O cruzado e o peregrino

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No tempo das cruzadas, um peregrino, que chegava de Compostela, cansado da viagem, decidiu ficar por um tempo na praia de Ribeira, abrigando-se numa gruta. Depois, intencionava prosseguir rumo à Terra Santa. Os pescadores espanhóis, que passavam por aí, davam-lhe pão e alguns peixes. Em troca o andarilho contava as suas aventuras e a história daquele Jesus por causa do qual tinha começado as suas andanças de penitência. Morava nas redondezas um malvado cavaleiro, que tinha lutado contra os mouros na Espanha e os turcos na Terra Santa. Talvez mais pelos espólios do que pela fé. Ele não gostava de peregrinos, considerava-os vagabundos. Assim, quis colocar à prova o pobre homem. Decidiu convidá-lo para o almoço. Mas, quando o peregrino chegou, o mandou embora. O mesmo fez no dia seguinte e continuou por um mês inteiro. Enviava um servo para convidá-lo e depois o despachava sem nenhuma comida. No final, foi tocado pela humildade do andarilho e lhe pediu perdão. O santo homem lhe disse: “Meu jovem cavaleiro, eu sou um peregrino e caminho em sinal de penitência. Ando por onde o Senhor me chama e nesses dias ele me chamou por trinta vezes até a tua casa. Entendi que, se o Senhor me mandava interromper a minha viagem para te encontrar, esta era a sua vontade. Era para te mostrar que a alma do peregrino não retém nada para si e confia somente no amor de Deus”. O cavaleiro deixou tudo e seguiu o andarilho rumo à terra de Jesus. Desta vez sem a espada, somente com o bastão de peregrino.

A humildade é, sem dúvida, a grande lição do evangelho deste domingo. Juntas vão também a gratuidade e a generosidade. Devemos reconhecer que as coisas não mudaram muito desde os tempos de Jesus e os seus ensinamentos são de uma atualidade espantosa. O conselho para participar de um evento ocupando o último lugar é tão simples que parece óbvio. Não está certo nos considerarmos sempre os mais importantes com direito ao destaque. Nunca deveríamos ser nós mesmos a nos achar os tais. Que sejam os outros – ou quem nos convida – a nos colocar no lugar apropriado, mas nunca nós mesmos. Tudo com simplicidade, sem ostentação. Com discrição, sem soberba. No entanto, sempre somos tentados a estar na frente e não nos preocupamos com a vergonha de, talvez, te r que deixar o lugar para outro mais importante ou querido do que nós.

Nem se fala de convidarmos em nossa casa os pobres. É perigoso. Podem se acostumar, podem exigir mais ainda. É muito melhor que o nosso grupo de “amigos” continue restrito e fechado. Entre nós nos conhecemos; temos os nossos segredinhos, as nossas articulações, os nossos negócios. Além disso, é mais fácil falar bem de nós e falar mal dos outros. Tudo, ou quase, funciona com a troca de favores: uma mão lava a outra, hoje eu ajudo, amanhã você me devolve. Nada é de graça, tudo tem preço ou compromisso de vantagens futuras. Vivemos num Estado de Direito, mas até na fila dos pobres, sempre aparece alguém mais pobre que passa na frente, mas não porque o seja de verdade. Simplesmente conhece alguém que conhece a pessoa certa para abrir as portas, nem que seja o faxin eiro do escritório do doutor. Vale tudo. Pobre mesmo é aquele que não conhece ninguém a quem pedir e prometer algo em troca.

Como ressoam desafiadoras para nós cristãos as palavras de Jesus: “Então tu serás feliz! Porque eles – os pobres mesmo – não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos” (Lc 14,14). Seria muito bom, neste bendito Ano Santo da Misericórdia, fazer a experiência da compaixão, da solidariedade e da gratuidade, sem preconceitos, sem clubes fechados, sem pensar no que poderemos pedir e receber em troca. Precisamos aprender a confiar nas palavras do Senhor, quando seremos surpreendidos por ele. Jesus nos dirá: “Foi a mim que o fizestes!”. E nós, esquecidos, a questionar: “Quando, Senhor?” Que tal começarmos a fazer isso por um mês. Um mês só passa rápido, mas pode valer uma eternidade e, quem sabe, consigamo s tomar gosto com a bondade. Seremos felizes.


O Rio da Paz

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Fulgêncio era um bom pai e um excelente esposo. Num dia triste de desventura, a jovem esposa dele partiu para sempre. Ele chorava, inconsolável. Certa noite, quando estava recolhido em sua cama e chorando baixinho para não acordar as crianças, Nossa Senhora das Lágrimas teve compaixão dele. Era uma visão calma e consoladora. Maria o tomou pela mão e lhe disse:

– Vem comigo, meu filho, iremos até o Rio da Paz. Andaram por muitos dias e atravessaram lugares tão escuros, que não era possível distinguir o dia da noite. Finalmente, Fulgêncio começou a escutar o ruído de águas correndo. Um rio imenso de águas puras e claras estava à frente deles.

– Mergulha no Rio da Paz, peregrino da dor – ordenou-lhe a Virgem – as suas águas vão derreter a tua pena e a tua angústia. Fulgêncio entrou na água. Sentiu no seu corpo todo uma grande paz e um novo vigor. Todas as suas feridas estavam sendo curadas. Quando saiu da água, perguntou a Nossa Senhora:

– De onde vêm as águas benfazejas deste rio?

