A estrela verde

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Certa vez, milhões de estrelas procuraram o Senhor, o Deus do universo, e lhe disseram:
– Senhor Deus, queremos dar uma volta na terra para estar junto às pessoas.
– Assim será feito – respondeu Deus – mas conservarei vocês todas pequeninas, como os homens lhes veem no céu, e cada uma com a sua cor: branca, lilás, dourada, vermelha, azul…
Naquela noite houve uma linda chuva de estrelas sobre a terra. Algumas ficaram em cima das torres das igrejas, outras passearam pelos campos, outras se misturaram entre as crianças e a terra ficou maravilhosamente iluminada. Porém, passado algum tempo, as estrelas resolveram voltar para o céu e deixaram a terra escura e triste. Disseram a Deus:
– Não foi possível permanecer na Terra. Lá existe muita miséria, fome, violência guerra, maldade, doença…
– Entendo – respondeu Deus – o vosso lugar é aqui no céu, aqui tudo é perfeito, eterno, harmonioso. Na terra, as coisas ainda são imperfeitas, é o lugar onde as pessoas erram, morrem… Mas, já estão todas aqui? Deus contou as estrelas e viu que uma faltava.
– É a estrela verde, a única desta cor, a do sentimento da esperança – disseram as demais – ela resolveu ficar por lá entre as pessoas.
– Mas onde ela foi se meter? Todas olharam para a terra e viram que estrela verde já não estava mais sozinha. A terra estava novamente iluminada, porque havia uma pequena estrela verde em cada pessoa.
Uma estorinha imaginária de estrelas e de esperança para o domingo da Epifania. Conhecemos bem a página do evangelho de Mateus que nos fala de sábios vindo do Oriente em busca do “rei que nasceu”. Uma misteriosa estrela os guia e, depois de muitas incertezas e mentiras, encontram “o menino com Maria, sua mãe”. Muito alegres o adoram e oferecem os seus presentes: ouro, incenso e mirra. Depois disso, por sua vez, enganam Herodes e voltam por outro caminho. Essa página do evangelho é “boa notícia”, não um relato para crônicas ou filmes. Em primeiro lugar, tudo é “caminho”, movimento, encontros e desencontros. Estamos no começo de um novo ano civil e nos primeiros momentos, também, do ano litúrgico. A vida de todos nós é “caminho”. Para onde vamos? Por quem nos deixamos conduzir? Em quem confiamos? De uma man eira ou de outra, conscientemente ou não, todos respondemos a essas perguntas no nosso dia a dia. Administramos o nosso tempo; decidimos o que vale mais e o que vale menos; quem queremos encontrar e quem queremos evitar. Sorrimos para alguns e viramos o rosto para outros. Sentimos alegria, quando encontramos certas pessoas, e raiva quando encontramos outras. “Adoramos” certas coisas e suportamos outras. No entanto, o caminho da vida continua, o tempo vai passando e o desafio aperta: já decidimos em quem acreditar e confiar ou deixamos sempre tudo para depois, na espera de novidades surpreendentes que não virão? Todos precisamos de luz para acertar o caminho da vida. Mas não vamos confundir. “Estrelas” humanas são passageiras. Quem quer ser luz de si mesmo, se apaga, muitas vezes, antes ainda de brilhar. “Ilusão” é fogo, mas de artifício. Se espalha e faz barulho, mas nada mais. A estrela dos Magos para sobre a casa onde estava o Menino-Deus. Mateus, o evangelista, nos propõe Jesus como meta da busca humana, luz que alegra os corações, alguém que abre “outro caminho”. É o caminho sempre novo do amor de Deus, do seu reino de paz e justiça. No entanto, cabe a nós “caminhar”, ou seja, abrir os caminhos da história humana, seguindo a luz do bem e da verdade que Jesus nos ensinou. Isso custa, é arriscado, incomoda, exige mudanças, sobretudo pede a firme esperança que algo melhor pode e deve acontecer. Entendemos que a meta é grande demais, mas é feita de pequenos passos e esses já são os sinais certos que o novo é possível e que já está acontecendo. A luz da estrela, que é Jesus, não será desligada junto às árvores de Natal, porque é de sempre e para sempre. Ele é meta e caminho ao mesmo tempo, experimentamos luz e penumbra juntas, mas nunca mais só escuridão. Se deixamos de caminhar, de seguir a Jesus, é porque nos falta a luz da esperança. Verde mesmo? Não sei. O importante é que nunca nos falte, junto com a fé e a caridade.


O shopping dos maridos

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Esqueci o endereço, mas tinha uma loja especial na qual as mulheres podiam escolher os maridos. Eram cinco andares e a cada andar aumentava a qualidade da mercadoria. Mas tinha uma regra: cada vez que se subia um andar, não era mais possível voltar aos andares inferiores, só era permitido sair da loja. Duas jovens amigas quiseram visitar o shopping. No primeiro andar estava escrito: “Os homens deste andar são bons trabalhadores e gostam de crianças”.

– Que bom – disseram as amigas – seria pior se não trabalhassem e não gostassem de crianças. Mas como serão os homens do andar de cima? – Subiram mais. No segundo andar, a placa informava: “Os homens deste andar trabalham, têm salários excelentes, gostam de criança e cuidam do seu aspecto exterior”.

