O segredo da coragem

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Uma antiga lenda da Ásia Menor conta a história de Manuela, uma jovem que teria estado com outras mulheres aos pés da cruz de Jesus no Calvário. Manuela era muito tímida. Ficava calada o tempo todo, era muito difícil lhe arrancar algumas palavras. Também estava sem coragem para qualquer iniciativa. Tinha medo de tudo e de todos. Ficava parada, só escutando. Um dia, escutou também Jesus na beira do lago de Tiberíades. Ficou encantada com as palavras que saíam de sua boca. Todas elas suscitavam confiança e coragem. Assim, quando soube da ressurreição do Senhor, não precisou de aparições ou confirmações. De repente, levada por uma audácia nunca experimentada antes, transformou-se numa peregrina que anunciava a Boa Notícia de Jesus a todos os que encontrava. Tinha sido ele a lhe ensinar “o segredo da coragem”. Agora, não tinha mais medo de nada. Andava de aldeia em aldeia e reunia as mulheres. Os homens, pensava, não a teriam entendido. Não buscava as praças, mas lugares afastados: de baixo de uma árvore, perto de um forno para assar o pão, à beira de um poço ou de um riacho onde as mulheres lavavam a roupa. As palavras saiam fortes e claras da sua boca. Nunca preparava os discursos. Sabia que não era ela a escolher as palavras, mas o Espírito Santo. Certo dia, uma mulher, impressionada por tanta força, perguntou-lhe:

– Diga-me, qual é o segredo da sua coragem?

– A humildade, como ensinou Jesus – respondeu Manuela.

– Mas o que é a humildade? – insistiu a mulher.

– É ser a primeira a dizer: “Eu te amo”.

Sempre, chegando ao final do ano litúrgico, encontramos evangelhos que nos falam de acontecimentos pavorosos. O grandioso Templo de Jerusalém será destruído. Haverá guerras, revoluções, terremotos, fomes e pestes. Os discípulos serão odiados e perseguidos, aprisionados e levados perante os tribunais. Haverá muita confusão e alguém se apresentando como o novo Messias. Como não ter medo de tantas provações? No entanto, Jesus diz para não duvidar, para permanecer firmes. “Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé”. “É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida”.

Para entender as palavras de Jesus, que ficaram nos evangelhos, precisamos lembrar que muitas partes deles foram escritas após a destruição do Templo de Jerusalém, acontecida no ano de 70 d.C., e ainda durante várias perseguições aos cristãos. Aqueles discípulos apavorados e duvidosos que arriscavam a própria vida para ser fiéis a Jesus, precisavam de palavras de exortação e conforto. Os resultados foram surpreendentes: a fé cristã não foi abafada e nem apagada. Desde aquele tempo até hoje, podemos dizer, sem medo, que o sangue dos mártires é, de verdade, semente de novos cristãos. Aquelas palavras de Jesu s ficaram nos evangelhos não para afastar da fé e do seguimento dele, mas, ao contrário, para lembrar aos cristãos que críticas, perseguições e martírio, os acompanharão sempre. Afinal, todo cristão é discípulo de Alguém que foi crucificado!

Bastaria olhar um pouco para a história da humanidade e a contribuição que os cristãos deram à civilização e à humanização da sociedade para entender, mais ainda, os alertas dos evangelhos. Se depois abrimos o horizonte para tantas outras situações de perseguição de pessoas, de grupos, de povos inteiros – ameaçados e mortos por causa das crenças religiosas, das raças e da cobiça de invasores e colonizadores – reconhecemos a luta incansável entre o bem e o mal. Já aprendemos que, muito dificilmente, a verdade está do lado dos vencedores. Eles, depois, contam os fatos conforme o seu poder e as suas ideologias. É fácil, porque a voz dos mortos já foi silenciada. Só que “um morto ressuscitou” e a força do bem e da verdade não se cala mais. É uma força diferente. Cresce com a fraqueza e a humildade. Não mata, prefere morrer. Não persegue, aceita ser perseguida. Vence pelo testemunho do amor, da misericórdia e do perdão. Por isso, é invencível. Temos a coragem de acreditar? Chega de medo e timidez!


O pão e o sinal da cruz

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Maria levantou cedo. Como sempre, começou a prepara a massa do pão. Em silêncio e bem devagar para não acordar José e o menino Jesus. Depois iria levar a massa para assar no forno da pequena aldeia. Estava com o coração pesado, porque naquele dia o pão seria bem pequeno para toda a família. Quando chegou ao forno, outras mulheres já estavam lá, conversando e reparando o que cada uma tinha trazido. Os pães seriam assados todos juntos, como de costume. Uma vizinha viu o pouco que Maria carregava e zombou: “Vocês não são mais três em casa?”. Não houve resposta. A mesma vizinha pensou maliciosamente que, na hora que o p&a tilde;o saísse do forno bem assado, Maria pudesse trocar o seu pequeno pão com o dela, muito maior. Assim, num momento de distração de Maria, ela traçou, com uma faca, um grande sinal de cruz sobre o pequeno pão que Maria tinha trazido. Isso para que não houvesse engano. Todos os pães foram para o forno. De vez em quando, o homem encarregado do serviço dava uma espiada para ver se tudo estava certo. Algo chamou a atenção dele e disse: “Tem um pão que está crescendo mais de que todos os outros. É uma maravilha, nunca vi nada igual!”. A tal de vizinha pensou logo no pão dela e disse para si mesma que, evidentemente, ninguém sabia preparar a massa tão bem como ela. Grande foi a surpresa de todas quando, finalmente, os pães saíram do forno. O maior de todos era aquele com o sinal da cruz. O sinal da inveja e do orgulho tinha-se transfor mado num sinal de generosidade e fartura. A notícia do prodígio se espalhou rapidamente e as mulheres começaram a marcar os seus pães com o sinal da cruz. Ainda hoje, muitas senhoras traçam sobre os pães caseiros um sinal de cruz. Junto à gratidão do alimento vai a bênção do Senhor.

