A bússola

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Durante uma guerra, um pelotão de soldados estava atravessando o deserto. De repente o guia local aproximou-se do sargento e, muito triste e constrangido, disse: – Estamos perdidos. Naquela tempestade de areia de ontem eu perdi o rumo. O sargento relatou a situação ao capitão que, porém, não ficou muito perturbado com a notícia. Ele mesmo, experimentado nas travessias, foi falar com o guia, lhe entregou uma pequena bolsa de dinheiro e lhe disse:- Já que perdeu o rumo, vê se consegue orientar-se por esta bússola. O guia, abriu a bolsinha, examinou atentamente o conteúdo e respondeu: – Sim, senhor, acredito que com esta bússola dá para reencon trar o caminho. Retomaram a marcha e chegaram ao destino sem mais dificuldades. Quando, porém, o sargento estava para dispensar a tropa e o guia, o capitão chegou e perguntou ao homem: – A bússola que eu lhe entreguei serviu bem? – Sim senhor, perfeitamente. – Está bem – retomou o capitão – fique sabendo que ela serviu também para mim. Esqueceu que estamos em guerra? Precisamos de colaboradores leais e fieis. Você foi um traidor, mentiroso e oportunista! Está preso! Será julgado e condenado pelas nossas leis!

Com o 22º Domingo do Tempo Comum, retomamos a leitura do evangelho de Marcos. Começam os questionamentos, as incompreensões e as críticas. O evangelista quer nos conduzir a responder à pergunta chave: quem é Jesus para poder confiar nele? Cada cristão deve dar a sua resposta firme e corajosa. De outra forma, fica na dúvida, ou seja, ainda não alcançou a fé. No evangelho deste domingo, no meio de um emaranhado sem fim de normas e preceitos, todos amparados sob o guarda-chuva da Lei de Moisés, a questão é: Jesus é obediente ou desobediente? Os fariseus e os mestres da lei ficavam reparando se Jesus e os seus discípulo s lavavam as mãos antes de comer. Já que não o faziam, os questionaram em nome das tradições dos antigos. A resposta de Jesus foi contundente e desmascarou a hipocrisia de quem se preocupava demais com as práticas exteriores e deixava de limpar o interior do coração.

Com efeito, Deus nos deu poucos mandamentos e, com Jesus, podemos dizer, um só: o mandamento de amar a Deus e ao próximo. Todas as outras “normas” têm sentido e valor se nos ajudam a viver o “grande” mandamento do amor. Pode acontecer que, muito preocupados com gestos e atitudes exteriores, acabemos esquecendo o principal e fiquemos dando mais valor às aparências que àquilo que percebemos e guardamos em nosso coração. Jesus não poupou críticas ao cumprimento formal de obrigações e preceitos. A distinção não é mais entre o “puro” e o “impuro”, mas o que é feito com amo r, que multiplica e espalha o amor, e aquilo que fecha o coração, exclui e despreza o irmão pobre e pequeno. Se temos dúvidas sobre o nosso agir, podemos retomar os versículos 21 e 22 do evangelho deste domingo e fazer um sério exame de consciência.

Mas, para fazer isso, precisamos, talvez, reaprender a entrar em nós mesmos, a ser sinceros, a esquecer o que os outros pensam de nós, como é a nossa imagem social, dentro e fora das “redes”, e reconhecer quem somos e o que fazemos de verdade. Aparentemente vivemos numa sociedade de pessoas “honestíssimas” porque nunca ninguém admite ter feito coisas erradas, ter roubado ou desviado o dinheiro dos outros. Vivemos de enganos, declarações e juras de pureza e santidade. É um mau sinal para a nossa sociedade e para as novas gerações que tenhamos jogado fora o bom costume de escutar a voz da nossa consciência. Assim mentimos aos outros e a nós mesmos. Se a “bússola” que norteia a nossa vida é o dinheiro, é fácil perder o rumo da vida e reencontrá-lo conforme os nossos interesses. Para nós cristãos a verdadeira “bússola” da vida só pode ser a nossa consciência, iluminada pela Palavra de Deus, pelos bons exemplos, pela bondade e a gratidão. A sós com Deus, no silêncio da oração, no templo sagrado do nosso coração, o rumo certo da vida vai se abrir à nossa frente.


OK! As palavras mágicas

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Quatro irmãos estavam atravessando a floresta de um país longínquo. Três tinham estudados magia, alquimia e cabala. O quarto, o mais moço, não sabia de nada. No caminho encontraram a ossada de um leão. O irmão mais velho disse:

– Eu conheço palavras que podem colocar de pé esta ossada. Dito, feito: pronunciou as palavras mágicas, os ossos se juntaram e o esqueleto ficou de pé. O segundo irmão disse:
– Eu conheço palavras que podem juntar a carne a esses ossos. Logo disse a fórmula mágica e ao redor dos ossos se formaram os nervos, os músculos, todos os órgãos, o sangue e o couro. O terceiro irmão mais velho também queria dar prova dos poderes mágicos das suas palavras e disse:

– Eu posso dar vida a este animal! O irmão mais novo, porém, implorou para que não fizesse aquilo; deviam ter prudência porque o leão podia devorar os quatro.

