A glória de Maria

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Tomo emprestada a história milagrosa do escravo Zacarias, que encontrei numa cartilha de Novena do Tricentenário de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. “O escravo Zacarias estava sendo reconduzido à fazenda de onde fugira, em Curitiba, Paraná. Preso por grossas correntes, ao passar perto do Santuário, Zacarias pediu ao seu feitor que o deixasse rezar na porta da Capela da Santa Aparecida. Recebendo a autorização, o escravo ajoelhou-se e rezou uma prece sentida. O que teria pedido? De seus pedidos não sabemos, mas sabemos a resposta que a Virgem Negra lhe deu: as correntes milagrosamente se soltaram, deixando-o livre e feliz.”

Neste domingo de agosto, celebramos a solenidade da Assunção de Maria ao céu. O “dogma” da Assunção foi definido no ano de 1950, durante o pontificado de Pio XII. Somos convidados, pela Igreja, a acreditar que Maria, pela singular e única condição de ter sido a mãe de Jesus, participe antecipadamente da glória e da alegria da ressurreição. Essa participação foi, também, prometida para todos aqueles que acreditarem no Senhor, mas somente no “último dia” (Jo 6,54). Um privilégio , então, de Maria. Sem dúvida, mas somente na antecipação de algo que todo crente aguarda com esperança e fé. Neste Ano Mariano Nacional, queremos mais ainda aclamar a glória de Maria. São cerca de 13 milhões os peregrinos que, a cada ano, visitam o Santuário Nacional de Aparecida. Não é só aquela “imagem” pequena e escura que atrai tantas pessoas: é a fé, a confiança, a simplicidade de poder chamar Maria de “mãe”, depois daquelas palavras de Jesus na cruz: “Mulher, eis o teu filho” (Jo 19,26).

Ser mãe significa gerar e defender a vida. É um compromisso, mas, sobretudo, uma missão. Cada dia mais, entendemos que não basta colocar um ser humano no mundo. A gestação é somente a primeira parte de um longo processo de aprendizagem. Todos fomos conduzidos pela mão de alguém na descoberta das coisas, das pessoas, da comunicação. Aprendemos a conviver, a respeitar, a dizer a verdade olhando nos olhos das nossas mães. Fomos carregados, quando ainda não sabíamos caminhar; fomos consolados, quando as lágrimas das quedas, da s derrotas e das decepções escorriam pelo nosso rosto. Ouvimos palavras de encorajamento, quando começaram os primeiros embates da vida e tivemos que aprender a nos virar sozinhos. Aprendemos mesmo ou, crescidos, fizemos questão de esquecer os conselhos de quem nos conhecia desde pequenos? A resposta é pessoal.

O mês de agosto é, também, o mês vocacional. Talvez ser “mãe” seja uma vocação que precisa relançar. Entre abortos e barrigas de aluguel, não podemos ficar na dúvida. Porque todos, homens e mulheres, somos chamados a cuidar da vida de tudo e de todos. Tem mães e pais biológicos, mas também de criação, mães e pais espirituais, educadores, bons exemplos de vida! O sonho de todo adulto deveria ser ver algo de melhor nas novas gerações. Não pela tecnologia ou a conta no banco mais gorda, m as pela riqueza de humanidade, pela maior capacidade de diálogo e de convivência social. Talvez o maior sofrimento para um pai e uma mãe seja aquele de ver que os seus filhos, crescidos, se tornaram mais desumanos, egoístas, violentos, agressivos, desonestos, arrogantes e interesseiros. Se parecem, ainda, com crianças briguentas em eterna competição. Onde os pais e as mães erraram? Quantos deles hoje experimentam esta angústia? A questão é que um ser humano não se improvisa, é o resultado de muitos fatores, informações, ambientes, pressões ou descuidos. Somos filhos, também, da época em que vivemos. Nem tudo depende dos pais. Mas criação e educação à vida e à fé ainda são uma vocação e uma missão grandes e abençoadas por Deus. Tem “índices” para tudo. Está faltando o do “amor” fraterno, paterno e materno. O PIB pode esperar para crescer, o “amor” não mais.

Maria foi virgem e mãe. Gerou vida e foi toda de Deus. Nada é impossível ao amor. Ainda hoje ela ajuda a quebrar correntes, liberta, promove a vida plena, verdadeira. Como uma boa mãe incansável sempre nos repete: “Fazei o que ele – Jesus – vos disser!”


Os vasos mais fortes

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Um rico senhor foi à oficina de um oleiro famoso para comprar alguns vasos bonitos para a sua mansão. O artesão convidou o homem a admirar os seus produtos expostos no armazém. O oleiro conhecia bem as suas obras e batia levemente nos vasos, mas não experimentava todos. Alguns vasos ele já descartava e deixava de lado. O comprador ficou curioso com essa atitude e perguntou por que não batia em todos os vasos.

– Nesses ali é inútil bater – respondeu o artesão – são vasos trincados. A qualquer pancada, cairiam em pedaços. Eu só experimento os bons, os fortes. Eles, sim, são preciosos e podem ter grande utilidade. Assim é Deus, ensinavam os antigos. Ele não experimenta os maus, deixa-os; toca no justo para que possa resistir e salvar-se.

