De onde começa a oração?

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O mestre reuniu os seus discípulos e lhes perguntou:

– De onde começa a oração? O primeiro discípulo respondeu:

– Começa pela necessidade. O segundo disse:

– Começa pela alegria do coração. O terceiro afirmou:

– Nasce do silêncio. Quando tudo se cala, Deus pode falar e eu posso escutar. O mestre respondeu:

– Todos vocês responderam bem. Sempre temos muitos motivos para começar a rezar. Contudo tem um ponto de partida que antecipa todos aqueles que vocês indicaram. A oração começa em Deus mesmo. É ele que a inicia em nós.

Chegamos ao Domingo de Pentecostes e concluímos o Tempo Pascal. Todas as leituras da Liturgia da Palavra nos falam do Espírito Santo, último dom de Jesus aos seus amigos. O vento e o fogo são símbolos bíblicos da liberdade e da força do Espírito. Servem para nos lembrar que a iniciativa é sempre de Deus, também se ele pede a nossa disponibilidade para a missão e a alimenta com sua força, coragem e entusiasmo. O fogo aquece e ilumina. É luz na escuridão, é calor para os corações frios e desanimados. Por isso, a presença do Divino Espírito santo, antes de ser a “energia”, que anima a Igreja toda e para sempre, deve ser a experiência que cada batizado e crismado faz em si mesmo, na sua própria vida espiritual, no silêncio do seu interior.

Nós todos somos discípulos missionários. Discípulos, porque sempre devemos aprender com Jesus. O Espírito Santo vai nos lembrar e ajudar a entender o que o único Mestre ensinou com a vida e a palavra. Missionários, pelo bem ou pelo mal. Pelo bem quando, apesar das nossas fraquezas e pecados, procuramos vivenciar a nossa fé, praticando o bem e colocando a serviço dos irmãos os dons recebidos pelo Espírito Santo. Pelo mal, infelizmente, quando desistimos, guardamos para nós ou jogamos fora a pérola mais preciosa que deveríamos saber valorizar. Digamos que, neste caso, seríamos missionários ao contrário: freamos, esfriamos, espalhamos o desânimo e a inutilidade do evangelho. Melhor ser um missionário fraco e capenga, mas que ainda caminha, que alguém que fala mal de Jesus e da Igreja ou escandaliza com a sua indiferença.

Para um cristão que quer estar à altura da sua vocação e missão, a oração, a meditação da Palavra de Deus, as Missas e a participação na Comunidade não são tempo perdido. São os momentos necessários para manterem vivas a fé, a esperança e a caridade. Numa sociedade onde somente vale o poder econômico e tudo se mede pelos bens materiais e pelo dinheiro, nós cristãos precisamos testemunhar que tudo o que somos e produzimos deve ter um sentido bom, deve construir paz e fraternidade, respeito e colaboração dos seres humanos entre si e com a natureza, entre os povos e o planeta. Numa cidade onde se vive e se respira tecnologia, onde os encontros e desencontros estão se tornado virtuais, onde as pessoas são reduzidas a endereços eletrônicos, precisamos resgatar a caridade como confraternizaç&ati lde;o, conversa frente à frente, abraços e capacidade de nos carregar nos ombros uns aos outros. O bom samaritano fez isso; ao assaltado e ferido não deixou a publicidade de algum remédio, a proposta de algum plano de saúde ou de algum empréstimo consignado. Todas coisas boas que o progresso inventou, mas que nos fazer correr o perigo de enxergar naqueles que estão caídos à beira das estradas “clientes” e não mais irmãos e irmãs, companheiro de caminhada, peregrinos, como todos, neste mundo. Antes de qualquer iniciativa ou atividade, acreditar na ação do Espírito Santo, significa escutar o que ele tem para nos lembrar de Jesus, nos entender como humildes seguidores e continuadores de uma missão que é de vida nova, de amor e de paz. De outra forma, qualquer missão será a “nossa” missão. Aquela do nosso grupo, da no ssa bandeira, da nossa doutrina, da nossa organização, mas não a única missão pela qual o Pai enviou o seu Filho e que o Espírito Santo deve continuar na história. Toda decisão grande e bonita é tomada no nosso interior. Toda coragem de mudar é iniciativa de Deus. É dom do Espírito Santo.


O incêndio

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Tempos atrás, num vilarejo, aconteceu um incêndio. Um rico e um pobre, até aquele dia bons vizinhos, perderam tudo o que tinham. O pobre ficou em paz; ao contrário, o rico caiu no desespero.

– Amigo – disse ele ao outro – Como é possível que você esteja tão tranquilo depois que perdeu tudo no incêndio?

– A mim ficou o meu Deus – respondeu o pobre – o seu queimou junto com a casa!.

Chegamos ao Sexto Domingo do Tempo Pascal. Encontramos mais umas palavras de Jesus aos discípulos na Última Ceia do jeito que o evangelista João as quis nos transmitir. Mais do que palavras de despedidas, são palavras de “presença”. Parece uma contradição, mas não é, porque Jesus nunca nos deixou “órfãos” (Jo 14,18). Ele continua no meio de nós, vivo e ressuscitado, mas de uma forma diferente de quando andou pelos caminhos da Palestina. Somente com o olhar da fé podemos “ver o invisível”, com a gratuidade do amor experimentar a sua presença e com a luz da esperança enfrentar os desafios da construção do Reino.

