A matança dos inocentes

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Volto, como testemunha da minha inconformidade, a abordar a violência no Brasil, que é sempre objeto de legislações novas para aliviar um problema que tem sido insolúvel e no qual, infelizmente, não avançamos.

Basta ver o que se passa diariamente, com grande visibilidade no noticiário policial, no Rio Grande do Norte, no Ceará, no Amazonas. Estes são o prato do dia. Atentados que fecham cidades, incêndio de transporte coletivo, assassinato de mulheres e crianças, a barbárie das decapitações – e a constatação de que a Polícia não está preparada tecnicamente para enfrentar a situação.

Nenhuma diferença existe entre o que a televisão documenta das guerras do que se mostra do Rio de Janeiro e de tantas outras cidades do Brasil. É um clima de guerra e de guerrilha. Os números anuais são terríveis: 65 mil homicídios, mais do que em todas as guerras do mundo. Isso nos causa revolta e indignação.

Eu, durante todo o tempo em que fui parlamentar — e não foram dias, mas 52 anos —, nunca deixei de ter esse tema entre minhas preocupações. Apresentei vários projetos, participei de debates e, presidente do Senado, fiz uma comissão mista com a Câmara, que resultou no Estatuto do Desarmamento. A decepção foi o povo brasileiro dizer “Não” no plebiscito, permitindo a venda de armas.

Mas não falo sobre toda a violência. Limito-me ao homicídio. É incrível que, na realidade, no Brasil, quem mata se defenda solto. Isso devia acabar.

Criaram no regime militar uma tal Lei Fleury, nome de um cruel delegado, para beneficiá-lo. E assim o homicídio ficou quase impune.

Um projeto que apresentei no Senado tornando o homicídio crime hediondo foi derrubado na Câmara dos Deputados. Ninguém se sensibiliza com a matança. A banalidade das notícias torna as pessoas insensíveis. A vida é desprezada, as vítimas, abandonadas. Os crimes contra a administração pública parecem mais importantes do que os contra a própria vida.

O exemplo agora vem de quem mais devia combater essa situação: o procurador Janot confessa que ia matar o Ministro Gilmar Mendes em pleno Supremo Tribunal Federal. Quando o clima de paixão passar, o Brasil vai fazer justiça a esse grande juiz, ícone na coragem de lutar pelo cumprimento da Constituição no que diz respeito às liberdades individuais e ao direito de defesa.

Janot, no seu livro, diz que tinha um plano de “Segurança sem violência”. Ficamos estarrecidos quando ele afirmou que abandonou esse plano para obter as luzes da ribalta com os vazamentos das investigações da Lava Jato. E agora, com o exemplo já frutificado de um outro procurador, também de faca na mão, tentando matar uma juíza dentro do próprio Fórum, vê-se o quanto este homem prejudicou o Brasil.

Este não tem o álibi do alcoolismo do procurador Janot, que se agarrava na sua deformação moral e em seu despreparo para o alto cargo que ocupava, mas apenas a desculpa da imitação.

Não é surpresa, portanto, que os assassinatos em massa se multipliquem e deles conste a alta quantidade de morte de mulheres indefesas e crianças inocentes.

É assim que se trata a vida no Brasil, com homens como Janot e o delegado Fleury.


Todos jovens

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Desde sempre o grande desejo do homem é fugir da morte e, para uns mais avançados, com uma juventude eterna. Na Grécia a ambrosia dava imortalidade, na Idade Média os alquimistas chineses e europeus buscavam o elixir da longa vida, a pedra filosofal.

Um dos livros que mais me marcaram foi o do filósofo espanhol Dom Miguel de Unamuno, motivo de lembrança e emoção quando visitei a Universidade de Salamanca, na Espanha, onde ele pontificou — e onde fiz uma conferência sobre os 100 anos de Jorge Amado. O livro era O Sentimento Trágico da Vida, isto é, a visão da morte. Ele defende a tese de que a grande penetração do Cristianismo foi pregar a ressurreição dos corpos, o que quer dizer que nós morremos, mas voltamos com os mesmos corpos. Era uma novidade, porque todas as religiões já pregavam a imortalidade da alma, mas era um ente difuso que não se sabia onde verdadeiramente estava.

