A medida do amor

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O mestre e os seus discípulos andavam caminhando tranquilamente em direção ao mosteiro. Um deles perguntou:

– Mestre, será que algum dia eu serei capaz de amar com tanta intensidade quanto o senhor ama? O mestre respondeu:

– O amor é a maior riqueza do mundo. Não existe nada comparável a ele. É ele que mantém o mundo girando, as pessoas se encontrando, a natura crescendo. Mas o discípulo insistiu:

– Como saberei se o meu amor é digno de tudo isso e se é grande o suficiente? – O mestre falou:

– Procura saber se tu vives intensamente as emoções, se te entregas ou foges delas. O amor não é grande nem pequeno, não te preocupes com isso. Ele simplesmente é o amor, natural, espontâneo. Não se pode medir um sentimento como se mede uma estrada. Não dá para segurá-lo ou prendê-lo em algum lugar. Ele deve permanecer livre. Se tentares medi-lo, estarás vendo apenas os seus reflexos, como a lua em um lago, ou o sol no mar. O amor deve simplesmente ser vivido.

A página do evangelho de Lucas deste 8º Domingo do Tempo Comum é um conjunto de palavras de Jesus recolhidas e guardadas pelos discípulos e depois transmitidas através da comunicação oral antes de serem escritas. Também não devemos esquecer as situações reais e a convivência entre os cristãos daquelas primeiras comunidades. As pequenas parábolas e as palavras de sabedoria que as ligam deviam servir para corrigir e animar os irmãos daquele tempo e os que viriam depois, ou seja, nós mesmos, discípulos de Jesus nos dias de hoje. Começamos pela imagem dos dois cegos, um querendo guiar o outro. Vão cair no buraco. Assim acontece com aqueles que querem corrigir os defeitos dos outros, com a pretensão de serem melhores, de enxergar mais longe, de ter alguma luz ou revelação particular. É sempre muito mais fácil critic ar os outros que admitir as nossas falhas. Jesus chama essas pessoas de hipócritas, falsas, porque querem melhorar os outros, mas não se empenham a corrigir a si mesmo. Na linguagem de Jesus, eles não se incomodam com a trave que têm no seu próprio olho, mas gritam de horror com o cisco no olho do irmão. As críticas, ou melhor, a correção fraterna funciona se nós também trabalhamos para aprimorar a nossa conduta de cristãos. Deveríamos disputar para ser os primeiros a nos converter e a mudar o que for necessário para seguir Jesus com mais compromisso e perseverança.

As outras duas pequenas parábolas são diferentes, mas nos conduzem à mesma conclusão. A árvore boa só pode produzir frutos bons. O homem bom, também, tem guardadas coisas boas no bom tesouro do seu coração. A árvore ruim, o espinheiro, só produz espinhos, nunca vai produzir uva doce e gostosa. Assim, o homem mau só tem maldade no coração. Ele nunca vai oferecer coisas boas, porque não tem de onde buscá-las. A última lição de Jesus é uma afirmação sobre o que sai da nossa boca. As nossas palavras seguem os nossos pensamentos: somente falamos daquilo que transborda do nosso coração, pelo bem ou pelo mal. Todos nós nos enchemos com muitas coisas e elas, com certeza, saem para fora. Tudo depende com que bagulho ou mercadoria alimentamos os nossos pensamentos e o nosso coração. Nada de espant oso. Basta reconhecer a superficialidade de tantas conversas e banalidades com as quais nos fartamos. Bobagens e fofocas ganham espaço. Sobra pouco tempo para a reflexão, a avaliação sincera e a busca de respostas às grandes e intrigantes perguntas da vida. O perigo é que não saia mais nada de importante e valioso do nosso coração. Estamos vazios de valores, de esperanças, de referências confiáveis. Usamos o nome de Jesus, mas não guardamos as suas palavras como um tesouro precioso. Não falo de citações da Bíblia que basta decorar! Falo daquilo que deveria trasbordar de um coração de carne e não de pedra: a compaixão, o perdão, a alegria de fazer o bem, palavras de vida e nunca de morte, como Jesus. Dele diziam que nunca ninguém tinha falado assim (Jo 7,46). Era a abundância de amor do seu coração que falava. Sem medida.


As rosas que não acabavam

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Três amigos, bem diferentes entre si, estavam reunidos na casa de um deles, tomando café, quando apareceu um Gênio, como um daqueles dos quais tinham ouvido falar nas fábulas infantis.

– Gênio, o que você nos traz? Perguntaram, agradecendo a oportunidade e esperando algo maravilhoso.

– Rosas. Respondeu o Gênio. Dito isso, entregou um buquê de rosas para cada um. O que fazer com aquilo? Cada um agiu do seu jeito. O ingrato foi o primeiro a sair, achou que não tinha sorte na vida mesmo e jogou as rosas no lixo. O conformado foi o segundo a sair, sem saber o que fazer, foi para casa e colocou as flores num jarro. O generoso, o dono da casa, ficou alegre. Saiu pelas ruas distribuindo as rosas aos vizinhos. Logo percebeu que mais ele as distribuía, mais rosas apareciam nas suas mãos. Elas não acabavam. Todos receberam alguma flor. Finalmente, voltou para casa com um buquê de rosas ainda maior. No dia seguinte, os amigos se reuniram de novo e o Gênio compareceu pela segunda vez. Perguntaram-lhe:

– E agora o que você deseja?