– Não se preocupe – responderam juntos os três irmãos mais velhos – você não sabe de nada, nós conhecemos outras palavras que farão voltar ao pó esse leão. No entanto, o irmão mais novo achou por bem amarrar o leão em quanto ainda estava inanimado. Quando o irmão pronunciou as palavras mágicas, o leão, agora vivo, rugiu e quis se jogar contra os quatro. Os três irmãos mágicos ficaram tão apavorados que, de repente, esqueceram as palavras necessárias para deter o leão. Ainda bem que o irmão mais novo, que não sabia nada de magia, tinha arco e flechas. Matou o leão e salvou a todos.

Uma historinha de palavras mágicas e imprudentes, para chamar a nossa atenção sobre as palavras de Jesus que Pedro reconhece, no evangelho deste domingo, ser “palavras de vida eterna” (Jo 6,69). Assim se conclui o capítulo 6 do evangelho de João, que nos acompanhou nesses últimos domingos. Jesus falou muito sobre ele mesmo como “o pão vivo descido do céu”, um “pão”, porém, que é a carne, ou seja, a sua própria vida, “dada para a vida do mundo (Jo 6,51). Essa passagem da “carne e sangue” dele para o pão e o vinho, sinais escolhidos por Jesus para a Eucaristia, nunca será fácil. Quando fazemos memória das palavras dele na última ceia não estamos repetindo um evento que aconteceu uma vez por todas no Calvário, estamos participando, ativamente, também se através dos sinais sacramentais, daquele momento único e irrepetível.

Nós, cristãos, acreditamos que o pão e o vinho, no altar, se tornam o Corpo e o Sangue de Jesus, corpo doado e sangue derramado para a salvação da humanidade e de toda a criação. O padre não é um mágico. É o Espírito Santo, invocado pela Igreja, comunidade convocada e reunida pela fé, que faz acontecer, no altar, o “mistério da nossa fé”. Somos assim resgatados do pecado e da morte. Na Eucaristia, alimentamo-nos com o Corpo e o Sangue de Jesus para aprend er sempre de novo com ele a doar também a nossa vida. Para nós, somente o amor de Jesus, a sua vida e as suas palavras, poderão mudar a história da humanidade, por crucificado, desprezado, abandonado que ele continue sendo ainda hoje.

Para todos, custa confiar nas suas palavras exigentes. Sempre podemos encontrar desculpas para dizer que são palavras “duras” e, por isso, acima das nossas forças. Muitos desistem de acreditar, trocam a proposta de Jesus por projetos humanos, algo que parece mais fácil, cômodo e realista. Apesar de todas as diversidades e opções também entre nós, é nesta escolha que se distinguem os cristãos dos demais: confiar nas palavras de Jesus e por elas orientar toda a nossa vida, as decisões, os projetos, as esperanças. “A quem iremos, Senhor?” diz Pedro (Jo 6,68). É um grito por socorro, para ter coragem e perseverança. Sempre irão aparecer convites para seguir crenças e discursos mais vantajosos, seguros e a curto prazo. Nada de vida eterna. Jesus nos deixa livres. Podemos ir embora, esquecer o nosso batismo e as nossas promessas. Para continuar firmes e reconhecer em Jesus “o santo de Deus”, não servem fórmulas mágicas. Bastam as armas de sempre: a Palavra de Deus e a Eucaristia. Mais a participação, a comunhão, a misericórdia, a partilha e a generosidade. São eles o nosso arco e as nossas flechas.


A curiosidade

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Um rei estava convencido de que a curiosidade era uma das maiores virtudes da inteligência humana e a ela se deviam inúmeras descobertas, científicas e não. Pensou que o primeiro ministro do seu reino devia ser uma pessoa sumamente curiosa. Chamou os pretendentes ao cargo; entregou a todos uma moeda de ouro e lhes disse:

– Aquele de vocês que provar, utilizando-se unicamente da moeda de ouro por mim entregue, ser o mais curioso de todos, será nomeado Primeiro Ministro.

Um dos pretendentes começou a olhar a moeda com uma lente no verso e no reverso. Outro a comparou com outras que tinha consigo. Outro batia nela com um pesado martelo. Todos viravam e reviram a tal de moeda, sem parar, em busca de algum segredo. O rei, porém, reparou que um deles estava bem tranquilo, num canto, observando, muito atento, o acontecer da disputa. Foi ter com ele e perguntou-lhe porque estava tão parado. Respondeu-lhe o homem:

– Prezado rei, estou desistindo da minha pretensão de ser primeiro ministro.

– E por quê? – insistiu o rei.

– Não posso examinar com a devida atenção a moeda, porque estou empenhadíssimo em saber como vai acabar esta história.

– Bravo! – gritou o rei – Você é o mais curioso de todos. Será o meu Primeiro Ministro!

Temos que admitir que a curiosidade continua sendo uma das maiores motivações da busca humana. Quando é “boa”, nos faz pesquisar, experimentar, testar e criar. Ao contrário, a curiosidade “má” nos torna espiões da vida alheia, fofoqueiros e, muitas vezes, nos descuidamos do que é nosso para nos preocupar com o que é dos outros. O que tem a ver a “curiosidade” humana com a Solenidade da Assunção de Maria ao céu que, nós, católicos celebramos neste domingo? Nós acreditamos que Maria foi a mãe humana de Jesus. Assim, tendo participado de uma maneira única do mistério da encarnação do Filho de Deus, acreditamos que também participe desde já, de corpo e alma, terminado o curso de sua vida, da glória da ressurreição. Como será esta vida? Como será o estar com Deus? Tudo isso não suscita em nós nem um pingo de curiosidade? Nesse caso a nossa “curiosidade” vai junto com a nossa esperança, ou seja, com o valor que damos à vida futura em Deus, após ter concluído, por nossa vez, o tempo limitado desta vida terrena.

