A crise atingiu as palavras

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As palavras estão numa crise pior do que a nossa crise política e econômica: deixaram de significar o que realmente são, no milagre da língua. Levou milênios para que fossem construídas pelos homens na junção dos sons. Além da criação de linguagens alternativas, com abreviação de palavras e construções anômalas, tão comuns na linguagem dos jovens, agora surge uma nova língua, criada pela internet, sob a pressão do instante, que exige rapidez e compactação para ganhar espaço e tempo.

Ouvi outro dia de um professor de português, desses que fazem programa de rádio procurando popularizar o ensino da língua, a seguinte advertência:

“Se você quiser errar no português, leia as manchetes dos jornais. São sempre erradas. E não têm ordem direta, nem indireta. Só erros.”

Assim, só para dar um exemplo, quadrilha não é mais dança de São João, tão alegre e solta nos seus sons e rodopios, mas agora é sempre um ataque, um palavrão para atingir adversários.
Lembro-me do poema de Drummond Quadrilha, em que J. Pinto Fernandes entra na história, sem ter nada a ver com ela.

Esta é a lógica das denúncias que agora circulam nos jornais: todo mundo é quadrilheiro. E nisso não respeitam nem presidentes, nem governadores.
É como dizia um poeta maranhense da velha guarda, muito criticado por nós, àquele tempo jovens:
“É o jogo da semântica.”

Não resisto a repetir o poema de Drummond:
João amava Teresa que amava Raimundo que amava [Maria que amava Joaquim que amava Lili
/ que não amava ninguém.
/ João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
/ Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
/ Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
/ que não tinha entrado na história

Agora, com esse mar de delações, chamadas de colaboração — já tive oportunidade de dizer isto nesta coluna: com as palavras em crise, traidor transformou-se em delator; delator, em colaborador; e colaborador será heroidador —, teremos que reestudar a História para recuperar os personagens. Judas Iscariotes, por exemplo, não é mais traidor, nem delator, e sim um colaborador que ajudou a crucificar Jesus Cristo.

Bequimão, o nosso grande herói (e o Maranhão é injustiçado, porque foi dele o primeiro grito de independência do Brasil), teve como delator Lázaro de Melo, que agora passa a colaborador.

Tiradentes (estou me repetindo) nos deixou como herança, para desgraça do Maranhão, os ossos de Joaquim Silvério dos Reis, que estão enterrados na Igreja de São João e que agora passaram a ser de um colaborador.

É como eu disse no princípio: as palavras estão em crise. E o Dr. Rodrigo Janot ficará na História por dar essas contribuições ao léxico brasileiro.

É melhor ficar com o Drummond: quadrilha de dança e de amor, frustrado ou realizado.


Reforma da autoestima

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Estamos discutindo muitas reformas. Desejamos reformar tudo. Aliás, essa é uma doença nacional, que vem desde os meados do Império, quando o Conselheiro Nabuco lançou o slogan “Reforma ou Revolução”.

Mas também esse tema não criou paixão e divisões somente no Brasil: basta lembrar a discussão ideológica na Alemanha, nos primórdios do comunismo, entre Rosa Luxemburgo e Bernstein.

Contudo, minha impressão é a de que essa palavra reforma está um pouco, ou bastante, envelhecida, porque há uma confusão entre o conserto das coisas, conforme a necessidade, e a palavra reforma, que tem uma conotação ideológica. É um pouco como essa discussão sem sentido de direita e esquerda, que nasceu no plenário da Assembleia Nacional Constituinte de 1789, na França, onde o terceiro estado ocupou a esquerda, e a nobreza e o clero, a direita da presidência, na questão do direito do Rei ao veto.

A verdade é que o Brasil tomou o gosto de falar mal de si próprio. O País, que já foi motivo de grande orgulho nacional para o seu povo, por sua riqueza, suas belezas e pela índole de sua gente, passou a uma fase que, apesar de atual, já vem de alguns anos, de vangloriar-se das mazelas, às vezes exacerbadas, construídas pelo interesse dos envolvidos no debate.

Essa maldição de falar mal do Brasil é uma atitude política, que foi espalhada pela América Latina, em quase todos os países, para provocar uma insatisfação interior, que leva ao desejo de revolta e destruição da sociedade em que se vive.

