Soldados do fogo

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Desde a antiguidade, o homem se preocupou em combater e extinguir incêndios. Na Grécia e em Roma, os soldados que montavam vigilância em pontos elevados tinham a missão de dar o alarme quando sinais de fogo eram observados. Usavam-se baldes e outros recipientes similares para transportar água e o voluntarismo imperava. Na França surgiu uma das primeiras turmas com organização militar denominada “Companhia dos Sessenta Guarda Baldes”, que serviu de modelo para outros países.

No Brasil, até o dia 2 de julho de 1856, a cidade do Rio de Janeiro, sede do Império, existiu o Serviço de Extinção de Incêndios, compreendendo seções instaladas nos Arsenais de Guerra da Marinha, Repartições de Obras Públicas e das Casas de Correções. Na data acima mencionada, o Imperador D. Pedro II baixou o Decreto nº 1.175, extinguindo a instituição anterior, criando e regulamentando o Corpo Provisório de Bombeiros da Corte, cujo primeiro comandante foi o major do corpo de engenharia João Batista de Castro Morais Antas. Em 1880, a corporação passou a ter organização militar e, foram concedidos postos e insígnias aos seis componentes. Com o passar do tempo, equipamentos mais sofisticados foram utilizados, inclusive viaturas mecanizadas. Possuía o Corpo de Bombeiros da Corte, daquela época, 15 bombas manuais, 73 mangueiras de couro, 23 mangotes, 2 sacos de salvação e 240 palmos de mangueiras em depósito.

Os incêndios eram assinalados por três tiros de artilharia de grosso calibre, disparados do Morro do Castelo, com intervalos de cinco minutos e pelo toque do sino grande da Igreja de São Francisco de Paulo e da matriz da freguesia onde ocorria o incêndio. Durante o sinistro permaneceria içada uma bandeira vermelha no mastro do Morro do Castelo, sendo essa flâmula substituída à noite por uma lanterna da mesma cor. O badalar dos sinos obedecia a uma convenção especial. Um certo número de badaladas do sino da Igreja de São Francisco correspondia à freguesia onde o fogo ocorria.
A primeira pessoa que transmitisse o aviso de fogo, com as necessárias indicações, à policia ou a um posto de bombeiros, era premiada com uma gratificação correspondente à importância do aviso. Os proprietários ou condutores de veículos com tração animal eram obrigados a entregá-los aos bombeiros e a emprestar os serviços que lhes fossem exigidos. Os mestres-de-obras tinham de fornecer as ferramentas que possuíssem e as autoridades policiais tinham o direito de requisitar archotes, velas, etc, nas respectivas casas do ramo, se isso se tornasse preciso nos serviços de extinção do fogo. Todas essas requisições eram pagas à vista pelos preços normais, na Repartição de Policia, bom como o aluguel dos veículos e animais porventura utilizados. Em 1954, através do Decreto nº 35.309, o Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas instituiu a data de 2 de julho como dia do Bombeiro. Em Macapá, a partir de 1944, quando foi instalado o governo do Território Federal do Amapá, a ocorrência de um incêndio mobilizava voluntários no seio da comunidade. Baldes de alumínio e latas vazias de querosene e gasolina serviam para captar água de poço, haja vista que não existia água encanada na cidade. Com a criação da Guarda Territorial, o serviço de combate a incêndios lhe foi atribuído, mas todo o equipamento existente era muito precário. A população tomava conhecimento da ocorrência de incêndio através da sirene instalada no alto do prédio da Usina de Força e Luz, inaugurado em setembro de 1945. Foi assim durante um bom período de tempo, até que inventaram de fazer a sirene soar quando um avião sobrevoava Macapá trazendo alguma importante autoridade, principalmente o governador.

A cidade de Macapá, que hoje possui um operoso Corpo de Bombeiros passou por maus momentos com pavorosos incêndios. O embrião da instituição tem origem na Guarda Territorial, com estágio na Prefeitura Municipal de Macapá e na Policia Militar. Em 1992, o antigo Grupamento de Bombeiros ganhou autonomia. Dentre os incêndios que chocaram a comunidade lembramos: o belo iate Itaguary, barris de asfalto depositados atrás da Fortaleza, as duas alas do comércio de Macapá situadas na Rua Cândido Mendes.


No Amapá também ocorre abalo sismico

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O brasileiro costuma dizer que o Brasil é um país abençoado por Deus. Também comete o sacrilégio de dizer que Deus é brasileiro. A qual Deus o brasileiro se refere? Os mais esclarecidos afirmam que Deus, seja qual for a religião, não tem nada a ver com as desgraças que ocorrem no mundo. O planeta Terra está em permanente transformação. Cabe ao ser humano saber conviver com as mudanças, prevê-las, modificá-las, evitá-las e até mesmo minimizar os seus efeitos.
Enganamo-nos em pensar que tremores de terra só acontecem em outros recantos da Terra. Precisamos ter em mente que existe o tectonismo, ou seja, o processo de deformação da crosta terrestre pela formação dos continentes, baias oceânicas, platôs, montanhas, dobras e demais forças internas. As movimentações tectônicas são suficientes para modificar ou alterar a textura original. Tectônica, em grego tektomikés significa “arte de construir” e a natureza é uma grande construtora. Os continentes existentes no globo terrestre nem sempre apresentaram as configurações atuais. Eles não estão presos a um ponto fixo, mas sim flutuam sobre o magma. Qualquer alteração do magma mexe com os blocos continentais. O magma, do grego, magma, compreende uma massa natural fluida, ígnea, de origem profunda, e que, ao esfriar-se, se solidifica, originando a rocha magmática. Todas as vezes que o magma se movimenta os efeitos são sentidos na litosfera, que é a parte externa consolidada da Terra, comumente chamada crosta da Terra. Os efeitos correspondem a sismos, vocábulo grego seismós, que quer dizer abalo. Sismo é o movimento interior da terra, o qual, conforme a localização de sua origem pode produzir ondas mais ou menos intensas, e capazes de se propagar pelo globo.
Segundo registros existentes no Observatório de Metodologia, sediado no Rio de Janeiro, cinco abalos sísmicos já ocorreram na área atual Estado do Amapá.

O primeiro data de 1 de março de 1926 e o segundo de 6 de maio de 1933. Na época o Estado do Pará tinha Jurisdição sobre as terras atingidas e que hoje pertencem ao Município de Oiapoque. Em 1926, existia ali uma população que não excedia a 1.500 almas, a maioria constituída de presos políticos e condenados de Justiça. Os imóveis eram poucos, prevalecendo o uso de madeira na edificação. Em 1933, o vazio demográfico era bem maior.