– São as lágrimas do mundo – respondeu a Virgem – todas as lágrimas chegam aqui. Lágrimas amargas de medo, de dor, de decepção, de derrota, de raiva. Mas também lágrimas doces, aquelas derramadas por amor, pela volta de uma pessoa querida, por um perigo afastado. Fulgêncio percebeu os gemidos de todos os que lá tinham derramado lágrimas e compreendeu que, também, as suas agora faziam parte daquele único rio. Sentiu-se em comunhão com toda dor e alegria do mundo.

Naquele momento, Maria, a mãe de Jesus, falou-lhe da dor do seu filho. Fulgêncio escutou o choro de Jesus na frente do túmulo de Lázaro, o choro no Horto das Oliveiras, o choro da cruz. Lá estavam juntas, também, as lágrimas de Nossa Senhora. Naquele momento, Fulgêncio acordou. O travesseiro ainda estava molhado, mas uma paz profunda estava tomando conta dele. Não era mais o filho da dor, mas o filho da compaixão.

Acredito que Nossa Senhora da Assunção, que celebramos neste domingo, vai me perdoar se hoje a chamei de Nossa Senhora das Lágrimas. O nome não muda a santidade da pessoa e nem diminui a glória merecida. A Igreja nos convida a contemplar a glória de Maria, mas não para diminuir a sua humanidade; ao contrário, o faz para aproximá-la mais de todos nós e nos indicar, assim, o caminho do céu. Junto ao Filho Jesus ressuscitado, Maria, com a sua realidade corporal, lembra-nos a meta final da nossa busca e peregrinação terrena: a alegria de estar com Deus.

Esquecemos que estamos neste mundo só de passagem. Algo melhor, uma vida mais plena e feliz nos atende. Nós todos deveríamos desejar e preparar esta vida que é a própria vida de Deus Trindade. O Caminho para chegar e a Porta para entrar é Jesus. O segredo? O amor. Os indicadores? As lágrimas de dor e de compaixão. Assim foram as lágrimas de Jesus, pela sua infinita misericórdia com a nossa pobre humanidade, desfigurada pela violência, ódio, ganância que produzem infelicidade, sofrimento e morte. Foram também as lágrimas de Maria, quando, aos pés da cruz, entregou o seu filho nas mãos do Pai, sem poder fazer nada a não ser chorar e confiar. Como tantas m&atil de;es que choram, ainda hoje, os seus filhos. Somente se aceitamos não ser os donos da nossa vida e da vida dos outros, conseguimos suportar as separações que a morte nos traz.

Todos somos, em primeiro lugar, filhos amados pelo Pai. Ele nos permite nos amarmos por um tempo. Todos somos dons dele uns pelos outros. Dons que deveriam ser bem aproveitados e nunca desperdiçados. Deus não brinca de nos fazer sofrer. Não seria o Deus-amor. Chora conosco e, um dia, enxugará as nossas lágrimas, naquela vida plena de reencontro e comunhão que somente ele pode oferecer. Sem essa dimensão de fé, amor e esperança, é difícil suportar os sofrimentos. Parecem injustiças e castigos. Podem se tornar percursos de amor e compaixão. Nossa Senhora da Assunção já andou por esses caminhos e chegou à glória. Basta lembrar que não existem somente l&aacu te;grimas de dor; tem também lágrimas de alegria, esperança, solidariedade e, sobretudo, de compaixão. Um grande rio.


O herdeiro e as favas

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O filho mais velho do duque de Turingia era considerado o mais poderoso e sortudo jovem de toda a Alemanha. Quanto antes, herdaria o ducado, as terras, as riquezas e o poder do pai. No entanto, era odiado pelos irmãos e primos que também queriam uma parte da herança. Certo dia, durante uma caçada, ficou separado dos seus companheiros. Viu um sinal de fumaça e cavalgou até onde estava o fogo. Lá encontrou um peregrino que estava cozinhando algumas favas. O jovem disse para o desconhecido:

– Tu hoje tens a honra de ter o futuro duque de Turingia como hospede. O que estás cozinhando no fogo?

O peregrino, sem levantar os olhos da panela, respondeu:

– Uma sopa de favas.

Então o príncipe pediu:

– Queres dar-me um pouco da sopa?

– Não – respondeu o homem – tem sopa somente para mim. Quando tu voltares ao castelo, terás toda a comida que quiseres. Eu não quero nada de ti e para mim o teu reino não vale quanto estas favas. Tu, talvez, desejas estas favas, mas eu não desejo nada do que tens. Reparas quantos inimigos juntaste. Querem roubar-te posses e riquezas. Eu sou pobre, mas livre e benquisto por todos e tenho as minhas favas. O herdeiro do trono olhou para o legítimo dono das favas. Pensou em todos os seus domínios, ao ódio dos seus irmãos e chorou.

Com certeza o evangelho deste domingo vai nos surpreender. Estamos demais acostumados a pensar num Jesus meigo e adocicado. Não é ele o “príncipe da paz”? Então por que fala de “fogo” e de divisão? Se por “paz” entendemos não poder falar e engolir tudo para fingir que está tudo bem. Essa não é a paz de Jesus. Pode ser a “paz” de quem não aceita críticas, de quem manda calar a boca, de quem ameaça e amedronta. Essa “paz” é só de fachada, é feita de gritos travessados na garganta, de mágoas guardadas, de mentiras a fim do bem, de suspiros de quem gostaria mudar as coisas, mas não sabe como. Essa “paz” é triste, cheira a indiferença e desânimo. É falsa.

