Hospitalidade para os cavalos

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Dois jovens, dotados de grande saber, peregrinavam pelos caminhos da terra, mal trajados e obscuros. Certa noite, chegaram numa cidade e ninguém quis dar-lhes pousada, exceto um pobre homem chamado Aarão. Anos depois, os dois tinham colocado a bom fruto os seus saberes e chegaram novamente naquela cidade. Dessa vez, porém, numa carruagem bonita e bem trajados. O homem mais rico da cidade logo ofereceu-lhes hospitalidade, mas os dois recusaram e se dirigiram à casa do pobre Aarão. O ricaço protestou, mas eles responderam: “Somos as mesmas pessoas a quem não destes a menor atenção, quando passamos por aqui, alguns anos atrás. Dá para entender que o vosso acolhimen to, hoje, não é propriamente para nós, mas para a nossa roupa e a nossa carruagem. No entanto, estamos dispostos a aceitar a vossa hospitalidade para os nossos cavalos”.

No evangelho deste domingo, encontramos mais uma parábola de Jesus. É bastante complexa na sua apresentação, visto que, talvez, confluam nela várias mensagens com objetivos diferentes, além da polêmica com os sumos sacerdotes e os anciãos do povo, que já encontramos nos domingos passados. Afinal, foram eles que condenaram Jesus. O pano de fundo é a festa de casamento do filho do rei. A festa, em si, é sinal do reino dos céus que só pode ser algo bom, alegre, com fartura de alimentos e bebidas. Uma festa também que, além de ser das mais requintadas, devia ser a mais cobiçada, por ser o convite a participar um sinal de honra e des taque. Digamos que somente pessoas seletas podiam entrar na festa. No entanto, eis aqui a primeira surpresa, os convidados não quiseram participar, não deram a menor atenção. Cada um continuou cuidando dos seus negócios e alguns maltrataram os que levavam os convites. Nessa versão da parábola, o rei considera a recusa e a violência dos primeiros convidados como uma afronta e manda destruir as cidades daqueles assassinos. “Eles não foram dignos”, comenta o rei.

A festa de casamento está pronta e, assim, outros são chamados a participar. Dessa vez, eis a segunda surpresa: nada de privilégios ou condições especiais. Todos vão ser convidados – os maus e os bons. Tal é a magnanimidade do rei, quer que a sala da festa fique cheia. No entanto eis a terceira surpresa, uma exigência: o traje de festa. Foi um pedido inesperado ou algo óbvio? Como pretender entrar na festa do casamento do filho do rei sem o traje adequado? À pergunta do rei, o “amigo” não sabe responder. Por isso, será severamente punido. Por fim, a frase enigmática: “Porque muitos são chamados, e poucos os escolhidos” (Mt 2 2,14).

Como já adiantei, nessa parábola confluem diversas mensagem: a recusa do povo eleito – os primeiros convidados – e o anúncio do evangelho feito aos pagãos, a todos: maus e bons. Esta era, provavelmente, a experiência da comunidade onde foi escrito o evangelho de Mateus: conviviam cristãos, que vinham do judaísmo, e outros do paganismo. Convivência nada fácil, cheia de avanços e recuos: saudade do rigor da Lei de um lado e conversões sinceras e livres do outro. Talvez o “traje” nos ajude a entender, digamos, o fio da meada. Afinal, o chamado é oferecido a todos, o Pai quer a sua “casa” cheia e alegre. A resposta, porém, cabe a cada um dos convidados. É possível recusar por achar o convite inútil ou, simplesmente, não entender nada do que aconteceu, não perceber a grandeza do convite, a maravilha de estar na festa do reino. Podemos pensar naqueles que não querem nada com Deus e com sua proposta de vida; acham que outras ocupações são mais importantes. Pensamos também naqueles que se consideram cristãos, católicos, mas, no fundo não gostam, acham tudo sufocante, exigente, enjoado. Estão na missa, distraídos e sempre olhando o relógio. O conforto é mais importante que a Palavra de Deus. A animação, vale mais que a Eucaristia. No fundo, não fazem o menor esforço para entender o que está acontecendo. O “traje” pode representar as condições mínimas para responder ao chamado do Pai com a gratidão de quem recebeu u m grande presente e não como alguém empurrado, conduzido por lá pelas circunstâncias da vida, sem graça, sem entusiasmo, sem consciência.

O “traje” distingue os homens que pensam dos animais. Aos cavalos da história interessavam somente o feno e a palha, qualquer lugar era bom. Os sábios buscavam algo mais: a acolhida sincera. Por isso, mostraram gratidão ao pobre que os acolheu a primeira vez.


A festa do Círio

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O Círio é sempre uma festa. A multidão acompanha, reza, canta, muitos choram. Outros estendem as mãos para a pequena imagem que passa. Todos têm um pedido, uma oração, para fazer à Maria. Difícil resistir. Algo de mais forte nos leva a dizer abertamente ou no silêncio do nosso coração: Nossa Senhora, ajude-nos, ajude os seus filhos! Pedir, não é humilhante. Menos, ainda, quando suplicamos a quem nos conhece, nos ama e na qual podemos confiar. É reconhecer o tamanho das dificuldades e admitir a nossa fragilidade. É uma maneira também de dizer a nós mesmos que não queremos desistir, que ainda acreditamos num mundo melhor. Às vezes, porém, falta-nos coragem e clareza nos rumos a serem tomados. Por isso imploramos. De cabeça erguida, porque não queremos soluções milagrosas, algo de extraordinário, que nos dispense do nosso compromisso de lutar pelas causas justas.

