O caroço de milho

comentários

ois amigos voltavam do trabalho e caminhavam por uma estrada de chão, quando viram um grão de milho à sua frente. Um deles comentou:
– Veja, encontramos a nossa mina do ouro! Se plantarmos este grão, nascerá um pé de milho; debulhando as espigas e voltando a plantar, teremos uma roça de milho; depois, debulhando novamente todas as espigas e plantando novamente, teremos uma lavoura de milho e, assim, continuando, nos tornaremos grandes produtores. Seremos ricos!

– Nossa, como você é inteligente! – respondeu o outro – mas eu não quero ser seu sócio. Você é muito ganancioso. Assim que crescer o primeiro pé de milho, eu pegarei as minhas espigas e as plantarei na minha roça. Nada de ser seu parceiro.

– Esta é a sua gratidão pelas minhas ideias? Eu também desisto de ser seu amigo. Não confio mais em você. Enquanto os dois conversavam, uma galinha passou por eles e engoliu o caroço de milho. Assim se foram todos os sonhos deles.

Com o primeiro domingo de Advento retomamos, mais uma vez, a caminhada de fé do Ano Litúrgico. Desta vez nos acompanhará o Evangelho de Marcos. Novamente, lembraremos os grandes momentos da vida de Jesus e dos seus seguidores, os discípulos daquele tempo e os de hoje, que somos nós. Somente quem pensa que reavivar e refletir sobre a própria fé seja inútil, deixa de se alegrar com o novo começo. Na realidade, a vida cristã é sempre algo que está acontecendo, e a Igreja, como mãe e educadora dos seus filhos, toma-nos mais uma vez pela mão e nos conduz ao encontro com o Senhor.

O tempo do Advento, que nos prepara ao Natal, começa com um forte convite à vigilância. A nossa existência se desenvolve no tempo que passa e todos aguardamos os acontecimentos que virão. Alguns são, em parte, previsíveis, porque são o resultado das nossas ações anteriores; outros nos pegam de surpresa. Alguns desses momentos são bons, alegram-nos e nos animam. Outros, aparentemente, são indiferentes: uma rotina de dias que se seguem, mais ou menos, iguais e cansativos. Enfim, temos as horas tristes, de sofrimento e provação. Esses são os dias nos quais experimentamos o vazio, a solidão, as dúvidas e perguntamos a nós mesmos o sentido das coisas.

“Vigiar” para o evangelho, não é simplesmente não dormir é, sobretudo, prestar atenção, buscar respostas às perguntas da vida, discernir, no meio de tantas propostas e possibilidades, o caminho certo. Nas escolhas, todos procuramos, conscientes ou não, aquela que chamamos de felicidade, algo muito bom, que satisfaça todos os nossos sonhos e anseios. Mas será mesmo possível encontrar essa felicidade? É neste ponto que acontecem os maiores enganos e as maiores frus trações. Tudo o que for simplesmente humano, também se importante e valioso, irá passar. Para os cristãos, porém, o horizonte da vida, não está somente nas coisas, nos bens e nas pessoas deste mundo. A meta é o nosso encontro com o próprio Deus Pai, aquele que sempre é e sempre será. “Vigiar” para os cristãos é, portanto, dispor-se a este encontro que o próprio Deus sempre nos oferece de novo. Ele nunca desiste de nos procurar. Por isso, veio no seu Filho Jesus, no meio de nós, igual a nós, pequeno, pobre e sofredor. Ele quer falar novamente ao nosso coração, também quando está sufocado por tantas distrações, fúteis e superficiais. Muitas vezes trocamos o Senhor da Vida por coisas materiais, emoções passageiras, ambições alienantes e egoístas. Estamos demorando de mais para descobrir o engano.

De muitas maneiras, todos encontramos o nosso caroço de milho, que nos ilude com um futuro talvez mais fácil, mas, certamente, temporário. Melhor tirá-lo logo da nossa frente, para ver se aprendemos a construir uma vida mais real, concreta e, possivelmente, útil no alcance da meta certa para nós e para tantos irmãos e irmãs comprometidos com a mesma busca de um sentido para tudo o que acontece. Um sentido grande, verdadeiro e luminoso. Hoje, mais do que nunca, devemos “vigiar”, para não sair do caminho que, afinal, é Jesus.


O Ano Nacional do Laicato

comentários

Com a Solenidade de Cristo Rei, encerramos o Ano Litúrgico. O próximo domingo já será o Primeiro de Advento do ano novo, rumo ao Natal de Jesus. O Domingo de Cristo Rei, deste ano, porém, tem um sentido especial. No Brasil terá início o Ano Nacional do Laicato, que continuará até o domingo de Cristo Rei de 2018 (25 de novembro). Cabe alguma explicação: o que entendemos por “Laicato” e porque um Ano Nacional sobre esse assunto. Para entender, lembro também o lema escolhido: Cristãos leigo s e leigas, sujeitos na “Igreja em saída”, a serviço do Reino. Referência bíblica serão os versículos de Mt 5,13-14, resumidos na frase: “Sal da Terra e Luz do Mundo”. A palavra final sobre o Ano Nacional do Laicato foi dada, ainda no ano passado, com a aprovação dos bispos, no Documento 105: “Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade”. O documento teve uma gestação demorada e bem participada pelos próprios leigos e leigas. Muitos tiveram a possibilidade de expressar suas ideias e sugestões. O documento tem como finalidade retomar o assunto dos leigos e leigas, destacando a sua presença ativa e consciente, como sujeitos na Igreja e na sociedade. Para entender do que estamos falando, precisamos esclarecer quem são os leigos e as leigas.