– Quero que as rosas se transformem em ouro! Respondeu o Gênio.

O homem generoso ficou feliz e mais alegre ainda, porque viu que não só ele havia ganhado o ouro, mas todos os moradores da vila aos quais tinha conseguido entregar as rosas. O conformado, só encontrou o seu jarro cheio de ouro. O ingrato, tentou lembrar onde tinha jogado o buquê das rosas, mas alguém o devia ter levado e, assim, ficou sem nada.

Neste domingo, continuamos a leitura do evangelho de Lucas. O ensinamento de Jesus nos parece tão distante da realidade e da nossa vida do dia a dia que, provavelmente, o achamos impossível de ser praticado. Somente os heróis, ou os santos, conseguem amar os inimigos. Não é justo deixar levar as nossas coisas. Apanhar duas vezes, oferecendo a outra face? Nem pensar. Apelamos ao bom senso e à legítima defesa. Não podemos ser “bonzinhos” com os ladrões e, menos ainda, deixar de defender a nossa vida, as nossas famílias e os nossos bens. Emprestar, dinheiro sem ter retorno? É burrice. – Vamos à justiça. É o que mais se escuta. Todos estamos prontos a ir até as últimas consequências para defender aqueles que consideramos os nossos sagrados e intocáveis direitos. Até aqui, não tem nada de novo. Toda a história da hum anidade, a nossa pessoal ou familiar estão resumidas nessas disputas. A que serve a “Boa Nova” de Jesus se a consideramos impraticável? Precisamos entender.

Podemos até aceitar que a linguagem do evangelista Lucas seja demais radical, mas por quê? Porque nós somos mestres dos ajustes de conduta e do mais ou menos. Também o nosso agir funciona na troca, na recompensa, ou seja, queremos ganhar também alguma coisa, ou, pior, no “troco” que nos sentimos obrigados a devolver, quando se trata de ofensas ou coisas semelhantes. É o gostinho da justiça-vingança. Ninguém pede o impossível, nem Jesus, mas isso não nos dispensa de mudar atitudes e maneira de pensar. Para entender a novidade de Jesus basta substituir as palavras “que recompensa tereis?” com as palavras “que gratidão esperais?”. A palavra grega usada por Lucas pode ser traduzida melhor dessa outra forma. Por isso, logo em seguida, o evangelista diz para emprestar “sem esperar coisa alguma em troca” e coloca o próprio Deus Altíssimo como modelo insuperável: ele “é bondoso também com os ingratos e os maus” porque é o Pai de todos, muito além das respostas dos beneficiados (Lc 6,35-36). Esta é também a nova tradução oficial da Bíblia dos Bispos do Brasil. Ou seja: a “recompensa” à qual temos direito e a alegria de esperar é só a “gratidão”. Em lugar da vingança do inimigo, do ódio do devedor e da indiferença de quem pouco ou nada amávamos: a surpreendente gratidão deles. Jesus nos coloca de vez num outro plano de relacionamentos. Quem consegue imaginar uma sociedade onde a lei, invocada como justiça e direito, deixa o lugar à misericórdia e à gratuidade? Comecemos ao menos a ver se funciona entre nós cristãos. Vamos doar “flores” de bondade e de solidariedade a quem encontramos pelos c aminhos da vida. As “rosas” do amor nunca acabarão.


A força do destino

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Certa vez, um comandante de exército estava prestes a travar uma batalha com outro exército muito mais numeroso do que o seu. Ele conhecia bem os seus homens, mas também sabia das dificuldades. Os soldados estavam desanimados e apavorados com a superioridade inimiga. O comandante convocou o exército e disse que iria meditar e rezar, antes de tomar uma decisão. Depois de algum tempo, quando todos estava na expectativa, o comandante falou assim: “Ouçam bem a inspiração que eu tive. Aqui tenho uma moeda. Se sair cara, é porque o destino nos reserva uma vitória gloriosa, e então podemos combater sem medo. Se sair coroa, é porque não temos chances de vencer. Então será melhor desistir. Jogou a moeda para o alto e saiu cara. Os soldados ficaram entusiasmados com o presságio e foram à luta cheios de confiança. Apesar da desvantagem numérica, v enceram os inimigos. Ao final, festejaram alegres a conquista. Um dos soldados aproximou-se do comandante e comentou orgulhoso: “Ninguém pode mudar a força do destino”. O comandante sorriu e lançou novamente a moeda ao ar. Saiu cara. Lançou de novo e saiu cara de novo. Mostrou então a moeda ao soldado: os dois lados eram iguais.

No evangelho deste Sexto Domingo do Tempo comum, após a chamada dos primeiros discípulos na beira do lago de Genesaré, o evangelista Lucas começa a explicar em que consiste a “Boa Notícia”, que Jesus veio anunciar aos pobres. Ele nos apresentada as “bem-aventuranças”. São diferentes daquelas do evangelho de Mateus, não só pelas palavras e pelo número, mas também porque são acompanhas por quatro “ais”. Logo, aparecem claros os opostos. De um lado: os pobres, os que estão com fome, os que choram e os que são odiados por causa do Filho do Homem. Do outro: os ricos, os saciados, os que riem e os que são elogiados por todos. Para Jesus os sofredores, os que são considerados perdedores aos olhos do mundo, são “bem-aventurados”. Os satisfeitos da vida, ao contrário, são alertados a não se deixar enganar e iludir. A verdadeira felicidade pode estar na pobreza e nas perseguições. Não depende da riqueza, do sucesso humano, dos aplausos. Jesus não ameaça e nem amedronta ninguém. O medo não resolve. Ele consola e dá esperança aos pobres e aos pequenos desprezados, mas também tem compaixão dos grandes, porque estão errando tudo: trocam o verdadeiro bem com os “bens” passageiros deste mundo.

