Obrigado!

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Um homem sábio vivia numa casinha afastada da vila. Certa noite, um ladrão, armado com faca, entrou e disse ao homem para não se mexer. Começou a revirar tudo, procurando por dinheiro. Depois de alguns minutos, o sábio, que continuava a ler o seu livro, disse ao ladrão:

– Por favor, não desarrume tanto assim. O dinheiro está na gaveta daquela mesinha. Pode pegar o que lhe serve. Aceite-o como um presente meu.

O malandro pegou o dinheiro e, depois, reparou um vaso de jade muito bonito. Quis levar também o vaso. Quando viu que não tinha mais nada que valesse a pena roubar, resolveu sair. Naquele momento, o sábio lhe disse:

– Seja educado, me agradeça! – O assaltante agradeceu e saiu na noite.

Alguns dias depois, os guardas do imperador prenderam o ladrão, arrastaram-no até o sábio para que lhe devolvesse o vaso. Ele tinha confessado o roubo. Bastava confirmar o caso para que fosse condenado à morte. O sábio, calmamente, explicou o acontecido:

– Sim, este homem veio aqui de noite. Eu dei de presente para ele um pouco de dinheiro e este vaso de jade. Tanto é verdade que ele, ao se despedir, disse-me: Obrigado! Os guardas ficaram surpresos, mas tiveram que soltar o ladrão. Ele, por sua vez, agradeceu mais ainda o sábio e nunca mais esqueceu a palavra maravilhosa que lhe tinha salvo a vida: Obrigado!

No domingo da Santíssima Trindade, todos percebemos a grandeza do “mistério” de Deus. Ele é tão grande que vai além de todos os nossos raciocínios e explicações. Nós, seres humanos, temos algo de “divino”. Fomos criados à “imagem e semelhança” d’Ele. No entanto, continuamos “criaturas” limitadas, mas com saudade do nosso “criador”. Experimentamos, e não só por curiosidade, o desejo e a esperança de participar, de alguma forma, das maravilhas de Deus. Um caminho possível seja, talvez, o de agradecer. Deus se deu a si mesmo como presente para nós e se fez conhecer como perfeita unidade na diversidade, num “mistério& rdquo; de total comunhão de amor. O que nós podemos fazer é colocar essa maravilha como modelo e meta da nossa própria vida. Devemos agradecer muito a Deus. Quanto mais contemplamos a Trindade, mais somos encorajados a buscar a comunhão entre nós e na sociedade. Em lugar das nossas especulações, que – fique claro – não são a mesma coisa dos esforços dos teólogos de explicar um pouco o “mistério” da Trindade, vamos aprender com Ela a superar divisões e individualismos para construir a unidade pelo amor, a reconciliação e a paz.

Pensamos logo nas nossas famílias. O que podem aprender com a Santíssima Trindade? A diversidade das pessoas, das gerações e dos temperamentos, muitas vezes, são motivos de oposições, brigas e indiferença. Ao contrário, o diálogo, a escuta e a valorização recíproca, fazem crescer os membros da família no respeito e na mútua colaboração. Todos podem ajudar de alguma forma porque todos têm algo para doar e receber. O amor verdadeiro sempre cresce nos dois sentidos: amar e ser amados. Vamos falar também da nossa Igreja, das nossas comunidades, grupos, pastorais e movimentos. Como é difícil caminhar juntos! A tentação de querer mandar, julgar, ser melhor es do que os outros ou ser diferente a qualquer custo é muito grande. Passamos em segundo plano o batismo, a fé e a Eucaristia que nos unem, para salientar as diferenças, o específico que nos distingue. Unidade não é uniformidade, mas também diversidade não pode ser disputa e afastamento. Por fim, se olhamos para o mundo, para a sociedade na qual vivemos, dá mesmo vontade de desistir.

Hoje, pensar em “comunhão” com tantos interesses, confusões e mentiras, parece só ilusão. Mas poderia ser esperança! Talvez seja esta a missão desafiadora dos cristãos: não uma fachada de abraços e sorrisos, mas um sério esforço de colaboração. Toda cultura, toda civilização e toda religião, tem algo de bom, de humano, que pode enriquecer a todos. A unidade verdadeira não será a colagem ou a mistura de tudo e de todos, mas uma convivência respeitosa das diversidades. Quem conheceu um Deus-Amor-Trindade nunca desiste da unidade e agradece muito por acreditar n’Ele.


Morrer por dentro

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Uma criança de doze anos escreveu: “Eu vivi e cresci junto aos meus pais. Acreditava que o amor deles nunca morresse. Imaginava que fosse como uma grande árvore capaz de desafiar qualquer tempestade e, muito mais, o passar do tempo. No entanto, descobri que não era bem assim. Também uma grande árvore pode perder, aos poucos, os seus ramos e tornar-se uma árvore seca. Me contaram que os grandes amores, como as árvores, não morrem por uma rajada de vento ou um pouco de água a menos. Morrem se os deixamos morrer por dentro, como a conteceu com o amor de meu pai e minha mãe.”

