A vida deve ser outra coisa

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Uma famosa jornalista relata, num dos seus livros, o diálogo que teve, certa noite, com a netinha de cinco anos. A pequena Elizabeth soube que a avó ia viajar, assim decidiu passar a noite na cama com ela. De repente, antes de dormir, a criança perguntou a avó:
– A vida o que é? A avó quis buscar palavras que a criança pudesse entender e respondeu:
– A vida é o tempo que passa entre o momento que nascemos e o momento que morremos.
– Só isso? – insistiu a criança.
– Só isso – respondeu a jornalista.
– E a morte o que é – voltou a questionar a pequena.
– A morte é quando tudo acaba e não mais existimos.
– Como quando chega o inverno e a árvore seca?
– Mais ou menos
– Porém, a árvore não acaba não; quando vem a primavera ela floresce de novo.
– Mas para as pessoas não é assim; quando alguém morre é para sempre, não renasce – continuou a avó.
– Também mamãe? Também uma criança? – insistiu a netinha.
-Também as mães e as crianças.
– Não é possível!
– É assim mesmo, Elizabeth.
– Não é justo! – insistiu a pequena.
– Eu sei; mas agora dorme, já está na hora – disse a avó, querendo encerrar o assunto.
– Eu durmo – continuou a criança – mas não acredito naquilo que a senhora disse. Eu acredito que quando alguém morre acontece como com as árvores que secam no inverno, mas depois renascem. A vida deve ser outra coisa!
Para nós, cristãos, a vida é mesmo, e deve ser, outra coisa! É muito mais daquilo que estamos vendo, ouvindo, experimentando. Muito mais do tempo que passa, inexoravelmente, para todos. A vista do túmulo vazio e o anúncio da ressurreição de Jesus, ecoam na história humana como uma luz nova, sem comparação nem antes e nem depois. Uma brecha, pequena, porém mais que suficiente para abrir o nosso olhar nada menos que sobre o “mistério” daquele Deus Pai que Jesus veio nos fazer conhecer. Até a morte e o túmulo, o caminho, nos é familiar. Ainda vivos, acompanhamos outros. Um dia, serão os outros a nos levar para a última despedida. Jesus percorreu esse mesmo nosso caminho, uma morte trágica, com certeza uma das maiores injustiças da huma nidade. Tudo porque ensinou e mostrou um Deus com o rosto e o coração de Pai.
Ele acolhia os doentes, os impuros, os pecadores e pecadoras, todos filhos e filhas, desgarrados ou não. Os grandes de todos os tempos, quando não se proclamam eles mesmos deuses, querem ter Deus ao seu lado. Talvez para enganar; com certeza por medo de serem eles mesmos julgados por um Deus “diferente” daquele cujo nome usam e abusam. Jesus nunca usou o nome de Deus para se promover ou forçar alguém. Aos seus discípulos pediu para serem compassivos e misericordiosos como o Pai. Um Pai bondoso até com os ingratos. Um Pai providente que não quer o acúmulo dos bens materiais, porque não deixa faltar o necessário nem aos pássaros do céu e veste, maravilhosamente, os lírios dos campos! Um Deus Pai que escolhe e privilegia os pobres e os pequenos; convida ao seu banquete os cegos, os c oxos e os aleijados, aqueles que nunca poderão devolver o que receberam de graça. Jesus ensinou que o pouco partilhado se multiplica, porque crescem a esperança e a alegria da fraternidade entre as pessoas.
Esses bens não são vendidos e nem comprados, só podem ser fruto da confiança e da comunhão de quem alimenta o mesmo sonho de paz, bem longe dos projetos de poder e dominação dos ricos. Deus Pai ressuscita o Filho Jesus não como troca ou recompensa pela sua obediência, mas porque o Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem a mesma e única realidade do amor perfeito, da doação perfeita, da Vida plena prometida a quem acreditar e fazer o mesmo doando também a sua própria vida. Na Páscoa, precisamos respirar um ar novo, libertar-nos das amarras do consumo e da ganância, do imediato, do útil e cômodo, de tudo aquilo que pode ser contabilizado. O Amor de Deus passou neste mundo, encarnou-se, tornou-se visível, ensinou e convidou a segui-lo. Mas não n os obriga. Estamos livres de duvidar, de zombar, de crucificá-lo de novo. Mas a criança que, por ventura, ainda está dentro de nós nos lembra sempre: “Não é justo! A Vida Verdadeira deve ser outra coisa!”.
Feliz Páscoa para todos e todas!


O sinal do cristão

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Um bispo quis conversar com os adolescentes que deviam receber o sacramento da Crisma. Fez-lhes uma pergunta:

– Qual é o sinal com o qual podemos ser reconhecidos como cristãos? – Na incerteza e com medo de errar, os jovens ficaram calados. O bispo sorriu amigavelmente e repetiu a pergunta:

– Coragem, qual é o sinal que prova que somos cristãos? – A turma continuava em silêncio e de olhos baixos. O bispo quis ajudá-los e começou a ensaiar um sinal da cruz. Uma menina levantou a mão para falar e toda feliz disse:

– O amor!

O bispo estava para dizer: “Errado!” Mas, graças a Deus, parou em tempo.