– Viu! – disse uma das amigas – subimos mais, vai ser melhor ainda! No terceiro andar estava escrito: “Os homens deste andar trabalham, têm salários excelentes, gostam de crianças, são ordenados e ajudam nos trabalhos em casa”.

– Que maravilha! – pensaram as duas amigas. A curiosidade venceu e subiram correndo ao quarto andar. A placa rezava: “Os homens deste andar trabalham, têm salários excelentes, gostam de crianças, são ordenados, ajudam nos trabalhos em casa e são muito carinhosos.

– Incrível! – exclamaram as duas amigas – Se os do quarto são assim, como serão os homens do quinto andar? Subiram mais uma vez. O andar estava vazio. Leram: “Este andar serve somente para demostrar que é impossível satisfazer todos os vossos desejos. Por favor, sigam as indicações da saída e tenham um bom dia!”

Não têm shoppings de maridos ou mulheres. Nem de crianças. Gente não pode ser mercadoria. Não existem pessoas perfeitas, já prontas. Graças a Deus, somos pessoas reais, com qualidades e defeitos, sempre em construção, que se encontram, escolhem-se e amam-se. Assim nascem as nossas famílias. Assim continua a aventura da vida humana. Quem está disposto a fadigar para aprender com a vida, descobre a beleza do encontro e sente a falta do amado ou da amada, aceita o desafio da correção própria e dos outros, feita de pequenos passos, de egoísmo e generosidade, de palavras e silêncios, de descobertas e frustrações, de muita espera e paciência. Todas as nossas famílias são escolas de vida. Os bons exemplos e os acertos ensinam, mas aprendemos, talvez até mais, com os erros e as lágrimas. Aprendemos a caminhar caindo. Remendo também ajuda, torna-nos mais humildes e capazes de perdoar-nos uns aos outros.

No domingo da Sagrada Família, somos convidados a olhar para aquela família singular de Maria, José e o menino Jesus. Os chamados “evangelhos da infância”, os primeiros capítulos de Mateus e Lucas, antecipam de forma simbólica e proféticas os acontecimentos que virão na vida de Jesus. Perseguição e coragem, angústia e fé, incompreensão e obediência, recusa e acolhida, alternam-se, como na vida de todo ser humano. A sombra da cruz ilumina de longe os acontecimentos. Maria, a mãe, “conservava no coração todas essas coisas” (Lc 2,51). Talvez seja isso que está faltando às nossas famílias: aprender com o próprio caminho, sem perder o foco na meta da comunhão e do amor. Precisamos acreditar mais que Deus Pai, na sua bondade, vai nos moldando aos poucos, para que todos, em qualquer idade, cresçamos “em sabedoria…e graça diante de Deus e dos homens” (Lc 2,52). Nenhuma família começa perfeita. É algo que se aprende a construir como qualquer outra realidade humana. Não tem o último lançamento de marido, ou mulher, melhor que o anterior. Não serve trocar, precisa aceitar as correções e mudar juntos. Não tem um filho ou uma filha ideal. Tem pais aprendendo a ser pais e crianças e jovens aprendendo a ser filhos. Ninguém de nós é mercadoria com defeito para ser devolvida. Somos todos aprendizes da fraternidade e da partilha; descobrimos as diferenças dos outros e aprendemos a amá-los como eles são. Em qualquer andar do shopping da vida, têm pessoas capazes de amar e ser amadas. Não há outro segredo para sermos melhores, só aquele que Deus Pai escolheu: o amor.