No domingo da festa de Todos os Santos, uma pequena lenda de Nossa Senhora, para não fazer diferenças entre tantos santos e santas. Na semana que passou, lembramos também os nossos entes queridos falecidos. A memória das pessoas, dos exemplos que tivemos e ainda temos nos caminhos da vida, são muito importantes. Vivemos numa sociedade de notícias e informações rápidas e, na maioria das vezes, superficiais. Todos somo atraídos pelas novidades, sobretudo quando vem apresentadas com imagens que chamam a nossa atenção. Essas podem ser tocantes, mirabolantes, encantadoras. Outras vezes são tão chocantes que nos fazem sentir vergonha desta nossa humanid ade confusa.

As perguntas mais frequentes de quem consegue parar para pensar são: o que está acontecendo? Para onde vai este mundo? Muitos respondem: Falta Deus! Mas eu também digo: qual Deus? Nunca tivemos tantos templos, tantas opções religiosas, tanta propaganda do “nome de Jesus” e tantas bênção gratuitas e pagas. Há quem diga que também a religião virou comércio. Na sociedade do consumo, qualquer produto bem embalado e propagandeado dá lucro. Com certeza, uma luz nos vem dos santos e das santas que a Igreja nos propõe como exemplos de vida cristã. Todos e todas procuraram praticar o Evangelho de Jesus. Morreram pobres. Se orga nizaram obras e instituições não foi para benefício próprio, foram para os pequenos do seu tempo: crianças, enfermos, peregrinos, sobras da sociedade, povos inteiros a serem evangelizados. Muitos deles e delas foram mortos por causa da fé. Outros e outras se trancaram no silêncio de mosteiros para espalhar uma luz diferente, sem alarde, no escondimento e na oração.

Não buscaram novidades, anunciaram o Evangelho de sempre. Aquele bem antigo de Maria e José, de Pedro e de Paulo, de João e dos demais apóstolos. Antes de querer mudar a vida dos outros, mudaram as suas vidas. Com certeza, nós conhecemos alguns desses santos. Alguns caminharam e outros ainda caminham conosco. Acolheram as novidades e os desafios do seu tempo, mas pareciam e parecem ter certeza do rumo das coisas, do sentido de suas vidas. Confiaram e confiam no seu Senhor, crucificado e ressuscitado. Ele, Jesus, ontem, hoje e sempre.


Deixe para amanhã

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Neste século de encontros e congressos, também os demônios convocaram uma assembleia. Seu objetivo era estudar novos métodos, mais eficientes para aumentar a sua freguesia, isto é, o número de sócios e candidatos ao inferno. Os palpites choveram de todos os lados:

– Vamos intensificar os programas de sexo e violência nos meios de comunicação.

– É preciso endurecer o coração do povo. Nada de fazer caridade. Formar a mentalidade que pobre é preguiçoso e que velho é peso morto.

– Vamos convencer o povo que missa e oração não enchem barriga. Religião é só para anestesiar as consciências.

– O povo deve aproveitar mais da vida. Mais prazer, mais drogas, mais bebidas, mais diversão. Os palpites continuavam, mas o chefe dos demônios sacudia a cabeça a cada nova sugestão.

– Isso tudo já estamos fazendo – dizia. Levantou-se, enfim, um demônio muito velho e experimentado que, pausadamente, deu a sua opinião:

– Vamos ensinar ao povo a fazer o que os padres ensinam, mas…comecem amanhã. Por exemplo: é necessário ir à missa e frequentar a comunidade, mas deixem para começar amanhã. É preciso corrigir os vícios, mas deixem para amanhã. Todos devem fazer o bem, mas deixem para fazer amanhã.

Essa opinião foi aprovada por unanimidade pela assembleia. E esta ficou sendo a tática diabólica: elogiar todas as boas iniciativas, mas sempre adiar para amanhã a sua execução.

Deixar as decisões para amanhã faz parte das famosas boas intenções das quais, dizem, é feito o piso do inferno. De fato, quando não se faz nada, ou pouco demais, nunca as coisas erradas vão mudar. Nesse sentido, é bom nos deixarmos surpreender, mais uma vez, pela insistência do evangelista Lucas em colocar nos lábios de Jesus a palavra “hoje”. Já a encontramos ao longo deste ano litúrgico e ainda a encontraremos no último domingo. “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque também este homem é filho de Abraão” é a resposta de Jesus à declaração de Zaqueu, o chefe dos co bradores de impostos de Jericó: “Senhor, eu dou a metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém, vou devolver quatro vezes mais”.