Eu, do meu lado, não tenho mais idade de ser pessimista, nem motivos de tê-lo sido, porque continuo, ontem e hoje, tendo grande amor e veneração pelo meu País. Recordo-me, e se não me engano já citei isso, de que eu estava com Alçada Baptista, o grande escritor português, de Peregrinação Interior, quando ele me disse que tinha orgulho de ser português, acrescentando:

“Calcule se Deus me tivesse feito mulher no Afeganistão, sujeita a andar de burca e sem nem poder mostrar meus pés? Aí seria um desastre. Não por ser mulher, que seria sempre a sedução dos homens, mas por usar burca e nem poder deixar minha beleza ser desejada.”

No meu caso, como já disse, se não fosse brasileiro, quereria ser brasileiro. Sem esquecer de nascer no Maranhão, onde minha Pátria começa.

Li, em Delfim Netto, para citar a fonte, que o Brasil foi o País que mais cresceu no mundo no século passado. E acrescento que conseguimos ser a 8ª economia mundial aqui, nesse cul-de-sac, na América Latina, onde não passa fluxo nem econômico, nem tecnológico mundial. A verdade é que, quando vemos os países desenvolvidos, não consideramos a nossa diferença, para muito melhor, na solução de problemas que já resolvemos — e eles não resolveram.

Não temos questão de religião, de fronteira, de raça, de imigração massiva, nem de emigração. Todos os nossos problemas são conjunturais, fazem parte da vida, que vamos resolvendo.

Assim, a reforma política, se não passar agora, passará amanhã. Isso se aplica a todas as outras chamadas “reforma”, que nada mais são do que acomodação de placas tectônicas.

A Lava Jato está servindo para aumentar essa descrença, essa falta de autoestima. Como tudo no mundo passa, também ela passará. E o Brasil continuará seu caminho de grandeza.

Já no passado, Affonso Celso escreveu um livro Porque me ufano do meu país. Mas suas considerações são de natureza absolutamente diversa das que hoje temos. Ele fala do clima, das nossas belezas, da nossa superioridade territorial. E temos uma coisa mais bela do que tudo isso: a miscigenação, que criou a mulata e a nissei, o Juruna e o cacique Raoni, a Marta Rocha e o Grande Otelo.

Assim, “Seu Peru” e “Cacilda”, de Chico Anysio, à parte: Viva o Brasil!


O Bigode

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No meio do turbilhão do “deserto de homens e ideias” — como dizia Oswaldo Aranha, que acrescentava: “veio Mossoró (o cavalo campeão) de Pernambuco e ganhou o Grande Prêmio Brasil do Jockey Club Brasileiro” —, surge agora, num terremoto político, José Eduardo Cardozo, ex-Ministro da Justiça, dizendo que, depois da queda da Dilma, “nada ficou de pé”.

Frases aqui e acolá, de ontem e de hoje, estão fazendo onda. Pode figurar nelas a obsessão do Janot com o bigode do Jucá. Quem mais se diverte são os chargistas. O Chico Caruso está deitando e rolando, em O Globo, com o Dr. Janot.

Admirador do soneto A Moenda, de Da Costa e Silva, cito seus versos célebres:

Álcool para esquecer os tormentos da vida

E cavar, sabe Deus, um tormento maior!

Diz o Senador Jucá que “bigode pode causar fetiche”; e o dele está fazendo furor.

Que direi eu que carrego um desde que surgiu, aos quinze anos, e o deixei crescer à vontade, ficando grosso, depois comprido, depois grisalho e por fim branco? Várias vezes me sugeriram tirá-lo, eu recusei: “Já que me deu sorte, vamos deixá-lo aí até o fim”.

Tem sido marca e referência. Uns me trataram “de homem do bigode”; outros, de “o bigodão”. Com ele mexeram e até me insultaram. Sempre tive a atitude de “Deixa pra lá”.

Brizola uma vez me ameaçou “Vou raspar o bigode do Sarney”. E o Senador Vitorino disse, numa dessas passadas lutas, que ia arrancá-lo “ à pinça, cabelo por cabelo”.

Eu disse aqui, de mim para mim mesmo: “Vai doer muito!”

Mas, graças a Deus, ele aí está, e Deus queira que o Dr. Janot o esqueça — coisa que não me parece provável.

As mulheres estão isentas dessas críticas, com seus rostos lisos e limpos de pelos, mais fáceis de receber carinhos e elogios.

