Sei quem ela é

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m senhor, de certa idade, chegou ao posto de saúde para fazer um curativo na mão. Estava agoniado, mas não por causa do ferimento e sim porque estava com pressa.

– Tenho um compromisso e já estou atrasado, disse o homem.

– Será que não pode esperar alguns minutinhos?, perguntou a enfermeira.

– Sabe o que é, continuou o homem, todas as manhãs eu vou ao Asilo Santa Lúcia visitar a minha esposa e tomar café com ela. Ela já está lá há alguns tempos, pois sofre de Alzheimer.

A enfermeira ficou encantada com a serenidade do velho e, quando acabou o curativo, disse: – Pronto, agora pode ir. Será que a sua esposa vai ficar zangada por alguns minutos de atraso?

– Com certeza não, respondeu o senhor, ela já não sabe que horas são; nem mesmo sabe quem eu sou. Faz quase um ano que não me reconhece. A enfermeira perguntou, então, por que tanta necessidade de ir ao asilo todos os dias e no mesmo horário. Ele respondeu:

– Ela não sabe quem eu sou, mas eu sei muito bem quem ela é!

Com o domingo do Batismo de Jesus no Rio Jordão junto a João Batista, encerramos o tempo do Natal. A página do evangelho de Lucas retoma a apresentação de João de si mesmo e de Jesus. Ele, o Batista, batiza com água, mas o mais forte que virá “vos batizará no Espírito Santo e no fogo”. Essa será a missão de Jesus, mas para saber quem ele é precisa a voz do Pai: “Tu, és o meu Filho amado, em ti ponho o meu bem-querer”.

Já entendemos que existem várias formas de conhecimento. O mais imediato é o intelectual que, geralmente, vem do estudo ou da experiência prática. Na literatura, encontramos o conhecimento do “coração”, quando alguém é “cativado” pelo outro ou pela outra, como lemos no Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry. No Antigo Testamento se fala de “sabedoria” e no Novo de uma revelação e de um “conhecer” que são dons de Deus Pai, palavras e gestos de Jesus, o Filho, e frutos do Espírito Santo. Com isso, entendemos algo simples. Têm “conhecimentos” que ficam na cabeça e não passam nunca no coração e na vida. Têm outros, porém, que envolvem, em diferentes graus, a pessoa toda: inteligência, sentimentos e decisões a respeito do próprio agir. Tem crist ãos que se consideram tais, porque leem a Bíblia, conhecem a Doutrina Cristã e as normas da Igreja. No entanto, Jesus Cristo não é um retrato ou um crucifixo pendurado na parede ou no pescoço, não é um livro para ler e, menos ainda, um conjunto de leis. Ele é uma pessoa.

Cada pessoa é alguém que deve ser encontrado e descoberto através da convivência, da familiaridade, da escuta. O mesmo acontece para cada um de nós: é mais o que não sabemos de uma pessoa, daquilo que aparece aos nossos olhos ou da ideia que nós fazemos dela. Por isso, os esposos nunca acabam de se conhecer e os pais nunca devem pensar que conhecem os seus filhos. Sempre tem algo de novo e, às vezes, até nós nos surpreendemos conosco. Não sabíamos que tínhamos aquele talento ou aquele defeito. Mas não devemos ter medo, ao contrário. Talvez essa seja a beleza da vida: ninguém nasce programado ou pré-fabricado, temos muitas chances de nos ajudarmos uns aos outros a construir as nossas personalidades. É um trabalho maravilhoso e desafiador que nunca acaba. Igualmente, para quem não quer ficar cristão só pela “cabe ça”, mas quer sê-lo também pelo coração e pela vida, é necessário sempre renovar e melhorar o próprio, digamos, entrosamento com Jesus.