Pois não é que agora abro um jornal e vejo a notícia de que a revista Nature, célebre e prestigiosa por divulgar as novidades e descobertas científicas, publica que cientistas americanos descobriram um coquetel do rejuvenescimento.

Bastou a notícia para eu ficar logo animado. O tal coquetel foi descoberto por acaso: eles estudavam a influência de determinado remédio no crescimento da glândula timo quando descobriram que este medicamento, misturado com dois outros, tinha o poder de alterar os DNAs e fazê-los mudar nossa idade numa média de dois anos e meio.

Tive uma primeira dúvida e indagação: esse coquetel influía nos DNAs para aumentar dois anos e meio das nossas vidas ou para diminuí-las em dois anos e meio? Assim, ficaria à nossa escolha: queremos ficar dois anos e meio mais jovens ou queremos prolongar a nossa idade para viver mais em menos tempo? Eles não esclarecem se o remédio é cumulativo ou se uma só dose dá esse resultado.

Lembrei-me logo do Magalhães Pinto que dizia que velho era quem tinha um ano a mais do que ele. Se fosse assim o Magalhães não encontraria mais nenhum velho porque esses já teriam recuado dois anos pelo famoso coquetel.

A minha crença em coquetel é forte, uma vez que foi um deles, apresentado num congresso de Vancouver, que surgiu como esperança para deter a AIDS. Apresentei logo um projeto mandando que ele fosse distribuído gratuitamente a todos os brasileiros com o vírus; esse projeto funcionou e até hoje funciona, diminuindo o sofrimento dos portadores dessa epidemia que atacou a humanidade, associando nos seus males o amor à morte.

São Paulo, repito, já disse isso aqui em meus artigos, pregava que sem ressurreição não há Cristianismo. Pois agora estes cientistas não promovem a ressurreição, mas nos tornam cada vez mais jovens (ou mais velhos). O diabo é quanto vai custar e quando essa pílula vai aparecer.

Eu, cá por mim, defendendo a minha parte, peço que seja logo, porque não tenho muito tempo mais para esperar. Mas a minha opção será ficar dois anos e meio mais novo, prolongando a minha juventude.

É a ciência a serviço do sonho do homem.

Uma coisa já está resolvida: o coquetel, de saída, dura pelo menos seis meses. Já é a metade do tempo pregado pelo Magalhães Pinto.


Está Quem Manda

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Nos meus primeiros meses como Presidente da República, tive que aprender a rotina das solenidades militares, sempre muito bem organizadas, com fórmulas estabelecidas há décadas e impecável respeito a horário e cerimonial. Justamente neste aprendizado, cometi uma das maiores gafes ao ser recebido no Corpo de Fuzileiros Navais de Brasília, no Dia da Marinha.

Diante da tropa formada estava o Ministro da Marinha, Almirante Henrique Saboia, um dos melhores homens públicos que conheci, grande profissional, mas sobretudo personalidade de honradez, cultura e sensatez. Devo-lhe grande ajuda de conselhos, recomendações e solidariedade.

Quando cheguei, ele, com grande garbo, deu a ordem a sua tropa, conforme os costumes navais, seguida pelo toque dos apitos dos marinheiros, e abriu a solenidade, anunciando: —”Está quem Manda!

Eu, novato em ser o Comandante em Chefe das Forças Armadas, entendi a saudação do Almirante Saboia como “Está queimando.” Abandonei a postura solene de Comandante para me voltar, à procura de onde vinha o fogo. Fui socorrido por meu ajudante de ordens, Major Heitor, a explicar-me que não havia fogo e sim a saudação naval. Até hoje conto com vergonha minha gafe aos almirantes amigos.

Essa foi a exclamação que me veio à cabeça quando recebi a trágica notícia do que acontece na Amazônia, lembrando-me daquele tempo. Desta vez está queimando mesmo, e muito, e escandalosa e catastroficamente fora de controle a nossa Amazônia.