A falta de um arquivo público no Amapá prejudica qualquer pesquisa que se refira aos dois feitos. Em 1947, precisamente no dia 17 de setembro, deu-se o terceiro abalo sísmico. O jornal “Amapá”, impresso pelo Governo do Território Federal do Amapá, registrou o acontecimento na edição nº237, 3ª página. O Prefeito do Município de Oiapoque, Sr. Roque de Souza Pennafort, comunicou, via telégrafo, ao Governador do Território, interino, Dr. Raul Montero Valdez, que “um forte tremor de terras sacudiu a cidade de Oiapoque, a Vila Militar de Clevelândia, a localidade de Ponta dos Índios e da cidade francesa de Saint George, na Guiana Francesa. O abalo sísmico começou às 2 horas da madrugada e perdurou por 1 minuto e trinta segundos, sendo acompanhado de rumor semelhante ao de um trovão. Os vidros das janelas quebraram e quem dormia em rede correu assustado para a rua.” O Prefeito não tinha como medir a intensidade do abalo.

No dia 24 de abril de 1951, aconteceu o quarto sismo na região do Oiapoque. Roque de Souza Pennafort ainda ocupava o cargo de Prefeito, sendo também o telegrafista local. Imediatamente, ele passou um telegrama ao Governador Janary Gentil Nunes, nos seguintes termos: “Às 21 horas, foi sentido na cidade de Oiapoque, um tremor de terra, cuja duração mais forte chegou a um minuto, sem causar danos físicos aos moradores, mas deixando-os bastante assustados”. A exemplo do abalo sísmico de 17 de setembro de 1949, este último teve fases de intensidade crescente e decrescente e diversas habitações sofreram avarias. O fato foi com comunicado pelo Governador Janary Nunes ao observatório de Meteorologia, que registrou o abalo como tendo atingido 4.3 pontos na escala Richter. Os demais foram considerados do tipo 3.Embora não tenha havido registro oficial, consta que, no mesmo dia a terra também tremeu em Macapá, fazendo muita gente correr para a igreja de São José, a única da cidade.

Em 2 de agosto de 1997, um tremor de terras de baixa intensidade foi sentido em Macapá, assustando as pessoas que se encontravam nos prédios do Centro Cívico Administrativo, Hospital de Pediatria, Hospital Geral de Macapá, Maternidade Mãe Luzia, Colégio Comercial do Amapá, Assembléia Legislativa, Secretaria de Educação e residências edificadas na área. Diversos jornais de Macapá publicaram o acontecido. No último dia 29 de novembro de 2007, uma quinta-feira, às 16h 30 minutos, um terremoto que teve como epicentro o mar do Caribe, a 14 km da Ilha de Martinica sentido no Estado do Amapá, em Belém, na Ilha de Marajó (Pará), em Roraima e no Amazonas. Macapá e Laranjal do Jarí também foram atingidos provocando medo a muita gente. Quem estava em prédios na zona comercial de Macapá procurou deixá-los e ganhar as ruas. Pânico e susto levaram clientes do Banco do Brasil a retirar-se da agência. No vale do rio Jarí, a maior intensidade aconteceu em Munguba, distrito de Monte Dourado.A intensidade do abalo foi superior a 7 pontos na escala Richter.

Em 2005, neste mesmo período, os sismógrafos registraram outro tremor de terras em Macapá, de baixa intensidade e imperceptível pela população. Uma grande indagação desponta neste momento: estamos preparados para conviver com um abalo que provoque desmoronamento de prédios?


São José, patrono universal da igreja

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José, filho de Jacó e neto de Matam, nasceu em Belém da Judéia, no século I antes de Cristo. Pertencia à tribo de Judá e descendia do rei Davi de Israel. Era viúvo quando desposou Maria. Sua idade girava em torno de 54 anos, enquanto Maria ainda vivia sua adolescência. José gerou duas filhas e quatro filhos com sua primeira esposa e com essa prole foi viver com a jovem eleita para ser a mãe de Jesus Cristo. Os filhos homens de José eram: Tiago, José, Simão e Judá.

Eles conviveram intensamente com Jesus até constituírem suas famílias e o Divino Mestre iniciou suas pregações. Nenhum deles foi apóstolo. Maria passou sua infância no Templo de Jerusalém, sendo uma das jovens consagradas a Deus. Ela e as demais virgens foram preparadas para ser esposas dedicadas, tementes a Deus. Todas sabiam que uma delas poderia ser a escolhida para, por obra e graça do Espírito Santo gerar o Filho de Deus. Seguindo o costume hebraico, os casamentos eram previamente acertados entre os membros das tribos que compunham as tribos de Israel. José e Maria eram integrantes da tribo de Davi. Como José já estava viúvo quando Maria alcançou a idade de casar, o carpinteiro lhe foi dado como esposo. Conta-se que Maria não quis deixar o templo ao atingir a idade de casar. Os anciãos do Tempo oraram por instruções divinas e uma voz disse que o marido de Maria sairia dentre os homens solteiros que fossem ao Templo e ali deixassem seus cajados durante a noite. O eleito seria o dono do cajado que amanhecesse coberto de flores.

Muitos pretendentes assim procederam, mas nenhuma novidade ocorreu. Idêntica oportunidade foi concedida aos viúvos e José decidiu levar seu cajado ao Templo. Pela manhã o cajado de José estava coberto de lírios, o símbolo da pureza e da retidão. Contratado o casamento, José esperou o momento exato para conviver com Maria. Antes que isso acontecesse o Arcanjo Gabriel apareceu a Maria para comunicar-lhe que ela seria a mãe de Jesus. Entretanto, Gabriel só apareceu a José quando ele já havia descoberto que Maria estava grávida e eles nunca tinham coabitado. Como era um homem muito reservado e experiente, José afastou-se de Maria, mas não fez alarde de que não era o pai da criança que Maria estava gerando. José manteve em segredo sua desilusão. Se tivesse tornado público o ocorrido, certamente Maria teria sido lapidada, porque assim deviam ser punidas as adúlteras. Essa punição está contida no Deuteranômio, um dos livros sagrados que formam a Bíblia. A lapidação consistia em apedrejamento público da mulher que o homem rejeitasse por traição. As sagradas escrituras tratam da vinda do Messias e os judeus praticantes do judaísmo sabiam disso. José tinha ampla consciência de que seria um protetor para Maria e para o fruto que seria gerado em seu ventre. Como homem justo que exercia uma profissão capaz assegurar o sustento da família, José passou à História como o pai nutricio do Divino Mestre.