“Depois da multiplicação dos pães”, com essas palavras inicia-se o evangelho deste domingo. Jesus satisfez à fome do povo. Agora quer ficar a sós com o Pai, em oração. Cada vez mais, a sua missão se torna exigente. O evangelista Mateus nos prepara para a grande revelação de quem é Jesus de verdade e o seu caminho rumo à cruz. Assim, após subir na barca e o vento se acalmar, os discípulos antecipam a profissão de fé de Pedro que encontraremos nos próximos domingos: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”.

Jesus manda os discípulos ir à sua frente na barca, sozinhos. Os abandonou? Não, ele vem atrás caminhando sobre as águas, no meio das ondas e do vento. Eles devem aprender a tomar conta da travessia, a acertar o caminho. Jesus nunca vai abandonar os seus amigos. Esta será a sua promessa ao final do evangelho de Mateus. No entanto, desde já, eles devem confiar, superar o medo, nunca mais duvidar da presença amorosa daquele que, pela sua vida doada, vencerá a morte.

A missão que Jesus entregará aos seus amigos é a mesma missão sua. O combate, do bem contra o mal, será o mesmo até o fim dos tempos. Cruzes, perseguições e tempestades sempre acompanharão a pequena comunidade de Jesus. Ele não é um “fantasma”, uma lembrança do passado, uma ilusão. Ele continua a repetir: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!”. Pedro ainda terá que sofrer muito; passará pela vergonha da traição, para aprender a segurar a mão do Crucificado. No fim, porém, a sua fé “fraca”, fortalecida pelo amor ao Mestre, o tornará pastor do rebanho do Senhor.

Esta página do evangelho pode parecer “simbólica” e, em parte, sem dúvida, o é. Contudo, a dinâmica do relacionamento entre os discípulos e Jesus, o desafio de vencer o medo pela coragem e o risco da fé são de uma extrema atualidade. A cada provação, a cada “crise” e cansaço da caminhada da Igreja e da nossa fé pessoal, somos tentados a desanimar, a gritar pelo desespero. Para os cristãos, a serenidade, a esperança viva e a firmeza no testemunho da própria fé, não virão através de novos métodos, meios poderosos de evangelização, novas revelações ou milagres assustadores. Será sempre a perseverança nas provações, nas críticas, misturadas com a indiferença e o desprezo, a confirmar o valor e o sentido da fé verdadeira. Com efeito, todo sofrimento por causa do nome do Senhor Jesus é, sim, uma dificuldade, algo que não devemos pedir ou desejar, mas, se vier a acontecer, não será para castigar ou punir os seus amigos. A “tempestade” será somente para ajudá-los a segurar mais firmemente a mão dele sempre estendida.

A nossa experiência pessoal também nos ajuda a entender. Se queremos ser cristãos sinceros e honestos, qualquer crítica ou acusação nos obriga a fazer um sério exame de consciência e a reconhecer o quanto podíamos ter feito diferente ou melhor. Se depois admitimos que erramos, melhor ainda: vamos mudar. Quem disse que aqueles que apontam os nossos defeitos são forçosamente inimigos? Talvez o sejam, mas podem nos ajudar a sermos melhores. Enfim, somos uma Igreja toda e sempre pecadora, porque feita de pecadores, mas cada vez também mais pura e mais santa, quando os cristãos pecadores se convertem. Com Jesus, buscamos ser “vasos” bons e fortes, para não rachar com a primeira pancada.


Joias para se distinguir

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Lemos, mais uma vez, no Talmude, o livro que comenta e exemplifica a Lei Judaica, que um jovem príncipe, desejando partir e viajar pelo mundo, pediu ao pai que lhe fornecesse dinheiro, vestimentas adequadas e joias preciosas. Dessa maneira, ele se distinguiria dos demais. Respondeu-lhe o pai: “Veste o meu manto de púrpura; coloca no dedo o anel de rubis e a minha coroa de ouro na cabeça. Todos te reconhecerão como meu filho”. Diferente foi o que Deus disse a Israel: “Acolhe a Lei; pratica os meus mandamentos e serás reconhecido como o povo de Deus!”.

O primeiro domingo de agosto deste ano cai no dia 6. Nesse caso, a festa da Transfiguração do Senhor prevalece sobre a liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum. Por estarmos no ano litúrgico do Evangelho de Mateus, já encontramos o mesmo trecho no segundo Domingo de Quaresma. Temos a possibilidade de refletir novamente sobre esse texto, mas de maneira diferente. Salientamos, por exemplo, o momento da Transfiguração em si e as palavras do Pai: “Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o !”.

Nos dias de hoje, nós confiamos muito naquilo que podemos ver, ouvir e tocar. Chegamos a pensar que o que não vemos talvez nem exista. O que não é propagandeado, ou ao menos comunicado, fica desconhecido aos demais. É como se não existisse para uma grande maioria das pessoas. Contudo basta um pouco de reflexão para perceber que muitas coisas “reais” não são absolutamente visíveis e não são passíveis de algum tipo de medição. Elas pertencem a outro tipo d e conhecimento. É muita presunção por parte das pessoas decidir que aquilo que não cai de baixo dos seus sentidos, afinal, não exista. De muitas coisas, por exemplo, podemos perceber, digamos, os rastos, mas nunca vamos vê-las inteiramente. Pensamos nos nossos sentimentos. Os percebemos pelas atitudes exteriores, sempre admitindo que, nós e os outros, não estejamos fingindo. O interior do ser humano é mais escondido e complexo que o mundo material que percebemos e experimentamos através dos nossos sentidos.