Na página do evangelho, deste domingo, tudo parece acontecer às pressas. Na realidade, dá para perceber a longa inquietação de Zaqueu. A decisão dele não é um repente de loucura, mas a chegada de um longo caminho, após a superação de alguns obstáculos. Se alguém tem pressa é Jesus. É a pressa de quem ama. Com efeito, Zaqueu buscava ver quem era Jesus. Não sabemos o que Zaqueu pensava ou o que lhe tinham contado sobre o “profeta de Nazaré”. Devia ser um homem prático, acostumado na administração de bens palpáveis. Nada de conversa. Por isso, agora ele quer conhecer pessoalmente a Jesus. M as é baixo de estatura, a multidão atrapalha, é difícil ver o Mestre. Poderia desistir. Mas não, insiste, quer porque quer. Soube numa árvore. Agora dá para enxergar, mas antes quem o vê é o próprio Jesus que o chama pelo nome e se autoconvida para ir à casa dele.

A arte narrativa de Lucas é maravilhosa e profunda. Antes de Zaqueu procurar a Jesus fica claro que já era o próprio Jesus a querer encontrá-lo. Assim, aquela casa de cobranças, negócios, enganos, roubos e exploração se torna “casa de salvação”, porque qualquer lugar pode ser transformado – qualquer coração, qualquer intimidade – quando deixamos Jesus entrar. Zaqueu que tinha gastado tantas energias para acumular a sua fortuna agora fica feliz em doar metade dos seu bens aos pobres. Devolve quatro vezes mais a quem tinha defraudado. A falsa euforia de acumular desaparece; instala-se a pura alegria de poder fazer felizes os outros, os pob res, os injustiçados. Esta é a salvação. Aquele “hoje” foi um grande dia de festa na casa de Zaqueu. Como na casa do Pai, quando o filho perdido voltou; como na casa do Bom Pastor, quando a ovelha desgarrada foi encontrada. Todos nós buscamos a felicidade; muitas vezes por caminhos errados e com voltas infinitas. O único jeito certo para dar sentido à nossa vida é fazer o bem, amar como Jesus amou. Mas é para “hoje”, viu?


O angelim e o bambu

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O angelim disse ao bambu: “Tu não tens sorte na vida. Os passarinhos não fazem seus ninhos contigo e basta um pouco de vento que tens que baixar a cabeça. Olha para mim! Eu fico sempre de cabeça erguida contra o sol, resisto como as montanhas e desafio os ventos. Para ti, cada pé de vento é uma tempestade, para mim cada tempestade é um pé de vento. Ainda mais: o Céu não te fez nascer ao abrigo da minha sombra. A natureza te fez nascer na beira dos igapós, no meio do vento e da lama”.

Estava ainda falando, quando se levantou uma tempestade sem igual, com um vento que mexia com força todo o mato. O bambu não ficou muito prejudicado, baixou a cabeça, curvou as costas ao vento e resistiu. O angelim, porém, resistiu às primeiras rajadas, mas depois o vento acabou com a árvore: as folhas e os ramos voaram longe e as raízes ficaram no ar.

Domingo passado, Jesus nos ensinava a não desistir da oração. Desta vez, com a parábola do fariseu e do cobrador de impostos, que vão ao templo para rezar, ele nos diz qual deve ser a melhor atitude, quando nos colocamos perante a grandeza e a misericórdia de Deus. A própria situação humana deveria nos orientar para a humildade, no entanto, até na hora de levantar os olhos para o alto, em lugar de reconhecer as nossas fraquezas, aparece o demônio do nosso orgulho. Nada de mais errado; pensamos em nos aproximar de Deus e, na realidade, com a oração arrogante, ficamos mais longe dele.

Jesus não escolhia por acaso as personagens das suas parábolas. Os fariseus foram seus inimigos declarados, sempre polemizando e acusando-o de ser um desobediente escandaloso. Jesus também não poupou os fariseus “hipócritas” nas suas pregações. A causa de tantas controvérsias era, sabemos, a interpretação da Lei de Moisés. Para os fariseu devia ser obedecida ao pé da letra, nos mínimos detalhes, alguns deles quase impossíveis de serem cumpridos. Jesus, aos olhos dos fariseus, se apresentava livre. Capaz de obedecer a algumas normas, mas decididamente contrário aquelas regras que pretendiam julgar e condenar quem não as cumpria. Para Jesus a misericórdia do Pai estava muito acima de tod a lei, vinha antes de toda normativa, porque Deus ama a todos e a todos quer oferecer o seu perdão. Mais chocante, ainda, para os fariseus, era que Jesus acolhia os pecadores e falava da alegria do Céu pela volta de um só deles. Tudo isto incomodava os fariseus, fazia cair o seu castelo de preceitos que, segundo eles, devia-lhes garantir o prêmio eterno. Não cabia na mente e no coração deles que Deus pudesse ser tão generoso e que a salvação fosse, afinal, um dom gratuito da sua bondade e não a consequência de direitos adquiridos pela simples e fria obediência a uma Lei.

Os fariseus tinham medo do perdão; achavam que isso podia parecer um prêmio para os pecadores e, com isso, incentivá-los a pecar. A experiência de Jesus nos encontros com os cobradores de impostos e as prostitutas, apresentados nos evangelhos, provam claramente o contrário: é a misericórdia que aproxima e faz mudar de vida, não o rigor e a punição da Lei. É porque já fomos muito amados que acabamos reconhecendo que o melhor é amar.