A paz de Jesus é diferente. Não é barata, porque não pode ser fingida. Exige clareza. A verdade desmascara a superficialidade e os interesses espúrios. Por que fazer declarações de amor, quando, talvez, daquela pessoa nós somente desejamos o dinheiro dela e o conforto que a riqueza compra? Nenhuma família se sustenta só com presentes de Natal, festas de aniversários ou churrasquinhos e cervejas de final de semana. Essa é vida social; bem aproveitada, quem sabe, por medo de mexer mais a fundo e quebrar os equilíbrios concordados no silêncio.

A paz de Jesus nasce do “conflito”. Sim, porque existem “conflitos” que só podem gerar brigas e “conflitos” que, resolvidos, fazem acertar os passos e geram uma vida melhor. É o confronto – dolorido, é verdade – de quem precisa escutar e dialogar mais porque a alegria e a felicidade nossas e dos outros não podem ser impostas. São uma conquista que passa pela acolhida amorosa das limitações de cada um. Passa pela tolerância, o perdão, a partilha. Cresce com o esforço de não repetir erros, de não abusar da autoridade, de aprender a limitar a liberdade e o egoísmo próprios, para respeitar os direitos e o espa& ccedil;o vital dos outros.

As nossas famílias sofrem pela ideologia individualista da sociedade de hoje. Cada um busca o seu prazer, quer satisfazer os seus gostos – ou os seus caprichos – e pouco ou nada se importa com o respeito dos direitos dos outros. Assim os pais são bons somente quando compram tudo que os filhos desejam e os filhos são bons somente quando realizam os sonhos mais impossíveis dos pais. Ninguém escuta ninguém. Exige, cobra, quer ganhar. Raramente se pergunta se o outro pode, sabe ou consegue fazer o que pedimos. Os “conflitos” diminuem, amenizam-se e até desaparecem quando nos aceitamos – e nos amamos – por aquilo que somos e não por aquilo que temos. Quando todos juntos nos ajudamos a ser cada dia melhores. Sem ódios, invejas, ciúmes, indiferença. Quando aprendemos a conviver, a nos olhar, falar e escutar e não, simplesmente, a nos cruzar na cozinha, no quarto ou na frente da televisão. Essa é a paz humilde e sincera que desejo a todas as nossas famílias no Dia dos Pais. É a paz difícil de Jesus, mas verdadeira.


Setímio e o bandido

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Muitos séculos atrás, caminhava pelo mundo um velho peregrino chamado Setímio. Quando não estava andando, ele parava em lugares afastados rezando e se alimentando com folhas e frutas. Toda noite, um anjo do Senhor descia do céu para lhe falar do paraíso. Num dia de chuva, aconteceu que o andarilho de Deus não conseguiu sair para encontrar comida. Estava com fome e com frio. Perdeu a paciência e disse:

– Que dia horrível!

Por nove dias, o anjo não compareceu. No décimo dia, veio e disse a Setímio:

– O Senhor está triste porque perdeste a paciência. Terás que fazer penitência. Crava e teu velho bastão no chão. Todo dia descerás três vezes ao rio, encherás a boca de água e assim molharás o bastão. Quando este florescerá, eu voltarei e te levarei para o paraíso.

– Setímio obedeceu. Certo dia, chegou por lá um perigoso bandido que estava fugindo dos que o caçavam. Viu o vaivém do peregrino e quis saber o porquê. Deu uma gargalhada e disse:

– Crês de verdade que o teu bastão um dia florescerá? E não achas a tua penitência pesada demais por uma culpa tão pequena? Imagina eu; qual seria a minha penitência por tudo o que aprontei?

Respondeu Setímio:

– A misericórdia de Deus é infinita.

Fazia alguns tempos que o ladrão sentia a dor do remorso pelo mal cometido e assim falou:

– Vou acreditar em ti. Ficarei contigo e seguirei o teu exemplo. Ele também cravou o seu bastão no chão e começou a rezar e a carregar a água, de manhã, ao meio dia e à tarde. Cada dia crescia o seu arrependimento, mas não acreditava que o bastão de um pecador, com o qual tantas vezes tinha batido e se defendido, iria mesmo florescer. Uma manhã, porém, Setímio chamou o bandido e lhe disse:

– Olha, o teu bastão floresceu e o meu não!

No mesmo dia, veio um anjo do céu e levou o ladrão para o paraíso. O bastão do velho andarilho floresceu muitos anos depois. Setímio não tinha se arrependido tão profundamente como o bandido e, algumas vezes, quando descia para o rio a buscar a água ainda se queixava que, afinal, aquela penitência era pesada demais por uma culpa tão pequena.

No evangelho deste domingo, Jesus nos lembra que os bens mais seguros são aqueles colocados nos cofres do céu: as obras de misericórdia, de compaixão e generosidade. Somos todos administradores da vida que recebemos em dom, do tempo que nos é dado para agir da melhor maneira. Ser encontrados acordados pelo dono da casa não significa simplesmente não dormir, mas não deixar entorpecer a nossa consciência pelos ídolos cativantes deste mundo. Ficar acordados é não perder o sentido mais profundo do nosso agir, das nossa escolhas, todo dia e toda hora. Ninguém sabe a hora em que o senhor vai voltar para abrir-lhe imediatamente a porta. O emprega do-discípulo deve estar sempre pronto e será feliz se for encontrado vigiando. Será premiado. Ao contrário, o servo que aproveitar da ausência do patrão para abusar da sua liberdade será punido, porque desobedeceu, apesar de conhecer a vontade do seu senhor.