Como ser seguidores de quem não conhecemos bem? Como “arriscar” sobre a sua palavra? O “batismo” de Jesus marca o início da sua vida pública. Com o nascimento, ele assumiu a solidariedade com a natureza humana, agora, com a sua vida, paixão, morte e ressurreição, vai transformar os acontecimentos em história de “salvação”, de reconciliação entre Deus e cada pessoa de boa vontade. Mais nada do que é humano ficará fora do projeto de amor do Pai, nem o sofrimento e nem a morte. Somente quem se envolve e ama consegue entender um pouco da missão de Jesus. Vamos acompanhá-lo, vamos conhecê-lo mais. Sem ele, nem nós sabemos mais quem somos.


A saga dos remédios

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“Não há bem mais precioso do que a saúde!” Que frase mais perfeita pode existir para um lugar-comum? Pois bem, esse é o lema de todos aqueles que, ao longo dos tempos, nos impingiram tratamentos e remédios.

Na minha meninice, numa cidade pequena do interior do Maranhão, lugar de honra era do Almanaque de Bristol, que orientava sobre doenças e prescrevia remédios. Editado por um laboratório americano, Murray e Lanman, de Nova York, dizia na contracapa que “era registrado em conformidade com o Ato do Congresso americano de 1869, por Lanman e Kemp”.

Era um folheto de propaganda de remédios importados, vendidos em todas as farmácias e tidos como drogas milagrosas. No almanaque, a cada mês correspondia, ao lado, o anúncio de uma maravilha de remédio. No meu mês de nascimento, abril, estava estampada uma bela foto de mulher e os milagres do “Tônico Oriental, preferido das damas elegantes, o único que evita a queda de cabelos”. Mais adiante era a “legítima Água da Flórida”, para curar todos os males. A malária era explicada: “A febre terçã não é uma doença, é um sintoma. O fígado é a parte afetada e é para esse órgão que se deve dirigir o medicamento”. O “Cholagougue Índia de Osgood é o remédio apropriado. Revigora o fígado, livra o sistema de toda a acumulação biliosa”. Adiante, vinham anúncios do “Extrato Duplo de Aveleira Mágica”, para lombrigas, “Pílulas de Bristol”, “Óleo Elétrico” contra dores e por aí andava.

O brasileiro, há mais de um século, engorda os laboratórios internacionais. Nos EUA, nos disse Teresa Cruvinel, glória de Coramandel em Minas e que cada vez está escrevendo melhor, que a senhora Hillary Clinton, depois de superar os problemas do Salão Oval da Casa Branca, estava envolvida na campanha para baratear os remédios pregando que se acabe com a proibição de importar remédios baratos. Aqui, a situação é diferente, queremos é consumir os remédios nacionais menos caros.

Quando tivemos a pressão internacional para votar a Lei de Patentes, sob a acusação do Brasil pirata, condenamos o chamado “pipe line”, que tinha o poder da ressurreição de patentes caducas. Depois, o governo reconheceu em MP que estávamos certos. A abertura selvagem da química fina e a Lei de Patentes fizeram que o povo brasileiro destinasse uma fatia maior do seu salário para remédios, cujos preços subiram cinco vezes, a farra medicamentosa do boi.

Hoje, como ontem, a situação é a mesma. A indústria da saúde passou a ser um negócio dos mais rentáveis. Remédios e planos de saúde abocanham o mercado. O desmonte do estado do bem-estar social evita que os governos sejam humanitários. Outrora eram as pílulas milagrosas, hoje, os preços. Esse é um setor dominado pelo capital internacional e é difícil lutar contra ele. Comissões de inquérito pegam os gerenciadores. Atrás de tudo está o modelo contra o qual nenhuma liberdade é possível. A única que sobrevive talvez seja aquela que era anunciada na rua do Petits-Champs, em Paris, número 91, no Depotici, pelos anos 30, recomendando o Purgativo Eau de Glauber. “Das liberdades, a melhor é ainda a liberdade do ventre!”