A principal condição para que a presença de Jesus – e do Pai e do Espírito Santo – não seja uma mera imaginação é a de “guardar” a palavra do Senhor. Isto é tão importante que esta será sempre a missão do “Defensor”, o Espírito Santo. A fidelidade à palavra do Senhor é a primeira garantia da sua presença. Porque nós cristãos, a Comunidade, grande ou pequena, chamada Igreja, não seguimos um “Jesus” imaginário, adaptado às circunstâncias mais ou menos favoráveis, úteis ou vantajosas para nós. Não devemos nos deixar enganar por critérios meramente humanos de quantidade, sucesso, riquezas e poder. Que a Igreja “católica” seja “importante” ou não, que influencie toda a sociedade ou não, é bastan te relativo e nunca pode acontecer à custa do esquecimento ou negação de alguma palavra de Jesus. Vale desde o Papa até o último cristão, porque somente assim “o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada” (Jo 14,23). Jesus disse que os cristãos devem ser “sal da terra e luz do mundo”. Não significa poder, dominação, controle ou algo semelhante, mas serviço amoroso e, sobretudo, consciência crítica dos valores inegociáveis da vida, da dignidade humana, da liberdade, da justiça e da paz. Qual paz?

Mais uma vez o próprio Jesus disse que a paz que ele ia deixar para os seus amigos, não tinha nada a ver com a paz que o mundo também promete. Desde sempre a humanidade fez guerras para organizar “a paz”, mas como resultado do silêncio do medo e da morte. São as duas formas mais antigas de calar quem pensa diferente dos sistemas dominantes. Aconteceu com Jesus. Hoje, porém, corremos o perigo de uma outra paz que usa até o nome de Deus. Acontece quando a Palavra dele, as orações e certas manifestações religiosas, na prática, servem como autoajuda, entorpecem as consciências e nos dão a impressão de nos “sentir bem”. Não significa que a palavra do Evangelho nos deve dar convulsões, tampouco, que deve paralisar a nossa “fome e sede de justiça”, por exemplo. A paz de Jesus vem da certeza de trabalhar por uma causa grand e, justa, capaz de transformar as estruturas excludentes e desumanas da nossa sociedade. Não é um jeito para apaziguar o coração dos chamados “homens de bem”, mas, ao contrário, os questiona se o tão badalado “bem” talvez seja a vantagem ou o lucro somente deles.

Por fim, Jesus diz: “Não se perturbe nem se intimide o vosso coração” (Jo 14,27b). Andar na contramão dos projetos de ganância e de poder, de dominação e violência, gera dúvidas e incertezas. Sempre seremos tentados a ficar omissos, a nos fechar dentro de igrejas e sacristias e a falar só para nós mesmos. São Paulo já escreveu aos cristãos de Roma: “De fato, vós não recebestes espírito de escravos, para recairdes no medo, mas recebeste o Espírito que, por adoção, vos torna filhos, e no qual clamamos “Abbá Pai”! (Rm 8,15). Já queimaram e ainda estão queimando casas e igrejas de cristãos, com as chamas, as calúnias, o desprezo, mas a “paz” de quem tem Deus no coração ninguém tira.


‘Mamãe te amo!’

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Uma criança, de mais ou menos dez anos, ia todos os dias à praia e escrevia na areia: “Mamãe te amo!”. Depois olhava as ondas do mar apagar as palavras e corria embora, sorrindo. Um velho, meio triste, passeava também, todos os dias, naquele lugar; via o menino fazer aquilo e pensava: “Que bobagem!” Mas um dia, resolveu aproximar-se dele e lhe disse:

– Não tem sentido você escrever “Mamãe te amo!” na areia, porque depois as ondas apagam tudo cada vez! Por que não diz logo isso para ela? – A criança levantou e respondeu:

– Eu não tenho mais a minha mãe. Deus a levou consigo, como as ondas fazem com as minhas palavras. No entanto, eu volto aqui todos os dias para lembrar a ela e a Deus que não se pode apagar o amor de um filho por a sua mãe. O velho se ajoelhou e, com os olhos molhados de lágrimas, escreveu na areia: “Conceição te amo!”. Era o nome da esposa, falecida havia pouco tempo. Depois, pegou na mão da criança e juntos viram aquelas palavras desaparecer.

Neste Quarto Domingo de Páscoa, temos muitos assuntos para refletir: é o Dia das Mães, mas também o Dia Mundial de Oração pela Vocações e o Domingo do evangelho do Bom Pastor. O evangelista João faz dizer a Jesus que as suas ovelhas o conhecem pela voz. Ele também as conhece todas, e elas o seguem. Poucas coisas revelam a familiaridade entre as pessoas. Uma delas é a voz. Hoje a tecnologia nos permite ver, pelo celular, com quem estamos falando. Ficou ainda melhor. Além da ouvir a voz de quem está do outro lado, podemos ver a expressão do seu rosto. Se não somos atores consumados ou mentirosos profissionais, tudo contribui para nos ajudar na nossa comunicação. Podemos partilhar alegrias e tristezas, lágrimas e consolações, medo e coragem, afagos e… insultos, infelizmente. Parece que estamos perto, também se enormes distâ ncias nos separam. Sempre, porém, tem um segredo, chama-se sinceridade. Por educação, falamos e respondemos a qualquer um, mas a poucos abrimos o nosso coração e com poucos brincamos. Nisso sempre estará a diferença entre aqueles e aquelas que se reconhecem pela voz e os demais. Assim, nesta maneira simples, todos nós sabemos em quem podemos confiar e, também, de quem é melhor… desconfiar.