Não é para ter medo (Lc 12,32), mas para colaborar alegremente e com responsabilidade com a obra que nos foi entregue. Estão em jogo os valores do Reino de Deus; este é o tesouro inestimável que nos foi entregue para administrar na história real da humanidade. Este é o “muito” que recebemos. Cabe aos cristãos fazer acontecer o Reino da justiça, da paz e do amor; de fato, na vida, de dia e de noite, sempre. Sem parar, porque o amor de Deus não descansa e os pobres não podem esperar, clamam ao seu Senhor. “Administrar” é usar bem dos recursos que temos à disposição. Não estamos neste mundo para e xplorar o planeta e transformá-lo em deserto, mas para fazê-lo florescer para a alegria de todos os seus habitantes, para um bem que seja grande e “comum”, porque administrado e repartido entre todos. Uma grande fraternidade. Sem exclusões e sem privilégios. Sem escravos e patrões. Nunca é tarde para se arrepender. E a penitência? Se reclamar, será pesada. Se acreditarmos, será o Reino acontecendo: mesa farta, festa, alegria para todos e…o Senhor “servindo”!


Um pobre morto

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Em 1916, morreu Francisco José, imperador da Áustria. Por muitos anos, ele soubera conservar, sob o poderio paternal do seu cetro, muitos povos que antes viviam em contínuas guerras. O féretro foi levado à cripta da igreja dos Padres Capuchinhos de Viena, onde jazem outros reis e imperadores. O mestre de cerimônias bateu à porta.

– Quem é – perguntou do lado de dentro, segundo o cerimonial, um padre capuchinho.

Os cortesãos responderam: – Francisco José, imperador e rei.

Lá de dentro, a mesma voz austera do frade respondeu: Não o conheço.

Um momento de silêncio dentro da cripta. Do lado de fora, à porta, deliberavam os senhores e políticos. Batem outra vez. E outra vez insiste de dentro o guardião daquelas tumbas:

– Quem é?

– Francisco José de Habsburgo – respondem de fora os que sustentam em seus ombros o régio féretro. E de novo ouve-se a voz do frade:

– Não o conheço.

Mais um momento de silêncio. Mais um instante de deliberação. Urge, porém, entregar aqueles restos mortais que foram ontem de homem tão grande e que hoje ninguém os quer em parte alguma. Por isso, após um instante de imponente silêncio, outra vez a voz do Capuchinho interroga:

– Quem é? –

E o que responde em nome da política e da grandeza do império austríaco diz agora:

– Um pobre morto.

A voz serena e imutável do guardião daqueles túmulos responde imediatamente:

– Entre! Abrem-se as portas, entra o cadáver e, ali, como pobre morto, foi enterrado o celebre Francisco José, rei e imperador da Áustria. É certo que a morte nivela tudo.

Tem assuntos que nos incomodam. Não gostamos de enfrentá-los. Preferimos sempre deixá-los para depois, achando que será possível evitá-los. Só que eles são tão reais quanto a nossa própria vida. Um deles é a morte, certa para todos. O outro, objeto de tantos conflitos entre os herdeiros, também não oferece opções: nada carregaremos deste mundo, teremos que deixar tudo. Tudo mesmo. Desde quando nascemos e começamos a entender alguma coisa sabemos desta condição humana, no entanto, continuamos a querer acumular bens e dinheiro numa guerra contra os nossos semelhantes ou, como dizem os psicólogos, contra a nossa própria morte. Já somos perdedores antes de começar o jogo. Mas se a vida n&atil de;o serve para provar que somos os melhores, que somos mais inteligentes e poderosos, para que serve? Que gosto teria uma existência sem o prazer de enganar os outros, sem a mola da ganância e do lucro? Ou simplesmente sem ambições, sem pódios, sem medalhas, sem reis e rainhas, sem campeões? Será que Jesus, contando a parábola do rico “louco” queria esvaziar o sentido da nossa vida tão ocupada com os nossos negócios e disputas? O que nos resta, então?

As respostas estão no próprio evangelho deste domingo. Jesus nos apresenta um alerta e uma conclusão clara: “Assim acontece com quem junta tesouros para si mesmo, mas não é rico diante de Deus” (Lc 12,21). A chamada de atenção é sobre “todo tipo de ganância”. Simplesmente porque “a vida de um homem não consiste na abundância de bens”. Esse é o grande engano: fazer coincidir o sentido da vida com a fartura. Ele mesmo, Jesus, seria o maior fracassado da história; não morreu somente pobre, mas também condenado e desprezado. A beleza da vida que ele ensinou e viveu foi muito diferente. Ele doou esperança e alegria aos excluídos. Mostrou aos pecadores o rosto misericordioso de um Deus Pai que n ão condena ou castiga, mas ama a todos e festeja o reencontro com quem estava perdido. Com uma vida simples e fraterna, feita de convivência e partilha, ensinou que a felicidade pode ser encontrada somente junto aos outros, carregando, solidários, alegrias e tristezas. Sentiu compaixão e chorou pelo sofrimento dos irmãos; exultou pelo entusiasmo dos pequenos que confiam em Deus. Também de Jesus disseram que estava fora de si. Também ele foi sepultado como um pobre morto. Mas Deus Pai o ressuscitou. Não podia ficar no túmulo aquele que, por amor, tinha doado tudo, até a própria vida. A loucura do amor é o único tesouro que vence a morte.