A Hora dos Mágicos

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Oscar Wilde tem um poema — Balada do Cárcere de Reading — com uns versos que queimam: “Todos os homens matam aquilo que amam. Os valentes com a espada, os covardes com um beijo.”
O cotidiano dos tempos atuais tem o prazer de destruir ilusões. Há um gosto meio endemoniado de acabar com elas. Papai Noel é vítima constante desses ataques. É claro que ele existe, as crianças precisam acreditar nele, é necessário que sua lenda continue, com seu trenó, longas barbas brancas e neve. Uma vez fiquei revoltado ao ler num jornal a dúvida de que “se Papai Noel existe, é um velho muito safado que vive a enganar as crianças”. Coitado, logo ele?!
E a “cegonha”? Ela que vinha trazendo no bico, enrolados em um pano branco de linho, os bebês. Como era pura essa ave. Os meninos e as meninas de hoje, com aula de educação sexual desde os 2 anos, mataram a cegonha.
Como tenho saudades das assombrações da minha infância em Pinheiro: a manguda, o cabeça-de-cuia, a curacanga. Elas faziam e fazem parte de minha vida.
O rei Momo não morreu porque existe. O gosto atual é matar ilusões e sonhos. O rei do Carnaval é um tributo, peculiar do Brasil, à realeza. Somos um país monárquico que gosta de reis e rainhas. É rainha do rádio, rainha das baterias, rei Pelé, rei Roberto Carlos, rainha da beleza, rainha da soja, da laranja e da maçã.
Agora há fobia contra os mágicos. Desvendar os seus truques, como se não bastassem naves, sondas e Hubbles desnudando o mistério da Lua, das estrelas, das galáxias?
Como é excitante um coelho sair da cartola de um homem de casaca, num tablado de um circo de cavalinhos e trapézios! O mágico é uma figura tão definitiva que o fraque só sobreviveu graças a ele. Contou-me Otto Lara Rezende que quando Juscelino visitou Paris levava na comitiva o Autran Dourado, que tinha de ir a uma solenidade a rigor, mas não tinha traje. Foram ao Mercado das Pulgas comprar um. Quando disseram ao vendedor “queremos um fraque”, ele perguntou: “O senhor é mágico?” Os fraques desapareceram, os mágicos não.
Depois surgiu a mania de explicar que a mulher que os mágicos cortam ao meio, que levita no palco, fica presa e se solta não é cortada de verdade, é apenas fruto de uma armação feita para enganar o público? Isso não se faz. A mágica existe, ela é uma das coisas que ainda permitem que se comprem ilusões, a que têm acesso os ricos e os pobres.
Foi com satisfação que li a revelação de que o responsável pela tentativa de desmoralização da mágica era um mágico fracassado, inventando essas explicações para fingir que sabia de mágica e não sabia. Não ocorre o que ele dizia. O ilusionismo existe e só os mágicos sabem o mistério de tirar pombos da cartola e lenços da mão.
Não podemos matar o que amamos, nem com espada nem com beijo.
Não nos resta nem a ilusão da economia. Esta ainda nos oferecia coelhos, fitas, fitinhas e lenços coloridos escondidos, dentro de uma cartola do FMI. Acabou o que era doce.
Quero de novo repetir como é atual o que li num muro da Cidade do México: “Nada de fatos, queremos promessas.”