Se acreditamos nele, a “voz” de Jesus nos chega através das palavras daqueles que nos amam, os nossos pais e amigos; através dos pastores e educadores chamados a acompanhar e guiar o rebanho. A “voz” de Jesus nos chega pelos apelos dos pobres e excluídos. Às vezes são gritos por socorro. São fortes e somos tentados a tampar os ouvidos. Outras vezes, são vozes tão fracas que, se não pararmos para prestar atenção, passam totalmente despercebidas. Por fim, a “voz” de Jesus deveria ecoar em nossas vidas pelas suas Palavras guardadas e transmitidas pela comunidade dos seus amigos e seguidores. É através de todas essas “vozes” que o Senhor continua a nos chamar pelo nome, continua a nos convidar a segui-lo e nos pede uma resposta pessoal, livre, alegre e responsável. Ele não quer um bando de fanáticos que batam palmas a q ualquer suspiro do seu ídolo. Não quer “escravos”, mas amigos, porque não é um patrão cobrador. O Bom Pastor quer pessoas conscientes e felizes de acompanhá-lo até no caminho da cruz, porque sabem o que ele faz e por que (Jo 15,15). Rezemos pelas vocações todas. Precisamos de “bons pastores”, padres, religiosos, religiosas, missionários e missionárias, mas também de bons pais e mães, de profissionais honestos e competentes. Precisamos de políticos e governantes com coração de pastores, comprometidos com o bem comum, com o povo mais humilde, sempre escutando a voz dos pequenos e esquecidos. Nesta altura, penso nas vozes das nossas mães, nos seus conselhos e nas suas orações. Penso nas palavras de bênção delas para os filhos, obedientes e desobedientes, os de perto ou os de longe. Mas penso també m nas suas lágrimas pelos filhos surdos aos apelos delas, às súplicas para que deixem os caminhos errados. O tempo pode apagar as palavras, mas não o amor. Igualmente, sempre seremos ovelhas amadas pelo Bom Pastor.


Duas estrelas

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Um tempo atrás, vivia um homem muito austero que tinha feito a promessa de não tocar nem no alimento e nem na bebida até o pôr do sol. Ele acreditava que o seu sacrifício fosse agradável a Deus, porque todas as noites, sobre a montanha mais alta daquele lugar, resplandecia uma estrela muito luminosa. Certo dia, o homem decidiu subir a montanha e um rapazinho insistiu para ir com ele. No meio do caminho, devido ao calor e ao esforço, os dois tiveram sede. O homem disse ao menino para tomar a água, mas ele falou: “Tomarei somente se você tomar também”. O pobre homem ficou sem jeito; não queria quebrar a promessa, mas também não queria fazer sofrer o rapaz. No fim, tomaram água juntos. Aquela noite o homem não tinha coragem de levantar os olhos para o céu. Temia que a estrela tivesse desaparecido para sempre. Grande foi a sua surpresa, quando olhou o c& eacute;u, viu que resplendeciam nele duas estrelas.

No terceiro domingo de Páscoa, encontramos, no evangelho de João, mais uma “aparição” pós-pascal de Jesus ressuscitado. Desta vez na beira do mar de Tiberíades. É uma página cheia de simbolismos bíblicos. Tem algo de comum e algo de extraordinário ao mesmo tempo. Talvez seja esta a mensagem que podemos reconhecer: a vida nova da Páscoa não está – e nem deve estar – fora ou longe do nosso dia a dia. Ela deve iluminar e transformar o nosso cotidiano. O simples dessa página evangélica é, em primeiro lugar, o trabalho dos pescadores. Voltaram ao que sabiam fazer, ainda não estavam prontos para o novo. Voltaram lá, por onde tudo iniciou. São somente sete, uma pequena comunidade. Porque tudo começa pequeno. Comum também é a busca do alimento. Sem comida é impossível sobreviver e trabalhar. O p róprio Jesus pergunta se tem “alguma coisa para comer”. Não pode faltar o necessário, mas também precisamos daquele alimento que somente ele pode oferecer: é ele mesmo, feito “comida e bebida” para nós. Extraordinária é a pesca, como também as brasas, o peixe e o pão que Jesus já tinha preparado na beira do mar. No entanto, sentar-se juntos à mesa, como irmãos, como família, partilhando alegrias e desafios, esperanças e dificuldades deveria ser sempre o gesto comum dos amigos. É “o discípulo que Jesus amava” a reconhecer o Senhor. Nos surpreende, porém, o mergulho na água de Pedro, após ter vestido a roupa. Talvez uma antecipação simbólica da nova missão dele e de todos os batizados revestidos de Cristo, renovados e confirmados. Por fim, temos a pergunta essencial de Jesus a Pedro: “Tu me amas?”. E a resposta sincera dele: “Senhor, tu sabes que eu te amo!” Somente por amor e nunca por interesse ou poder é que Pedro poderá apascentar o rebanho do Senhor. Na nova comunidade de Jesus Crucificado e Ressuscitado toda missão, responsabilidade e serviço só deverá ser motivado e sustentado pelo amor. Não podia ser diferente para os discípulos daquele que nos “amou até o fim”. O novo e o repetitivo, o corriqueiro e o marcante se entrelaçam.

