Recordações de minha infância (I)

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Há momentos em minha vida, que fico lembrando da minha infância e do meu convívio com moradores da Avenida General Gurjão, no centro de Macapá. Gerado na cidade de Mazaganópolis, onde meu pai Francisco Torquato de Araújo era prefeito, ali vivi de maio de 1944 a abril de 1946, ocasião em que meu genitor decidiu solicitar exoneração do cargo e foi cuidas dos seus empreendimentos comerciais na região das Ilhas do Pará. Fixamos morada no “Reduto do Rio Furo Seco, cuja foz fica na margem esquerda do canal norte do rio Amazonas em frente a entrada do rio Mutuacá, mais conhecido como Mazagão Velho. Em dezembro de 1948, eu estava caminhando para completar 4 anos de idade, quando meu pai comprou um imóvel bem construído pelo empreiteiro João Pernambuco e decidiu transferir a família para Macapá. Ainda hoje tenho duas irmãs que residem na via pública acima mencionada, nº 171, entre as Ruas São José e a Tiradentes.
O cenário era muito diferente dos dias atuais. Quase todas as casas eram erigidas em taipa de mão, posicionadas nas duas laterais da General Gurjão.Umas ocupavam terrenos longos. Outras quase não tinham quintal. No trecho citado diversos imóveis estavam abandonados, quase em ruínas. Quando comecei a ter noção das coisas da vida, ainda entrei em alguns deles, sem pensar o quanto deve ter sido penoso seus ocupantes baterem em retirada. Nem todos os residentes da Avenida General Gurjão eram de Macapá, mas estavam bem confortáveis no seio da comunidade macapaense.A partir da Rua Cândido Mendes, no sentido do Cemitério Nossa Senhora da Conceição, relembro da casa do senhor Luiz Pires da Costa, proprietário da “Casa das Cordas”, cidadão português egresso de Manaus, que casou em Macapá com Lina de Matos, integrante de tradicionalíssima família local.

O casal havia morado bem perto da margem direita do rio Amazonas, ocupando área que o governo territorial do Amapá desapropriou para melhorar o aspecto da frente da cidade e construir o Macapá Hotel. Depois da Casa das Cordas existiam quatro residências geminadas feitas em taipa. Uma delas abrigou por muito tempo a Escola Municipal de Macapá. Onde estão eretos os prédios da Embratel e uma residência pertencente à Companhia de Eletricidade do Amapá, existiu uma espécie de pracinha, sendo possível trafegar por ela, entre as avenidas General Gurjão e Cora de Carvalho.Isso, antes da criação do Território Federal do Amapá. Com a implantação da nova unidade federada, o governo utilizou o amplo espaço para edificar a Garagem Territorial e a Usina de Força e Luz. A partir da usina recordo o aspecto da humilde habitação do casal Adão e Eva, vizinhos dos macapaenses Emanuel Serra e Silva e Antônia Picanço e Silva, conhecidos como Duca Serra ou Minduca e Antonica. Minduca era pequeno comerciante e já havia trabalhado no Serviço Especial de Saúde Pública-SESP, como “mata mosquito”. Vinha a seguir o “Café Moeda”, local preferido pelos funcionários da Garagem Territorial e da Usina de Força e Luz.Seu proprietário era o senhor Antônio Pinheiro Sampaio, rotulado como “Seu Moeda” e casado com Antônia Silva Sampaio. Passando um terreno sem construção alguma vinha a “Pensão Sempre Viva”, gerenciada pela Madame Nenem Veríssimo e por sua filha Maria do Carmo.

A pensão integrava um bloco de casas geminadas composto por três unidades, às duas últimas pertencentes à Dona América Tavares e ao casal Herádito de Azevedo Coutinho (Ditinho) e Raimunda Coutinho (Dica). A Rua São José separava esse conjunto de uma edificação muito antiga, feita em taipa de pilão, com paredes bem grossas. Ali tinha funcionado a Cadeia Pública da Vila e da Cidade paraense de Macapá. Sua ocupante era Dona Mariinha tendo como co-habitantes o barbeiro Jorge Modesto e sua esposa Nilza, seu Jayme e dona Benedita (Biló). Diziam que o local era mal assombrado e que as almas dos que morreram no poço seco escavado em uma das celas gemiam e arrastavam correntes. Tudo fantasia. Rente a Cadeia morava João Barca e Raimunda Coutinho(Dica) compadres de meus pais Francisco Torquato e Olga Montoril.