O Natal do Menino Jesus

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São Paulo resume a felicidade de ser cristão, quando, na sua segunda Carta a Timóteo, diz: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, e guardei a fé.”
Guardar a fé é o mais difícil de cumprir entre os deveres cristãos. Fugir das vacilações, das tentações do agnosticismo e acreditar até o fim nos fundamentos do cristianismo.
Quem me fez cristão, pregando os seus mandamentos, foi minha mãe. Nunca presenciarei ninguém que tenha tido tanta fé quanto ela, fortificando-a a cada dia, e, coerente com sua vida, sua última palavra foi Jesus. Mas minha mãe não ensinava só o catecismo, mas a base do cristianismo, aqueles mandamentos simples que o Cristo trouxe: “todos somos filhos de Deus” – e aí está o mistério do Natal; “amai-vos uns aos outros”, “perdoai os vossos inimigos” e orai, porque a oração é a ponte do nosso cotidiano com Deus.
A forte lembrança do Natal está associada a minha infância em São Bento. A missa do galo e o comando de minha avó, reunindo o rebanho da família. As cantatas de Natal e a Igreja de São Bento com as colunas pintadas, imitando mármore, que para mim eram tão bonitas que cheguei ao exagero de considerá-las iguais às da Basílica de São Pedro, no Vaticano.
Tempos da infância em que se chamava pelo Menino Jesus – que hoje deixou de ser a primeira figura do Natal: Papai Noel tomou o seu lugar e, em vez do incenso a perfumar nossas almas, criou-se o gosto do chocolate.
O Natal é o mistério de um menino: Deus que assumiu a condição humana, para mostrar que não estamos sós na face da terra, que ele está conosco, conhece as vicissitudes de viver e de nascer.
Desse nascimento surgem as figuras da mãe, de quem recebemos a graça da vida, e do pai, São José, que aceitou a missão de, mais que pai, ser o companheiro de Maria. Sua presença é silenciosa, talvez a mais silenciosa do Novo Testamento, na sua simplicidade de carpinteiro.
O Natal tem uma palavra chave, amor. O Amor de Deus encarnado nesse menino que teve um destino trágico, pregado na cruz. São João, talvez o mais belo e brilhante dos Evangelistas, diz que “Jesus amou os homens até o fim”. E o Padre Vieira pegou este mote para dizer que se colocássemos em Cristo o coração dos homens e nos homens o coração de Cristo, esse transplante de coração iria dar aos homens a plenitude do amor e a Cristo a maldade dos homens.
O Natal é a festa do cristianismo, da Esperança que não deve desaparecer nunca, da alegria de que todos estamos destinados a salvação. O Papa Francisco diz, no seu último Angelus, como deve ser a nossa atitude diante do mistério do Natal: “Maria ajuda-nos a colocar-nos em atitude de disponibilidade para receber o Filho de Deus na nossa vida concreta, na nossa própria carne. José estimula-nós a procurar sempre a vontade de Deus e a segui-la com plena confiança. Ambos se deixaram aproximar por Deus.
O Natal é festa do Menino e de sua mãe, da maternidade, da glória de ser mãe e da transmissão da vida que traz a eternidade, pela graça do nascer.
O nosso Natal é o Natal do Menino Jesus e de, em nossa alegria, lembrar o cântico que diz tudo: “Glória Deusa nas Alturas e Paz na Terra aos homens de boa vontade.”


A arte de jogar dados

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Que momento em que surgiu o homem. Os segredos da sorte, o jogo da vida, do corpo, da alma estão no homem.

O mais moderno e excitante é o da Bolsa, caótico, barulhento, histérico, cheio de gestos, telefones e balbúrdia, em que participam visíveis e invisíveis, na mesa de operação e nos mais altos cenáculos de decisões.

Sua invenção cibernética é do fim do século passado e estruturada em avançadas tecnologias de computador e meios de comunicação. É tão sofisticado, porque, jogado no mundo inteiro, caminha com o fuso horário, gira com a Terra e envolve apostas cósmicas e danos fenomenais. Pode ser jogado, também, nos computadores programados para processar variáveis e oportunidades.

Meu avô dizia que os vícios do homem eram cinco: beber, fumar, tomar rapé, jogar e gostar de mulher. Não sei por que testemunhava que já vira pessoas que abandonavam quatro desses prazeres, mas nunca conhecera ninguém que abandonasse o vício de jogar. É o único que não é atingido pelas restrições da idade e da saúde, como os outros.

O Brasil globalizado não escapa da festa. Joga-se na loteria. Joga-se na Super Sena, na Mega Sena, na Sena, na Quina, na Loto, no Bicho, na Loteria, na raspadinha, nos bingos, na televisão, em casa, na rua, no trabalho, em certas igrejas e até na compra de produtos. Se tanto não bastasse, ainda querem abrir os cassinos, como se já não tivéssemos tudo de um grande cassino. Cada jogo tem uma justificativa. A abertura dos cassinos é necessária para a criação de empregos (sic!).