No domingo de Pentecostes, cinquenta dias após a Páscoa, celebramos o dom do Espírito Santo como Jesus tinha prometido. Para o evangelista João, Jesus doa o seu Espírito já na cruz (Jo 19,30) e o comunica aos apóstolos, como ressuscitado, soprando sobre eles, ao anoitecer do dia de Páscoa, o “primeiro dia da semana” (Jo 20,22). Para Lucas, a maneira de contar e explicar as coisas é diferente. Quarenta dias após a Páscoa, Jesus é elevado ao céu e, dez dias depois, os discípulos “reu nidos no mesmo lugar” recebem o dom do Espírito Santo numa forma visível (línguas de fogo) e estrondosa (a ventania). A partir daquele momento, a comunidade assume com coragem a missão de espalhar o Evangelho pelo mundo a fora. Lucas escreve, para isso, o livro dos Atos dos Apóstolos. O que interessa para nós é acreditar e perceber a presença do Espírito Santo na vida da Igreja, no seu conjunto e na vida pessoal de cada um.

Para entender a ação do Espírito Santo, faço algumas considerações elementares, meio filosóficas e meio existenciais. O pressuposto é que nós, seres humanos, somos inteligentes e, portanto, não agimos simplesmente obedecendo aos instintos da natureza. É como dizer que ninguém nasce já programado. Temos, sim, uma herança biológica, cultural, histórica, ligada à situação e ao tempo no qual vivemos no mundo, mas temos também uma boa margem de possibilidades. Po r isso, é comum dizer que todo ser humano é um ser em construção. Esse trabalho é fadigoso, exige paciência e aprendizagem, é feito de avanços e recuos, de reviravoltas, retomadas e estagnações. Se esse, porém, é o desafio da vida humana é, também, o fascínio da sua aventura. Tem o gosto da caminhada, da conquista, da superação. Esse entusiasmo não está reservado à juventude. Acompanha a vida toda. A cada idade, quase, precisamos reaprender a viver, a gostar das alegrias e a superar as agruras. Nem tudo é maravilhoso na juventude e nem tudo é tristeza na idade avançada. Novos horizontes se abrem a cada passo dado, a cada etapa vencida, a cada nova condição experimentada. Falo, evidentemente, de quem sabe descobrir tudo isso, de quem se questiona sobre o sentido da vida, de quem tem a coragem de parar par a pensar. Todas coisas que parecem fora de moda, mas que somos obrigados a fazer, e fazemos, mesmo sem perceber.

Desde que nascemos, cada um de nós continua a ser a mesma pessoa, mas, ao mesmo tempo, torna-se diferente. O mais visível é o aspecto exterior. O nosso físico muda continuamente. E o interior? É aqui que entra o Divino Espírito Santo com os seus dons “espirituais”. Os que os outros percebem de nós é o que fazemos, o nosso agir. O que os outros não conhecem são as razões, os valores, as esperanças, a fé, que motivam esse nosso agir. É o que não se vê, o que está escondido no mais secreto do nosso coração, que faz com que sejamos o que somos, falamos e agimos do jeito que decidimos. Ninguém, nunca, poderá medir o tamanho da nossa fé. No máximo irão dizer se fizemos ou não fizemos certas coisas ou vivenciamos ou não certas práticas religiosas. Mas o nosso interior…Só Deus sabe, até mais do que nós. A opção da fé, da confiança, do amor a Deus, é sempre ao mesmo tempo algo de nosso, porque envolve a nossa liberdade, e é dom do Espírito Santo. Se vive, se realiza, o que está vivo por dentro. Se morre também, antes, por dentro. Não serve fingir estar vivos por fora, se estamos mortos por dentro, sem mais a alegria do amor. Bem-vindo Espírito Santo Vida de Deus!


Tu és Jesus?

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Três jovens empresários tinham participado de um congresso e estavam voltando para casa, correndo, para não perder o voo. Na proximidade do aeroporto, alguns ambulantes tinham colocado malas, disfarçando assim os seus produtos que ofereciam aos passantes. Café, docinhos, frutas. Na confusão do vai e vem, arrastando as suas bagagens, eles acabaram batendo numa mala sobre a qual a vendedora, uma criança, oferecia algumas maçãs. Todas rolaram pelo chão. Logo perceberam o que tinha acontecido, mas somente um deles parou para ajudar a criança a juntar, novamente, as frutas. Os outros continuaram apressados para não perder o avião. O homem reparou que a criança procurava as maçãs apalpando o chão com as mãos, mas não acertava nenhuma. Era cega. Quando ele acabou de recolher as maçãs, viu que a maioria delas estava suja e batida. Seria difícil vendê-las. Assim, tirou do bolso uma nota de cinquenta reais e a colocou nas mãos da criança, pedindo-lhe desculpa por aquilo que tinha acontecido. Quando estava saindo, já pensando no voo que talvez tivesse perdido, a criança disse: “Senhor, tu és Jesus?”. Com esta pergunta na mente e no coração, o homem esperou o próximo voo.

Parece uma frase de efeito, mas depois da Ascensão somos todos Jesus. Somos chamados a continuar a missão que o Pai lhe entregou, como ouviremos no próximo domingo de Pentecostes e a fazer “coisas ainda maiores”, como escutamos no evangelho do quinto domingo de Páscoa. A Solenidade da Ascensão de Jesus ao céu não é uma festa de despedida, mas um envio, um grande compromisso até a volta do Senhor. O Espírito Santo vai nos ajudar nesta “missão”, também se, muitas vezes, a esquecemos ou a achemos impossível.