À Maria, a pequena mulher de Nazaré, pedimos a força de acreditar no Deus que nunca abandona os seus amigos, que sempre realiza as suas promessas, que faz a sua parte, enviando o seu próprio Filho Jesus, pronto a morrer na cruz, para resgatar uma humanidade confusa e infeliz. Nossa Senhora, Maria de tantos nomes, respondeu com alegria o seu sim ao projeto de Deus, à vontade dele, conforme a sua palavra. Esse é o caminho certo, o caminho da vida plena. Precisamos de um pouco mais daquela clareza e daquela coragem que ela teve. Talvez seja esse o legado que o Ano Nacional Mariano, que está chegando ao seu fim, possa nos deixar.

Clareza não é só saber para aonde ir, é saber, antes, para aonde não ir. Os caminhos da corrupção e da violência devem ser deixados de vez. Se alguém ganhou com as propinas – talvez um dia ainda saibamos quem e quanto – com certeza o povo perdeu, as instituições perderam, todos ficamos mais pobres. Uma dinheirama sumiu e a busca da justiça não está ficando barata. Também projetos e medidas que ferem os direitos dos trabalhadores, dos povos indígenas e o equilíbrio da floresta, podem ser atos violentos ou abusivos. Para reverter certos costumes poluídos, pr ecisa implantar outros, baseados na honestidade e no bem comum. Vale para todos, grandes e pequenos.

Parece que estejamos esquecendo alguns dos mandamentos fundamentais para uma convivência social pacífica e saudável, como: “não matarás, não roubarás, não levantará o falso”. Antes de qualquer lei humana, que abre tantas brechas, deve ser a nossa consciência a respeitar a vida, a verdade e os bens dos outros. Quando a mentira se torna propaganda, o desvio de dinheiro público é quase legalizado e a vida vale menos do que um celular, é sinal que está faltando luz para enxergar as metas do nosso avançar. Para aonde queremos ir, afinal? É possível encontrar o caminho sozinhos ou só é possível acertá-lo juntos? Precisamos de muita coragem para abrir trilhas novas. Urgem desbravadores para abrir estradas na selva de indiferença das nossas cidades; trabalhadores para construir pontes que nos façam encontrar de novo os irmãos; tocadores que nos lembrem a gratuidade e a poesia da natureza, dom do Criador para os seus filhos.

O Papa Francisco nos lembra que a paz, a justiça e o bem, são trabalhos artesanais. São feitos pelas mãos e os pés de muitos, alcançados com os pequenos passos dados no dia a dia, com o cuidado, a paciência, o bom gosto e muitos sorrisos. Todo artesão sabe que precisa trabalhar, suar, acreditar que as situações erradas podem mudar e algo novo vai surgindo. Na realidade, para nós cristãos, o “novo” é sempre o mandamento de Jesus, o amor. É antigo e está escrito no coração de cada ser humano que tenha vontade de se olhar por dentro e tenha a coragem de sair e m busca dos seus irmãos.

Nazaré, Fátima, Aparecida, qualquer seja o “nome” que damos a Nossa Senhora, qualquer seja a devoção e o carinho que temos por ela, pedimos a sua intercessão. Queremos que o Círio do Ano Nacional Mariano, seja o Círio do “sim” da esperança para os pequenos, da força para os desanimados, da coragem para retomarmos juntos o caminho certo. Forte como o “sim” de Maria.


O cavalo bravio

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Um camponês simples, sincero e de bom coração, foi desabafar com o seu pároco. Estava triste porque sentia um mau impulso que o dominava e o arrastava sempre ao pecado.
– Sabes montar a cavalo? – perguntou-lhe o padre.

– Sei – respondeu prontamente o homem – e sou muito bom nisso. Sei até lidar com cavalos bravios.
– O que fazes se, por acaso, cair do cavalo, vais desistir?
– Nunca! Eu monto nele outra vez – rebateu o camponês, tranquilamente e com certo orgulho, como alguém acostumado com a lida.

– Pois bem: faz de conta que o teu mau impulso seja o cavalo – falou o padre com ar de inteligência – se caíres, outras vezes, nunca desiste, começa sempre tudo de novo. Deus tem mais paciência do que nós. Um dia amansarás o teu impulso!

Neste domingo, encontramos mais uma parábola de Jesus. De novo alguém precisa trabalhar numa vinha. Dessa vez, os trabalhadores convidados são os dois filhos de um homem. O primeiro, pelas suas palavras, recusa-se a ir para a vinha, mas, depois, arrepende-se e vai. O segundo declara prontamente a sua obediência, mas não sai para trabalhar. A parábola acaba aqui. Jesus a complementa com uma pergunta polêmica aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, seus ouvintes: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” Eles, sempre em busca de pegar Jesus em alguma contradição, percebendo ou não a esperteza dele, respondem o certo: “O primeiro”. Com efeito, esse filho, apesar de ter declarado o contrário, foi o único a obedecer ao pai. Jesus aproveita da resposta deles e não perde a oportunidade para desmascarar a dureza dos seus corações. Eles se parecem mesmo com o segundo filho. Disse palavras bonitas, mas, na prática, não deu ouvido ao chamado do pai. Ao contrário, os cobradores de imposto e as prostitutas, julgados por eles tão pecadores, acreditaram na pregação de João Batista, arrependeram-se e mudaram de vida.