O poeta Correa de Araújo, grande parnasiano, desenvolveu-me certa vez a teoria de que o jogo do bicho fora inventado por Deus, para acudir a pobreza, e não pelo barão de Drumond, para ajudar o zoológico. Assim, o Criador fazia o pobre sonhar, e do sonho vinha o palpite, e do palpite, o ganho que o socorria em dias de dificuldade.

Genolino Amado também contava na Academia o caso de sua empregada que ganhou uma bolada no número 380. E lhe disse que foi Deus que a iluminara. Ao sair de casa, meteu o pé num buraco e imediatamente desvendou o palpite: buraco é zero e ela calçava 38, ficou fácil compor o 380 e acertou no milhar. É o pecado do Santo Nome em vão.
Cervantes, nas “Novelas Exemplares”, conta a história de dois espertos, Cortado e Rincón, que eram exímios na “ciência vilhanesca”, assim chamada porque atribuíam a um desconhecido Vilhán a descoberta do jogo de cartas.

Eram tão hábeis que, em poucos minutos, entre tramóias e habilidades, ganhavam “dois reais e vinte e dois maravedis”. Comparando com o jogo da Bolsa, é um fóssil lúdico, coisa de anjo e cheira a mofo.

Einstein, o homem da relatividade, afirmou, quando descobriu as regras imutáveis das leis físicas que governam o universo, que “Deus não joga dados”. Pois, hoje, com o mercado financeiro neoliberal globalizado, somente Ele escapa de fazer sua aposta.

O vício do jogo serviu nos primórdios para encher o ócio, ocupar o tempo e, agora, é um tormento capaz de destruir economias e nações, com o mais moderno deles, o jogo da especulação financeira, ou melhor, a “ciência soronesca”, de Soros, o filósofo.

É que as leis físicas são imutáveis, ciências exatas. As outras ficam ao sabor da sorte, que agora não está muito para a nossa roleta.


Salários e Greve

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Leio que médicos e rodoviários têm greve marcada, a começar segunda-feira. O Sindicato dos Médicos e o Conselho Regional de Medicina, presidido pelo operoso dr. Abdon Murad, dizem que a motivação é o atraso dos salários.

Até hoje mantenho o recorde de enfrentamento de greve: mais de doze mil. Nenhuma por atraso de salários. Estabeleci também a maneira de tratá-las: nunca por enfrentamento, sempre por negociação. A greve é um direito assegurado ao trabalhador para forçar o reconhecimento de outro direito.

Quando assumi a Presidência minha principal missão era a transição, fazer voltar a democracia.

Com 4 dias de governo, em 1985, reabilitei a vida sindical, com uma anistia ampla, fazendo voltar aos cargos de que estavam afastados os dirigentes sindicais. Em seguida decretei o fim da censura.

Legalizei as Centrais Sindicais. Estabeleci a antiga e grande aspiração dos trabalhadores: o salário-desemprego, que desde então — e até hoje — socorre os desempregados em seus momentos mais difíceis. Criei o Vale-Transporte, que paga o deslocamento dos trabalhadores, e o Vale-Alimentação.

Para assegurar a efetividade da Justiça do Trabalho, criamos 340 novas Juntas de Conciliação e Julgamento. Demos o adicional de periculosidade aos eletricitários. Também poucos dias depois da posse aumentamos (Decreto 91.213/85) o salário mínimo em 112%.

Fizemos, com ousadia e coragem, o Plano Cruzado, rompendo com a velha fórmula de combater a inflação pela recessão. O congelamento de preços criou os “fiscais do Sarney”, e nasceram daí os direitos do consumidor e o exercício efetivo da cidadania. Foi a maior distribuição de renda da História do Brasil. Os que viveram aquele tempo e ainda estão vivos são testemunhas da felicidade do povo brasileiro e de como sua vida prosperou.