Em geral, ainda hoje, esses nossos irmãos e irmãs são definidos por aquilo que “não são”. É comum ouvir dizer: quem não é padre, nem frei e nem freira, é…leigo. Essa expressão não explica toda a verdade. Igualmente, para alguns, falar de Igreja, significa falar de papa, bispos, padres, religiosos e religiosas. O cristão, em geral, não se reconhece Igreja. No entanto as coisas devem ser entendidas de forma muito diferente. O Concílio Vaticano II, do qual comemoramos os 50 anos da c onclusão em 2015, procurou buscar o que é comum a todos os cristãos antes do que os distingue. Todos os batizados formam o único Povo de Deus e todos têm a mesma dignidade. Não tem cristão de primeira, segunda, ou terceira categoria. O que diferencia os batizados são os ministérios, ou serviços na Igreja e as vocações específicas, mas isso não torna ninguém mais cristão do que os outros. Isso deve ficar bem claro. Os padres, que são uma minoria absoluta no meio do povo de Deus, estão a serviço dos demais batizados, através do ministério ordenado que os habilita ao pastoreio e à administração dos sacramentos. Os religiosos e as religiosas, hoje os “consagrados” em geral, manifestam uma vocação específica para a vida comum, a pobreza, a castidade e a obediência. Mas os difer entes dons que o Espírito Santo distribui às pessoas são todos e sempre para o bem dos demais.

Nesse sentido, é preciso reconhecer a enorme contribuição que os cristãos leigos e as leigas dão à Igreja toda. Não somente participando dela, mas realmente colaborando de todas as formas. Basta pensar nas nossas paróquias e comunidades. Não teríamos tantas pastorais, movimentos, grupos e serviços e não conseguiríamos realizar tantas iniciativas sem a presença ativa dos leigos e leigas. Apesar de tudo, porém, ainda estamos longe do fato que todos os batizados tenham consciência de ser &l dquo;sujeitos” da vivência da própria fé e da própria missão na Igreja e na sociedade. Muitos leigos e leigas, nas comunidades, ajudam de forma extremamente generosa e totalmente entregue aos muitos serviços, mas, às vezes, ainda preocupados mais em agradar aos padres que por causa do seu próprio Batismo e Crisma. Ser “sujeitos na Igreja e na sociedade”, significa saber o porquê do engajamento, o valor do testemunho, a alegria da doação.

A situação é ainda pior se observarmos a presença dos cristãos na sociedade. Todo batizado “é” Igreja lá onde vive, trabalha, luta e sofre. É plenamente sujeito, já foi enviado pelo Batismo. Deve ser a “luz” que ilumina de amor a vida familiar, os negócios, a política, a economia, a cultura, os meios de comunicação. Luz que desmascara a injustiça e a exclusão. Deve ser o “sal” que dá sentido à honestidade, dá gosto à solidar iedade, tempera a impaciência para que a alegria da paz brote no coração de sempre mais irmãos e irmãs. Quantos cristãos estão apagados e sem gosto por medo, vergonha, ou mesmo ignorância da sua missão. Temos muitas coisas a descobrir e a viver, mas sempre em comunhão. Um só Povo de Deus, fraterno e unido no serviço a Cristo Rei, de verdade. Sem clericalismos, antagonismos e disputas pelo poder. Só pela causa do Reino.


A flor e a borboleta

comentários

Certa vez, um homem pediu a Deus uma flor e uma borboleta, mas Deus lhe deu um cacto e uma lagarta. O homem ficou triste, pois não entendeu o porquê do seu pedido vir errado. Daí pensou: “Também, com tanta gente para atender!”. E resolveu não questionar. Passado algum tempo, o homem foi verificar o pedido que deixara esquecido, e, para sua surpresa, do espinhoso e feio cacto havia nascido a mais bela das flores. E a horrível lagarta transformara-se em uma belíssima borboleta.

Já disse, domingo passado, que a espera da volta do Senhor deve ser vigilante, atenta e ativa. A parábola dos talentos continua essa questão. Ela é bem conhecida e todos poderíamos fazer muitas considerações a respeito, porque está, no seu conjunto, debaixo dos nossos olhos. Todos os dias, encontramos pessoas ocupadas que usam muito bem dos dons e das capacidades que a natureza e o seu esforço lhes proporcionaram. Algumas conseguem fazer isso superando, muitas vezes, deficiência físicas ou outras limitações. São admiráveis pela dedicação. Outras pessoas são diferentes: parecem ser tomadas pela indolência, a preguiça e nunca tomam iniciativa para nada. Carecem de autonomia, dependem das decisões dos outros. Têm medo de Deus? Não, na verdade têm medo de serem criticadas. É obvio! Somente quem faz alguma coisa pode fazer certo ou errado. Quem nunca faz nada, também nunca errará. Qualquer ação, qualquer decisão ou empreendimento exige um mínimo de coragem e de disponibilidade a correr algum risco.