Ações governamentais no interior

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Ao iniciar sua gestão como governador do território federal do Amapá, a 25 de janeiro de 1944, o capitão Janary Gentil Nunes precisou contar com o apoio de uma valorosa equipe para poder mudar o cenário decadente que a região correspondente à nova unidade federada apresentava. Se na capital o estado sanitário era deprimente, no interior a realidade revelava um abandono absoluto, notadamente na área compreendida entre o arquipélago do Bailique e a margem direita do rio Oiapoque.

A cidade de Amapá e o povoado e Oiapoque, por exemplo, só podiam ser alcançada por via marítima, aérea e fluvial. Mesmo assim. Antes de meados do ano de 1945, o governo recorreu aos préstimos de proprietários de embarcações para visitar pontos afastados da sede administrativa. Uma vez por semana, aos sábados um avião do Correio Aéreo Nacional-CAN, vindo do Rio de Janeiro, pousava em Macapá, Base Aérea de Amapá e Oiapoque, estendendo seu vôo até Caiena. Nestas ocasiões cargas importantes e trabalhadores eram transportados.

A estrada de rodagem Macapá/Clevelandia sequer passava do quilômetro 25, entrada pata a região do rio Pedreira. Nos dias que antecederam o final do mês de junho de 1945, quando o governo já havia criado o Serviço de Transportes Marítimos e contava com alguns iates, entre eles o Itaguary, Janary Nunes convocou alguns membros de sua equipe para empreender uma importante viagem à região norte do Território do Amapá. A visita seria de inspeção aos serviços públicos e levantamento das necessidades vitais dos interioranos. Todas as providências foram tomadas com a antecedência necessária. A bordo do iate Itaguary foram colocadas carteiras escolares, material didático, medicamentos, gêneros alimentícios, aparelhagem cinematográfica, redes, mosquiteiros, combustíveis. Além da tripulação, comandada pelo mestre Idalino Oliveira, encontravam-se embarcados enfermeiros, professoras e alguns operários.

O Iate Itaguary antecedeu a viagem da comitiva governamental e foi aguardá-la em Oiapoque. No dia 30 de junho, uma quinta-feira, a comitiva governamental embarcou em um aparelho do Correio Aéreo Nacional com destino à fronteira norte do Brasil. Acompanharam o governador: o capitão Humberto Pinheiro de Vasconcelos Diretor da Divisão de Segurança e Guarda e comandante da Guarda Territorial; o engenheiro Hildegardo Nunes, Diretor da Divisão de Viação e Obras Públicas; o agrônomo Arthur de Miranda Bastos, diretor da Divisão de Produção e Pesquisa e o médico Célio Melo,representando a Divisão de Saúde. Ao chegarem ao Oiapoque, os excursionistas embarcaram no iate Itaguary, onde ficaram instalados. Na manhã do dia 1º de julho foi empossado o primeiro prefeito do município de Oiapoque, senhor Amadeu Burlamaque Simões. Em seguida, a embarcação seguiu para Clevelândia do Norte, aldeia dos índios Galibis, no rio Uaçá, propriedades da senhora Quity Guarany, do casal Jacynto Santos, casal Amaral, senhor Antônio Abreu e Ponta dos Índios. No Uaçá foi conhecido o trabalho que o Serviço de Proteção aos Índios vinha realizando. Os silvícolas receberam a assistência de que precisavam para produzir e vender seus produtos agrícolas. Seus filhos dispunham de um internato que, instalado a pouco tempo, prometia ser eficiente.

O Serviço de Proteção aos Índios estava sob o controle do inspetor Eurico Fernandes. Dia 4 de julho os excursionistas atracaram na cidade de Oiapoque, pela madrugada. Durante o dia o governador atendeu dirigentes locais e comunitários. À noite, a comitiva jantou na residência do casal Becil e participou de um baile na sede do Oiapoque Clube. Na tarde do dia 6 de julho, o Itaguary deixou Oiapoque, entrou nos rios Cassiporé e Jenipapo indo até Vila Velha. Concluído os trabalhos, o belo iate voltou a costear o litoral e, dia 8 atracava na propriedade do senhor Raul Nascimento, no Cunani. Dia 9 seguiu para a Vila de Calçoene e dia 10 atracava no trapiche da cidade de Amapá, ali permanecendo até dia 12. O governador Janary Nunes e seus diretores deslocaram-se até a Base Aérea, retornando a Macapá em avião dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul.