Entendemos, com isso, que a oração do cristão deve ser mais semelhante àquela do cobrador de impostos, não por termos necessariamente grandes pecados, mas simplesmente para nos dispormos a acolher com humildade o amor misericordioso do Pai. Um coração orgulhoso, de quem se considera melhor do que os outros, que julga e condena, afasta de Deus. Ao contrário, o reconhecimento da nossa urgente necessidade da bondade do Pai, aproxima-nos dele, coloca-nos na condição também de sermos “misericordiosos como o Pai é misericordioso”. O cobrador de impostos não é um exemplo para nós pelos seus pecados, mas pela humildade e a sinceridade em reconhece-los e, assim, poder ser perdoado. Dobrar a cabeça e p edir perdão a Deus e aos irmãos, que ofendemos e ignoramos, não é tão mal assim. É questão de vida plena na fraternidade ou de orgulho inútil na autocontemplação. Vida ou morte. Como o bambu. Nas tempestades e…Sempre.


O lobo e a cegonha

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O lobo engoliu um osso que ficou preso na sua garganta. A dor, muito grande, amansou o lobo, que começou a convidar todos os bichos, um por um, para curá-lo, fazendo muitas promessas. Afinal, depois de muita negociação, a cegonha aceitou. Colocou seu longo pescoço dentro da garganta do lobo e conseguiu fazer aquela operação tão arriscada. Depois, pediu a paga que havia combinado. Aí o lobo respondeu: “És muito ingrata! Tu tiraste da minha boca a tua cabeça sem prejuízo, e ainda tens coragem de me falar em recompensa?”.

Uma pequena história para duvidar se pode haver justiça entre desiguais. No entanto Jesus, no evangelho deste domingo, surpreende-nos com uma parábola onde um juiz, que ele mesmo afirma ser injusto porque não temia a Deus e não respeitava homem algum, acaba julgando a favor de uma pobre viúva, que insistia demais com ele a ponto de aborrecê-lo. A perseverança da mulher dobrou a insensibilidade do juiz corrupto.

Muitas vezes, ouvimos falar da morosidade da justiça, da facilidade com a qual, entre recursos e apelos, esgota-se o prazo para o julgamento. A espera de quem aguarda justiça e não tem meios para defender os seus direitos, contra alguém maior e mais poderoso, é sempre sofrida. Às vezes, o lado mais pobre acaba desistindo de antemão da questão, pela simples razão de achar impossível ser atendido, tão grande é a desigualdade entre os adversários. Nem todo Davi tem coragem para enfrentar Golias.

Jesus, porém, ensina-nos hoje a não desistir nunca e, não de uma disputa judicial, mas nada menos que da oração. Oração dirigida a Deus. Esse é o único “juiz” justo que não adia sem fim a resposta a quem grita por ele dia e noite. Por isso, é necessário rezar sempre, nunca desistir. Deus irá atender depressa os seus escolhidos.

Depois dessas minhas palavras, vejo muitos sorrindo desconfiados. Escuto muitos dizendo que cansaram de rezar, porque não foram atendidos. Jesus mentiu? Iludiu a todos nós com falsas promessas? Temos direito de duvidar das suas palavras ou precisamos entender melhor o seu ensinamento? A nossa cabeça e o nosso coração estão cheios de pedidos a Deus, alguns são sinceros e honestos. Rezamos pelas nossas famílias, pela vida e a saúde de todos, pela paz, pelo fim da violência, da fome e das guerras. Outras vezes os nossos pedidos são mais interesseiros, desejamos o nosso bem-estar, a vitória nossa ou do time do nosso coração. No fundo, somos nós que decidimos o que consideramos bom e útil para nós e para quem nos interessa. Poucas vezes nos preocupamos de nos questionar sobre o que ele, Deus, gostaria nos oferecer, nos dar com fartura se tivéssemos a fé e a perseverança de pedir, insistindo na oração, como a viúva da parábola insistiu com o juiz.

A “justiça” de Deus é o seu amor, a sua consolação. Não necessariamente é a nossa saúde, o prevalecer dos nossos interesses, o nosso bem-estar. O grande presente que ele quer nos dar, em primeiro lugar e acima de tudo, é ele mesmo. Não quer ser trocado por coisas materiais e passageiras; quer entrar a fazer parte das nossas vidas, porque começamos a pensar e a agir como ele pensa e age. Nada de egoísmos, patrimônios particulares, áreas reservadas, muros de separação. Ele nos pede uma justiça que nasce da fraternidade e não da disputa; uma partilha do necessário para todos e não o acúmulo de alguns e a miséria de outros. Quer a nossa gener osidade na doação daquilo que vale e não a esmola das sobras daquilo que descartamos. Nós continuamos a não acreditar nele, a não confiar que tudo pode mudar com o amor fraterno, com uma justiça aliada à misericórdia, incluindo também os bens materiais necessários para uma vida mais digna e mais humana para todos. Jesus conclui este trecho do evangelho com uma pergunta assustadora: “Mas o Filho do homem, quando vier, será que ainda vai encontrar fé sobre a terra?”. Com certeza vai encontrar muito medo de perder dinheiro, bens e privilégios. Rezemos para que o bom Deus, justo e misericordioso, aumente a nossa fé e o nosso amor e não somente o nosso patrimônio.