Chaplin explorou muito seu bigode. Einstein não deixou por menos o seu. E ainda com direito ao realce da língua de fora.

Sendo assim, o Jucá que se conforme com o seu bigode, que ainda mais só agora foi descoberto. Pior estou eu que carrego o meu há tantos anos. Mas muito feliz com ele, embora fique muito contrariado quando o chamam de “bigodão”.

Bigodes à parte, o País dá sinais de que volta a crescer, com empregos em alta, reservas melhorando, embora ainda longe de recuperar os 8% do PIB, uma vez que a recessão dos anos de 2010 em diante nos levaram a muitas dificuldades, cujas amarguras ainda estamos vivendo.

Numa situação dessas é o caso de levantar o ânimo dos maranhenses, tão castigados pelas perseguições do Governo, dizendo-lhes, como eu vi escrito em um muro do México:

“Não queremos fatos: queremos promessas.”

Uma delas é voltar a balança da Justiça a suas mãos — que foi tirada para colocar flechas a serem dirigidas contra os bigodes, como quer o Procurador-Geral.


Reforma da autoestima

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Estamos discutindo muitas reformas. Desejamos reformar tudo. Aliás, essa é uma doença nacional, que vem desde os meados do Império, quando o Conselheiro Nabuco lançou o slogan “Reforma ou Revolução”.

Mas também esse tema não criou paixão e divisões somente no Brasil: basta lembrar a discussão ideológica na Alemanha, nos primórdios do comunismo, entre Rosa Luxemburgo e Bernstein.

Contudo, minha impressão é a de que essa palavra reforma está um pouco, ou bastante, envelhecida, porque há uma confusão entre o conserto das coisas, conforme a necessidade, e a palavra reforma, que tem uma conotação ideológica. É um pouco como essa discussão sem sentido de direita e esquerda, que nasceu no plenário da Assembleia Nacional Constituinte de 1789, na França, onde o terceiro estado ocupou a esquerda, e a nobreza e o clero, a direita da presidência, na questão do direito do Rei ao veto.

A verdade é que o Brasil tomou o gosto de falar mal de si próprio. O País, que já foi motivo de grande orgulho nacional para o seu povo, por sua riqueza, suas belezas e pela índole de sua gente, passou a uma fase que, apesar de atual, já vem de alguns anos, de vangloriar-se das mazelas, às vezes exacerbadas, construídas pelo interesse dos envolvidos no debate.

Essa maldição de falar mal do Brasil é uma atitude política, que foi espalhada pela América Latina, em quase todos os países, para provocar uma insatisfação interior, que leva ao desejo de revolta e destruição da sociedade em que se vive.

Eu, do meu lado, não tenho mais idade de ser pessimista, nem motivos de tê-lo sido, porque continuo, ontem e hoje, tendo grande amor e veneração pelo meu País. Recordo-me, e se não me engano já citei isso, de que eu estava com Alçada Baptista, o grande escritor português, de Peregrinação Interior, quando ele me disse que tinha orgulho de ser português, acrescentando:

“Calcule se Deus me tivesse feito mulher no Afeganistão, sujeita a andar de burca e sem nem poder mostrar meus pés? Aí seria um desastre. Não por ser mulher, que seria sempre a sedução dos homens, mas por usar burca e nem poder deixar minha beleza ser desejada.”

No meu caso, como já disse, se não fosse brasileiro, quereria ser brasileiro. Sem esquecer de nascer no Maranhão, onde minha Pátria começa.

Li, em Delfim Netto, para citar a fonte, que o Brasil foi o País que mais cresceu no mundo no século passado. E acrescento que conseguimos ser a 8ª economia mundial aqui, nesse cul-de-sac, na América Latina, onde não passa fluxo nem econômico, nem tecnológico mundial. A verdade é que, quando vemos os países desenvolvidos, não consideramos a nossa diferença, para muito melhor, na solução de problemas que já resolvemos — e eles não resolveram.

Não temos questão de religião, de fronteira, de raça, de imigração massiva, nem de emigração. Todos os nossos problemas são conjunturais, fazem parte da vida, que vamos resolvendo.

Assim, a reforma política, se não passar agora, passará amanhã. Isso se aplica a todas as outras chamadas “reforma”, que nada mais são do que acomodação de placas tectônicas.

A Lava Jato está servindo para aumentar essa descrença, essa falta de autoestima. Como tudo no mundo passa, também ela passará. E o Brasil continuará seu caminho de grandeza.