A Festa da Assunção de Nossa Senhora abre para nós, por assim dizer, uma janela sobre o que acreditamos e podemos entender, de longe, da vida verdadeira, a vida eterna, ou plena, prometida por Jesus a quem acreditar nele. Ainda não podemos ter experiência desta vida, está fora do alcance dos nossos sentidos e, também, da nossa inteligência. No entanto, se damos ouvido aos mais profundos e puros sentimentos do nosso coração, não é difícil desejar algo que seja a superação de todos os nossos defeitos e limitações. Deveríamos sonhar com a paz e não mais com as brigas. Deveríamos imaginar uma grande fraternidade, sem mais discriminações, separações ou privilégios. Basta de lugares reservados com mordomias e distinções. Se esta vida foi para nós difícil e sofrida, como não desejar algo mais do que a saúde do corpo? Por que não almejar um bem-estar para todos e todas, uma grande alegria, sem mais lagrimas, invejas, ciúmes e rancores? Como cristãos, deveríamos nos preocupar muito se tudo aquilo que acabo de lembrar não suscita mais algum desejo para nós. Não quer dizer que as coisas deste mundo e as suas riquezas não tenham nenhum valor. Têm, e muito grande, mas os bens passageiros não deveriam ser confundidos com os bens eternos. Estamos trocando o Deus infinito por pessoas e coisas, frutos das nossas mãos. Adoramos e desejamos poder, riqueza e sucesso; são os ídolos mundanos, como os chama Papa Francisco. A fé nos faz acreditar e confiar em Alguém muito maior que os bens materiais e a esperança deve tornar incansável a nossa busca. No final, porém, será o amor a preencher definitivamente a eternidade. Um amor sem fim, acima de tudo e de quanto conseguimos imaginar; o prêmio será o próprio Deus. Então, será que nem mais a busca do amor motiva a nossa “curiosidade”?


Os fofoqueiros

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Junto aos fofoqueiros, qualquer homem é destinado ao pior de qualquer coisa que faça. Se é pobre, ele é um mau administrador. Se é rico, é porque roubou ou teve sorte. Se está na política, o faz só por interesse. Se está fora disso, é porque não tem coragem de assumir qualquer cargo. Se não faz caridade, é avarento; se é generoso, o faz para aparecer. Se participa da Igreja, é só fachada. Se não es tá em nenhum grupo religioso, não tem moral, não teme a Deus. Se manifesta comoção, é um molenga. Se modera os seus sentimentos, não tem sangue nas veias. Se morre jovem, tinha um grande futuro pela frente. Se chega à velhice, errou muita coisa, devia ter feito diferente. E assim por adiante. Fofocar sobre a vida alheia sempre será a atividade mais popular em qualquer lugar do mundo. Ninguém escapa. Não podia ser diferente com Jesus; mais ainda quando ele falava e agia de maneira tão nova e surpreendente. Dizia, nada menos, que tinha descido do céu!

A página do evangelho deste domingo é mais um trecho do capítulo 6 de João e se inicia com as murmurações do povo a respeito da origem familiar de Jesus. Essa dúvida é legítima; quem nos garante que ele disse, e continua dizendo, a verdade? Será mesmo o Filho de Deus Pai? Ou será o filho natural de Maria e José? Foi mesmo o Divino Pai Eterno que o enviou entre nós? Essas dúvidas nunca poderão ser resolvidas com explicações simplesmente humanas e racionais. Com efeito, se estivéssemos falando de coisas ao alcance dos nossos métodos de indagação e pesquisa, antes ou depois, daríamos conta das respostas. Mas estamos refletindo sobre uma outra realidade completamente diferente. Precisamos admitir que, quando buscamos compreender as coisas de Deus, os métodos e os critérios não poderão ser somente aqueles da nossa inteligência e das nossas ciências. O que nós sabemos mesmo de Deus? Quando pretendemos falar dele, balbuciamos como crianças que imaginam o que nunca viram e experimentaram.

Quem sabe bem de Deus é o próprio Deus. Não serão verdades contra a nossa inteligência. Deus não quer nos fazer de bobos incapazes de compreendê-las, mas serão tão grandes que, simplesmente, estarão sempre além das nossas capacidades. Nós cristãos acreditamos que Deus não quis ficar longe de nós e nem ficar escondido. Jesus diz que ele mesmo, Deus Pai, deve ser escutado, porque será ele a ensinar aos disc&i acute;pulos como e em quem acreditar (Jo 6,44-45). Somente pela luz da fé, nós podemos enxergar um pouco das maravilhas de Deus. Para o evangelista João, a missão do Filho foi, justamente, a de revelar o Pai (Jo 1,18). Nós, criaturas, podemos conhecer algo de Deus somente se nos deixarmos conduzir por ele mesmo. “Quando se completou o tempo previsto” (Gl 4,4), Deus Pai não quis mais se servir de “mediadores”. Eles falavam daquilo que não tinham visto. Agora, “só aquele que vem junto de Deus viu o Pai” e pode falar dele e por ele. Pode explicar, tornar visível como Deus é, o que pensa e quer de nós, seus filhos. Esta é a insuperável novidade da fé cristã e, ao mesmo tempo, a nossa dificuldade. Por isso, a fé sempre será um dom do próprio Deus. Um dom que podemos pedir e agradecer muito se dermos conta de acolhê -lo.