Com o Domingo de Ramos iniciamos a Semana Santa. Espero que as “obras” da Quaresma – a esmola, o jejum e a oração – tenham nos aproximado mais de Deus e dos irmãos necessitados. No primeiro Domingo, acompanhamos Jesus no deserto. Lá, “terminada toda tentação, o diabo afastou-se de Jesus para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13). O “tempo”, a hora da cruz, chegou e com ela a maior luta e a maior vitória da Vida contra a morte. No segundo Domingo, no monte da Transfiguração, para acreditarmos além do escândalo da cruz, ouvimos, da nuvem, a voz do Pai: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!”. Nos outros três domingos, os evangelhos nos apresentaram a extraordinária misericórdia do nosso Deus. Ele tem paciência; nos dá o tempo e as forças necessárias para produzirmos frutos de bem e de paz. Faz festa, quando reconhecemos os nossos erros e, arrependidos, voltamos à casa do Pai. Fica triste, quando queremos jogar pedras contra os irmãos, em lugar de perdoar-lhes as falhas e reconhecer com humildade as nossas também.

Terminado o caminho quaresmal entramos agora, com Jesus, em Jerusalém. Estava para cumprir-se o que ele disse: “não convém que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lc 13,33). Jesus é acolhido com júbilo. Aos incomodados com os gritos de hosana ele diz que se o povo se calar “as pedras gritarão” (Lc 19,40). Foi um entusiasmo passageiro para a povo e simbólico para Jesus. Ao novo “rei” não interessavam o poder e a glória deste mundo. Por isso, a liturgia nos faz proclamar, na mesma celebração, outro evangelho, o da Paixão. Este ano, segundo o evangelista Lucas. Jesus é levado junto com “outros dois malfeitores” (Lc 23,32). Ele é simplesmente mais um, solidário com os crucificados de todos os tempos pela violência humana. Mas ele diz: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34). Nenhum sinal de ódio ou ameaça, entrega total, Jesus sempre está pronto a testemunhar a misericórdia do Pai. É somente de Lucas o encontro com as mulheres que choram por ele. Marcante é o diálogo com os dois malfeitores crucificados juntos. Aquele, que estamos acostumados a chamar de “bom ladrão”, é o primeiro interprete da fé cristã. Ele chama Jesus pelo nome comum, não pelo título divino de Senhor, reconhece que “não fez nada de mal” e o anuncia “rei” de um novo Reino. Dizendo “hoje”, Jesus confirma que o Reino de Deus já está acontecendo e está aberto a quem acredita e confia nele (Lc 23,39-43). As últimas palavras de Jesus são de entrega nas mãos do Pai e o oficial romano declara: “De fato! Este homem era justo!” (Lc 23,47). O evangelista conclui que as multidões volt aram para casa batendo no peito.

Os relatos da Paixão são as páginas mais bem elaboradas dos evangelhos, provavelmente as primeiras a serem escritas depois de ter sido contadas nas liturgias por anos a fio. Desde o início, quando nós cristãos celebramos a Eucaristia, fazemos o “memorial” daquele evento de salvação. Ainda continuamos a dizer: “Anunciamos Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde Senhor Jesus!”. Dessa maneira, nas palavras, gestos e sinais da Missa, participamos daquele único momento irrepetível. Vamos viver intensamente os próximos dias. É verdade que o sinal da cruz expressa o nosso ser cristãos, mas não fomos salvos pelos sofrimentos desumanos de Cristo, mas pelo seu amor humano e divino, sem medida. Um amor que nunca acaba.


A corrente

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O grande chefão chegou de repente no escritório e ralhou duramente com o responsável daquela repartição. O responsável da repartição passou um carão ao funcionário do escritório. O funcionário baixou a cabeça, mas, quando chegou em casa, descarregou a sua raiva gritando com a mulher. A mulher tirou satisfação com a filha, porque não tinha arrumado o seu quarto. A filha ficou zangada e deu um chute no cachorro que, por sua vez, ficou brabo e correu atrás do gato. A história acabou com a morte dos ratos. Dificilmente reconhecemos os nossos erros. Muito mais fácil mostrar indignação e repúdio com os erros dos outros.

Nos tempos de Jesus, certos pecados, pela Lei de Moisés, deviam ser extirpados com o apedrejamento. Assim nos fala a página do evangelho deste 5º Domingo da Quaresma. O episódio da mulher encontrada em flagrante adultério pertence ao evangelho de João, mas foi escolhido, porque continua a catequese deste tempo quaresmal: Jesus, com suas palavras e gestos revela a extraordinária grandeza do amor misericordioso de Deus Pai. A situação foi mais uma armadilha dos fariseus e dos mestres da Lei “para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar” (Jo 5,6). No entanto, ele não reage de imediato, ganha tempo. Inclina-se e escreve no chão. À insistência deles, responde com as palavras bem conhecidas: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 5,7). Depois disso, Jesus volta a inclinar-se e a escrever no chão. N unca vamos saber o que Jesus escreveu, também se santos e teólogos tentaram responder. Pode ser, simplesmente, uma pausa de silêncio, para que todos pudessem refletir sobre o que pretendiam fazer: aplicar uma lei, friamente, sem se importar se isso significava a morte daquela mulher. A culpa era dela. Eles estavam julgando o pecado, não a pecadora. A vida dela pouco ou nada importava. O castigo devia ser exemplar, para amedrontar os futuros infratores ou, simplesmente, para que, como tantos outros e outras, tomassem mais cuidado para não ser pegos em flagrante.