Podem pegar o meu quarto

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Guido tinha 13 anos e frequentava a quinta série. Tinha sido reprovado duas vezes. Era um menino grande e meio desajeitado, entendia as coisas com dificuldade, mas era benquisto pelos colegas. Ajudava em tudo, sempre disponível e sorridente. Era o protetor natural dos meninos menores. A apresentação natalina das crianças era o evento mais importante da Comunidade da qual a família de Guido participava. Ele teria gostado de ser o pastor que tocava a flauta, mas a catequista lhe deu uma parte mais exigente: ser o dono da hospedaria, porque ia dizer poucas palavras e o seu porte físico daria mais força à recusa de acolher Maria e José. Na noite da apresentação, o pequeno salão comunitário estava cheio de pais e parentes. No palco aconteceria a encenação. Chegou o momento no qual José bateu palmas para que o dono do albergue abrisse. Foi a vez de Guido pergunt ar:
– O que vocês querem?
– Buscamos hospedagem. Respondeu José apresentando Maria grávida.
– Busquem outro lugar, aqui não tem vaga. Disse Guido conforme a parte decorada. José continuou:
– Senhor, por favor, já procuramos muito e não encontramos nada. Estamos muito cansados.
– Aqui não tem lugar. Continuou Guido, fazendo cara feia.
– Bom senhor, tenha compaixão de nós, a minha esposa está para ter o seu primeiro filho, com certeza irá encontrar um lugar para ela. De repente, o rosto do hospedeiro pareceu ficar mais doce; houve uma grande pausa de silêncio e o público ficou preocupado.
– Não tem lugar! Ide embora! Sugeriu baixinho a catequista escondida de lado.
– Não tem lugar! Ide embora! Repetiu automaticamente Guido.
Triste e de cabeça baixa, José abraçou Maria e começou a se afastar com ela. Guido ficou olhando para o pobre casal, pensativo, os seus olhos se encheram de lágrimas. De repente, a peça tomou outro rumo.
– Não vai embora não, José! – Gritou Guido. – Traz aqui Maria! – O rosto de Guido se iluminou. – Podem pegar o me quarto. Disse com a maior satisfação. O público ficou pasmado. Alguns acharam que ele tinha estragado de vez a peça, mas muitos, instintivamente, aplaudiram. Disseram que tinha sido a mais natalina de todas as peças de Natal.
Um caso da vida dentro da história do Natal, com um final diferente. E o nosso Natal o que terá de novo? Ainda estamos no último Domingo de Advento, mas o clima é natalino. Como outras vezes, estamos ocupados em repetir palavras e gestos que consideramos obrigatórios para esses momentos. Sem compras, sem presentes, sem luzes e sem votos de Feliz Natal, este dia seria igual a tantos outros. Não deve ser assim, mas não só porque repetimos o que consideramos tradicional. Aquele primeiro Natal foi tão único e extraordinário, que nunca mais vai acontecer algo semelhante. Naquela criança recém-nascida se revela, uma vez por todas, a grandeza do amor de Deus Pai que “amou tanto o mundo que deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Por bonitos que sejam os enfeites natalinos, incluindo o Papai Noel brincalhão, as árvores e tudo mais, não teria sentido para um cristão esquecer, desvalorizar ou confundir tanta exterioridade com o fato que o Natal é de Jesus, o Filho de Deus, obra do Espírito Santo em Maria. Enviado pelo Pai “não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3,17).
Cabe a nós, cristãos, celebrarmos a alegria do Natal à luz da nossa fé, na contemplação e comunicação de um “mistério” que supera todos nós, mas que nos envolve e nos salva das armadilhas do consumo, da superficialidade e das decepções humanas. O Deus no qual confiamos, não brincou de salvador, comprometeu-se pessoalmente, fez da sua vida um dom até o seu último suspiro e continua a propor a si mesmo como o sentido maior e mais profundo da existência humana. O Natal de Jesus é a festa de quem ainda sabe maravilhar-se, de quem continua “esperando contra toda a esperança” (Rm 5,18), de quem caminha “como se visse” o invisível (Hb 11,27). Vale a pena ceder a ele o nosso quarto, o mais íntimo do nosso coração. Para que nos ensine sempre, de novo, a amar.


Os vizinhos

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Conta Madre Teresa de Calcutá: “Certa noite, um senhor veio na nossa casa para pedir comida para uma família hindu com oito filhos. Peguei um pouco de arroz e logo fui para lá. Pelos rostos das crianças, vi que estavam com muita, muita fome. No entanto a mãe pegou o arroz, o dividiu em duas partes e saiu. Quando voltou perguntei a ela: ‘Onde foi? O que fez?’ A resposta foi de poucas palavras: ‘Eles também estavam com fome’. Eram os vizinhos da porta do lado, uma família muçulmana, e ela sabia que estavam com fome. Eu não fui buscar outro arroz naquela noite. Quis que experimentassem a alegria de doar. Não fiquei surpreendida que aquela mãe sentisse o desejo de doar. O que me surpreendeu foi que ela soubesse que eles também estavam com fome. Nós também sabemos? Temos tempo de saber? Temos tempo ao menos para sorrir a alguém?”

No terceiro domingo de Advento, encontramos um evangelho onde ecoa uma única pergunta feita por pessoas diferentes a João Batista: o que devemos fazer? As respostas mudam conforme os questionadores: as multidões, os cobradores de impostos e os soldados. No entanto também a resposta pode ser considerada uma só: aprender a partilhar comida e roupa com quem não tem, não abusar do próprio ofício, do poder ou da força, ser honestos nas cobranças e rigorosos na verdade. Um convite claro ao respeito à vida dos irmãos, praticando a solidariedade e a lisura. Quase uma antecipação do mandamento evangélico do amor; sem dúvida, um bom começo para acolher a novidade do Messias Salvador, que João Batista estava anunciando. Nesse sentido, é importante a resposta do próprio João a quem o indagava para saber se era ele mesmo o grande espe rado. “Não sou digno” diz o Precursor. Mais tarde, Jesus reconhecerá a missão profética do Batista e a sua grandeza entre os “nascidos de mulher” (Lc 7,24-28).

Voltamos à primeira pergunta que os diferentes grupos fazem a João Batista: “o que devemos fazer?” Nos versículos anteriores do evangelho, lidos domingo passado, o convite era para a conversão dos pecados. Com essa nova pergunta, fica claro que a verdadeira conversão não consiste em meras declarações ou num banho penitencial e purificador no Rio Jordão. Sem mudança de vida, de escolhas e atitudes, não há novidade nenhuma. Maquiagem exterior ou roupa nova, não transformam o nosso interior. Na prática, continuamos a pensar e agir como antes, presos em nossos preconceitos, desconfianças e medos. Por isso, uma conversão séria exige tempo, esforço e perseverança, mas também reconhece que, antes de tudo, é dom e ação do próprio Deus. O que cabe a nós é manifestar o desejo de mudanç a e aceitar as consequências. Essas podem ser o afastamento dos amigos anteriores, o desprezo de quem não entende as nossas novas escolhas, a perseguição de quem se considera prejudicado por não compactuarmos mais com planos e costumes antes tolerados, mas agora inaceitáveis para nós. Quem entra no caminho da conversão deve confiar mais nas consolações de Deus que nos aplausos dos homens. Para nós, cristãos, o “fazer” ou agir da nossa vida é norteado pelos princípios da “moral”, que dizem a respeito do que é entendido como bem ou como mal. Mas quem decide isso? E, sobretudo, na base de que? Existem normas universais válidas para todos e em qualquer lugar? Para muitos o bem e o mal, o certo e o errado são decididos pela maioria. Jovens e adultos justificam suas escolhas dizendo: – Todos fazem assim! Como se o número de quem age d aquela forma, e que sempre imaginamos muito grande, fosse suficiente para torná-la justa e boa. Um exemplo fácil, nos dias de hoje, são a vantagem e o lucro. Se eu ganho, o meu agir é bom. Talvez o seja para mim, mas eu não vivo isolado dos demais e sou sempre responsável pelas consequências, às vezes prejudiciais, para os outros. Para nós cristãos, continua valendo a “regra de ouro” do evangelho: “Tudo, portanto, quanto desejais que os outros vos façam, fazei-o, vós também a eles. Isto é a Lei e os Profetas” (Mt 7,12). Sem amor não há conversão. Nunca ligaremos para a fome dos vizinhos.