Em primeiro lugar, devemos acreditar que com a Morte e Ressurreição de Jesus tudo mudou. O mal está vencido uma vez por todas. A morte não é mais a última palavra da nossa existência. Deus Pai, que ressuscitou Jesus, é o Senhor da Vida. Vida plena, vida de amor, e é rumo a esta Vida que o Filho quer nos conduzir. É tudo ainda muito novo, parece tão longe. No entanto, com o olhar da fé e do amor, podemos acreditar nas mudanças, pequenas e grandes, pessoais e da sociedade. O “chefe deste mundo” (Jo 14,30) nos promete felicidades egoístas. Ele se serve do nosso medo de perder juventude, saúde, dinheiro e bens materiais, do nosso pavor da morte, para nos manter presos nas coisas que passam. Brigamos dema is por elas. Assim, deixamos de sair de nós mesmos para ir ao encontro de Deus e dos irmãos, fechamos olhos e ouvidos, endurecemos o coração, desistimos de procurar os tesouros da bondade e da paz. Trocamos o caminho da Vida, pelos caminhos da morte. Mas a vitória do Bem sobre o Mal é definitiva, não vai ter virada. Nós, cristãos, somos chamados a participar e a provar com as nossas vidas esta vitória.

Tudo começa no dia do nosso Batismo. Nos tornamos “homens novos” refeitos pelo amor de Jesus, amigos novamente de Deus, irmãos de todos sem ódios e divisões. O mundo precisa de sinais vivos de esperança. Somos enviados a testemunhar que algo diferente da lógica do lucro, da violência e da indiferença já está acontecendo. A coragem de colocar generosidade, compaixão e solidariedade nos nossos encontros todos os dias, toda hora, sempre, deve ser real, concreta, visível. É a “autoridade” do amor; não da força ou da imposição. A mesma autoridade que foi dada a Jesus, “no céu e sobre a terra”, porque o bem não precisa de propaganda, é luminoso por si mesmo, contagiante, atraente. O Amor tem força própria, vai se espalhar “até os confins da terra”. A missão de todo batizado é ser sinal do Reino de Deus que Jesus já começou; onde e no momento que está vivendo; com consciência e responsabilidade, com tremor e entusiasmo, na comunhão e na humildade, dando o melhor de si, porque todos devemos ser como Jesus, ser Jesus hoje. Também se para isso perdemos o voo. Vale a pena.


Onde está o meu beijo?

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Regiane era uma criança alegre e inteligente. Lhe faltava algo, mas ela ainda não sabia. O pai e mãe dela trabalhavam muito. Era uma bela família e viviam felizes. Certa vez, quando Regiane tinha dez anos, foi passar uma noite na casa de uma amiga, colega da escola. Antes de dormir, a mãe da colega ajeitou os lenções delas e deu o beijo de “boa noite” às duas. Junto ao beijo, a senhora disse à filha dela: – Eu te amo, filha – e a criança respondeu: – Eu também, mamãe -. Nunca, nem a mãe e nem o pai de Regiane tinham feito isto com ela. A menina ficou intrigada, matutando. Não conseguiu dormir; estava cheia de raiva com seus próprios pais. Voltou para casa e continuava a se perguntar: – Por que os meus pais não me beijam e não me dizem que me amam? -. Ficou calada por alguns dias. Depois decidiu tomar a iniciativa. Correu para a mãe, lhe deu um beijo e disse: -Eu te amo, mamãe -. Fez o mesmo com o pai. – Os dois adultos, no começo, tentaram se esquivar e pensaram: – Coisa de criança -. Mas tiveram também que beijá-la e responder: – Eu também te amo, minha filha! -. Assim, todo dia, antes de dormir, de ir para a escola ou chegando em casa, Regiane corria para beijar os pais. Certa noite se esqueceu. Então, a mãe, bem devagar aproximou-se da cama dela e disse: – Onde está o meu beijo? – – Ó mãe, esqueci – respondeu Regiane – – Não se esqueça nunca mais – continuou a mãe – Eu te amo muito – – Eu também, mamãe, não irei mais me esquecer, pode ter certeza -.

Para dizer que amamos alguém não precisamos de grandes discursos e de gestos teatrais. Muitas vezes a nossa aproximação, um sorriso e um abraço, são suficientes. Faz bem nos acostumar a gestos simples e sinceros. Porém, a condição essencial para que um gesto, comum ou extraordinário, revele um amor verdadeiro é que ele venha do nosso coração. De outra forma estaríamos enganando ao outro, ou à outra e, pior, a nós mesmos. Fingir, não é bom para ninguém.

No evangelho deste Sexto Domingo da Páscoa, Jesus começa a falar do Divino Espírito Santo. O chama de “defensor”, de Espírito da verdade; alguém que permanecerá sempre com os discípulos. O mundo, ou seja, os que não conhecem e não seguem Jesus, não o podem ver e nem imaginar, mas, para os discípulos, o Espírito Santo estará “dentro” deles. Claro que a nossa curiosidade e o nosso desejo de entender as palavras de Jesus querem saber “dentro” onde e como? Se responder “no coração” pode parecer uma resposta muito sentimental. Se disser “na inteligência”, é dizer bem pouco. Se ainda disser que é a nossa “consciência”, tem gosto de culpas e arrependimentos. Vou responder, mais ou menos, com as palavras de Santo Agos tinho: o Espírito Santo estará no mais íntimo do nosso íntimo. Este, é o “lugar” – que não é um lugar – onde travamos diariamente a luta entre o bem e o mal, onde tomamos as mais importantes decisões da nossa vida, onde experimentamos as alegrias mais puras e os sofrimentos mais marcantes.