José sempre dedicou especial atenção a Jesus no decorrer da infância do Salvador. Lucas se encarregou de deixar isso bem evidente no evangelho que escreveu. Mateus fala dos pontos de vista de José. A última menção feita a José nas Sagradas escrituras é quando o carpinteiro procura por Jesus no Templo de Jerusalém e o encontra discutindo a doutrina do judaísmo com os anciãos. Acredita-se que José já tivesse morrido quando Jesus foi crucificado.

A veneração dos cristãos a São José começou a se espalhar a partir do século quinze. Antes disso o protetor terreno do Divino Mestre pouco era lembrado. Tinha maior acatamento outro José, filho de Jacó e Raquel que se encheu de glórias como um Zaphnath (descobridor das coisas ocultas), no Egito. Este personagem era conhecido como São José do Egito. A história deste José está contada no Gênese, um dos livros do Pentateuco. Sua vinda ao mundo é considerada uma graça de Deus porque Raquel era estéril. Mesmo sem ser o primogênito, José era o filho preferido de Jacó, fato que levou os irmãos a odiá-lo. Numa viagem ao Egito eles o venderam como escravo a mercadores ismaelitas por 20 moedas (shequel) de prata. Levado ao Egito, José foi comprado por Potifar, que era oficial e capitão da guarda do faraó. Por ser um belo rapaz, José era assediado pela mulher de Potifar a qual rejeitava por respeito a seus princípios religiosos. Sentindo-se humilhada, a mulher do oficial disse ao marido que José vivia tentando seduzi-la. José foi preso e entre os demais prisioneiros revelou-se excelente intérprete de sonhos.

Certa vez interpretou o sonho do Faraó livrando o império egípcio de sete anos de tormentos. Ganhou destaque na corte sem tornar-se arrogante. Era um homem bom e justo. O José carpinteiro sempre foi humilde e resignado. Somente a partir do ano de 1749 a Igreja Católica incluiu seu nome no Calendário Romano fixando a data da sua festa em 19 de março. São Francisco de Assis e Santa Teresa d’Ávila ajudaram a espalhar a devoção. Em 1870, o Papa Pio IX declarou São José Patrono Universal da Igreja Católica Apostólica Romana. O Papa Benedito XV o declarou patrono da Justiça Social. Em 1955, o Papa Pio XII estabeleceu uma segunda festa para São José, a festa de “São José Trabalhador” a ser celebrada no dia 1º de maio, dia do trabalho. Na arte litúrgica da Igreja, São José é mostrado como um homem velho com um ramo de lírio na mão direita e o menino Jesus sentado em seu braço esquerdo. Ele também é retratado realizando seu trabalho de carpinteiro e ensinando o oficio a Jesus. Quando é retratado só, São José carrega um cajado florido de lírios. Outra representação muito conhecida de São José evidencia sua dedicação a Maria Santíssima e a Jesus por ocasião da fuga que empreenderam para o Egito. São José caminha pelo deserto puxando um burro, sobre o lombo do qual viajam Maria e o Salvador. É uma das mais expressivas cenas da Sagrada Família. Tanto esta cena como a retratação de São José em sua oficina, nos podemos ver ao lado do altar mor da Igreja Matriz de Macapá. Os dois afrescos foram pintados pelo Padre Lino Simonelli por volta do ano de 1950. A retratação da oficina de São José foi a que mais me deixou impressionado porque eu conheci um marceneiro de Macapá que possuía uma serra igual a que o santo carpinteiro usava.

A escolha de São José como padroeiro de Macapá não é obra do acaso. Quando o povoado de Macapá foi instalado, em novembro de 1751, o Rei de Portugal era D. José I, devoto do santo. Nada mais prático para que fosse prestada dupla homenagem, ao santo e ao rei. São José é o padroeiro de Macapá há 259 anos. A fortaleza de Macapá também leva seu nome e nela existiam duas imagens de São José. Uma na capela. Outra no frontispício do portal de entrada. Na década de 1920, quando a Fortaleza foi declarada sem serventia e abandonada, a imagem postada no frontispício do portão foi retirada e guardada na Igreja Matriz de São José. Essa imagem mostra São José usando botas. Sobre esse assunto escreverei no próximo domingo.


Alice Gorda, Rainha Moma do Amapá

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o Setentrião do Brasil viveu uma rainha: a maravilhosa Alice Guedes de Azevedo. Seu reino era o império da alegria, da pândega e da roseta. O tributo devido por seus súditos correspondia a um simples sorriso. Sem ter apego a bens materiais, a rainha Alice não tinha fortuna, nem cetro de brilhantes ou coroa de ouro. Em reconhecimento ao amor que ela nutria pelo carnaval, a soberana vontade do povo lhe deu um trono e o direito de ofuscar, por um breve período de tempo, o brilho dos poderosos. Se o seu reino tivesse um primeiro ministro, ele seria o FALCONIERE, o “Cavaleiro do Samba” que assegurou sua sagração como Rainha Moma. Seu fiel escudeiro, O Rei Momo SACACA, preferia chamá-la de Madrinha e jamais pretendeu ser mais importante que ela. Nem o passista campeador “SUCURIJU” se encheu de vaidades ao substituir o Rei Sacaca quando este foi guindado à esfera celeste para alegrar a corte dos Querubins.

O quarteto aqui mencionado despontou para a folia carnavalesca no bairro moreno da cidade, onde surgiu triunfante a “Ordem dos Foliões da Orgia e do Samba”, eternizada entre nos como Boêmios do Laguinho. Foi neste reduto onde impera a cor do ébano que a Alice Gorda começou sua jornada carnavalesca na Província dos Tucujú. Cativante e conciliadora, a Rainha Alice Gorda estendeu sua simpatia pelos Cantões Maracatu, Piratão, Piratinha, Cegonhas, Embaixada, Felicidade, Solidariedade, Unidos do Buritizal, Império do Povo, Quilombo dos Palmares, Unidos do Amapá e pelos Condados Reunidos da Liba, da Abloca e da Banda.