Para o evangelista João, porém, tem mais ainda para ser entendido e acolhido. O que tem a ver a “revelação” do Pai por parte do Filho presente na carne humana de Jesus com comida, pão que desce do céu, pão da vida, promessa de uma vida plena, além das limitações da natureza e do tempo que passa? O que Jesus veio manifestar não foram e nunca serão somente “verdades” ou “doutrinas”. Algo s&oac ute; para a nossa inteligência. Elas servem para explicar um pouco a indizível grandeza de Deus. É o alimento, que o próprio Jesus nos dá, que é ele, feito pão, carne, vida, doada na cruz, que nos permite entrar na comunhão plena com Deus e nos faz participar do seu amor infinito. A Eucaristia é o penhor de Vida Eterna que Jesus nos deixou, laço tão vital e amoroso que nem a morte poderá romper. A fé nos faz confiar em Deus e o silêncio nos conduz à contemplação. As palavras humanas nunca explicam tudo. O melhor não precisa de palavras. Palavras a mais podem ser murmuração ou…fofocas inúteis.


A ponta do rabo preta

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Um cachorro, branco com a ponta do rabo preta, estava morto à margem da estrada. Alguns moleques o olhavam com os olhos marejados de lágrimas. Um homem parou e disse: – Deve ter sido um bom cão de caça. – Quem? Spot? Não! Ele não era nada de especial. – Era um cão de guarda? – Não. Respondeu outro. – Era um bom corredor? – Não…- Mas, se não era nada de extraordinário, porque tinha tantos amigos? O rapaz olhou para o cachorro com tristeza e disse: – Está vendo o rabo dele? Spot, mexia o rabo quando nos encontrava na rua. Talvez não fosse o melhor cachorro que se poderia desejar, mas era bom e nós brincávamos felizes com ele!

Desculpem o caso bem banal de crianças, mas é justamente sobre isto que devemos refletir: mudar os critérios com os quais avaliamos situações e pessoas. Também não quero faltar de respeito ao assunto tão precioso do evangelho deste domingo. Passar do “alimento que se perde” àquele que “permanece para a vida eterna e que o Filho do homem vos dará” (Jo 6,27) não é nada fácil. Devemos treinar muito. Ou seja, precisamos aprender a arte dificílima de olhar mais no interior dos fatos e das pessoas que ficar simplesmente nas aparências exteriores, naquilo que nos satisfaz imediatamente. O povo que seguia a Jesus queria fazê-lo rei, por causa da fartura do alimento. Tinham esquecido que tudo era “sinal” de algo mais. Sinal da bondade de Deus e do seu projeto de uma nova criação, de uma nova e mais feliz humanidade.

Os bens materiais, desde a comida até o necessário para uma existência digna para todos, são importantes, já dissemos. Mas não conseguem preencher totalmente a vida e o coração humano. Nós fomos feitos para algo maior e que vai além da materialidade das coisas. No mínimo, precisamos de afetos, de atenção e carinho. Tudo isso se chama de relacionamentos amorosos, de amizade e confiança. Qualquer ser humano que não tenha o coração endurecido pela ganancia, a violência ou o poder, em qualquer lugar do mundo e em qualquer situação, sabe que isto é verdade. No entanto, onde e com quem podemos aprender a amar e a fazer o bem sempre? No meio de tanto mal, de tanta desumanização, não faltam, está claro, bons exemplos, que nos vêm, às vezes, de onde menos esperamos.

Todos conseguimos ser bons vez por outra. A questão é fazer de tudo isto o sentido da nossa vida, o segredo mais profundo que motiva qualquer gesto de bondade e faz de nós pessoas boas sempre, que acreditam e promovem o bem. Nós cristãos ensinamos que, sozinhos, não damos conta de conseguir fazer isto, mas não é porque não acreditamos nas possibilidades do ser humano de mudar. Se buscamos a ajuda do próprio Deus, que é amor, é porque queremos mudar de verdade, e não só algumas vezes. Somente ele pode refazer o nosso coração, a nossa maneira de pensar, os valores que motivam a nossa vida.

É por isso que a “obra” que Jesus pede de fazer para mudar a nossa vida é antes de tudo aquela de “crer” nele, o “verdadeiro pão do céu”. Isto significa acolher e arriscar sobre a sua pessoa. Quem se “alimenta” de amor, aprende a amar. Quem acompanha Jesus e se deixa transformar por ele, aprende e treina gestos e palavras de vida e de esperança. Por sua vez se torna um comunicador de consolação e fraternidade. Não precisamos de ações clamorosas. Quando temos um coração bom – habitado pelo Espírito de Amor, o Espírito Santo – tudo muda. Aprendemos a ter compaixão, a ver a bondade dos outros, a ser felizes e esperançosos até nas contrariedades da vida. Temos fome e sede de amor. Pagamos caro por isso, empolgados com as novidades e a badalação da propaganda. Perdemos tanto tempo porque os procuramos onde, ou com quem, nunca irá nos saciar plenamente. Não acreditamos e desistimos da gratuidade do amor infinito do Pai, do Filho e do Espírito que “habita em nós”, se o deixamos (Rom 8,9).

É difícil aprender, mas basta pouco para ser felizes e fazer felizes os outros. As lagrimas de moleques por um cachorro morto, nos lembram disso: – Era bom e nós brincávamos felizes com ele. Nada mais. Porque era bom.