Daqui para frente, o embate entre Jesus e os chefes do Templo e do Sinédrio se fará, cada vez mais, acirrado. O desfecho será a condenação à morte dele na Cruz. Uma briga desigual que a Jesus, porém, não interessa vencer. No Calvário, perdoará a todos. O Filho que o Pai enviou aceitará ser contado entre os malfeitores, será vítima inocente de um processo manipulado, “pecado” com os pecadores e morrerá por amor para salvar a todos. Ele tomará o remédio amargo da Paixão para que os doentes pudessem ser curados uma vez por todas. O que preocupa Jesus, também quando usa palavras duras e polêmicas, é a incredulidade daqueles que deviam ser os mais atentos, os mais próximos e preparados. A questão é que, para procurar o médico e pedir a cura, todos precisamos reconhecer que estamos doentes. Quem só vê os erros dos outros e os condena sem piedade em nome de uma Lei divinizada, dificilmente reconhecerá as suas próprias dificuldades, desobediências e hipocrisias.

O interessante da parábola é que os dois são igualmente filhos, porque só assim pode ser para um pai. Nem o desobediente deixa de ser filho. As palavras de Jesus sempre foram, e sempre serão, para todos. O convite é dele, mas a resposta é nossa, de cada filho. A diferença entre os filhos depende das nossas respostas para participar do Reino. Ninguém é forçado ou obrigado. O Pai não é um patrão explorador, deixa livres os seus filhos. Tão livres que podemos aceitar ou não, mas também podemos nos arrepender e fazer, outra vez, o que, no momento, tínhamos recusado. Só a Paciência e a Misericórdia do Pai podem ser tão grandes e nos dar tantas chances. Que bom seria sempre responder ao chamado com presteza e gratidão. Que bom seria abraçar a causa do Reino, sem julgar os acomodados e os atrasados, mas também sem nos achar indignos por causa dos nossos defeitos e pecados. Na vinha do Senhor tem trabalho para todos. A participação na comunidade de Jesus já é cura, é ar novo, horizonte novo para quem vivia afastado, às margens, porque se considerava melhor do que os outros ou, ao contrário, inútil para o serviço do Reino. A experiência de cair faz parte da vida de todos. O que vale é nunca desistir e sempre recomeçar.


O cantar do galo

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Um ganso pertencia a um dono pobre e despreocupado. Sofria muita fome, porque se esqueciam de lhe dar de comer. Um dia, o dono comprou um galo e o fechou no mesmo galinheiro. O ganso ficou assustado ao ver o novo companheiro e, todo triste, disse-lhe:

– É agora que vou morrer de fome! Seremos dois a repartir a minha pobre ração.

– Não chore não – respondeu o galo – quando tenho fome eu sei cantar para lembrar ao dono a hora da ração. Assim, ambos comeremos!

O evangelho deste domingo nos traz a parábola do patrão que chamou operários para trabalhar na sua vinha. Até cinco horas da tarde, ainda convidou homens para o trabalho. Quando chegou o momento de pagar os trabalhadores, o dono deu a todos a mesma moeda de prata, a recompensa estabelecida por uma diária de serviço. Os primeiros operários, contratados de madrugada, reclamaram pelo o que eles achavam ser uma injustiça. Quem trabalhou menos, devia receber menos. Que justiça era aquela do patrão? A resposta do senhor da vinha não foi uma justificativa. Foi uma declaração de liberdade. Os primeiros não podiam reclamar, tinham sido contratados por uma moeda e estavam recebendo o certo, se, depois, o dono queria dar o mesmo aos demais trabalhadores, que haviam chegado depois, não estava ele livre de fazer o que queria com o seu dinheiro? A sua generosidade não deveria ser motivo de inveja, mas de surpresa e admiração.

Já disse que as parábolas de Jesus nunca são a simples apresentação de uma experiência ou de um costume daquele tempo. Sempre tem algo de novo que devemos descobrir e que torna as parábolas sempre atuais e desafiadoras. Nesse caso, a contraposição está entre um tipo de justiça, que nós chamamos de retributiva, e o jeito do dono da vinha agir. O que parece injusto, no critério do mérito, serve para tornar ainda mais surpreendente a bondade daquele patrão tão diferente e por nada aprisionado em medidas legalistas. Isso não quer dizer que as leis do trabalho não devam ser respeitadas e que o esforço de quem fadigou mais não mereça mais recompensa. A questão é outra , porque a vinha, os trabalhadores, os horários e o pagamento são todas comparações para entendermos a novidade do reino dos céus. Jesus quer nos dizer que os critérios do Pai, o dono da vinha, são diferentes das leis comuns e daquilo que, normalmente, esperamos. No “reino”, todos são filhos do Pai e ele gostaria muito que todos entrassem na sua vinha, nem que fosse na última hora. Na “vinha” estão a vida e a paz, o encontro entre todos os diferentes, primeiros e últimos. Pouco importa. O que vale é o estar juntos ao coração amoroso, misericordioso e compassivo do Pai. Não tem melhor recompensa e a comunhão com Deus será a única alegria igual para todos, superando todas as nossas mesquinhas divisões, separações e discriminações. Todos “filhos” amados pelo Filho e no Filho que o Pai enviou a chamar, a convocar, a servir e a dar a vida pela causa do “reino”.