Com isso, o evangelista João nos apresenta um retrato realista da comunidade dos discípulos de Jesus. A Igreja tem uma missão extraordinária, deve ser sinal e germe do Reino presente na história, continuar a oferecer a Palavra de Vida e os Sacramentos, testemunhar o mandamento do amor, a nova e única lei que Jesus deixou. Tudo isso junto com as fraquezas humanas, consciente de que os primeiros a ter que se converter e mudar, a gastar as suas vidas por amor, devem ser os próprios cristãos batizados e alimentados pela santa Eucaristia. O que o Senhor nos pede não são compromissos ou promessas extraordinárias, prática, ou correntes de orações milagrosas nas quais acabamos confiando mais que na própria gratuidade e generosidade do amor de Deus. Não nos salvaremos pelos nossos jejuns ou por qualquer outro merecimento inventado ou imaginado por nós. A caminha da é longa e difícil. Cansamos. Temos fome e sede como todos os seres vivos. A única diferença é que, por graça de Deus, sabemos onde encontrar a fonte da vida e da alegria, o alimento que não perece. É Jesus, luz do mundo. Quando praticamos o bem, um pouco da sua luz resplandece também em nós.


Nos braços de Jesus

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Um casal de pessoas sem nenhuma fé tinha uma filha. Nunca tinham falado para ela de Deus. Uma noite, quando a criança tinha cinco anos, brigaram. A violência chegou a tal ponto que ele atirou na mulher e depois cometeu suicídio. A criança viu tudo. Depois de algum tempo, ela foi adotada por uma família que a acolheu com amor. A mãe adotiva era cristã e começou a levar a criança para a igreja. No primeiro dia da catequese, a boa senhora avisou a catequista que a criança nunca tinha ouvido falar antes de Jesus e que, portanto, tivesse paciência com ela. Ao começar o encontro a catequista apresentou uma imagem de Jesus e perguntou:

– Alguém de vocês sabe quem é este homem? – A menina respondeu:

– Eu sei quem é. É o homem que me segurou nos braços na noite em que morreram os meus pais.

Visão, sonho, ilusão de criança? Difícil responder. No entanto, no momento da dor e do abandono, despontam também a acolhida e o amor. Talvez, sofrimento e consolo andam, ou deveriam andar, mais juntos: força e esperança para todos nós. Nos domingos do Tempo de Páscoa, a liturgia nos faz refletir sobre aquelas que chamamos de “aparições pós-pascais”. Segundo o evangelista João, a primeira aconteceu logo, no domingo mesmo, “ao anoitecer daquele dia”. Como os demais evangelhos não se trata de simples relatos ou de explicações para curiosos. Precisa comunicar um evento novo e surpreendente, capaz de mudar a vida dos discípulos, daqueles que, depois, acreditarão neles e, em seguida, também, a história da própria humanidade. Entre os apóstolos reunidos e de portas trancadas por medo dos judeus, desponta a figura de Tomé. Ele não acredita nas palavras dos demais, quer ver e tocar. Jesus ressuscitado volta a aparecer, naquele ritmo semanal que é também o ritmo dominical da Páscoa. Convida o apóstolo a conferir as marcas da paixão e da cruz e lhe pede para ter fé. Depois de ouvir Tomé proclamar: “Meu Senhor e meu Deus!”, Jesus diz: “Acreditaste porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20,28-29).

Somos nós, os que devem acreditar sem ver o que Tomé viu, mas… vendo outras coisas. Duas que, penso, nunca podem estar separadas. Segundo o evangelista João, Jesus convida Tomé a tocar nas suas chagas. O que o apóstolo viu por primeiro? O ressuscitado, provavelmente! Mas Jesus quer que ele veja também os sinais da Paixão. Não teria acontecido a Ressurreição sem, antes, a Cruz. Jesus não é somente o glorioso, é também o crucificado. Para poder acreditar que Jesus é o nosso “Senhor e Deus” precisamos vê-lo e encontrá-lo nos irmãos que passam fome, frio, que vivem na miséria e no esquecimento, nos muitos “crucificados” da história. Quem pensa somente no seu bem-estar, no seu lucro e no seu sucesso; quem despreza os desvalidos da vida, não pode entender a novidade da Ressurreição, porque n&atil de;o sabe o que é ter compaixão, doar a própria vida, servir e amar. Ficará preso em si mesmo, porque somente pensa em si. Ao contrário, quem “morre”, aos poucos, ao próprio egoísmo, quem desce do seu orgulho, que se abaixa para curar as feridas e consolar as dores dos irmãos, este, sim, abre-se para a vida nova de Jesus. Por isso, podemos e devemos saber reconhecer o Senhor nos gestos de quem também doa a sua vida, consciente ou não, cristão ou não. Todo gesto de amor e doação é Vida Nova, é Ressurreição hoje e nos faz ver e acreditar no Cristo vencedor do pecado e da morte. Quem não quer enxergar a Cruz e as cruzes dos irmãos, não reconhece e não entende o amor de Jesus. Igualmente, quem não quer ver o bem, a generosidade, o serviço, a doação, não vê e n&ati lde;o acredita na vitória da vida sobre a morte, do amor sobre o ódio. Quem não sabe estender os seus braços para abraçar o irmão, dificilmente acreditará nos braços de Jesus estendidos na cruz e no seu poder de consolar e doar esperança a todos os que o procuram de coração sincero. A começar pelos pequenos, pelas crianças, também se ainda não o conhecem. Depois daquela Páscoa, Jesus está presente e vivo em cada gesto de amor. É uma luz que não se apaga mais.