As bananas do monge

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Um viajante resolveu passar algumas semanas num mosteiro do Nepal. Certa tarde, entrou num dos muitos templos do mosteiro e encontrou um monge sorrindo, sentado perto do altar.
– Por que o senhor sorri? Perguntou ao monge.
– Porque entendi o significado das bananas, disse o monge, abrindo a bolsa que carregava e tirando uma banana podre de dentro. – Esta é a vida que passou e não foi aproveitada no momento certo, agora é tarde demais. Em seguida, tirou da bolsa uma banana ainda verde. Mostrou-a, tornou a guardá-la e disse: – Esta é a vida que ainda não aconteceu, é preciso esperar o momento certo. Finalmente, pegou uma banana madura, descascou-a e, dividindo-a disse: – Este é o momento presente. Saiba vivê-lo sem medo.
No segundo domingo de Advento, encontramos João Batista “pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados”. O evangelista Lucas coloca este acontecimento numa determinada situação histórica, citando os nomes das autoridades do tempo, a começar pelo imperador romano até os sumos sacerdotes da época. Essa é uma primeira maneira para nos dizer que a nossa vida é feita de pessoas e acontecimentos limitados no tempo. Não adianta se refugiar no passado, que não volta mais, ou tentar fugir para um futuro que ainda não existe. Isso significa que cada um de nós deve enfrentar o seu presente com liberdade e responsabilidade, aprendendo a tomar decisões e, assim, dar um rumo sensato à própria vida.
Com efeito, deveríamos ter aprendido com os erros e os acertos do passado. Também já sabemos que, muito do que colheremos no futuro, depende daquilo que já semeamos ontem e daquilo que estamos semeando hoje. Evidentemente toda decisão de “conversão” da nossa vida é tomada no presente; no entanto ela foi preparada no passado e se sustenta somente se acreditarmos que é urgente mudar algo para que aconteça o melhor no futuro.
Na prática, essas são as grandes perguntas da vida que, antes ou depois, vamos ter que enfrentar se não quisermos desistir da nossa inteligência e humanidade: de onde viemos e para onde vamos. Se, por exemplo, temos medo de Deus, ou achamos inútil acreditar e confiar nele, nós mesmos poremos obstáculos – valas e montanhas – para afastá-lo e tirá-lo da nossa vida. Basta substitui-lo com qualquer um dos ídolos deste mundo para trilhar outros caminhos na vida em busca do sucesso, do dinheiro e do nosso exclusivo bem-estar. Ao contrário, talvez já percebemos que o sentido mais bonito da vida é outro. O que nos faz mais felizes é fazer o bem e gastar mais as nossas capacidades para sermos úteis aos nossos irmãos, praticando mais a fraternidade e menos o egoísmo e a indiferença. Essas são as montanhas mais altas, que devem ser rebaixadas , e os vales mais profundos, que devem ser aterrados para podermos encontrar e experimentar o amor a Deus e ao nosso próximo.
Na mensagem aos jovens do mundo inteiro, convocando-os para a Jornada Mundial da Juventude no Panamá, em janeiro de 2019, o Papa Francisco, chama tudo isso de “revolução do serviço”. Significa aprender a doar mais do que querer ganhar sempre, a ver as grandes necessidades dos outros mais do que as nossas, talvez, bem pequenas. Tudo isso é conversão. Muda muito ou… tudo, porque junto vai a visão que temos da sociedade, da política, do dinheiro, dos pobres e sofredores. Igualmente Deus Pai e seu Filho Jesus Cristo não serão mais ideias abstratas, mas alguém vivo que nos convoca para uma grande missão, que antes de transformar os outros, iluminará a nossa vida. A Igreja também não será mais uma organização qualquer, mas uma comunidade de irmãos que juntos enfrentam os mesmos desafios e travam as mesmas lutas contra o mal e a morte. Agora, qual foi a banana que nos fez refletir mais? Espero que seja a madura, doce e gostosa. Repartida. A verde, também, logo estará pronta. E a podre? Foram as chances de bem que desperdiçamos.


