. Assim, temos ao menos duas perguntas sobre o “mistério da encarnação”: por que Deus se fez homem? – antiga questão desde os tempos de Santo Anselmo – e outra: por que ele precisou de uma mãe?
Começo a dizer que Deus faz coisas extraordinárias através de um jeito comum. Se para nascer e ser verdadeiramente humanos todos nós precisamos de mãe, assim também o Pai quis que fosse para o seu Filho. A outra resposta já sabemos pelo Catecismo: o Filho veio para nos salvar do mal, do pecado e da morte. Sobre esse assunto voltarei no Natal. Agora, quero continuar a refletir a respeito da colaboração da mãe, Maria.
A Igreja nos pede para acreditar que Deus Pai preparou para o Filho “uma mãe que fosse digna dele”. Continua, depois, o prefácio dessa Solenidade: “Puríssima, na verdade, devia ser a Virgem que nos daria o Salvador, o Cordeiro sem mancha, que tira os nossos pecados”. O que é mesmo a pureza? Antes de pensar outras coisas, precisa dizer que qualquer “pureza” começa primeiro no coração. Antes de ser exterior e se manifestar em gestos, palavras e ações, a pureza é algo interior. As más intenções vêm de dentro, ensinou Jesus. As boas também.
Por isso, quero explicar a pureza de Maria e um pouco da nossa, se assim o desejamos, com a sexta bem-aventurança que Jesus proclamou: “Bem-aventurados os puros no coração, pois eles verão a Deus” (Mt 5,8). As bem-aventuranças na sua plenitude podem ser entendidas como promessas para o futuro, mas seriam pouco interessantes se não nos trouxessem alegria e consolação desde já, neste mundo, quando já podem ser vividas como virtudes, busca e desejo. Até os apóstolos pediram para “ver” o Pai, mas Jesus respondeu de olhar para ele. Nos que têm fome, podemos ver vagabundos e acomodados ou irmãos necessitados.
Ou seja, podemos ou não reconhecer Jesus. Somente os puros no coração veem coisas diferentes, veem a presença e o amor de Deus, onde outros enxergam só fraquezas humanas ou mesmo culpa e castigo. Até no n osso olhar para a natureza, ao nosso redor, podemos ver lucro, ganho e faturamento ou, se formos só um pouquinho “puros no coração” veremos a presença amorosa de Deus criador.
Maria ficou perturbada, perguntou, questionou, quis entender o que estava acontecendo. No fim, porém, confiou porque compreendeu que, através da sua humilde colaboração, podia realizar-se o projeto de Deus, tão grande e tão misterioso. Ela não podia saber tudo o que iria acontecer depois, mas na sua pureza de coração “viu” a presença de Deus em sua vida: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” (Lc 1,28). Este “ver” puro foi suficiente para o sim dela. Deus está muito mais perto de nós do que pensamos, sobretudo quando sofremos e choramos. Tem muitos nomes e rostos. Todo dia bate à porta do nosso coração. Cabe a cada um de nós limpar o nosso próprio olhar e saber reconhecê-lo. Se temos dúvidas podemos perguntar: és tu Senhor? Se não for, irá embora. Mas se for, vamos acolhê-lo como Maria.


A última folha

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A mulher estava muito doente. Só estava aguardando a hora da despedida. Pela janela, via algumas árvores. O outono avançava e as folhas caíam. A mulher pensava: “Quando cair a última folha, eu também irei embora. Falta pouco”. O marido passava com ela quase o dia inteiro, tentava distraí-la e encorajá-la, mas nada a tirava da sua tristeza e conformação. Uma noite teve uma violenta tempestade. A chuva e o vento forte varreram a cidade toda. Ao amanhecer, a mulher pensou que nesse momento, que não tinha mais folhas nas árvores, ela também iria embora. No entanto olhou bem e viu que uma folha tinha ficado. Tinha resistido contra todas as forças da natureza. No coração da mulher voltou a esperança. Começou a melhorar e em poucos meses estava curada. Quando os médicos lhe deram alta e ela voltou para casa, soube que o marido tinha pint ado aquela folha no vidro da janela.

Neste domingo, iniciaremos o tempo do Advento e com ele um novo ano litúrgico. Será um caminho que nos conduzirá ao Natal de Jesus. Podemos viver esses dias como algo já conhecido: um roteiro feito de compras, troca de presentes, algumas boas ações, muitos votos de felicidade e sorte. Talvez alguma emoção, se ficarmos bem com a nossa família. No entanto o evangelho deste Primeiro Domingo nos fala de surpresa. Como o dilúvio que surpreendeu quem não estava preparado. Como o ladrão que arromba a casa de quem deixou de vigiá-la. Os afazeres ordinários de alguns, no campo e no moinho, serão interrompidos. O convite é ficar atentos e preparados para reconhecer a vinda do Filho do Homem na vida comum, no dia a dia. É um alerta, sim, mas não para ter medo, é para não perder a oportunidade.