A morte do pecador nunca é uma vitória contra o mal. Também naquele momento, a condenação era só o fruto amargo do orgulho de quem se considerava “justo” perante Deus e que, por isso, sentia-se dono da vida e de morte daquela mulher. Segue outro silêncio. O anterior estava carregado de ódio e de desafio contra Jesus. Este outro tem o peso dos pecados de todos e, talvez, o pecado da mulher não fosse nem o maior e nem o pior. Todos foram embora, nenhuma pedra foi arremessada. Ficaram somente “a misericórdia de Deus e a miséria humana”, uma na frente da outra, como ama lembrar Papa Francisco, citando Santo Agostinho (título da Carta Apostólica “No término do Jubileu Extr. Da Misericórdia”) “A misericórdia” não condenou “a miséria” humana. Só o perdão restaura a vida e o Deus, Pai de Jesus, não quer a morte do pecador, mas “que mude a sua conduta e viva” (Ez 18,23). A Lei também não era para a morte, mas para acertar os caminhos da vida, escrevê-la no coração, aprender a respeitá-la, a torná-la mais fraterna e solidária. O pecado nos dá a sensação de estar acima de qualquer Lei, de qualquer Deus que queira mandar em nós. É perigoso; nos faz perder as medidas do respeito, da justiça, dos direitos e da dignidade dos nossos irmãos. Passamos por cima de tudo e de todos. Também nos achar “certos” demais nos conduz a julgar e desprezar os outros. Pode ser que, em muitos casos, a aplicação rigorosa da lei consiga corrigir também os grandes e os poderosos que se consideram inatingíveis. Outras vezes, porém, os próprios infratores são as primeiras vítimas de uma soc iedade que não lhe ofereceu uma família amorosa, uma vida digna, uma educação cativante e um trabalho honesto. As “periferias existenciais” são habitadas por irmãos e irmãs como nós. Sempre crescem quando aumentam as desigualdades sociais. É muito fácil julgar os outros estando numa posição confortável e protegida. Melhor pensar bem, vasculhar a fundo a nossa consciência, antes de chutar, nem que seja um cachorro.


O ritual

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Uma tribo de índios da América do Norte tem um “ritual” para marcar a passagem da adolescência para a idade adulta. Quando o rapaz completa os anos estabelecidos, o pai o leva à mata. Com um pano, venda os olhos dele. Depois o deixa sozinho, sentado num toco de árvore. O jovem deve ficar naquela situação a noite inteira e não pode tirar a venda até ao amanhecer. Não pode pedir ajuda para ninguém. Se resistir, ao nascer do dia, será proclamado homem. Aquela noite é de grande medo para o rapaz. Escuta ruídos estranhos, assobios e rangidos, animais que se arrastam, lobos que uivam, murmúrios e grunhidos, lutas ferozes na moita. O jovem só tem a sua coragem. Aperta os punhos e aguenta, sentado no tronco, com o coração na boca. Finalmente, depois daquela noite terrível, o sol aparece e ele pode tirar a venda. Somente naquele momento des cobre que o pai estava ali por perto, sentado num tronco vizinho. O pai, não tinha saído, tinha ficado a noite inteira em silêncio, para proteger o filho de qualquer possível perigo, mas sem que o filho pudesse percebê-lo.

No quarto domingo de Quaresma, encontramos uma das páginas mais bonitas dos evangelhos e, também, uma das mais desafiadoras. Jesus é questionado, pelos fariseus e os mestres da Lei, sobre a aproximação que tinha com os pecadores. Ele responde com a parábola “do filho pródigo”, ou, mais propriamente, “dos dois filhos” ou “do pai misericordioso”. Qualquer seja o título que vamos dar a esta parábola, dos três protagonistas, o mais surpreendente é, com certeza, o pai. De fato, o filho mais novo representa a busca da liberdade na ilusão de encontrá-la o mais longe possível de qualquer autoridade ou controle. Para muitos, ainda hoje, ser donos de si mesmo, poder satisfazer os próprios impulsos e caprichos. Não ter que prestar conta da própria vida para ninguém, é sinônimo de liberdade orgulhosamente alcan&cc edil;ada. Do lado oposto, está o filho mais velho, rigorosamente obediente e conformado com a situação de trabalhar na casa do pai. Na realidade, ele esconde uma grande insatisfação: acha que o pai não reconhece, como deveria, o seu serviço. Cultiva, também, rancor com o irmão, não porque foi embora, mas porque levou a parte da herança que assim foi perdida. Só deu prejuízo.