Antes de vestir os trajes reais, Alice tinha predileção pela fantasia de ARLEQUIM, evidenciando o vermelho e o branco. Por gostar do branco e do vermelho apaixonou-se pela Escola Acadêmicos do Salgueiro, do Rio de Janeiro. Foi por influência desta entidade carnavalesca carioca que a Escola de Samba Boêmios do Laguinho também se vestiu de alvi-rubro. Com este traje secular brincou descontraidamente enquanto o excesso de peso ainda não havia prejudicado sua mobilidade. Sempre foi apaixonado pelas festas populares que fazem a riqueza folclórica do nosso país. Entretanto, o carnaval, foi o maior encantamento de sua vida. Se não dava para caminhar, a Alice se conformava em ficar sobre o capô do motor de um caminhão ou na carroçaria de uma camionete. Nem tudo foram flores na caminhada de Alice Gorda. Por ter aceitado uma homenagem de Piratas da Batucada, que contou e cantou sua vida na Avenida FAB, ela foi acusada de ter cometido o crime de lesa pátria e traído Boêmios do Laguinho. Triste e decepcionada com a atitude de pessoas que apenas apareciam na associação no período do carnaval, ela bateu em retirada. Em 1967, consciente de que poderia ter dissabores, Alice aceitou ser “testa de ferro” de um bloco de sujos que congregava integrantes do Bloco do Amapá Clube e carnavalescos partidários políticos do Coronel Janary Gentil Nunes, eleito deputado federal em 1966. Se o Amujacy Alencar, o Savino Souza, o Jarbas Gato ou qualquer outro cidadão que participou da campanha do ex-governador tivesse despontado como coordenador do bloco, certamente a Prefeitura Municipal de Macapá não teria aceitado a inscrição requerida para participar da programação oficial. Naquele ano, uma “orquestra” foi colocada na carroçaria de um caminhão para animar os brincantes.

O Veiculo fez o mesmo percurso ainda cumprido pela Banda e só começou a tocar a marcha “A Banda”, composta pelo Chico Buarque, com maior ímpeto quando atingiu a Avenida FAB. Imediatamente, os coordenadores do carnaval mandaram os soldados da Guarda Territorial montar uma barreira no esquina da Avenida FAB com a Rua Eliezer Levy para impedir que o bloco passasse em frente ao palanque oficial. Quem usou o termo “Banda” foram as autoridades e não os brincantes ou a imprensa. Alice foi acusada de ter sido conivente com os “bagunceiros e desrespeitadores da ordem”. Jornais de Macapá e de Belém não a pouparam. Braba como ela só, Alice subiu nas tamancas e enfrentou o imbróglio com muita altivez. A maioria dos que a meteu no “foguete sem rabo” se acovardou e sumiu do mapa.

No decorrer dos 45 anos em que viveu em Macapá, Alice Gorda promoveu e ajudou a promover as pândegas e as pantomimas carnavalescas. Como o firmamento precisava de uma estrela de primeira grandeza, Alice mudou de endereço, deixando seus súditos conscientes de que apenas a fraternidade é capaz de fazer o carnaval existir. Assim, neste carnaval de 2019, mesmo que as entidades carnavalescas não desfilarem no Sambódromo, as atenções de seus integrantes devem estar voltadas para o céu, onde Alice a tudo observa, com um largo sorriso estampado no rosto. mesmo lamentando que o rufar dos tambores não ecoem na Latitude Zero do globo. O maravilhoso Reino da Alegria de Alice Gorda sempre estará em festa para perpetuar a sua memória. O Estado Amapá foi o único que possuiu uma Rainha Moma.


Avião da FAB cai em Anajás

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No dia 27 de fevereiro de 1948, uma sexta-feira, um avião Douglas C-47 A-85-DL, prefixo 2040, da Força Aérea Brasileira, da linha Rio de Janeiro-Caiene-Rio de Janeiro, com escala em Belém, que havia decolado do aeroporto de Rochambeau e que retornava à capital federal era dado como desaparecido por volta de 21h45min, após passar sobre a cidade de Macapá às 21h30min. Diferentemente dos aviões do Correio Aéreo Nacional, os Douglas C-47 DA FAB não desciam em Macapá, Amapá e Oiapoque. Mas sua passagem sobre Macapá foi registrada pela Estação de Rádio-Telegrafia dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul. A aeronave transportava 28 pessoas sendo 22 passageiros e 6 tripulantes. A Base Aérea de Belém, que recebera mensagem do comandante relatando problemas, logo despachou vários aviões para realizar buscas e prestar socorro às possíveis vitimam. Por ocasião do último contato com a base aérea de Belém, o telegrafista informou que o avião sobrevoava a Ilha do Marajó, sem precisar o local exato em que se encontrava. Na mesma noite. O Brigadeiro do Ar Fontenelle solicitou apoio ao governo do Território Federal do Amapá para buscas por via fluvial.

Os iates Itaguary e São Raimundo, que integravam a frota de embarcações do Serviço de Navegação Territorial foram liberados para atender a solicitação das autoridades da FAB. O Itaguary seguiu para a região da ilha Caviana e o São Raimundo tomou o rumo do rio Jurupary. O iate São Raimundo foi o que mais se aproximou do local do acidente, visto que o rio Jurupary corta áreas da Ilha do Marajó próxima a Anajás e Afuá. A notícia do acidente aéreo se espalhou pelo Brasil apenas na manhã do dia 28 de fevereiro. A Rádio Clube do Pará, através de sua onda curta alertou os moradores da região fronteiriça a Macapá, solicitando que eles colaborassem com a Base Aérea de Belém caso tivessem informações sobre o desastre.

A Rádio Difusora de Macapá, à época, só possuía a Onda Média (Amplitude Modulada), cuja propagação se dava com maior alcance à noite. Ela também divulgou diversos boletins informativos. Somente às primeiras horas do dia primeiro de março o comando da Base aérea de Belém foi notificado que o avião havia realizado um pouso forçado na pequena cidade de Anajás, graças aos esforços do prefeito Silvio Carvalho e populares, que utilizaram faróis, candeeiros e archotes para sinalizar o local onde era possível o pouso de emergência. Os contatos foram feitos pelo senhor Otávio Franco, presidente do Breve Industrial, através de sua estação de rádio amador.

Em Anajás não havia serviço de rádio-telegrafia, nem energia elétrica. O comandante de uma embarcação que saíra de Anajás com destino a Breves comunicou os detalhes do acidente ao senhor Otávio Franco.

