O mundo gira, a Rússia roda

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Visitei a Rússia como presidente da República em 1988. Era o tempo da glasnost e da perestroika. Gorbatchov flutuava em meio aos desmontes do combalido império soviético. Mas os símbolos da utopia socialista estavam vivos. A moeda em circulação trazia, numa face, a foice e o martelo, na outra, a efígie de Lênin. A bandeira vermelha tremulava em todos os mastros, o hino nacional tocava os acordes triunfais do orgulho nacional, com versos que invocavam: “A força do povo nos leva ao triunfo do comunismo”.

Voltei dez anos depois. Tudo mudado. A moeda da foice e do martelo fora substituída pela da águia bicéfala, símbolo dos Romanof, usado secularmente pela dinastia czarista que foi derrubada pela Revolução de Outubro. Nicolau 2º, assassinado com a família nos primeiros dias da vitória, tornara-se santo canonizado pela Igreja Ortodoxa Russa. Entrei numa delas e vi o seu retrato rodeado de flores e pessoas rezando diante dele.

Mas o mais impressionante me aguardava ainda. Foi o que vi no velho restaurante São Petersburgo, em frente à igreja de São Salvador em Sangue, de luzes baças e polcas dançadas por belas jovens que saudavam as noites brancas de junho, eternizadas por Dostoiévski. Entrei e, após sentar-me, vi que ao meu lado estava Lênin, com seu boné, seu dólmã severo, seu cavanhaque inconfundível, sua pele amarelada, magro, o olhar fanático. Ao seu lado, um fotógrafo. Lênin, delicadamente, perguntou-me se podia sentar-se ao meu lado e ofereceu ser batida uma fotografia, que, esclareceu-me, custaria cinco dólares! O mito do século, com o corpo embalsamado no seu mausoléu, em Moscou, ali estava, como sósia de restaurante, lembrança turística da bela cidade de Pedro, o Grande!

Recordo esse fato porque li que Putin, atual presidente da Rússia, depois de uma consulta popular, resolveu recuperar símbolos nacionais. E fez uma salada. O país passara a ter duas bandeiras. Uma, a velha bandeira tradicional da Rússia czarista, branca, azul e vermelha; a outra, vermelha, da extinta URSS, que será de uso exclusivo das Forças Armadas, como seu estandarte. Como hino nacional, foi abandonado aquele que Ieltsin mandou compor e voltou o velho hino soviético, sem letra, porque a antiga, que falava “Lênin iluminou nossas vidas; Stálin nos deu formação”, já vinha sendo modificada desde os tempos de Kruschev. O novo escudo nacional voltou a ser, oficialmente, a velha águia de duas cabeças dos czares.

Quando a República foi proclamada, no dia 15 de novembro de 1889, levaram a Deodoro, no dia 17, proposta para substituir a bandeira e o hino. Ele decidiu: “A bandeira nacional, já tão conhecida e reconhecidamente bela, continua, substituindo-se a coroa sobre o escudo pelo Cruzeiro do Sul”. Depois, os positivistas acrescentaram “Ordem e Progresso”.

Na minha juventude, a frase mais divulgada e colocada em todos os lados não era “proibido fumar” nem sinais de trânsito, era uma regra de higiene: “Não cuspa no chão”.

Começamos o século como um país sem povo e chegamos ao ano 2000 com uma forte sociedade democrática e um PIB que ia se aproximando do trilhão de reais.

Dá vontade de lembrar Drummond: “mundo, vasto mundo” e plagiar um slogan de uma antiga transportadora: “O mundo gira, a Rússia roda”, e Lênin é atração num restaurante de São Petersburgo!!!


O novo esporte nacional

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Deus me deu uma longa vida para que eu tivesse de ver passar muitas coisas — muitas delas até mesmo conflitantes. Na minha juventude, adolescência e maturidade, tínhamos um grande orgulho do Brasil. Todos amávamos a nossa terra, suas riquezas, suas belezas, seu povo. Hoje a moda é falar mal do Brasil: coitado dele, tão bom, mas vítima de surras do seu próprio povo. Muitos até mesmo têm inveja de outros países e pensam em sair daqui.

Quanto mais viajo, mais orgulho tenho do Brasil. E, como dizia o meu avô sobre o Maranhão, “Se a minha alma tiver vergonha, nem ela deixará esta terra tão extraordinária.” (?) Os seus defeitos são muito melhores do que os dos outros.