O soldado e o ovo

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Num hospital servido pelas Irmãs de Caridade, achava-se um soldado em tratamento. Certo dia, pediu que lhe trouxessem um ovo cozido. Poucos instantes após, uma das irmãs servia ao enfermo o ovo cozido; mas aquele indivíduo, querendo provar a paciência da religiosa, rejeitou o ovo, bruscamente, dizendo:

– Está duro demais.

Retirou-se a Irmã, em silêncio e, depois de alguns minutos, trouxe outro ovo; mas o doente o rejeitou, de novo, alegando:

– Está mole demais.

Sem mostrar o menor indício de impaciência, foi a Irmã, pela terceira vez, à copa e trouxe ao soldado um vaso com água fervente e um ovo fresco e disse-lhe com toda calma:

– O senhor tem aqui tudo o que é necessário para cozinhar o ovo, prepare-o do modo que lhe agradar.

Essa paciência inalterável da boa religiosa causou ao soldado tal impressão que não pôde deixar de exclamar:

– Agora compreendo que há um Deus no céu, uma vez que há tais anjos na terra. Por aí se vê que pela paciência se pode fazer um grande bem ao próximo.

O evangelho deste domingo nos apresenta, entre muitas outras coisas, a situação do amigo “impertinente” que de noite perturba a tranquilidade do vizinho pedindo-lhe comida emprestada por causa de uma visita inesperada. É tão grande a insistência do homem, que o outro vai atende-lo, diz o evangelho, se não por amizade para se ver livre dele e, digamos nós, voltar a dormir em paz. É evidente, porém, que o principal assunto desta página de Lucas não é a paciência do amigo – ou a própria paciência de Deus – mas a oração. Vendo Jesus rezar, os discípulos pedem que ele os ensine. Temos aqui a versão do Pai N osso segundo o evangelista Lucas. Somente um pouco mais curta da que usamos na liturgia e que encontramos no texto paralelo de Mateus.

Podemos resumir o ensinamento de Jesus dizendo que a oração deve ser, em primeiro lugar, “confiante”; como a atitude de um filho pequeno que, se espera, confie serenamente no próprio pai. Somente pais que não amam os seus filhos deixam de satisfazer os pedidos simples – peixe, ovo – que estes lhe apresentam. Outra característica da oração cristã deve ser a “perseverança”. Pedir ao Pai, insistentemente, não é uma humilhação para os filhos, mas sim o reconhecimento que não tem outro pai, mas somente um no qual confiam plenamente. Nesse sentido, a oração se torna também “de entrega”; a nossa vida está segura nas mãos e no coração de quem nos ama e que nós também amamos. Por fim, para não pensar que “busca” signifique pedir qualquer coisa e de qualquer jeito, Jesus nos ensina a pedir o dom do Espírito Santo. Sem a luz do Espírito a nossa oração correria o perigo de ser egoísta, interesseira e, quem sabe, capaz de pedir até vinganças e castigos para irmãos e irmãs que, infelizmente, ainda consideramos inimigos e não filhos do mesmo Pai misericordioso.

Quantas lições encontramos nesta página do evangelho! Por exemplo, para os pais que se acham na obrigação de satisfazer qualquer pedido dos seus filhos. Nesse caso, eles precisam também de “discernimento”, de “inteligência” e de “sabedoria”. Para todos os cristãos que desistem facilmente da oração, porque fraquejam na fé ou acham que Deus os ama pouco, porque não satisfaz na hora os seus caprichos. Esses precisam de muita “fortaleza”. Para todos aqueles que pensam ser Deus um velho bonachão, um inútil, fácil de se enganar, que – se ainda não desapareceu – irá passar a mão na ca beça de todos e de qualquer jeito, e, por isso, nunca rezam, porque, afinal, Deus não é coisa séria. Esses precisam mesmo do “temor de Deus”. Viram como foi fácil lembrar alguns dos dons do Espírito Santo? E ainda podemos pedir a fé, a esperança, a caridade. Precisamos de paz, de união, de honestidade, de “vergonha na cara”, e assim por diante. No entanto, insistimos em pedir sobretudo saúde, dinheiro, sucesso e poder. Que o Espírito Santo me perdoe: ele é mais do que a panela para cozinhar a nossa oração, ele é o fogo! É o que nos falta muito.


A voz de Santo Antônio

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Conta o escritor Súrio que, estando Santo Antônio a pregar em certa cidade, uma devota senhora, que morava distante, tinha imenso desejo de ouvir as pregações do santo. O marido, homem perverso, não lhe permitia de modo algum. Ouvindo que, devido à multidão, o santo iria pregar fora da cidade em campo aberto, a boa senhora, aflita e desconsolada, subiu ao terraço da casa para olhar, ao menos de longe, o lugar onde o ele pregava. Coisa admirável! Apesar da grande distância, a voz do pregador chegava-lhe aos ouvidos forte e distinta, como se o púlpito estivesse ali mesmo. Admiradíssima chamou o marido, o qual, reconhecendo naquele acontecimento o dedo de Deus, entrou em si, converteu-se sinceramente e foi, dali em diante, um ouvinte assíduo da palavra de Deus. E assim recompensou Nosso Senhor a fé e o amor que aquela senhora demostrava pela palavra divina.

