Tuna

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Tuna é o nome do agrupamento musical surgido na Espanha no inicio do século XIX, que utiliza instrumentos diversos. Originalmente, era um mero conjunto instrumental de natureza popular. Posteriormente ganhou espaço nos estabelecimentos educacionais e passou a ser identificada como Tuna Estudantina, com uso marcante do canto.

Ao despontar no cenário musical espanhol, a tuna estava focada no ideário romântico dos antigos sopistas e pícaros. Os primeiros músicos eram estudantes pobres, que recorreram as suas habilidades musicais para obter os recursos necessários ao custeio das mensalidades nas escolas. Maltrapilhos, eles saiam tocando pelas ruas à cata de dinheiro. Enfrentava a indiferença de muitas pessoas, que os rotulavam como vagabundos e vadios.

Persistentes, os jovens estudantes executavam composições populares, românticas e folclóricas próprias das regiões que visitavam. Não é bem aceita a afirmativa, de que os integrantes das tunas seguiam os passos dos sopistas, menestréis, trovadores, jograis e afins. Os grupos foram se aperfeiçoando incluindo musicas eruditas em seus repertórios, notadamente os membros das Tunas Estudantina e Compostelanas.

As Tunas Universitárias envergavam os trajes acadêmicos das instituições onde estudavam, dando-lhes um visual mais rico e bonito. Ainda hoje, as faculdades possuem seus grupos de músicos, rotulados conforme a natureza do curso que eles frequentam: Tuna Universitária de Direito, Tuna Universitária de Medicina, Tuna Universitária de Farmácia, etc. As classes patronais também possuem grupos musicais.

No ano de 1870, a Tuna de Santiago de Compostela excursionou a Portugal, para se apresentar na Universidade de Coimbra. Fez tanto sucesso, motivando a fundação da Estudantina de Coimbra. Em 1886, foi à vez da Tuna da Universidade de Salamanca ir á capital portuguesa, influenciando os lusitanos para a criação da Estudantina Portuense. Isentas de formalidades, inúmeros grupos musicais foram despontando, dando origem a um período de pujança das tunas.

Em Portugal, o nome tuna foi incorporado ao idioma do país. Consta que a palavra tuna provém de “thune”, designativo de um albergue para mendigos, em Madrid. Isto teria levado o povo a considerar os músicos das tunas como vagabundos e malandros.

Os instrumentos musicais utilizados em uma tuna são: guitarras clássicas, cavaquinhos, bandolins, bandola, baixo acústico ou contrabaixo, pandereta, acordeão, bombo, flauta, violino e viola. Em síntese, Tuna é o grupo de estudantes que vagueia por diversos lugares, dando concertos musicais. No esporte paraense é sobejamente conhecido um clube denominado Tuna Luso Brasileira.
O aparecimento desta agremiação tem tudo a ver com um grupo constituído por jovens portugueses, que trabalhavam no comércio de Belém e decidiram formar um grupo musical para homenagear os tripulantes do Cruzador D. Carlos, da Marinha de Portugal, que aportou no cais da capital paraense no dia 13 de novembro de 1902.

Os jovens se apresentaram aos visitantes no salão do Café Apolo, levando o Senhor Antônio Augusto Lobo, a propor a fundação de um conjunto musical, para apresentar-se em festas carnavalescas e beneficentes. Á época, D. Carlos era o Rei de Portugal, razão pela qual, no dia 12 de dezembro de 1902, o grupo recebeu a denominação de “Real Tuna Luso Caixeiral”. Data de 1º de janeiro de 1903, o registro oficial da nova entidade artística. A trajetória esportiva da Tuna só começou em 1906. Porém, após a proclamação da República, em Portugal, ocorrida no dia 5 de outubro de 1910, a palavra Real foi eliminada. Em 1926. O clube adotou o nome de Tuna Luso Comercial. A 12 de junho de 1967, registrou-se como Tuna Luso Brasileira.