Atualizando a Palavra. Por que a inveja dos primeiros operários? Por que acharam que mereciam mais? É porque cada um queria desfrutar sozinho o pagamento, o prêmio. O dono viu a divisão entre eles e não lhe restou que dizer a cada um: “Toma o que é teu e volta para casa!”. Mas não era isso o que ele queria. O Pai teria gostado muito que, ao final daquela jornada fadigosa, todos se abraçassem e pudessem celebrar juntos o fruto do seu trabalho, sem mais últimos ou primeiros. Só irmãos, na difícil missão de construir o reino dos céus, o reino do amor. Continuamos egoístas e gananciosos. Continuamos a pensar que a festa da vida será mais bonita se festejarmos sozinhos. Temos medo de ficar sem comida, s em conforto, sem privilégios. Continuamos invejosos uns dos outros. Deus nos entregou um jardim que daria para todos o necessário e algo mais. Bastaria partilhar mais as riquezas do planeta, da tecnologia e das conquistas da ciência. Usamos tudo isso para construir armas, para matar, não para festejar! A ração cotidiana não é tão fraca e o dono não é tão esquecido. Quem o galo deve acordar não é o dono, somos nós.


A esposa obediente

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Certa vez, um sábio e bom mestre voltava para a sua casa, acompanhado por alguns dos seus discípulos. Eles conversavam, descontraídos, sobre os acontecimentos daqueles dias. Ao dobrar uma esquina, uma mulher saiu ao seu encontro e despejou na cabeça do mestre um balde de água suja. A agressora foi logo reconhecida como a esposa daquele que todos sabiam ser o maior inimigo do sábio, o mais rancoroso e vingativo. Os discípulos ficaram revoltados e sugeriram ao mestre punir exemplarmente a atrevida. O mestre, porém, não deixou e lhes disse: “Não castigueis essa mulher. Com certeza ela agiu assim contra mim por ordem do marido; logo, reconheçamos que ela é uma esposa obe diente. Apesar de tudo, devemos admirá-la!”.

Com o evangelho deste domingo continuamos a refletir sobre o ensinamento de Jesus a respeito do perdão. Ele responde à pergunta de Pedro: “Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21). Antes de contar a parábola do servo cruel, Jesus responde a Pedro propondo o estranho número de “setenta vezes sete”. Para entender essa quantia, precisamos voltar atrás na Bíblia. Encontramos algo semelhante em Gênesis 4,23-24. Lamec diz aos seus familiares: “Matei um homem por uma ferida, um jovem por causa de um arranhão. Se Caim for vingado sete vezes, Lamec o será setenta e sete vezes”. A matemática b&ia cute;blica pode não bater com a nossa, mas o sentido é o mesmo, com a diferença que, no caso de Lamec, o assunto é o castigo e a vingança, ao passo que Jesus está falando de perdão. Aquela punição tão desproporcional deve ser substituída por uma misericórdia igualmente sem cálculos.

Sabemos, também, que a “justiça” que Jesus propõe no discurso do monte vai além do “olho por olho, dente por dente” (Mt 5,33-37). A “justiça” de Deus se chama misericórdia e o seu perdão é grande, sem limites. Essa é a novidade do evangelho. Não é uma justiça “sem lei”, onde tudo parece ficar impune. O pecado continua algo de errado, nunca vai se tornar um bem! É a justiça que é nova. O remédio para o erro e o pecado não será mais a punição, mas será o perdão. É um caminho longo e difícil, mas não tem outro se acreditamos na possi bilidade real da nova humanidade dos filhos do Pai Misericordioso. Esse Pai está pronto a perdoar todas as “dívidas” – os nossos pecados – também quando são de tamanho e gravidade diferente. No entanto, Ele nos pede para aprender, também, a perdoar aos nossos devedores. Só implorar o perdão dele para os nossos pecados e não saber exercer a compaixão e a misericórdia com os irmãos é oração interesseira e dureza de coração. Todos devemos perdoar, porque já fomos muito perdoados. Esse é o sentido da parábola dos dois servos endividados. Ao primeiro é perdoada uma dívida inimaginável e, portanto, impagável: algo como trezentas toneladas de ouro ou de prata. Um absurdo! A dívida do companheiro era somente de alguns meses de trabalho, valendo a diária de uma moeda de prata. A irrita&cc edil;ão do rei é compreensível, porque o primeiro empregado não soube, por sua vez, perdoar a dívida bem pequena do colega. Infelizmente, não aprendeu nada com a bondade desfrutada.

Acredito que, a cada dia, descobrimos como a justiça humana é difícil de ser praticada e administrada. É costume dizer que a “justiça de Deus tarda, mas não falha”, mas o que pensar da justiça humana que, além de demorar, ainda nos parece tão falha, cheia de meandros, entraves e justificativas? Como cristãos, porém, não podemos desistir. Buscaremos leis mais justas e equânimes, procuraremos educar a consciência dos cidadãos ao respeito dessas leis, contribuiremos para a recuperação dos encarcerados, através de um sistema penitenciário capaz de redimi-los e reintegrá-los nas suas famílias e na sociedad e. No entanto nunca deixaremos de acreditar na possibilidade do ser humano de retomar o bom caminho. O perdão sempre será o início de uma nova etapa de vida, fruto do infinito amor de Deus e do nosso, ainda tão limitado e vagaroso. Em todos devemos reconhecer algo de bom, também se obedeceram a algo de errado? Quem sabe?