Uma história de outros tempos, quando ainda não existiam os potentes aparelhos de som e precisava do “dedo de Deus” para ouvir de longe a pregação de Santo Antônio. Hoje, temos quilowatts de potência, rádio, televisão, celulares, internet e redes sociais, mas talvez falte mesmo o mais importante: a vontade de escutar com atenção o ensinamento do Mestre Jesus.

Neste domingo, ouviremos a página do evangelho de Lucas com o conhecido caso das duas irmãs, Marta e Maria. A primeira está muito atarefada, preparando uma digna acolhida para Jesus, hospede sempre bem-vindo naquela casa. A segunda está sentada aos pés dele, ouvindo as suas palavras. Ao pedido de Marta para que Jesus diga a Maria de ajuda-la nos afazeres, ele responde que ela está preocupada e agitada por muitas coisas. Maria, ao contrário, “escolheu a parte melhor e esta não lhe será tirada”. Parte que Jesus define como a “única coisa necessária”. Essa resposta dele já deu muita conversa e ainda dará. Sempre haverá defensores da incompreendida e explorada Marta e outros que aproveitarão destas palavras de Jesus para ficar sentados, numa confortável poltrona, não para escutar, de verdade, a palavra de Jesus, mas por certa dose de preguiça. Podemos ter quase certeza que esta discussão também esquentava os ânimos dos cristãos, aos quais Lucas dirigiu o seu evangelho.

Deixando de lado as intermináveis controvérsias, vamos ao que interessava a Jesus e que deve nortear também a nossa vida. Maria escolheu a “única coisa necessária”, porque todo o agir, correr e trabalhar do discípulo de Jesus só pode ser iluminado pela Palavra do Senhor. Isso não significa que esta Palavra nos dará uma resposta cabal a todo e qualquer questionamento ou curiosidade nossa. Por exemplo, não vai nos dizer com quem devemos casar ou qual pobre devemos ajudar. A Palavra de Deus irá nos dizer que sem o amor, que é doação, partilha, perdão e justiça, nenhum casamento irá dar certo e nenhum programa social conseguirá erradicar a pobreza. Caberá a nós a fadiga, mas também a liberdade de escolher, assumindo toda a responsabilidade e todas as conseq uências das nossas escolhas. Os erros, inclusive, fazem parte da dinâmica da escuta e da prática da Palavra. Eles nos obrigam a voltar a escutar sempre de novo, a buscar entender melhor e a reconhecer, com humildade, que, certas vezes, nós nos achamos mais sabidos que a Sabedoria. Queremos ensinar a Deus. “Escutar” não significa simplesmente ler. A Bíblia não é um romance mais ou menos histórico, um livro de autoajuda ou um catálogo de receitas milagrosas. Através de palavras humanas – e por isso compreensíveis – chega até nós, hoje, a revelação do amor misericordioso de Deus. Este Deus, que Jesus nos ensinou a chamar de Pai, fala a cada um, e, ao mesmo tempo, a todos nós juntos como comunidade, Povo de Deus a caminho na história. A Palavra de Deus é viva para quem quer dar um sentido grande à própria vida. S e acreditamos que é o próprio Deus que continua a falar, precisamos escutá-lo com atenção e… em silêncio. Nada de gritaria. Deus nos fala muito perto, fala ao nosso coração.


Indiferença ou compaixão?

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Certa noite, o diabo veio à terra, com um grande saco nos ombros, para levar consigo tudo o que Deus não quer no céu. Ao caminhar, tropeçou num bêbado e lançou-o no saco, dizendo:

– Os beberrões são meus, Deus não os quer. Ao inferno com eles!

Seguiu andando e encontrou um ladrão:

– Para o saco – disse com uma grande gargalhada – de ladrões está cheio o inferno.

Continuou andando e encontrou um escandaloso.

– Oh, oh, este é pior do que o demônio! Os escandalosos são sujeitos infernais.

E assim foi metendo no saco a todos os que tinham a alma manchada com pecados de maledicência, orgulho, inveja, luxúria, e não sei quantas coisas mais. Até um hipócrita caiu no saco do diabo.

– Desses entram milhões no inferno – disse o diabo – é pena que nenhum deles consiga ir para o céu, pois eu tenho que aguentar a todos.

Depois encontrou um tal que não era bêbado, nem ladrão, nem escandaloso; mas também não era bom, porque Deus não o quis levar.

– Quem és? – perguntou-lhe o diabo, abrindo o saco para metê-lo dentro.

– Eu – respondeu o tal – nunca fui amigo nem inimigo de ninguém; a todos e a tudo fui indiferente.

– Um indiferente? – perguntou o diabo – não serviste para Deus, nem para mim serves, não prestas nem para o inferno!