Até aqui a vida do dia a dia, na variedade infindável dos seres humanos, dos seus gênios e temperamentos. Mas Jesus não contou a parábola dos talentos para incentivar a poupança em algum banco. Precisamos fazer uma leitura espiritual dessa parábola extraordinária. Mais uma vez Deus, o verdadeiro senhor dos bens, os entrega largamente aos seus “empregados”. Ele, não somente é generoso, ele confia e viaja, para deixá-los livres de decidir. É maravilhoso. Ele quer “empregados” responsáveis, conscientes do valor dos b ens recebidos. Os que assim entendem, ficam felizes, partem para o bom uso dos dons recebidos, trabalham e os dons se multiplicam.

Podemos pensar na nossa própria vida, nas nossas capacidades, no planeta Terra, na inteligência e criatividade humanas. Quantas coisas surpreendentes o ser humano já fez e ainda vai fazer. No entanto, nem tudo o que fazemos multiplica o bem comum e a alegria de todos. O homem já fez e faz também guerras, inventa armas e remédios para matar o seu semelhante, disputa o que é de todos, para seu uso particular, deixando povos inteiros sem alimentos e sem água para sobreviver. O servo da parábola, que enterrou o talento, foi chamado de “mau, preguiçoso e in útil”. Como poderíamos chamar aqueles que escravizam países por causa das dívidas, apavoram com a violência populações inteiras e as obrigam a deixar as suas casas, deixam morrer crianças inocentes pela fome e a miséria? Trabalham muito, mas só para aumentar sem fim o seu lucro. Quanto sofrimento no mundo depende do mau uso dos bens entregues à humanidade, herdados dos antepassados e construídos por outros. Bens que, afinal, todos teremos que deixar, um dia. Como cristãos, temos a obrigação de consciência de fazer bom uso das nossas forças e capacidades, seremos julgados sobre o bem feito aos irmãos necessitados.

Às vezes, porém, nós também desanimamos, parece-nos uma tarefa impossível ou uma exigência infindável. Temos a impressão de que seja o mal a se multiplicar e não o bem. Temos medo de estarmos no caminho errado vendo avançar o poder do dinheiro, das armas, das ideologias contrarias à vida, à dignidade humana e à liberdade das pessoas. Estamos esquecendo de que não tem vida nova, a ressurreição, sem a morte de cruz, sem abandono do homem velho egoísta e interesseiro, violento e rancoroso. O bem sempre afasta o m al, o belo apaga a feiura, a vida vence a morte. Somos somente pequenos colaboradores do grande projeto do reino de Deus. Um dia veremos o cacto florescer. Vai
perfumar! E a lagarta se tornará borboleta. Vai voar! Sem medo.


‘Ainda há muito tempo’

comentários

Certa vez, um rei organizou esplêndido festim. Para a alegre e feliz reunião convidou muitos dos seus súditos, mas não assinalou a hora em que deviam comparecer. Os mais perspicazes e previdentes vestiram, desde logo, seus trajes finos, adornaram-se com suas joias de maior realce e aguardaram pacientes o momento em que deviam ser recebidos no palácio do príncipe. Os tontos pensavam: – Ainda há muito tempo -, e se entregavam descuidados a seus insensatos caprichos. De improviso, soou a hora do festim e uns e os outros correram para a régia morada. O príncipe avistou os precavidos, que estavam decentemente vestidos e preparados, e os recebeu com alegria. Atentou, irrit ado, nos tontos, indecorosos e desasseados, e os expulsou de sua presença.

Essa história está no Talmude, livro dos judeus de explicação e comentário às Sagradas Escrituras. É fácil conferir a semelhança com a parábola de Jesus que encontramos no evangelho deste domingo. Na parábola, porém, as personagens são dez moças, cinco previdentes e cinco imprevidentes. Na espera do noivo, para entrar na festa do casamento, todas dormiram. As lâmpadas se apagaram. Quando o noivo chegou, somente as previdentes, que tinham trazido óleo de reserva, conseguiram acender novamente as lâmpadas e, assim, entrar na festa do casamento. A porta fechou e as imprevidentes, que tinham ido comprar o óleo, ficaram de for a.

Estamos nos últimos domingos do ano litúrgico e também concluindo a leitura do evangelho de Mateus. Jesus tinha prometido voltar, mas não disse quando. Nos evangelhos ficaram maneiras diferentes de entender a volta do Senhor. Alguns o aguardavam num curto prazo de tempo e interpretaram a destruição do Templo de Jerusalém como o sinal da brevidade deste tempo. Outros, com o passar dos anos, a morte dos apóstolos e dos seus imediatos sucessores, começaram a entender que as palavras de Jesus, mais que marcar uma data, indicavam a maneira de esperar o encontro com ele. Devia ser uma espera vigilante, atenta e ativa. Não seria um simples transcorrer do tempo.

A vida passa para todos. O fim dela é algo inevitável, não depende da nossa vontade. O que está ao nosso alcance, portanto, não são os prazos e nem a possibilidade de parar o tempo. O que nos cabe é decidir como gastar o tempo da nossa passagem neste mundo. Podemos passar os anos “dormindo” ou na ilusão de ter sempre muito tempo à nossa frente, ou… é aqui que se propõe a mensagem de Jesus. A vida é algo que não pedimos, mas também não é um castigo ou um destino pré-fixado fora do nosso alcance. A vida, apesar de toda a sua complexidade, é a possibilidade que temos de fazer algo, que tenha um sentido para n ós e, possivelmente, também para aqueles que as circunstâncias nos fizerem encontrar. Tem sempre uma “chama” que pode dar sentido à vida, em qualquer lugar e em qualquer situação, é a chama do amor. O segredo, porém, é manter essa chama acesa, dando amor, mais do que o recebendo, oferecendo alegria, mais do que a cobrando dos outros. Mas, se a chama do amor se mantém viva somente se for comunicada, por que, na parábola do evangelho, as moças previdentes não partilharam o óleo com as imprevidentes? Talvez seja por que cada uma e cada um de nós tem a sua parte de amor para dar e somente serve se a pessoa decide como usar esse tesouro.