Nós já sabemos que o verdadeiro bem é o amor de Deus e dos irmãos. A cobiça das riquezas gera as guerras. O medo de passar fome produz o acúmulo e o desperdício dos alimentos em lugar da partilha e da solidariedade. O sucesso e o poder geram ódio e disputas. Ninguém inveja o pobre, quem passa fome, quem chora e quem é amaldiçoado. Todos nós invejamos os ricos, os gozadores da vida, os que esbanjam, as estrelas da fama e dos holofotes. É Jesus que está visivelmente equivocado ou somos nós que ainda não entendemos o “hoje” da profecia de Isaías, proclamada por ele na Sinagoga de Nazaré? A felicidade que Jesus anuncia não é para poucos, é para todos, a começar pelos pequenos. É um conjunto de novos relacionamentos onde as diferenças, de todo tipo, não distinguem ou privilegiam, mas são colocadas a serviço do bem comum, da verdade, da justiça, da paz, da convivência respeitosa da vida e da dignidade de todos. Jesus anuncia uma nova “fraternidade”, aquela dos filhos do mesmo Pai Divino, que ama a todos e a propõe como alegria verdadeira para todos. A festa somente para alguns, não é a festa de Deus, não é a festa do amor. Esse é o projeto do Pai amoroso que Jesus veio nos fazer conhecer. Quem consegue imaginar uma sociedade sem muros, sem cercas, sem armas, aquelas visíveis ou bem escondidas em nossos corações? Poucos sonhadores? Ou profetas de um mundo novo? Não tem destino e nem sorte. Jesus não tem um plano B. Só tem uma cara: a garantia da força do Espírito, até o fim dos tempos. O amor vencerá.


Já a fizemos

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Num dia de mercado na cidade de Assis, Francisco, ao sair do convento, encontrou Frei Junípero. Era um frade simples e bom. Francisco gostava muito dele. Aproximou-se e disse-le:

– Frei Junípero, vem comigo, vamos pregar.

– Francisco, você sabe que tenho pouca imaginação. Como poderei falar às pessoas?

Mas, devido à insistência de Francisco, Frei Junípero obedeceu. Andaram por toda a cidade, rezando em silêncio por todos os que estavam trabalhando. Sorriram às crianças, especialmente às mais pobres. Trocaram algumas palavras com os idosos. Acariciaram os doentes. Ajudaram uma mulher a transportar um cântaro de água; outra, a arrumar a banca onde vendia hortaliças e que as crianças, nas suas brincadeiras, haviam derrubado. Depois de terem atravessado o mercado e a cidade, Francisco disse:

– Frei Junípero, está na hora de regressarmos ao convento.

– E a nossa pregação? – Francisco sorriu e respondeu:

– Já a fizemos, já a fizemos.

Para a nossa reflexão sobre o evangelho deste domingo, o quinto do Tempo Comum, eu poderia, simplesmente, repetir o que escrevi a semana passada. O evangelista Marcos continua a sua “catequese” nos apresentando a maneira de Jesus agir, encontrando as pessoas e fazendo o bem. Como já disse, em Jesus, palavras e ações andam juntas. Jesus “prega” com a sua própria vida e, vivendo, anuncia a boa notícia do amor do Pai para com todos, de maneira especial os doentes e excluídos. No entanto está claro que, a cada página do evangelho, algo novo aparece e vale a pena ser colocado.

O primeiro gesto de Jesus é sair da sinagoga e entrar numa casa. Parece óbvio, mas não é. Depois, na frente da casa se reúne “a cidade inteira”. Exagero do evangelista? Ou um convite para todos os pobres e sofredores? De madrugada, Jesus se afasta de todos e vai rezar num lugar deserto. Por fim, continua a sua missão andando “por toda a Galileia”. Jesus fez um gesto – uma cura – na sinagoga, mas agora anda pelas aldeias, no meio do povo. Dá para entender que a boa notícia não ficará “fechada” em algum lugar privilegiado ou reservado. No templo ou na igreja, para entender. Vai se espalhar.

Jesus é livre e a sua palavra liberta, cura e transforma a vida. Jesus também não é um curandeiro ou um mágico de profissão. Não cobra, não faz negócios. Doa a si mesmo, a sua jornada toda e, sobretudo, a sua compaixão. Prega o amor com a sua vida. Somente se reserva às madrugadas para encontrar o Pai, no silêncio e na oração. É um homem para os outros. Inteiramente entregue à missão. Mas não numa atividade frenética, fazendo qualquer campanha ou promovendo a si mesmo. É uma pessoa “ocupada”, mas, ao mesmo tempo, não esquece de onde lhe vem tanta disponibilidade e generosidade. O Espírito acompanha Jesus, desde o batismo no Rio Jordão, depois no deserto e, agora, na vida pública. É o Espírito Santo que o ajuda a conti nuar na comunhão com o Pai celestial, apesar de estar no meio da humanidade, plenamente humano, em carne e ossos. Discretamente, o evangelista nos apresenta o mistério maravilhoso da Santíssima Trindade.