Entre os dois filhos está a figura do pai, aparentemente, silencioso. Não questiona a escolha do filho menor; ao contrário, lhe entrega a parte legítima da herança. Igualmente, sabemos só no final, estranha o ódio do filho mais velho com o irmão. Esse filho estava em casa, trabalhavam juntos, mas não sabia que era considerado por ele mais um padrão exigente que um pai amoroso. Com essa parábola, Jesus quer nos fazer conhecer a grandeza da misericórdia do Divino Pai eterno. Ele é tão paciente que não intervém a cada instante para nos corrigir. Aguarda que cada um de nós perceba o que perdeu deixando a casa paterna. Igualmente, espera que aprendamos, com ele, a acolher sempre de novo, de volta, os irmãos, sem julgá-los, condená-los e, com isso, excluí-los do perdão e do amor fraterno. Nunca o Pai ficou indiferente. Simplesm ente estava esperando para festejar, todos juntos, a volta do filho menor e a decisão do filho maior de se comportar, também, como irmão e não como adversário do outro. Um Pai que nada diz no início da parábola, mas depois fala no abraço ao filho que voltou e não deixa de explicar o porquê de tanta alegria ao outro filho, incapaz de perdoar. Entendemos que é uma parábola desafiadora para todos nós. A cada momento, podemos ser os filhos que menosprezam o Pai e dele só sabemos cobrar a herança ou o cabrito. Também podemos ser interesseiros: querer os favores dele para nós, mas considerar injusto o seu perdão com quem, no nosso mesquinho entender, mereceria um castigo exemplar. A capacidade de perdoar é uma “prova” de maturidade cristã para todos nós. Até não aprendermos a prática da misericórdi a continuaremos imaturos. Por que ter medo de ser bons? Devemos fazer a nossa parte, mas não estamos sozinhos na escuridão da floresta da vida. Na luta do bem contra o mal, o Pai nunca abandona os seus filhos.


Duplica a dose

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Um médico sábio disse: – Os melhores remédios são o amor e o cuidado.

– Mas o doente perguntou: – E se não funcionarem?

O médico sorriu e respondeu: – Duplica a dose!

Com o terceiro domingo da Quaresma, iniciamos o próprio deste ano litúrgico no qual estamos lendo o evangelho de Lucas. É o evangelho da misericórdia de Deus manifestada de tantas formas por Jesus em sua vida terrena. Não que os outros evangelistas transcurem o tema da misericórdia, mas Lucas é particularmente atento a esse assunto. No evangelho deste domingo, podemos perceber facilmente a novidade da mensagem de Jesus.

Algumas pessoas trazem a ele a notícia triste da crueldade de Pilatos com os galileus. O próprio Jesus, na sua resposta, lembra outra tragédia: a queda da torre de Siloé, que tinha causado 18 vítimas fatais. As perguntas que o povo se fazia naquele tempo são sempre as mesmas, são as nossas também: por que eles e não outros? Será que eles mereciam morrer daquele jeito? Por que eles e não eu? Será que eu vou escapar? Se somos sinceros, não temos respostas. Ou, se temos, delas surgem outras perguntas. Por exemplo, se respondemos que tudo foi um acaso ou uma fatalidade, deve ríamos admitir que a nossa vida está pendurada no vazio e no imponderável. Nada sabemos, nem do hoje e nem do amanhã. Eis, pois, a nova pergunta: se tudo já está decidido, nós somos somente bonecos nas mãos do nada ou de um ser caprichoso e imprevisível? Um “deus” assim não é muito entusiasmante. Como acreditar e confiar em alguém que não sei o que pensa e o que quer? Também as respostas que Deus quis assim ou, pior , que ele precisou daquela pessoa que morreu, não nos satisfazem. Queremos saber mais. Jesus, no entanto, não responde com raciocínios intelectuais ou afirmações altissonantes. Conta uma parábola.

Primeiro, porém, nos convida à conversão, ou seja, a mudar a nossas ideias mesquinhas sobre Deus. Ele não é um jogador de dados, um justiceiro ou alguém que, simplesmente, não liga para nós. É um Pai amoroso que doa a vida aos seus filhos amados, os acompanha com carinho e, sobretudo, tem muita, muita paciência. Este é o sentido da parábola da figueira que, pela intercessão do vinhateiro, ainda receberá os cuidados por mais um ano. Mas o segredo está nos frutos. A utilidade, ou inutilidade, da planta depende dos frutos. Igualmente o sentido da nossa vida não está na quantidade d os anos, no acúmulo de riquezas ou de grandes sucessos. O valor da vida, que passa para qualquer um, depende dos frutos de bondade e de amor que conseguimos produzir. Até os sofrimentos, mais ainda se forem por causa do Evangelho ou pela fome e a sede de justiça, são frutos agradáveis a Deus. Por isso, a vida vale apena ser vivida. Não sabemos a sua duração, mas o rumo o conhecemos e o Caminho também. O vinhateiro que int ercede e se compromete a colocar mais adubo na pobre figueira, antes condenada ao corte, é o próprio Jesus. O “adubo”, perdoem a comparação, é o seu exemplo, as suas palavras, a sua própria vida, a sua esperança. A esperança de Jesus? Isso mesmo. Porque apesar da nossa cabeça dura, das nossas dúvidas, ainda o vinhateiro diz: “Pode ser que venha a dar fruto!” Onde podemos encontrar um Deus tão bondoso e compassivo? Foi Jesus que veio no meio de nós para que o conhecêssemos e, sobretudo, o amassemos.