Na infância, todos recebemos afeto, carinho e proteção. Depois, já no tempo da juventude, a nós é dada a possibilidade de tomar consciência do valor do amor e do sentido da vida. Podemos gastar muitas energias somente conosco, para aproveitar das forças que nos parecem inesgotáveis. Mas podemos, também, administrar bem esse enorme potencial de amor. Podemos decidir como e com quem fazer algo de bom, de útil, como tornar a vida mais bonita e feliz para tantos outros. Podemos, enfim, todo dia aprender a amar. Também com os cabelos brancos. A chama não acabará. Mas será sempre algo muito pessoal, porque o tempo da vida e a capacidade de amar serão sempre e somente nossos, únicos, intransferíveis.


A alma e o corpo

comentários

O príncipe Tavir colocou como vigias do seu belíssimo pomar um cego e um coxo. O cego, com o seu ouvido apurado, devia gritar ao mais leve rumor. O coxo devia sempre estar vigilante para surpreender qualquer intruso. Os dois deviam guardar, com todo cuidado, os frutos preciosos de uma ameixeira. O príncipe pensava: – Não serei roubado. O cego não pode ver os frutos maduros e o coxo não os poderá alcançar.

Durante as horas de vigília, porém, o coxo descreveu a delícia dos frutos maduros e se queixava de não poder apanhá-los. Logo, o cego encontrou a solução. Disse ao coxo para se arrastar até subir nas suas costas e, guiado por ele, colocou-se aos pés da árvore. Juntos, comeram muitas frutas. O príncipe não demorou a descobrir o roubo, mas os dois, cada um apresentando a própria deficiência, declararam-se inocentes. Intrigado, o príncipe não desistiu e resolveu fazer um teste: mandou dois guardas colocar o coxo nas cost as do cego e desmascarou o truque dos ladrões. De imediato, ordenou que fosse dada uma surra nos dois, juntos, pois haviam agido dessa maneira.

Assim, no Dia do Juízo, a alma dirá para justificar os seus erros: “Só o corpo é culpado; só ele cometeu o pecado. Quando nasci, voava puríssima como um pássaro”. O corpo, também, com medo do castigo dirá: “Senhor! Só a alma é culpada; nada fiz. Como eu poderia cair no erro se a alma não me animasse para isso?”. E Deus, supremo juiz, colocará de novo a alma dentro do corpo e dirá: “Eis como haveis pecado. E assim também será feita justiça”.

O que vale para o mal, vale, igualmente, para o bem. Na festa de Todos os Santos e Santas lembramos seus exemplos, assim como reavivamos o chamado de todos nós, batizados, à santidade. É muito importante entender que também os que a Igreja nos propõe como modelos de santidade, foram seres humanos como nós, não foram “anjos”, puros espíritos ou almas desencarnadas. Foram pessoas bem concretas e viveram numa época bem precisa. Fizeram tantas coisas boas dentro das condições e limitações humanas, no tempo que passaram neste mund o terreno e material. Tiveram fome e sede, precisaram descansar, adoeceram e morreram, como todos. Lutaram e venceram tentações. Tiveram fraquezas, momentos de desânimo, decepções e dúvidas. Para todos, o caminho da santidade foi trilhado aos poucos. Nas quedas, levantaram. Nos sucessos, continuaram humildes. Nunca desistiram, foram fieis até o fim. Todos tiveram “defeitos”. Alguns tiveram mesmo deficiências físicas, corporais. Também questões psicológicas e temperamentais devem ser levadas em conta. Tudo isso, porém, não foi empecilho para a santidade. Ao contrário, muitos se santificaram apesar desses defeitos ou na superação dessas limitações. Para alguns, o corpo foi “o irmão asno”, uma prisão da qual, às vezes, pediam para serem libertos. Para outros, apesar de tudo, foi o instrumento indispens&aa cute;vel para abrir novos caminhos na missão evangelizadora, no saber, na busca da verdade, para irem ao encontro de quem ainda não conhecia Jesus Cristo. Para todos, a vida foi material e espiritual ao mesmo tempo. Uma vida só. Bem-aventurados, alegres, felizes, por servir a Deus e aos pobres.

É muito bom perceber os Santos e as Santas mais parecidos conosco para acreditar que a santidade é possível. Do jeito que viemos ao mundo, no momento histórico, no pais, no meio das transformações de uma época, sem medo de viver o mesmo Evangelho dos primeiros chamados, dos mártires, dos Santos e Santas, grandes e pequenos, homens e mulheres, casados e solteiros, virgens, pais e mães. Não existe um modelo pré-determinado de santidade. Cada um deve encontrar o seu caminho seguindo os passos de Jesus do Natal até a Páscoa, olhando a Maria Santíssima, aprendendo com os que nos precederam. Desculpas? Só para quem acha inútil fazer o bem, ser bons, perdoar, amar. Mas, nesse caso, é o sentido da vida que está em jogo, não somente a santidade.