Já no passado, Affonso Celso escreveu um livro Porque me ufano do meu país. Mas suas considerações são de natureza absolutamente diversa das que hoje temos. Ele fala do clima, das nossas belezas, da nossa superioridade territorial. E temos uma coisa mais bela do que tudo isso: a miscigenação, que criou a mulata e a nissei, o Juruna e o cacique Raoni, a Marta Rocha e o Grande Otelo.

Assim, “Seu Peru” e “Cacilda”, de Chico Anysio, à parte: Viva o Brasil!


Reforma Eleitoral

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Volto a tratar, como o fiz há duas semanas, da reforma eleitoral e dos desencontros que comandam o debate no Congresso Nacional.

Sempre me interessei pelo estudo dos sistemas eleitorais e li bastante sobre o assunto. Durante meus 50 anos de vivência parlamentar, jamais deixei de participar de todas as proposições sobre o tema. Cheguei mesmo a publicar no Brasil e na França dois ensaios tratando dessa matéria, publicados na mais prestigiada revista de estudos políticos da Europa, a Commentaire.

Na Escola Superior de Guerra, proferi, em 1977, uma conferência sobre Partidos Políticos, que serviu de base para um ensaio publicado em livro. Apresentei, em 1972, um projeto de lei propondo o estabelecimento do Sistema Distrital Misto, adotado na Alemanha. Defendi o Parlamentarismo, sistema que sempre julguei melhor que o Presidencialismo.

Durante muitos anos, tenho acompanhado a tragédia da representação parlamentar brasileira com o sistema proporcional uninominal que adotamos, que destrói os partidos, favorece a fraude eleitoral, a corrupção e estimula a criação desordenada de partidos. Graças a esse tipo de voto, existem 35 partidos políticos, hoje, o que torna caótica a atividade na Câmara dos Deputados e implica na ingovernabilidade a que o País chegou. E há mais 63 partidos em formação no TSE!

Foi o ex-Presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, quem reconheceu, ainda durante seu governo, que as novas técnicas de comunicação — com a tevê e as redes sociais — diminuíram a importância do partido político para a campanha eleitoral, mas que é impossível governar sem os partidos políticos, porque são eles que asseguram a governabilidade.

Agora discute-se no Congresso a Reforma Política e, ao que me parece, não existe consenso sobre nada. Lançaram a ideia do Distritão, de que discordo, por conter defeitos doutrinários e debilitar os partidos, afastando-os das eleições, enquanto fortifica o voto pessoal, o que é danoso para a democracia.

O STF julgou inconstitucionais a cláusula de desempenho para a existência de partidos e o financiamento de campanha por empresas. Esse é um grave problema porque cria o vazio. E a imprensa elimina o financiamento público, combatendo-o ferozmente. Quem vai financiar a eleição? A democracia tem um custo!

Raul Alfonsín, falecido Presidente da Argentina e meu grande amigo pessoal, denunciou a debilidade das democracias pobres. Se não existe financiamento, como fazer eleições? A alternativa seria a da força, em que, sem eleição, florescem os ditadores. Aí, ninguém gasta um tostão, e basta que os militares ou os tribunais indiquem presidentes, governadores, prefeitos e mais. Mas isso já se viu que não deu certo em nenhum lugar do mundo e levou ao derramamento de muito sangue!

Para mim, tem que haver financiamento privado, com regras claras e transparência, como na Alemanha e em muitos outros países. Sem financiamento público nem privado, os financiadores das eleições serão os dinheiros do crime organizado.

Com a falta de acordo entre os partidos e a Justiça insensível aos problemas do mecanismo eleitoral, estamos caminhando para um desastre que vai engolir a democracia. No clima em que estão, essa Reforma, a meu ver, mais uma vez, não chegará a nada. E ficaremos com a indagação: “Para onde vamos?”
Estão faltando nesse assunto liderança, articuladores e espírito público.


As leis eleitorais – II

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Esta semana, participei de uma reunião de líderes e experts em legislação eleitoral. O convite foi feito pelo Presidente da Câmara e do Senado, motivados naturalmente pelos meus quarenta anos de Senado e doze anos da Câmara dos Deputados. Esta longa vida parlamentar me levou a falar e escrever muitas vezes sobre esse tema que está em votação no Congresso. Assim, na linha do que escrevi na semana que passou, volto ao assunto, como prometi.