O ouro do avarento

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Um avarento juntou tudo o que tinha e o transformou numa barra de ouro que enterrou em seu jardim: com ele enterrou, também, sua alma e todos os seus pensamentos. Desde então, diariamente, ia inspecionar seu tesouro. Um de seus empregados, observando aquele vaivém, viu logo de que se tratava. Desenterrou a barra de ouro e levou-a. Pouco depois, o avarento foi fazer sua inspeção. Quando viu o buraco vazio, começou a se lamentar e a arrancar os cabelos. Vendo-o nesse estado, um transeunte perguntou o que tinha acontecido e, compreendendo o que afligia o avarento, disse-lhe: “Por que ficar assim desolado? Tinhas o ouro e ao mesmo tempo não o tinhas. Basta pôr uma pedra no lugar onde estava a barra de ouro e imaginar que ele está lá. Pelo que vejo, mesmo quando o ouro estava lá, não fazias uso dele”. Ter bens e não usufrui-los é mesmo que não ter.

A antiga fábula de Esopo nos ensina que ter um tesouro, mas não conhecer o seu valor ou, simplesmente, guardá-lo e não usá-lo, é como se não o tivéssemos. Assim penso que aconteça com muitos que se declaram cristãos, mas, depois, apressam-se a dizer que não são praticantes. Pode ser que, para desculpá-los, nunca tenham tido a possibilidade de apreciar, de verdade, o valor do presente que receberam quando foram batizados. Ou, apesar de achar bonito o fato de ser cristãos, por enquanto, não sentem necessidade disso para caminhar na vida. Assim a luz da fé fica escondida e não lhes serve para nada.

Com o primeiro domingo de dezembro, iniciamos o novo Ano Litúrgico e o Tempo de Advento, os dias que nos preparam para o Natal. Se fosse pelo comércio, já estaríamos celebrando as Festas de Fim de Ano, mas, como cristãos, nos damos de presente um pequeno tempo para lembrar e reconhecer o valor e o sentido desse evento. A fé cristã não é algo que se adquire uma vez por todas ou que seja reduzível a algumas questões doutrinais. A lista de verdades que repetimos de cor, quando rezamos o Credo, são mais que afirmações, são, perdoem a comparação, quase que a carteira de identidade do cristão, que se reconhece com filho amado daquele Deus no qual professa acreditar.

Como os traços de uma pessoa vão se formando ao longo da vida e são o resultado de herança biológica, mas também da educação recebida, sobretudo na formação do caráter, assim também a personalidade de cada cristão. Além disso, nós acreditamos nas maravilhas do Espírito Santo que distribui os seus dons com generosidade, dando coragem aos medrosos, sabedoria aos humildes, perseverança aos fracos. Por isso, não tenho dúvida em afirmar que a fé é um dom comparável a um tesouro preciosíssimo, mas do qual nem todos sabem apreciar o valor e a serventia na própria vida. Se, depois, à Fé juntamos a Esperança e a Caridade, também dons do Pai, nada falta ao cristão para cumprir a sua missão de paz e de amor ao longo dos poucos dias que passa neste mundo. No entanto &eacut e; fácil esquecer ou desvalorizar a fé, jogá-la fora ou deixá-la num canto, achando-a inútil ou até um empecilho para as próprias ambições individuais. Talvez, como muitas vezes acontece, descobrimos o valor de alguém, ou de alguma coisa, quando a perdemos.

A Igreja, como uma boa mãe, tem muita paciência e repete sempre de novo o anúncio da fé e do amor de Deus. Proclama de muitas formas a grandeza e a misericórdia do Pai, a obediência amorosa e exemplar do Filho e a incansável animação do Espírito Santo, fogo de toda missão. Se recomeçamos com o Tempo de Advento e, depois, com o Natal é porque a primeira descoberta do amor de alguém para nós é o sua atenção, a sua aproximação gratuita, sem cobrança ou interesse. Pura generosidade. Mais ainda quando, conscientemente ou não, gritamos por socorro, perdidos e confusos nas encruzilhadas da vida. Na escuridão, uma luz é sempre bem-vinda. A luz da fé, por fraca que seja, já serve para encontrar o caminho rumo ao único bem insubstituível, para encontrar o qual vale a pena deixar todo o resto: o próprio Deus e o seu amor infinito. Pensar que uma pedra e a nossa imaginação resolvem é pura ilusão. O verdadeiro Deus não tem substituto.


O Ano Nacional do Laicato 2

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No último domingo de novembro, deste ano, celebramos a Festa de Cristo Rei e concluímos o ano litúrgico. Logo iniciaremos, com o Tempo do Advento, um novo caminho, naquela busca incessante da santidade que é o chamado de todos os batizados. Mais uma vez, neste domingo concluiremos, um “ano temático”, o Ano Nacional do Laicato, que teve o seu início também na Festa de Cristo Rei de 2017. No evangelho deste dia, no diálogo com Pilatos, Jesus afirma ser “rei”, mas de um reino todo especial, um reino que “não é daqui” (Jo18,36). Para este “reino” diferente não valem os critérios e as medidas deste mundo que passa. O evangelista João nos apresenta Jesus, totalmente despojado de qualquer poder humano, machucado e já condenado pelo Sinédrio, numa posição “real”, altiva, em condição de responder com segurança aos questionamentos do todo poderoso representante do Império Romano. São os contrastes chamativos do evangelho de João. Por exemplo, Jesus sem balde, oferece “água viva” à samaritana (Jo 4). Com cinco pães e dois peixes, ele satisfaz a fome de cinco mil homens (Jo 6). Agora sem exército algum, lembra a Pilatos que o poder, que ele acredita ter, lhe foi dado do alto e, por isso, um dia irá perde-lo (Jo 19,11).