A Transfiguração é uma apresentação dos evangelistas para nos ajudar a entender um pouco mais o “mistério” da pessoa de Jesus e de todo ser humano. Na sua existência corporal, o homem Jesus foi a mais perfeita imagem de Deus que podia existir neste mundo. “Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação” diz São Paulo em Cl 1,15. E o próprio Jesus responde a Filipe, que tinha pedido de lhes mostrar o Pai: “Quem me viu, tem vist o o Pai” (Jo 14,9). Não só. Em cada ser humano também tem algo de divino. É esta “divindade” que precisamos reconhecer e resgatar em cada pessoa, por mais escondida e desfigurada que ela seja. A afirmação que o ser humano foi criado a “imagem e semelhança de Deus” se refere muito mais ao interior da pessoa e à sua capacidade de amar do que a beleza física ou aos dotes intelectuais e a complexidade extraordinária do corpo humano. A indescritível luminosidade de Jesus, expressa através da candura de suas vestes, revela a sua perfeita comunhão divina. Deus Pai colocou nele todo o seu agrado! Se escutamos e praticamos o que ele ensinou, nós também podemos nos tornar resplandecentes na escuridão da história humana. Tudo o que reflete a bondade, a misericórdia, o amor de Deus torna a vida mais bela, alegre, feliz, luminosa.

Para o cristão que acredita, Jesus é a Palavra de Deus feita carne. Ele falou com suas palavras e sua vida, doada a todo instante, até a cruz. Este foi o seu trono e a sua coroa foi de espinhos. Um condenado que ainda ilumina o mundo. A luz do amor sem limites de Deus, que dele promana, não diminui e nem se apaga. Nós, que queremos ser seus amigos, não seremos reconhecidos por joias, enfeites, coroas de ouro e nem por uniformes, cor de pele, raça ou qualquer outra das infinitas diferenças do gênero humano. N os distinguiremos somente por viver o mandamento do amor. Também se muitos não o reconhecerão e nem o saberão. Mas Deus Pai conhece bem os seus filhos.


O diamante do mendigo

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Certa vez, um mendigo chegou a uma pequena cidade. Estava com fome e não sabia como e onde passaria a noite. Mostrando segurança, bateu na porta da casa do usurário mais famoso da região.
– Não venho pedir esmola – falou decidido – o meu assunto é negócio, um grande negócio.

Apesar da roupa toda esfarrapada do pobre, o usurário, sempre interesseiro, o convidou a entrar. O mendigo fechou, cautelosamente, a porta atrás de si e, com ar misterioso, disse em voz baixa ao ouvido do rico:

– Quanto daríeis por um diamante límpido e perfeito, do tamanho de uma noz?

A cobiça flamejou no coração do avarento. Estava muito interessado na compra da pedra, mas, como sempre, buscava disfarçar as suas intenções para pechinchar sobre o preço. Por isso mudou de assunto:

– Vejo que estás cansado – falou ao mendigo – fique hospedado na minha casa; amanhã poderemos conversar melhor

O pobre aproveitou da acolhida e foi dormir, de barriga bem cheia, numa cama macia. No dia seguinte, o usurário, morrendo de curiosidade, quis ver a pedra. Mas o mendigo encolheu os ombros e, com a maior cara de pau, falou:

– Acaso eu vos disse que tinha a pedra? Só perguntei quanto me pagaríeis por um diamante límpido e perfeito do tamanho de uma noz. Quero estar bem informado porque, se por acaso encontrar uma gema com tais qualidades, seria feliz em vendê-la a um preço justo.

Com o evangelho deste domingo, chegamos ao final do capítulo 13 de Mateus. Entre as últimas parábolas, duas chamam a nossa atenção pela semelhança, mas, sobretudo, pela novidade da mensagem. Jesus quer nos ensinar que o reino dos céus é algo muito precioso. É comparado com um tesouro e uma pérola tão valiosa, que quem os encontra vende tudo para poder comprar o terreno onde está escondido o tesouro ou a própria pérola. Surgem, assim, as primeiras questões para a nossa vida de cristãos: conhecemos e damos à nossa fé o valor que, realmente, ela merece? O que estamos dispostos a deixar para mergulh ar mais nos mistérios do reino que, afinal, é o próprio Deus que se oferece? As respostas estão interligadas.

Se a misericórdia do Pai nos interessa pouco é evidente que gastaremos pouco tempo e pouca vontade para ter mais intimidade com Ele. Vice-versa, quanto mais descobrimos a grandeza do seu amor e a alegria que nos dá conhecê-lo, mais muitas outras coisas ficarão para trás. Sem querer julgar as pessoas, cristãs ou não, é visível que todos nós temos os nossos critérios para avaliar as coisas de Deus. Alguns nem chegam a conhecê-las. Outros as conhecem, mas de tal forma que decidem descartá-las. Outros, enfim, gastam toda a sua vida para servir ao reino dos céus ou, ao menos, o têm em grande apreço: interessam -se, preocupam-se, nunca param de buscá-lo. Mais uma vez podemos dizer que tudo é dom de Deus. É ele, sem dúvida, que nos faz encontrar o tesouro e a pérola preciosa. Mas, sobretudo, é ele que nos convence do seu valor. Não basta encontrar o tesouro ou a pérola, precisa reconhecer o seu grande valor.