Com certeza, ao longo deste Ano Santo da Misericórdia, refletimos muitas vezes sobre a parábola do Bom Samaritano. A encontramos no evangelho neste domingo do Tempo Comum. Jesus a contou para explicar ao mestre da lei quem é o nosso próximo, mas também para responder à pergunta inicial dele: “Mestre, que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” Pela parábola fica claro que o nosso próximo é todo aquele que encontramos, ferido, nos caminhos da vida e que socorremos com cuidado e generosidade. O rosto do próximo necessitado depende do nosso olhar compassivo. Cabe a cada um de nós decidir se paramos, socorremos e carregamos quem entendemos que está precisando da nossa ajuda. Todos nós, muitas vezes, enxergamos o outro, mas encontramos uma desculpa para não nos incomodar e continuamos indif erentes. Outras vezes, por várias razões, deixamo-nos envolver. Pode ser por boa vontade, por solidariedade humana, pela propaganda de um desastre, pela empolgação com o exemplo de outros, ou, simplesmente, para aquietar a nossa consciência. Ajudar é sempre bom, melhor que ficar indiferentes, mas pensamos ainda na vida eterna ou já nos esquecemos dela? Perdemos o horizonte final do nosso amor? Assim, gestos de solidariedade convivem, em nós, com um coração amargo, violências, mentiras e corrupção. Fazemos atos de caridade, mas construímos uma sociedade injusta e excludente. Acreditar na vida eterna que Jesus prometeu é mais que juntar gestos de bondade, significa mudar de vez o nosso coração, humanizar as relações entre nós.

Cada gesto sincero de bondade deveria ser um exercício para aprendermos a amar sempre; um compromisso para construirmos uma convivência humana, alicerçada na fraternidade universal. Quando ajudamos alguém ou lutamos por uma causa justa estamos colaborando com o bem no mundo, mas todo gesto tem um antes e um depois, ou seja, precisamos nos educar para a compaixão e não esperar uma catástrofe para nos comover. Precisamos nos organizar para que violências e injustiças sejam superadas nas suas raízes e não somente nas consequências sociais que nos incomodam.

Acreditar na vida eterna não significa diminuir a grandeza dos gestos concretos e deixar de dar respostas imediatas às necessidades das pessoas, mas acreditar que é muito mais o que devemos mudar. Estamos muito preocupados com o nosso bem-estar individual. O “bem comum” – de todos, a começar pelos mais pobres – nos interessa pouco ou nada. Até a “vida eterna” pode ser pensada como um prêmio exclusivamente individual. Porém se faltar alguém, sobretudo os “pecadores”, não será a vida plena que o Pai quer para todos os seus filhos No coração dele tem mais lugares do que o diabo pensa. Para estar lá, basta colocar a compaixão no lugar da indiferença. Muda tudo.


A grandeza do papado

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Encerrada a Revolução Francesa, sentou-se no trono da França um rei herdeiro dos princípios da revolução: Luis Filipe de Orléans. O presidente do Conselho de Ministros era o Sr. Thiers, grande escritor e extraordinário articulador político. Um dia, estando em Roma, quis visitar o papa. O Santo Padre aceitou recebê-lo, mas Thiers colocou uma condição: não ia de jeito nenhum ajoelhar-se diante dele e nem beijar-lhe a mão, como era costume em sinal de reverência. Quando papa Gregório XVI ficou ciente da exigência simplesmente sorriu, nada mais. Chegada a hora, o famoso presidente entrou nos aposentos pontifícios e o papa lhe estendeu a mão para cumprimenta-lo. Ao ver aquela figura branca, tão simples e solene ao mesmo tempo, Thiers experimentou um sentimento indefinível. Vacilou um instante, caiu de joelho e beijou o pé do Santo Padre. O papa perguntou-lhe cheio de bondade: “Tropeçou em alguma coisa, Sr. Presidente?”. E Thiers, comovido, respondeu: “Santidade, tropecei na grandeza do Papado!”.

Mais uma anedota de tempos passados, que hoje nos faz sorrir. No entanto, celebrando a Solenidade de São Pedro e São Paulo a cada ano, como católicos, somos convidados a refletir e a rezar para a missão do Santo Padre, o papa, que hoje se chama Francisco. Não é para desmerecer a “grandeza do papado”, mas para entender, cada vez melhor, a tarefa daquele que, temporariamente, exerce essa autoridade. Se em outros tempos a exterioridade podia chamar atenção e até atemorizar, hoje seria impensável e escandaloso que o papa quisesse competir com os poderosos deste mundo. De fato, se podemos chamar de “poder” a autoridade do Santo Padre, ela é somente “espiritual” ou moral, como alguns dizem.

Antes do Concílio, os membros da então Ação Católica, em vários lugares do mundo, ainda cantavam que “o altar” tinha “um exército” cujo comandante supremo, sobre esta terra, era o papa. Após o Concílio Vaticano II, falamos de Povo de Deus e até quando administro o sacramento da Crisma, evito dizer que, com o dom do Espírito Santo, tornamo-nos “soldados de Cristo”. Essa comparação serve para entender a luta contra o mal, o pecado, as tentações e a ignorância, aproveitando também de palavras semelhantes usadas por São Paulo quando fala, por exemplo, de espada (do Espírito) ou de couraça (da Justiça) (Ef 6,10-17). No bom sentido, essa “guerra santa” nunca vai acabar, porque os “inimigos” a combater somos nós mesmos, quando deixamos de fazer o bem, para vencer o mal. Já entendemos que a única arma digna do cristão é o amor misericordioso que atrai, cativa, conquista e transforma o coração das pessoas. Por isso, hoje, ficam para papa Francisco as “armas” da palavra e do exemplo.