E agora que temos uma vez mais a fantástica visão da alegria do povo brasileiro com o futebol, mas vivendo as agruras da Copa — essa corrida de obstáculos em que o que mais sofremos é com os nossos jogadores —, sentimos até as distensões das pernas dos nossos craques.

Mas agora estamos assistindo a outro esporte nacional: malhar os políticos mais do que malhavam Judas no sábado da aleluia. Hoje acho que Judas está melhor do que os políticos, porque não há roda em que se falava do futebol em que hoje a bola da vez não sejam os políticos.

De tal modo que leio agora que um candidato a senador, oriundo dos meios de comunicação, diz que vai entrar na política, em que pode ser até uma porcaria de político, acrescentando que

“vocês podem ter um político de péssima qualidade, mas vão ter um cara que vai ser uma coisa só: honesto com você”.

Ora, eu sempre tenho dito que há políticos e políticos, políticos bons e políticos maus. Os bons, Joaquim Nabuco, no seu livro A minha formação, diz que “devem ser escritos com P maiúsculo”. Realmente, os políticos maus desmoralizaram bastante essa atividade das mais nobres dentro da sociedade.

E com que surpresa abro a Oração Devocional do Papa Francisco, do dia 22 de julho, com esta afirmação:

“Para o cristão, é uma obrigação envolver-se na política. Nós, cristãos, não podemos brincar de Pilatos, lavar as mãos. Devemos nos envolver na política, pois a política é uma das formas mais altas da caridade, porque busca o bem comum. E os leigos cristãos devem trabalhar na política.”

A alusão que ele faz é àquela resposta de Pilatos: “Estou inocente desse sangue. A responsabilidade é vossa“, quando ele responde ao povo que gritava que ele devia crucificar Cristo.

O bom político é aquele que está convicto de que sua atividade é pensar nos outros, fazer o bem, defender a igualdade e os que mais precisam. Os que agem diferente não são políticos, mas dela se utilizam, manchando-a.

Assim, concluo dizendo, como o Papa Francisco, que devemos abandonar esse esporte de falar mal do Brasil e da política. Condenemos os maus políticos, mas não deixemos que eles atinjam, com suas atitudes condenáveis e nada morais, o nosso País, onde abrimos todos, brasileiros, os olhos para a vida.


Cesta básica não tem leite

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Acho que há no Brasil um preconceito contra o leite. Gilberto Amado foi o primeiro que me despertou para esse fato. “Jamais no meu estômago entrou uma gota de leite”, disse-me com gosto de ironia o autor da “História da minha infância”, numa noite fria de Nova York, em 1961, no bar do Black Stone Hotel. Alegava que fazia mal e citava o exemplo da vaca que dava coices no bezerro, quando ele, grande, queria mamar. “Leite é bebida de criança, adulto não deve tomar”.

Disse-lhe que era o alimento mais saudável da face da Terra e que não passava noite sem que antes de dormir bebesse um copo de leite. Nos meus anos de vida não me arrependo desse hábito. Lembro-me de Gilberto e do leite quando leio que na cesta básica que iria ser distribuída aos flagelados, não teria mais leite e sim um quilo de farinha de mandioca, para substituí-lo.

Quando presidente da República, eu criei o Programa do Leite, e chegamos a distribuir, por dia, 8 milhões de litros. Às vezes, segundo relatos da época, era o único alimento que era encontrado na mesa de muitas famílias, adicionado à farinha e ao arroz.
É verdade científica que a falta de alimentação até os seis anos de idade, ou alimentação deficiente, acarreta às crianças um dano irreparável ao desenvolvimento do cérebro, condenando-as a uma condição subumana.

O Programa do Leite foi extinto. Também muitos outros, como Farmácia Básica, Merenda Escolar ao seu irmão de seis anos, levando-o à escola, assistência infantil, com as recomendações da OMS e em cooperação com a Pastoral da Infância, e muitos e muitos outros.

Ora, num país de desnutrição endêmica, de grandes bolsões de miséria, de pobreza, ninguém pense que o Estado está desonerado de dar comida ao povo. Nos Estados Unidos, país riquíssimo, sem os nossos males sociais, o governo fornece à população os “bônus de alimentação”, para aqueles que são pobres. Eles os trocam por comida nos supermercados.

Aqui, esses problemas de fome vão ser resolvidos pela competição do mercado? É fácil condenar o assistencialismo necessário, quando se está de “barriga cheia”, como dizia Tobias Barreto no “Discurso de Manga de Camisa”. Temos grandes problemas que desafiam o Brasil, mas o lado humano e o social não podem ter postergação.