As lições para a nossa vida de cristãos se resumem numa palavra cara ao papa Francisco: “Saiamos, saiamos” (EG 49). A saída mais difícil para todos, porém, não é só aquela de sair do templo e mergulhar na sociedade para “pregar” o evangelho com a nossa vida. É sair de nós mesmos, ir ao encontro das pessoas com o olhar mais fraterno e o abraço mais solidário. Devemos sair para nos tornarmos próximo dos irmãos! Não tem melhor evangelização que o serviço generoso, a paciência da transformação, a liberdade da indignação e a não colaboração com o mal. Duas vezes, Marcos fala que Jesus “expulsava” muitos demônios. Seria bom que cada um de nós reconhecesse qual “espírito mau” nos impede de ser um evangelizador com a sua vida. A acomodação? O medo de se comprometer? O desencanto? O que entendi é que não saber falar não é desculpa. São Francisco já sabia. Frei Junípero aprendeu. Todos nós “pregamos” muito mais com o exemplo do que com as palavras. Também quando menos pensamos.


O segredo da pessoa feliz

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Muito anos atrás, num lugar que pode ser o nosso, também, vivia uma pessoa muito feliz. Certo dia, alguém lhe perguntou:

– Qual é o segredo de tanta felicidade? O homem respondeu cantando:

– Quando estou de pé, quero estar de pé; quando ando, quero andar; quando escuto quero escutar, quando vejo, quero ver; quando bebo, quero beber; quando sonho, ah! mergulho no sonho.

Ninguém entendeu nada.

– Escute aqui – gritou outro – o que você está nos dizendo a gente também faz. Mas por que você é tão feliz? Ele cantou novamente:

– Quando estou de pé, quero estar de pé; quando ando, quero andar… Então, desanimados, alguns o deixaram. Mas outros continuaram refletindo sobre o que tinham escutado.

– Você diz que quando está de pé, quer estar de pé; quando anda, quer andar…o que há de especial nisso? Finalmente, a pessoa feliz deu-lhes uma explicação:

– Quando vocês estão de pé, querem andar; quando andam, querem escutar; quando escutam, querem ver; quando veem, querem destruir; quando comem, querem beber; quando bebem, mergulham em sonhos; quando sonham, não sabem sonhar, porque têm medo de perder tempo; quando amam, cobiçam; e o que possuem, querem sempre aumentar.

Como tantas coisas, essa pequena historinha pode ser entendida de muitas maneiras. Pode ser lida como um incentivo à desistência, a parar de sonhar ou, simplesmente, como um convite a permanecer firmes naquilo que estamos fazendo ou decidimos fazer. Contínuas mudanças de rumo e de intenções, com certeza, não ajudam a conseguir os objetivos que nos propomos. Talvez este seja mesmo o segredo da felicidade, ou, ao menos, de menos reclamações e depressões. Digo isso porque, no evangelho de Lucas, que proclamamos neste terceiro Domingo do Tempo Comum, encontramos a palavra “hoje”, que várias vezes se repetirá ao longo deste ano na leitura deste mesmo evangelho. O que foi escrito, há tantos anos atrás, pode valer ainda “hoje” para nós? O que tem a ver tudo isso com a nossa fé e, acredito, também com a nossa alegria?

O evangelista declara que fez estudos cuidadosos a fim de nos transmitir um ensinamento “sólido”. Esforço louvável. No entanto, a fé é, por definição, um arriscar. De outra forma seria uma demonstração e não mais uma fé. Também devemos usar a nossa inteligência para não acreditar em tudo e em qualquer coisa. Para isso, precisamos de testemunhas confiáveis, de algo seguro, por onde começar a crer. Todos os dias, pela publicidade comercial e pelos discursos dos grandes e poderosos somos incentivados a acreditar em promessas: o tal produto ou a tal decisão resolverão grande parte dos nossos problemas. Produtos são reciclados e ideias requentadas, mas basta uma nova embalagem ou uma nova linguagem para nos atrair. Somos humanos e alimentamos sonhos e esperanças. A questão é que os trocamos com bastante frequê ncia, sempre insatisfeitos e encantados pelas novidades. Como cristãos deveríamos “sonhar o sonho de Deus”, ou seja, abraçar e confiar no seu projeto de amor mais do que nos nossos anseios interesseiros e mutáveis. É por isso que a fé vai junto com a esperança. O “hoje” de Jesus não acabou naquele dia na sinagoga de Nazaré, porque o nosso Deus nunca desiste e nem muda os seus projetos. Mas para tanto, precisa que também os pobres nunca desistam de anunciar aos seus irmãos a vida nova do Evangelho, que os oprimidos resgatados ajudem outros a se libertar e os cegos de antes reconheçam que já enxergam claramente o caminho da justiça e da paz. Nos dias de hoje, precisamos dos homens e das mulheres, que dizem ter fé, acreditem que ainda estamos no “ano da graça do Senhor”. Não será o lucro sem limites a salvar a humanida de, não será o esgotamento dos recursos do planeta a nos dar paz e alegria. Não serão as armas grandes e pequenas a decidir os destinos de países inteiros. Não serão as drogas velhas e novas a encantar as novas gerações. Ainda ecoam para nós as palavras do profeta Isaías e o “hoje” de Jesus. Sejamos firmes na fé para dar um sentido grande às nossas vidas e assim seremos felizes.