A vida deve ser outra coisa

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Uma famosa jornalista relata, num dos seus livros, o diálogo que teve, certa noite, com a netinha de cinco anos. A pequena Elizabeth soube que a avó ia viajar, assim decidiu passar a noite na cama com ela. De repente, antes de dormir, a criança perguntou a avó:
– A vida o que é? A avó quis buscar palavras que a criança pudesse entender e respondeu:
– A vida é o tempo que passa entre o momento que nascemos e o momento que morremos.
– Só isso? – insistiu a criança.
– Só isso – respondeu a jornalista.
– E a morte o que é – voltou a questionar a pequena.
– A morte é quando tudo acaba e não mais existimos.
– Como quando chega o inverno e a árvore seca?
– Mais ou menos
– Porém, a árvore não acaba não; quando vem a primavera ela floresce de novo.
– Mas para as pessoas não é assim; quando alguém morre é para sempre, não renasce – continuou a avó.
– Também mamãe? Também uma criança? – insistiu a netinha.
-Também as mães e as crianças.
– Não é possível!
– É assim mesmo, Elizabeth.
– Não é justo! – insistiu a pequena.
– Eu sei; mas agora dorme, já está na hora – disse a avó, querendo encerrar o assunto.
– Eu durmo – continuou a criança – mas não acredito naquilo que a senhora disse. Eu acredito que quando alguém morre acontece como com as árvores que secam no inverno, mas depois renascem. A vida deve ser outra coisa!
Para nós, cristãos, a vida é mesmo, e deve ser, outra coisa! É muito mais daquilo que estamos vendo, ouvindo, experimentando. Muito mais do tempo que passa, inexoravelmente, para todos. A vista do túmulo vazio e o anúncio da ressurreição de Jesus, ecoam na história humana como uma luz nova, sem comparação nem antes e nem depois. Uma brecha, pequena, porém mais que suficiente para abrir o nosso olhar nada menos que sobre o “mistério” daquele Deus Pai que Jesus veio nos fazer conhecer. Até a morte e o túmulo, o caminho, nos é familiar. Ainda vivos, acompanhamos outros. Um dia, serão os outros a nos levar para a última despedida. Jesus percorreu esse mesmo nosso caminho, uma morte trágica, com certeza uma das maiores injustiças da huma nidade. Tudo porque ensinou e mostrou um Deus com o rosto e o coração de Pai.
Ele acolhia os doentes, os impuros, os pecadores e pecadoras, todos filhos e filhas, desgarrados ou não. Os grandes de todos os tempos, quando não se proclamam eles mesmos deuses, querem ter Deus ao seu lado. Talvez para enganar; com certeza por medo de serem eles mesmos julgados por um Deus “diferente” daquele cujo nome usam e abusam. Jesus nunca usou o nome de Deus para se promover ou forçar alguém. Aos seus discípulos pediu para serem compassivos e misericordiosos como o Pai. Um Pai bondoso até com os ingratos. Um Pai providente que não quer o acúmulo dos bens materiais, porque não deixa faltar o necessário nem aos pássaros do céu e veste, maravilhosamente, os lírios dos campos! Um Deus Pai que escolhe e privilegia os pobres e os pequenos; convida ao seu banquete os cegos, os c oxos e os aleijados, aqueles que nunca poderão devolver o que receberam de graça. Jesus ensinou que o pouco partilhado se multiplica, porque crescem a esperança e a alegria da fraternidade entre as pessoas.
Esses bens não são vendidos e nem comprados, só podem ser fruto da confiança e da comunhão de quem alimenta o mesmo sonho de paz, bem longe dos projetos de poder e dominação dos ricos. Deus Pai ressuscita o Filho Jesus não como troca ou recompensa pela sua obediência, mas porque o Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem a mesma e única realidade do amor perfeito, da doação perfeita, da Vida plena prometida a quem acreditar e fazer o mesmo doando também a sua própria vida. Na Páscoa, precisamos respirar um ar novo, libertar-nos das amarras do consumo e da ganância, do imediato, do útil e cômodo, de tudo aquilo que pode ser contabilizado. O Amor de Deus passou neste mundo, encarnou-se, tornou-se visível, ensinou e convidou a segui-lo. Mas não n os obriga. Estamos livres de duvidar, de zombar, de crucificá-lo de novo. Mas a criança que, por ventura, ainda está dentro de nós nos lembra sempre: “Não é justo! A Vida Verdadeira deve ser outra coisa!”.
Feliz Páscoa para todos e todas!


O sinal do cristão

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Um bispo quis conversar com os adolescentes que deviam receber o sacramento da Crisma. Fez-lhes uma pergunta:

– Qual é o sinal com o qual podemos ser reconhecidos como cristãos? – Na incerteza e com medo de errar, os jovens ficaram calados. O bispo sorriu amigavelmente e repetiu a pergunta:

– Coragem, qual é o sinal que prova que somos cristãos? – A turma continuava em silêncio e de olhos baixos. O bispo quis ajudá-los e começou a ensaiar um sinal da cruz. Uma menina levantou a mão para falar e toda feliz disse:

– O amor!

O bispo estava para dizer: “Errado!” Mas, graças a Deus, parou em tempo.