O evangelho deste domingo não é uma ameaça para nos amedrontar. É uma solicitação para acolher aquele que sempre vem e sempre pede para entrar em nossa vida: Jesus. Quem disse que a surpresa é de algo pior? E se fosse algo novo e melhor? Após o dilúvio, Deus fez uma aliança com Noé e com a natureza toda. Não sabemos se é melhor ficar no campo e no moinho ou ser levados. E se aquele homem e aquela mulher fossem levados para algo melhor? Deus Pai não enviou o seu Filho para afugentar dele a humanidade, mas para torná-la mais próxima. Esse é o sentido da salvação cristã: a surpresa de um encontro amoroso e agradável com Deus.

Vivemos momentos difíceis, de incerteza e de dúvidas. Quando alguém não sabe para onde ir, acaba ficando parado onde está ou escolhe um rumo diferente, de qualquer jeito. Assim vivemos divididos entre segurar àquilo que, pensamos, sempre foi feito ou a obsessão de uma criatividade que rejeita tudo, ou quase, daquilo que nos foi transmitido pelas gerações anteriores. Certo tradicionalismo não admite a mudança de situações e pessoas, como se fosse possível congelar a realidade da história. Do outro lado, a busca daquilo que se apresenta como “inédito”, novo e emocionante, nos faz rejeitar muito daquilo que nos parece repetitivo. O Natal é coisa nova ou velha? O Menino Jesus é novo ou nasce já careta, fora de moda? O velho e o novo dependem de nós. Somente se ficarmos atentos e preparados podemos aprender com o caminho andado e nos deixar iluminar pelo novo que aparece. Talvez o Menino Deus dos cristãos não seja tão surpreendente, porque ainda não o conhecemos como mereceria. Talvez seja velho o nosso entendimento sobre ele, porque o transformamos numa imagem do presépio, se já não o trocamos com o “velho” Papai Noel. Mas se o Menino Deus é o Amor que se faz carne, a “imagem do Deus invisível” (Cl 1,15) nunca vai ter surpresa maior, nunca mais vai ter novidade melhor. A tempestade da propaganda, das disputas humanas, políticas e até religiosas, varre muitas coisas: projetos, sonhos e sentimentos. Temos a impressão de ter já visto de tudo. Não ficou nem uma folha? Não, alguém sempre novo existe. Se uma folha pintada numa janela salvou uma vida, quanto mais a vinda do Filho do Homem. Temos que ficar vigiando sempre para não perder a esperança.


A pesquisa

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Numa grande cidade, entre os moradores de um condomínio de 20 andares, foi espalhado um questionário com muitas perguntas. Devia servir para a prevenção de assaltos e roubos. A primeira pergunta era muito simples:
– Se o senhor ou a senhora ouvisse tocar a campainha do interfone da sua casa no meio da noite, o que faria? Todos responderam a mesma coisa:
– Me levantaria de má vontade e perguntaria: “Quem é?”.
– E se a voz respondesse: “Sou Jesus. Abra-me a porta, por favor”. O que diria o senhor ou a senhora? A resposta foi unânime:
– Não me amole, vá embora palhaço!
Evidentemente todos os moradores daquele palácio estavam convencidos de que aquela situação só podia ser uma brincadeira de mau gosto ou um truque para enganar as pessoas. Jesus nunca faria isso. No entanto se pensarmos na nossa verdadeira casa, no nosso coração, Jesus bate muitas vezes (Ap 3,20), a qualquer hora, e nos pede para deix&aacu te;-lo entrar. Se abrir, algo novo e inusitado acontecerá: a mesa da nossa casa-coração será a mesa do “reino” com Jesus tomando “refeição” conosco, amorosamente. É bom que paremos para nos perguntar: o que quer dizer deixar entrar Jesus em nossa vida?
Talvez este seja o maior sentido da festa de Cristo Rei, que celebramos neste domingo. Uma festa, nada triunfal. O evangelho de Lucas nos apresenta Jesus no “trono” da cruz. A coroa é de espinhos (Mc15,17). Os zombadores o chamam de “rei”. Está escrito no letreiro. No diálogo com o ladrão, porém, fala-se de “reino&rd quo;, algo que está prestes a acontecer – o hoje – e que é maravilhoso, é o “Paraíso”. Jesus faz uma grande promessa a quem o havia chamado pelo nome, que quer dizer “Deus salva”, e o tinha reconhecido diferente deles condenados pelos crimes cometidos. Ele era inocente, “não fez nada de mal”. Como é o “reino” de Jesus? Não é um lugar, mas uma situação de vida e, portanto, sem limites de tempo e de espaço. Uma meta, também, a ser alcançada por aqueles e aquelas que procuram praticar a única “lei” que nunca, ninguém poderá mudar, se queremos continuar a ser “humanos”, imagens do Deus vivo e verdadeiro: a lei do amor. Essa “lei”, é tão nova e revolucionária que os primeiros serão os últimos; quem quer ser grande deve tornar-se pequen o; quem quer ser o maior deve servir a todos; quem quer salvar a sua vida vai perde-la e quem quer juntar tesouros imperecíveis deve vender tudo e doá-los aos pobres. Tudo isso porque ele, Jesus, o Filho do Homem, “não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate para muitos (Mc 10,45).
A festa de Cristo Rei é a festa de um “reino” que começa como a menor semente, mas vai crescer; desaparece como o fermento misturado com a farinha de trigo; é uma rede lançada ao mar que apanha peixes bons e peixes ruins; um campo onde crescem o trigo e o joio até a separação no fim dos tempos. O “reino de Jesus, evidentemente, não tem nada a ver com as nossas ambições de glória e poder, de sucesso e riquezas neste mundo, vai muito além disso, porque é “um reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz” (Prefácio de Cristo Rei). Esse “reino” não vai mudar nunca. Mudaria só se mudasse Nosso Senhor Jesus Cristo, morto e ressuscitado! Quem deve mudar de cabeça e sentimentos somos nós. Nós deveríamos desejar fazer parte do “reino” de Jesus, para estar com ele no “Paraíso”. O caminho para chegar é apertado e a porta para entrar é estreita (Mt 7,13-14). Precisa de conversão, mas não tem exclusões ou privilégios. Na festa do “reino”, tem lugar para pobre, aleijados, cegos e coxos (Lc 14,21), sof redores, ovelhas perdidas, filhos que já gastaram a sua parte da herança e filhos que devem ainda aprender a perdoar seus irmãos. No reino entrarão homens e mulheres que, mesmo sem saber que era Jesus, repartiram o pão com os famintos, deram água a quem estava com sede, visitaram e consolaram presos e doentes. Deram casa a quem estava ao relento, trabalho a quem mendigava, esperança a quem não queria mais viver. Onde está este “reino”? – No meio de vós – respondeu Jesus (Lc 17,21). Está em todo coração aberto para amar.