Rogai por nós pecadores

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O fato de celebrar o Círio de Nossa Senhora de Nazaré, neste domingo, já seria suficiente para refletir e agradecer. Chamamos Maria, de Nossa Senhora e, com mais carinho ainda, a declaramos “mãe de misericórdia”. Acreditamos na sua proteção, na sua intercessão junto a Jesus, como mãe amorosa que nunca desampara os seus filhos. No entanto encontrei uma história tocante. O beato Tito Brandsma foi um padre holandês, morto no dia 25 de julho de 1942, após longos sofrimentos no campo de concentração nazista de Dachau. Quem deu esse depoimento foi nada menos que a própria enfermeira que, naquele triste dia, injetou-lhe, na veia, o ácido fênico que o mataria. A enfermeira já havia reparado que aquele preso era diferente de outros; sofria em silêncio e a tratava bem, apesar dela usar maus-tratos com ele e com os demais. Foi a ela que padre Tito entregou o terço de madeira e arame antes de receber a injeção fatal. A princípio, ela recusou o presente, porque disse que não sabia rezar. Padre Tito lhe respondeu: “Não é preciso dizeres toda a Ave-Maria, mas diz apenas: Rogai por nós, pecadores”.

Aquela enfermeira estava acostumada a injetar o líquido mortal nos presos condenados, tinha feito isso centenas de vezes, mas, dessa vez, sentiu-se mal durante todo aquele dia. Nos processos canônicos para a beatificação do padre Tito Brandsma, a mesma senhora explicou que o rosto daquele velho padre tinha ficado impresso na memória dela, para sempre, porque nele havia lido algo que nunca tinha visto. Disse simplesmente: “Ele tinha compaixão de mim!”. Ela contou que o médico do campo chamava aquela injeção de “injeção da graça” porque acabava, com a morte, todos os sofrimentos daqueles presos. Mas naquele dia, enquanto a enfermeira a injetava, a oração de padre Tito d erramava sobre ela a graça de Deus. Deus lhe concedeu esse último milagre. Ela aprendeu a crer e a rezar “Rogai por nós pecadores”.

Pedimos sempre muitas graças e favores a Maria. Não sei se imploramos, também, a cura dos nossos pecados, porque misericórdia é também perdão, reconciliação, cura do ódio e das vinganças, abraços de reencontro. Por que é tão difícil pedir perdão? Porque é muito difícil nos reconhecermos pecadores, aceitar que erramos e nos deixamos levar por maus sentimentos. Ou ainda, admitir o medo que os bons sentimentos – de compaixão e solidariedade – comecem a habitar em nosso coração. Assim, refugiamo-nos na indiferença, na insensibilidade, fechando olhos e ouvidos. Talvez não façamos tantas coisas erradas, tanto mal, n&atild e;o sejamos causa de sofrimento e lágrimas para os outros, mas também não nos deixamos incomodar pelas injustiças, pela exclusão social, pelas carências dos irmãos. É triste dizer isso, mas parece que temos medo de ser bons, misericordiosos, compassivos. É o bem dado e recebido que muda os relacionamentos, transforma os corações, gera paz, vida nova, alegria. Só o amor abre caminhos novos, faz renascer a esperança. O mal afasta, entristece, fecha-nos na amarga solidão.

No evangelho deste domingo, ao único leproso curado que volta para agradecer, ajoelhado aos seus pés, Jesus diz: “Levanta-te e vai! Tua fé te salvou”. Salvou de quê? Já não estava curado da lepra? A “cura” de Jesus vai muito além da doença física. Essa, muitas vezes, não se realiza como nós pensamos, mas a nossa oração não é inútil, nunca está perdida. Sempre é ouvida. Se confiamos e acreditamos, acontece a cura espiritual, a capacidade também de sermos misericordiosos, de termos compaixão, de darmos amor. É isto que está faltando na nossa oração. Quando rezamos as Ave-Marias, deveríamos pedir, tam bém, a cura do egoísmo e da indiferença. Deveríamos pedir a força e a coragem de nos amar mais, de nos doar mais, de sermos mais humanos e fraternos.

No Círio, neste Ano Santo da Misericórdia, repetimos todos: Salve Rainha, mãe de misericórdia, rogai por nós pecadores! Somos pecadores, mas pedimos para ser curados, perdoados, salvos. E agradeçamos pelo perdão. Misericórdia e gratidão andam juntas.


A paz do coração

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Contam que São Teodoro era continuamente atormentado pelos demônios. Sobretudo durante os momentos nos quais costumava rezar. Certo dia, confessou ao seu diretor espiritual que tinha visto Satanás travestido de Anjo da Luz, que o lisonjeava com estas palavras:

– Eu amo os ambiciosos: eles serão minha propriedade! Tu és ambicioso e, por isso, te levarei comigo! Teodoro, afundado na escuridão do medo e do desespero gritou a Deus:

– Senhor, veja como os demônios me impedem de rezar. Diga-me, por favor, o que tenho que fazer para afugentá-los? O Senhor lhe respondeu:

– Os demônios não deixam de atormentar as almas orgulhosas. O santo se ajoelhou e suplicou:

– Senhor, diga-me. Quais pensamentos afastarão o Maligno e iluminarão a minha alma? Deus, na sua infinita paciência, o ensinou:

– Quando Satanás vier a ti, diga-lhe: “Eu sou o pior de todos!”. Assim começou a fazer São Teodoro e, a partir daquele dia, encontrou a paz do coração.