Uma filha de Cabralzinho na cidade de Amapá

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No inicio do mês de julho de 1950, o Governador Janary Gentil Nunes formulou convite a Sra. Altamira Cândida da Veiga Cabral Cacela para que ela viesse conhecer Macapá, capital do Território Federal do Amapá e a cidade de Amapá, onde seu pai, Francisco Cabral da Veiga Cabral, o Cabralzinho, liderou a reação dos brasileiros contra as pretensões dos franceses. Altamira Veiga Cabral era a terceira filha do casal Francisco Xavier da Veiga Cabral e Altamira Waldomira Vinagre da Veiga Cabral. Seu avô Pedro Augusto de Oliveira Vinagre descendia do tenente da Guarda Nacional, Francisco Pedro Vinagre, o 2º Presidente Cabano do Pará. Altamira Cândida já estava viúva do jurista e homem público do Pará, depurado estadual na década de 1920 e ex-prefeito de Belém na década de 1930, Dr. Alcindo Comba do Amaral Cacela. Dentre as filhas de Cabralzinho foi a que conviveu por mais tempo com o herói do Amapá. Sabia detalhes históricos da refrega entre brasileiros e franceses que o próprio pai lhe contou. Muitos destes detalhes foram repassados aos estudantes de Belém que a procuravam frequentemente. Desta feita ela iria conhecer a antiga vila do Espírito Santo do Rio Amapá Pequeno, local onde seu pai, a 15.05.1895 se notabilizou impedindo que os franceses consolidassem a ambição de dominar a região entre a margem esquerda do rio Araguary e a margem direita do rio Oiapoque. A ilustre visitante chegou a Macapá no dia 19 de julho de 1950, viajando em avião do Correio Aéreo Nacional-CAN, sendo festivamente recepcionada pelas autoridades, estudantes e populares.

Às 17 horas, a Sra. Alcindo Cacela, participou de uma solenidade realizada no Cine-Teatro Territorial, entregando ao governador Janary Nunes a farda de General Honorário do Exército Brasileiro, que Cabralzinho usava nas solenidades cívicas, espada, cinto e insígnias. Também passou ao governador uma bandeira brasileira e uma francesa, ambas rasgadas, bandeira do Estado do Pará e do Triunvirato do Território Amapaense. Compareceu à solenidade o senhor Bernardo Batista da Silva, então com 63 anos de idade, mas que, segundo Otávio Meira, autor de “Fronteira Sangrentas”, tinha 8 anos em 1895. Ele era natural da vila de Amapá e recebeu grave ferimento no punho esquerdo devido a um tiro desferido pelos invasores. Bernardo Batista da Silva faleceu em Macapá no dia 7 de dezembro de 1979, com 99 anos. Até o dia 21 de julho a senhora Altamira da Veiga Cabral ficou em Macapá como hóspede do governo territorial, alojada no Macapá Hotel. Dia 21, pela manhã, a ilustre visitante tomou o avião do CAN, que fazia a linha Rio de Janeiro-Caiena e seguiu para o Município de Amapá, desembarcando na pista da Base Aérea. Na cidade de Amapá ela foi saudada pelo Dr. José da Silva Castanheira, Juiz de Direito da Comarca local e pelo Prefeito Vitorino Luna. Algumas pessoas que participaram do ato de reação contra os franceses mantiveram demorada conversa com dona Altamira. No dia 22 de julho, aproveitando a escala que o avião do CAN fez em Amapá, com destino a capital da Guiana Francesa, com nova parada em Oiapoque, a filha de Cabralzinho seguiu para a cidade fronteiriça onde recebeu homenagens das autoridades e do povo. Ali conheceu outro cidadão que lutou ao lado de seu pai: Guilherme da Luz. Em 1950, Guilherme da Luz contava 79 anos de vida e deve ter nascido em 1877. Faleceu em Oiapoque com 97 anos. Quando o avião retornou de Caiene e pousou em Oiapoque, dona Altamira Cândida da Veiga Cabral Cacela nele embarcou e voltou para Belém.

Os objetos que a senhora Altamira entregou ao governo do Amapá foram repassados ao Museu Territorial instalado no interior da Fortaleza de São José. A bandeira do Triunvirato correspondia a um retângulo dividido em três faixas horizontais de igual dimensão, nas cores vermelho branco e vermelho. A bandeira francesa é butim de guerra e foi tomada do soldado Etyenne depois que Cabralzinho o feriu com um tiro no rosto.

O uniforme de General Honorário foi vestido em um manequim cujo rosto tinha as feições de Cabralzinho. Nele estavam colocadas as insígnias do herói. A espada de Cabralzinho também estava colocada no manequim. A farda que Cabralzinho usava nas solenidades cívicas lhe foi concedida pelo Exército Brasileiro no Rio de Janeiro, dia 11 de junho de 1896.


Proibição do uso de baladeira

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Embora o governo do Território Federal do Amapá desenvolvesse diversos programas sociais para manter as crianças e os adolescentes ocupados com atividades produtivas, alguns menores rebeldes preferiam permanecer perambulando pelas ruas e pontos periféricos de Macapá, balando passarinhos e frutas com baladeiras. A despeito de ser considerada pelos macapaenses como um brinquedo de criança, a baladeira ou atiradeira pode causar sérios danos às pessoas e animais, além de provocar prejuízos nos telhados e janelas de vidro.