Tudo isso é simplesmente maravilhoso. Nós estamos doentes de celebridade, de “selfies” e holofotes. Queremos aparecer. Poses e aplausos podem satisfazer o nosso orgulho, mas talvez não sejam frutos tão bons. Que tipo de pessoas nós somos: doces, amigas, confiáveis e generosas, ou chatas, egoístas, arrogantes e invejosas? Graças a Deus, quantos frutos bons existem por aí produzidos, na humildade e no silêncio, por tantas pessoas anônimas, solidárias e fraternas. Simplesmente “humanas”, capazes de aproveitar bem das suas longas ou curtas vidas, sem medo de Deus, porque, quando forem chamadas, terão tantos frutos bons para lhe oferecer, tantos que, talvez, nem elas sabiam. Em todo caso, uma “dose dupla” de Jesus e do seu exemplo não faz mal para ninguém, ao contrário…


O sapateiro que cantava

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Havia um sapateiro que estava sempre de bom humor. Era tão feliz que cantava de manhã at&eacut e; de noite. As crianças estavam sempre na janela da sua casa para escutá-lo e cantar juntos com ele. Na casa ao lado, morava um homem muito rico. Passava as noites contando o seu dinheiro e depois ia dormir de madrugada. Mas não conseguia, porque o sapateiro cantava. Certo dia, entendeu como podia fazê-lo parar. Convidou o sapateiro para almoçar na sua casa e lhe deu de presente uma pequena bolsa cheia de moedas de ouro. O pobre nunca tinha visto nada semelhante. Começou a contar as moedas. Depois, as contou e as contou de novo e as crianças na janela aguardando as suas canções. A partir daquele momento, o sapateiro ficou tão entretido com o dinheiro que se esqueceu o resto. Queria um lugar seguro para esconder as moedas. Primeiro, achou que o galinheiro era o lugar certo, depois as colocou no meio das cinzas da chaminé, por fim cavou um buraco no quintal. Não trabalhava e não cantava mais. As crianças pararam de visitá-lo. Ficou tão triste e infeliz, que resolveu recuperar as moedas e devolvê-las ao vizinho. Disse-lhe: “Por favor, pegue de volta o seu dinheiro. As preocupações me fizeram adoecer e perdi os meus amigos. Prefiro ser pobre e sapateiro como antes”. Voltou a ser feliz, a trabalhar e a cantar. E as crianças voltaram.

Depois do evangelho das tentações, que encontramos no primeiro domingo de Quaresma, no segundo , nos é proposta a página da transfiguração. Este ano, na versão de Lucas. Não é mera repetição. Por ter sido colocada entre dois anúncios da paixão, morte e ressurreição de Jesus, ela se torna uma introdução ao mistério-escândalo da cruz. Mistério não é um enigma insolúvel, é algo tão grande que supera o nosso limitado entendimento. Deus é incomparavelmente diferente de nós. Por isso, o “escândalo” vai junto, porque acreditar num Deus que ganha, quando perde, é sempre muito difícil. A questão é que o nosso Deus, Pai de Jesus Cristo, é o maior na força do amor, não no poder que esmaga os inimigos. Porque Deus não tem inimigos, só tem filhos, alguns dos quais, ou muitos, ainda não o conhecem bem e não o consegue m entender. Além da cruz, o difícil de entender do nosso Deus é o ter-se tornado um de nós. São Paulo nos ensina que ele se “esvaziou” do tudo que era, e que é, para se tornar o nada que somos nós.

A luminosidade da Transfiguração é indescritível, mas, mesmo assim, ainda &eacut e; pouca e nem conseguimos imaginar a grandeza de Deus. No entanto, em Jesus, o Filho amado, ele se fez nada, assumiu a carne humana até a morte e ‘morte de cruz”. Nós humanos lamentamos quando perdemos alguma coisa, choramos e nos desesperamos se ficarmos mais pobres. Deus Pai deu seu Filho e o Filho deu tudo, entregou a sua própria vida. Isso funciona somente com a lógica do amor divino, nunca com os nossos critérios interesseiros e gananciosos. Somente abrindo o nosso coração àquilo que Jesus fez e ensinou, aos poucos, conseguimos, ainda que de longe, a nos deixar surpreender e envolver por esse amor tão grande. Nada de palavras inúteis, explicações confusas. Melhor ficar em silêncio, pensativos, como os três apóstolos descendo do monte.

O tempo da Quaresma é tempo de conversão, escuta da Palavra do Senhor e oração. No meio de tantas opiniões, conversas, slogans e gritos, nos faz bem voltar ao silêncio da nossa consciência, para nós mesmos, cada um pessoalmente, tomar conta do rumo da nossa própria vida. A quem queremos seguir enfim? Já deveríamos ter entendido que caminhos fáceis e cômodos são atraentes, mas não levam a lugar nenhum, ou, talvez à desigualdade e à injustiça. Muito mais difíceis são os caminhos da generosidade, da partilha e da fraternidade. Podemos ficar entretidos contando o nosso dinheiro, defendendo as nossas ideias, os bens e os privilégios ou refletir, no silêncio do coração, para poder seguir Jesus e cantar de novo o canto da liberdade e do amor. Como o sapateiro feliz. Simples e amigos das crianças porque delas é o Reino de Deus.


“Serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27)

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Com a Quarta-feira de Cinzas iniciamos o caminho da Quaresma rumo à Páscoa de Jesus e, também, à Campanha da Fraternidade. O tempo quaresmal é sempre um convite à conversão, um “voltarmos” para o Senhor que deve ser, ao mesmo tempo, um voltar para os nossos irmãos se deles nos afastamos por egoísmo, desinte resse ou, mesmo, por maldade. A CF, sobretudo quando nos propõe algum tema de cunho social, evidencia mais ainda este segundo aspecto da Quaresma: não podemos pensar em nos reconciliarmos com Deus se não desejamos também renovar os nossos relacionamentos com os demais seres humanos que, temporariamente, junto conosco, habitam este planeta. Não vivemos neste mundo sozinhos e, se isso condiciona e limita a nossa existência, de outro lado nos oferece a maravilhosa e gratificante experiência da fraternidade, da solidariedade e do amor. Digo isso porque sempre podemos olhar a sociedade na qual vivemos de muitas maneiras: como um empecilho para os nossos projetos individuais ou a oportunidade que nos é oferecida de nos unirmos para melhorar a vida de todos e de cada um.