Aprendendo com as mulheres

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O exército de Alexandre, o Grande, preparava-se para tomar uma cidade da África, mas as portas se abriram, sem resistência. A população era quase toda feminina, já que os homens haviam morrido nos combates contra o conquistador. No banquete da vitória, Alexandre pediu que lhe trouxessem pão. Uma das mulheres trouxe uma bandeja de ouro, coberta de pedras preciosas, com um pedacinho de pão ao centro.

– Não posso comer pedras preciosas e ouro; o que pedi foi pão! – bradou o soberano. E a mulher respondeu:

– Alexandre, não tem pão em seu reino? Precisava vir buscá-lo tão longe?

Alexandre continuou suas conquistas, mas, antes de partir dali, mandou gravar numa pedra: “Eu, Alexandre, vim até a África para aprender com estas mulheres”.

A partir deste domingo começamos a ler o capítulo 6 do Evangelho de João. Aparentemente, o assunto será sempre o mesmo: Jesus se apresenta como o Pão da Vida, descido do céu. No entanto, a cada trecho que iremos ler, daremos um passo para frente. Assim é o Evangelho de João; mais vamos nos adentrando nele, mais novos horizontes se abrem. O capítulo inicia com um “sinal”: cinco pães e dois peixes satisfazem a fome de, “aproximadamente”, cinco mil homens. Não adianta imaginar de qual misterioso forno vieram os pães e em qual mar celestial foi apanhado tanto peixe. O que vale para o evangelista &eacu te; que “todos ficaram satisfeitos” (6,12) e que foram recolhidos doze cestos com as sobras dos cinco pães, “deixadas pelos que haviam comido” (6,13). O recado do sinal, portanto, deve estar no pouco que se torna muito, na satisfação do povo e nas sobras juntadas para que “nada se perca”. O sucesso também não interessa a Jesus. Ele escolhe continuar a ser “o profeta”; não quer ser um rei aclamado por interesseiros de barriga cheia. Jesus se retira, sozinho, para o monte.

No cap. 4 do seu evangelho, durante o diálogo com a samaritana, João apresentou Jesus como a Água Viva. No cap. 6, um pouco mais a frente, Jesus será o Pão Vivo. Todas imagens simbólicas para nos ajudar a acreditar em Jesus. Ele não quer nos dar somente coisas materiais, pão ou bem-estar. Ele quer dar a si mesmo. Quer que, recebendo os seus dons, não esqueçamos o doador. Água e pão são bens necessários para a vida. Sem água e sem alimento, morremos. Tem, porém, grandes diferenças. A água já existe em nosso planeta, é gratuita e ninguém a fabrica. O pã o não. É fruto da terra, é dom de Deus. Mas também do trabalho humano. O pão não se faz sozinho. Desde a semeadura no campo até a massa levedada assada no forno, é o resultado de muitas colaborações. Esse envolvimento humano faz parte do sinal. Jesus será apresentado como o Filho, enviado do Pai, mas precisa ser reconhecido e acolhido pelas pessoas que o encontram. Quem acolhe Jesus fica “satisfeito”, como acontece após qualquer fadiga humana que produza mais vida, mais alegria, mais partilha e fraternidade. No pão repartido, dado e recebido, tem algo a mais do simples comer. Tem uma “sobra” de sentido no gesto de comer juntos “o fruto da terra e do trabalho humano” que somente pode vir da gratuidade do encontro, da amizade e do valor de sermos família-grupo-comunidade. Somos humanos. Nos alimentamos também com o sentido que damos ao no sso agir, trabalhar, servir e amar. Precisamos encher a nossa vida de sorrisos, abraços, cantos e danças. Se não fosse assim, seriamos como os animais de engorda, cada um vidrado no seu prato, brigando para defender o que é seu. Quantos de nós passam a vida assim. Incapazes de levantar o olhar acima dos seus interesses e privilégios. Barrigas e cofres cheios, mas vidas vazias de paz e de bondade. O que parece inútil, a sobra, o que não é mais só comida, é essencial. É a alegria de estarmos juntos que faz de qualquer refeição um banquete.

Poderosos e dominadores, como Alexandre Magno, poderão roubar pratos cheios de ouro e de riqueza, mas o pão da acolhida e da fraternidade sempre será pouco. Porque não se compra e nem se conquista com a força. Só é farto quando é doado livremente, oferecido e partilhado com generosidade. Vale demais para ser jogado fora.


O Papa é gordo

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Conta-se que o bom Papa João XXIII, hoje santo, era muito espontâneo e brincalhão. Certo dia, quando ele visitava uma paróquia da cidade de Roma, andando pelo meio do povo, escutou uma senhora dizer à outra:

– Nossa, como o Papa é gordo!

João XXIII ouviu, mas não ficou desapontado e nem envergonhado. Parou, pediu licença às senhoras, e disse:

– Minhas filhas, o Conclave (que é a reunião dos Cardeais para eleger um novo Papa) não é um concurso de beleza. E continuou o seu caminho sorrindo.

Uma simples anedota para dizer que a missão do Papa – e podemos dizer de todo cristão e cristã – não depende do conjunto das aparências exteriores. Bem sabemos que o Senhor olha o coração, ou seja, o amor das pessoas. De outra forma, não entenderíamos aqueles que são enviados e, também, quem acolhe ou rejeita os mensageiros.