Todos os reinos e os poderosos deste mundo, com todas as suas riquezas e seus abusos irão passar, mas o “Reino” que é de Deus, aquele que somente quer reinar na vida e nos corações dos seus amigos, na liberdade e na alegria do amor, nunca acabará. Com Jesus e com a sua Páscoa, este “Reino” já começou, já está no meio de nós (Lc 17,21). O Reino da justiça, do amor e da paz, acontece na vida, na história humana, dentro e fora da Igreja , tem o alcance da misericórdia do Pai que não deixa ninguém longe do seu amor.

Lembrarei agora os legados do Ano Nacional do Laicato para que possamos todos dar continuidade à animação e à reflexão que esse tempo especial nos trouxe.

O primeiro legado é o esforço para ter em cada diocese e prelazia do Brasil o Conselho Diocesano de Leigos. Não será uma nova pastoral ou um novo organismo. Será um espaço de encontro das várias e ricas expressões do laicato católico. Vale lembrar as Comunidades Eclesiais de Base, com todos os seus animadores e animadoras, as Pastorais, os Movimentos e as Novas Comunidades. É dom do Espírito Santo realizar de maneira diferente a mesma e única missão da Igre ja. Vivemos tempos difíceis para a evangelização, que nos pedem colaboração e união das forças. Uma Igreja dividida ou ocupada em disputas não somente escandaliza e afasta, mas, sobretudo, deixa de cumprir a contento a missão pela qual o Senhor Jesus a chamou: ser testemunha de Cristo “até os confins da terra” (Atos 1,8).

O segundo legado é o empenho para que aconteça o mais rapidamente possível uma Auditoria Cidadã da Dívida Pública brasileira. Pagar as próprias dívidas é questão de honestidade e justiça. No entanto quando a dívida se torna uma extorsão, quando pode ser renegociada ou ainda, talvez, em boa parte já foi paga, exigir uma auditoria cidadã, ou seja, pública e acessível a todos, não significa fugir das próprias responsab ilidades ou querer dar um calote, mas encontrar uma possível saída honrosa de um negócio vantajoso só do lado dos credores. Com efeito, entendemos muito bem que, afinal, o pagamento da enorme dívida pública, recai sobre as costas do povo mais necessitado daquelas políticas públicas (saúde, educação…) cujos recursos estão sendo cortados com a desculpa da dívida. Como cidadãos e cristãos não podemos compactuar com uma situação claramente injusta e prejudicial para esta e as próximas gerações.

Um último lembrete. O tema do Ano Nacional do Laicato foi: “Cristãos leigos e leigas, sujeitos na ‘Igreja em saída’, a serviço do Reino”. E o lema: “Sal da Terra e Luz do Mundo” (Mt 5,13-14). Não precisa explicar mais. O Reino acontece com a participação e a colaboração responsável, consciente e generosa de cada cristão e cristã. Somos todos membros ativos do único Povo de Deus, na diversidade dos dons e dos minist& eacute;rios, mas sempre em comunhão, diálogo e fraternidade. Para o bem de todos.


O rei e o astrólogo

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Conta-se que Luiz XI, rei da França, consultava os astrólogos. No entanto achava que o astrólogo da Corte o estava enganando e, por isso, estava disposto a condená-lo à morte. Mandou chamar esse astrólogo e disse-lhe:

– Vou lhe pedir uma previsão, e, caso você erre, será condenado à morte. Me diga: quando vai morrer? O astrólogo pensou bem antes de responder ao rei e depois disse:

– Três dias antes de Vossa Majestade. Na dúvida, de a previsão estar certa, ou não, o rei não matou o astrólogo.
Conhecer o futuro sempre foi e, talvez, será o desejo, a ilusão e o engano de muitas pessoas. Certas previsões deram certo, porque o que se esperava que acontecesse se realizou, mesmo, mas a grande maioria do que, segundo as previsões, devia acontecer foi esquecida, atropelada por outros eventos. Igualmente sempre haverá pessoas que gostam de arriscar fazendo apostas sobre o futuro desconhecido. Apostam nos sorteios das loterias, nas corridas de cavalos, nos jogos de futebol e do bicho. Às vezes ganham, mas, muitas mais vezes, a sorte passa bem longe delas.

No projeto de Deus, as previsões não servem, porque não se trata de adivinhar o que vai acontecer. Não sabemos nem o dia e nem a hora daquela que chamamos “a volta do Senhor” (Mc 13,32). O que serve é trabalhar para que o Reino se torne realidade e a esperança nunca deixe de nos apontar o caminho. A página do evangelho deste domingo, o penúltimo do ano litúrgico, nos traz essa reflexão. Inicia-se com palavras que envolvem as estrelas do céu caindo, mas depois tudo vira primavera, a estação que precede o verão. Após a temporada das folhas verdes, chegará o tempo dos frutos, o t empo da colheita. Só aguardar e saber reconhecer os sinais do novo que virá. A breve parábola da figueira está cheia de esperança e de fé. A natureza fará o seu curso e a alegria final não faltará. O tempo da história humana ainda não é o tempo da plena realização do Reino: precisa exercer a paciência da espera e o engajamento nessa obra de Deus.