Um concerto inesperado

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Jorge, desde pequeno, mostrou interesse pela música. A mãe, sempre orgulhosa do filho, fazia de tudo para incentivá-lo. Certo dia, soube, pela televisão, que um grande pianista se apresentaria na cidade e ela logo pensou em levar o garoto. Comprou as entradas e sentou-se na fila marcada, junto ao filho. Uma velha amiga, atrás dela, chamou-a. Ela foi para lá e as duas começaram a conversar. A distração foi suficiente para Jorge sair do assento e andar pelos corredores. Cheio de curiosidade, o garoto viu uma porta na qual estava escrito “Proibida a entrada”. Para ele, era mais do que um convite a entrar. Aos poucos, as luzes do teatro foram apagadas e a mãe volto ao seu lugar. Olhou para todos os lados, onde estava Jorge? Ele estava lá no palco, agora iluminado, sentado na frente do piano tocando uma das músicas infantis que sabia de cor. No mesmo instante, o grande pianista se ap resentou, cumprimentou o público, viu a criança e disse ao ouvido dela: “Continue tocando, não pare”. Com sua mão esquerda iniciou um acorde para acompanhar o garoto. Com a direita envolveu o menino e acrescentou um acompanhamento de melodia. O mestre pianista transformou uma situação embaraçosa em uma experiência sensacional. O público ficou perplexo, aplaudiu por algum tempo o grande mestre e o jovem iniciante.

Com o Segundo Domingo do Tempo Comum, iniciamos o período de algumas semanas que antecipa o Tempo da Quaresma. Os trechos de evangelho proclamados nos próximos domingos apresentam os primeiros momentos daquela que chamamos de “vida pública” de Jesus. O “Filho” amado no qual o Pai colocou o seu bem-querer começa a falar e agir e, aos poucos, pelos gestos e palavras, torna-se mais claro que o “messias” será Jesus: muito diferente do esperado pelos tradicionalistas, os nacionalistas e os revoltados. Ele será um “salvador” pobre, sem poder humano, um pregador itinerante, um profeta “causa de queda e de reerguimento para muitos em Israel, um sinal de contradição” enfim (Lc 2,34). Para nos ajudar a acreditar e a confiar nele, a Liturgia nos oferece a página do evangelho de João das bodas de Caná. Atrás do relato de uma festa de casamento , na qual começa a faltar o vinho, está a reflexão teológica do evangelista, que define o acontecido como “o início dos sinais de Jesus” (Jo 2,11). Depois virão outros “sinais”, mas o primeiro indica o rumo do caminho. A “hora”, o tempo certo, virá somente no final, será a hora da cruz e da ressurreição. Tudo acontecerá no amor e por amor. O casal que festeja o casamento não aparece. O verdadeiro noivo é Jesus, ele está no lugar de Deus, como na primeira Aliança. A verdadeira noiva pode ser o antigo povo de Israel, como sempre foi entendido pelos profetas, ou o “novo” povo dos amigos e seguidores daquele que, agora, selará uma “nova e eterna aliança” com a entrega de sua vida e o derramamento do seu próprio sangue. A água é transformada em vinho e esse vinho é melhor.

O reencontro definitivo de Deus com o seu povo, que a água das abluções não conseguia realizar, acontecerá, uma vez por todas, na vida doada do Filho. Através das imagens e da simbologia bíblicas, João evangelista nos deixa o seu recado: nós também podemos ser os discípulos que “creram nele”. Com isso, somos convidados novamente a caminhar com Jesus, a acompanhá-lo e escutá-lo com atenção e humildade. Devemos estar prontos a nos deixar “transformar” por ele, para passar de homens e mulheres “velhos” em homens e mulheres “novos”, cada vez melhores, mais amorosos e fraternos.
Tudo é questão de confiança. A mãe de Jesus sempre nos repete: “Fazei o que ele vos disser”. No entanto, nós insistimos em fazer o que nós mesmos achamos certo, o que julgamos bom para os nossos interesses. Nunca é fácil acreditar que alguém possa transformar os nossos projetos, ideias e capacidades, em algo melhor. Temos medo de ser enganados, usados e depois deixados para trás. Jesus é o Mestre que nos envolve com o seu amor. Vai nos ajudar a fazer o que nós ainda não aprendemos: nos amar mais. Acreditemos. Nós mesmos aplaudiremos felizes.