No evangelho deste domingo, encontramos Jesus enviando os doze em missão. Os envia na pobreza e na simplicidade. Devem ir sem nada, no maior despojamento, e a mensagem é somente um convite à conversão. Deve ficar claro a todos que o que vale não são os missionários em si, mas a Boa Notícia que eles levam e querem comunicar.

O evangelho de Marcos nos relata bastantes palavras de Jesus, mas quando diz que ele “ensinava” não explica, nos detalhes, todo este ensinamento. Já vimos que ele usava parábolas e essa maneira de falar convidava os ouvintes a enxergar o Reino, além das situações apresentadas. Isso valia, também, com as devidas diferenças, para os que chamamos de gestos e milagres. Expulsar os demônios, curar os doentes e ungir com óleo, foram alguns dos sinais do novo que estava chegando e foram interpretados de maneiras diferentes. Ainda hoje, muitos são tocados por um discurso, um gesto ou uma cura de Jesus, mas ficam presos por aí. Acabam discutindo à exaustão sobre cada questão. Isso fizeram, também, os adversários dele, que se pegaram a alguma palavra e o condenaram. No fundo, aqueles e aquelas que encontravam Jesus deviam decidir se acolhiam ou não a pessoa dele, toda inteira, e não somente alguma parte que podia confirmar as suas ideias ou os seus interesses. Os Evangelhos não são o relato das façanhas do Mestre, mas um convite a acreditar nele e a segui-lo no mesmo caminho difícil da cruz que leva à vitória sobre o mal, o pecado e a morte. É ele o Caminho que conduz à Verdade e à Vida.

Luxo, organização, estruturas, dinheiro e mais coisas exteriores, que sempre tanto nos atraem e fascinam, tornam-se perigosas quando nos afastam da pessoa de Jesus. Quando elas substituem a fé e a confiança nele, acabam sendo um obstáculo à evangelização. Ao contrário, a pobreza dos enviados, em lugar de ser um empecilho ou uma desculpa para desistir da missão, torna-se um verdadeiro sinal: é somente a Boa Notícia que os move e motiva. Outro detalhe que deve chamar a nossa atenção é o fato dos missionários serem enviados “dois a dois”. As duplas são o início de uma comunidade que deve alimentar-se com a amizade e a fraternidade. No Evangelho de Mateus, dois é o número mínimo de discípulos para que o Pai acolha o pedido deles e Jesus esteja no meio (Mt 18,19-20). Por fim, é importante a permanência dos doze nas casas que os acolhem. A convivência, a generosidade e a partilha são parte da mensagem.

A primeira conversão para todos é aquela de querer entender, mais profundamente, o sentido da nossa vida. Isso exige tempo e a experiência de caminhar juntos. Se a questão fosse vender um produto, Jesus teria proposto algo mais atrativo que a simplicidade. A propaganda sempre quer nos convencer da conveniência do negócio e da pressa de decidir para não perder a oportunidade. Já sabemos tudo isso, no entanto sempre caímos no consumo e na descoberta seguinte que, desfeita a emba lagem, talvez não valia a pena comprar aquele objeto. A fé e a opção de seguir a Jesus envolve toda a nossa vida, dá sentido ao nosso amar, sofrer, servir, esperar. O testemunho do mensageiro não depende do tamanho ou da beleza dele ou dela. Depende somente da sua entrega amorosa à missão. Ao resto pensa o Espírito Santo.


O filho do sapateiro

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Quando Abraão Lincoln tomou posse como presidente dos Estados Unidos, foi um choque para a aristocracia americana. Um proletário assumir a liderança do país? O senador que coordenou seu juramento à pátria fez um comentário irônico: “Vamos ver se o filho de um sapateiro tem condições de dirigir um país”. Ao que Lincoln respondeu: “Que bom que o senhor lembrou de meu pai. Eu gostaria de ser um presidente tão bom quanto meu pai foi como um sapateiro. Aliás, estou vendo que o senhor está usando um par de sapatos que ele fabricou. Eu aprendi a consertar sapatos com meu pai e, se algum dia os seus apresentarem algum problema, me procure que eu os consertarei. Não importa o que esteja fazendo, sempre tenha orgulho e crie sempre algo de especial, porque é nos detalhes que você deixa a sua assinatura”.

Neste domingo, e nos próximos dois, voltamos a proclamar o evangelho de Marcos. Depois de algumas andanças por outras cidades da Galileia, Jesus retorna para a cidade de Nazaré, a sua terra. Por lá tinha parentes e conhecidos. No mundo pequeno do interior, a convivência e os laços familiares aproximam sem querer. Não tem como se esconder dos olhares dos vizinhos, dos amigos e inimigos. Ninguém escapa das conversas amenas e das fofocas maldosas. Hoje, chamamos isso de “controle social”. Ser ou fazer algo diferente significava, e em muitos lugares ainda significa, ser objeto de juízos e comparações. Podem ser elogios ou críticas impiedosas. Contudo, é muito difícil para todos não querer saber das últimas novidades da vida…dos outros.