Todos temos em nós este “lugar”, antes ou depois descobrimos a sua existência; também aqueles que parecem insensíveis e sem escrúpulos. A questão é saber se lá, no “lugar” mais secreto da nossa vida, está também o Espírito Santo, o dom de Jesus morto e ressuscitado. Importa-nos que ele seja mesmo o nosso “Mestre Interior” como os grandes Padres da Igreja o chamaram? “Mestre” é alguém que deve ser escutado, um guia que nunca cansa de nos ajudar. Responder, agora, “como” tudo isto aconteça é um pouco mais fácil: tudo isto acontece na oração. É orando que abrimos o nosso coração ao Pai amoroso e nos sentimos amparados, acolhidos, amados por ele sem condições. É lá que o Pai, que tem um coração de Mãe, sempre repete: – Eu te amo, meu filho -. Somos nós, pessoalmente e também como Igreja Comunidade, que, amarrados demais com as nossas preocupações, muitas vezes, não respondemos ou não ligamos. Esquecemos. Achamo-nos tão “adultos” e autossuficientes de não precisar de alguém que nos afague com seu carinho. Talvez seja algo que nos falta e ainda não descobrimos bem: o amor de Deus.


Onde está o meu beijo?

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Regiane era uma criança alegre e inteligente. Lhe faltava algo, mas ela ainda não sabia. O pai e mãe dela trabalhavam muito. Era uma bela família e viviam felizes. Certa vez, quando Regiane tinha dez anos, foi passar uma noite na casa de uma amiga, colega da escola. Antes de dormir, a mãe da colega ajeitou os lenções delas e deu o beijo de “boa noite” às duas. Junto ao beijo, a senhora disse à filha dela: – Eu te amo, filha – e a criança respondeu: – Eu também, mamãe -. Nunca, nem a mãe e nem o pai de Regiane tinham feito isto com ela. A menina ficou intrigada, matutando. Não conseguiu dormir; estava cheia de raiva com seus próprios pais. Voltou para casa e continuava a se perguntar: – Por que os meus pais não me beijam e não me dizem que me amam? -. Ficou calada por alguns dias. Depois decidiu tomar a iniciativa. Correu para a mãe, lhe deu um beijo e disse: -Eu te amo, mamãe -. Fez o mesmo com o pai. – Os dois adultos, no começo, tentaram se esquivar e pensaram: – Coisa de criança -. Mas tiveram também que beijá-la e responder: – Eu também te amo, minha filha! -. Assim, todo dia, antes de dormir, de ir para a escola ou chegando em casa, Regiane corria para beijar os pais. Certa noite se esqueceu. Então, a mãe, bem devagar aproximou-se da cama dela e disse: – Onde está o meu beijo? – – Ó mãe, esqueci – respondeu Regiane – – Não se esqueça nunca mais – continuou a mãe – Eu te amo muito – – Eu também, mamãe, não irei mais me esquecer, pode ter certeza -.

Para dizer que amamos alguém não precisamos de grandes discursos e de gestos teatrais. Muitas vezes a nossa aproximação, um sorriso e um abraço, são suficientes. Faz bem nos acostumar a gestos simples e sinceros. Porém, a condição essencial para que um gesto, comum ou extraordinário, revele um amor verdadeiro é que ele venha do nosso coração. De outra forma estaríamos enganando ao outro, ou à outra e, pior, a nós mesmos. Fingir, não é bom para ninguém.

No evangelho deste Sexto Domingo da Páscoa, Jesus começa a falar do Divino Espírito Santo. O chama de “defensor”, de Espírito da verdade; alguém que permanecerá sempre com os discípulos. O mundo, ou seja, os que não conhecem e não seguem Jesus, não o podem ver e nem imaginar, mas, para os discípulos, o Espírito Santo estará “dentro” deles. Claro que a nossa curiosidade e o nosso desejo de entender as palavras de Jesus querem saber “dentro” onde e como? Se responder “no coração” pode parecer uma resposta muito sentimental. Se disser “na inteligência”, é dizer bem pouco. Se ainda disser que é a nossa “consciência”, tem gosto de culpas e arrependimentos. Vou responder, mais ou menos, com as palavras de Santo Agos tinho: o Espírito Santo estará no mais íntimo do nosso íntimo. Este, é o “lugar” – que não é um lugar – onde travamos diariamente a luta entre o bem e o mal, onde tomamos as mais importantes decisões da nossa vida, onde experimentamos as alegrias mais puras e os sofrimentos mais marcantes.

Todos temos em nós este “lugar”, antes ou depois descobrimos a sua existência; também aqueles que parecem insensíveis e sem escrúpulos. A questão é saber se lá, no “lugar” mais secreto da nossa vida, está também o Espírito Santo, o dom de Jesus morto e ressuscitado. Importa-nos que ele seja mesmo o nosso “Mestre Interior” como os grandes Padres da Igreja o chamaram? “Mestre” é alguém que deve ser escutado, um guia que nunca cansa de nos ajudar. Responder, agora, “como” tudo isto aconteça é um pouco mais fácil: tudo isto acontece na oração. É orando que abrimos o nosso coração ao Pai amoroso e nos sentimos amparados, acolhidos, amados por ele sem condições. É lá que o Pai, que tem um coração de Mãe, sempre repete: – Eu te amo, meu filho -. Somos nós, pessoalmente e também como Igreja Comunidade, que, amarrados demais com as nossas preocupações, muitas vezes, não respondemos ou não ligamos. Esquecemos. Achamo-nos tão “adultos” e autossuficientes de não precisar de alguém que nos afague com seu carinho. Talvez seja algo que nos falta e ainda não descobrimos bem: o amor de Deus.