Muitos cristãos perambulam pelas igrejas, participam das missas. Muitos receberam os sacramentos da Iniciação Cristã, mas não descobriram o que significam para as suas vidas. Não mostram nenhuma alegria, nenhum entusiasmo, nenhuma gratidão a respeito da própria fé. A Palavra de Deus fala bem pouco aos seus corações. A caridade é mais esmola do que fraternidade, mais descarrego de consciência que partilha e solidariedade. Precisamos aprender a pedir ao Pai bondoso que nos dê mais discernimento sobre o seu reino. De outra forma, podemos jogar fora o ouro e ficar com a bijuteria. Podemos gastar toda a nossa a vida atrás de bens passageiros e perder os bens eternos. Talvez aprendamos algo com o mendigo experto. Só que nós já temos o diamante perfeito e não devemos perguntar o valor dele aos gananciosos deste mundo – que nem o conhecem – mas ao próprio Deus. Ele nos acolherá, abrirá os nossos olhos e nos fará felizes, como somente ele pode nos fazer.


O diamante do mendigo

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Certa vez, um mendigo chegou a uma pequena cidade. Estava com fome e não sabia como e onde passaria a noite. Mostrando segurança, bateu na porta da casa do usurário mais famoso da região.
– Não venho pedir esmola – falou decidido – o meu assunto é negócio, um grande negócio.

Apesar da roupa toda esfarrapada do pobre, o usurário, sempre interesseiro, o convidou a entrar. O mendigo fechou, cautelosamente, a porta atrás de si e, com ar misterioso, disse em voz baixa ao ouvido do rico:

– Quanto daríeis por um diamante límpido e perfeito, do tamanho de uma noz?

A cobiça flamejou no coração do avarento. Estava muito interessado na compra da pedra, mas, como sempre, buscava disfarçar as suas intenções para pechinchar sobre o preço. Por isso mudou de assunto:

– Vejo que estás cansado – falou ao mendigo – fique hospedado na minha casa; amanhã poderemos conversar melhor

O pobre aproveitou da acolhida e foi dormir, de barriga bem cheia, numa cama macia. No dia seguinte, o usurário, morrendo de curiosidade, quis ver a pedra. Mas o mendigo encolheu os ombros e, com a maior cara de pau, falou:

– Acaso eu vos disse que tinha a pedra? Só perguntei quanto me pagaríeis por um diamante límpido e perfeito do tamanho de uma noz. Quero estar bem informado porque, se por acaso encontrar uma gema com tais qualidades, seria feliz em vendê-la a um preço justo.

Com o evangelho deste domingo, chegamos ao final do capítulo 13 de Mateus. Entre as últimas parábolas, duas chamam a nossa atenção pela semelhança, mas, sobretudo, pela novidade da mensagem. Jesus quer nos ensinar que o reino dos céus é algo muito precioso. É comparado com um tesouro e uma pérola tão valiosa, que quem os encontra vende tudo para poder comprar o terreno onde está escondido o tesouro ou a própria pérola. Surgem, assim, as primeiras questões para a nossa vida de cristãos: conhecemos e damos à nossa fé o valor que, realmente, ela merece? O que estamos dispostos a deixar para mergulh ar mais nos mistérios do reino que, afinal, é o próprio Deus que se oferece? As respostas estão interligadas.

Se a misericórdia do Pai nos interessa pouco é evidente que gastaremos pouco tempo e pouca vontade para ter mais intimidade com Ele. Vice-versa, quanto mais descobrimos a grandeza do seu amor e a alegria que nos dá conhecê-lo, mais muitas outras coisas ficarão para trás. Sem querer julgar as pessoas, cristãs ou não, é visível que todos nós temos os nossos critérios para avaliar as coisas de Deus. Alguns nem chegam a conhecê-las. Outros as conhecem, mas de tal forma que decidem descartá-las. Outros, enfim, gastam toda a sua vida para servir ao reino dos céus ou, ao menos, o têm em grande apreço: interessam -se, preocupam-se, nunca param de buscá-lo. Mais uma vez podemos dizer que tudo é dom de Deus. É ele, sem dúvida, que nos faz encontrar o tesouro e a pérola preciosa. Mas, sobretudo, é ele que nos convence do seu valor. Não basta encontrar o tesouro ou a pérola, precisa reconhecer o seu grande valor.

Muitos cristãos perambulam pelas igrejas, participam das missas. Muitos receberam os sacramentos da Iniciação Cristã, mas não descobriram o que significam para as suas vidas. Não mostram nenhuma alegria, nenhum entusiasmo, nenhuma gratidão a respeito da própria fé. A Palavra de Deus fala bem pouco aos seus corações. A caridade é mais esmola do que fraternidade, mais descarrego de consciência que partilha e solidariedade. Precisamos aprender a pedir ao Pai bondoso que nos dê mais discernimento sobre o seu reino. De outra forma, podemos jogar fora o ouro e ficar com a bijuteria. Podemos gastar toda a nossa a vida atrás de bens passageiros e perder os bens eternos. Talvez aprendamos algo com o mendigo experto. Só que nós já temos o diamante perfeito e não devemos perguntar o valor dele aos gananciosos deste mundo – que nem o conhecem – mas ao próprio Deus. Ele nos acolherá, abrirá os nossos olhos e nos fará felizes, como somente ele pode nos fazer.