Comecei, na minha primeira eleição, em 1954, sendo votado nas chamadas “chapinhas”, que nada mais eram do que um pedaço de papel, com o nome do candidato e o cargo pleiteado, levado pelo eleitor; na mesa, era colocado num envelope, que o presidente da mesa rubricava.

Foi o tempo dos cabos eleitorais, cuja missão era trocar as “chapinhas” das mãos dos eleitores. Depois a UDN, meu partido, lutou pela chapa única, que devia ter os nomes de todos os candidatos, com um quadradinho ao lado para o eleitor marcar xis, colocando sua escolha. Essas chapas eram impressas por conta dos partidos e distribuídas por eles aos eleitores, que já as levavam marcadas.
No tempo do Juscelino a UDN defendeu a chapa oficial, o que foi uma grande conquista, já que passou a ser responsabilidade da Justiça Eleitoral fazer as chapas e entregá-las – no momento de votar – aos eleitores, que comprovavam sua condição com o título.

Veio a campanha do alistamento eleitoral, com a luta para colocar a foto do eleitor no título. Com o avanço da tecnologia, fui eu o responsável pelo projeto para que o alistamento eleitoral fosse feito pelo Governo, que já fazia o alistamento militar.

Quando fui Presidente da República, sendo presidente do TSE o Ministro Néri da Silveira, implantamos o título digital, uma espécie de cartão de crédito. Havia muitas dúvidas sobre a viabilidade do sistema eletrônico, mas ele foi paulatinamente implantado, com enorme sucesso, hoje reconhecido internacionalmente.

Mas, se o processo de votação tornou-se confiável, continuamos com o velho — e, quando foi criado, já anacrônico — voto proporcional uninominal. Esse sistema é o responsável pelo paradoxo de ao mesmo tempo termos a total ausência e a proliferação desenfreada de partidos no Brasil. Dele também nasce a vulnerabilidade das eleições ao poder econômico e às práticas heterodoxas de angariar votos. Hoje há total desvinculação entre o eleitor e o eleito. O palco dessa relação deveria ser a geografia, e a escala a da proximidade, ou seja, o distrito municipal; ora, hoje o candidato a deputado procura voto num distrito de um lado do estado, em seguida viaja mil quilômetros para pedir a um eleitor que nada tem em comum com o primeiro.

Em 1977, apresentei um projeto de voto distrital-misto, baseado no modelo mais atual, o alemão. Defendi o parlamentarismo. Introduzi, por projeto de lei, a obrigação do candidato declarar seus bens ao registrar-se. Participei em muitas e muitas reformas e tentativas de melhorar o sistema eleitoral, evitando a fraude e o abuso do poder político e econômico.

Para terminar lembro que a fraude era tanta que, quando fui candidato a Governador, depois de uma revisão eleitoral que eliminou 200 mil fantasmas, apareceu pintado no muro do Cemitério do Gavião, em letras grandes:

– Agradecemos ao TSE não termos de votar nesta eleição, respeitando o nosso direito de descansar em Paz!

Na próxima semana falarei das reformas que estão sendo discutidas.


As leis eleitorais — I

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Sempre fui um crítico da legislação eleitoral brasileira. Desde que cheguei à Câmara, interessei-me pelos projetos que ali tramitavam — e eram muitos! — dispondo sobre a modificação de diversas normas para as eleições. A começar pelo Código Eleitoral, que nasceu desatualizado.

Assim, algumas instituições nossas, como o voto proporcional, remontam ao século XIX, quando Assis Brasil promoveu uma grande campanha pela proporcionalidade nas eleições, baseado na ideia positivista de que todos os segmentos e credos filosóficos deviam ser representados no Congresso Nacional.

Finalmente, a sua ideia foi vitoriosa em 1932, quando redigiu o nosso primeiro Código Eleitoral. A adoção desse tipo de voto, portanto, já vinha envelhecida, e hoje não existe mais em um só país. A Finlândia tem uma coisa parecida, mas que não se compara à bagunça que é o nosso sistema proporcional uninominal.

Ao voto uninominal devemos a multiplicação e o enfraquecimento dos partidos, com a falta de fidelidade partidária. Passadas as eleições, os candidatos de um mesmo partido não podem sentar-se a uma mesa, porque seus adversários na eleição não foram os membros de outro partido, mas os do seu próprio, pois disputam com os companheiros a mesma vaga.