O livro de fábulas

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Foi um pai que contou este fato. “Toda noite a minha filhinha queria que eu lesse uma fábula antes de adormecer. No meio da história, ela já dormia. Logo, eu a colocava na cama. Estava cansado de ler sempre as mesmas coisas. Assim, certo dia, entrei numa livraria em busca de algo novo. A última novidade eram os audiolivros, ou seja, gravações de livros lidos por profissionais. Comprei logo uns dois audiolivros de fábulas para crianças e relativo aparelho para escutar. Uma maravilha! Ensinei à minha filhinha como tudo funcionava e ela ficou feliz. Ela ligava o aparelho, a história começava e ela…dormia. Funcionou por algum tempo. Depois, uma noite, minha filha me empurrou o velho livro de fábulas e me pediu para lê-lo novamente. Eu disse:

– Querida, não precisa eu ler. Já sabe como funciona o aparelho, é só ligar.

– Eu sei – me respondeu a criança – mas eu não posso me sentar no colo dele! – entendi o que minha filha mesmo queria. Não era a fábula, mas a mim, seu pai.”

No Quarto Domingo de Páscoa, sempre encontramos uma página do capítulo 10 do evangelho de João que fala do Bom Pastor. Além disso, é o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Todas as vocações, mas de maneira especial rezamos pelas vocações sacerdotais, religiosas e missionárias. Sem esquecer as nossas famílias, porque a família é o berço de todas as vocações. Foi Jesus quem mandou rezar, porque “a colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Mt 10,37-38). Foi assim foi desde o começo: “chamou os que ele quis” (Mc 3,13). Nós devemos rezar pel as vocações, porque sentimos sua falta, mas é ele quem chama porque só ele sabe quantos e quais “pastores” precisam para sua Igreja.

É sempre bom lembrar que somos todos “chamados”, qualquer que seja a nossa situação pessoal, a sermos “testemunhas” do Evangelho de Jesus. Ele convida todos a segui-lo, também se de formas diferentes, e é nesta variedade de “vocações”, de serviços e ministérios, que se manifesta a riqueza da Comunidade dos seus discípulos. Os caminhos de santidade são diferentes, mas a meta, a construção do Reino de Deus, é a mesma para todos. O grande segredo da vida cristã é nos deixar envolver nesta “missão”.

Com efeito, Jesus não deixou nada escrito e nem um retrato, Ele chamou pessoas reais para continuar a repetir, explicar e viver as suas palavras. Quando praticamos o bem e a justiça, quando amamos e perdoamos, quando somos perseguidos por causa do Evangelho, somos a memória viva dele “vivo”. Não contamos a história antiga de um homem do passado, por glorioso e famoso que tenha sido. Com a nossa vida contamos a obra de Jesus que continua a querer buscar as pessoas, as suas ovelhas perdidas, escondidas, esquecidas. Nós todos somos chamados a emprestar-lhe a nossa voz para que outros irmãos e irmãs possam ouvir, novamente, aquelas mesmas palavras como ditas a eles e a elas, a cad a um e a cada uma. É a maravilha de chamar e nos sentirmos chamados pelo nome, reconhecer a voz de quem nos chama, saber quem é, saber que se interessa por nós, porque nos ama. Isso muito além do anonimato das nossas cidades, dos meios de comunicação de massa, das redes sociais, onde é fácil mentir e se esconder, porque tudo é de todos, muitas vezes sem consciência e responsabilidade. Por isso, Jesus precisa de “testemunhas”, de pessoas reais, concretas, apesar dos seus defeitos e limitações. Porque ainda, hoje, ele quer encontrar, conversar, explicar, abraçar, perdoar, repartir o pão de cada dia e o pão da Eucaristia. Nenhum livro, nenhum gravador, nenhum filme, nenhum WhatsApp pode substituir a amizade e a aproximação de um irmão ou de uma irmã. Jesus foi “gente”, não foi uma “ideia” ou um “esp& iacute;rito”. Por isso, chamou e chama pessoas; enviou e envia pessoas. Manda lançar as redes para pescar sempre a humanidade. Ainda quer carregar a todos nos seus ombros de Bom Pastor. Ou no colo? Tanto faz. Talvez somos nós que esquecemos a sua voz e o seu ombro. Será que o trocamos por algum aparelho?


Jesus vai chegar!

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Certo dia um homem soube que Jesus estava para visitar a sua casa. – Virá mesmo ter comigo? Na minha casa? – pensou. E ficou preocupado. Correu para cá e para lá nos quartos, na cozinha, no quintal. Subiu até o telhado para conferir. Reparou as coisas com outros olhos. Tudo estava sujo, desarrumado, feio, cheio de bugigangas inúteis. – Falta até o ar – disse. Mas não desanimou. Abriu portas e janelas e começou a maior faxina da sua vida. No meio da nuvem de poeira, que logo se levantou, apareceu uma pessoa para ajudá-lo. Era tanto trabalho que não tiveram nem tempo para conversar, mas em dois tudo era mais fácil. Jogaram fora muitas coisas velhas, amontoaram e queimaram uma montanha de lixo. Esfregaram os pisos, limparam os vidros das janelas, descobriram ninhos de baratas e esconderijo de ratos. O homem dizia: – Nunca vamos acabar &ndas h;. O outro respondia: – Falta pouco! – Trabalharam sem parar o dia inteiro. Aos poucos, finalmente, a casa brilhava; parecia nova. Já estava anoitecendo quando os dois, exaustos, foram para a cozinha e arrumaram a mesa. – Agora Jesus pode vir – disse o homem suspirando – – Eu já estou aqui – respondeu o outro – Senta-te à mesa e janta comigo! -.