O tal brinquedo corresponde a um artefato compreendendo uma forquilha de madeira, munida de duas tiras de câmara de ar e uma rede de couro, com o que se atiram pedras. Em outras partes do Brasil prevalecem outras denominações como baleeira, beca, bodoque, badoque, badogue, estilingue, funda, peteca e seta. No Norte e no Nordeste do Brasil os meninos de rua eram rotulados como moleques e não respeitavam.

Em Macapá, o uso da baladeira era tão intenso, que volta e meia os pais dos usuários do artefato eram intimados pelas autoridades policiais para comparecerem à Divisão de Segurança e Guarda a fim de resgatarem seus filhos. A reprimenda que os genitores recebiam era terrível, merecendo mesmo ser chamada de esculhambação. Houve casos em que os moleques praticavam pequenos furtos, principalmente de animais domésticos e ainda balavam nos donos das galinhas e patos. Eles também quebravam as lâmpadas dos postes da rede elétrica e de residências. Os acertos de contas entre moleques desafetos eram frequentes. Ao balarem nas mangas pituriscas, acabavam atingindo telhados das casas quando não acertavam o alvo. Como não podiam agir livremente no centro de Macapá, os moleques baladores freqüentavam a praia, na maré baixa, tentando matar maçaricos, socós, mergulhões, gaivotas e tralhotos. Também eram vistos ao longo da pista de pouso do aeroporto da Panair do Brasil que ocupava uma extensa área onde seriam abertas as avenidas FAB, Procópio Rola e Raimundo Álvares da Costa e as ruas General Rondon, Eliezer Levy, Odilardo Silva, Jovino Dinoá, Leopoldo Machado, Hamilton Silva, Manoel Eudóxio Pereira e Professor José Barroso Tostes. Ali eram abatiam rolinhas, rolões, galegas, galo-da-campina, papa arroz e outros passarinhos. Entre os passarinhos havia um chamado João Tolo, mais esperto do que o cão. Ele se metia entre as moitas de capim e pulava quando cantava. Nunca ouvi dizer que alguém tenha conseguido matá-lo com baladeira.

Em 1953, a situação era tão preocupante, que o tenente Luiz Ribeiro de Almeida, advogado que se encontrava ocupando o cargo em comissão de Diretor da Divisão de Segurança e Guarda-DSG, baixou uma ordem de serviço nos seguintes termos: “Ordem de Serviço nº. 19. O Diretor E Comandante da Divisão de Segurança e Guarda pela presente Ordem de Serviço: Considerando a nocividade e a periculosidade decorrente do uso abusivo da baladeira, também conhecida por bodoque, tiradeira, etc., para a integridade cívica da coletividade, além dos danos materiais que vem causando; Considerando, que nos últimos tempos, a cidade vem sendo infestada por tão nocivo instrumento utilizado especialmente por menores desocupados ou mal orientados; Considerando, ainda,que inúmeros casos vêm se registrando nesta Divisão, com queixas constantes sobre acidentes, alguns mesmo de caráter grave e de conseqüências lamentáveis; RECOMENDO: a) Todo menor que for encontrado utilizando baladeiras, bodoques, tiradeiras ou coisa semelhante, deve ser conduzido a esta Divisão, notificando-se em seguida os pais ou tutores para, tomando conhecimento do caso, proibirem aqueles de tal prática sob pena de responsabilidade perante a Lei; b) O nocivo instrumento deverá ser apreendido e inutilizado; c) Em caso de reincidência, esta chefia determinará o encaminhamento do menor e respectivo responsável ao Exmo Sr. Dr. Juiz de Menores para os fins de direito. Dê-se Ciência e Cumpra-se. Macapá, 10 de novembro de 1953. a) Luiz Ribeiro de Almeida – Tenente Diretor da D.S.G.” A ação dos soldados da Divisão de Segurança e Guarda redundou na detenção de alguns menores delinqüentes sobejamente conhecidos das autoridades policiais e do próprio Juizado de Menores.Como não havia local apropriado para mantê-los sob processo socioeducativo, o Governador Janary Nunes autorizou o Dr. Marcílio Felgueiras Viana, Diretor da Divisão de Educação, a manter contato com o governador do Pará, no sentido de obter vagas para interná-los no Reformatório Educacional de Menores, na Ilha de Cotijuba. Firmado o convênio, os moleques arruaceiros, brigões e surrupiadores do bem alheio sumiram das ruas de Macapá. Daí em diante, bastava alguém ver um menor praticando desatinos para dizer: “ta doido pra ir pra Ilha de Cotijuba”.