O petróleo é nosso

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Na minha adolescência, um grito incendiava nossos pensamentos de patriotismo: “O petróleo é nosso!” Repudiávamos nossa dependência econômica dos países do “primeiro mundo”, principalmente dos Estados Unidos. Os jovens denunciavam a CIA, o entreguismo, o imperialismo americano como os grandes empecilhos ao progresso do País.

Naquele tempo de grande ebulição estudantil, depois da Segunda-Guerra, discutiam-se muito os “ismos”. Eu não me deixei contaminar por nenhum “ismo”, fugi aos aliciamentos ideológicos, para ser aquilo que sempre fui, um liberal, tolerante e humano, seduzido pelos grandes nomes nacionais do antigetulismo e por seu partido, a UDN – União Democrática Nacional. Bem moço, no Liceu, fui da Juventude Brigadeirista.

O petróleo escapava às posições políticas, pois era uma causa nacional. Isto me fez defender a bandeira “o petróleo é nosso”. Pressionado pela onda nacionalista, que envolvia inclusive grande parte das Forças Armadas, Getúlio Vargas mandou ao Congresso o projeto de lei que criava a Petrobrás (Lei nº 2.004). A UDN, contrária a Vargas, apoiou a criação da Petrobrás e fez mais: apresentou a Emenda Bilac Pinto, que estabeleceu o monopólio estatal do petróleo.

A Petrobrás mandou buscar um grande especialista americano em petróleo, Walter Link, da Standard Oil, para mostrar como descobrir os hidrocarbonetos (petróleo). Qual a nossa grande decepção quando Mr. Link, com toda a sua sabedoria, anunciou que o Brasil não tinha petróleo! Foi uma verdadeira revolta. Ele era um traidor, agente da interferência americana em nossos problemas. Mr. Link foi o grande saco de pancadas.

No meu governo, aumentamos nossas reservas de petróleo de 2,3 para 8 bilhões de barris. Mandei mapear todas as bacias sedimentares do Brasil, onde o petróleo se esconde, e descobrimos os maiores campos antes do pré-sal.

O futuro nos mostrou que o petróleo promove o aquecimento global e ameaça o mundo de extinção caso continuemos a poluir. O caminho é a energia limpa: eólica, solar e hídrica.

No desenrolar da novela do petróleo, acabamos de ver a decepção de o grande leilão de petróleo, tão esperado, não ter atraído o investidor internacional. O Ministro de Minas e Energia disse que perdemos o timing: não vendemos o petróleo quando ele valia cem dólares o barril, e hoje ele está em sessenta. Isso nos traz dúvidas se o pré-sal será competitivo.

O mundo está inundado de dinheiro, mas o capital é medroso, prefere a segurança ao lucro.

E o Brasil, com instabilidade, populismo, problemas institucionais, não oferece a segurança que ele deseja.

Assim, “o petróleo é nosso”, que defendemos com tanto ardor, está ameaçado de ser mesmo nosso, mas ficar escondido no fundo do mar.


A 23ª Assembleia da Diocese de Macapá

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Neste final de semana, acontecerá, no Centro Diocesano, a 23ª Assembleia do Povo de Deus da Diocese de Macapá. Parece-me correto explicar um pouco o que faremos e o que esperamos aconteça. Todos sabem, mais ou menos, o que é uma assembleia. No nosso caso, como em tantos outros, não será com participação livre, porque seria impossível, mas por delegados das paróquias, comunidades, grupos e movimentos que atuam em nossa Igreja local. O importante é que todos os componentes do Povo de Deus sejam representados: o clero, os religiosos e religiosas e, sobretudo, os leigos. Esses, em número, são a grande maioria dos católicos. Os outros, bem poucos em proporção, estão a serviço deles. No entanto, é bom lembrar, somos Igreja e, portanto, não funcionamos como outras assembleias com maioria, minoria, partidos ou correntes. Trabalhamos com a luz da fé no Divino Pai Eterno, a fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo, o Filho, e o entusiasmo do Espírito Santo. Esperamos que a comunhão fraterna prevaleça sobre as legítimas opiniões diferentes, pessoais ou de grupo.