A página dos discípulos de Emaús, que encontramos neste terceiro Domingo de Páscoa é bem conhecida. Para o evangelista Lucas ainda é o “primeiro dia da semana” – o dia da Ressurreição – um dia tão longo que nunca parece acabar. Chega a noite, mas ainda tem tempo para voltar a Jerusalém, encontrar os Onze reunidos e contar o que tinha acontecido. Tem a arte do narrador naquelas palavras cheias de tristeza e alegria, desânimo e ardor, cansaço e energia, mistério e revelação. Um resumo da experiência do caminho a ser feito por todo discípulo. Por nós também, se queremos sair da tentação da desistência e das nossas obstinadas e inúteis explicações. Não tenho dúvida que a maior dificuldade para entender a alegre n otícia do Evangelho esteja em nossas “ideias”, na nossa pretensão de explicar tudo, de encaixar Deus e o seu agir em nossos raciocínios limitados e, na maioria das vezes, preconceituosos. É o famoso: “Nós esperávamos” dos dois discípulos de Emaús. Em resposta Jesus lhes diz que eram “sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram”.

Paradoxo, em tempos de bombas “superinteligentes”, nós continuamos fechados, sem o desejo e a disponibilidade para entender as palavras de Jesus. Ele sempre tem a paciência de explicar de novo, de fazer arder o coração de quem lhe presta atenção. Mas nós continuamos distraídos; caminhamos na vida que passa sem meta segura, atraídos por promessas de bens individuais e passageiros, fascinados por ilusões egoístas. Tudo isso é muito diferente daquilo que Jesus ensinou e praticou com a sua vida e a sua morte na cruz. Ele tornou visível a misericórdia do Pai, a sua bondade, sem exclusões, com mais atenção aos pequenos, aos doentes, aos sofredores. Não disputou com os grandes, os poderosos; os chamou de mandões, opressores e raposas. Entre os discípulos dele nã ;o deve ser assim. O único “poder” é o serviço, é lavar os pés uns aos outros, como ele, “o Mestre e Senhor” fez. A fraternidade do Evangelho é outra maneira de viver, de organizar a convivência social, a economia, a política, a paz entre os povos. A estrada é longa e cheia de obstáculos, mas Jesus caminha conosco. Não nos deixa, até reconhecê-lo no gesto da partilha, da vida doada, do sangue derramado. É a Eucaristia, a memória do seu amor total. Assim os dois discípulos retomam coragem, o coração, agora, vibra de entusiasmo, sabem o que devem dizer e fazer. São outras pessoas.

Ao longo daquele caminho, foi necessária uma grande “limpeza”: na vida, nas ideias, nas expectativas deles. Jesus ajudou, sem alarde, desconhecido, trabalhando junto, amigo. A casa ficou limpa. O jantar uma festa. Só uma história? Como aquela dos discípulos de Emaús ou o fadigoso “trabalho” de todos nós? Quem não tem algo para jogar fora? É lixo, não serve para nada. Faça uma fogueira. Não tenha medo. Jesus ajuda.


Os eremitas

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Muitos eremitas moravam nas redondezas de uma nascente de água. Cada um tinha construído uma pequena cabana e passava o dia todo em silêncio, rezando e meditando. Recolhidos em si mesmo, invocavam o bom Deus. Este queria visitar os eremitas, mas não conseguia encontrar o caminho. O que via eram tantos pontinhos, um distante do outro, na imensidão do deserto. Um dia, por uma improvisa necessidade, um eremita foi atrás de um outro. No chão, ficou uma pequena trilha. O outro eremita devolveu a visita e a trilha se aprofundou. Outros eremitas começaram a se visitar. Cada vez com mais frequência. Um dia, Deus, que os eremitas sempre invocavam, olhou lá do alto e viu uma teia de trilhas que unia as cabanas dos eremitas. Ficou feliz e disse: “Agora sim, tenho o caminho para visitá-los”.

No segundo domingo de Páscoa sempre encontramos o evangelho de Tomé, o apóstolo que, segundo o evangelho de João, estava ausente na primeira aparição de Jesus ressuscitado. Não acreditou na palavra dos demais. Oito dias depois, quando Jesus apareceu novamente e o convidou a conferir os sinais da paixão, Tomé acreditou e fez a sua bela profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus”. Podemos ficar incomodados, mas todos têm direito de perguntar a quem se declara crist&ati lde;o: – Quem é Jesus para você? -. Melhor ainda se são os filhos que perguntam aos pais. Em família, com simplicidade e confiança. É um bom sinal. Significa que não estão mais satisfeitos com a ordem de ir à Igreja ou ao Catecismo sem ter os pais ao seu lado. Estão crescendo. Estão ficando curiosos e entendendo que ser cristão não pode ser simplesmente um costume, uma “obrigação” de criança e adolescente. Com efeito, para alguns, não é nada mais do que isso, porque, quando crescer, tudo será esquecido. Perguntas e questionamentos são sempre saudáveis, sobretudo, quando nos levam a buscar respostas que nos satisfazem e que, com certeza, serão diferentes segundo a etapa da vida onde estamos: criança, jovem ou adulto. Respostas infantis só podem servir às crianças. Aos adultos n&at ilde;o.