Vivemos o pleno emprego, com toda a indústria utilizando sua parte ociosa e obtivemos a menor taxa de desemprego em todos os tempos. A média do desemprego no meu governo foi de 3,86% e em dezembro de 1989, meu último ano, ele foi de 2,36%. O trabalhador escolhia onde trabalhar e, assim, consolidaram-se as lideranças sindicais, que a partir daí tiveram vez e voz nas decisões nacionais.

Também, para completar nossa política trabalhista, assinamos muitas Convenções na Organização Internacional do Trabalho que estabeleciam conquistas para a dignidade do trabalhador.

Sempre tive uma grande preocupação pelos direitos sociais. Quando fundamos a Bossa Nova da UDN, em 1959, o manifesto, redigido por mim, tinha como objetivo apoiar a política desenvolvimentista do Juscelino, MAS COM JUSTIÇA SOCIAL.

Vamos torcer para que cada vez mais se desenvolva a proteção aos direitos do trabalhador e à dignidade do trabalho.


A invasão dos bárbaros

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Nos países desenvolvidos, há uma neurose nova: a invasão dos bárbaros. Não é mais aquele temor que no passado acometia as cidades-Estado, a confrontação dos impérios com as hordas desconhecidas que avançavam para o saque e a destruição. Não são os hunos nem os turcos nem os mongóis: são os emigrantes, fugitivos da miséria, desejosos de melhor futuro, que se esgueiram pelos aeroportos, se escondem nas estradas, atravessam, sorrateiros, rios e cercas de arame farpado, enfrentam polícias, leis de restrição à imigração e, obtendo sucesso em sua aventura, começam a outra, a da sobrevivência, enchendo as ruas como pedintes, vendendo quinquilharias e ilusões, correndo do cassetete dos vigilantes, segregados e vilipendiados pelos nacionais.

A Europa está ferida por essa nova face das migrações humanas. Vem gente de todos os lados, dos antigos países da Cortina de Ferro, da África sofrida e enferma, das antigas colônias da Ásia e da América. O que fazer? O mundo ficou pequeno, e aspirar a uma ascensão social está apenas numa passagem e na coragem de abandonar as próprias raízes. Deixam famílias, amigos, pátrias e vêm sofrer as humilhações das minorias.
Na Inglaterra, os jornais noticiam nesta semana que nem os súditos da rainha, ingleses, já na terceira geração de egressos da Índia, escapam da rejeição.

Nos Estados Unidos, a sociedade fracionada, de tantos grupos e etnias, recusa-se a aceitá-los, repelindo suas culturas e suas crenças.

Nessa paisagem humana, o exemplo da América Latina é diferente. Nossas raízes ibéricas trouxeram a capacidade de promover a miscigenação cultural. Os espanhóis e os portugueses aprenderam, séculos e séculos, com a península ocupada por judeus e árabes, a conviver com a divergência, a aceitar a convergência.

Quando ocorreu o encontro entre as civilizações pré-colombianas e pré-cabralinas, os colonizadores foram capazes de superar a tragédia do enfrentamento e de começar um processo de assimilação e mestiçagem que construiu a sociedade racial que temos, com valores próprios, expressão da nossa identidade. Com eles, resistimos à uniformização da globalização.

A reação dos países ricos ao que chamam de “o perigo da emigração” está no terreno da fobia, cuja matriz é a discriminação racial, numa era em que se decifra o genoma humano e se pode conhecer, através das descobertas biológicas, os troncos dos diversos grupos que formam a humanidade e que, no desejo de sobrevivência, também migraram em correntes que se dispersaram em busca de comida e de segurança e fugindo dos desastres climáticos.

A globalização econômica é incompatível com a globalização das raças. Aquela quer um mundo de ricos e faz com que os outros se afastem e fiquem presos à miséria, ao desemprego e à fome.