A palavra-chave, para começar, é “sinodalidade”, muito cara a Papa Francisco. Significa “caminhar juntos” porque assim devemos fazer para mostrar, exemplarmente, que se pode avançar unidos acolhendo as diversidades como dons e não como obstáculos. A comunhão, no entanto, é sempre algo em construção, por ser, em si mesma, o fruto do compromisso e da boa vontade de todos. A tentação de fazer diferente e se afastar dos demais é real. Quem quer correr, reclama da lentidão dos avanços. Quem desconfia das novidades, acha que repetir o que “sempre” foi feito seja a única solução. Difícil para todos é escutar os outros e vencer o desejo de aparecer ou de impor as próprias ideias.

A finalidade da Assembleia Diocesana é avaliar a situação da Igreja local e apontar caminhos e metas para os próximos quatro anos. Nesse sentido, seremos ajudados pelas novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2019-2023) aprovadas pela Conferência Nacional dos Bispos em maio deste ano. Na prática temos: uma realidade que merece atenção especial, uma imagem e um compromisso. A realidade é que o Brasil está se tornado, cada vez, mais urbano. Na própria Amazônia, entre o 70 e 80% da população mora nas grandes ou pequenas cidades. O “novo” desafio, portanto, é evangelizar esse povo sabendo que a mentalidade e o jeito da cidade já chegaram também no interior. A resposta ao consumismo, individualismo, indiferença e isolamento urbano deve ser encontrada na participação numa comunidade qu e saiba oferecer laços de amizade, senso de pertença e solidariedade.

Nesse sentido, ajuda-nos a imagem da Comunidade-Casa. Com efeito, toda casa-família deveria ser espaço de encontro e de ternura. Os pilares para o sustento da casa são os de sempre e de nenhum deles podemos abrir mão: a Palavra de Deus, o Pão da Eucaristia, a Caridade e a Ação Missionária. A Comunidade-Casa deve ser aberta para cativar as pessoas e saber acolhê-las quando se aproximam da Igreja. No entanto, como na casa, as portas e as janelas não servem só para a entrada das pessoas e do ar puro e renovador. Elas servem, também, para sair e mergulhar na realidade complexa e conflituosa da sociedade. Este é o desafio ao qual o Papa Francisco conclama todo batizado hoje: ser missionário, testemunha confiável do Evangelho de Jesus Cristo. Cada cristão, criança, jovem, adulto ou idoso encontra muitas outras pessoas ao longo de cada dia de sua vida. Vive na fam ília, no trabalho, na escola, no lazer. Como todo ser humano, experimenta horas da alegria e horas do sofrimento, horas serenas da vida que passa e hora difíceis de escuridão, dúvidas e morte.

Ser missionário, não significa ser “pregador de esquina”, fazer discursos ou ter sempre respostas prontas. Significa estar no meio dos demais irmãos e irmãs, nas lutas da vida, sempre pronto a dar razão da própria fé, com humildade e paciência. Na Assembleia, teremos também o documento final do Sínodo Especial da Amazônia. Mais um compromisso com a Ecologia integral neste rincão bonito e único do planeta Terra.


Eu vou contigo

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Um casal de jovens tinha-se casado havia poucos meses, mas o matrimônio deles era um verdadeiro fracasso. Ele não suportava o gosto horrível da comida que ela preparava e ela se perguntava como tinha pensado que as brincadeiras dele fossem divertidas. Resmungavam, mas nenhum dos dois falava abertamente o que pensava. Porém, certa tarde de domingo, quando discutiam de qual cor pintar a sala, a raiva, guardada fazia tempo, explodiu. Foram gritos e berros; cada um jogou acusações e defeitos na cara do outro. Alguns dos pratos ganhos no dia do casamento se espatifaram. O marido pegou as chaves do carro, saiu de casa e as últimas palavras dele foram:

– Basta! Vou te deixar! No entanto, antes que o motor do velho carro pegasse, a porta lateral do passageiro se abriu e a mulher caiu de peso no assento. Tinha o rosto marcado de lágrimas, mas estava cheia de determinação.

– Onde pensas que vai? – perguntou o marido. A esposa hesitou um instante antes de responder. Aquelas palavras iam decidir qual direção tomariam as suas vidas nos quarenta e sete anos sucessivos.

– Se tu me deixas – respondeu a mulher – Eu vou contigo.