Sempre podemos ficar indiferentes ou achar tudo isso bobagem. Infelizmente, essa é uma resposta que muitos estão dando ao sentido de suas vidas. Outros, conscientes ou não, pedem ajuda. Hoje, televisão e internet parecem ter resposta para tudo. Sem dúvida nos poupam a fadiga de pensar, refletir e nos confrontar com os outros. Muitos param por aí. Não querem arriscar. Vão com as conversas da moda ou constroem uma própria imagem de Deus. Ser cristãos é outra coisa, porque ningu&eacut e;m inventa a fé cristã. Porque ninguém cria Jesus Cristo! A fé cristã é anunciada, comunicada, explicada e, sobretudo, testemunhada, vivida. Depois de entendida, pode ser acolhida como um dom, uma luz para a vida, ou não. Ninguém é obrigado a crer. Nos tornamos cristãos se acreditamos que isso importante para a nossa vida. Mas, de verdade, quem pode nos ajudar a cumprir essa tarefa sempre pessoal e arriscada? É a comunidade de Tomé e dos primeiros discípulos. É a comunidade daqueles que, nos lembra a primeira leitura deste domingo, tirada do livro dos Atos dos Apóstolos, desde o início eram “perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (Atos 2,42). É a Igreja que, antes de ser algo de estruturado e organizado, se nos apresenta nas nossas comunidades, onde nos conhecemos, nos respeitamos e nos ajudamos a viver na alegria e na participação a nossa fé. A comunidade cristã, por pequena e fraca que seja, é o antidoto contra o individualismo. É o único remédio contra aquela maneira de pensar de poder encontrar um Deus, que é amor-comunhão, cada um por sua conta. É verdade que a adesão à fé cristã sempre será e deve ser pessoal, mas não o é no seu conteúdo, naquilo que professamos no “Credo”. Se ficarmos isolados, podemos crer em muitas coisas, mas quem nos garante que acreditamos no Deus Pai de Jesus Cristo, confirmado pelo Espírito Santo? Precisamos de trilhas que nos unam. Somente juntos com os outros, podemos nós também acreditar e dizer a Jesus: “Meus Senhor e meu Deus!”.


Um sorriso

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Certa vez, um sorriso passeava pelo mundo. Era um sorriso simpático, alegre, carinhoso. Estava feliz como só pode sê-lo um sorriso. Chegou numa cidade onde os moradores e o trânsito eram muito nervosos. Estava esperando o sinal abrir na faixa dos pedestres, quando dois carros se chocaram. Pararam ao lado da rua. As portas se abriram. Um dos motoristas desceu rápido e já estava com o rosto desfigurado pela raiva. Foi naquele instante que o sorriso colou nele. De repente, o semblante daquele homem ficou calmo e a atitude amigável. O outro motorista também não estava para brincadeira, mas vendo o sorriso do primeiro ficou desarmado.

– Peço desculpa, a culpa é minha – disse.

– Pode acontecer a qualquer um – replicou o primeiro – vamos tomar um café e acertar o prejuízo, sugeriu.

O sorriso continuou o seu passeio. Ajudou a funcionária de um banco a sorrir e a fila dos clientes acabou mais rápido e sem reclamações. Voou no rosto de um professor e os alunos prestaram mais atenção. Parou junto ao médico-chefe da cirurgia e os doentes se esqueceram um pouco das suas preocupações. Fez sorrir um pai que voltava para casa após uma noite de trabalho. Uma senhora idosa sorriu para os meninos barulhentos, que sempre jogavam bola perto da casa dela. Dois deles, que estavam para brigar, pararam quando foram alcançados pelo sorriso dela e se abraçaram. À tarde, o sorriso partiu. Estava cansado, mas a cidade estava mais feliz.

Falar da Páscoa de Jesus é fácil e difícil ao mesmo tempo. Fácil se conseguimos imaginar todas as “boas notícias” que tanto esperamos e gostaríamos de receber. Saber, por exemplo, que estamos com saúde. Conhecer o resultado de uma prova e saber que fomos aprovados, que conseguimos uma vaga de trabalho e que muitos dos apertos da nossa vida estão para acabar. É fácil, também, se pensamos nos outros, nas pessoas que amamos. Quem bom saber que a esposa, ou o marido, está bem, que os filhos crescem com saúde, que passarão para outra série, que não são tão preguiçosos e nem acomodados. Também são obedientes e não dão tanta dor de cabeça. Vibramos de alegria ao saber que os nossos pais mudaram de id eia: não vão mais se separar e nós – crianças – não somos obrigados a decidir com quem ficar. Nós – crianças – queremos os dois. Que alegria, ter pai e mãe. Finalmente! O namorado, ou a namorada, abriu o jogo. Agora, pensa o jovem, ou a jovem, disse que me ama. Estou feliz! Páscoa, sem dúvida, é um sorriso, um sonho realizado, uma vida nova. Páscoa é luz! É alegria lá onde tudo parecia estar perdido, acabado, sem esperança.