“Tudo pelo social”, um slogan que foi ridicularizado. Agora, todos gritam que é preciso caminhar para resolver esses problemas.

Quando submeti meu nome como candidato ao PMDB à Presidência da República, perguntaram-me qual seria meu primeiro ato caso fosse de novo presidente. Respondi: “Retomar o programa do leite”.

Médici, visitando o Nordeste num ano de seca, pronunciou a frase que não morreu: “O governo vai bem, mas o povo vai mal”.

Já não pesam sobre meus ombros os terríveis ódios políticos que motivaram a extinção do Programa do Leite e da Lei Sarney de incentivos à cultura.

Nada mais necessário, útil e grandioso do que quando o presidente Fernando Henrique, em meio à crise social que abalava o país, restaurou os programas sociais, principalmente o Programa do Leite e, em sua totalidade, os incentivos à cultura.


A Velha Época

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Nova Iorque — A primeira vez que estive em Nova Iorque foi em 1961. Lá se vão 57 anos, mais de meio século. Ainda encontrei a cidade na transição daquilo que se chamou “La Belle Époque”, que acelerara a sua decadência com o fim da Segunda Guerra Mundial, para os anos dourados do início da Guerra Fria, que continuou a guerra por outros meios. O mundo se preparava para o longo período, que não se findou, da “Era Nuclear” — de que um dos mais burlescos capítulos acabamos de presenciar com o encontro Trump x Kim Jong-un. A então URSS (União Soviética) descobrira os segredos da bomba atômica, e a população dos Estados Unidos foi tomada de um medo que levou os jornais a publicarem anúncios da venda de “abrigos nucleares”.

Mas a cidade, como dizia Hemingway de Paris, “era uma festa”. Ainda existia o “American Dream”, o sonho utópico que o país formara de uma América-novo-continente, em que o homem encontraria o ideal de Jefferson “da busca da felicidade”, mas onde ainda se encontrava, de maneira revoltante, a discriminação racial, os negros segregados no Harlem (um gueto) e uma sociedade racista. Entretanto, os musicais, o movimento cultural, a alegria das pessoas, a crença de um mundo novo, o debate muito vivo de ideias, sem as mesquinharias dos dias de hoje, tudo nos levava a crer que estávamos nas auroras de uma nova era.

Meu mundo dentro da cidade era as Nações Unidas, onde eu era (já disse isso nesta Coluna) delegado do Brasil na Comissão de Política Especial e sentava ao lado de Golda Meir, a mulher símbolo de Israel. Não havia Emirados Árabes, e os velhos sultões desfilavam com suas roupas coloridas e suntuosas buscando reaver seus territórios. Nessa Comissão da ONU, discutíamos a Questão Palestina — que hoje é guerra — e tratávamos dos Refugiados Árabes da Palestina, isto é, aqueles que tinham saído dos territórios destinados ao Estado de Israel. Tratava-se também do apartheid da África do Sul, essa ignomínia cometida contra a raça negra. Orgulho-me de ter sido o primeiro, como intérprete do meu País, a anunciar, na ONU, a posição do Brasil contra o apartheid. Mas a discussão maior era o debate comunismo versus capitalismo. Foi nesse tempo que o representante de Cuba na ONU (eu vi) disse que seu país aderira ao mundo comunista.

Como tudo mudou! Mudou o mundo, mudaram os países, mudaram as pessoas, e os problemas atuais são gigantescos. Discutem-se as doenças desconhecidas, a sociedade de comunicação, as armas de destruição do mundo, as migrações massivas e o colapso da democracia constitucional, invadida pelo terrorismo, pelo populismo, pela destruição das instituições.

Tudo mudou
A Nova Iorque de hoje que eu encontro é outra cidade, e não aquela de 1961. Tudo mudou. É um grande shopping center. Resistem apenas os grandes museus, o espírito da cidade e os mais lúcidos tentando manter a imagem da cidade do coração símbolo de Nova York. A Time continua a publicar edições com o tema “NY, City of Love”. O New Yorker, o semanário local, continua na liderança do pensamento liberal no país.

A grande América resiste, país extraordinário de progresso e liderança mundial, na ciência, na tecnologia — e no consumismo. Não é mais a cidade que eu conheci com o encanto de meus trinta anos. Mudou a cidade ou eu fiquei velho?