A proposta da CF de refletir sobre “políticas públicas” parte desse compromisso que é também um desafio. Não podemos mais aceitar as contradições e injustiças da sociedade como algo imutável, querido não se sabe bem por quem e por quê. Devemos acreditar na capacidade dos seres humanos de unir-s e para construir não uma nova Torre de Babel, fruto do nosso orgulho e da nossa ânsia de poder, mas uma sociedade onde seja reconhecida e valorizada a existência e a dignidade de todos os seres vivos. O que são, então, as políticas públicas, objeto da nossa reflexão quaresmal deste ano? A “política” que nos interessa é aquela grande, séria, necessária para a busca de soluções para os diferentes e, na maioria das vezes opostos, interesses das classes sociais que constituem as sociedades humanas. Nenhuma política consegue esse milagre quando a maioria quer tirar vantagem e, se der certo, explorar e enganar os outros; e poucos, ou ninguém, dispõem-se a contribuir para o bem dos demais. Não estamos falando de disputas partidárias ou de projetos de poder e controle social, mas de políticas públicas no sentido de ter como obje tivo o bem de todos, melhor definido como “bem comum”. Obcecados por privilégios, mordomias, muitos direitos e poucos deveres, acabamos confundindo o bem comum com o bem nosso ou do nosso grupo social. Numa sociedade de desiguais, com poderes aquisitivos e de pressão diferentes, somente políticas públicas a serviço das classes mais pobres e mais desamparadas podem amenizar as injustiças sociais. Ninguém cobra a perfeição, mas certas situações de exclusão social e de abandono são gritantes e visíveis aos olhos de todos. Políticas públicas verdadeiras se interessam pela educação, a saúde, os direitos humanos, a assistência social, a economia, a habitação, o transporte, a segurança de todos e, de maneira especial, de grupos específicos como as crianças, as mulheres, os idosos, os indígena s, os camponeses, enfim, os grupos sociais menos favorecidos. Para tudo isso, devem existir políticas públicas nos diferentes níveis: federal, estadual e municipal, conforme as necessidades e as urgências gerais e locais.

O bem comum e a paz social deveriam ser os grandes objetivos de toda e qualquer atividade política e o anseio de toda sociedade democrática. Contrárias a isso, são aquelas políticas que, clara ou sorrateiramente, favorecem este ou aquele grupo social e econômico. O assunto da CF não é nada fácil, pode gerar polêmi cas e até repulsa por aqueles que continuam a pensar que cristão bom é aquele que reza na sua igreja, paga as suas promessas e o seu dízimo, e não interfere na vida pública entendida, afinal, como a vida, os negócios e o dinheiro dos outros. Para quem pensa assim, religião é sinônimo de alienação, como se o cristão estivesse vivendo fora da sociedade e dos laços que inevitavelmente nos unem. É a tentação de ser como Caim quando Deus lhe perguntou: “Onde está Abel, teu irmão?” – e ele respondeu: “Não sei. Acaso sou o guarda do meu irmão?” (Gn 4,9). Somos responsáveis sim, uns dos outros.


A medida do amor

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O mestre e os seus discípulos andavam caminhando tranquilamente em direção ao mosteiro. Um deles perguntou:

– Mestre, será que algum dia eu serei capaz de amar com tanta intensidade quanto o senhor ama? O mestre respondeu:

– O amor é a maior riqueza do mundo. Não existe nada comparável a ele. É ele que mantém o mundo girando, as pessoas se encontrando, a natura crescendo. Mas o discípulo insistiu:

– Como saberei se o meu amor é digno de tudo isso e se é grande o suficiente? – O mestre falou:

– Procura saber se tu vives intensamente as emoções, se te entregas ou foges delas. O amor não é grande nem pequeno, não te preocupes com isso. Ele simplesmente é o amor, natural, espontâneo. Não se pode medir um sentimento como se mede uma estrada. Não dá para segurá-lo ou prendê-lo em algum lugar. Ele deve permanecer livre. Se tentares medi-lo, estarás vendo apenas os seus reflexos, como a lua em um lago, ou o sol no mar. O amor deve simplesmente ser vivido.

A página do evangelho de Lucas deste 8º Domingo do Tempo Comum é um conjunto de palavras de Jesus recolhidas e guardadas pelos discípulos e depois transmitidas através da comunicação oral antes de serem escritas. Também não devemos esquecer as situações reais e a convivência entre os cristãos daquelas primeiras comunidades. As pequenas parábolas e as palavras de sabedoria que as ligam deviam servir para corrigir e animar os irmãos daquele tempo e os que viriam depois, ou seja, nós mesmos, discípulos de Jesus nos dias de hoje. Começamos pela imagem dos dois cegos, um querendo guiar o outro. Vão cair no buraco. Assim acontece com aqueles que querem corrigir os defeitos dos outros, com a pretensão de serem melhores, de enxergar mais longe, de ter alguma luz ou revelação particular. É sempre muito mais fácil critic ar os outros que admitir as nossas falhas. Jesus chama essas pessoas de hipócritas, falsas, porque querem melhorar os outros, mas não se empenham a corrigir a si mesmo. Na linguagem de Jesus, eles não se incomodam com a trave que têm no seu próprio olho, mas gritam de horror com o cisco no olho do irmão. As críticas, ou melhor, a correção fraterna funciona se nós também trabalhamos para aprimorar a nossa conduta de cristãos. Deveríamos disputar para ser os primeiros a nos converter e a mudar o que for necessário para seguir Jesus com mais compromisso e perseverança.