Papa Francisco fala bastante. Fala livremente todo dia celebrando a Missa na Igreja Santa. Marta e se preocupa com a vida real das pessoas, os seus sofrimentos e provações. Todo dia, convida à solidariedade, à paz, à superação da indiferença. Ele sabe que antes das verdades, dos dogmas, da fé e das normas necessárias vem a vivência do evangelho. Muitas vezes, o que ele diz e denuncia incomoda. O mesmo vale para o exemplo dele de humildade e paternidade, quando abraça crianças, doentes, pessoas com deficiências? Já acolheu migrantes e refugiados no Vaticano. Já mandou construir chuveiros para moradores de rua… Já encontrou e fez se encontrar muçulmanos e hebreus, movimentos populares e poderosos, economistas, cientistas, ecologistas. Já visitou hospitais, comunidades de recuperação para dependentes químicos, periferias, sem avisar, sem alarde, como irmão antes que como Papa. Já ouviu vozes opostas e já deu voz a muitos gritos abafados há muito tempo. O seu exemplo também incomoda. Papa Francisco quer uma Igreja em busca, misericordiosa e acolhedora. Deve ser uma Igreja “enlameada” porque missionária; capaz de curar as feridas, mais do que causá-las, porque é um “hospital de campo”. Nós todos estamos “tropeçando” na grandeza da “humanidade” de Francisco.


O livro da vida

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Certa vez, um homem conseguiu permissão para entrar numa grande gruta, onde estavam guardados os livros da vida de cada um com seu passado e futuro. Ele poderia ficar lá por alguns minutos, durante os quais era possível modificar o rumo do seu próprio destino e o de quantas pessoas desse conta no prazo marcado. Decidido, ele achou que primeiro devia aproveitar para se vingar dos seus desafetos. Foi direto no livro da vida do seu maior inimigo e corrigiu muitas coisas, juntando desgraças, doenças e pobreza. O mesmo fez com outros. Riscava o que tinha de bom e escrevia misérias e desventuras. Ele fazia tudo muito rápido, mas o tempo corria também e já estava para terminar. Quando, finalmente, resolveu pegar o livro da vida dele para anotar fortunas, saúde e bem-estar, o encarregado tocou no ombro dele e lhe disse:
– Amigo, o tempo acabou.

– Ainda hoje – o infeliz lamenta – tive o livro da minha vida nas mãos, mas, fiquei tão ocupado em fazer o mal aos meus inimigos, que perdi a chance de fazer o bem para mim mesmo.

Continuando a leitura dominical do evangelho de Lucas, encontramos uma página que nos apresenta duas atitudes opostas: de um lado, temos a “firme decisão” de Jesus de ir a Jerusalém e, do outro, as desculpas de alguns discípulos que, apesar das declarações clamorosas, pedem tempo para decidir mesmo se acompanham, ou não, Jesus na sua missão. Entre as escolhas difíceis aparece, também, aquela de um povoado de samaritanos que resolve não acolher Jesus porque, indo para Jerusalém, provava que pertencia a outro grupo religioso. Não é difícil entrever atrás desses casos a situação dos cristãos daquele tempo e, também, a nossa. A acolhida de Jesus e da sua mensagem, não pode ser algo de forçado e, menos ainda, o resultado do medo de algum possível castigo. Jesus repreende Tiago e João que queriam jogar pragas contra aquele povoado. A liberdade de escolha e as diferenças religiosas, nesse caso, devem ser respeitadas. No entanto precisa entender que qualquer decisão tomada terá consequências e que também quando, aparentemente, não decidimos nada ou deixamos tudo para depois, de fato, estamos escolhendo: sempre algo irá acontecer. Porque para ninguém a vida é um passeio inútil ou um enganar o tempo que passa. Ou decidimos o rumo da nossa existência ou, talvez, lamentaremos, depois, as ocasiões perdidas sem poder voltar atrás. Uma dessas decisões é, sem dúvida, a fé: ser cristãos para valer ou fazer de conta. É um tema extremamente atual num tempo de tantas propostas religiosas, algumas mais prometedoras – ou enganadoras – que outras.

Jesus caminha rumo a Jerusalém. Entende que lá acontecerá o grande confronto entre a sua mensagem e o conjunto daqueles poderes religiosos e políticos que não admitem novidades, sobretudo, quando estas têm a pretensão de vir de Deus. Também os doutores da Lei, os fariseus, os sacerdotes do Templo e os anciãos do Sinédrio estavam convencidos de falar em nome do seu Deus. Nem por isso Jesus desiste. Ele tem coragem, vai em frente, ainda que já vislumbre a sombra da cruz. Bem diferentes são os três candidatos ao seguimento. Aparecem aqui os maiores medos para tomar uma decisão séria: o conforto dos bens que poderá ser perdido, a incerteza sobre o sucesso da missão, a separação do ambiente familiar tranquilo e seguro. Quem declara que quer seguir a Jesus, mas não sabe renunciar a nada é como quem parece ir para frente, mas continua olhando para trás. Não é possível seguir o Mestre que será crucificado sem passar pelo desconforto do abandono, da pobreza, da insegurança. Todas coisas, porém, que afinal não dão segurança alguma, porque são tão frágeis como a própria vida que passa. Somente no Pai de Jesus é possível encontrar força, coragem e a certeza do amor. Ele sabia que não estava sozinho.

Na vida não existe “destino”, como se alguém – quem? Deus? – já estivesse tudo planejado e nós fôssemos vítimas inocentes dessas decisões. Na vida existem oportunidades e escolhas que dependem de nós. O bem e o mal, amizades e inimizades, fé, esperança e amor se constroem. Melhor não perder tempo.