Contei um caso real de amor conjugal que…não acabou. Curiosamente, no evangelho deste domingo encontramos o caso fictício de uma mulher com sete maridos-irmãos. Segundo as normas de Moisés, se um homem casado morresse sem ter filhos, um dos irmãos do falecido devia casar-se com a viúva para dar descendência ao irmão defunto. Nesse caso imaginário, todos os sete irmãos morreram antes da mulher. Aqueles que não acreditavam na ressurreição queriam saber de Jesus com qual dos sete maridos ela ficaria, depois que morresse também, já que todos tinham-se casado com ela. Um caso inventado, só para ridiculizar a fé na ressurreição. Na sua resposta, Jesus simplesmente nos diz que a situação dos ressuscitados será de vida, mas não com as mesmas relações, matrimoniais por exemplo, como neste mundo. Na ressurreição haverá somente o amor de Deus que unirá a todos e a todas numa comunhão perfeita, muito além dos laços humanos anteriores. Nada se perderá dos amores terrenos; também aqueles que foram santos e bonitos serão transformados no amor de Deus e serão mais santos e mais bonitos ainda.

Os ressuscitados participarão da vida amorosa plena e perfeita de Deus. Detalhes? Não temos, mas o que Jesus disse alimenta a nossa fé e a nossa esperança, porque, como São Paulo ensina, quando essas virtudes não servirão mais, ficará somente o amor e será o amor grande, sem fim, o amor de Deus (1Cor 13,13).

A resposta de Jesus aos saduceus é muito mais que uma informação sobre a vida futura. Saber que todo amor humano é caminho para a vida plena e tem consequências na eternidade nos ajuda a viver profundamente esse amor. Seria muito ousado dizer que todo amor neste mundo, o conjugal, o dos irmãos, dos pais com os filhos e dos filhos com os pais, o amor sincero de amigos, é sinal e memória, ao mesmo tempo, do amor eterno de Deus? Através do amor do pai terreno, os filhos amados conseguem, ao menos um pouco, acreditar e desejar o grande amor do Pai Deus. Quem está disposto a dar a vida pelo amigo, quem se compromete por causa da amizade, torna visível novamente o amor divino daquele que “não poupou seu Filho” (Jo 3,16). Os cônjuges fazem o mesmo quando se doam um ao outro com liberdade, só por amor, “todos os dias das nossas vidas” como eles dizem no dia do casamento (Ritual do Matrimônio). Também os que não se casam, quando abraçam as grandes causas da justiça e da paz, são sinais de uma esperança na vida e no amor que vai além dos cálculos e dos projetos humanos destinados a acabar. O celibato ou a virgindade consagrada por causa do Reino de Deus, para servir os pobres e abandonados, falam por si mesmos da ressurreição, também quando são mal compreendidos ou parecem fora de moda. Todo amor que brilha pela gratuidade e a doação, que não se prende a prazos, interesses, trocas ou algo semelhante, é um sinal do amor gratuito e sem fim de Deus. 47 anos? Nada mal para os dois que iam se largar.


A auréola perdida

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Aqueles que chegavam ao Paraíso entravam num salão onde, depois das felicitações de São Pedro, passavam na frente de um balcão para receber a auréola, a qual todos os santos têm direito. As auréolas estavam todas bem arrumadas em cima do balcão e se posicionavam na cabeça dos santos automaticamente. Eram feitas de luz e calor, e sempre na medida certa. De repente, um anjo distraído derrubou a pilha das auréolas no chão. Todas foram recolhidas, menos uma. De nuvem em nuvem, ela foi caindo e chegou à terra. Não podia ficar sem dono. Começou a procurar algum santo ou alguma santa. Iniciou pela grande catedral. Mas entre os turistas e os participantes absortos, não encontrou ninguém. Viu uma grande passeata, mas nenhum santo. Encontrou ruas, lojas, comércios, escolas, bancos, quarteis, todos com nome de santo ou de santa, mas santo, em carne e osso, nenhum. Voou sobre algumas casinhas. Sentado na frente de uma delas, um velhinho chorava com a foto da esposa falecida. Passou um rapazinho que ia para a escola e parou.

– Ela se foi, agora estou sozinho – disse o velhinho levantando os olhos. O rapaz sentou-se ao lado dele e apoio a sua cabeça no ombro do homem.
– Viva! – gritou a auréola e aterrissou na cabeça do menino.

Quase todo ano celebramos, uma perto da outra, a solenidade de Todos os Santos e Santas e a comemoração dos fiéis defuntos. Em ambos os dias, somos convidados a olhar para o alto. Entregamos os nossos irmãos falecidos à terra, mas os pensamos na paz do Senhor, de algum modo, com ele, “no céu”. Os Santos e as Santas, também, pelos seus merecimentos e virtudes, devem estar por lá. No entanto este “céu” não é um lugar, é uma nova condição de vida, um encontro com Alguém único e extraordinário. Pensamos ao alto por costume e por entender que Deus deve estar mesmo além de tudo e de todos, mas também este “além” não é um lugar que se possa localizar e medir. É algo tão novo e diferente que não sabemos como expressar com as palavras aquilo que nunca vimos antes.