É outra geração que surge, são outras cidades, outros mundos.
É hora de lembrar o nosso Machado: “Mudou o Natal ou mudei eu?”


Festas juninas sem boi

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Nova York — Aqui nos Estados Unidos, aproximando-se as festas juninas, vou sentindo uma imensa saudade do meu bumba-meu-boi, do boi do Maranhão — que tem também no Amapá. Estas festas, tão importantes no calendário brasileiro desde que vieram de Portugal, assumiram no Maranhão essa face luminosa das fitas coloridas, das miçangas, dos brincantes e, sobretudo, desse boi mitológico, touro negro e boi espaço e injustiça das relações sociais, numa sociedade que ainda tem raízes agrárias, mas também transpôs para a vida urbana os preconceitos, as diferenças da sorte, as paixões e as tragédias de amor.

Sempre lembro que Roseana desenvolveu os passos que dei para prestigiar a cultura popular e desde cedo se tornou a defensora de sua arte, prestigiando seus artistas pelo que são, sem nenhum intuito eleitoral ou interesseiro.

Acompanhando mais de perto o que acontece neste país, em vez de boi as pessoas se distraem, se irritam e se amedrontam com os delírios de seu presidente. Agora o mais importante é o encontro entre as duas figuras histriônicas e patéticas de Donald Trump e Kim Jong-un. Marcado e desmarcado e remarcado, o encontro se dará num hotel de Singapura, se não houver desistências de última hora, no dia 12 de junho. Na mesa parece que não estarão, infelizmente, o fim do programa de armas nucleares norte-coreanas — que os coreanos só aceitam se os americanos acabassem com o seu, o que seria uma boa ideia —, nem a paz entre as Coreias do Norte e do Sul. Os dois dirão que ganharam a disputa de cabelos exóticos, pedirão o prêmio Nobel da Paz por quem faz mais ameaças de destruição e tudo continuará como dantes no reino de Abrantes.

Trump adora uma briga e uma provocação, mas frequentemente elas se voltam contra ele. Há alguns dias ele disse que tem o poder de perdoar a si mesmo. Veio o Paul Ryan, Speaker (Presidente) da Câmara dos Deputados, um dos principais líderes republicanos, e adverte: nem pensar. Agora, na reunião do G-7, ele chegou propondo que o grupo aceite de volta a Rússia, expulsa desde a invasão da Ucrânia. A reação foi a proposta de retirar os Estados Unidos do grupo.

É claro que nisso está o pano de fundo de seu afastamento das regras da OMC, a Organização Mundial do Comércio, para seguir seu talento de negociador — com o qual já foi à falência várias vezes. Assim, tem ameaçado impor restrições alfandegárias a todo mundo “para acabar com o déficit comercial” americano e, depois da mordida, assopra. Como do outro lado muitas vezes encontra pessoas com alguma experiência — tipo Merkel ou Xi Jinping —, seu sucesso é bem relativo. E as críticas surgem também do lado americano, como os plantadores de soja que temem perder o mercado chinês para outros países, como o Brasil.

Nem toda a sua loucura, no entanto, abala a grandeza americana, com crescimento e taxas de emprego de fazer inveja a muito país.

Mas nem tudo me distancia do Brasil.
Esta semana Machado de Assis é louvado largamente pelo lançamento de “The Collected Stories of Machado de Assis”.

O New York Times diz: “Poucos autores de ficção escreveram tão afetuosamente sobre ideias, como se fossem pessoas reais; ele está sempre descrevendo como as ideias surgem e se modificam, o modo como podem perder seu curso e entrar em choque com outras.”

Machado é a glória que fica, eleva, honra e consola, como ele disse da Academia ao inaugurá-la. Glória que atinge a todos nós brasileiros.


O imbróglio das redes sociais

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Há alguns anos, em discurso no Senado, abordei o tema dos dias de perplexidade e indagações que vivemos, em que existem mais perguntas no ar do que respostas a dar.Estamos não num mundo em transformação, mas num mundo já transformado.

Participei, como convidado da ONU, de uma conferência mundial, em Bilbao, sobre o impacto da Internet nos direitos à privacidade. Com a sociedade da comunicação que passamos a ter, depois da morte da sociedade industrial, nada mais tem a garantia do sigilo, e a palavra da moda é transparência.