Aliás, o inconformismo com os sistemas eleitorais faz parte de nossa História e vem desde a Constituinte de 23, quando já se discutia que tipo de sistema devíamos adotar para as eleições.
Ao longo do Primeiro e do Segundo Reinado, sempre existia alguém atribuindo ao sistema adotado, em qualquer tempo, a origem dos nossos males. Daí as inúmeras modificações que surgiram ao longo do tempo, buscando sempre a melhoria da legitimidade dos votos.

Não se pode comparar o que acontece hoje com o que ocorreu há quase 200 anos. O voto era censitário, aquele em que o candidato tinha que possuir determinado patrimônio para poder figurar numa chapa. Nem as mulheres, nem os escravos, nem os soldados votavam. Os poucos eleitores que restavam tinham que se submeter a uma eleição que nada tinha de legítima, pois terminava sempre em cacetadas: a arma usada para dissolver as seções eleitorais e quebrar as urnas.

João Lisboa, de quem Capistrano de Abreu dizia ser o melhor historiador brasileiro, no clássico estudo do Jornal de Timon sobre eleições da Antiguidade até o seu tempo, descreve com detalhes e com documentos, além do seu próprio testemunho, o que nelas acontecia.

No fim do Império, o Conselheiro Saraiva — que exerceu muitas missões diplomáticas, inclusive no Prata, foi membro do Conselho de Estado, Presidente do Conselho de Ministros, governador da Província do Piauí e fundador de Teresina — era obcecado por melhorias no sistema eleitoral e conseguiu impor sua reforma, que estabelecia as primeiras “diretas”, abolindo a Lei dos Círculos, nossa versão de voto distrital. A Lei Saraiva proibiu o voto dos analfabetos, restringindo os eleitores a 1% dos brasileiros.

Na República, Campos Sales, que foi Ministro da Justiça do Primeiro Governo do Deodoro, propôs a abolição do voto secreto, estabelecendo que o eleitor devia receber do presidente da mesa o documento assinado com a chapa em que tinha votado. Argumentava ele que a República, cuja origem era o voto popular, tinha que ganhar eleições, mas o que acontecia, na realidade, é que o povo era monarquista e não votaria em republicanos. Sendo assim, propunha ele fraudar as eleições.

Para ter certeza de que tudo ia bem, criou-se a Comissão de Reconhecimento, com que Pinheiro Machado, que a assumiu, podia aceitar ou ignorar o candidato vitorioso nas urnas.
Eu mesmo, em minha longa vida política, presenciei vários sistemas eleitorais. Na próxima semana contarei o que testemunhei e do que participei.


A graça da vida

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Um dos mais belos livros da Bíblia é o Livro de Jó. É uma profunda reflexão sobre a graça da vida. Nele há passagens que nos abrem os olhos e a alma: “O homem…. nascido da mulher… sai como a flor e seca; foge também como a sombra e não permanece”. Jó não maldiz o sofrimento e de seus lábios, “enquanto em mim houver alento não sairão iniquidades”. Ele sabe que o maior amor de Deus pelos homens é a graça de viver.

A comovente confissão de Mário Covas sobre a sua doença adquiriu, à época, dignidade transubstancial, porque não foi grito de pieguice nem concessão à fraqueza, mas um reconhecimento dos dias que Deus lhe deu, e não dos que ainda lhe podia dar. A essência de ser cristão é aquela de ter a paz interior, justamente a de agradecer o que lhe foi concedido, e não a de achar que viver é um caminho sem espinhos. Guimarães Rosa resumiu essa visão na famosa assertiva de que “viver é muito perigoso”. O padre Vieira diz que os nossos olhos foram feitos para “ver e para chorar” e argumenta que “os cegos não vêem, mas choram”. Covas mostrou as duas bondades dos olhos, a de ver e a de chorar. Lágrimas que conseguiu que fossem comungadas por milhões de brasileiros.