O homem certo na hora certa

comentários

No dia 19 de maio passado, aos 78 anos, faleceu, no mais completo esquecimento, o Sr. Stanislav Petrov, ex-tenente-coronel do exército soviético. Eram os anos da “guerra fria” e, no dia 26 de setembro de 1983, ele tomou uma decisão que salvou o mundo da terceira guerra mundial. Stanislav estava no turno de madrugada, no refúgio subterrâneo, trabalhando no computador Krokus, que monitorava todas as atividades dos mísseis americanos. Se Krokus desse algum sinal de movimentação, ele devia avisar imediatamente os superiores, os quais iniciariam o contra-ataque. Ele mesmo não teria aperta do o temido “botão vermelho”, mas contribuído para “armar” a mão de quem o faria. Tudo parecia tranquilo, mas, de repente, o computador central assinalou que um míssil tinha partido de uma base no Montana rumo à União Soviética. Petrov manteve a calma e procurou ganhar tempo: tinham-lhe dito que, se os Estados Unidos atacassem, o fariam de forma maciça. Portanto, aquele míssil solitário não o convenceu: podia ser um falso alarme. E não o convenceram, nem os sucessivos quatro que apareceram na sequência. Dos radares de terra também não chegavam confirmações. Aguardou mais um pouco, mesmo se não restava muito tempo: um míssil intercontinental empregava menos de meia hora para alcançar o objetivo e restariam só poucos minutos para contra-atacar. Por fim, sob os olhares aterrorizados dos outros presentes, Petrov assumiu a enorme responsabilidade de não dar o alarme. Teve razão, felizmente. Em seguida, descobriu-se que o “infalível” Krokus tinha se enganado. O ocorrido foi silenciado. Por sua ação, Stanislav não recebeu reconhecimentos na pátria. Já teve sorte de não receber punições por ter desobedecido às ordens. Quando, enfim, a história se tornou pública, ele recebeu algum prêmio no exterior. Já idoso, repetia: “O que fiz? Nada de especial, só o meu trabalho. Fui o homem certo na hora certa”.

O que tem a ver essa história verdadeira com o mandamento do amor que encontramos no evangelho de Mateus deste domingo? Talvez nada. Não conhecemos as motivações que levaram esse “salvador da humanidade” a agir assim. Não sabemos se teve consciência da sua responsabilidade; se desejava a paz mundial ou, simplesmente, não gostava de briga. Também não sabemos se acreditava, ou não, em Deus. No entanto, podemos tirar algumas lições. A primeira é que o amor verdadeiro nunca é simplesmente um sentimento ou uma boa intenção; ao amor sempre corresponde alguma maneira de agir. A segunda lição é que, em geral, as nossas ações têm consequências, para bem ou para o mal, mesmo quando Deus e o próximo parecem não ter nada a ver, e o nosso agir insignificante, porque ninguém está vendo ou vai saber.

Esta, porém, é a maravilha e a grandeza do amor. Não precisa ser algo de extraordinário para ter valor. Basta acreditar que o bem sempre vale por si mesmo, que o respeito à vida, a promoção da dignidade humana, a sobrevivência de qualquer espécie e do planeta inteiro, sempre são importantes e valem em qualquer momento e em qualquer lugar. Os gestos heroicos, de quem salva vidas, são exemplares e merecem a nossa admiração, porque nos lembram que sempre devemos estar atentos e prontos a fazer o bem. Não precisa que pegue fogo uma creche para defender a vida das crianças de mil outras amea& ccedil;as. Não devemos aguardar um terremoto para reconstruir, depois, casas dignas e antissísmicas. Nem esperar o deslizamento de uma encosta para desmascarar a especulação imobiliária. Não serve ficar apavorados com as estatísticas do câncer para proibir, sempre tarde demais, o uso de certos remédios e venenos. O amor ao próximo se aprende aos poucos, através de pequenos gestos de amizade e solidariedade. Quando amamos a Deus de verdade aprendemos a pensar grande, porque ele ama a todos também através do nosso pequeno amor. Naquela hora, Stanislav Petrov, talvez, pensou simplesmente na vida dele e da sua família; sabia que uma guerra nunca seria boa, para ninguém. Pensou grande, porque pensou na vida. E Deus é sempre o Deus da Vida.


O par de sapatos

comentários

Um homem, já de certa idade, entrou no ônibus. Enquanto subia, um dos seus sapatos escorregou para o lado de fora. Mas a porta se fechou e o ônibus saiu às pressas. Não foi possível recuperar o sapato. Tranquilamente, o homem retirou seu outro sapato e jogou-o pela janela. Um rapaz, vendo o que acontecera, perguntou: – Eu vi o que aconteceu e o que o senhor fez. Por que jogou fora seu outro sapato? – – Eu agi de forma que quem o encontrar possa usá-los. Provavelmente, apenas alguém necessitado dará importância a um sapato usado, encontrado na rua. Porém, de nada lhe adiantará ter somente um deles. Talvez, juntando os dois, possam ter alguma serventia. Para mim também, um só sapato teria ficado inútil.

Foi um pequeno gesto de generosidade, desprendimento ou, simplesmente, de bom senso. A ninguém serviria mesmo ter um sapato só. No entanto, em geral, preferimos juntar coisas, bens e riquezas, muitas das quais, de fato, nunca iremos usar.