Uma das consequências foi tornar-se mais atual a indagação de Pilatos a Jesus, que consta em todos os evangelhos sinóticos: “O que é a verdade?” É difícil não só responder à pergunta, mas encontrar seu objeto. Sobre qualquer coisa existem tantas versões na Internet que não se sabe qual a verdadeira. E são tantas as verdades que não se sabe mais onde está a verdade. O resultado de tudo isso é que nasceram duas expressões, as mais usadas no mundo no ano passado: fake news e pós-verdade. A primeira significa notícias falsas e a segunda fica mais difícil de definir, pois é uma mentira que se tornou verdade.

Dentro desse quadro, as redes sociais — em que não há centro, mas o controle, como se descobre agora, de empresas que manipulam os acessos e as opiniões — deitam e rolam, possibilitando a cada pessoa ter a sua verdade ou a sua mentira.

Daí a discussão mundial sobre isso e o fato de se procurar, em todo lugar, vacinas e bloqueios contra as fake news, além de legislações para evitá-las ou reprimi-las. O diabo é que, quando o remédio aparece, o estrago já está feito e não há como repará-lo. É um pouco daquilo que o Padre Vieira falava sobre a calúnia: que eram penas de galinha arrancadas e soltas ao vento — depois era impossível juntá-las.

Outra coisa que tive oportunidade de ressaltar nessa conferência de Bilbao foi a nova tendência, trazida pela Internet, da democracia direta, aquela que existia no mundo antigo,em que cada pessoa votava por sua palavra em praça pública. Assim, no dia em que cada pessoa tiver seu iphone e a tecnologia assegurar certas garantias necessárias ao voto, toda parafernália da eleição desaparecerá.

Mas a Internet mal-usada é mesmo o perigoso instrumento da calúnia, do insulto, da difamação, da denúncia vazia e das notícias falsas.

Lá no Maranhão, agora por outros meios, usa-se desse mal costume. Eu, pelo menos, sou uma vítima predileta, alvo de insultos, dia e noite, desde que entrei na política. E ainda dizem que fazem política nova, mas usam a mais velha, bolorenta e nociva de todas as políticas.


A grandeza americana

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Nova York — Os Estados Unidos são um país que orgulha a humanidade, sobretudo por dele ter saído a missão mundial de difundir a democracia, os direitos humanos, as liberdades individuais e, na expressão de Jefferson, “a busca da felicidade”.

Passou a ser um esporte mundial, e ainda se mantém muito vivo, o gosto de criticar os Estados Unidos. Eu mesmo, em alguns tempos de minha vida, pratiquei esse esporte. E me arrependo porque, na realidade, com todos os seus defeitos, com todos os seus problemas, nada é mais interessante do que a sociedade americana, em que verificamos a capacidade desse país de harmonizar uma sociedade tão conflituosa, com problemas raciais e religiosos, e agora com a rejeição às imigrações cada vez maiores.

Essa leitura não pode ser prejudicada pela imagem do Trump, que realmente, devemos reconhecer, em nada tem ajudado o seu país. Quanto mais entrarmos na alma e na formação do que gerou o american dream, mais é possível admirar exemplos dessa grande nação, que, não podemos esquecer, é poderosa e mantém uma liderança mundial, certamente com a força dos seus cientistas, intelectuais, escritores, artistas e, sobretudo, com as sólidas instituições que criaram.

Para citar um exemplo, basta lembrar a sacralidade da sua constituição, que veio pregar a todo o mundo a democracia, as liberdades individuais e econômicas, tornando-se orgulho de toda a humanidade. E ela se mantém, tendo a Suprema Corte como sua grande guardiã.

Mas sempre que venho a esse país não deixo de me impressionar com sua outra face: a da ciência, da cultura e da arte. O primeiro passo é fazer o tour dos museus: o Metropolitan — com o sinal dos tempos, Met —, o Museu de Arte Moderna — MOMA —, o Museu de História Natural, o Museu Guggenheim, aqui em Nova York, só para citar os mais notórios, sem falar dos de Washington, Boston, etc., às centenas e aos milhares. O Barnes, em Philadelphia, é um romance: o seu criador encomendou um gigantesco mural a Matisse; houve erro na medida; segunda tentativa, segundo erro; na terceira vez, mandou buscar o Matisse para pintar no local. Mas a arte aqui, numa moda que se espalhou a partir de Chicago para toda parte, está nas ruas, em grandes esculturas dos maiores artistas, americanos ou estrangeiros.