Para não errar demais, podemos desistir de imaginar como será, mas é difícil desejar e amar profundamente algo – ou Alguém – que nem podemos descrever. Quando, porém, não conseguimos dizer como é uma certa realidade, para entendê-la, serve ao menos dizer como, com certeza, ela não é. Por exemplo, ninguém pensa que o Paraíso seja algo triste. Deve ser muito alegre e feliz. Por lá todas as lágrimas serão enxugadas (Ap 21,4) e todos serão consolados para sempre. Igualmente não pode ser algo escuro e sombrio. Na IV Oração Eucarística dizemos que Deus habita “em luz inacessível”. Luz significa vida, atividade, clareza em conhecer o sentido dos acontecimentos e das coisas. Para Deus nada fica escondido, nem o menor gesto de amor. O bem sempre resplandece e ilumina ao seu redor. Por fim, o Céu não pode ser algo espantoso e feio que entristeça e amedronte o coração. Deus só pode ser a beleza infinita que encanta, atrai e anima.

Pensar nas coisas “do alto” não significa fugir da realidade, mas, ao contrário, ter um modelo para ser imitado e uma meta para ser alcançada. Esperar o “céu” de Deus Pai nos liberta das amarras das coisas materiais, da inveja e da cobiça das coisas que não tivemos neste mundo. A fé nele nos faz aguardar muito mais. Alegria, luz e beleza são desejos que motivam a nossa vida, estão dentro de nós; só falta buscá-los. A plenitude de tudo isso somente está em Deus, mas Jesus sempre falou de “vida plena” e abundante (Jo 6,58). Uma vida nova não mais passageira, imperfeita e mortal. Por isso, a Igreja nos aponta Santos e Santas que, de mil maneira diferentes, foram sinais desta vida verdadeira. Eles e elas souberam abrir caminhos de amor, de paz e justiça, muitas vezes através do sofrimento pessoal e oferecendo até a própria vida. A santidade não é algo impossível. Está ao alcance de todos porque a ela fomos chamados desde o dia do nosso batismo. É feita de pequenos gestos, basta que tenham o gosto e a luz do céu já aqui na terra: um abraço, um carinho, uma lágrima, um silêncio. O que vale é o amor e o Amor já é a Vida de Deus. Também se a auréola não pode ser vista.


O padre sabe sempre tudo

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Era o aniversário do pároco. As crianças estavam na fila para entregar os pacotes dos presentes e parabenizar o padre, em nome também das suas famílias. A pequena Maria entregou o seu embrulho e o padre disse:
– Obrigado, vejo que me trouxe um livro. O pai de Maria tinha uma livraria.
– Sim – disse a criança – Como o senhor adivinhou?
– O padre sabe sempre tudo – respondeu o pároco. – E você, Joãozinho, me trouxe um agasalho.
– Isso mesmo – disse João. A mãe dele tricotava a lã maravilhosamente. Chegou a vez de Marquinho, que entregou ao padre uma pequena caixa com o papel de embrulho todo molhado. O pai de Marcos vendia vinhos.
– Você me trouxe uma garrafa de vinho – disse o padre.
– Errado – respondeu Marquinho.
– Ah, sim. É uma garrafa de whisky e saiu um pouco.
– Errado de novo. O padre tinha os dedos da mão molhados, levou um à boca, mas não descobriu nada.
– É rum? Perguntou.
– Errado – exclamou Marquinho – Padre, eu lhe trouxe um cachorrinho!
Achar que já sabemos tudo ou que somos superiores aos nossos semelhantes, é, no mínimo, sinal de burrice, além da soberba inútil que nos cega. Também nas questões e na vivência da fé não é diferente. No evangelho de Lucas, deste domingo, Jesus continua a sua catequese sobre a oração. Depois de ter nos convidado à insistência, sinal de confiança total na bondade do Pai, convida-nos, desta vez, a rezar com humildade. O fariseu da parábola se considera simplesmente “perfeito”, porque cumpre rigorosamente os preceitos da Lei. É tão orgulhoso que despreza o cobrador de impostos, atrás dele, que reza de cabeça baixa. Este, conhecido pela profissão lucrativa, porque corrupta e desonesta, admite a sua situação de pecador e pede perdão. Como sempre, as parábolas de Jesus não satisfazem todas as nossas curiosidades. Não sabemos se o cobrador de imposto desistiu de roubar. O que interessa da parábola é a atitude – o coração, afinal – com a qual os dois rezam. O primeiro olha mais para os seus próprios méritos que para Deus; o outro sem coragem de levantar os olhos, reconhece assim a superioridade do Senhor e implora “piedade” pelos seus pecados. Este último, conclui a parábola, foi para casa perdoado, o outro não. Também porque, tão cheio de orgulho como era, nem tinha implorado a misericórdia divina. Não precisava, não tinha nenhuma falta…
A parábola nos leva mais longe, porém, de um ensinamento sobre a oração. O que está em jogo é uma maneira de entender as coisas de Deus e as coisas do mundo, a que, ou a quem, devemos a prioridade e, por isso, o nosso próprio jeito de viver a fé. É um claro alerta para todos nós e nos mostra o caminho certo para mudar conforme o evangelho de Jesus. Podemos dizer que o fariseu é um homem super-religioso, cumpre todas as normas e formalidades da sua religião, mas, no fundo, pensa com a mentalidade do mundo. Ele gosta de aparecer – está de pé -, gosta de se autorreconhecer merecedor, porque cumpre todas as ordens. Não faz isso por amor a Deus, por elevação espiritual ou porque quer vencer alguma tentação. O que ele quer mesmo é ser superior aos demais e, para isso, escolheu o caminho daquela que ele considera a “perfeiç ão” nas obrigações religiosas. Apesar das palavras de gratidão, ele não tem nenhum sentimento amoroso de um filho com o Pai. Está cheio de si. Esta é a mentalidade do mundo, onde tem lugar para muitas práticas religiosas, basta que não sejam criticados os falsos valores do sistema e posta em discussão a injustiça social. O cobrador de imposto, ao contrário, é um homem do mundo, mexe com dinheiro, faz negócios escusos, no entanto, não se sente bem. Entende que algo está errado. Reconhece que devia e poderia ser diferente. Descobriu que o dinheiro ganho injustamente dá status, mas não dá a alegria e a paz do coração. Por enquanto, está só de cabeça baixa. Talvez, ainda, não sabe o que irá fazer, mas – e é o que vale – admite ser um pecador, pede misericórdia a Deus, porque o vê como o único capaz de perdoá-lo e dar-lhe uma nova vida. Se reconhece “pobre”, não sabe tudo. É humilde e insatisfeito. Não chama de whisky outra coisa. Merece o perdão.