Quando caiu o muro de Berlim, com o fim da utopia socialista, nasceu a ideologia do Meio Ambiente. O Brasil foi colocado no banco dos réus sob a alegação de que destruía a Amazônia, pulmão do mundo — por produzir uma sobra de oxigênio, o que não é verdadeiro, o papel pertence às algas marinhas. A Amazônia é fundamental para a humanidade porque é a maior floresta úmida, tem a maior diversidade e faz, aí sim, a regulação do clima mundial.

Minha reação, eu que sou ambientalista, amante da Natureza, humanista, foi contestar o que não era verdadeiro como teoria, reconhecer que desde a Colônia o Brasil tinha descuidado de enfrentar o problema do Meio Ambiente e trabalhar. Criei o “Programa Nossa Natureza” — com a ajuda dos ministros Bayma Denis e João Alves —, o Ibama e toda uma estrutura nacional de órgãos e institutos de natureza científica e tecnológica, a começar pelo monitoramento das queimadas. Fomos o primeiro país no mundo a dedicar ao Meio Ambiente um capítulo da Constituição, trabalho dos deputados Feldman e Sarney Filho.

Respondi à comunidade internacional reivindicando para o Brasil a Conferência Mundial do Meio Ambiente, com os embaixadores Paulo Tarso, Ricúpero e Seixas Corrêa pedindo apoio para a candidatura do Rio de Janeiro. A Conferência Rio-92 foi um sucesso e cumpriu sua finalidade. Assim saímos do banco dos réus.

Agora, devemos fazer uma mobilização nacional contra o fogo. Começar pelos municípios, com brigadas de voluntários, chamar os Estados à colação e fazer um grande mutirão nacional.

Vamos dar uma resposta correta. Nada de retórica, tudo de trabalho.

Como eu entendi o que disse o Ministro Saboia: “Está queimando!”


Uma tarde de tédio

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Em 1957, a “Tribuna da Imprensa”, depois da sessão da Câmara dos Deputados, era o lugar em que nos reuníamos para saber as maldades que o jornal soltaria no dia seguinte contra Juscelino. Odylo Costa, filho, o grande renovador da imprensa brasileira, era o secretário. Carlos Castelo Branco, articulista, já incorporara o título de mestre. Carlos Lacerda era dono e ícone, o santo guerreiro para uns, o demônio, a fera do Lavradio, o Corvo, e tudo o mais para aqueles que eram alvo de sua pena de fogo.

Carlos Lacerda chegava à redação e, nos seus dias “inspirados”, quase não cumprimentava ninguém. Com espalhafatosa força batia o teclado da máquina de escrever, que, resistente, sobrevivia ao seu talento.

Era o velho panfletário que sabia descobrir nos fatos conspirações difíceis de desvendar e que ele, na sua genialidade, transformava em denúncias. Ninguém tão sedutor quando, de bom humor, queria agradar, e ninguém mais perigoso, violento, agressivo, intolerante quando possuído da ira santa da agressão. A UDN tinha com ele uma cumplicidade medrosa. Era o ídolo e o verdugo. A história passava pelos homens, tinha contorções e remexia as entranhas do Brasil.

Foi num dia desses que, para nossa perplexidade, Carlos Lacerda anunciou: “Vou escrever, hoje, sobre a Sociedade Protetora dos Animais”. Entreolhamo-nos intrigados. Ele completou: “A situação está tão confusa e eu tão desolado que não tenho outro assunto senão os animais”. E, no dia seguinte, os udenistas atônitos leram a “Tribuna da Imprensa”. No lugar do artigo furioso do Carlos Lacerda encontraram uma dissertação amena sobre a nossa obrigação de defender os bichos. As interpretações foram as mais disparatadas. Uns viam uma sátira e buscavam carapuças; outros, uma mensagem cifrada aos golpistas que pululavam na cena política. Nada além do que uma tarde de tédio do grande jornalista. Um interlúdio para fazer pensar.