O Brasil está, aliás, integrado a esse cenário, com a grande exposição de Tarsila do Amaral no MOMA, uma dessas raras vezes em que a arte brasileira é reconhecida no exterior. É claro que nas Nações Unidas — de Le Corbusier e Niemeyer — há os grandes painéis, nunca elogiados demais, de Portinari.

Mas além das artes visuais, e da arte cênica, de que preciso fugir para não falar do que o mundo todo conhece e que faz da cultura o primeiro produto de exportação americano,há o universo do escrito. Além dos romancistas, que dominam o mercado mundial do livro, e cuja importância é reconhecida pelos intelectuais europeus, os Estados Unidos têm extraordinários estudiosos. A historiografia americana é uma lição de técnica e estilo. Alguns, como Joseph Ellis, estudam os fundadores, outros, como Arthur Schlesinger, Jr., sua época — no caso Roosevelt e os Kennedy, que ele conheceu bem. Sobre Lincoln se escreve sempre, desde seus secretários, Hay e Nicolay, até Carl Sandburg, o grande poeta, passando por livros como o de Doris Kearns Goodwin, que o retratou usando seus adversários para construir sua equipe.

Os cientistas americanos ou que aqui trabalham, pois eles são mestres em cooptação de inteligência, têm liderado a ciência nos últimos 100 anos. A Nasa levou o homem à Lua, e agora um empreendedor, Elon Musk, está ultrapassando vários países na capacidade de colocar objetos no espaço — mesmo que este seja para o lado de Marte.

Apaixonado pelo livro, não posso deixar de falar da Biblioteca do Congresso, a maior do mundo, não só na guarda do que se faz aqui como da produção cultural de todos os países.

Ao promover no Brasil a ideia da lei de incentivo cultural, a Lei Sarney, estudei o que se fazia mundo afora. Aqui nos Estados Unidos os incentivos fiscais passaram por uma adaptação, deixando de ter somente a atração do ganho, mas a visão de deixar para a comunidade uma presença ou uma esperança, com fundações, museus, prêmios, bolsas. Assim, por exemplo, as bolsas das fundações Ford ou Fulbright, as doações da Rockfeller e da Carnegie, entre tantas outras.

Nesse país de tantos contrastes, nada marca mais o visitante sem preconceito que o amor que existe pelo conhecimento, exemplo de grandeza a ser seguido.


Mundo, Vasto Mundo

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Nova Iorque. — Estou aqui nos Estados Unidos acompanhando minha esposa, que se submeteu a uma difícil operação no joelho, buscando voltar a andar, ela que há quatro anos está em cadeira de rodas. Mas o nosso interesse político está sempre ligado.

A primeira coisa que constato é a verdade do nosso velho ditado: “Aqui e lá más fadas há”. Eu estou no lá (EUA), mas também no aqui (Brasil). O que nós chamamos nossas desgraças não são somente nossas, mas de todos.

Aqui (EUA) vemos o que já se processa há muitos anos no mundo ocidental, e não sabemos para o que caminhamos, com uma forte tendência que nos aponta para o fim da democracia representativa. O modelo que exercitamos de representantes do povo, eleitos periodicamente, está agonizante. Em todo lugar os deputados são alvos de profunda desmoralização, acusados de corrupção e de gozo de privilégios, prato diário da imprensa. A internet, através das redes sociais, e a televisão, como formadora da opinião pública, tornaram-se os principais interlocutores da sociedade democrática.

A pergunta que fazem é quem representa o povo: o parlamento, a imprensa ou a mídia como um todo?

Todas as respostas demonstram que estamos não num mundo em transformação, mas num mundo já transformado. Tudo mudou e muda. Sabemos que os parlamentos vivem momentos difíceis e de perplexidades. Mas foi neles que a democracia moderna se consolidou e passou a existir de fato, a partir da notável Magna Carta (1215), imposta ao Rei João Sem Terra, na Inglaterra. Daí em diante chegou-se à instituição do parlamento, depois exportado para o mundo todo, acoplado à fórmula de Montesquieu dos três poderes: legislativo, executivo e judiciário, um fiscalizando o outro, os charmosos checks and balances — fórmula que surge na época da criação da Constituição americana. Mas o que vai substituí-los? Eu, há alguns anos, analisando este fenômeno disse, em discurso no Senado, que as tendências estavam a indicar a democracia direta, isto é, onde cada um governaria pessoalmente. Mas como isso ocorrerá? Será que a tecnologia vai tornar possível que do celular cada cidadão possa tomar decisões de Estado? Até chegarmos lá muita água vai rolar.