Com o Domingo de Ramos iniciamos a Semana Santa. Espero que as “obras” da Quaresma – a esmola, o jejum e a oração – tenham nos aproximado mais de Deus e dos irmãos necessitados. No primeiro Domingo, acompanhamos Jesus no deserto. Lá, “terminada toda tentação, o diabo afastou-se de Jesus para retornar no tempo oportuno” (Lc 4,13). O “tempo”, a hora da cruz, chegou e com ela a maior luta e a maior vitória da Vida contra a morte. No segundo Domingo, no monte da Transfiguração, para acreditarmos além do escândalo da cruz, ouvimos, da nuvem, a voz do Pai: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!”. Nos outros três domingos, os evangelhos nos apresentaram a extraordinária misericórdia do nosso Deus. Ele tem paciência; nos dá o tempo e as forças necessárias para produzirmos frutos de bem e de paz. Faz festa, quando reconhecemos os nossos erros e, arrependidos, voltamos à casa do Pai. Fica triste, quando queremos jogar pedras contra os irmãos, em lugar de perdoar-lhes as falhas e reconhecer com humildade as nossas também.

Terminado o caminho quaresmal entramos agora, com Jesus, em Jerusalém. Estava para cumprir-se o que ele disse: “não convém que um profeta morra fora de Jerusalém” (Lc 13,33). Jesus é acolhido com júbilo. Aos incomodados com os gritos de hosana ele diz que se o povo se calar “as pedras gritarão” (Lc 19,40). Foi um entusiasmo passageiro para a povo e simbólico para Jesus. Ao novo “rei” não interessavam o poder e a glória deste mundo. Por isso, a liturgia nos faz proclamar, na mesma celebração, outro evangelho, o da Paixão. Este ano, segundo o evangelista Lucas. Jesus é levado junto com “outros dois malfeitores” (Lc 23,32). Ele é simplesmente mais um, solidário com os crucificados de todos os tempos pela violência humana. Mas ele diz: “Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!” (Lc 23,34). Nenhum sinal de ódio ou ameaça, entrega total, Jesus sempre está pronto a testemunhar a misericórdia do Pai. É somente de Lucas o encontro com as mulheres que choram por ele. Marcante é o diálogo com os dois malfeitores crucificados juntos. Aquele, que estamos acostumados a chamar de “bom ladrão”, é o primeiro interprete da fé cristã. Ele chama Jesus pelo nome comum, não pelo título divino de Senhor, reconhece que “não fez nada de mal” e o anuncia “rei” de um novo Reino. Dizendo “hoje”, Jesus confirma que o Reino de Deus já está acontecendo e está aberto a quem acredita e confia nele (Lc 23,39-43). As últimas palavras de Jesus são de entrega nas mãos do Pai e o oficial romano declara: “De fato! Este homem era justo!” (Lc 23,47). O evangelista conclui que as multidões volt aram para casa batendo no peito.

Os relatos da Paixão são as páginas mais bem elaboradas dos evangelhos, provavelmente as primeiras a serem escritas depois de ter sido contadas nas liturgias por anos a fio. Desde o início, quando nós cristãos celebramos a Eucaristia, fazemos o “memorial” daquele evento de salvação. Ainda continuamos a dizer: “Anunciamos Senhor a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde Senhor Jesus!”. Dessa maneira, nas palavras, gestos e sinais da Missa, participamos daquele único momento irrepetível. Vamos viver intensamente os próximos dias. É verdade que o sinal da cruz expressa o nosso ser cristãos, mas não fomos salvos pelos sofrimentos desumanos de Cristo, mas pelo seu amor humano e divino, sem medida. Um amor que nunca acaba.


A corrente

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O grande chefão chegou de repente no escritório e ralhou duramente com o responsável daquela repartição. O responsável da repartição passou um carão ao funcionário do escritório. O funcionário baixou a cabeça, mas, quando chegou em casa, descarregou a sua raiva gritando com a mulher. A mulher tirou satisfação com a filha, porque não tinha arrumado o seu quarto. A filha ficou zangada e deu um chute no cachorro que, por sua vez, ficou brabo e correu atrás do gato. A história acabou com a morte dos ratos. Dificilmente reconhecemos os nossos erros. Muito mais fácil mostrar indignação e repúdio com os erros dos outros.

Nos tempos de Jesus, certos pecados, pela Lei de Moisés, deviam ser extirpados com o apedrejamento. Assim nos fala a página do evangelho deste 5º Domingo da Quaresma. O episódio da mulher encontrada em flagrante adultério pertence ao evangelho de João, mas foi escolhido, porque continua a catequese deste tempo quaresmal: Jesus, com suas palavras e gestos revela a extraordinária grandeza do amor misericordioso de Deus Pai. A situação foi mais uma armadilha dos fariseus e dos mestres da Lei “para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar” (Jo 5,6). No entanto, ele não reage de imediato, ganha tempo. Inclina-se e escreve no chão. À insistência deles, responde com as palavras bem conhecidas: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (Jo 5,7). Depois disso, Jesus volta a inclinar-se e a escrever no chão. N unca vamos saber o que Jesus escreveu, também se santos e teólogos tentaram responder. Pode ser, simplesmente, uma pausa de silêncio, para que todos pudessem refletir sobre o que pretendiam fazer: aplicar uma lei, friamente, sem se importar se isso significava a morte daquela mulher. A culpa era dela. Eles estavam julgando o pecado, não a pecadora. A vida dela pouco ou nada importava. O castigo devia ser exemplar, para amedrontar os futuros infratores ou, simplesmente, para que, como tantos outros e outras, tomassem mais cuidado para não ser pegos em flagrante.