O evangelho de Mateus deste domingo nos traz uma palavra de Jesus bem conhecida: “Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21). Muitas questões estão em jogo: o pagamento de impostos, nunca agradável para ninguém; a figura e a inscrição do imperador romano na moeda, algo escandaloso para os judeus. Para entender isto é só lembrar que “César” era considerado um deus e, portanto, a disputa pode ser colocada entre o Deus verdadeiro e os “deuses” falsos, ou ídolos, imortalizados pelos homens. No entanto, com sua resposta, Jesus, nos ensina a ir além destas controvérsias. Não é q uestão de verdade ou de mentira, de obedecer ou desobedecer, de legalidade ou ilegalidade. É questão mesmo de identidade…de Deus.

O “deus” César – o imperador de outrora e os poderosos de todos os tempos – cobrava os impostos e ai de quem não pagava. Ao contrário, o Deus, Pai de Jesus, doa tudo, até o próprio Filho. Ele faz isso não porque não precisa de riquezas materiais, mas porque é amor em si mesmo, nunca cobrança ou acumulo. O que ele nos pede, no máximo e ainda respeitando sempre a nossa liberdade, é uma resposta amorosa à sua generosidade.

Nós, por medo de ficar sem o conforto, escolhemos guardar o supérfluo e não o partilhamos com quem não tem nem o necessário. Quantos “tesouros”, de muitos tipos, são simplesmente guardados para o orgulho dos que se consideram os donos. Ficam trancados a sete chaves, por medo dos ladrões; na realidade já estão sendo subtraídos à alegria de quem nem imagina que existam. Quais frutos de bem, paz e justiça, produzem?

Também se falamos de impostos, entendemos que deveriam ser para o bem comum, para os serviços essenciais aos mais pobres, no respeito do direito à vida digna para todos. Todo imposto desviado da sua finalidade é roubado aos pequenos. Todo imposto que alimenta privilégios e discriminação é uma afronta à fraternidade. Exigir o uso correto do dinheiro público não é implorar favores, mas cobrar que se cumpra a obrigação de devolver a que tem direito o que de todos. Obras públicas inúteis, inacabadas, superfaturadas, lucros e salários astronômicos, são “pecados sociais”, verdadeiras injustiças porque, afinal, toda a s ociedade contribui, direta ou indiretamente, com os seus tributos e aguarda a justa administração deles. Além disso, como cristãos já deveríamos ter entendido que só é possível “dar” a Deus alguma coisa se a doamos aos nossos irmãos famintos, sedentos, desabrigados, doentes, presos e marginalizados. Com eles Jesus, o enviado do Pai, se identifica. Quando fechamos olhos, ouvidos e coração estamos servindo mais aos “Césares” deste mundo, que ao Deus da Vida, ao Deus Amor, que dizemos adorar. As obras de misericórdia podem ter rostos novos, mas nunca vão deixar de existir. Sobre elas seremos julgados. Continuamos a guardar o sapato velho. Um só, inútil. Ninguém mais vai usar, nem nós. Mas não o doamos. Por que?


Hospitalidade para os cavalos

comentários

Dois jovens, dotados de grande saber, peregrinavam pelos caminhos da terra, mal trajados e obscuros. Certa noite, chegaram numa cidade e ninguém quis dar-lhes pousada, exceto um pobre homem chamado Aarão. Anos depois, os dois tinham colocado a bom fruto os seus saberes e chegaram novamente naquela cidade. Dessa vez, porém, numa carruagem bonita e bem trajados. O homem mais rico da cidade logo ofereceu-lhes hospitalidade, mas os dois recusaram e se dirigiram à casa do pobre Aarão. O ricaço protestou, mas eles responderam: “Somos as mesmas pessoas a quem não destes a menor atenção, quando passamos por aqui, alguns anos atrás. Dá para entender que o vosso acolhimen to, hoje, não é propriamente para nós, mas para a nossa roupa e a nossa carruagem. No entanto, estamos dispostos a aceitar a vossa hospitalidade para os nossos cavalos”.

No evangelho deste domingo, encontramos mais uma parábola de Jesus. É bastante complexa na sua apresentação, visto que, talvez, confluam nela várias mensagens com objetivos diferentes, além da polêmica com os sumos sacerdotes e os anciãos do povo, que já encontramos nos domingos passados. Afinal, foram eles que condenaram Jesus. O pano de fundo é a festa de casamento do filho do rei. A festa, em si, é sinal do reino dos céus que só pode ser algo bom, alegre, com fartura de alimentos e bebidas. Uma festa também que, além de ser das mais requintadas, devia ser a mais cobiçada, por ser o convite a participar um sinal de honra e des taque. Digamos que somente pessoas seletas podiam entrar na festa. No entanto, eis aqui a primeira surpresa, os convidados não quiseram participar, não deram a menor atenção. Cada um continuou cuidando dos seus negócios e alguns maltrataram os que levavam os convites. Nessa versão da parábola, o rei considera a recusa e a violência dos primeiros convidados como uma afronta e manda destruir as cidades daqueles assassinos. “Eles não foram dignos”, comenta o rei.

A festa de casamento está pronta e, assim, outros são chamados a participar. Dessa vez, eis a segunda surpresa: nada de privilégios ou condições especiais. Todos vão ser convidados – os maus e os bons. Tal é a magnanimidade do rei, quer que a sala da festa fique cheia. No entanto eis a terceira surpresa, uma exigência: o traje de festa. Foi um pedido inesperado ou algo óbvio? Como pretender entrar na festa do casamento do filho do rei sem o traje adequado? À pergunta do rei, o “amigo” não sabe responder. Por isso, será severamente punido. Por fim, a frase enigmática: “Porque muitos são chamados, e poucos os escolhidos” (Mt 2 2,14).