Aqui (nos EUA), como no Brasil, o executivo e o legislativo estão em grande desgaste. O presidente Trump é alvo de todas as acusações, que invadem sua família, seu passado de aventureiro econômico, sua predileção por atrizes pornográficas e seus negócios obscuros. TV e jornais se encarregam disso. A Justiça já está chamada à colação, e os procuradores também dela participam. Apenas a Corte Suprema, como é da tradição americana, não fala, não ouve, não opina e mantém sua posição de proteger a Constituição, que aqui é sagrada: tem mais de duzentos anos, e é muito difícil emendá-la.

Para complicar tudo isso, Trump, depois da desastrosa ocupação do Iraque por W. Bush,desencadeou agora outra perspectiva de tensão nuclear, denunciando o acordo do Irã.

Graças a Deus, estamos livres disso desde que Alfonsín e eu acabamos com a disputa pela bomba nuclear entre Brasil e Argentina, prestando à humanidade o grande serviço de desnuclearizar a América do Sul — que eu consolidei propondo e aprovando na ONU a Resolução que considera o Atlântico Sul área livre de armas nucleares.

E, assim, vejo os EUA muito diferentes daquele que visitei pela primeira vez, em 1961, passando três meses nas Nações Unidas, como membro da Comissão de Política Especial da XVI Assembleia Geral, onde anunciei, pela primeira vez naquela Casa, a posição do Brasil condenando o apartheid, a famigerada política da África do Sul de segregação dos negros.

Mas este é um país extraordinário, que não podemos deixar de admirar e louvar, que fez com que surgisse da América a nação dos direitos humanos, da liberdade, da igualdade e dos grandes ideais democráticos.


A condição humana

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A condição humana é uma expressão que pode significar várias coisas: a fragilidade do homem e a inevitabilidade da morte, com Montaigne; o engajamento revolucionário, a solidão, o medo, como André Malraux num dos romances mais importantes do século XX; para os mais humildes, pura e simplesmente a sobrevivência, a sua situação na sociedade.

O primeiro motivo do político é esta visão da condição humana. É a sua transformação, a busca da felicidade — no fecho da fórmula feliz que Thomas Jefferson colocou na Declaração de Independência americana —, que nos leva a lutar. O medo da morte, que nos leva a construir a sociedade, é superado pelo medo da vida, que nos expulsa dela, que exige de cada um mais que o esforço e o trabalho, a sorte, o acaso, para poder levar para casa o pão de cada dia. O medo do desemprego.

Foi essa a ideia que me levou a afastar sempre as receitas clássicas de combater a inflação com recessão.

O Brasil enfrenta, hoje, como seu problema mais grave, uma crise de emprego terrível. A grande dificuldade do governo federal tem sido encontrar um equilíbrio entre a solução de crescer com inflação e a de acabar com a inflação para crescer. Com esta opção, temos hoje 14 milhões de pessoas desocupadas, entre as que procuram emprego — as que nem procuram mais são três milhões. A taxa de desemprego é de 13,1%. Mais de quatro milhões desistiram de procurar emprego. Mais de 26 milhões de pessoas queriam trabalhar mais, mas não conseguiram. Pensem em cada pessoa sem esperança, e depois juntem a ela cada uma das outras, .

Presidente da República, tive bem presente essa ameaça, para mim a mais danosa, pois destrói a dignidade do homem. Vínhamos de grandes níveis de inflação e de desemprego. Resolvi buscar outra solução, e para isso mandei estudar os planos de Israel e da Argentina, que tentavam caminhos novos. Fiz o Plano Cruzado, com a coragem do congelamento de preços. Sem ele não teríamos saído da recessão. Com ele alcançamos o menor nível de desemprego de nossa História — 2,16% —, e o mantivemos baixo até o fim do governo, tendo uma média de 3,59% — praticamente o pleno emprego. A inflação — preço que pagamos — vinha com correção monetária, isto é, o salário, no fim do mês, comprava o mesmo. Embora isso complicasse a economia, mais complicaria não ter salário no fim do mês, e, portanto, as compras não existirem.

E lá no Maranhão?
O emprego estava crescendo no período de Roseana. A taxa de desocupação caíra em 2014 para 7,4%. Depois de seu governo ela subiu: em 2015 foi para 8,6%; em 2016 para 11,7%; em 2017 para 13,3% — 359 mil pessoas. Em São Luís ela subiu de um nível já muito alto — 11,3% —, para se tornar o maior das capitais brasileiras, 19,8%.