O trecho do evangelho de Lucas, deste domingo, começa com um pedido dos apóstolos: “Aumenta a nossa fé”. Uma oração singela que revela a dificuldade dos discípulos, mas também de todo cristão, para alcançar uma fé firme ou, ao menos, minimamente digna desse nome. A resposta de Jesus é, ao mesmo tempo, uma comparação e uma advertência. Para a fé, não existe uma medida humana que permita alguma medição em metros ou quilos. Em si, o grão de mostarda é uma semente muito pequena, quase imensurável. Também a fé não se mede por alguma coisa grandiosa que chame atenç&a tilde;o pela sua originalidade. Será que, se tivermos fé como um grão de mostarda poderíamos pedir a Deus qualquer coisa? Por exagerada ou estrambólica que seja? Sinceramente, não sei se uma amoreira plantada no mar, com raízes e tudo, sobreviveria e serviria mesmo para alguma coisa. O que Jesus queria dizer afinal?

Está claro que algumas palavras de Jesus nunca deixam de nos surpreender e que também alguns exemplos dele que, com certeza, podiam ser entendidos naquele tempo, hoje são difíceis para nós. As palavras também têm as suas limitações e o sentido delas pode mudar com as épocas. No entanto, acredito que seja necessário nos deixar questionar pela parábola que Jesus conta em seguida e que também não deixa de nos inquietar. Como é possível que um bom patrão seja tão exigente com o seu empregado e não reconheça também o cansaço dele, após um dia inteiro suado na roça? Será que som os mesmo servos inúteis que, simplesmente, cumprimos as nossas obrigações?

Jesus é um “senhor” exigente, mas não devemos ficar somente com as palavras do evangelho deste domingo, em outras páginas, ele falou também de festa e de recompensa para os “servos” fiéis. Como entender, portanto, essas palavras tão duras? A lição dele é sempre sobre a humildade. A nossa alegria não deve consistir no sucesso pessoal, em elogios ou promoções. A felicidade do discípulo-servo deve consistir, simplesmente, em ter consciência que está colaborando com algo de muito maior dos resultados que ele pode, ou não, ver. Todo discípulo é um simples “operário” do Reino que &eac ute; de Deus e, com isso, nunca comparável com os reinos humanos. Esses se medem pela extensão, pelas riquezas, pelo poder. O Reino de Deus não é uma “superpotência” disputando com outras. Não tem “Banco Central”. Dele, não conhecemos os limites, porque a misericórdia do Pai é infinita. Não conhecemos o patrimônio guardado, porque os tesouros do céu serão revelados somente no último dia; o dia da verdade, mas também do amor doado ou negado. A fé do discípulo deve crescer junto com a sua humildade. Devemos acreditar que até um copo de água será contabilizado, mas devemos lembrar que também isso foi um dom de Deus que nos ofereceu a possibilidade de fazer o bem, de trabalhar na imensa seara da sua bondade manifestada na história conturbada da humanidade. Ainda os servos “inúteis” pergu ntarão: “Quando foi Senhor?” Melhor sempre pensar que somos os últimos, os piores, para um dia, Ele, e somente Ele, nos chamar para a festa do Reino.


O resgate do avarento

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Durante o império de Trajano, vivia em Roma um mercador avarento, que tinha acumulado com muito esforço, com o comércio e a usura, trezentos mil denários. Decidiu, então, descansar por um ano. Mal tinha concluído o último negócio, eis que se lhe apresentou o Anjo da Morte para tirar-lhe a vida. O avarento tentou todos os argumentos para dissuadir o Anjo, mas não teve jeito, ele não desistia de arrastá-lo para o Inferno. Por fim o homem disse:

– Mais três dias de vida e eu te darei um terço dos meus bens.

O Anjo não aceitou. De novo o avarento propôs:

– Se me concedes dois dias, te darei duzentos mil denários e dois terços do meu patrimônio. O Anjo não aceitou. O homem lhe ofereceu ainda os trezentos mil denários e todas as suas riquezas em troca de um só dia. O Anjo não quis escutá-lo. Então, o avarento suplicou:

– Por favor me deixe ao menos o tempo para escrever uma pequena frase.

Dessa vez o Anjo concordou. O condenado escreveu com o seu próprio sangue: “Homem, aprende a contar os teus dias e faze bom uso da tua vida. Eu não pude comprar uma hora só com os meus trezentos mil denários”. O Anjo, em lugar de arrastar o pobre direto para o Inferno, resolveu poupar-lhe a vida. Com efeito, o Senhor, nunca deixa de acolher a menor fagulha de uma boa obra. Aquele avarento se chamava Mirko e morreu mártir, poucos dias depois de ter-se convertido à fé cristã.

Esta história está nas Acta Santorum, os primeiros mártires. Aquele rico avarento ainda teve a possibilidade de resgatar-se de uma vida gastada atrás do dinheiro. O mesmo não aconteceu com o rico, sem nome, da parábola do evangelho de Lucas, que encontramos neste domingo. Foi para os tormentos. O pobre, que se chamava Lázaro, foi acolhido no seio de Abraão. Podemos nos perguntar: por que o rico não teve uma segunda chance? Por que, parece que, neste caso, a misericórdia de Deus não funcionou? Ela não é maior de todos os nossos pecados e não nos alcança sempre?