A estrela verde

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Certa vez, milhões de estrelas procuraram o Senhor, o Deus do universo, e lhe disseram:
– Senhor Deus, queremos dar uma volta na terra para estar junto às pessoas.
– Assim será feito – respondeu Deus – mas conservarei vocês todas pequeninas, como os homens lhes veem no céu, e cada uma com a sua cor: branca, lilás, dourada, vermelha, azul…
Naquela noite houve uma linda chuva de estrelas sobre a terra. Algumas ficaram em cima das torres das igrejas, outras passearam pelos campos, outras se misturaram entre as crianças e a terra ficou maravilhosamente iluminada. Porém, passado algum tempo, as estrelas resolveram voltar para o céu e deixaram a terra escura e triste. Disseram a Deus:
– Não foi possível permanecer na Terra. Lá existe muita miséria, fome, violência guerra, maldade, doença…
– Entendo – respondeu Deus – o vosso lugar é aqui no céu, aqui tudo é perfeito, eterno, harmonioso. Na terra, as coisas ainda são imperfeitas, é o lugar onde as pessoas erram, morrem… Mas, já estão todas aqui? Deus contou as estrelas e viu que uma faltava.
– É a estrela verde, a única desta cor, a do sentimento da esperança – disseram as demais – ela resolveu ficar por lá entre as pessoas.
– Mas onde ela foi se meter? Todas olharam para a terra e viram que estrela verde já não estava mais sozinha. A terra estava novamente iluminada, porque havia uma pequena estrela verde em cada pessoa.
Uma estorinha imaginária de estrelas e de esperança para o domingo da Epifania. Conhecemos bem a página do evangelho de Mateus que nos fala de sábios vindo do Oriente em busca do “rei que nasceu”. Uma misteriosa estrela os guia e, depois de muitas incertezas e mentiras, encontram “o menino com Maria, sua mãe”. Muito alegres o adoram e oferecem os seus presentes: ouro, incenso e mirra. Depois disso, por sua vez, enganam Herodes e voltam por outro caminho. Essa página do evangelho é “boa notícia”, não um relato para crônicas ou filmes. Em primeiro lugar, tudo é “caminho”, movimento, encontros e desencontros. Estamos no começo de um novo ano civil e nos primeiros momentos, também, do ano litúrgico. A vida de todos nós é “caminho”. Para onde vamos? Por quem nos deixamos conduzir? Em quem confiamos? De uma man eira ou de outra, conscientemente ou não, todos respondemos a essas perguntas no nosso dia a dia. Administramos o nosso tempo; decidimos o que vale mais e o que vale menos; quem queremos encontrar e quem queremos evitar. Sorrimos para alguns e viramos o rosto para outros. Sentimos alegria, quando encontramos certas pessoas, e raiva quando encontramos outras. “Adoramos” certas coisas e suportamos outras. No entanto, o caminho da vida continua, o tempo vai passando e o desafio aperta: já decidimos em quem acreditar e confiar ou deixamos sempre tudo para depois, na espera de novidades surpreendentes que não virão? Todos precisamos de luz para acertar o caminho da vida. Mas não vamos confundir. “Estrelas” humanas são passageiras. Quem quer ser luz de si mesmo, se apaga, muitas vezes, antes ainda de brilhar. “Ilusão” é fogo, mas de artifício. Se espalha e faz barulho, mas nada mais. A estrela dos Magos para sobre a casa onde estava o Menino-Deus. Mateus, o evangelista, nos propõe Jesus como meta da busca humana, luz que alegra os corações, alguém que abre “outro caminho”. É o caminho sempre novo do amor de Deus, do seu reino de paz e justiça. No entanto, cabe a nós “caminhar”, ou seja, abrir os caminhos da história humana, seguindo a luz do bem e da verdade que Jesus nos ensinou. Isso custa, é arriscado, incomoda, exige mudanças, sobretudo pede a firme esperança que algo melhor pode e deve acontecer. Entendemos que a meta é grande demais, mas é feita de pequenos passos e esses já são os sinais certos que o novo é possível e que já está acontecendo. A luz da estrela, que é Jesus, não será desligada junto às árvores de Natal, porque é de sempre e para sempre. Ele é meta e caminho ao mesmo tempo, experimentamos luz e penumbra juntas, mas nunca mais só escuridão. Se deixamos de caminhar, de seguir a Jesus, é porque nos falta a luz da esperança. Verde mesmo? Não sei. O importante é que nunca nos falte, junto com a fé e a caridade.


O shopping dos maridos

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Esqueci o endereço, mas tinha uma loja especial na qual as mulheres podiam escolher os maridos. Eram cinco andares e a cada andar aumentava a qualidade da mercadoria. Mas tinha uma regra: cada vez que se subia um andar, não era mais possível voltar aos andares inferiores, só era permitido sair da loja. Duas jovens amigas quiseram visitar o shopping. No primeiro andar estava escrito: “Os homens deste andar são bons trabalhadores e gostam de crianças”.

– Que bom – disseram as amigas – seria pior se não trabalhassem e não gostassem de crianças. Mas como serão os homens do andar de cima? – Subiram mais. No segundo andar, a placa informava: “Os homens deste andar trabalham, têm salários excelentes, gostam de criança e cuidam do seu aspecto exterior”.

– Viu! – disse uma das amigas – subimos mais, vai ser melhor ainda! No terceiro andar estava escrito: “Os homens deste andar trabalham, têm salários excelentes, gostam de crianças, são ordenados e ajudam nos trabalhos em casa”.

– Que maravilha! – pensaram as duas amigas. A curiosidade venceu e subiram correndo ao quarto andar. A placa rezava: “Os homens deste andar trabalham, têm salários excelentes, gostam de crianças, são ordenados, ajudam nos trabalhos em casa e são muito carinhosos.

– Incrível! – exclamaram as duas amigas – Se os do quarto são assim, como serão os homens do quinto andar? Subiram mais uma vez. O andar estava vazio. Leram: “Este andar serve somente para demostrar que é impossível satisfazer todos os vossos desejos. Por favor, sigam as indicações da saída e tenham um bom dia!”