Esta semana novos índices retratam a situação terrível de nosso Estado e de nossa gente: cresceram os índices de pobreza extrema. No Estado, hoje, são cerca de um milhão e 200 mil pessoas; e em São Luís, onde ela explodiu, aumentando 48%, são 147 mil.

Esses números, é claro, não nos alegram. Ficamos com pena do povo maranhense, na última das situações, que é o desemprego. A “mudança” veio, mas foi essa.

Volto a lembrar que é o sofrimento, a situação de cada pessoa que tem que ser levada em conta pelo político. A frieza dos números obscurece a carga trágica que cada uma delas carrega, a dor cotidiana, o desânimo, a desilusão, a ansiedade, a fome, as doenças. A condição humana, que cada um deseja transformar para alcançar a felicidade, não pode ser abstraída da realidade pessoal. Ela é a soma de todos os infinitos sentimentos humanos, de suas condições materiais, de sua força espiritual. É a imensa lição que essas pessoas nos dão: apesar de tudo, ter esperança.


Nem medo nem provocação

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O processo democrático no Brasil não conseguiu aprofundar-se depois da redemocratização do País.

O sistema eleitoral brasileiro, com seu bolorento anacronismo, só tem contribuído para que o gargalo institucional que atravessamos, depois de sepultar as intervenções salvacionistas dos militares — iniciadas com a República —, volte a figurar em nossas preocupações. Não soubemos fazer uma reforma política que restaurasse e fortificasse os partidos e possa assegurar a execução de um programa de governo que tenha sido aprovado pelo povo através da eleição. Esta não pode ser esse espetáculo em que se transformou, no qual o êxito está no dinheiro, na capacidade de arregimentar apoios quase sempre tocados por interesses subalternos.

Enquanto a reforma não ocorre, ficamos expostos à violência dos debates, aos insultos pessoais, em que o objetivo maior é desqualificar o adversário e não valorizar as ideias.

Não estou falando do quadro estadual, minha análise é do processo eleitoral brasileiro, de cujo debate participo há 60 anos, quer apresentando projetos, quer advogando a necessidade de melhorar o sistema eleitoral. Data de 1977 o meu projeto do voto distrital. Passei a defender o modelo alemão, em que podemos fazer a metade da representação por votos proporcionais e a outra metade por lista partidária. Mas para isso teremos de criar partidos com democracia interna, que assegure uma vida partidária e a formação de lideranças, substituindo os cartórios de registro de candidatos que são, na realidade, essa multidão de siglas.

A República, que não teve povo quando começou, resolveu fazer as eleições com declaração de voto. O eleitor saía da seção já com cópia autêntica de seu voto, para apresentar a quem de direito. Não havia erro. Mas, se escapasse algum, ele era corrigido: a Comissão de Reconhecimento de Poderes era a guilhotina que garantia a fidelidade.

Quem operava isso era o gaúcho Pinheiro Machado. Era um homem de mediana cultura, péssimo orador, falava baixo e sem emoção, pausado e lento. Por que então tornou-se o centro das decisões nacionais? Não tinha as qualidades intelectuais da elite republicana, mas possuía uma que era a mais necessária para o momento: saber comandar e chefiar. Sagaz, valente, homem de lança e palavra. Ele conseguiu firmar-se na posição de operador dos instrumentos que a República montou para sobreviver. Dizia que era contra as intervenções para agradar os governadores, porque estas eram espadas em suas cabeças, mas delas se utilizava para o jogo entre facções e fidelidades.

Virgílio de Melo Franco, que foi um dos líderes do fim da República Velha em 1930 e do fim do Estado Novo em 1945, foi, muito jovem, apresentado a Pinheiro Machado, que lhe pretendeu passar lição, dizendo que precisava estudar para ser alguém. Virgílio retrucou que sabia de exemplo do contrário… Ele gostava de contar que viu Machado passar de carro, em meio a vaias, e dizer ao motorista, enquanto fazia que lia um documento:

“Ande nem tão depressa que pareça medo, nem tão devagar que pareça provocação.”

O tempo de Pinheiro Machado passou. Hoje temos a urna eletrônica, o voto é secreto. Mas as campanhas precisam ser livres, sem ameaças de cacete, como se fazia no tempo de João Lisboa. Eleitores e candidatos não podem ter medo de votar. A democracia precisa de bom senso, sem demagogia e sem provocação.