O sentido da parábola do rico e do pobre Lázaro não está numa possível diminuição da misericórdia de Deus, mas na impossibilidade de inverter uma situação que nunca foi mudada, quando ainda tinha condição de ser corrigida, ou seja, durante os dias de nossa vida. Moisés e os profetas, que Abraão lembra, assim como o morto que ressuscita, são todos os claros alertas enviados para quem se dispõe a escutar a Palavra de Deus e a praticá-la durante a sua vida. Arrepender-se ou querer mudar as coisas, após a morte, não adianta. Deus não desiste e nem descuida de nos alertar, mas respeita a nossa liberdade. Quem quis entender aquelas mensagens somente para a própria vantagem, terá que arcar com as consequências das suas interpretações e decisões.

A primeira culpa daquele rico, com certeza, foi esta: apesar de conhecer a miséria do pobre Lázaro, sentado à porta da sua casa, nunca teve compaixão e não fez nada para amenizar a triste situação dele. Mas o rico da parábola teve outra culpa, muito mais grave e partilhada com muitos outros, ainda hoje, infelizmente. Esta é uma grave distorção da justiça-misericórdia de Deus: achar que a riqueza seja sinal de bênção e a pobreza castigo! Talvez, por isso, o rico se achou no direito “divino” de não interferir na situação do pobre. Talvez, por isso, ficou agradecido e imaginou qual crime horroroso tinha feito Lázaro para merecer tamanho sofrimento. Essa era a ideia, mesquinha e interesseira, da “justiça” de Deus, que muitos abastecidos e poderosos tinham nos tempos de Jesus. As riquezas, os bens e a s capacidades que temos são, é verdade, dons, gratuitos e imerecidos, da bondade de Deus, mas para serem administrados com responsabilidade “social”, solidariedade com os menos favorecidos e caridade compassiva com os sofredores. Não devem ser aproveitados de forma egoísta, porque Deus quer se servir da nossa capacidade de amor e justiça para continuar a exercer a sua infinita misericórdia. A verdadeira “bênção” que devemos pedir ao Pai não é para o nosso bem-estar individual, mas para que a humanidade inteira aprenda a partilhar os bens – inclusive do planeta! – que a generosidade de Deus nos confiou. Como irmãos. Isto é, “contar os dias” e fazer “bom uso” da própria vida.


A premonição do eremita

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Sírio era um santo eremita, um homem de Deus que vivia afastado, longe da cidade, sempre ocupado em orações, jejuns e penitências. Os homens e as mulheres simples iam ter com ele confiando nas suas palavras de sabedoria e fé. Os únicos que não gostavam dele eram o rei e os seus cortesãos. Eles moravam num grande palácio no centro da cidade e consideravam Sírio um velho doido. Certo dia, quando estava orando, o santo homem teve a clara premonição que a cidade ia ser destruída pela erupção do vulcão que, havia séculos, estava adormecido. Disse isso ao prefeito da cidade que o considerava um homem verdadeiro.

– Tenho certeza que o senhor está prevendo o certo – disse-lhe o prefeito – mas o rei nunca vai acreditar, ele somente confia nos seus magos e astrólogos.

– Chame o primeiro ministro – ordenou Sírio. Quando o ministro chegou o eremita falou:

– Diga ao rei que, há muitos anos, me dedico ao estudo dos planetas e das estrelas. Elas me disseram que logo a cidade será destruída pela lava do vulcão, que está aqui perto. O rei acreditou na premonição dos astros e mandou evacuar a cidade. Quando o vulcão acordou, todos os habitantes estavam a salvo.

Uma pequena história de mentira; um subterfúgio para convencer quem não queria acreditar. Foi para o bem do povo e do próprio rei desconfiado. Não é um convite a sermos falsos, mas um exemplo de esperteza em vista de um bem maior. Assim, podemos ler a parábola que nos é apresentada no evangelho deste domingo. Um caso da vida, infelizmente, tão comum. Um administrador desonesto que, desmascarado, deve entregar a administração. A saída que ele encontra é dar mais um golpe no patrão rico e conquistar, assim, a simpatia de alguns devedores. O surpreendente da parábola é que o patrão “roubado” reconhece e elogia a esperteza inteligente do ecônomo. O ensinamento não é um incentivo à desonestidade, mas para usar dos bens deste mundo – do dinheiro injusto – para fazer amigos. “Amigos” esses, todos especiais, uma vez que, quando acabar o dinheiro, acolherão os “filhos da luz” nas moradas eternas. Jesus está falando dos pobres, dos pequenos, beneficiados pela caridade de quem resolveu usar dos bens que administrava para socorrê-los. Alguém que foi luz na escuridão do sofrimento alheio.

O trecho do evangelho continua com outros ensinamentos que ao nosso entender lembram que a parábola foi dirigida “aos discípulos”. Para Jesus as coisas grandes são aquelas do Reino de Deus: a esperança e a vida plena que ele nos trouxe. As coisas pequenas são as riquezas deste mundo. Os cristãos devem ser exemplares nessas coisas menos valiosas para poder administrar as coisas “santas”. Devem dar testemunho de crer, acima de tudo, no valor inestimável do amor de Deus e na sua misericórdia sempre oferecida a todos.