Jogando xadrez

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O velho padre da paróquia tentou ajudar um pecador a emendar-se. Convidou-o para uma partida de xadrez, um jogo do qual sabia que ambos gostavam. Durante a partida fez um movimento errado. O homem ia aproveitar-se do engano, mas o padre pediu para desculpá-lo, dizendo que prestaria mais atenção na próxima vez. Pouco depois, porém, errou de novo. Desta vez o adversário se negou a relevar a falha. Disse-lhe então o padre, com a maior simplicidade: – Amigo, ficas tão irritado com o teu parceiro que cometeu dois erros numa partida de xadrez. No entanto, não faz nada para mudar a tua conduta e merecer que Deus perdoe os teus grandes pecados -. O homem entendeu, ficou cheio de remorso e prometeu corrigir-se.

O assunto dos evangelhos deste e do próximo domingo será o perdão dos pecados. Jesus inicia ensinando aquela que nós chamamos de “correção fraterna”. Em geral, quando entendemos que alguém quis, deliberadamente, nos ofender, agredir ou prejudicar, a nossa resposta instintiva é nos defender e revidar. Exigimos respeito para nós e os nossos direitos. Já sabemos, porém, que com a nossa resposta, mais ou menos agressiva, poderemos dar início a uma grave espiral de violência ou, no melhor dos casos, a uma troca de acusações e calúnias recíprocas.

Qualquer briga se espalha facilmente nas redes sociais. É difícil controlar a impaciência, manter a voz baixa e não nos deixar tomar pela cólera. Quando os ânimos são exaltados, parece cada vez mais impensável sair da disputa. Muitas grandes confusões começaram por pequenas e irrelevantes ofensas. “Amigos” e familiares entraram no confronto e tudo virou uma questão de honra a ser lavada, às vezes, com o sangue dos contendentes. Quem apoia é amigo, quem não concorda, ou tenta apaziguar os ânimos, é taxado de inimigo. O mundo fica só preto ou branco. Desaparecem as cores das outras opções possíveis e mais sensatas.

Conhecedor do coração humano, Jesus nos diz logo de procurar o irmão que pecou contra nós. “A sós”, em particular; para esclarecer a situação e chegar a um acordo. Se isso acontecer, tudo irá acabar em paz, com um abraço fraterno, na amizade e na gratidão pelo perdão e a reconciliação. Pode ser, porém, que seja necessária alguma testemunha; não para humilhar quem errou e que não consegue reconhecer a sua culpa, mas para aconselhar, esclarecer os maus entendidos, ajuda-lo a assumir o compromisso de mudar. Se tiver boa vontade e valor a palavra dada, ainda daria tempo para uma solução pacífica. No entanto a questão pode ir mais longe A terceira tentativa de paz &eac ute; aquela de denunciar o culpado à Igreja-comunidade para que todos roguem a Deus por ele.

Se ainda o irmão não reconhecer a sua culpa e insistir no erro, o último passo será, infelizmente, o afastamento dele da própria comunidade. Um “desligamento” forçado, na espera que a pessoa chegue a pedir de ser “ligada” de novo na terra, para ser acolhida em paz também com o perdão do Pai do céu. A porta do perdão e da misericórdia deverá ficar sempre aberta. A comunidade rezará pelo irmão afastado, pedindo a Deus que ele sinta saudade dos demais, entenda o mal causado pela sua conduta e volte à casa paterna.

Para que tudo isso aconteça são necessárias duas condições. A primeira é aquela que existam comunidades que prezem pelos seus membros, que não queiram perder ninguém e que saibam acolher de volta quem se afastou. A segunda é que tenhamos a clara percepção da gravidade do pecado como algo que fere e machuca não somente uma ou outra pessoa, mas toda a Igreja-comunidade. Esta é o “Corpo de Cristo” visível na história, onde podemos reconhecer e encontrar Jesus vivo. Qualquer conflito e divisão desfigura o seu rosto.

Quem se preocupa com isso? A nossa consciência de fraternidade e de pertença à comunidade é fraca. Qualquer pequeno atrito é motivo para o afastamento. Se ninguém vai procurar a pessoa para pedir-lhe desculpa ou saber o que aconteceu, a separação está feita. Sem volta e sem remorsos. Fé jogada fora. Talvez bastaria uma partida de xadrez para reconhecer que todos podemos errar, na Igreja também.


O corte perfeito

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Certo homem foi nomeado mandarim na China, uma espécie de conselheiro. Envaidecido, pensou em mandar confeccionar roupas novas. Para isso, um amigo lhe recomendou um alfaiate que sabia dar o corte perfeito à roupa de cada cliente. Depois de tomar nota de todas as medidas necessárias para o serviço, o homem perguntou:

– Há quanto tempo o senhor é mandarim?

– Ora, o que tem a ver isso com a medida da minha roupa? – respondeu o mandarim.

– A informação é importante – continuou o alfaiate – porque quando o mandarim é um recém-nomeado, ele fica tão deslumbrado com o cargo que anda com o nariz empinado. Nesse caso, eu preciso fazer a parte de frente maior do que a de trás. Depois de alguns anos, ele ocupa-se cada vez mais com seu trabalho. Torna-se sensato e olha para frente para ver o que vem na sua direção. Para esse eu costuro um manto de maneira que fiquem iguais a parte de frente e a de trás. Mais tarde, o corpo dele fica encurvado pela idade e pelos trabalhos cansativos. Sem falar da humildade que adquiriu ao longo da vida. Esse é o momento de fazer a parte de trás mais longa.