Não têm shoppings de maridos ou mulheres. Nem de crianças. Gente não pode ser mercadoria. Não existem pessoas perfeitas, já prontas. Graças a Deus, somos pessoas reais, com qualidades e defeitos, sempre em construção, que se encontram, escolhem-se e amam-se. Assim nascem as nossas famílias. Assim continua a aventura da vida humana. Quem está disposto a fadigar para aprender com a vida, descobre a beleza do encontro e sente a falta do amado ou da amada, aceita o desafio da correção própria e dos outros, feita de pequenos passos, de egoísmo e generosidade, de palavras e silêncios, de descobertas e frustrações, de muita espera e paciência. Todas as nossas famílias são escolas de vida. Os bons exemplos e os acertos ensinam, mas aprendemos, talvez até mais, com os erros e as lágrimas. Aprendemos a caminhar caindo. Remendo também ajuda, torna-nos mais humildes e capazes de perdoar-nos uns aos outros.

No domingo da Sagrada Família, somos convidados a olhar para aquela família singular de Maria, José e o menino Jesus. Os chamados “evangelhos da infância”, os primeiros capítulos de Mateus e Lucas, antecipam de forma simbólica e proféticas os acontecimentos que virão na vida de Jesus. Perseguição e coragem, angústia e fé, incompreensão e obediência, recusa e acolhida, alternam-se, como na vida de todo ser humano. A sombra da cruz ilumina de longe os acontecimentos. Maria, a mãe, “conservava no coração todas essas coisas” (Lc 2,51). Talvez seja isso que está faltando às nossas famílias: aprender com o próprio caminho, sem perder o foco na meta da comunhão e do amor. Precisamos acreditar mais que Deus Pai, na sua bondade, vai nos moldando aos poucos, para que todos, em qualquer idade, cresçamos “em sabedoria…e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Nenhuma família começa perfeita. É algo que se aprende a construir como qualquer outra realidade humana. Não tem o último lançamento de marido, ou mulher, melhor que o anterior. Não serve trocar, precisa aceitar as correções e mudar juntos. Não tem um filho ou uma filha ideal. Tem pais aprendendo a ser pais e crianças e jovens aprendendo a ser filhos. Ninguém de nós é mercadoria com defeito para ser devolvida. Somos todos aprendizes da fraternidade e da partilha; descobrimos as diferenças dos outros e aprendemos a amá-los como eles são. Em qualquer andar do shopping da vida, têm pessoas capazes de amar e ser amadas. Não há outro segredo para sermos melhores, só aquele que Deus Pai escolheu: o amor.


Podem pegar o meu quarto

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Guido tinha 13 anos e frequentava a quinta série. Tinha sido reprovado duas vezes. Era um menino grande e meio desajeitado, entendia as coisas com dificuldade, mas era benquisto pelos colegas. Ajudava em tudo, sempre disponível e sorridente. Era o protetor natural dos meninos menores. A apresentação natalina das crianças era o evento mais importante da Comunidade da qual a família de Guido participava. Ele teria gostado de ser o pastor que tocava a flauta, mas a catequista lhe deu uma parte mais exigente: ser o dono da hospedaria, porque ia dizer poucas palavras e o seu porte físico daria mais força à recusa de acolher Maria e José. Na noite da apresentação, o pequeno salão comunitário estava cheio de pais e parentes. No palco aconteceria a encenação. Chegou o momento no qual José bateu palmas para que o dono do albergue abrisse. Foi a vez de Guido pergunt ar:
– O que vocês querem?
– Buscamos hospedagem. Respondeu José apresentando Maria grávida.
– Busquem outro lugar, aqui não tem vaga. Disse Guido conforme a parte decorada. José continuou:
– Senhor, por favor, já procuramos muito e não encontramos nada. Estamos muito cansados.
– Aqui não tem lugar. Continuou Guido, fazendo cara feia.
– Bom senhor, tenha compaixão de nós, a minha esposa está para ter o seu primeiro filho, com certeza irá encontrar um lugar para ela. De repente, o rosto do hospedeiro pareceu ficar mais doce; houve uma grande pausa de silêncio e o público ficou preocupado.
– Não tem lugar! Ide embora! Sugeriu baixinho a catequista escondida de lado.
– Não tem lugar! Ide embora! Repetiu automaticamente Guido.
Triste e de cabeça baixa, José abraçou Maria e começou a se afastar com ela. Guido ficou olhando para o pobre casal, pensativo, os seus olhos se encheram de lágrimas. De repente, a peça tomou outro rumo.
– Não vai embora não, José! – Gritou Guido. – Traz aqui Maria! – O rosto de Guido se iluminou. – Podem pegar o me quarto. Disse com a maior satisfação. O público ficou pasmado. Alguns acharam que ele tinha estragado de vez a peça, mas muitos, instintivamente, aplaudiram. Disseram que tinha sido a mais natalina de todas as peças de Natal.
Um caso da vida dentro da história do Natal, com um final diferente. E o nosso Natal o que terá de novo? Ainda estamos no último Domingo de Advento, mas o clima é natalino. Como outras vezes, estamos ocupados em repetir palavras e gestos que consideramos obrigatórios para esses momentos. Sem compras, sem presentes, sem luzes e sem votos de Feliz Natal, este dia seria igual a tantos outros. Não deve ser assim, mas não só porque repetimos o que consideramos tradicional. Aquele primeiro Natal foi tão único e extraordinário, que nunca mais vai acontecer algo semelhante. Naquela criança recém-nascida se revela, uma vez por todas, a grandeza do amor de Deus Pai que “amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Por bonitos que sejam os enfeites natalinos, incluindo o Papai Noel brincalhão, as árvores e tudo mais, não teria sentido para um cristão esquecer, desvalorizar ou confundir tanta exterioridade com o fato que o Natal é de Jesus, o Filho de Deus, obra do Espírito Santo em Maria. Enviado pelo Pai “não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17).
Cabe a nós, cristãos, celebrarmos a alegria do Natal à luz da nossa fé, na contemplação e comunicação de um “mistério” que supera todos nós, mas que nos envolve e nos salva das armadilhas do consumo, da superficialidade e das decepções humanas. O Deus no qual confiamos, não brincou de salvador, comprometeu-se pessoalmente, fez da sua vida um dom até o seu último suspiro e continua a propor a si mesmo como o sentido maior e mais profundo da existência humana. O Natal de Jesus é a festa de quem ainda sabe maravilhar-se, de quem continua “esperando contra toda a esperança” (Rm 5,18), de quem caminha “como se visse” o invisível (Hb 11,27). Vale a pena ceder a ele o nosso quarto, o mais íntimo do nosso coração. Para que nos ensine sempre, de novo, a amar.