Três coisas

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Um estudante medíocre, de pouca vivacidade, reclamou com o seu mestre que lhe faltavam belas roupas, uma chácara bem produtiva e uma linda mulher, justamente as três coisas que, segundo o Talmude, o livro que interpreta, comenta e exemplifica a Lei judaica, servem para dilatar a inteligência.
– Veja bem, meu filho – respondeu-lhe o mestre com voz calma e suave – essas três coisas servem só para desenvolver a inteligência do ser humano e não para criá-la. No seu caso… não lhe adiantariam em nada.

Já refletimos, domingo passado, sobre a “inteligência” das coisas de Deus. Esta “sabedoria” é diferente dos saberes humanos, é dom do próprio Deus e não fruto esmerado de conhecimentos e raciocínios intelectuais. É dessa maneira que Jesus responde aos discípulos que lhe tinham perguntado por que ensinava em parábolas: “Porque a vós foi dado o conhecimento dos mistérios do reino dos céus, mas a eles não é dado” (Mt 13,10-11). As parábolas de Jesus são, portanto, em primeiro lu gar, uma revelação do próprio Deus que quer se fazer conhecer para poder ser amado. Contudo, nós continuamos a ser criaturas limitadas e nunca conseguiremos esgotar as maravilhas de Deus. Por isso, iniciando neste domingo a leitura do capítulo 13 do evangelho de Mateus, que é o chamado “discurso em parábolas”, podemos ficar entusiasmados pelas histórias, mas, ao mesmo tempo, apreensivos pela linguagem simbólica.

O que o Senhor, quer nos dizer afinal? É uma pergunta legítima que sempre pedirá uma resposta aberta, dinâmica, cheia de surpresas, porque Deus não se explica só com palavras humanas ou afirmações doutrinais. A condição para entender as parábolas é nos deixar envolver, nos deixar conduzir por dentro da sucessão dos acontecimentos. A resposta nunca será puramente intelectual, exigirá participação, risco, conversão, misericórdia. Ouso dizer que as parábolas devem ser vividas, experiment adas para dinamizar, também, a nossa fé. Assim é que se descortinam, para os que confiam em Jesus, “os mistérios do reino dos céus”. No “mistério” de Deus, entramos, navegamos, nunca chegamos ao fim, mas nunca cansamos. Ao contrário, ficamos mais felizes.

A parábola do semeador, que abre este capítulo do Evangelho de Mateus, é exemplar. Tem algo ilógico e inconveniente: onde se viu semear na beira da estrada, nas pedras ou no meio dos espinhos? Um empresário “inteligente” semearia só e exclusivamente em terra boa. Por que correr o perigo de desperdiçar semente, tempo e energias? Tudo é dinheiro! Evidentemente a “lógica” do reino dos céus é diferente. O Semeador semeia com fartura e se entendermos que esta semente, que brota logo mesmo em condições adversas, é ; a Palavra de Deus – como o próprio Evangelho explica – só podemos nos admirar da generosidade do Pai. A todos é oferecida, de mil maneiras, a possibilidade de acolher algo bom e fecundo: uma mensagem, uma proposta, um exemplo. Talvez tenhamos que reconhecer, objetivamente, que todos nós desperdiçamos sem dó infinitas possibilidade de bem, de aprender caminhos mais honestos, mais simples e humildes. Quantos cristãos adultos sepultam no esquecimento os bons sentimentos que aprenderam e experimentaram na infância e na juventude. A fé simples daquele tempo não vingou. A oração decorada não se tornou confiança e intimidade com o Pai. Quantas verdades, que outrora nos pareciam maravilhosas, foram jogadas fora, se não como lixo, talvez como algo de inútil e supérfluo. Confundimos ser adultos com deixar de crer; não fomos o bom terreno que multip lica as sementes. O que estou dizendo não é uma crítica, é um convite a um exame de consciência pessoal, mas, também, para as nossas comunidades que se esforçam para semear a fé e o amor de Deus no coração dos cristãos. Estamos convencidos, graças a Deus, que a semente da Palavra é excelente, insuperável, viva, pronta a enraizar. O que fazemos para que os terrenos das nossas vidas sejam mais acolhedores e mais fecundos? É o desafio da evangelização, mas talvez também da nossa “inteligência” e das nossas escolhas.


O valor do cavalo

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Havia uma discussão entre amigos, porque certos assuntos dão sempre espaço à troca de opiniões. A questão era se as pessoas inteligentes têm maior ou menor dificuldade para retomar o caminho certo, depois de terem se desviado dele? O sábio Beraq convidou os presentes a responder primeiro à outra questão:

– Por que um cavalo ligeiro vale dez vezes mais do que um cavalo vagaroso?

– Obviamente porque corre dez vezes mais rápido – alguns logo responderam.

– Certo, mas – disse Beraq – se o cavalo se extraviar, também se perderá dez vezes mais de pressa.

– Quer dizer, amigo – continuou um colega – que este seria um grave defeito!

– Mas também, não se esqueça, meu caro, que o cavalo mais veloz, reencontrando o caminho certo, recuperará dez vezes mais de pressa o tempo perdido.
O sábio Beraq concluiu:

– Quando um homem inteligente se arrepende do mal que fez, volta para a situação anterior dez vezes mais de pressa do que o preguiçoso. O inteligente se reabilita dos seus erros mais rapidamente que o acanhado e o curto de imaginação.