O Brasil, particularmente, já venceu o gargalo da segregação racial. Temos uma sociedade democrática, fora das superioridades (?) étnicas.
Nossas discriminações são outras: a maior de todas é a da concentração de renda, que gera problemas sociais. Esses, sim, nos separam, o que é uma coisa bárbara, mas sem a fobia de bárbaros.


Ainda uma vez o livro

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ESTE ESPAÇO jamais pode ser usado para assuntos pessoais.

Aqui, não tenho o Senado para atrapalhar-me, e sim o gosto de escrever. E nada melhor do que escrever sobre o livro.

Sempre acreditei que o livro e o jornal jamais acabariam. Sempre que surge uma nova tecnologia eles entram na berlinda. Leio, citado pelo jornalista espanhol Antonio Milan, que em 1894 perguntaram a um especialista qual seria o destino do livro no futuro: “Se por livro entendermos as inumeráveis somas de papel impresso, encadernadas sob uma capa com um título, reconheço que a invenção de Gutenberg cairá em desuso”. Para ele a vez era da reprodução fonográfica.

Era o som que entrava com tudo.

Com o advento da sociedade de comunicação, essa discussão aumentou e o fim do livro foi anunciado. Agora é a vez do “e-book” e do “kindle”. Este é capaz de armazenar milhares de obras que podem ser lidas, anotadas e folheadas. É uma tecnologia mágica, uma dessas porções que os bruxos da Idade Média buscavam criar.

Ela não deve ser descartada, mas não substitui o livro. Creio que sua maior aplicação será para estudantes, que, em vez de uma mochila cheia de cadernos e tratados, vão poder ter todos os livros de consulta à mão. Mas o livro impresso é uma tecnologia mais avançada.

Não precisa de chips em placas que se encaixam uma às outras de modo a levar à tela os textos, necessitando de energia nas baterias, que devem ser alimentadas de tempos em tempos. O livro não precisa de nada disso, não quebra e pode cair.

Não sei se é por amor ao livro, mas tenho como dogma, desses de fanáticos, que eles continuarão, assim como os jornais, e jamais serão passados para trás. Há no livro o gosto, livro tem gosto, desde o táctil até o cheiro bom.

Um amigo, o grande tradutor francês Jean Orecchioni, certa vez me disse que leu num livro uma descrição tão realista do mar que ficou enjoado e teve de tomar remédio para o balanço dos barcos.

Por milhares de livros que possam acumular essas máquinas, elas jamais acumularão os tantos livros que existem num livro. Quantos livros há no “Dom Quixote”, o cavaleiro da triste figura? São milhares, e cada frase é um livro. São emoções que não acredito que se possa ter num livro eletrônico em que a própria tecnologia interfere em sua leitura, que tem de permanentemente manusear os botões de sua máquina.

Mas salvará definitivamente o livro a poesia. Ela não cabe numa tela e não precisa do mercado, porque seus leitores são os restritos poetas que fizeram o provérbio “Poetas por poetas sejam lidos”.

Sempre precisaremos desse companheiro, que, como dizia o poeta espanhol Manuel Machado, nos leve da “prosa ao sonho”.


O boxe e a política

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Não sou daqueles fanáticos pelo esporte; e talvez seja um dos poucos brasileiros que não acompanham os campeonatos esportivos com vontade de esganar os torcedores dos times contrários. Um pouco dessa minha posição deve-se ao meu avesso à violência. Desde os meus tempos de calças curtas, no cinema, na televisão ou em brigas de colégios, fecho os olhos para não ver ninguém apanhar.

Mesmo o futebol sempre digo que é um jogo muito violento. Quando as pessoas me retrucam que é um jogo bonito e elegante, eu contesto que há momentos que não recomendam essa observação. Os chamados carrinhos muitas vezes são horrorosos, e há, na lembrança de todos nós, alguns resultados — para não citar muitos, basta lembrar o joelho aberto do Ronaldo e a cabeçada do Zidane num jogador brasileiro, cujo nome já tenho a liberdade, nos meus cinquenta mais trinta e oito anos, de não recordar.