Acompanhamos o evangelho e aprendemos que Jesus cumpria as obrigações de todo bom judeu e participava das reuniões religiosas na sinagoga. A diferença é que ele “ensinava” e, pelo jeito – sabemos disso por outras páginas dos evangelhos – o fazia com uma autoridade incomum. Os ouvintes reconhecem nele uma sabedoria maior que de outros pregadores. Por isso, se perguntam de onde lhe vinha tamanha sabedoria. Logo lembram das suas origens humildes, dos familiares e demais parentes. Podemos até pensar em inveja ou algo semelhante, por parte deles, mas o evangelista fala de “falta de fé”. Marcos quer nos preparar a reconhecer algo que acontecerá com os discípulos que Jesus enviará em missão. A questão é sempre aquela de confundir a mensagem com o mensageiro ou reparar a pessoa que fala e não o que ela diz. Se isso acontecia com Jesus, que além de ensinar, também fazia “grandes milagres realizados por suas mãos”, o que dizer dos pobres evangelizadores desprovidos de tudo? Esse será o assunto do evangelho do próximo domingo. Por enquanto, refletimos sobre a atualidade da questão: não é o saber em si que está em jogo, mas a sabedoria. O saber se adquire estudando nos livros, passando nas provas, alcançando diplomas e reconhecimentos oficiais. No entanto, isso não significa que os &ldqu o;doutores” passem pelas inevitáveis e reveladoras provas da vida: a convivência fraterna e, sobretudo, o amor humilde e solidário.

O trato gentil com as pessoas, a gratidão, a paciência e a generosidade, só para lembrar algumas virtudes das quais sentimos falta, muitas vezes, não se aprendem nos livros, mas nas nossas famílias, no trabalho honesto, no meio do povo simples e singelo. Talvez essas pequenas luzes de vida se encontrem mais nas crianças, nos jovens e idosos do que em adultos orgulhosos em busca do seu sucesso pessoal. As coisas não mudaram muito. Se uma pessoa famosa fala ou faz uma bobagem muitos ba tem palmas e se desdobram para interpretar a grandeza da mensagem ou do gesto dela. Todos os dias os pais, as mães, os avós ensinam mil coisas boas, verdadeiras e sensatas para os seus filhos, incluindo aqueles e aquelas que já se consideram donos do seu nariz, mas quem escuta mais? A missão de ensinar continua difícil e desafiadora, mas Jesus não desiste. Os profetas não podem calar, porque estão a serviço da Palavra que acolheram de Deus. Com Jesus é diferente: ele mesmo é a Palavra, a Boa Notícia. Nele, mensageiro e mensagem coincidem. Devem ser acolhidos juntos. Até a sua origem humilde é lição para nós!


As duas ilhas

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Certa vez, tinha duas pequenas ilhas, divididas somente por um pequeno canal de água no imenso Oceano.

– Eu sou a mais bonita – dizia uma.
– Eu sou muito maior – dizia a outra.
– Eu tenho a maior praia – afirmava uma.
– As minhas palmeiras são maiores – replicava a outra.
– Você já viu as frutas das minhas árvores? – continuava uma.
– Eu tenho os pássaros mais coloridos do mundo – respondia a outra. A briga durou anos e anos. Com o passar do tempo, as ondas do Oceano, com o seu movimento incessante, trouxeram areia para as duas ilhas que, assim, aumentaram cada vez mais um pouquinho. O canal que as dividia ficou bem pequeno e um belo dia desapareceu de vez. As duas ilhas não ficaram nem um pouco contentes, mas o vento, que movia as ondas disse:

– Antes vocês eram duas pequenas ilhas tristes e briguentas. Agora vocês são a mais bela Ilha do mundo!

Todo ano temos um domingo no qual celebramos a Solenidade de São Pedro e São Paulo apóstolos. É sempre a festa da Igreja firme e corajosa, capaz de abrir caminhos novos e de ir ao encontro da humanidade, que se renova a cada geração. Como é possível que a Igreja de Jesus Cristo, e dos Apóstolos que ele enviou, tenha atravessado todos esses séculos? Quantos homens e mulheres tão diferentes já passaram por ela. O que nos deve encantar é a capacidad e da Igreja de caminhar junto com a humanidade na sucessão das épocas. Nunca foi e nem será um caminho fácil. A Igreja é tanto pecadora como tudo o que é humano, mas, ao mesmo tempo, tem algo que a torna capaz de mudar, converter-se, reformar-se sempre. Nunca será perfeita, mas nunca deixará de cumprir a missão de evangelizar, também em tempos de silêncio, perseguições e martírios. Essa força, que está no íntimo de cada batizado, mas que também anima a organização visível da Igreja, nós acreditamos que seja o próprio Espírito Santo, último dom de Jesus aos seus amigos.

Outras explicações não resistem ao transcorrer do tempo. A Igreja é memória viva, com raízes profundas no passado, mas é também profecia do futuro, capaz de apontar os rumos para cheg ar ao mundo novo de alegria e paz, iniciado com a vitória de Jesus sobre a morte.

São Pedro e São Paulo são exemplos de vidas doadas, seguidores destemidos do único Mestre Jesus. Cada um com sua personalidade, suas fraquezas e virtudes. Sem dúvida Papa Francisco, hoje, nos ajuda a acreditar numa Igreja que sempre se renova. Papa João XXIII abriu “as janelas” para que entrasse ar novo; os Papas seguintes, um já santo e outro que o será daqui a alguns meses, fizeram a parte deles. No entanto, um pouco de Pedro e Paulo deve estar presente na vida de ca da batizado. Cabe a cada cristão reconhecer que é enviado e falar do “Deus desconhecido” lá onde vive e trabalha, luta e faz festa. Ao mesmo tempo, cada um deve saber que não está sozinho; temos laços de fé, de esperança, de amor-comunhão, tão profundos que superam qualquer distância ou obstáculo. As divisões, as disputas, também se para parecer melhores que os outros, não ajudam a Igreja na sua missão. Jesus rezou muito pela unidade dos seus. Hoje, Papa Francisco está nos repropondo um projeto antigo e sempre novo: aquele da “sinodalidade”, que significa simplesmente “caminhar juntos”.