Recordo o fato e descubro, no redemoinho de tantos assuntos, como deixamos escapar, em certos instantes, o gosto de falar de coisas tão simbólicas como, agora, a chuva de estrelas, esses restos da Criação que estão fazendo brilhar o céu de nossas noites, legados do cometa Tempel-Tuttle, que, sonolento, cumpre sua órbita de 33 em 33 anos, raspando nossa atmosfera. E pensar que os antigos não sabiam disso e eram mais felizes do que nós, porque viam nas estrelas bons augúrios dos deuses e maravilhas dos mistérios.

Nós, envolvidos na tragédia do desemprego, na miséria das desigualdades sociais, não pensamos na bobagem de Robinson Crusoé, querendo sair daquela ilha do Pacífico, com Sexta-Feira e tudo, esperando navios que não chegavam. Ele não sabia que ali estava o tesouro que Francis Drake enterrou. Como todos os piratas ingleses, Drake tornou-se sir, um dia saqueou Cartagena de Índias e derrubou com um tiro de canhão a torre da igreja, para ser lembrado.

Felizmente há, hoje, boas notícias. Na mesma Inglaterra da Terceira Via, proibiram-se experiências científicas de uso de colírio nos olhos dos ratos e de cremes de beleza no focinho dos porcos.


A Estrada das Onças

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A Estrada de Ferro Norte-Sul, pela qual paguei um alto preço e que foi combatida fortemente por aqueles que consideram a política acima do interesse público, está em fase de conclusão. Se tivessem permitido que a fizesse durante o meu governo, o Brasil seria outro hoje.

Sempre defendi o modelo ferroviário e por isso recebi um boné de maquinista da Associação dos Ferroviários, que até hoje guardo com o maior carinho. As estradas de ferro foram o transporte do passado e agora ressurgem como o transporte do futuro, com um horizonte aberto pelas novas tecnologias de construção e trens de alta velocidade.

Há três dias o governo assinou o contrato de concessão de dois ramos prontos da Norte-Sul, com o governo recebendo um ágio de 109,2 % acima do piso da licitação, isto é, dois bilhões e setecentos e dezenove milhões de reais, quando o preço mínimo era de um bilhão e trezentos milhões.

A disputa pela estrada foi tão grande que a RUMO, empresa vencedora, ouviu do Ministro dos Transportes a afirmação de que “a Norte-Sul é espinha dorsal dos transportes no Brasil”. Quando lancei a Ferrovia Norte-Sul, quase toda a imprensa dizia que a estrada seria uma desgraça para o Brasil, porque era “um golpe do Sarney para levar as cargas brasileiras para embarcar no Maranhão, no Porto do Itaqui, dinheiro botado fora”. O tempo é mesmo o grande mestre da razão: hoje vejo todos a favor da estrada e ela já está dando dinheiro para o País.

O tráfego é caótico
Realmente, o Brasil precisa com urgência construir mais estradas de ferro. O modelo rodoviário está morto. As cidades estão saturadas de veículos, não se anda mais, o tráfego é caótico. As rodovias acabadas e engarrafadas. Esse o principal componente do “custo Brasil”, que diminui nossa competitividade internacional. E o mais grave: o País na mão dos operadores de transporte. Eles podem parar o Brasil a qualquer hora, estamos reféns de sua vontade. Basta uma greve. A que foi feita no final do ano passado provou isso.

São Luís, como um dos dez melhores portos mundiais, será no futuro o grande curador dessa tragédia.

Foram necessários muitos anos para que se abrissem os olhos da razão, e todos reconhecessem que se parou o Brasil.

Mas agora fico feliz. Dei ao Maranhão porto, estrada e energia. Temos a grande estrutura nacional para sermos o grande São Paulo do Norte-Nordeste.

Em vez de “estrada das onças”, como diziam quando a atacavam, hoje a Ferrovia Norte-Sul é a “estrada da salvação”.