O mandarim saiu da loja pensando muito nas palavras daquele sábio alfaiate.

No evangelho de domingo passado, Jesus declarava Simão Pedro “feliz”, porque o Pai o tinha ajudado na resposta à pergunta sobre a sua identidade. Em seguida, no evangelho deste domingo, Jesus diz ao mesmo apóstolo para ficar longe dele e o chama de “satanás”. O que foi que aconteceu para ele usar palavras tão pesadas? Foi só Jesus falar de sofrimento e de morte que todas as ideias, que circulavam anteriormente entre os discípulos, de um “messias” poderoso e triunfador, desmoronaram. Ainda pensavam que o “reino” do “messias” vindouro era mais ou menos semelhante aos reinos deste mundo. Com isso, Mateus quer nos dizer que não bastou proclamar Jesus Senhor, Cristo, Salvador e tudo o mais. O que importava mai s era entender como ele realizaria aquela “salvação”.

O evangelista – que escreveu anos depois dos acontecimentos – não esconde a dificuldade dos discípulos de todos os tempos de entender as provações que estavam aguardando Jesus no seu caminho rumo a Jerusalém. Tudo, palavras, gestos e sinais davam a entender que ele era o grande esperado. Então, por que demorava tanto a instaurar o novo “reino”? Por que os anciãos, os sumos sacerdotes e os mestres da Lei o matariam em lugar de aclamá-lo rei? Justamente agora, que começavam a sonhar com poder e grandeza, Jesus foi falar de sofrimento, morte e de uma ressurreição tão inacreditável e incerta. O que tinha de errado em desejar uma vida mais cômoda e confortável? Será que tinham deixado t udo em troca de nada? Esta era e sempre será a maior e mais difícil questão que, pessoalmente e como Igreja também, qualquer um que queira ser discípulo de Jesus deve resolver.

O “tesouro” da parábola ou “a vida” da qual fala o evangelho deste domingo, não são coisas materiais e vantajosas do ponto de vista “mundano”. Jesus aponta para outras riquezas e outras alegrias. Segundo ele, esses “outros” bens valem mais do que a própria vida temporal. Essa, iremos perder com a nossa morte. Mas o “sopro” de vida divina, que está em nós, continuará junto de Deus Pai, aquele que é a Vida, mas também é o Amor, a Paz, o Bem único e mais precioso que a posse do mundo inteiro.

Quem aprendeu a não desejar alegria somente para si, mas a doar amor e vida mais digna aos irmãos desprezados, pobres, sofredores e esquecidos, experimentará, já neste mundo, um pouco da própria “vida” de Deus. Todos, sempre, teremos a tentação de estar do lado de Jesus para ter alguma vantagem imediata. Numa sociedade que exalta os ricos e os poderosos, quem se dispõe a seguir um “mestre” pobre que morreu crucificado? Ele foi um perdedor ou o único que pode nos salvar das loucuras do poder e da ganância humana, sempre causa de injustiça, exploração, escravidão, corrupção e morte? Nem para Pedro foi fácil aprender a lição. Acreditar que a vitória d o amor de Deus passa pela derrota da cruz sempre será um dom que devemos pedir ao próprio Jesus.


A mercadoria mais preciosa

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Certa vez, um homem sábio viajava num navio com vários comerciantes. Um deles, bisbilhoteiro, perguntou-lhe:
– São muitas as mercadorias que o senhor leva?

– São muitas, sim, preciosas, e… não tenho nenhum medo do mar! – respondeu imediatamente o sábio.
Na realidade, ele não tinha nenhuma caixa no porão do navio e o indiscreto mercador sabia disso. Achou aquele sábio ingênuo e riu dele, espalhando a conversa com os demais passageiros. Aconteceu, porém, que o navio naufragou. Todos eles, a muito custo, salvaram suas próprias vidas. Todas as mercadorias se perderam. Foram para o fundo do mar. Os sobreviventes, arruinados, foram pedir esmola pelas ruas da cidade portuária. Cada um contava a sua história. Assim, alguém convidou o sábio a prof erir uma palestra sobre um assunto muito discutido, naquele momento, na cidade e ele mostrou tanto conhecimento da questão e de tantas outras ciências, que logo lhe ofereceram a vaga de diretor da escola principal com direito a um excelente salário. Os comerciantes, na miséria, foram implorar a ajuda dele para a viagem de volta e ele, prontamente, os socorreu. No fim, o comentário deles foi unânime: “De verdade este homem carregava uma mercadoria muito mais preciosa do que a nossa. Ele a levava consigo e nada perdeu da sua sabedoria!”.