Uma historinha contada não para exaltar os inteligentes, tampouco para rebaixar os menos sabidos. O que interessa é a capacidade de corrigir o, mais rápido possível, os nossos próprios desvios. Permanecer no erro, sabendo que estamos errados, é sinal de burrice. No evangelho deste domingo, Jesus louva ao Pai, porque ele revela as coisas do Reino aos simples e pequenos e as esconde aos inteligentes e estudados. Nada contra os estudiosos, como também nenhum convite à ignorância ou ao comodismo intelectual. Jesus está falando de ou tra “compreensão”: a inteligência das coisas de Deus. O saber sobre elas não depende dos estudos e do nível de inteligência, depende somente da bondade do próprio Deus, que se revela a quem está disposto a acolhê-lo e a deixar-se transformar por Ele. Esta última é, evidentemente, a parte que nos cabe. Com efeito, para nada adiantaria a bondade e a generosidade de Deus em se fazer conhecer e encontrar, se nós não estivermos dispostos a nos deixar envolver pelas suas maravilhas. Aqui está, também, a diferença entre aqueles que Jesus chama de “sábios e entendidos” e aqueles que ele define como “pequeninos”. Fique bem claro que estamos falando de “coisas espirituais”, os “mistérios” de Deus, e não de ciências humanas ou de ganhadores de Prêmio Nobel.

No tempo de Jesus, os “doutores” eram aqueles que estavam por dentro das Sagradas Escrituras, que acreditavam ter entendido tudo da Lei e dos Profetas. É com eles que Jesus polemiza. A certa altura, ele os manda estudar melhor, porque não o escutam e não querem acreditar nele (Jo 5,39-40). A princípio, todo conhecimento, como qualquer coisa humana, não é nem bom e nem mal. Depende de como o usamos e as suas consequências em nossas vidas. Por exemplo, o conhecimento científico e tecnológico pode ser usado para explorar e ame açar os menos desenvolvidos, supervalorizando os próprios avanços, ou pode ser colocado a serviço do bem-estar de todos. Todo saber pode abrir horizontes para a felicidade e a vida como, infelizmente, para a tristeza e a morte. Quando o ser humano se enche de orgulho pela sua inteligência e as suas conquistas, acaba se fechando no próprio encantamento. Na sua cabeça e no seu coração não tem mais lugar nem para Deus e nem para os irmãos. O saber das “coisas de Deus” precisa da humildade, da consciência que sempre seremos muito pequenos, apesar de tantos progressos e conquistas. Deus não quer nos humilhar por causa de nossas limitações, porque não está disputando poder com ninguém. Não precisa. Está pronto a doar-se a quem lhe abre o coração, a quem sente que lhe falta ainda muito, a quem já entendeu que nenh um bem material pode preencher de alegria plena a sua vida. Mais “inteligente” para Jesus não é, portanto, aquele que tem um conhecimento enciclopédico, mas quem coloca o seu saber a serviço da vida e se dispõe sempre a aprender algo novo, a se maravilhar das surpresas da misericórdia infinita de Deus. É esperto aquele que, se estiver ainda longe disso, corre rápido para não perder mais nada da abundância do Amor que o Pai oferece aos pequenos.


Deus e os ídolos

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Certa vez, em Roma, alguns idólatras astuciosos questionaram o velho Rabi Simeão, que tinha o apelido de “Muito Sábio”. Disseram-lhe:

– Se o vosso Deus não gosta que as pessoas adorem os ídolos, porque ele, o Todo-poderoso, não destrói esses ídolos todos de uma vez?

Respondeu com presteza o sábio Rabi: – Se os homens adorassem coisas inúteis que o mundo não precisa, de certo, Deus os arrasaria. No entanto, eles adoram o sol, a luz, os astros e os planetas. Deveria o Senhor destruir a sua criação por causa dos estultos?

Um dos romanos, querendo pegar o sábio em alguma contradição, indagou:

– Nesse caso, poderia pelo menos acabar com as coisas de que o mundo não precisa, e deixar as outras!

– Seria fortalecer a idolatria – retrucou Simeão – os idólatras diriam: “Vede: eis os verdadeiros deuses, porque os falsos foram destruídos”.

Neste domingo, a liturgia nos convida a celebrar a Solenidade de São Pedro e São Paulo. Rezaremos, de maneira especial, pelo Papa Francisco e, sem dúvida alguma, pela nossa Igreja Católica. Não fazemos isso por “culto à personalidade” (no caso do papa) e nem por mero “sectarismo” (no caso a Igreja Católica). Ao contrário, queremos lembrar a missão corajosa dos apóstolos, justamente para não nos fechar numa inútil e errada autocontemplaçã o. Ter consciência e estar felizes, porque amamos a nossa Igreja, não significa esquecer o resto do mundo e dos seus problemas. Papa Francisco sempre nos lembra que a Igreja não existe para si mesma e não acaba dentro dos seus templos e estruturas. A Igreja é enviada ao mundo, à humanidade inteira, porque está dentro da única história humana. O desejo de nos fecharmos num grupo de eleitos, de privilegiados, de pessoas que pensam estar já no limiar do céu, é uma grande tentação. As consequências disso sempre foram desastrosas. A Igreja corre o risco de tomar a atitude de quem julga e condena. No entanto, lemos no evangelho de João: “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que seja salvo por ele” (3,17).