Deputado, o amigo

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Afinal a Reforma da Previdência passou em primeiro turno. Primeira etapa vencida. Mas nos deixou muitos exemplos. O primeiro deles a total falência dos partidos. Foi preciso o Presidente Rodrigo Maia, que demonstrou uma extraordinária competência para construir uma engenharia política para viabilizá-la, ocupar o lugar do Executivo e articular uma maioria extraordinária dentro da Câmara, usando das práticas que fazem do regime democrático o melhor — na expressão de Churchill, “o pior do mundo, fora todos os outros”. Quais são elas? O diálogo, a negociação, a articulação entre os partidos, a sensibilidade para aferir a opinião pública e, a maior de todas, o convencimento da classe política de ser a matéria de interesse público inadiável.

O Executivo durante todo o processo pareceu perdido num cipoal que o levou a substituir dois ministros de articulação política e de retirar a tarefa da mão de outro que se mostrou inapetente para a tarefa, dada suas relações com o Presidente da Câmara. O próprio Presidente da República teve de ir e vir, trocando farpas, nas quais era possível ver sombras da política do Rio de Janeiro.

Outro ângulo foi a constatação já conhecida da fragmentação dos partidos (trinta e três) de funcionar como tal, tendo como base a disciplina e a coerência de pontos de vistas, já que nenhum deles tem programa a executar — estes são apenas objetivos difusos esquecidos nas letras mortas dos Estatutos partidários, não lidos pelos representantes nem ao menos encontrados impressos, sobreviventes apenas pela descoberta da internet, onde é possível encontrá-los sob a guarda do Professor Google.

Em nossa democracia representativa os representantes eleitos não representam nada.Dez dias depois de cada eleição, eles não sabem das ideias que os levaram aos parlamentos, a maior delas votar no amigo, o apoio de cabos eleitorais, alguns cartazes e, hoje, algumas mensagens conjunturais nas redes sociais. Basta ver na votação da Reforma da Previdência que os principais entraves — causa das maiores discussões — eram as reivindicações corporativas de sindicalistas, evangélicos, ativistas femininas, minorias discriminadas (LGBT), ruralistas e outros menos votados. São interesses setoriais defendidos por grupos corporativos.

Hoje, já é unanime a constatação de que a única legitimidade que resistiu nos parlamentos é a geográfica, isto é, a que existe nos países em que usam o voto distrital, onde o deputado representa o território e a população do seu distrito e por isso mesmo, repetimos, é legitimo.

Há 40 anos apresentei no Senado um projeto de Voto Distrital, que pode ser misto ou puro. Dorme no sono profundo dos Anais do Congresso Nacional, que Golbery dizia serem o único lugar em que se pode guardar um segredo.

Enquanto isso, todos, tendo à frente os cientistas políticos, são unânimes em afirmar que a democracia representativa agoniza.

Sua única e visível legitimidade passa a ser, na hora de votar, ter amigo e ser amigo do eleitor.


A política é destino

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Eu tenho afirmado ao longo da minha vida que nasci com uma total incapacidade de ter ódio e que rejeito a execrável teoria do Lenine de que devemos inverter na política o enunciado de Clausewitz de que “a guerra é a continuação da política por outros meios”.

Segundo essa tese, o adversário teria que ser tratado como inimigo, a quem não se deve apenas vencer, mas destruir, matar, aniquilar. Não se estaria mais na disputa das ideias e sim em um campo de batalha.

Para isso Lenine defendia o método da Revolução Francesa, da guilhotina na Praça da Concórdia, em Paris, e dizia ser o Terror necessário na disputa política. Ele o usou na Revolução Russa, e o resultado foram os milhões de mortos do comunismo.

Sempre fui coerente ao considerar a democracia o campo do debate, da disputa pessoal e política. Nunca deixei de praticar o diálogo, de respeitar os meus adversários — e quantos tive e tenho! — e nunca persegui ninguém, nem erigi estátuas à Deusa da Vingança, Adrasteia.

Outra coisa que nunca me corroeu a alma foi o ressentimento. Quantas e quantas vezes tenho repetido isso. O ressentimento e a inveja só fazem mal a quem os pratica. Corrói e angustia.