Outro detalhe da página do evangelho deste domingo é a “tribulação” que é dita “grande”, espantosa. Ao contrário, os sinais de esperança são as pequenas folhas que começam a brotar. Com isso, fica mais fácil ser profetas de desventuras. Interpretamos, assim, os desastres que acontecem na própria natureza e anunciamos que o fim do mundo está próximo. Deveríamos ser testemunhas confiantes da paz e da justiça amorosa do Pai. Com efeito, como sempre, os sinais de bondade são pequenos, não chamam atenção e acontecem no silêncio e no anonimato do cotidiano, mas é justamente através deles que o mundo está mudando, a partir de lá, de baixo, e não de cima. Somos fascinados por coisas grandes, acontecimentos mirabolantes, eventos faraônicos. Mas o Reino, ensinou Jesus, é como a semente que ainda está escondida, ou como o fermento que desaparece para que toda a massa fique fermentada. Na realidade “o Filho do homem está próximo, às portas”, todas as vezes que algum gesto de amor é praticado. Porque é ele, o próprio Jesus, o “próximo” que ajudamos. É aquele que estava com fome, com sede, que estava sem roupa, sem casa, estava doente ou preso. São as pequenas obras de misericórdia, os pequenos atos de perdão, os “brotos” verdadeiros do Reino. Não basta, porém, cumprir gestos e obras exteriores, precisa “interiorizar” o Reino do am or, da justiça e da paz. Será o nosso coração amoroso que limpará o nosso olhar e nos fará enxergar os pequenos sinais do Reino. Igualmente, aprenderemos a exultar pelos pequenos passos dados, por nós, pelos irmãos e irmãs das nossas comunidades, pelas pequenas conquistas e libertações que acontecem nas pessoas e na história. Jesus ficou feliz, no Espírito Santo, porque o Pai revelou as coisas do Reino aos pequeninos e não aos sábios e entendidos (Lc 10,21). Para quem tem fé, o Reino, o novo da Páscoa, aos poucos, já está acontecendo. Não é uma aposta, é certeza. Não é revelação privilegiada, sonho ou adivinhação. É palavra do Senhor, palavra que não passará.


A caridade

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Certa dama muito rica desejava praticar a caridade de forma ampla e eficiente. Depois de refletir alguns dias, resolveu aconselhar-se com um amigo que considerava sábio e de bom coração.

– Tudo bem – disse o amigo – porém há uma caridade de primeiro grau, a que todos somos obrigados. Consiste em evitar que o próximo padeça por nossa culpa. A simplicidade e a sobriedade devem ser praticadas, porque diminuem a dor da espécie humana…. Enquanto a vaidade, a ostentação e o luxo a aumentam muito. Assim não se pode esquecer de que a legítima caridade começa pelos que estão mais próximos, entre os quais os mais humildes trabalhadores. Realizado tudo isso, se ainda mais for possível, iniciará outra caridade ainda maior.

A rica senhora escutou tudo e depois disse:

– Solicitei sua opinião sobre a melhor forma de empregar o meu dinheiro em obras de beneficência. Não pedi conselho sobre a minha vida.

– Acreditei – retomou o amigo – que se tratasse de vossa caridade, de vosso amor aos que sofrem. Vejo, porém, que toda a vossa dúvida está em como deveis empregar vosso dinheiro. Em tal caso, entendo que deveis consultar um homem de negócios. A essas palavras a madame resolveu pensar melhor.

Nos evangelhos sinóticos encontramos, muitas vezes, grandes ensinamentos de Jesus colocados dentro de um acontecimento aparentemente simples e comum. No entanto, o olhar de Jesus é diferente e sabe captar algo que passa despercebido aos demais. O evangelho de Marcos, deste domingo, é conhecido como aquele do “óbolo da viúva”. Tudo acontece no lugar mais sagrado para os judeus. O templo tinha o seu tesouro, fruto dos dízimos e das contribuições dos fiéis. Os devotos depositavam as ofertas no cofre. Evidentemente alguns ricos colocavam bastante dinheiro. Isso demorava e chamava a atenção. O doador esbanjava humildade, mas, no fundo, sabi a que estava sendo olhado pelos demais com admiração e talvez com inveja. Ao contrário, os pobres depositavam pouco e, obviamente, passavam despercebidos. Não foi o que aconteceu, porém, com a pobre viúva, talvez reconhecível pelo traje e pela atitude recatada. “Duas pequenas moedas, que não valiam quase nada” foi a oferta da mulher. Jesus viu e não perdeu a oportunidade de afirmar categoricamente que era ela, afinal, quem tinha doado mais do que todos os outros, pela simples razão de ter dado “tudo o que possuía” e não só o que lhe sobrava.

Para Jesus, a generosidade não se deve medir pelo tamanho da doação, mas por aquilo que custa de sacrifício e desprendimento. Como sempre, para os ricos, o muito não faz falta nenhuma, mas para o pobre o pouco é indispensável. Ter o coração e a capacidade de doar o necessário ao seu próprio sustento é sinal de suprema caridade.