A morte do pecador nunca é uma vitória contra o mal. Também naquele momento, a condenação era só o fruto amargo do orgulho de quem se considerava “justo” perante Deus e que, por isso, sentia-se dono da vida e de morte daquela mulher. Segue outro silêncio. O anterior estava carregado de ódio e de desafio contra Jesus. Este outro tem o peso dos pecados de todos e, talvez, o pecado da mulher não fosse nem o maior e nem o pior. Todos foram embora, nenhuma pedra foi arremessada. Ficaram somente “a misericórdia de Deus e a miséria humana”, uma na frente da outra, como ama lembrar Papa Francisco, citando Santo Agostinho (título da Carta Apostólica “No término do Jubileu Extr. Da Misericórdia”) “A misericórdia” não condenou “a miséria” humana. Só o perdão restaura a vida e o Deus, Pai de Jesus, não quer a morte do pecador, mas “que mude a sua conduta e viva” (Ez 18,23). A Lei também não era para a morte, mas para acertar os caminhos da vida, escrevê-la no coração, aprender a respeitá-la, a torná-la mais fraterna e solidária. O pecado nos dá a sensação de estar acima de qualquer Lei, de qualquer Deus que queira mandar em nós. É perigoso; nos faz perder as medidas do respeito, da justiça, dos direitos e da dignidade dos nossos irmãos. Passamos por cima de tudo e de todos. Também nos achar “certos” demais nos conduz a julgar e desprezar os outros. Pode ser que, em muitos casos, a aplicação rigorosa da lei consiga corrigir também os grandes e os poderosos que se consideram inatingíveis. Outras vezes, porém, os próprios infratores são as primeiras vítimas de uma soc iedade que não lhe ofereceu uma família amorosa, uma vida digna, uma educação cativante e um trabalho honesto. As “periferias existenciais” são habitadas por irmãos e irmãs como nós. Sempre crescem quando aumentam as desigualdades sociais. É muito fácil julgar os outros estando numa posição confortável e protegida. Melhor pensar bem, vasculhar a fundo a nossa consciência, antes de chutar, nem que seja um cachorro.


O ritual

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Uma tribo de índios da América do Norte tem um “ritual” para marcar a passagem da adolescência para a idade adulta. Quando o rapaz completa os anos estabelecidos, o pai o leva à mata. Com um pano, venda os olhos dele. Depois o deixa sozinho, sentado num toco de árvore. O jovem deve ficar naquela situação a noite inteira e não pode tirar a venda até ao amanhecer. Não pode pedir ajuda para ninguém. Se resistir, ao nascer do dia, será proclamado homem. Aquela noite é de grande medo para o rapaz. Escuta ruídos estranhos, assobios e rangidos, animais que se arrastam, lobos que uivam, murmúrios e grunhidos, lutas ferozes na moita. O jovem só tem a sua coragem. Aperta os punhos e aguenta, sentado no tronco, com o coração na boca. Finalmente, depois daquela noite terrível, o sol aparece e ele pode tirar a venda. Somente naquele momento des cobre que o pai estava ali por perto, sentado num tronco vizinho. O pai, não tinha saído, tinha ficado a noite inteira em silêncio, para proteger o filho de qualquer possível perigo, mas sem que o filho pudesse percebê-lo.

No quarto domingo de Quaresma, encontramos uma das páginas mais bonitas dos evangelhos e, também, uma das mais desafiadoras. Jesus é questionado, pelos fariseus e os mestres da Lei, sobre a aproximação que tinha com os pecadores. Ele responde com a parábola “do filho pródigo”, ou, mais propriamente, “dos dois filhos” ou “do pai misericordioso”. Qualquer seja o título que vamos dar a esta parábola, dos três protagonistas, o mais surpreendente é, com certeza, o pai. De fato, o filho mais novo representa a busca da liberdade na ilusão de encontrá-la o mais longe possível de qualquer autoridade ou controle. Para muitos, ainda hoje, ser donos de si mesmo, poder satisfazer os próprios impulsos e caprichos. Não ter que prestar conta da própria vida para ninguém, é sinônimo de liberdade orgulhosamente alcan&cc edil;ada. Do lado oposto, está o filho mais velho, rigorosamente obediente e conformado com a situação de trabalhar na casa do pai. Na realidade, ele esconde uma grande insatisfação: acha que o pai não reconhece, como deveria, o seu serviço. Cultiva, também, rancor com o irmão, não porque foi embora, mas porque levou a parte da herança que assim foi perdida. Só deu prejuízo.

Entre os dois filhos está a figura do pai, aparentemente, silencioso. Não questiona a escolha do filho menor; ao contrário, lhe entrega a parte legítima da herança. Igualmente, sabemos só no final, estranha o ódio do filho mais velho com o irmão. Esse filho estava em casa, trabalhavam juntos, mas não sabia que era considerado por ele mais um padrão exigente que um pai amoroso. Com essa parábola, Jesus quer nos fazer conhecer a grandeza da misericórdia do Divino Pai eterno. Ele é tão paciente que não intervém a cada instante para nos corrigir. Aguarda que cada um de nós perceba o que perdeu deixando a casa paterna. Igualmente, espera que aprendamos, com ele, a acolher sempre de novo, de volta, os irmãos, sem julgá-los, condená-los e, com isso, excluí-los do perdão e do amor fraterno. Nunca o Pai ficou indiferente. Simplesm ente estava esperando para festejar, todos juntos, a volta do filho menor e a decisão do filho maior de se comportar, também, como irmão e não como adversário do outro. Um Pai que nada diz no início da parábola, mas depois fala no abraço ao filho que voltou e não deixa de explicar o porquê de tanta alegria ao outro filho, incapaz de perdoar. Entendemos que é uma parábola desafiadora para todos nós. A cada momento, podemos ser os filhos que menosprezam o Pai e dele só sabemos cobrar a herança ou o cabrito. Também podemos ser interesseiros: querer os favores dele para nós, mas considerar injusto o seu perdão com quem, no nosso mesquinho entender, mereceria um castigo exemplar. A capacidade de perdoar é uma “prova” de maturidade cristã para todos nós. Até não aprendermos a prática da misericórdi a continuaremos imaturos. Por que ter medo de ser bons? Devemos fazer a nossa parte, mas não estamos sozinhos na escuridão da floresta da vida. Na luta do bem contra o mal, o Pai nunca abandona os seus filhos.