Ainda no dia 1º de março, a FAB constatava que a aterrissagem do avião ocorrera por volta das 22 horas do dia 27 de fevereiro, sob a sinalização de faróis e archotes, Anajás não tinha pista de pouso. Como o avião ficou sobre voando a cidade o prefeito Silvio Carvalho deduziu que havia problemas. Ao descer, o avião liberou bastante gasolina, mas não explodiu. Porém, os populares que procuravam salvar os ocupantes da aeronave não se deram conta de que os archotes poderiam provocar incêndio, coisa que acabou acontecendo.

O major Ary Proença, comandante da Base Aérea de Belém esteve no local dirigindo as operações de resgate das vítimas. Constatou, que dos 28 viajores, apenas 3 escaparam. Dentre os 25 mortos, 6 eram tripulantes, 8 eram militares do Oiapoque e 11 passageiros civis. Dois aviões catalina amerissaram no rio Anajá para recolher os mortos e feridos. O prefeito Silvio de Carvalho Santos recebeu diversos cumprimentos pela bela iniciativa de orientar o piloto do avião no pouso forçado. Pouco tempo depois do sinistro, Silvio Carvalho veio trabalhar em Macapá e foi um dos prefeitos de Mazagão.


Falta-nos um sistema de cultura

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Embora o lema da Bandeira Nacional seja “Ordem e Progresso”, pinçado da frase concebida pelo Francês Augusto Conte: “O Amor por principio e a Ordem por base; o Progresso por fim”, o Brasil continua sendo um país que tem suas leis, códigos e normas, mas seus mandatários não gostam de cumpri-las. O absolutismo que prevaleceu na nação brasileira, desde a sua descoberta até o fim da Monarquia, continuou marcante no período republicano e parece não ter fim.

Ainda não conseguimos implantar um Sistema Nacional de Cultura porque os governantes preferem posar de “Mecenas”, embora, no serviço público, com aplicação de dinheiro do Tesouro Nacional esse tipo de protetor cultural não existe. O mecenato é próprio dos que usam recursos advindos de suas atividades empresariais ou de quem reserva parte de seus ganhos para estimular os cultores das artes. O Brasil andou perto de implantar um sistema cultural há cerca de quatro anos, mas não o fez, a conta do apadrinhamento que os políticos usam para manter produtores das artes sob suas asas. No Amapá, seguindo os estudos realizados pelo Governo Federal, também elaboramos nosso Sistema de Cultura. O Executivo Nacional reuniu, em Brasília, em 2010, gente de todas as vertentes culturais, dispensando total atenção para os que se mostraram coniventes com a condenável prática de submissão aos chefões do Partido dos Trabalhadores exercida no país. A bola bateu na trave, foi pela linha de fundo e ninguém quis ir buscá-la para dar reinicio ao jogo. Uma prova cabal dessa verdade está no fato dos governantes terem extinguido os Conselhos de Cultura, normativos e fiscalizadores por natureza. Os governantes que não o extinguiram o transformaram em singelos Conselhos Deliberativos, principalmente para acomodar agentes culturais de sua preferência, muito mais militantes políticos do que cultores das artes. Recentemente, no decorrer da campanha política para a Presidência da República, o consagrado compositor/cantor Chico Buarque de Holanda declarou seu irrestrito apoio à candidata Dilma Rousseff.

Imediatamente, surgiram nas redes sociais diversas postagens afirmando que a declaração de Chico Buarque decorria do apoio financeiro dado pelo Ministério da Cultura a uma irmã do cantor, algo em torno de oitocentos mil reais. No período em que Gilberto Gil foi Ministro da Cultura, o cantor Caetano Veloso disse que estava sendo discriminado pelo governo, que lhe negou recursos para a realização de um trabalho musical. No Amapá, um parlamentar conseguiu arrancar do orçamento federal a importância de 600 mil reais para contemplar apadrinhados, entre eles um irmão que completava 50 anos de idade. Dentre os governantes amapaenses, o Waldez Góes foi o que mais se aproximou da implantação de um Sistema Cultural. Reinstalou o Conselho de Cultura, que havia sido jogado no abismo por João Capiberibe, instituiu a Lei de Incentivo à Cultura e deu ao Silogeu uma estrutura normativa e fiscalizadora invejável. Os bajuladores e submissos não gostaram.

Os que exerceram controle administrativo da Secretaria Estadual de Cultura declararam guerra ao Colegiado e se negaram a fornecer-lhe os documentos que a lei lhe assegurava o direito de exigir. Ao final do mandato dos conselheiros prevaleceu a vontade do parlamentar, que prometeu imorredouro apoio ao Waldez caso ele nomeasse apenas seus escolhidos. O tal parlamentar abandonou com a parceria, já no governo do Camilo, assim que nuvens negras pairaram sobre a cabeça do ex-governador. Agora, a partir do dia 1º de janeiro de 2015, Waldez Góes vai governar o Amapá pela terceira vez. Os membros do setor cultural que almejam ver o Estado trilhando a rota do mérito e não do favorecimento aguardam medidas saneadores em todos os sentidos. Se isso não acontecer, o Amapá estará ferrado e desamparado da esperança. Basta de tantas festas sem objetividade alguma. Vamos recuperar o Parque do Forte, tornar atrativa uma visita à Base Aérea de Amapá, apoiar as entidades culturais que podem engrandecer as ações de governo e mandar as favas os oportunistas. Agora, em 2018, configurada a vitória de Waldez Góes nas eleições, resta-nos esperar que o tal sonhado Sistema Cultural se torne realidade.


Remanso e Elesbão

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Ao lado direito do platô de terra firme onde está edificada a imponente Fortaleza de São José de Macapá, havia uma reentrância denominada remanso. Tinha este nome porque naquela pequena enseada as águas do Rio Amazonas não corriam com tanta força. Existem dois conceitos bem definidos sobre remanso: a) contracorrente junto à margem de um rio; b) trecho de rio que não apresenta corrente apreciável.

Na faixa litorânea que hoje integra os bairros, central e Santa Inês, instalaram-se alguns dos primeiros escravos trazidos pelos imigrantes açorianos que aqui chegaram a partir de 1751. Antes da vinda dos açorianos, por volta de 1738, um contingente de soldados chefiados por um capitão já ocupava espaço no platô, erguendo um forte de faxina. No final de ano de 1751, 86 casais de açorianos iniciaram a construção da igreja e dos tijupares que iriam abrigá-los. As instalações destes prédios eram bem simples e dominaram a área de abrangência da grande fortaleza. Enquanto os açorianos se devotavam a São José e faziam suas festas em louvor ao Espírito Santo, os negros mantinham suas tradições religiosas acobertadas pela veneração a Santo Elesbão. Este santo da Igreja católica teria sido descendente de Salomão e da Rainha de Sabá. Foi o 47º imperador da região da Etiópia, pais que dominava vasta região a oeste do Mar Vermelho. Santo Elesbão viveu no século VI dC e foi contemporâneo do Imperador romano Justiniano.