Isso não significa que o Papa Francisco e a Igreja Católica com ele, não tenham posições claras e firmes sobre certos assuntos. O que a Igreja não faz mais é ameaçar do inferno os que pensam e agem diferente. Ser tolerantes e acolhedores significa dialogar e não excluir, mas também não desistir das próprias convicções. Quem não tem ideias, princípios, valores e exemplos para dar, é sempre tentado a impor o próprio pensamento com a fo rça, com as artimanhas da retórica, com o abuso da mídia e da propaganda. Quem procura viver e praticar a sua fé não precisa de muitos outros recursos. Confia mais na força do Espírito Santo, que se antecipa nos corações das pessoas, do que nas próprias capacidades e conquistas. Trabalha com humildade e, sobretudo, alegremente, porque está feliz de ter encontrado, conhecido e amado o Senhor Jesus. Esse é o verdadeiro tesouro que encontrou na vida e faz de tudo para não perdê-lo.

Veneramos São Pedro e São Paulo, assim como tantos outros mártires e testemunhas que deram as suas vidas por causa do Evangelho de Jesus. Com eles, queremos aprender a ser mais corajosos sem pretender impor as nossas ideias, mas com a paciência do semeador que acredita na bondade da semente e na fecundidade do coração humano, quando se abre confiante ao mistério do amor divino. Por isso, neste domingo agradecemos a Deus, também, pelo pontificado do Papa Francisco, uma voz surpreendente e pacificadora no meio de tantas disputas, contradições e conflitos sociais. Rogamos a Deus que faça dele um homem “Muito Sábio” não somente para encontrar respostas a tantas dúvidas e perplexidades, mas para poder ser uma voz crível para todos os homens e mulheres de boa vontade e de paz. Sejamos, também nós católicos capazes de ecoar as mensagens do Papa Francisco, com a mesma franqueza, simplicidade e cordialidade. Acompanhar o papa é sinal de comunhão e de fé. Um bom sinal.


O verdadeiro inimigo

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A velha rata mandou o filho atrás de comida; recomendou-lhe, porém, que se guardasse do inimigo. O ratinho, após a primeira curva, viu um galo. Voltou correndo junto à mãe e descreveu o inimigo como um bicho soberbo, de crista enorme e vermelha.

– Não é esse o nosso inimigo – falou a rata. E mandou o filho de volta. Desta vez, o pobre ratinho esbarrou num peru. De novo correu para o regaço da mãe e, tremendo-se todinho, descreveu o peru como um animal enorme e de olhar terrível, pronto para matar.

– Também este não é o nosso inimigo – tranquilizou-o a mãe – O nosso inimigo caminha silencioso, de cabeça baixa como uma criatura muito humilde; é macio, discreto, de aparência amável e deixa a impressão de ser inofensivo e bondoso. Se topares com ele, meu filho, toma cuidado!

Já sabemos quem é o inimigo dos ratos. Mais difícil é reconhecer o “nosso” inimigo. Com efeito, nós todos procuramos nos defender quando percebemos a agressividade ou a maldade do adversário. Mas, se aquele que quer a nossa ruina se apresenta sob as aparências de um companheiro cativante e simpático, fica difícil reconhecer a sua armadilha.

No evangelho deste domingo, Jesus quer ajudar os seus discípulos, que enviou em missão no mundo, a discernir de quem devem se guardar e de quem não precisa. Na nossa maneira de pensar, nós sempre temos muito medo, em primeiro lugar, de quem pode nos machucar e até nos tirar a vida. Jesus pensa diferente. O nosso verdadeiro inimigo não é aquele que pode nos matar, mas aquele que, junto com a vida deste mundo, pode nos afastar para sempre do amor de Deus e do próximo. Aquele que pode destruir “a alma e o corpo”. Com certeza, Jesus não quis nos dizer que devemos ser incautos e irresponsáveis, arriscando a vida à toa. Ele nos convida a sermos simples como as pombas, mas também prudentes como as serpentes (Mt 10,1). O que aqui está em jogo, não é, portanto, a vida corporal, mas a outra Vida que somente Deus pode dar porque, afinal, é ele mesmo que se doa.

Nesta altura, precisamos nos perguntar, honestamente, se acreditamos nas palavras de Jesus. Todos nós estamos dispostos a defender, com unhas e dentes, a nossa pele e o nosso bolso que, parece, estar grudado nela. “Unhas e dentes” evoluíram; hoje são o poder econômico, a corrupção, as mentiras, as falsas promessas, as bombas atómicas, as bombas de efeito “moral” (leia-se: para amedrontar) e assim por adiante. Se compararmos as despesas mundiais com os armamentos e aquelas com a saúde pública, a saúde dos pobres, j& aacute; sabemos de que lado vai cair o prato da balança. Quantos hospitais poderiam ser construídos com o preço de um míssil? Quantos pratos de comida correspondem ao custo de um drone guiado por computadores? Ao contrário, quase nada gastamos para promover a paz, a fraternidade, para defender o planeta da poluição, para garantir alimentos saudáveis às próximas gerações.