Como já adiantei, nessa parábola confluem diversas mensagem: a recusa do povo eleito – os primeiros convidados – e o anúncio do evangelho feito aos pagãos, a todos: maus e bons. Esta era, provavelmente, a experiência da comunidade onde foi escrito o evangelho de Mateus: conviviam cristãos, que vinham do judaísmo, e outros do paganismo. Convivência nada fácil, cheia de avanços e recuos: saudade do rigor da Lei de um lado e conversões sinceras e livres do outro. Talvez o “traje” nos ajude a entender, digamos, o fio da meada. Afinal, o chamado é oferecido a todos, o Pai quer a sua “casa” cheia e alegre. A resposta, porém, cabe a cada um dos convidados. É possível recusar por achar o convite inútil ou, simplesmente, não entender nada do que aconteceu, não perceber a grandeza do convite, a maravilha de estar na festa do reino. Podemos pensar naqueles que não querem nada com Deus e com sua proposta de vida; acham que outras ocupações são mais importantes. Pensamos também naqueles que se consideram cristãos, católicos, mas, no fundo não gostam, acham tudo sufocante, exigente, enjoado. Estão na missa, distraídos e sempre olhando o relógio. O conforto é mais importante que a Palavra de Deus. A animação, vale mais que a Eucaristia. No fundo, não fazem o menor esforço para entender o que está acontecendo. O “traje” pode representar as condições mínimas para responder ao chamado do Pai com a gratidão de quem recebeu u m grande presente e não como alguém empurrado, conduzido por lá pelas circunstâncias da vida, sem graça, sem entusiasmo, sem consciência.

O “traje” distingue os homens que pensam dos animais. Aos cavalos da história interessavam somente o feno e a palha, qualquer lugar era bom. Os sábios buscavam algo mais: a acolhida sincera. Por isso, mostraram gratidão ao pobre que os acolheu a primeira vez.


A festa do Círio

comentários

O Círio é sempre uma festa. A multidão acompanha, reza, canta, muitos choram. Outros estendem as mãos para a pequena imagem que passa. Todos têm um pedido, uma oração, para fazer à Maria. Difícil resistir. Algo de mais forte nos leva a dizer abertamente ou no silêncio do nosso coração: Nossa Senhora, ajude-nos, ajude os seus filhos! Pedir, não é humilhante. Menos, ainda, quando suplicamos a quem nos conhece, nos ama e na qual podemos confiar. É reconhecer o tamanho das dificuldades e admitir a nossa fragilidade. É uma maneira também de dizer a nós mesmos que não queremos desistir, que ainda acreditamos num mundo melhor. Às vezes, porém, falta-nos coragem e clareza nos rumos a serem tomados. Por isso imploramos. De cabeça erguida, porque não queremos soluções milagrosas, algo de extraordinário, que nos dispense do nosso compromisso de lutar pelas causas justas.

À Maria, a pequena mulher de Nazaré, pedimos a força de acreditar no Deus que nunca abandona os seus amigos, que sempre realiza as suas promessas, que faz a sua parte, enviando o seu próprio Filho Jesus, pronto a morrer na cruz, para resgatar uma humanidade confusa e infeliz. Nossa Senhora, Maria de tantos nomes, respondeu com alegria o seu sim ao projeto de Deus, à vontade dele, conforme a sua palavra. Esse é o caminho certo, o caminho da vida plena. Precisamos de um pouco mais daquela clareza e daquela coragem que ela teve. Talvez seja esse o legado que o Ano Nacional Mariano, que está chegando ao seu fim, possa nos deixar.

Clareza não é só saber para aonde ir, é saber, antes, para aonde não ir. Os caminhos da corrupção e da violência devem ser deixados de vez. Se alguém ganhou com as propinas – talvez um dia ainda saibamos quem e quanto – com certeza o povo perdeu, as instituições perderam, todos ficamos mais pobres. Uma dinheirama sumiu e a busca da justiça não está ficando barata. Também projetos e medidas que ferem os direitos dos trabalhadores, dos povos indígenas e o equilíbrio da floresta, podem ser atos violentos ou abusivos. Para reverter certos costumes poluídos, pr ecisa implantar outros, baseados na honestidade e no bem comum. Vale para todos, grandes e pequenos.

Parece que estejamos esquecendo alguns dos mandamentos fundamentais para uma convivência social pacífica e saudável, como: “não matarás, não roubarás, não levantará o falso”. Antes de qualquer lei humana, que abre tantas brechas, deve ser a nossa consciência a respeitar a vida, a verdade e os bens dos outros. Quando a mentira se torna propaganda, o desvio de dinheiro público é quase legalizado e a vida vale menos do que um celular, é sinal que está faltando luz para enxergar as metas do nosso avançar. Para aonde queremos ir, afinal? É possível encontrar o caminho sozinhos ou só é possível acertá-lo juntos? Precisamos de muita coragem para abrir trilhas novas. Urgem desbravadores para abrir estradas na selva de indiferença das nossas cidades; trabalhadores para construir pontes que nos façam encontrar de novo os irmãos; tocadores que nos lembrem a gratuidade e a poesia da natureza, dom do Criador para os seus filhos.