O Sínodo para a Amazônia

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Neste domingo, inicia-se em Roma o Sínodo “Especial” convocado pelo Papa Francisco sobre a Amazônia. Participam desta assembleia, os bispos ordinários da Pan-Amazônia que abrange, além da Amazônia brasileira – a mais extensa territorialmente – áreas que pertencem a outros oito países da América Latina. A Guiana Francesa, nossa vizinha, por exemplo, é “Amazônia”. Eu também, como bispo de Macapá, estarei lá, levando, espero, um pouco da vivência eclesial da nossa Diocese-Estado junto aos anseios e esperanças dos diversos grupos sociais e étnicos que constituem a população amapaense. Também participarão outros bispos convidados pelo Santo Padre e diversos assessores e estudiosos da realidade amazônica. Devido ao fato de que este Sínodo já deu muitas polêmicas e que o assunto “Amazônia” está na pauta da agenda mundial, parece-me correto explicar um pouco o que tentaremos fazer por três semanas de escutas, reflexões, oração e trabalho.

Em primeiro lugar, devo lembrar que o Sínodo será um evento de Igreja. Basta entender bem o tema da convocação: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. No entanto, todas as vezes que pessoas da Igreja, incluindo Papa Francisco, colocam ou denunciam alguma grave situação social, uma questão humanitária e agora também a crise ecológica, são acusadas de se meter em política. Os futuros candidatos não se preocupem. A Igreja faz “política” do seu jeito. Não será a política partidária das disputas do poder, mas a “política” no sentido do bem comum, dos interesses dos mais pobres, dos grupos humanos excluídos e esquecidos. Se não o fizesse, a Igreja, trairia o evangelho de Jesus Cristo, que veio neste mundo para nos mostrar que aqui devem começar a nova jus tiça e a nova paz do Reino do Deus. A Igreja não tem receitas ou soluções sociais e econômicas prontas e infalíveis, sabe que a humanidade avança por contrastes e ajustes, por disputas e acordos, por avanços e recuos. Ela tem, porém, um rumo certo, aquele do respeito pela vida de todos os seres humanos e de todas as criaturas. Sabe que deve ser reconhecida a dignidade de toda pessoa humana, porque todos têm direitos e deveres, têm necessidades materiais e espirituais, vivem melhor se alimentam a paz e a fraternidade com os outros e com a natureza.

Por causa do Evangelho, a Igreja não pode se omitir perante situações relevantes para a humanidade. Fez isso no século passado para alertar sobre o perigo de uma guerra nuclear. Nos nossos dias, Papa Francisco nos alerta sobre a crise ambiental. É o nosso planeta, a nossa única Casa Comum, que está em perigo, e com ele o futuro de todos os seus habitantes. A Amazônia pela sua extensão florestal, pela sua biodiversidade e pela quantidade de água doce que ainda guarda, contribui muito com o equilíbrio climático e a preservação de muitas espécie animais e vegetais. Esta região é uma grande reserva de tudo isso, e muito mais se juntamos os minérios, mas, se mal administradas essas “riquezas”, ou dádivas de Deus para quem acredita, podem acabar com prejuízos gravíssimos para toda a humanidade. Além da questão ecológica, cara ao Papa Francisco, aqui existem muitos grupos étnicos diferentes e nos mais diversos ambientes. Temos os povos originários que vivem em harmonia com as florestas e os milhões de pessoas que moram nas grandes cidades. Encontrar soluções de convivência e respeito, com tantos interesses opostos, não é nada fácil. Contudo, como cristãos, acreditamos nas luzes do Espírito Santo e na sabedoria milenar dos povos originários. As respostas a tantos desafios não podem vir de fora ou só da tecnologia e das ciências. Devem vir das próprias pessoas daqui – a começar por nós mesmos – envolvidas nas diversas situações e, por isso, conhecedoras dos ritmos da natureza, e sempre confiantes em todo seu semelhante que, mesmo sem saber, ainda guarda em si a imagem de Deus Criador.