Combateu e venceu os hameritas, anulando a rebelião que eles tinham desencadeado. Abdicou o trono da Etiópia a favor do filho e rumou para Jerusalém. Posteriormente se retirou para o deserto e aí viveu como monge anacoreta até falecer no dia 27 de outubro de 555. Por ser um santo negro, ganhou a devoção dos escravos africanos difundida principalmente pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Santo Elesbão e Santa Efigênia, rainha da Núbia, filha do rei Egyppo que foi batizada pelo apóstolo Mateus. Curioso é que os próprios imigrantes portugueses e açorianos eram chamados de Elesbão, certamente devido ao fato de não serem considerados de sangue puro. Consta que os imigrantes de pele clara ou parda, que não eram escravos, deveriam ser identificados com o nome da localidade de onde provinham. Os embarcados em Lisboa teriam seus nomes incluídos na relação titulada como Lisboa. Entretanto, o escrivão da alfândega equivocou-se e escreveu Elesbão em vez de Lisboa. Com o passar do tempo muitas pessoas incorporaram a palavra Elesbão ao nome de batismo.

Sobre a praia do remanso, no terreno do encosto leste da fortaleza e na área do Elesbão os moradores de Macapá que apreciavam residir na margem do rio foram construindo suas habitações. No trecho identificado como Elesbão, atualmente cortado pela Avenida Hélio de Souza Pennafort, que começa na Avenida Henrique Antônio Galúcio e termina da avenida 1º de Maio, vários pioneiros da edificação do povoado de Macapá formaram um aglomerado urbano. Este amontoado de casinhas e gente perdurou até meados da década de 1980, ocasião em que o Governador do Território Federal do Amapá, Annibal Barcellos, o extinguiu e transferiu os moradores para o bairro Nova Esperança.

O aterro da área do remanso, do Elesbão e do igarapé do Igapó começou a ser feito em 1978, durante a gestão do Governador Arthur Azevedo Henning. A contar de 1979, os trabalhos foram intensificados pelo Comandante Annibal Barcellos, se estendendo pela orla de Macapá até as proximidades do igarapé Jandiá, dando origem à Praça Abdalla Houat, Praça Jacy Barata Jucá e expansão do Perpétuo Socorro. Para iniciar o aterro dos trechos citados, o DNOS procedeu à drenagem da praia onde seriam construídas as rampas acostáveis do bairro Santa Inês, do Igarapé das Mulheres e próximo ao canal do rio Amazonas. Somente na conclusão do aterro utilizou-se laterrita.

O Elesbão era uma referência para quem queria comprar peixe, carne de caça, frutas e açaí, que os caboclos das ilhas fronteiriças a Macapá traziam para comerciar. Ali morou uma senhora sobejamente conhecida em Macapá como Maria Mucura. Com todo respeito à sua memória, o rosto da ditosa senhora era tal e qual a cara do marsupial devorador de aves. O pequeno declive existente perto de sua casa ficou famoso como baixa da Maria Mucura. É claro que ela não gostava do apelido e xingava os desrespeitosos até a milésima geração.Moradores do bairro do Trem de Lapidação e adjacências, que gostavam de degustar uma cachacinha da marca Alvorada não deixavam de passar no boteco do seu Neco Brito e deliciar, de uma talagada só, o famoso produto advindo de Abaetetuba. Na volta para casa voltavam a encostar-se à birosca “Jesus, Maria, José” para engolir a saideira.

No entorno da Fortaleza, junto ao remanso, foi instalado um matadouro municipal. Sobre a praia funcionou um abatedouro de porcos, pertencente ao senhor Pedro Pinheiro Borges. Também existiu um dançará na área, cujo nome parece ter sido “Bela Vista”. Quando a “porrada comia no centro”, dava gosto ver os brigões caírem na lama ou na água. Sujos e molhados iam depurar a maldita cana e sossegar o facho na Delegacia de Polícia. Ambiente mais calmo era o “Bananeira”, aprazível recanto onde uma família do local promovia festas e vendia refeições. Só funcionava nos fins de semana. Quem caísse na besteira de beber, comer e não pagar era sumariamente denunciado na Polícia e esconjurado pelo resto da vida e mais três meses.


Macapá deixa de ser povoação

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Aproveitando o ensejo da viagem que realizou a Capitania de São José do Rio Negro, onde foi tratar das questões fronteiriças de Portugal com a Espanha, o Capitão General Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Governador do Estado do Grão Pará, colocou em prática o plano de elevar as povoações mais expressivas à condição de vila e as aldeias indígenas ao nível de povoados. Antes de aportar em Macapá, Mendonça Furtado parou na aldeia dos índios Urucará, onde o Padre Antônio Vieira havia introduzido índios nhengaibas, perseguidos por escravagistas. No dia 24 de janeiro de 1758, a aldeia Urucará foi elevada à categoria de vila e testemunhou a instalação do Senado da Câmara. A denominação mudou para Portel. A comitiva do governador chegou a Macapá dia 1º de fevereiro e as delineações do espaço que iria abrigar a vila ocorreram imediatamente. Este espaço corresponde as Praças Veiga Cabral (Largo de São Sebastião) e Barão do Rio Branco (Largo de São José/São João).As denominações dadas aos dois largos traduzem bem a intenção de Mendonça Furtado em homenagear não apenas os santos, mas também seu irmão Sebastião José de Carvalho e Melo e o Rei D. José I. é claro que o delineamento em questão não passou de uma simples escolha, sem compreender a limpeza total da área, que por ser de cerrado facilitou a empreitada. No dia dois de fevereiro, a cerimônia de posse dos membros do Senado da Câmara certamente aconteceu no núcleo pioneiro de Macapá. Nela havia instalações diversas e a população ali residia. Devido ao porte que Mendonça Furtado quis dar a Macapá, o Senado da Câmara foi formado por quatro membros: Francisco Espíndola Bittencourt, que exerceria a presidência e seria o Juiz Ordinário; Carlos de Melo, acumulando as funções de Procurador do Executivo e Tesoureiro; Thomé Francisco Vieira e Manoel José Paes como vogais. Todos eram açorianos, brancos e letrados. Finda a cerimônia de posse, a comitiva do governador, acrescida por militares do reduto fortificado e por populares deu vivas ao Rei de Portugal e desejou-lhe longa vida. A ligação entre o platô da fortificação e a área do atual centro histórico era feita através de uma ponte de madeira construída sobre o igarapé do Igapó e por uma estrada aterrada. A abertura de vias públicas data de 1761, correspondendo a nove ruas, nove travessas e passagens, dois largos maiores e um largo menor.