A glória política é feita de instantes. De momentos de brilho. Vivem das luzes da ribalta, das pequenas vaidades, dos aplausos, até os grandes momentos de excepcionais vitórias. Os políticos estão sempre expostos. Não têm o direito de falar baixo. Tudo que falam se exige que seja alto, que chegue aos ouvidos de todos, que eles não tenham privacidade, que não tenham fraquezas e defeitos. Ninguém os vê com grandeza nem compreensão. Devem ser sempre homens frios, quase de pedra, e muitas vezes de lama, por isso nunca os perdoam e os vêem com olhos de impiedade. É preciso que sofram, que sangrem, para que se compreenda que também são feitos de carne e osso. Joaquim Nabuco dizia que no Brasil era preciso que os políticos morressem para que suas qualidades fossem reconhecidas e tivessem justiça. Falo dos políticos, não dos que falsificam o ideal político.

Mário Covas mostrou que os políticos são feitos de carne e osso. São frágeis como todos os corpos e têm almas. A bravura com que enfrentou e o destino tornou-o objeto de respeito.

Tenho a isenção de quem não está entre seus legionários, mas do ser humano capaz de comover-se. Recordo-me de quando, em 1962, Covas chegava à Câmara dos Deputado,s em Brasília, nenhum de nós sabendo aonde o destino nos levaria. Éramos jovens e Saulo Ramos me dizia do seu talento político, que vinha das lutas de sua base eleitoral, Santos.

Com o mesmo ímpeto daqueles anos, vi-o, depois, desafiando o infortúnio e buscando forças no espírito, pelejando contra o destino, mas não esquecendo que o mais importante é “a graça da vida”.

Comecei a escrever citando o Livro de Jó. Este não sucumbiu à tentação de amaldiçoar o sofrimento, blasfemar contra Deus, odiar seus inimigos. O destino o feriu de todas as maneiras, mas ele resistiu porque era “sincero, reto e temente a Deus”.

Mário Covas nos deu exemplo de uma grande lição. E mais vale ensinar pelo exemplo do que pelas palavras.


“Vende-se” e “Aluga-se”

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Passei o mês de julho no Maranhão. Na rotina de matar saudades, revisitar amigos e conviver com a gente do povo, muita gente nova e poucos do meu tempo, desta geração que já está no caminho dos versos de Raimundo Correa, no célebre Soneto das Pombas, em que fala dos sonhos da mocidade e diz que “aos pombais as pombas voltam / e eles (os sonhos) aos corações não voltam mais”.
Mas meus incorrigíveis amor e preocupação pelas coisas do Maranhão não cessam de entusiasmar-me e nem tiram a força de indignar-me. Encontro o Maranhão com medo, não só o medo da insegurança como da matança que se verifica a cada fim de semana — só nas duas últimas semanas 16 mortos —, mais o medo das perseguições, das demissões em massa, da caça às bruxas e das perseguições que atingem funcionários, comerciantes, criadores, num clima de delação para abrir vagas e ocupar lugares. O temor do arbítrio, do autoritarismo, da raiva, da embriaguez que não é só do poder, mas da vingança.

O Maranhão sempre foi um Estado que respeitou a convivência e onde nunca houve clima de retaliações, nem de perseguição por posição política ou cerceamento da liberdade de opinião.
Tenho autoridade para falar sobre isso.

Tive adversários implacáveis que foram cruéis nos ataques e nas calúnias e injúrias sobre a minha pessoa, mas não posso acusá-los de perseguir outras pessoas por ser meu amigo ou eleitor. Eu fui Governador no tempo da ditadura militar, tinha em minhas mãos poderes absolutos de demitir, aposentar, propor cassações e usar o poder da polícia e do fisco para perseguir comerciantes e castigar por ódio, inveja, ideologia ou simpatia quem quer que fosse. Mas não cassei ninguém, não demiti nem persegui quem quer que fosse. Por isso a anistia não teve aplicação aqui contra qualquer ato do poder estadual — ninguém fora atingido. Não tenho inimigos e todos que se apresentaram para o ser foram por mim recusados. Não aceito inimigos e sim adversários, assim mesmo usando o direito de não permitir a entrada de voluntários nesse rol.

Mas todo esse clima que existe hoje mostra a falta de esperança do povo, que vive e sabe como era diferente nossa vida. Havia um clima de progresso, de grandes construções, do despertar o Maranhão como destino de investimentos, da visita diária de empresários nacionais.

Agora parou tudo.
O governo comunista todos sabem que não suporta empresários nem empreendedores e a todos quer asfixiar pelas ideias do Estado senhor de tudo. A Lei de Incentivos Culturais, como exemplo, deixou de ser para incentivar escritores e a cultura e se transformou numa fonte de recursos para promover o governo com festivais mixurucas; e as firmas perderam o direito de escolher a quem financiar. Só o governo escolhe e com procedimentos indevidos e lamentáveis.