O Sínodo da Amazônia quer ser uma convocação para a esperança. Levantará a voz, denunciará desequilíbrios, mas, sobretudo, desafiará os povos da Amazônia a dizer aos demais irmãos e irmãs do mundo inteiro, se ainda é possível, ou não, viver em paz entre culturas e crenças diferentes, em harmonia com a natureza e as suas diversidades. Os povos da Amazônia não podem desistir de acreditar e esperar em si mesmos e na bondade de Deus que os chamou a esta responsabilidade planetária abrindo novos caminhos para ir além de todos os mitos de progresso e consumo que desumanizam e escravizam o homem “moderno”.


Depende em quais mãos se encontra

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Uma bola de basquete, nas minhas mãos, vale R$ 100, nas mãos de Michel Jordan, vale cerca de 100 milhões de reais. Um pincel, nas minhas mãos vale R$ 20, nas mãos de Picasso vale 70 milhões de reais. Uma raquete de tênis, nas minhas mãos vale R$ 300, nas mãos de Roger Federer vale o prêmio milionário num torneio internacional.

Tudo depende em quais mãos estão as coisas. Um bastão, nas minhas mão, serve para me sustentar. Nas mão de Moisés, abriu o Mar Vermelho. Uma baladeira, nas minhas mãos é brinquedo. Nas mãos de Davi, derrubou o gigante Golias. Cinco pães e dois peixes, nas minhas mãos, são um almoço; nas mãos de Jesus foram alimento para cinco mil pessoas. Pregos nas minhas mão são objetos de trabalho, nas mãos de Jesus foram a salvação para o mundo inteiro. O valor das coisas depende nas mãos de quem elas estão.

No evangelho de Lucas deste domingo encontramos uma parábola que sempre chama a nossa atenção. Jesus nos fala de um administrador que roubava do seu patrão.

Quando descoberto, foi, justamente, demitido. – Chega! – disse o patrão – não pode mais administrar os meus bens. Pensando no seu futuro, o administrador quis ganhar amigos às custas do dono. Chamou os devedores do patrão e perdoou parte da dívida deles. Surpreendentemente, em lugar de ficar aborrecido, “o senhor elogiou o administrador desonesto porque agiu com esperteza” (Lc 16,8). Por isso, vem a pergunta: será que Jesus quis ensinar a mentira e o roubo? Com certeza não. Basta continuar a ler o evangelho. Jesus quis nos ensinar que as coisas deste mundo devem ser administradas para fazer amigos, ou seja para o bem, sobretudo dos pobres que, esperamos, um dia nos “receberão nas moradas eternas” (Lc 16,9).
O que move a sociedade hoje é o dinheiro, os grandes capitais que migram de um empreendimento ao outro para obter mais lucro. Para “o bem”, sim, mas dos investidores, obviamente. Não para melhorar a vida dos pobres, dos pequenos, dos desempregados, dos carimbados de improdutivos para a sociedade. Mais ou menos sempre foi assim, mas hoje as coisas são evidentes. Todos falam da “financeirização” da sociedade, porque quem manda e decide é o poder econômico. O bem e o mal são avaliados sobre o quanto se ganha. O respeito à vida das pessoas, o bem-estar de todos, o futuro do planeta não são valores éticos, ou morais, levados em séria consideração.

Apesar de saber disso, dos alertas dos pobres, do grito de milhões de migrantes e famintos, estamos numa situação que parece irreversível. Como discípulos de Jesus, é urgente pensar com critérios diferentes e buscar ações alternativas, também se isso nos parece muito difícil e, talvez, impossível. Devemos usar da esperteza do Espírito.

Começar a tomar a sério o fato que não podemos servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro, ao mesmo tempo. Ou seja, não basta rezar muito e cumprir obrigações religiosas para, depois, deixar que a nossa maior preocupação seja enriquecer ou, simplesmente, multiplicar bens materiais e passageiros. Devemos nos convencer que a solução está em nossas mãos, mas também em nossa inteligência e em nosso coração. Porque Jesus já nos entregou outros “bens”, diferentes, os mais valiosos de todos.

Podemos chamá-los de “amor de Deus”, mas também de amor fraterno, comunhão, capacidade de carregar juntos sofrimentos e alegrias. Hoje, luxo, aparências e formalidades, valem mais que a sinceridade dos relacionamentos. Instrumentos tecnológicos, que poderiam nos aproximar e nos tornar mais solidários, nos oferecem “amigos virtuais” aos quais dedicamos mais tempo que aos nossos legítimos e próximos familiares. Trocamos mensagens e figurinhas já prontas, para brincar e ganhar tempo, mas, talvez, para não nos comprometer a dizer com as nossas palavras e a nossa voz quanto amamos e queremos o b em daquelas pessoas. Temos nas mãos o maior tesouro e não sabemos como usá-lo. Temos no coração o único e infalível instrumento que pode mudar tudo neste mundo e não sabemos aproveitar. Não é o amor que perdeu o valor, são as nossas mãos que não sabem administrá-lo bem. Falta esperteza.