No dia 4 de fevereiro houve missa campal celebrada pelo bispo Miguel de Bulhões e concelebrada pelo Padre Miguel Ângelo de Morais. Encerrado o ato litúrgico o bispo do Grão-Pará assentou a pedra fundamental da Igreja de São José. A seguir, o Governador Mendonça Furtado convidou o Ouvidor Geral Pascoal Abranches Madeira Fernandes a conduzir o cerimonial que redundaria na declaração de elevação do povoado à categoria de vila, que o fez de maneira formal e marcante, a começar pela ereção do pelourinho, símbolo das franquias municipais. Em Portugal “o pelourinho era um pilar de pedra, de estilo burlesco, mas às vezes formoso. Servia de poste para o condenado receber açoites, como lugar de execução, do qual penduravam o criminoso, ou contra o qual se estrangulava e decapitava.” Na Amazônia bastava um grosseiro tronco de madeira com duas travas cruzadas no topo ou argolas. Aos romanos o denominavam pilori e o tinham como símbolo da autoridade e da justiça. O termo pilori evoluiu para pelouro, que era cada um dos ramos da administração de uma vila ou de uma cidade afeta aos vereadores da Câmara Municipal, onde se reuniam os vogais representantes do povo e entre eles o Juiz Ordinário e o Procurador. A franquia de que desfrutavam as vilas consistia na liberdade e direito de cobras impostos e ministrar a justiça em primeira instância. O vogal era o representante paritário da classe popular e tinha direito a voto. A direção da segunda vila a ser instalada por Mendonça Furtado foi exercida pelo Senado da Câmara, cujo prédio foi construído ao lado direito da Igreja, no espaço que hoje abriga a Biblioteca Estadual Elcy Rodrigues Lacerda.

Pouco a pouco, a contar de 1761, as casas destinadas aos moradores da vila e os prédios públicos foram sendo construído em taipa-de-mão. A área inicialmente habitada era delimitada pelas ruas Formosa (Cândido Mendes) e da Campina (Tiradentes) e pelas Travessas do Lago (General Gurjão) e da Estrela (Presidente Vargas). Por trás da Igreja de São José, que sempre ficou de frente para a rua São José, passava a rua dos Inocentes, interligando as travessas do Lago e da Estrela. O largo que demorava após a igreja também ficou rotulado pelo povo como Largo dos Inocentes. Com o passar do tempo, o quadrado compreendido entre a Rua São José, a rua da Campina e as Travessas do Lago e da Estrela tornou-se o ponto mais habitado de Macapá. O povo dizia que ali tinha tanta gente que mais parecia um formigueiro. A expansão no sentido do rio Amazonas ocorreu muito tempo depois. Neste dia 4 de fevereiro de 2019, comemoramos os 261 anos da elevação do povoado de Macapá à categoria de vila. Se contarmos o tempo desde o ano de 1751, período em que Macapá passou na condição de povoado, a existência de colonizadores nesta área sobe para aproximadamente 268 anos.


O homem que adorava palavras novas

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Em qualquer lugar deste mundo há pessoas que falam pelos cotovelos, são ávidas em dar noticias quentinhas e costumam usam palavras que ouvem nos meios de comunicação, mas nem sempre nem sempre sabem o que elas significam. Gente com essas características existem pelo Brasil inteiro e algumas delas já transitaram pela vida em terras do Amapá. A avidez em contar novidades, sem procurar saber se o que lhe contavam tinha algum cunho de verdade, acabou rotulando alguns cidadãos como “mentira fresca”, “sabe tudo”, “orelhudo”, “boateiro”, etc. Na década de 1960, na cidade de Amapá, aconteceu um fato bem interessante, envolvendo um sujeito que parecia ter a língua grande demais. Em tudo ele metia sua “colher enferrujada”, dando palpites e formulando acusações a terceiros sem ter as provas cabais. Certo dia, um incêndio ocorrido na Prefeitura Municipal de Amapá destruiu grande parte do arquivo da comuna, inclusive documentos contábeis.

O tal sujeito nem esperou o fogo ser apagado para sair espalhando que o responsável pelo incêndio era o Prefeito Leonel Nascimento, cujas prestações de conta estavam eivadas de irregularidades. A acusação contra o baiano Leonel Nascimento era descabida e isso ficou evidente quando o inquérito policial foi concluído. Porém, no foco dos acontecimentos, o sujeito falador dizia abertamente que o prefeito era o único culpado. Familiares, parentes e amigos aconselharam o presepeiro a parar com as bobagens que andava falando. De nada adiantaram os conselhos e as ponderações. Cada vez mais incisivo, o indivíduo destilava seu veneno sem medir as conseqüências. Seu ponto preferido para contar novidades duvidosas era um bar que ficava no inicio da Avenida Antônio Lemos, voltado para a praça, no canto oposto onde ficava o prédio da Prefeitura de Amapá.

Como costuma acontecer, sempre que um incêndio ocorre em órgão público, a polícia instaura um processo para apurar as causas e a responsabilidade do sinistro. Esta providência foi adotada em Amapá, mas ninguém se ariscou a atuar como testemunha de acusação, nem mesmo o contumaz orelhudo. No período em que os policiais passaram na cidade o boateiro andou sumido, provavelmente enfornado em fazenda de familiares. Depois da passagem dos policiais, chegaram à cidade de Amapá, sem qualquer alarde, os três membros de uma comissão de inquérito administrativo. À noite, no bar mais freqüentado da cidade, os integrantes da comissão tomavam um lanche quando apareceu o boateiro. As pessoas naturais de Amapá sabiam que havia forasteiros no bar, entretanto não tinham a menor idéia do motivo da visita. Como todo sujeito presepeiro gosta de jogar para a platéia, não demorou muito para que o orelhudo começasse a fazer suas costumeiras acusações contra o prefeito. Instigado por seus conterrâneos, ele até encenava o modo como teria agido o gestor municipal. Até parecia que o boateiro estava no arquivo da prefeitura quando o fogo começou.