Soldados do fogo

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Desde a antiguidade, o homem se preocupou em combater e extinguir incêndios. Na Grécia e em Roma, os soldados que montavam vigilância em pontos elevados tinham a missão de dar o alarme quando sinais de fogo eram observados. Usavam-se baldes e outros recipientes similares para transportar água e o voluntarismo imperava. Na França surgiu uma das primeiras turmas com organização militar denominada “Companhia dos Sessenta Guarda Baldes”, que serviu de modelo para outros países. No Brasil, até o dia 2 de julho de 1856, a cidade do Rio de Janeiro, sede do Império, existiu o Serviço de Extinção de Incêndios, compreendendo seções instaladas  nos Arsenais de Guerra da Marinha, Repartições de Obras Públicas e das Casas de Correções. Na data acima mencionada, o Imperador D. Pedro II baixou o Decreto nº 1.175, extinguindo a instituição anterior, criando e regulamentando o Corpo Provisório de Bombeiros da Corte, cujo primeiro comandante foi o major do corpo de engenharia João Batista de Castro Morais Antas. Em 1880, a corporação passou a ter organização militar e, foram concedidos postos e insígnias aos seis componentes. Com o passar do tempo, equipamentos mais sofisticados foram utilizados, inclusive viaturas mecanizadas. Possuía o Corpo de Bombeiros da Corte, daquela época, 15 bombas manuais, 73 mangueiras de couro, 23 mangotes, 2 sacos de salvação e 240 palmos de mangueiras em depósito.

Os incêndios eram assinalados por três tiros de artilharia de grosso calibre, disparados do Morro do Castelo, com intervalos de cinco minutos e pelo toque do sino grande da Igreja de São Francisco de Paulo e da matriz da freguesia onde ocorria o incêndio. Durante o sinistro permaneceria içada uma bandeira vermelha no mastro do Morro do Castelo, sendo essa flâmula substituída à noite por uma lanterna da mesma cor. O badalar dos sinos obedecia a uma convenção especial. Um certo número de badaladas do sino da Igreja de São Francisco correspondia à freguesia onde o fogo ocorria. A primeira pessoa que transmitisse o aviso de fogo, com as necessárias indicações, à policia ou a um posto de bombeiros, era premiada com uma gratificação correspondente à importância do aviso.

Os proprietários ou condutores de veículos com tração animal eram obrigados a entregá-los aos bombeiros e a emprestar os serviços que lhes fossem exigidos. Os mestres-de-obras tinham de fornecer as ferramentas que possuíssem e as autoridades policiais tinham o direito de requisitar archotes, velas, etc, nas respectivas casas do ramo, se isso se tornasse preciso nos serviços de extinção do fogo. Todas essas requisições eram pagas à vista pelos preços normais, na Repartição de Policia, bom como o aluguel dos veículos e animais porventura utilizados. Em 1954, através do Decreto nº 35.309, o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas instituiu a data de 2 de julho como dia do Bombeiro.

Em Macapá, a partir de 1944, quando foi instalado o governo do Território Federal do Amapá, a ocorrência de um incêndio mobilizava voluntários no seio da comunidade. Baldes de alumínio e latas vazias de querosene e gasolina serviam para captar água de poço, haja vista que não existia água encanada na cidade. Com a criação da Guarda Territorial, o serviço de combate a incêndios lhe foi atribuído, mas todo o equipamento existente era muito precário. A população tomava conhecimento da ocorrência de incêndio através da sirene instalada no alto do prédio da Usina de Força e Luz, inaugurado em setembro de 1945. Foi assim durante um bom período de tempo, até que inventaram de fazer a sirene soar quando um avião sobrevoava Macapá trazendo alguma importante autoridade, principalmente o governador. A cidade de Macapá, que hoje possui um operoso Corpo de Bombeiros passou por maus momentos com pavorosos incêndios.

O embrião da instituição tem origem na Guarda Territorial, com estágio na Prefeitura Municipal de Macapá e na Policia Militar. Em 1992, o antigo Grupamento de Bombeiros ganhou autonomia. Dentre os incêndios que chocaram a comunidade lembramos: o belo iate Itaguary, barris de asfalto depositados atrás da Fortaleza, as duas alas do comércio de Macapá situadas na Rua Cândido Mendes.