As outras duas pequenas parábolas são diferentes, mas nos conduzem à mesma conclusão. A árvore boa só pode produzir frutos bons. O homem bom, também, tem guardadas coisas boas no bom tesouro do seu coração. A árvore ruim, o espinheiro, só produz espinhos, nunca vai produzir uva doce e gostosa. Assim, o homem mau só tem maldade no coração. Ele nunca vai oferecer coisas boas, porque não tem de onde buscá-las. A última lição de Jesus é uma afirmação sobre o que sai da nossa boca. As nossas palavras seguem os nossos pensamentos: somente falamos daquilo que transborda do nosso coração, pelo bem ou pelo mal. Todos nós nos enchemos com muitas coisas e elas, com certeza, saem para fora. Tudo depende com que bagulho ou mercadoria alimentamos os nossos pensamentos e o nosso coração. Nada de espant oso. Basta reconhecer a superficialidade de tantas conversas e banalidades com as quais nos fartamos. Bobagens e fofocas ganham espaço. Sobra pouco tempo para a reflexão, a avaliação sincera e a busca de respostas às grandes e intrigantes perguntas da vida. O perigo é que não saia mais nada de importante e valioso do nosso coração. Estamos vazios de valores, de esperanças, de referências confiáveis. Usamos o nome de Jesus, mas não guardamos as suas palavras como um tesouro precioso. Não falo de citações da Bíblia que basta decorar! Falo daquilo que deveria trasbordar de um coração de carne e não de pedra: a compaixão, o perdão, a alegria de fazer o bem, palavras de vida e nunca de morte, como Jesus. Dele diziam que nunca ninguém tinha falado assim (Jo 7,46). Era a abundância de amor do seu coração que falava. Sem medida.


As rosas que não acabavam

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Três amigos, bem diferentes entre si, estavam reunidos na casa de um deles, tomando café, quando apareceu um Gênio, como um daqueles dos quais tinham ouvido falar nas fábulas infantis.

– Gênio, o que você nos traz? Perguntaram, agradecendo a oportunidade e esperando algo maravilhoso.

– Rosas. Respondeu o Gênio. Dito isso, entregou um buquê de rosas para cada um. O que fazer com aquilo? Cada um agiu do seu jeito. O ingrato foi o primeiro a sair, achou que não tinha sorte na vida mesmo e jogou as rosas no lixo. O conformado foi o segundo a sair, sem saber o que fazer, foi para casa e colocou as flores num jarro. O generoso, o dono da casa, ficou alegre. Saiu pelas ruas distribuindo as rosas aos vizinhos. Logo percebeu que mais ele as distribuía, mais rosas apareciam nas suas mãos. Elas não acabavam. Todos receberam alguma flor. Finalmente, voltou para casa com um buquê de rosas ainda maior. No dia seguinte, os amigos se reuniram de novo e o Gênio compareceu pela segunda vez. Perguntaram-lhe:

– E agora o que você deseja?

– Quero que as rosas se transformem em ouro! Respondeu o Gênio.

O homem generoso ficou feliz e mais alegre ainda, porque viu que não só ele havia ganhado o ouro, mas todos os moradores da vila aos quais tinha conseguido entregar as rosas. O conformado, só encontrou o seu jarro cheio de ouro. O ingrato, tentou lembrar onde tinha jogado o buquê das rosas, mas alguém o devia ter levado e, assim, ficou sem nada.

Neste domingo, continuamos a leitura do evangelho de Lucas. O ensinamento de Jesus nos parece tão distante da realidade e da nossa vida do dia a dia que, provavelmente, o achamos impossível de ser praticado. Somente os heróis, ou os santos, conseguem amar os inimigos. Não é justo deixar levar as nossas coisas. Apanhar duas vezes, oferecendo a outra face? Nem pensar. Apelamos ao bom senso e à legítima defesa. Não podemos ser “bonzinhos” com os ladrões e, menos ainda, deixar de defender a nossa vida, as nossas famílias e os nossos bens. Emprestar, dinheiro sem ter retorno? É burrice. – Vamos à justiça. É o que mais se escuta. Todos estamos prontos a ir até as últimas consequências para defender aqueles que consideramos os nossos sagrados e intocáveis direitos. Até aqui, não tem nada de novo. Toda a história da hum anidade, a nossa pessoal ou familiar estão resumidas nessas disputas. A que serve a “Boa Nova” de Jesus se a consideramos impraticável? Precisamos entender.