Caminhar! Ninguém pode ficar parado. Mas “juntos”, na contramão dos individualismos e particularismos modernos. Os cristãos podem contribuir muito para unir a inteira humanidade. A unidade, tão almejad a entre as Igrejas ainda separadas, e entre os tantos projetos de sociedade, não se fará ao redor de ideias, mas com a superação da miséria e da fome de tantos povos, através da partilha dos bens e de um maior respeito pelo planeta, a nossa casa comum. Uma nova humanidade, de irmãos e amigos, desponta no horizonte. É evangelho vivo! Precisamos unir mais os esforços para o bem e não brigar para ser melhores de outros. Na comunhão, não importa ser a Igreja mais bonita. Seremos a única verdadeira Igreja que Jesus queria. Bela, “sem mancha e sem rugas” (Ef 5,27). Para a alegria e a esperança da humanidade toda.


A jabuticabeira

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Um senhor, já de idade avançada, estava cuidando de uma plantinha no jardim da sua casa. De repente chegou um dos seus vizinhos com o qual tinha familiaridade. Era um jovem de 20 anos. Aproximou-se dele e perguntou:

– Que planta é esta que o senhor está cultivando?

– É uma jabuticabeira – respondeu.

– E quanto tempo demora para dar frutos? – continuou o jovem.

– Mais ou menos quinze anos – respondeu o homem. Com um sorriso sarcástico no rosto, o jovem provocou:

– E você espera viver tanto tempo assim?

– Não, não espero viver tanto. Já estou perto do fim da minha vida.

– E então, por que está fazendo isso? Que vantagem você terá? – insistiu o jovem.

– Nenhuma. O que me deixa feliz é que as pessoas vão continuar a comer jabuticabas, assim como eu como, sem saber quem cuidou das plantas onde as colho.

Após ter respondido às duras acusações dos adversários, no evangelho de Marcos deste domingo, Jesus inicia a falar do “reino de Deus” e o faz com parábolas, ou seja, com casos, semelhanças e comparações. Lemos: “Jesus anunciava a Palavra usando muitas parábolas…conforme eles podiam compreender” (Mc 4,33) e logo em seguida o evangelho diz que “quando estava sozinho com os discípulos, expl icava tudo” (Mc 4,34). Dessa maneira, entendemos que é possível compreender o sentido da Palavra de Deus em si e, também, como isso acontece. Com efeito, a Palavra vai se clareando com certa gradualidade, aos poucos, dentro de nós, ao longo do caminho da fé.

Voltando ao assunto do “reino de Deus” explicado em parábolas. Ele é tão grande, bonito, surpreendente, dinâmico, que não cabe em nenhuma definição. O ‘reino” começa pequeno, como qualquer semente, mas é algo que cresce, envolve a natureza (plantas e pássaros), as pessoas (a colheita) e, assim, alimenta a todos! Como a semente, o “reino” tem uma força e um desenvolvimento própr ios: germina e cresce. “Primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga e, por fim, os grãos que enchem a espiga” (Mc 4,28). O agricultor não sabe como tudo isso acontece, é a terra que o faz por si mesma. Tudo é dom! Verdade, mas entram também a colaboração, a criatividade, a iniciativa e o esforço humano! Sempre rezamos nas Missas, no momento do Ofertório: “Bendito sejas Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos de vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano”. Terra e trabalho, são dois dos “Ts” do Papa Francisco; o terceiro T é o de “teto, a casa!” para que toda pessoa possa viver com liberdade e dignidade.

É justamente essa consciência de não ser donos, mas colaboradores de uma grande obra, o “reino de Deus”, que faz a diferença em tudo. Deus, através da natureza e a presença generosa do Espírito Santo, está sempre pronto a fazer a sua parte, no entanto ele quer a nossa colaboração na administração dos bens que nos entregou. Precisamos acreditar mais na bondade do projeto do “reino”. Q uando tiramos “Deus” do meio, o “projeto” fica somente nosso. Nos enchemos de orgulho, egoísmo, ganância e corrupção. Mas quando acolhemos o sentido maior do “reino de Deus” trabalhamos, suamos, sofremos, caímos e levantamos, mas pela justiça, a paz, a fraternidade, o bem de todos e não somente o nosso ou de alguns poucos privilegiados. Esse é o equívoco de sempre. Confundir o “reino de Deus” com o “nosso” poder e domínio. Também Jesus precisou explicar isso muitas vezes aos apóstolos, sobretudo quando, ainda, disputavam os primeiros lugares entre si.

Tudo isso Jesus ensinava em “parábolas”. Explicava sim, mas deixava também imaginar as consequências. Falava, mas deixava entender, com liberdade, para que cada um fizesse a sua parte conforme as suas possibilidades e capacidades. Algumas parábolas não têm final, outras conduzem a mais interrogações que a respostas já prontas. Às vezes o Senhor nos dá a graça de ver os frutos do nosso trabalho e de participar da colheita. Na maiori a das vezes, outros colherão e desfrutarão dele. O que vale é mesmo a felicidade de ter colaborado com o Projeto de Deus. Os frutos da Palavra são certos e sempre gostosos. Mas, claro, com os tempos de Deus