O Forte Príncipe da Beira

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A preocupação dos portugueses em atingir o Amazonas teve início a partir de 1614, quando Portugal estava sob domínio espanhol. Isso facilitou as ações dos lusitanos, haja vista que as terras do vale amazônico pertenciam à Espanha, conforme estabelecia o Tratado de Tordesilhas. A empreitada envolveu militares, religiosos e colonos. Uma rede de fortificações, que começou com os estabelecimentos que defendiam Belém, estendeu-se pelo interior e cobriu a fronteira. Entre as principais posições armadas se destaca o Forte Príncipe da Beira, erguido na Amazônia Oriental. Relatos feitos pelo explorador castelhano Nuflo Chaves sobre o Vale do Guaporé foram úteis aos portugueses, notadamente a Antonio Raposo Tavares, que, descendo o Paraná alcança os rios Guaporé, Mamoré e Amazonas, em 1647.

Foi a primeira bandeira a tomar conhecimento das cachoeiras e corredeiras do rio Madeira. Através dela, foi incorporada à zona de influência da Coroa portuguesa, toda a região Oeste e se vislumbrou a possibilidade de uma ligação fluvial entre São Paulo e o Amazonas. Em 1722, quando Portugal já havia reconquistado sua soberania, Francisco de Melo Palheta, partindo de Belém, atingiu os rios Madeira, Mamoré e Guaporé, chegando a Santa Cruz de La Sierra, reduto espanhol. Em 1748, o rei de Portugal dividiu a província de São Paulo em duas partes e deu o nome à segunda parte de Província de Mato Grosso. Nomeou como Presidente o capitão-general Antônio Rolim de Moura. Os espanhóis protestavam contra as atitudes dos lusitanos, alegando que as terras da Amazônia eram da Espanha.Porém, em 1750, quando foi firmado o Tratado de Limites, entre Espanha e Portugal, acertara-se que haveria paz permanente entre os súditos das duas coroas, independentemente das violações praticadas na planície Amazônica.Adotava-se, na ocasião, o principio jurídico UTI POSSEDETIS, que assegurava aos portugueses a posse mansa e pacifica, ou ocupação real das terras ocupadas. Embora concordando com isso, porque a decisão impediria Portugal a ir além dos pontos conquistados, os castelhanos procuraram, por força das armas, impedirem a validade da medida. Desde 1743, havia na margem esquerda do rio Guaporé, portanto em terras espanholas, uma redução jesuítica que o Padre Atanázio Teodori denominara de Aldeia de Santa Rosa. Ao tomar conhecimento dos termos do Tratado de 1750, o sacerdote, em sinal de protesto, mudou-a para a margem direita do rio. Em 1753, partindo de Vila Bela, fundada pelos lusos, Rolim de Moura atacou Missão Santa Rosa e fundou no local o povoado de “Guarda de Santa Rosa Velha”.Outros entreveros aconteceram. Em 1769, sendo Presidente da Província de Mato Grosso Luis Pinto Coutinho, foi inaugurado o fortim Bragança, cujas obras tinham sido iniciadas na gestão de João Pedro da Câmara,sobrinho de Rolim de Moura.Em 1772, uma enxurrada destruiu o fortim.Em 1776.

O governado do Grão Pará Luiz Albuquerque de Melo Pereira e Cárceres foram ao local do desmoronado fortim Bragança, escolhendo outro espaço para a ereção de um novo forte. Assim, dia 20.6. 1776, na margem oriental do rio Guaporé, era lançada a pedra fundamental do Forte Príncipe da Beira, sob a direção do engenheiro Domingos Sambuceti, que já havia atuado na construção da Fortaleza de São José, em Macapá. O projeto compreende um quadrado de 970 metros de perímetro, muralhas com 10 metros de altura e quatro baluartes (Nossa Senhora, Santa Bárbara, Santo Antônio de Pádua e Santo Avelino), cada um armado com 14 canhões, 14 edificações no pátio central, em tudo igual a Fortaleza de Macapá. A denominação do forte é uma homenagem a D. José de Bragança, príncipe do Brasil e da Beira.

A edificação ocorreu entre 1776 e 1883. Ficou muito tempo escondido pela mata, pilhado por bolivianos e aventureiros. O Marechal Cândido Rondon o localizou e o Exército Imediatamente passou a ocupá-lo. É um belo monumento da cidade de Guajará-Mirim, no município de Costa Marques, Estado de Rondônia. O Forte Príncipe da Beira foi tombado pelo IPHAN, em 30.11.1937, 13 anos antes do tombamento da Fortaleza de Macapá.