No domingo no qual escutamos, novamente, o evangelho da chamada “confissão” de Pedro, lembramos também o serviço dos e das catequistas nas nossas paróquias e comunidades. Jesus diz a Pedro que aquela clara profissão de fé não lhe veio da sua inteligência. Foi Deus Pai que o ajudou a reconhecer naquela pessoa tão humana quanto ele, o Messias, o Filho de Deus vivo. Quando falamos das coisas da fé, usamos também da nossa inteligência, porque precisamos de palavras con hecidas por nós que nos permitam formular o nosso pensamento. No entanto, o assunto do qual falamos vai além de todas as nossas palavras e definições. Nós cristãos não acreditamos simplesmente em declarações sobre Deus, por mais bonitas e bem elaboradas que sejam. Essas servem para tentar dizer algo que, porém, sempre ficará muito além do nosso palavreado e até da mais fina teologia. Se o nosso Deus fosse somente um conceito filosófico, caberiam n’Ele as nossas palavras. Seríamos nós a ajustar o seu tamanho e a dizer como Ele é ou pensamos que seja. O Deus da Revelação, o Deus Libertador da Antiga Aliança, o Deus Pai de Jesus Cristo não é um conceito, é um Ser vivo, amoroso e misericordioso. Podemos encontrá-lo e conhecê-lo porque Ele mesmo se deu a conhecer. Contudo Ele sempre estará al&eac ute;m das nossas limitações humanas. A fé nunca será o óbvio resultado da explicação de uma bela doutrina. A fé é um longo percurso de descoberta, de experiência, de oração e, sobretudo, de pedido ao Pai para que Ele mesmo se doe a nós, abra sempre e de novo o nosso coração e a nossa inteligência à confiança, ao desejo de mergulhar no seu amor infinito.

A missão insubstituível dos e das catequistas, é a missão da própria Igreja-Comunidade: ensinar os caminhos da fé, mas, sobretudo, viver e testemunhar essa fé na comunhão, na memória viva das maravilhas do Senhor, no compromisso generoso na construção do Reino. A fé é um “dom” que precisamos desejar e pedir. A Catequese prepara a criança, o jovem e o adulto ao grande encontro pessoal com o Senhor, a fazer a própria profissão de f&eacut e;. O “Nós cremos” contribui, mas não substitui o “Eu creio”. Também não é simplesmente o conjunto de todas as profissões de fé pessoais. O “Nós cremos” é o resultado da alegria de nos encontrarmos todos no Nome do Único Senhor Jesus, constituindo, como a primeira comunidade ideal “um só coração e uma só alma” (At 4,32). O dom da fé não deveria ser uma mercadoria que podemos perder ou deixar para trás em alguma etapa da vida. Deveria ser um verdadeiro e grande bem que levamos sempre conosco. O único bem que não se perde nas tempestades da vida e que, olha lá, podemos levar conosco até ao encontro com o Senhor.


A glória de Maria

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Tomo emprestada a história milagrosa do escravo Zacarias, que encontrei numa cartilha de Novena do Tricentenário de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. “O escravo Zacarias estava sendo reconduzido à fazenda de onde fugira, em Curitiba, Paraná. Preso por grossas correntes, ao passar perto do Santuário, Zacarias pediu ao seu feitor que o deixasse rezar na porta da Capela da Santa Aparecida. Recebendo a autorização, o escravo ajoelhou-se e rezou uma prece sentida. O que teria pedido? De seus pedidos não sabemos, mas sabemos a resposta que a Virgem Negra lhe deu: as correntes milagrosamente se soltaram, deixando-o livre e feliz.”

Neste domingo de agosto, celebramos a solenidade da Assunção de Maria ao céu. O “dogma” da Assunção foi definido no ano de 1950, durante o pontificado de Pio XII. Somos convidados, pela Igreja, a acreditar que Maria, pela singular e única condição de ter sido a mãe de Jesus, participe antecipadamente da glória e da alegria da ressurreição. Essa participação foi, também, prometida para todos aqueles que acreditarem no Senhor, mas somente no “último dia” (Jo 6,54). Um privilégio , então, de Maria. Sem dúvida, mas somente na antecipação de algo que todo crente aguarda com esperança e fé. Neste Ano Mariano Nacional, queremos mais ainda aclamar a glória de Maria. São cerca de 13 milhões os peregrinos que, a cada ano, visitam o Santuário Nacional de Aparecida. Não é só aquela “imagem” pequena e escura que atrai tantas pessoas: é a fé, a confiança, a simplicidade de poder chamar Maria de “mãe”, depois daquelas palavras de Jesus na cruz: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19,26).

Ser mãe significa gerar e defender a vida. É um compromisso, mas, sobretudo, uma missão. Cada dia mais, entendemos que não basta colocar um ser humano no mundo. A gestação é somente a primeira parte de um longo processo de aprendizagem. Todos fomos conduzidos pela mão de alguém na descoberta das coisas, das pessoas, da comunicação. Aprendemos a conviver, a respeitar, a dizer a verdade olhando nos olhos das nossas mães. Fomos carregados, quando ainda não sabíamos caminhar; fomos consolados, quando as lágrimas das quedas, da s derrotas e das decepções escorriam pelo nosso rosto. Ouvimos palavras de encorajamento, quando começaram os primeiros embates da vida e tivemos que aprender a nos virar sozinhos. Aprendemos mesmo ou, crescidos, fizemos questão de esquecer os conselhos de quem nos conhecia desde pequenos? A resposta é pessoal.