Os membros da comissão de inquérito administrativo ouviam tudo com absoluta discrição, rindo com os jeitos e trejeitos que o acusador fazia. Em dado momento, o presidente da comissão perguntou ao tagarela se ele era homem suficiente para confirmar as denuncias caso fosse “inquirido” a fazê-lo. Radiante com o termo inquirido, que até aquele momento desconhecia, o tagarela se limitou a dizer “unrum”.

Diante da resposta, feita na presença de testemunhas, o presidente da comissão esclareceu o motivo de sua presença em Amapá e disse ao tagarela que ele seria intimado a depor. Pensando que iria sair bem do sufoco, o tagarela empregou uma palavra nova que tinha ouvido há pouco tempo: “assim não mestre, estou anexo ao caso”. E foi anexo mesmo, embora julgasse que o significado do termo fosse “estou fora”. Quem não ficou anexo foi o prefeito Leonel Nascimento que teve sua inocência reconhecida pelo Juiz de Direito da Comarca de Amapá. Leonel nasceu em Ilhéus/Bahia, no dia 13/4/1922. Chegou ao Amapá em outubro de 1945.Faleceu dia 25/1/2019, prestes a completar 97 anos de idade.Deixou páginas apinhadas de bons serviços prestados ao Amapá.


Cuidado com o navio dos cabeludos

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Durante toda a minha infância, passada em Macapá, ouvi os macapaenses de mais idade dizerem aos meninos que temiam ir ao barbeiro: “cuidado com o navio dos cabeludos”. Os que migraram para cá após a implantação do Território Federal do Amapá, que não eram interioranos do marajó e regiões adjacentes nos diziam: “o barbeiro tem família”. Eu e os outros garotos escutávamos estas coisas e indagávamos o porquê deveríamos ter cuidado com o tal navio. Um dia perguntei ao meu saudoso pai, Francisco Torquato de Araújo, qual a função da embarcação que a molecada temia e que nunca aparecia. Ele me contou que não houve propriamente um navio com o propósito de pegar os meninos que não gostavam de cortar o cabelo e sim a execução de campanhas de atendimento médico e social ás pessoas carentes que residiam na Ilha do Marajó, Macapá, Mazagão e baixo-amazonas.

A campanha fazia parte do governo itinerante instituído pelo Interventor Federal no Pará, Magalhães Barata, que visitava frequentemente as vilas e cidades interioranas levando médicos, enfermeiras, odontólogos, barbeiros, servidores públicos dos serviços de expedição de carteiras de identidade, carteira de trabalho, certidões de nascimento, casamento, óbito e muitos medicamentos. Este tipo de campanha de saúde pública foi organizado nos moldes das campanhas militares, haja vista que o povo tinha o costume de não prestigiá-las. Assim, todos eram obrigados, pela força, a se submeterem as práticas sanitaristas.

Os portadores de doenças contagiosas eram afastados dos sadios e ficavam praticamente encarcerados, caso contrário fugiam. Esta maneira de agir da população interiorana não acontecia por acaso. Até 1923, a política de saúde pública não fazia parte da agenda do governo.

No ano em referência surgiu o sistema previdenciário e foram criadas as Caixas de Aposentadoria e Pensões-CAPs. Porém, apenas os beneficiários das CAPs recebiam atendimento médico. Não havia política Nacional de Saúde. Até 1930, a assistência médica individual das classes dominantes era feita pelos profissionais legais da medicina, os chamados médicos de família.

O restante da população era atendida por entidades filantrópicas através de hospitais mantidos pela Igreja Católica e recorria à medicina caseira. Nas duas primeiras décadas do Século XX, as ações de saúde pública foram vinculadas ao Ministério da Justiça, cabendo aos estados controlar as endemias, epidemias, fiscalização de alimentos, portos e fronteiras.

Em 1930, a Saúde Pública foi anexada ao Ministério da Educação tornando-se encargo do Departamento Nacional de Saúde Pública, com foco principal nas atividades sanitárias. Criados neste ano, os sanatórios para tratamento da tuberculose e hanseníase. Em decorrência de um acordo firmado com os Estados Unidos da América, em 1942, o governo do Brasil criou o Serviço Especial de Saúde Pública-SESP, dando apoio aos trabalhadores envolvidos na produção da borracha que não eram assistidos pelos serviços tradicionais.

A campanha realizada pelo governo de Magalhães Barata foi rotulada em anos recentes como Operação Cívico-Social, ou simplesmente ACISO. Deu excelentes resultados, mas despertou a ira dos figurões da política adversária. Eles diziam que o Interventor Federal havia abandonado Belém. O jornal Folha do Norte desenvolveu intensa campanha antibaratista e acabou contagiando grande parte da população belenense. Enquanto isso acontecia, os interioranos recebiam atendimentos diversos. Até pequenas cirurgias foram feitas em pessoas que poderiam ter morrido por falta de assistência médica. Curativos, aplicação de vacinas e antibióticos, extração de dentes, cortes de cabelo, combate a piolhos, a bichos do pé e outros serviços foram prestados.

A ordem era pegar na marra os resistentes e submetê-los a ação médico-social. Os moleques eram os campeões do medo. Tiveram que ser agarrados por policiais para que os barbeiros, dentistas e enfermeiros fizessem seus trabalhos. No meio dos fartos cabelos que eles apresentavam vivia centenas de piolhos. Por isso, o corte tinha que ser feito com máquina zero, deixando apenas uma singela pastinha. O estrago que os piolhos faziam nos homens e mulher deixava os médicos abismados. Feridas em profusão havia na cabeça e na nuca da maioria das pessoas. Curioso é que as mulheres passavam óleo de andiroba e de pracaxi nos cabelos para combater os piolhos. Outras faziam uso do vinagre. Após os cortes de cabelo das mulheres, os barbeiros jogavam “neocid” na cabeça das mais atacadas pelos piolhos e a enrolavam com pano branco. Sobre as feridas os enfermeiros colocavam sulfa ou pomada São Lucas. Não foram poucos os registros de óbito de interioranos em decorrência da “febre de trincheira”. Esta denominação surgiu durante a I e a II Guerras Mundiais devido à morte de soldados atacados por piolhos dentro das trincheiras.