Em época de noticiários onde bilhões e bilhões de dinheiro são badalados, porque gastos, desviados, perdidos, sem saber como ou devidos sem saber o porquê, vale ainda a pena falar das duas moedinhas da viúva? Na realidade, o exemplo dela é de uma atualidade espantosa. Primeiro, para aprender a avaliar a nossa própria generosidade não pela quantidade da oferta, que nos faria sentir orgulhosos, mas pela capacidade de desprender-nos daquilo que estamos doando. Quando queremos reconhecimento, gratidão ou uma placa com o nosso nome, dá para duvidar sobre o verdadeiro interesse da doação. A segunda consideração diz a re speito aos pobres. De onde vêm os bilhões dos ricos ou administrados pelos poderes públicos? Vêm da produção, do trabalho e dos impostos de milhões de pequenos contribuintes. Hoje existem capitais “virtuais”, digitais, que migram via internet de uma bolsa valores para outra, mas a riqueza real, aquela do dia a dia, tem rosto. Ainda é feita de milhões de pequenas moedas, é feita dos salários “mínimos” dos que sofrem para chegar ao final do mês. É feita de aposentadorias de idosos que mantêm a escola dos netos; de pobres fazendo coletas para uma cirurgia de alguém ainda mais pobre do que eles. Essa é a “economia” da caridade. A que vale aos olhos de quem sabe ver com o olhar do coração de Jesus. Não precisa de internet, basta o amor


O cientista e o jovem

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Um jovem estudante francês chamado Frederico Ozanam, passeando uma noite pelas ruas de Paris, entrou por acaso numa igreja. Não era incrédulo e nem fervoroso. Dentro da igreja viu um homem ajoelhado rezando. Por curiosidade, aproximou-se dele e ficou espantado ao reconhecê-lo: “É o professor Ampére!”, pensou. André Marie Ampére era realmente, naqueles tempos, o maior gênio da Escola Politécnica de Paris. Era o descobridor da eletricidade dinâmica e das leis básica do eletromagnetismo, que h oje chamamos de Equações de Maxwell. “Se um homem notável como este, um dos maiores cientistas do mundo, não se sente diminuído ou envergonhado ao demostrar a grandeza da sua fé, não vejo mais motivo algum para conservar o meu espírito envenenado pelo respeito humano!”, disse consigo mesmo o estudante Ozanam. Anos depois, foi Ozanam quem fundou, com um grupo de amigos universitários da Sorbonne, a grande sociedade de São Vicente de Paulo, conhecidos como Vicentinos.

 

Com essa anedota, por ocasião da solenidade de Todos os Santos e Santas, quero lembrar que a santidade é um chamado para todos os batizados. Manter viva a memória de cristãos leigos e leigas, “santos e santas”, na ajuda a fortalecer o nosso empenho a sermos, cada vez mais, corajosos com o compromisso da nossa fé, assumido no dia do nosso batismo.

 

Muitas vezes nos perguntamos se talvez não fosse mais fácil vivenciar a fé nos tempos passados, quando a sociedade toda parecia ser mais visivelmente cristã. Talvez alguns costumes ajudavam a cumprir as práticas religiosas, mas isso não significava que a luta do bem contra o mal fosse mais leve e vitoriosa. No campo do mundo (Mt 13,38), ou seja, na história da humanidade, sempre crescem juntos o joio e o trigo. Aos cristãos não cabe arrancar o joio, mas ser o bom terreno que acolhe a semente da Palavra e produz “ cem, sessenta, trinta por um” (Mt 13,8). Cada época tem as suas dificuldades e incertezas, mas também nunca faltou, e nem faltará, a presença misteriosa do Divino Espírito Santo, que age livremente dentro e fora da Igreja. Foi o que Jesus disse a Nicodemos, fazendo uma comparação entre o Espírito e o vento: “O vento sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem e para onde vai” (Jo 3,8). Nos nossos dias, por exemplo, a grande oferta de experiências religiosas, nas mais variadas denominações com relativa propaganda e proselitismos, pode confundir os católicos, mas, de outro lado, obriga-nos a exercer a nossa liberdade de escolha e de engajamento.

 

Refletindo bem, a verdadeira santidade nunca foi, ou será, somente uma questão de costume, banal e repetitivo, porque nunca ninguém foi obrigado a ser santo ou santa. Sempre foi, e será, uma decisão pessoal, uma resposta consciente, livre e generosa. Isso não quer dizer que a santidade seja privilégio de poucos. Não, ela é um chamado para todos, mas o cristão comprometido com a sua fé receberá críticas, encontrará desafios para acertar o caminho, poderá ganhar desonra, zombaria e martírio. Nada de novo para quem não se deixa atrair pelas modas, as conveniências, as telenovelas e os shows em templos lotados com pregações cheias de promessas ou ameaças retumbantes. Também os possíveis escândalos dentro da nossa Igreja não devem nos surpreender demais. Quando deixamos de vigiar sobre nós mesmos e sobre os nossos irmãos, por caridade fraterna, todos podemos vacilar e cair. A santidade sempre foi, e será, muito mais feita de humildade, silêncio, caridade sem tocar os sinos, amor dispensado por gratuidade. Santidade combina mais com sacrifício e doação da própria vida que com o sucesso humano, construções grandiosas e fama mundial. Se a Igreja aponta alguns irmãos e irmãs como santos e santas é para nos ajudar com os seus bons exemplos. A santidade é possível, sim. Mas o reconheciment o e a recompensa sempre serão prerrogativa do Pai. Esta será a pergunta dos justos: “Quando foi Senhor?” (Mt 25,37ss). Eles amaram sem tantas preocupações porque o que vale mesmo na vida é o amor. Foram santos e santas!