Por outro lado, não tenho motivo para tê-los. Deus me deu um destino de graças. Levou-me da Pinheiro, onde nasci, e de São Bento, onde passei a infância, por um caminho de estrelas, que colocou em minhas mãos. Fez-me Vice-Presidente e Presidente da República, Governador do meu Estado, três vezes Deputado Federal, cinco vezes Senador da República, o que mais tempo passou na Casa, 39 anos, seguido por Antônio Azeredo, 34, e Rui Barbosa, 32. Sou Doutor Honoris Causa pelas universidades de Coimbra, Pequim, Moscou e Federal do Maranhão, minha terra amada. Membro da Academia Brasileira de Letras (atualmente seu decano) e da Academia de Ciências de Lisboa, onde foi Secretário Perpétuo José Bonifácio. Escrevi 121 livros, alguns traduzidos em 12 línguas, em 169 edições. Fui publicado na mais importante coleção de literatura do mundo, a Folio, com 4.800 títulos, editada pela Gallimard. Entre 40 condecorações, tenho a maior do Brasil, a Medalha do Mérito Nacional, e a mais conhecida no mundo, criada por Napoleão, a Legião de Honra da França, no mais alto grau, Grã-Cruz.

Graças a esse meu jeito de ser, qualidades que Deus me deu, conquistei essa vida. Posso dizer, como Lincoln, que nunca cravei por meu desejo espinho algum no peito de ninguém. Napoleão dizia que “a política é destino, a literatura, vocação”. Dividi-me entre as duas.

Jamais posso me desinteressar da situação nacional e local. Estou escrevendo um livro sobre nossa conjuntura, “O Brasil no seu Labirinto”.

O Amapá e seu povo estão em primeiro lugar, e é bom que tenhamos uma política respeitosa, civilizada e democrática.


Os mortos-vivos

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Jorge Amado me contou que, depois de longo exílio, reencontrou um dos maiores poetas de língua espanhola, Pablo Neruda, e perguntou-lhe por um amigo comum, que tinha convivido com eles em Praga, onde nascera sua filha Paloma Amado. Neruda respondeu-lhe: “Jorge, não me perguntes por ninguém. Somos sobreviventes: todos já morreram.”

Já o meu mestre e companheiro de trabalho na redação de O Imparcial, Dr. Fernando Perdigão, quando eu era moço, disse-me: “Sarney, a gente só sabe que está velho quando chegar ao Cemitério do Gavião, olhar para os túmulos e dizer: “Este aqui era meu amigo, esse ali foi meu alfaiate, aquele acolá, meu colega de faculdade, um mais adiante, meu professor de latim”. Ri com ele e depois passei a lembrar-me de sua didática sempre que ia ao cemitério e reconhecia nas lápides amigos e conhecidos.

Com esse sentimento, sentei-me para escrever esta coluna lembrando-me do Clóvis Rossi, que acaba de nos deixar. Grande jornalista. Na Folha de S.Paulo também tínhamos, acima de todos, o Cláudio Abramo, mestre dos mestres; no Jornal do Brasil, Herberto Sales e o notável Carlos Castelo Branco, o Castelinho, grande jornalista de análise, igual ou melhor do que Tobias Monteiro, que, além de historiador, foi o primeiro a fazer grandes reportagens sobre as figuras do Império, sobre o qual escreveu, em dois volumes, o História do Império, reconstituindo, com a fontes primárias, a Lei do Ventre Livre, a Abolição, a República. Castelo foi mais do que ele: escreveu a história contemporânea do Brasil em seus artigos no JB (Coluna do Castelo), permitindo-nos acompanhar, pelo seu trabalho, todos os acontecimentos, altos e baixos, do nosso País. Foi meu colega na Academia Brasileira de Letras, onde o recebi.

Vou aos patriarcas e aqui coloco o maior de todos: Odylo Costa, filho, meu amigo, o maior que tive, pai do jornalismo moderno no Brasil, no qual foi não somente o mestre no texto: inovou a feitura, o modelo, o texto dos jornais, a começar pelo Jornal do Brasil.