A fome do lucro está matando as nossas “almas”, entorpecendo os nossos sentimentos, esfriando a nossa sensibilidade. De sobra, ela engorda a nossa indiferença, o nosso medo de perder a vida biológica numa disputa inútil e egoísta pela sobrevivência. Pensando que vamos salvar o corpo, acabamos perdendo, junto com ele, também a alma, o sentido e os valores da vida. Corpo e alma somos cada um de nós. Não nos salvamos ou nos perdemos em pedaços, mas numa única vida, sopro da Vida de Deus. Para ele nós somos mui to preciosos. O Pai não quer perder nada e ninguém, porque nos ama a todos e “deu” seu Filho para nos salvar. Somos nós que desvalorizamos tanto este amor de Deus, que não temos medo de perdê-lo. Gastamos tempo e saúde para correr atrás de coisas pequenas e desperdiçamos as grandes. Deus e o seu amor passaram em último plano. Temos medo de um Crucificado. Assim, o inimigo triunfa. Mata-nos no corpo e na alma no maior conforto, na maior mordomia, na maior diversão. De barriga cheia e de coração de pedra, sempre insatisfeitos. Deveríamos tomar cuidado. Muito cuidado ainda é pouco.


O todo-poderoso

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Ao voltar vitorioso de uma guerra, o imperador romano Adriano convocou a corte e, em tom extremamente solene, declarou:
– Dado o meu poder e a força incalculável que eu tenho, exijo, de agora em diante, que me considerem um deus!
Mal acabou de falar, um dos nobres presentes, que também era comerciante, aproximou-se e disse:
– Ó celestial imperador, já que sois deus, imploro o vosso poderoso auxílio.
– O que aconteceu? Em que posso ajudar o amigo? – respondeu lisonjeado o imperador.
– Estou tendo um grande prejuízo, porque os meus navios carregados de mercadorias estão parados a três milhas da costa e não conseguem chegar até o porto.
– Muito simples – respondeu o imperador – enviarei uma frota com bons remadores e eles trarão os navios.
– Ó todo-poderoso, não se incomode tanto assim – continuou o cortesão – com duas ou três rajadas de vento os navios chegarão.
– Mas… – disse o grande Adriano – onde irei buscar essas rajadas de vento?
– Ó sublime e divino soberano, se não podeis mandar num pouco de vento, como pretendeis arrogar-vos os atributos de Deus? Muito fraco é o vosso poder!

No evangelho deste domingo, Jesus chama os doze apóstolos e os envia em missão. Terão que proclamar a chegada do “reino dos céus” a começar pelas “ovelhas perdidas da casa de Israel”. Foi com o mesmo anúncio da proximidade do reino de Deus que Jesus iniciou a sua pregação. Reino e conversão. Agora, os primeiros operários vão trabalhar junto à messe grande. O Bom Pastor envia “pastores” para cuidar de quem anda cansado e abatido. São palavras de compromisso, mas também de esperança: algo novo está começando. Os sinais do “reino” são aqueles muitas vezes apresentados pelos profetas, quando avistavam e prometiam os tempos messiânicos: “expulsarem os espíritos maus e curarem todo tipo de doença e enfermidade”. Expressamente, Jesus envia os discípulos com as palavras: “Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios”. Tudo isso com “poder”! Mas também com gratuidade: “De graça recebestes, de graça deveis dar!”

Dá vontade de nos perguntar: onde ficaram o poder e a gratuidade? Sejamos sinceros: pensamos logo que o poder desapareceu – não ressuscitamos mais os mortos, não curamos mais tanto assim os doentes… – devemos reconhecer, porém, que também a gratuidade sumiu ou, ao menos, deixou de ser prioritária. Quantas vezes, antes de fazermos alguma coisa, já pensamos o que vamos lucrar, ganhar ou faturar. Pode ser por dinheiro ou, simplesmente, pelo gosto de aparecer, de chamar atenção e de ter, cad a vez mais, fiéis seguidores. Por definição, a “gratuidade” é dom puro, sem pretender ou cobrar nada de volta, nem a gratidão. Por isso, o verdadeiro “poder” de Jesus e o “poder” que ele entrega aos seus discípulos está muito mais no amor oferecido e doado do que na possibilidade de fazer “milagres”. Esses são sinais do amor de Deus, de Alguém que se interessa por nós, ainda, “ovelhas” cambaleantes nos caminhos da vida. Mas a maior cura que deveríamos almejar é a expulsão do demônio do interesse, da ganância, de quem pensa somente na sua vantagem. Exatamente o contrário da gratuidade! Quem aprende a doar algo de si com generosidade, de coração, torna-se uma pessoa nova, transformada pelo amor de Deus, capaz de amar como Jesus ensinou e deu o exemplo. A ciência, graças a Deus, est&a acute; curando e ainda vai curar muitas doenças, mas quase tudo virou negócio; às vezes, é exploração do doente e da sua família, outras, engano e ilusão. Já tem medicamento certo para morrer suavemente e para matar populações inteiras. O poder devia ser para a vida, não para a morte. Somente a gratuidade e a fraternidade mudarão o coração humano. Não é o poder que diminuiu, é o amor que enfraqueceu. Uma vida bem vivida, na paz do coração, na partilha e na generosidade, não tem tanto medo assim da morte. Acredita na vida plena, amorosa do Pai, sabe que o bem vale por si mesmo e nos faz felizes neste mundo e no outro. Não adianta ter poder sobre o vento, se não temos poder sobre o nosso coração, porque não sabemos mais amar.