Basta pouco para atualizar a parábola. Quantas energias de inteligência e esperteza são gastas para aumentar os lucros nesta nossa sociedade de consumo, de desperdício, de prazer e diversão! Não é questão de sobrevivência, mas de ganância mesmo. O coração humano fica insaciável, quando está a serviço do dinheiro. Estamos construindo uma sociedade, cada vez mais, desumana e excludente. As massas “sobrantes” de migrantes, empobrecidos e desempregados aumentam. Às vezes, até ações humanitárias são exploradas para enriquecimentos ilícitos e vergonhosos, às costas de multidões de sofredores sem terra, sem casa, sem pátria. É urgente que os cristãos se unam mais e aprendam a usar a inteligência da caridade, a esperteza da solidariedade e a argúcia da fraternidad e para encontrar caminhos novos. “Novos” ou antigos como a partilha e uma maior simplicidade de vida. Um grito por socorro nos vem, também, do Planeta Terra incapaz de sustentar tamanha produção de bens supérfluos, poluição, envenenamento da água e do ar, guerras e destruição. Não têm premonições de vulcões acordando. Não precisa contar mentiras sobre astros. Bastaria escutar mais a nossa consciência de cristãos e de seres humanos.


A alegria do céu

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Com o evangelho deste domingo chegamos ao coração do próprio evangelho e também do Jubileu da Misericórdia, que está chegando ao fim. Vamos deixar que as três parábolas da misericórdia, que encontramos no capítulo 15 do evangelho de Lucas, falem ao nosso coração e marquem a nossa vida de cristãos chamados a ser misericordiosos como o nosso Pai é misericordioso. Começamos com a ovelha desgarrada, depois com a moeda perdida e, finalmente, com os dois filhos, cada um surpreendido, também se de maneira muito diferente, pela compaixão e o perdão do pai.

Os entendidos dizem que o costume dos pastores do tempo de Jesus era ir atrás da ovelha que se tinha afastado do resto do rebanho. Uma ovelha era sempre um bem que não podia ser desprezado. No entanto, quando a encontravam, quebravam uma perna dela. Não era por castigo e nem por maldade, era simplesmente para que a ovelha, tendo ficada aleijada, talvez conseguisse se lembrar e não abandonasse mais as outras. O pastor da parábola age de maneira diferente: carrega a ovelha desgarrada nos ombros e faz festa.

Os Padres da Igreja fazem uma leitura interessante da parábola da moeda perdida. Por que a mulher a procura com tanto cuidado? O que tinha de extraordinário aquela moeda de prata, além do seu valor material? Basta lembrar que, naquele tempo, as moedas traziam a imagem do rei ou do imperador. Cada pessoa é imagem de Deus. O pecador pode ter se esquecido disso, mas quando a moeda-pessoa é colocada novamente com as outras, volta a entender a sua beleza, o seu verdadeiro valor. Também a mulher faz festa.

Chegamos, enfim, à maravilhosa parábola do pai e dos dois filhos. Se o filho “pródigo” é aquele que mais chama atenção, na realidade, no centro da parábola está o pai. No texto original a palavra “pai” aparece doze vezes. Naquela família não tem mãe. Dá para entender que Jesus quis falar mesmo daquele Pai que ele veio nos fazer conhecer. O pai da parábola não deixa de surpreender a todos, ao filho mais novo e ao mais velho também. Primeiro aceita de dividir a herança antes de sua morte. Pela lei, o filho mais novo ficava com um terço da herança e o mais velho com dois terços. Por isso, o pai pode dizer ao filho mais velho: “Tudo o que é meu é teu”. Era o que t inha ficado da herança.

A casa paterna não é uma prisão para ninguém, nem para o filho mais novo, que quer ir embora iludido pela liberdade, nem para o filho mais velho, que lá permanece, porém, mais por interesse nos bens materiais que pelos laços familiares. O pai da parábola surpreende o filho mais novo, quando corre ao seu encontro, o abraça e o beija. De fato, esse filho, que tinha esbanjado tudo, não voltou por amor ao pai, mas pela fome, disposto a ser um simples empregado contanto que tivesse o que comer. No entanto, para este pai tão diferente, um filho, por errado que seja, nunca poderá ser um empregado. Logo é acolhido com todos os seus direitos: a melhor veste, o anel no dedo e as sandálias nos pés. Além disso, o pai organiza uma grand e festa com música e danças. Está feliz, mas não se esqueceu do filho mais velho que tinha ficado com raiva e não queria entrar em casa. De novo, sai e insiste para que este outro filho também participe da festa.

Com efeito, a alegria de um pai só pode ser plena não porque todos os filhos estão simplesmente recolhidos em casa, mas porque eles se acolhem entre si como irmãos, unidos pelo mesmo abraço misericordioso do único pai. Jesus termina assim a parábola; com a possibilidade ou não da reconciliação dos irmãos. Uma festa bonita, mas com um final incerto.

O Pai que Jesus veio nos fazer conhecer é bondoso, misericordioso, compassivo; sempre pronto a fazer festa por um filho que volta. Nós, infelizmente, continuamos como os dois filhos. Ás vezes fugimos para longe, atrás de uma liberdade que não existe. Outras vezes ficamos em casa, mas sem entender a bondade do Pai, prontos a cobrar dele mais castigos que perdão, cegados por uma justiça sem misericórdia. Falta muito ainda para aprendermos com o Pai a ser mais filhos e irmãos entre nós. Seria bonito, já experimentar na terra um pouco da alegria do céu.