O mês de agosto é, também, o mês vocacional. Talvez ser “mãe” seja uma vocação que precisa relançar. Entre abortos e barrigas de aluguel, não podemos ficar na dúvida. Porque todos, homens e mulheres, somos chamados a cuidar da vida de tudo e de todos. Tem mães e pais biológicos, mas também de criação, mães e pais espirituais, educadores, bons exemplos de vida! O sonho de todo adulto deveria ser ver algo de melhor nas novas gerações. Não pela tecnologia ou a conta no banco mais gorda, m as pela riqueza de humanidade, pela maior capacidade de diálogo e de convivência social. Talvez o maior sofrimento para um pai e uma mãe seja aquele de ver que os seus filhos, crescidos, se tornaram mais desumanos, egoístas, violentos, agressivos, desonestos, arrogantes e interesseiros. Se parecem, ainda, com crianças briguentas em eterna competição. Onde os pais e as mães erraram? Quantos deles hoje experimentam esta angústia? A questão é que um ser humano não se improvisa, é o resultado de muitos fatores, informações, ambientes, pressões ou descuidos. Somos filhos, também, da época em que vivemos. Nem tudo depende dos pais. Mas criação e educação à vida e à fé ainda são uma vocação e uma missão grandes e abençoadas por Deus. Tem “índices” para tudo. Está faltando o do “amor” fraterno, paterno e materno. O PIB pode esperar para crescer, o “amor” não mais.

Maria foi virgem e mãe. Gerou vida e foi toda de Deus. Nada é impossível ao amor. Ainda hoje ela ajuda a quebrar correntes, liberta, promove a vida plena, verdadeira. Como uma boa mãe incansável sempre nos repete: “Fazei o que ele – Jesus – vos disser!”


Os vasos mais fortes

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Um rico senhor foi à oficina de um oleiro famoso para comprar alguns vasos bonitos para a sua mansão. O artesão convidou o homem a admirar os seus produtos expostos no armazém. O oleiro conhecia bem as suas obras e batia levemente nos vasos, mas não experimentava todos. Alguns vasos ele já descartava e deixava de lado. O comprador ficou curioso com essa atitude e perguntou por que não batia em todos os vasos.

– Nesses ali é inútil bater – respondeu o artesão – são vasos trincados. A qualquer pancada, cairiam em pedaços. Eu só experimento os bons, os fortes. Eles, sim, são preciosos e podem ter grande utilidade. Assim é Deus, ensinavam os antigos. Ele não experimenta os maus, deixa-os; toca no justo para que possa resistir e salvar-se.

“Depois da multiplicação dos pães”, com essas palavras inicia-se o evangelho deste domingo. Jesus satisfez à fome do povo. Agora quer ficar a sós com o Pai, em oração. Cada vez mais, a sua missão se torna exigente. O evangelista Mateus nos prepara para a grande revelação de quem é Jesus de verdade e o seu caminho rumo à cruz. Assim, após subir na barca e o vento se acalmar, os discípulos antecipam a profissão de fé de Pedro que encontraremos nos próximos domingos: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”.

Jesus manda os discípulos ir à sua frente na barca, sozinhos. Os abandonou? Não, ele vem atrás caminhando sobre as águas, no meio das ondas e do vento. Eles devem aprender a tomar conta da travessia, a acertar o caminho. Jesus nunca vai abandonar os seus amigos. Esta será a sua promessa ao final do evangelho de Mateus. No entanto, desde já, eles devem confiar, superar o medo, nunca mais duvidar da presença amorosa daquele que, pela sua vida doada, vencerá a morte.

A missão que Jesus entregará aos seus amigos é a mesma missão sua. O combate, do bem contra o mal, será o mesmo até o fim dos tempos. Cruzes, perseguições e tempestades sempre acompanharão a pequena comunidade de Jesus. Ele não é um “fantasma”, uma lembrança do passado, uma ilusão. Ele continua a repetir: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”. Pedro ainda terá que sofrer muito; passará pela vergonha da traição, para aprender a segurar a mão do Crucificado. No fim, porém, a sua fé “fraca”, fortalecida pelo amor ao Mestre, o tornará pastor do rebanho do Senhor.

Esta página do evangelho pode parecer “simbólica” e, em parte, sem dúvida, o é. Contudo, a dinâmica do relacionamento entre os discípulos e Jesus, o desafio de vencer o medo pela coragem e o risco da fé são de uma extrema atualidade. A cada provação, a cada “crise” e cansaço da caminhada da Igreja e da nossa fé pessoal, somos tentados a desanimar, a gritar pelo desespero. Para os cristãos, a serenidade, a esperança viva e a firmeza no testemunho da própria fé, não virão através de novos métodos, meios poderosos de evangelização, novas revelações ou milagres assustadores. Será sempre a perseverança nas provações, nas críticas, misturadas com a indiferença e o desprezo, a confirmar o valor e o sentido da fé verdadeira. Com efeito, todo sofrimento por causa do nome do Senhor Jesus é, sim, uma dificuldade, algo que não devemos pedir ou desejar, mas, se vier a acontecer, não será para castigar ou punir os seus amigos. A “tempestade” será somente para ajudá-los a segurar mais firmemente a mão dele sempre estendida.

A nossa experiência pessoal também nos ajuda a entender. Se queremos ser cristãos sinceros e honestos, qualquer crítica ou acusação nos obriga a fazer um sério exame de consciência e a reconhecer o quanto podíamos ter feito diferente ou melhor. Se depois admitimos que erramos, melhor ainda: vamos mudar. Quem disse que aqueles que apontam os nossos defeitos são forçosamente inimigos? Talvez o sejam, mas podem nos ajudar a sermos melhores. Enfim, somos uma Igreja toda e sempre pecadora, porque feita de pecadores, mas cada vez também mais pura e mais santa, quando os cristãos pecadores se convertem. Com Jesus, buscamos ser “vasos” bons e fortes, para não rachar com a primeira pancada.