O crescimento de PIB (produto interno bruto, em que se avalia as riquezas produzidas) diminuiu. Só o Maranhão, no Nordeste, teve a taxa de emprego reduzida, aumentou o desemprego — os comunistas não se incomodam.

Estão inaugurando até postes e bancos de pracinhas. O programa do leite prometido acabou, nem existe cesta básica para aliviar a fome do povo, nesse tempo de recessão em que vive o Brasil.
O Maranhão perdeu força nacional, desapareceu da República. Contam que aqui só um negócio está prosperando: a fabricação de placas com os dizeres “VENDE-SE” e “ALUGA-SE”. A cidade está cheia delas.


Vieira, 300 anos

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Há 320 anos, em julho de 1697, morria, em Salvador, Bahia, o padre Antonio Vieira.

A carta do padre Andreoni, comunicando o seu desaparecimento ao superior dos jesuítas, diz que foi “na primeira hora depois da meia-noite”, “adormeceu tranquilamente”. Informa, ainda, que estava com 90 anos e “com grande conformidade”, pois Deus tirara-lhe dois consolos: “da sua biblioteca” e “do retiro de sua capela (…) onde não podia demorar-se senão às escondidas, por causa do intolerável ardor e do penosíssimo incômodo da urina”.

Lembra o padre Andreoni que a dor de sua morte era a lembrança de sua vida, “passada principalmente na missão do Maranhão e nas longas e frequentes navegações que empreendera pela libertação e salvação dos índios”.

Usa-se, muitas vezes, a expressão generosa para alguns mortos de que “não morrerão jamais”. Mas morrem. Poucos os que desfrutam da vida depois da morte, da eternidade. Enquanto existir a língua portuguesa, Vieira existirá como o maior monumento de sua expressão barroca, em que se conjugaram a ação e a palavra. Vieira é o maior orador sacro da Igreja Católica.

Ninguém lhe excedeu no volume das obras, na profundidade dos seus sermões, na riqueza dos milhares de cartas que escreveu e na sua vida de pregador, evangelizador e homem de ação. Enfrentou reis, capitães-mores, desafetos, superiores eclesiásticos, a própria Inquisição, os mares, as florestas, as amarguras para levar o Evangelho e defender os índios contra a escravização. “Se eu torcesse minha batina, em vez de suor sairia sangue”, disse ele, e “a desgraça desta região (o Brasil) é causada pela injustiça e sofrimento impostos aos índios”.

Esse padre tinha a língua de fogo. Sua palavra queimava. Seu sermão pelo “Bom sucesso das nossas armas” é, sem dúvida, uma das mais altas manifestações literárias do gênero humano.
Ali, ele estabelece um diálogo com Deus e com ele argumenta: “Lembrai-vos, senhor, do vosso testamento, lembrai-vos de vossas promessas”. Esse Vieira que diria que não vem pedir pedindo, mas protestando e argumentando.

Na Missão do Maranhão ele passou nove anos. Muitas vezes fustigou os que mandavam (“Os príncipes sempre têm quem sirva mais depressa aos seus apetites que à sua honra”). Mas, em uma carta, indagado onde queria morrer, disse que era no Maranhão. Nossas igrejas estão cheias, dia e noite, do seu fantasma. Como não se sabe exatamente como eram e em que púlpito pregou, ele está em todas.

Mas há um lugar sagrado, um chão de terra batida, onde descobrimos o altar-mor na antiga igreja de Nossa Senhora das Mercês, ao lado do convento, hoje restaurado, que abriga a Fundação da Memória Republicana e o Memorial Sarney. Ali, é o único lugar em que se tem certeza que Vieira pregou no Maranhão, pois, na inauguração da igreja, há muito desaparecida, ele proferiu o famoso “Sermão de são Pedro Nolasco”, inaugurando o tempo, e lá profetizou: “Aqui tragamos nossos memoriais”. Esse memorial ali está, com a presença de Vieira.

O mesmo Vieira que, levado ao tribunal da Inquisição, tratou os seus juízes de “equíssimos doutores”. Chamado a atenção, esclareceu que não era de “equus” (cavalos, éguas), mas de equidade!…