O Papa Francisco nos lembra que a paz, a justiça e o bem, são trabalhos artesanais. São feitos pelas mãos e os pés de muitos, alcançados com os pequenos passos dados no dia a dia, com o cuidado, a paciência, o bom gosto e muitos sorrisos. Todo artesão sabe que precisa trabalhar, suar, acreditar que as situações erradas podem mudar e algo novo vai surgindo. Na realidade, para nós cristãos, o “novo” é sempre o mandamento de Jesus, o amor. É antigo e está escrito no coração de cada ser humano que tenha vontade de se olhar por dentro e tenha a coragem de sair e m busca dos seus irmãos.

Nazaré, Fátima, Aparecida, qualquer seja o “nome” que damos a Nossa Senhora, qualquer seja a devoção e o carinho que temos por ela, pedimos a sua intercessão. Queremos que o Círio do Ano Nacional Mariano, seja o Círio do “sim” da esperança para os pequenos, da força para os desanimados, da coragem para retomarmos juntos o caminho certo. Forte como o “sim” de Maria.


O cavalo bravio

comentários

Um camponês simples, sincero e de bom coração, foi desabafar com o seu pároco. Estava triste porque sentia um mau impulso que o dominava e o arrastava sempre ao pecado.
– Sabes montar a cavalo? – perguntou-lhe o padre.

– Sei – respondeu prontamente o homem – e sou muito bom nisso. Sei até lidar com cavalos bravios.
– O que fazes se, por acaso, cair do cavalo, vais desistir?
– Nunca! Eu monto nele outra vez – rebateu o camponês, tranquilamente e com certo orgulho, como alguém acostumado com a lida.

– Pois bem: faz de conta que o teu mau impulso seja o cavalo – falou o padre com ar de inteligência – se caíres, outras vezes, nunca desiste, começa sempre tudo de novo. Deus tem mais paciência do que nós. Um dia amansarás o teu impulso!

Neste domingo, encontramos mais uma parábola de Jesus. De novo alguém precisa trabalhar numa vinha. Dessa vez, os trabalhadores convidados são os dois filhos de um homem. O primeiro, pelas suas palavras, recusa-se a ir para a vinha, mas, depois, arrepende-se e vai. O segundo declara prontamente a sua obediência, mas não sai para trabalhar. A parábola acaba aqui. Jesus a complementa com uma pergunta polêmica aos sumos sacerdotes e aos anciãos do povo, seus ouvintes: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” Eles, sempre em busca de pegar Jesus em alguma contradição, percebendo ou não a esperteza dele, respondem o certo: “O primeiro”. Com efeito, esse filho, apesar de ter declarado o contrário, foi o único a obedecer ao pai. Jesus aproveita da resposta deles e não perde a oportunidade para desmascarar a dureza dos seus corações. Eles se parecem mesmo com o segundo filho. Disse palavras bonitas, mas, na prática, não deu ouvido ao chamado do pai. Ao contrário, os cobradores de imposto e as prostitutas, julgados por eles tão pecadores, acreditaram na pregação de João Batista, arrependeram-se e mudaram de vida.

Daqui para frente, o embate entre Jesus e os chefes do Templo e do Sinédrio se fará, cada vez mais, acirrado. O desfecho será a condenação à morte dele na Cruz. Uma briga desigual que a Jesus, porém, não interessa vencer. No Calvário, perdoará a todos. O Filho que o Pai enviou aceitará ser contado entre os malfeitores, será vítima inocente de um processo manipulado, “pecado” com os pecadores e morrerá por amor para salvar a todos. Ele tomará o remédio amargo da Paixão para que os doentes pudessem ser curados uma vez por todas. O que preocupa Jesus, também quando usa palavras duras e polêmicas, é a incredulidade daqueles que deviam ser os mais atentos, os mais próximos e preparados. A questão é que, para procurar o médico e pedir a cura, todos precisamos reconhecer que estamos doentes. Quem só vê os erros dos outros e os condena sem piedade em nome de uma Lei divinizada, dificilmente reconhecerá as suas próprias dificuldades, desobediências e hipocrisias.

O interessante da parábola é que os dois são igualmente filhos, porque só assim pode ser para um pai. Nem o desobediente deixa de ser filho. As palavras de Jesus sempre foram, e sempre serão, para todos. O convite é dele, mas a resposta é nossa, de cada filho. A diferença entre os filhos depende das nossas respostas para participar do Reino. Ninguém é forçado ou obrigado. O Pai não é um patrão explorador, deixa livres os seus filhos. Tão livres que podemos aceitar ou não, mas também podemos nos arrepender e fazer, outra vez, o que, no momento, tínhamos recusado. Só a Paciência e a Misericórdia do Pai podem ser tão grandes e nos dar tantas chances. Que bom seria sempre responder ao chamado com presteza e gratidão. Que bom seria abraçar a causa do Reino, sem julgar os acomodados e os atrasados, mas também sem nos achar indignos por causa dos nossos defeitos e pecados. Na vinha do Senhor tem trabalho para todos. A participação na comunidade de Jesus já é cura, é ar novo, horizonte novo para quem vivia afastado, às margens, porque se considerava melhor do que os outros ou, ao contrário, inútil para o serviço do Reino. A experiência de cair faz parte da vida de todos. O que vale é nunca desistir e sempre recomeçar.