Os vizinhos

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Conta Madre Teresa de Calcutá: “Certa noite, um senhor veio na nossa casa para pedir comida para uma família hindu com oito filhos. Peguei um pouco de arroz e logo fui para lá. Pelos rostos das crianças, vi que estavam com muita, muita fome. No entanto a mãe pegou o arroz, o dividiu em duas partes e saiu. Quando voltou perguntei a ela: ‘Onde foi? O que fez?’ A resposta foi de poucas palavras: ‘Eles também estavam com fome’. Eram os vizinhos da porta do lado, uma família muçulmana, e ela sabia que estavam com fome. Eu não fui buscar outro arroz naquela noite. Quis que experimentassem a alegria de doar. Não fiquei surpreendida que aquela mãe sentisse o desejo de doar. O que me surpreendeu foi que ela soubesse que eles também estavam com fome. Nós também sabemos? Temos tempo de saber? Temos tempo ao menos para sorrir a alguém?”

No terceiro domingo de Advento, encontramos um evangelho onde ecoa uma única pergunta feita por pessoas diferentes a João Batista: o que devemos fazer? As respostas mudam conforme os questionadores: as multidões, os cobradores de impostos e os soldados. No entanto também a resposta pode ser considerada uma só: aprender a partilhar comida e roupa com quem não tem, não abusar do próprio ofício, do poder ou da força, ser honestos nas cobranças e rigorosos na verdade. Um convite claro ao respeito à vida dos irmãos, praticando a solidariedade e a lisura. Quase uma antecipação do mandamento evangélico do amor; sem dúvida, um bom começo para acolher a novidade do Messias Salvador, que João Batista estava anunciando. Nesse sentido, é importante a resposta do próprio João a quem o indagava para saber se era ele mesmo o grande espe rado. “Não sou digno” diz o Precursor. Mais tarde, Jesus reconhecerá a missão profética do Batista e a sua grandeza entre os “nascidos de mulher” (Lc 7,24-28).

Voltamos à primeira pergunta que os diferentes grupos fazem a João Batista: “o que devemos fazer?” Nos versículos anteriores do evangelho, lidos domingo passado, o convite era para a conversão dos pecados. Com essa nova pergunta, fica claro que a verdadeira conversão não consiste em meras declarações ou num banho penitencial e purificador no Rio Jordão. Sem mudança de vida, de escolhas e atitudes, não há novidade nenhuma. Maquiagem exterior ou roupa nova, não transformam o nosso interior. Na prática, continuamos a pensar e agir como antes, presos em nossos preconceitos, desconfianças e medos. Por isso, uma conversão séria exige tempo, esforço e perseverança, mas também reconhece que, antes de tudo, é dom e ação do próprio Deus. O que cabe a nós é manifestar o desejo de mudanç a e aceitar as consequências. Essas podem ser o afastamento dos amigos anteriores, o desprezo de quem não entende as nossas novas escolhas, a perseguição de quem se considera prejudicado por não compactuarmos mais com planos e costumes antes tolerados, mas agora inaceitáveis para nós. Quem entra no caminho da conversão deve confiar mais nas consolações de Deus que nos aplausos dos homens. Para nós, cristãos, o “fazer” ou agir da nossa vida é norteado pelos princípios da “moral”, que dizem a respeito do que é entendido como bem ou como mal. Mas quem decide isso? E, sobretudo, na base de que? Existem normas universais válidas para todos e em qualquer lugar? Para muitos o bem e o mal, o certo e o errado são decididos pela maioria. Jovens e adultos justificam suas escolhas dizendo: – Todos fazem assim! Como se o número de quem age d aquela forma, e que sempre imaginamos muito grande, fosse suficiente para torná-la justa e boa. Um exemplo fácil, nos dias de hoje, são a vantagem e o lucro. Se eu ganho, o meu agir é bom. Talvez o seja para mim, mas eu não vivo isolado dos demais e sou sempre responsável pelas consequências, às vezes prejudiciais, para os outros. Para nós cristãos, continua valendo a “regra de ouro” do evangelho: “Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também a eles. Isto é a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Sem amor não há conversão. Nunca ligaremos para a fome dos vizinhos.