Lembro Pompeu de Sousa e o deus Austregésilo de Athayde.

No princípio do século XX, houve uma grande polêmica sobre se o jornalismo era ou não literatura. Discussão inútil. Pelo jornalismo, pode-se fazer boa literatura, sem dizer que temos grandes escritores que foram também grandes jornalistas. Josué Montello era um. Gostava do jornal. Adorava a polêmica e foi um dos maiores romancistas e intelectuais brasileiros.

A morte de Clóvis Rossi fez-me rebuscar estas lembranças. Todos já morreram, mas todos estão vivos através da palavra escrita, onde mora a eternidade.

Mas não posso terminar sem colocar uma coroa de louro no velho Nascimento de Moraes, aqui do Maranhão, pai de todos, a quem ainda conheci e com quem trabalhei.

Depois, aí vai também a saudade, Bandeira Tribuzzi, amigo e irmão, poeta maior, que citei nas Nações Unidas, com quem fundamos este jornal. Dizia ele: “Que tempos de viver-se!” Além de tudo, profetas. Todos mortos-vivos.


Um futuro que chegou

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Desde moço tive a cabeça no futuro. Sempre queria me atualizar, olhar para frente e não ter lanterna na popa. Assim, começando a ter gosto pela literatura, não me conformava com um país mergulhado no parnasianismo e aonde não chegara a Semana da Arte Moderna de 22.

Fundamos um grupo de escritores e pintores. Começamos a fazer poesia contestatária das formas antigas e organizamos o Salão de Dezembro no Teatro Arthur Azevedo, chocando com as novas formas.

Foi aí que chegou de Portugal Bandeira Tribuzzi, como ele mesmo dizia, “trazendo Fernando Pessoa na bagagem” e passou a nos atualizar. Conhecemos José Régio, Miguel Torga, Antonio Machado e Garcia Lorca.

Depois meti-me na política, e pensamos em mudar o Maranhão. Tribuzzi fez a parte econômica; nós, a militância política. Governador, pensei não só nas obras, mas nas novas ideias. Trouxemos o primeiro computador. Criamos a Sudema, cópia da Sudene. Com uma equipe de gente nova, implantamos o planejamento, coisa nunca pensada no Maranhão, mandamos os irmãos Lobato e Anselmo ao Japão para ver e estudar as novas tecnologias da educação. Pobres, fizemos um circuito fechado de TV para multiplicar o número de professores (seis mil alunos). Criamos o Projeto João de Barro, até hoje objeto de estudo e tese universitária. Fizemos a primeira televisão educativa do Brasil, que chamávamos de Didática. Criamos cinco faculdades e a UFMA, com a ajuda do Presidente Castelo, e passamos de 745 alunos para cinco mil. Implantamos 74 ginásios Bandeirantes no interior.

Quando recebi o título de doutor honoris causa na Universidade de Pequim, disse que todos os saberes da humanidade eram o resultado da acumulação que vinha da Idade da Pedra à desintegração do átomo. Portanto, o saber devia ser universal e patrimônio da humanidade, jamais objeto de comércio.

Agora chegamos à inteligência artificial, que projeta um futuro inimaginável, com a perspectiva de substituir o homem. As guerras não serão mais de balas e bombas, mas cibernéticas. Não teremos países grandes ou pequenos, mas sim os que dominam ou não dominam tecnologias. Na ponta do iceberg está a guerra comercial entre China e Estados Unidos, para saber quem dominará a tecnologia do 5G.

Assim, o mundo acelera para a velocidade da luz. Tudo se transforma, tudo avança. E o homem? Yuval Harari diz que os empregos desaparecerão em diversas áreas, inclusive na medicina. As máquinas farão diagnósticos e tratamentos.

Não sei se será melhor ou pior. O certo é que o homem que eu sou — e somos — vai desaparecer, como desapareceram os de Neandertal.