Podemos até aceitar que a linguagem do evangelista Lucas seja demais radical, mas por quê? Porque nós somos mestres dos ajustes de conduta e do mais ou menos. Também o nosso agir funciona na troca, na recompensa, ou seja, queremos ganhar também alguma coisa, ou, pior, no “troco” que nos sentimos obrigados a devolver, quando se trata de ofensas ou coisas semelhantes. É o gostinho da justiça-vingança. Ninguém pede o impossível, nem Jesus, mas isso não nos dispensa de mudar atitudes e maneira de pensar. Para entender a novidade de Jesus basta substituir as palavras “que recompensa tereis?” com as palavras “que gratidão esperais?”. A palavra grega usada por Lucas pode ser traduzida melhor dessa outra forma. Por isso, logo em seguida, o evangelista diz para emprestar “sem esperar coisa alguma em troca” e coloca o próprio Deus Altíssimo como modelo insuperável: ele “é bondoso também com os ingratos e os maus” porque é o Pai de todos, muito além das respostas dos beneficiados (Lc 6,35-36). Esta é também a nova tradução oficial da Bíblia dos Bispos do Brasil. Ou seja: a “recompensa” à qual temos direito e a alegria de esperar é só a “gratidão”. Em lugar da vingança do inimigo, do ódio do devedor e da indiferença de quem pouco ou nada amávamos: a surpreendente gratidão deles. Jesus nos coloca de vez num outro plano de relacionamentos. Quem consegue imaginar uma sociedade onde a lei, invocada como justiça e direito, deixa o lugar à misericórdia e à gratuidade? Comecemos ao menos a ver se funciona entre nós cristãos. Vamos doar “flores” de bondade e de solidariedade a quem encontramos pelos c aminhos da vida. As “rosas” do amor nunca acabarão.


A força do destino

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Certa vez, um comandante de exército estava prestes a travar uma batalha com outro exército muito mais numeroso do que o seu. Ele conhecia bem os seus homens, mas também sabia das dificuldades. Os soldados estavam desanimados e apavorados com a superioridade inimiga. O comandante convocou o exército e disse que iria meditar e rezar, antes de tomar uma decisão. Depois de algum tempo, quando todos estava na expectativa, o comandante falou assim: “Ouçam bem a inspiração que eu tive. Aqui tenho uma moeda. Se sair cara, é porque o destino nos reserva uma vitória gloriosa, e então podemos combater sem medo. Se sair coroa, é porque não temos chances de vencer. Então será melhor desistir. Jogou a moeda para o alto e saiu cara. Os soldados ficaram entusiasmados com o presságio e foram à luta cheios de confiança. Apesar da desvantagem numérica, v enceram os inimigos. Ao final, festejaram alegres a conquista. Um dos soldados aproximou-se do comandante e comentou orgulhoso: “Ninguém pode mudar a força do destino”. O comandante sorriu e lançou novamente a moeda ao ar. Saiu cara. Lançou de novo e saiu cara de novo. Mostrou então a moeda ao soldado: os dois lados eram iguais.

No evangelho deste Sexto Domingo do Tempo comum, após a chamada dos primeiros discípulos na beira do lago de Genesaré, o evangelista Lucas começa a explicar em que consiste a “Boa Notícia”, que Jesus veio anunciar aos pobres. Ele nos apresentada as “bem-aventuranças”. São diferentes daquelas do evangelho de Mateus, não só pelas palavras e pelo número, mas também porque são acompanhas por quatro “ais”. Logo, aparecem claros os opostos. De um lado: os pobres, os que estão com fome, os que choram e os que são odiados por causa do Filho do Homem. Do outro: os ricos, os saciados, os que riem e os que são elogiados por todos. Para Jesus os sofredores, os que são considerados perdedores aos olhos do mundo, são “bem-aventurados”. Os satisfeitos da vida, ao contrário, são alertados a não se deixar enganar e iludir. A verdadeira felicidade pode estar na pobreza e nas perseguições. Não depende da riqueza, do sucesso humano, dos aplausos. Jesus não ameaça e nem amedronta ninguém. O medo não resolve. Ele consola e dá esperança aos pobres e aos pequenos desprezados, mas também tem compaixão dos grandes, porque estão errando tudo: trocam o verdadeiro bem com os “bens” passageiros deste mundo.

Nós já sabemos que o verdadeiro bem é o amor de Deus e dos irmãos. A cobiça das riquezas gera as guerras. O medo de passar fome produz o acúmulo e o desperdício dos alimentos em lugar da partilha e da solidariedade. O sucesso e o poder geram ódio e disputas. Ninguém inveja o pobre, quem passa fome, quem chora e quem é amaldiçoado. Todos nós invejamos os ricos, os gozadores da vida, os que esbanjam, as estrelas da fama e dos holofotes. É Jesus que está visivelmente equivocado ou somos nós que ainda não entendemos o “hoje” da profecia de Isaías, proclamada por ele na Sinagoga de Nazaré? A felicidade que Jesus anuncia não é para poucos, é para todos, a começar pelos pequenos. É um conjunto de novos relacionamentos onde as diferenças, de todo tipo, não distinguem ou privilegiam, mas são colocadas a serviço do bem comum, da verdade, da justiça, da paz, da convivência respeitosa da vida e da dignidade de todos. Jesus anuncia uma nova “fraternidade”, aquela dos filhos do mesmo Pai Divino, que ama a todos e a propõe como alegria verdadeira para todos. A festa somente para alguns, não é a festa de Deus, não é a festa do amor. Esse é o projeto do Pai amoroso que Jesus veio nos fazer conhecer. Quem consegue imaginar uma sociedade sem muros, sem cercas, sem armas, aquelas visíveis ou bem escondidas em nossos corações? Poucos sonhadores? Ou profetas de um mundo novo? Não tem destino e nem sorte. Jesus não tem um plano B. Só tem uma cara: a garantia da força do Espírito, até o fim dos tempos. O amor vencerá.