Esta minha aversão à violência é tão forte que agora, por exemplo, vendo as campanhas televisivas da última eleição e das atuais, vêm-me à cabeça lutas de boxe, esporte a que nunca assisti — acho que quem a ele assiste tem o mesmo prazer acre que tinham os espectadores dos circos romanos quando as feras devoravam os fiéis cristãos.

Será que a democracia necessita desse ringue em que se transforma uma eleição, quase sempre esquecendo ideias, propostas e metas para desfechar verdadeiros socos, que, por serem verbais, não são inferiores aos físicos?

Também compreendo que seria viver no mundo dos anjos pedir que os políticos utilizassem nas campanhas, em vez de luvas de boxe, leques de plumas abanando o calor da face dos adversários.

Da competição democrática também posso dizer o mesmo que digo do futebol: é um jogo violento, porque é cruel e não tem medidas. Várias vezes tenho citado a frase de Lenin de que devíamos aplicar à política a arte da guerra — aliás, título de um livro de Clausewitz —, isto é, como na guerra, não se deve, na política, ter adversários, mas inimigos, com o único objetivo de extingui-los, quase levantar uma nova guilhotina, como em 1792, na Praça da Concórdia. Ele também defendia que a política devia adotar como método o Terror, também como na Revolução Francesa.

Basta lembrar que, vitorioso na Revolução Russa de 1917, ao receber um telegrama do comandante das tropas de São Petersburgo dizendo que as prostitutas estavam rondando os quartéis e perturbando a ordem dos soldados, que não obedeciam mais à disciplina para correr atrás daquelas belas eslavas que ali faziam ponto, respondeu com um telegrama que ficou célebre: “Fuzilem todas!”

Vamos esquecer todas essas coisas, que fazem parte da história cruel da humanidade, e pensar em eleições dirigidas pelo Barão de Coubertin, o criador das Olimpíadas modernas, em que o importante é competir.

Enquanto elas não vêm, melhor chupar o dedo e fechar os olhos, com o boxe eleitoral dos atuais programas de televisão.


É chegado o momento de sermos bilíngues

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A propósito do artigo de Juan Arias sobre o espanhol e o português como duas línguas irmãs, devo dizer que o texto é antológico, embora tenha minhas ressalvas sobre o “ão”. É muito autoritário e bem lusitano. Me encanta o ritmo e o doce deslizar, como águas que passeiam, do castelhano. Afinal é difícil compará-las. São xifópagas.

A aventura da língua portuguesa é notável. Embora Camões diga ser “a última flor da Lácio”, na verdade era um dialeto do espanhol, que não tendo terra para falar, ganhou os mares, indo até Nagazaki,onde recolheu palavras e deixou palavras. Enriqueceu-se e também influenciou a sintaxe de idiomas como o papiamento e o iorrobo, além de marcar o vocabulário de numerosos outros idiomas do iorubano ao japonês e o crioulo de Cabo Verde, Guiné, São Tomé, etc…Foi língua de Corte na África, nos reinos do Benim, Congo e Warri, assim como o francês no século XIII, tinha sido na Europa.

Pois bem, o português quando os oitenta anos do domínio português das navegações entrou em declínio, encontrou as terras do Brasil e seguiu sua vocação andante. Matou as línguas nativas, a língua geral do novo território, o neengatu, e só parou no contraforte dos Andes. E aí o que encontrou? O espanhol de onde tinha se separado. EL PAÍS nos encontra e nos integra. Agora é chegado o momento de sermos bilíngues, já que caminhamos para uma coisa horrível, o portunhol ou o espanholês, uma agressão ao português e ao espanhol. Infelizmente, muitas vezes sou obrigado a socorrer-me desse monstro. Quando Presidente tentei colocar o espanhol no currículo de nossas escolas do ensino Médio.