A humanidade cresce. Os empregos vão embora. O Brasil está vivendo a tragédia dos 42 milhões de desempregados ou subempregados, sem contar o que acontecerá quando o desaparecimento de empregos do futuro, que será estrutural, se somar a nossa miséria conjuntural.

O Padre Vieira dizia que tinha saudades do futuro; eu também. Mas com essas perspectivas, fico em dúvida: terei saudades do futuro ou do passado?

E agora a mídia publica: entramos no negativo. O Brasil está fazendo como rabo de cavalo, crescendo para baixo.


No Mato sem Cachorro

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Nos ditados populares, nosso povo cunhou uma expressão para o momento em que estamos numa situação difícil: no “mato sem cachorro”. Quando vejo as dificuldades que estão sendo atravessadas pelo Presidente Bolsonaro, acho que o Brasil está assim.

Estamos enfrentando duas crises: uma, interna, da falta de recursos, recessão, no trincar da estrutura dos três poderes, Legislativo, Executivo e Judiciário; a outra, de natureza mais grave, porque estrutural, de mudança da humanidade, que está passando da sociedade industrial para a sociedade digital e das comunicações. Surgem novos conceitos sobre valores secularmente sedimentados e novas palavras para defini-los. A mentira é pós-verdade, fake news; novas definições surgem: modernidade, sociedade líquida (as mudanças são de velocidades imperceptíveis), a morte da verdade e da democracia representativa, a interlocução, na sociedade democrática, das redes sociais, enfim, um mundo transformado e não em transformação.

Na conjuntura, nosso País, saindo do sonho para o feijão, está com 58 milhões de desempregados, entre os que perderam as carteiras assinadas, os desocupados, os que nunca procuraram empregos e os biscateiros.

Essa é a maior tragédia
Sem emprego não tem contribuição previdenciária, não tem consumo, não tem trabalho e, pior, não tem desenvolvimento e caímos na recessão. Esperávamos que com o novo governo as expectativas melhorassem, os investimentos chegassem, o Brasil crescesse. Os otimistas calcularam um modesto crescimento de 3% neste ano. Os economistas o abaixaram, pouco a pouco, e já está em 1,3%. Nosso Maranhão, também atingido pela crise nacional, ano passado já cresceu como rabo de cavalo, para baixo, menos -5,6% (o último ano de crescimento, 2014, foi mais 3,9%). Atualmente o nosso desemprego está mais alto, e apenas pessoas em desalento — que desistiram de procurar trabalho — já são 560 mil, segundo o IBGE.

Enquanto esse tsunami derruba tudo, o governo põe todas as suas fichas na aprovação da Reforma da Previdência, necessária, pois sem ela em 10 anos não teríamos dinheiro para sustentar os aposentados e nem como pagá-los. Eu acho que é uma pós-verdade, para usar uma linguagem atual. No meu governo a Previdência teve superávit em quase todos os anos. Por quê? Porque o Brasil crescia a 5% ao ano, e o desemprego era em média 3,86%. E empregados contribuem e dão recursos à Previdência. Assim, nosso maior problema é crescer, desenvolver. É a experiência do “saber feito”, para citar Camões. Até hoje não se repetiram os números de crescimento do meu mandato, PIB de 119,20%, e renda per capita de 99,11%. Quem quiser conferir vá na internet e veja os sites da Fundação Getúlio Vargas e do Banco Central.

E tudo mais está à espera da Reforma da Previdência, os investimentos estatais pararam: saúde, educação, energia e transportes intermodais. A Federação está desintegrada. Os Estados, falidos, uns mais, outros menos. Os políticos, no paredão, e o Bolsonaro debaixo de uma fuzilaria sem trégua. Numa síntese disso tudo está o Brasil. Ele é que apanha mais, aqui e lá fora.

Mas eu sou otimista e, quando presidente, afirmei quando veio o vendaval: o Brasil é maior do que qualquer problema, maior do que o famoso “abismo”. Nossa força, nossa riqueza, nosso povo vai superar tudo, sairemos do “mato sem cachorro” e voaremos em “céu de brigadeiro”.