Mas não é bem assim. Falar da Páscoa é difícil, muito difícil. Porque tudo o que acabei de lembrar é só o começo, só um sinal, uma breve antecipação da verdadeira Páscoa. Isso mesmo. Se as pequenas alegrias desta vida já nos parecem tão grandes, se já nos fazem acreditar que vale a pena viver, o que pensar e imaginar da vida nova que Jesus quer nos dar com a sua Páscoa? Talvez seja necessário passar pelo sofrimento, para entender a libertação; passar pela dúvida para descobrir a verdade; passar pela escuridão para dar valor à luz. Para nós cristãos, Páscoa é passagem que ainda está acontecendo. Não é o fim de toda preocupação. Não é ainda uma vida sem obstáculos, sem quedas, sem o sofrimento e morte. Não é, ainda, uma vida sem ódio e sem guerras grandes e pequenas. Nós ainda vamos passar por tudo isso, porque a Páscoa de Jesus não é a imaginação de uma vida beata, num mundo de fábulas e de ficção construída no computador. Páscoa é ainda passagem: uma subida ao Calvário para vencer o nosso egoísmo, para aprender a buscar o bem dos outros e não somente o nosso, porque a Páscoa de Jesus é vida doada e não segurada para nós e roubada aos outros. É amor, entrega. Isso custa, mas é esta a Vida Nova de Jesus. Esta é a Boa Notícia: a vitória sobre o mal já começou. A morte não tem mais a última palavra. O amor de Jesus venceu! Vivamos bem as alegrias da vida. Amemos e façamos outros sorrir, por que Páscoa é a festa da Vida, da vida plena. A vida de Deus, presente de Jesus ressuscitado para quem acreditar nele. Hoje é só o começo.


O sinal da cruz

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Um senhor gostava muito de conversar com o pároco e o considerava seu amigo, mas continuava a se professar ateu. As discussões eram longas e acaloradas. Certa noite, após algumas fatias de pizza e mais uma conversa, o bom padre acompanhou o homem até o carro para se despedir. Surpreendentemente, antes de dar a partida do motor, aquele senhor fez o sinal da cruz. O pároco abriu a porta do carro e disse:

– Mas como? Te proclamas ateu e agora fazes o sinal da cruz?

– Não é o que senhor pensa – respondeu o homem. – Eu faço assim… Levou a mão até a testa e disse: não esqueci nada, depois bateu no peito e falou: comi bem. Em seguida, bateu no bolso esquerdo da camisa e disse: tenho os óculos. Bateu também no bolso direito da camisa e exclamou: a carteira de motorista está aqui. Juntou as mãos satisfeito e disse: tudo em ordem, podemos ir. Bateu na chave do carro e foi embora.

A partir deste domingo, iniciamos aquela que nós católicos chamamos de Semana Santa. São os últimos dias da Quaresma e a Páscoa é a solenidade mais importante do ano litúrgico. Por isso, os “preceitos da Igreja” pedem aos cristãos para confessar os seus pecados, ao menos, uma vez ao ano e receber a Eucaristia por ocasião da Páscoa. É o mínimo que um católico deve fazer se quiser continuar a manter algum laço visível e significativo com a comunidade, a Igreja, que o batizou, crismou e o admitiu à mesa do Corpo e do Sangue de Jesus. É verdade que muitos batizados já mudaram de lugar; talvez estejam vivendo em outra cidade e em outra paróquia, mas nem por isso podem esquecer as origens da sua fé. É neste sentido que a Igreja é “mãe”: porque gera a vida cristã. Infelizmente, existem pais que se esquecem dos seus filhos e filhos que se esquecem dos seus pais. Esquecer da mãe Igreja é mais fácil ainda. Basta deixar de frequentá-la.

A celebração dos dias da Páscoa, sobretudo os últimos três: Quinta, Sexta e Sábado Santo com a grande Vigília Pascal, são uma excelente oportunidade para renovar a nossa participação na comunidade, confirmar os fundamentos da nossa fé, o que nos distingue de outras confissões religiosas e o porquê. Não basta usar e proclamar o nome de Jesus. Precisa, também, lembrar de maneira ativa e consciente o que ele fez e por quê o fez. As consequências da sua Paixão, Morte e Ressurreição chegam até nós. Ele mesmo mandou guardar a sua “memória” do jeito que ele escolheu. É isso que a Igreja Católica procura fazer desde o seu início. Na Mi ssa, após o “memorial” da Última Ceia, ao padre que proclama: “Eis o mistério da fé!”, todos respondem: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde Senhor Jesus!”. Dessa maneira, os cristãos se comprometem a ser sinais de esperança e vida nova para quem se encontrar na tristeza, no abandono, na “morte” do mal que faz sofrer a si mesmo e aos outros, ou se fecha no túmulo do próprio egoísmo.

Muitos vivem hoje uma vida corrida, cheia de compromissos e de tarefas. Alguns por necessidades, outros seguindo as prioridades escolhidas por eles mesmos. Encontram tempo para muitas coisas, mas dificilmente param para refletir e avaliar a própria vida, o rumo dela e o sentido mais profundo do que dizem e fazem. Jesus Cristo é o mesmo, mas nós mudamos muito e, continuamente, a cada etapa da vida. Tem o Jesus da Primeira Comunhão, o Jesus da juventude, depois da família, da idade madura e da velhice. Em nosso relacionamento com Deus, existem as pausas, as paradas, mais ou menos longas, os entusiasmos, as decepções, os abandonos e os retornos. O seu amor é para sempre. Não importa se, neste momento da nossa vida, a Cruz dele é só um enfeit e para nos proteger do mau olhado e dar sorte na vida. Não importa se o sinal da Cruz só serve para ver se tudo está em ordem no nosso bolso. Deveria servir para lembrar a sua vida doada, para nos sentirmos amados pelo Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nunca é tarde para nos deixar alcançar pelo amor de Jesus. É Páscoa de novo!