Duplica a dose

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Um médico sábio disse: – Os melhores remédios são o amor e o cuidado.

– Mas o doente perguntou: – E se não funcionarem?

O médico sorriu e respondeu: – Duplica a dose!

Com o terceiro domingo da Quaresma, iniciamos o próprio deste ano litúrgico no qual estamos lendo o evangelho de Lucas. É o evangelho da misericórdia de Deus manifestada de tantas formas por Jesus em sua vida terrena. Não que os outros evangelistas transcurem o tema da misericórdia, mas Lucas é particularmente atento a esse assunto. No evangelho deste domingo, podemos perceber facilmente a novidade da mensagem de Jesus.

Algumas pessoas trazem a ele a notícia triste da crueldade de Pilatos com os galileus. O próprio Jesus, na sua resposta, lembra outra tragédia: a queda da torre de Siloé, que tinha causado 18 vítimas fatais. As perguntas que o povo se fazia naquele tempo são sempre as mesmas, são as nossas também: por que eles e não outros? Será que eles mereciam morrer daquele jeito? Por que eles e não eu? Será que eu vou escapar? Se somos sinceros, não temos respostas. Ou, se temos, delas surgem outras perguntas. Por exemplo, se respondemos que tudo foi um acaso ou uma fatalidade, deve ríamos admitir que a nossa vida está pendurada no vazio e no imponderável. Nada sabemos, nem do hoje e nem do amanhã. Eis, pois, a nova pergunta: se tudo já está decidido, nós somos somente bonecos nas mãos do nada ou de um ser caprichoso e imprevisível? Um “deus” assim não é muito entusiasmante. Como acreditar e confiar em alguém que não sei o que pensa e o que quer? Também as respostas que Deus quis assim ou, pior , que ele precisou daquela pessoa que morreu, não nos satisfazem. Queremos saber mais. Jesus, no entanto, não responde com raciocínios intelectuais ou afirmações altissonantes. Conta uma parábola.

Primeiro, porém, nos convida à conversão, ou seja, a mudar a nossas ideias mesquinhas sobre Deus. Ele não é um jogador de dados, um justiceiro ou alguém que, simplesmente, não liga para nós. É um Pai amoroso que doa a vida aos seus filhos amados, os acompanha com carinho e, sobretudo, tem muita, muita paciência. Este é o sentido da parábola da figueira que, pela intercessão do vinhateiro, ainda receberá os cuidados por mais um ano. Mas o segredo está nos frutos. A utilidade, ou inutilidade, da planta depende dos frutos. Igualmente o sentido da nossa vida não está na quantidade d os anos, no acúmulo de riquezas ou de grandes sucessos. O valor da vida, que passa para qualquer um, depende dos frutos de bondade e de amor que conseguimos produzir. Até os sofrimentos, mais ainda se forem por causa do Evangelho ou pela fome e a sede de justiça, são frutos agradáveis a Deus. Por isso, a vida vale apena ser vivida. Não sabemos a sua duração, mas o rumo o conhecemos e o Caminho também. O vinhateiro que int ercede e se compromete a colocar mais adubo na pobre figueira, antes condenada ao corte, é o próprio Jesus. O “adubo”, perdoem a comparação, é o seu exemplo, as suas palavras, a sua própria vida, a sua esperança. A esperança de Jesus? Isso mesmo. Porque apesar da nossa cabeça dura, das nossas dúvidas, ainda o vinhateiro diz: “Pode ser que venha a dar fruto!” Onde podemos encontrar um Deus tão bondoso e compassivo? Foi Jesus que veio no meio de nós para que o conhecêssemos e, sobretudo, o amassemos.

Tudo isso é simplesmente maravilhoso. Nós estamos doentes de celebridade, de “selfies” e holofotes. Queremos aparecer. Poses e aplausos podem satisfazer o nosso orgulho, mas talvez não sejam frutos tão bons. Que tipo de pessoas nós somos: doces, amigas, confiáveis e generosas, ou chatas, egoístas, arrogantes e invejosas? Graças a Deus, quantos frutos bons existem por aí produzidos, na humildade e no silêncio, por tantas pessoas anônimas, solidárias e fraternas. Simplesmente “humanas”, capazes de aproveitar bem das suas longas ou curtas vidas, sem medo de Deus, porque, quando forem chamadas, terão tantos frutos bons para lhe oferecer, tantos que, talvez, nem elas sabiam. Em todo caso, uma “dose dupla” de Jesus e do seu exemplo não faz mal para ninguém, ao contrário…