Matemático tucujú

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Em 9/5/1795, o macapaense Mateus Valente do Couto bacharelava–se em Matemática na Universidade de Coimbra. Fora a Portugal, escolhido pelo governo Luso, para iniciar o curso de Medicina, embora demonstrasse fortes inclinações pela ciência das grandezas e formas. Iniciou o curso primário em Macapá, completando – o em Belém, onde fez o curso secundário com louvor, conquistando o apreço de seus mestres e gestores públicos. Não se podia admitir que um jovem inteligente e promissor, de apenas 19 anos de idade permanecesse na Amazônia, desperdiçando tanta potencialidade. Instigado pelo mestre Diogo Inácio de Pina de Manique, Intendente de Policia do Reino a cursar Matemática, Mateus Valente do Couto aceitou o financiamento do referido curso, mas não largou a medicina.

Ao bacharelar-se em Matemática, o ilustre macapaense recebeu como prêmio à sua competência, em 1800, a nomeação para integrar o corpo de magistério das Academias Reais de Marinha e Guardas-Marinha de Portugal, sendo promovido ao posto 1º tenente. Antes da nomeação, atuou como ajudante e partidor do Real Observatório Naval, instituição onde freqüentou o curso de Arquitetura Naval e Desenho e que dirigiu anos mais tarde. Na época, um seleto grupo de brasileiros participava e mesmo orientava a obra de reforma espiritual vigente em Portugal. Em 1806 foi nomeado 2º Tenente da Marinha de Guerra de Portugal. Quando em 1807 as tropas Imperador Napoleão Bonaparte invadiram Portugal, Mateus Valente do Couto tinha o posto de capitão, sendo um dos suportes para resistir ás ações dos franceses. Desde 1803 era integrante do Corpo de Engenheiros Militares, catedrático na Academia da Marinha, Diretor Interino e Titular do Real Observatório Naval e regente da cadeira de Astronomia Teórica de Navegação.

Em 1820, assistiu o retorno da família real a Portugal. Foi Deputado, Conselheiro de Estado, Sargento-mor do Corpo de Engenheiros e depois Coronel, posto no qual foi aposentado. Permaneceu como Diretor do Real Observatório Naval até morrer, a 3/12/1848, aos 78 anos de idade.Também era membro de diversas sociedades cientificas portuguesa e estrangeiras.Publicou várias obras, entre elas mencionamos: Instruções e Regras Práticas Derivadas da Teoria da Construção, Arqueamento, Carregação e Manobras do Navio; Tratado de Trigonometria; Princípios de Óptica, Astronomia Esférica e Náutica; Breve Exposição do Sistema Métrico e Decimal e Matemática Superior.Nosso ilustre conterrâneo descendia, pelo lado materno, dos bravos lusitanos que viviam na fortaleza de Mazagão, no Marrocos.

A carreira profissional de Mateus Valente do Couto foi esplendorosa em terras lusitanas. Com irrefutável mérito foi eleito para a Real Academia de Ciências e nomeado Conselheiro de Estado, atingindo o posto de Sargento–mor do corpo de Engenheiros do Reino e condecorado com o hábito militar. Em 1820, foi eleito para, na condição de deputado da Amazônia, reapresenta-la, entre outros nascidos na região, no Segundo Parlamento que se reunia em Lisboa. Os estudos de matemática que ele desenvolveu, foram publicados em vários ensaios e obras de maior tomo sobre Matemática Superior, que renovaram o estudo desta ciência em Portugal. Quando o Brasil tornou-se independente, os gestores públicos do Pará freqüentemente recorriam aos préstimos de Valente do Couto, que era considerado como legitimo representante amazônida nas terras de além mar.Mateus Valente do Couto nasceu em Macapá, no dia 19/12/1770, filho de Antônio Diniz do Couto Valente e de Margarida Josefa da Fonseca. Seu pai, capitão de artilharia e Inspetor da construção da Fortaleza de São José, faleceu quando o garoto tinha quatro anos de idade. O tio, Luiz da Fonseca Zuzarte, amparou a família e cuidou da educação do sobrinho. A ida de Mateus para Portugal decorreu de uma escolha empreendida pelo Capitão-de–Fragata, Francisco de Souza Coutinho, realizada entre estudantes mais aplicados.

A seleção dos dois eficientes alunos concluintes do curso secundário fora determinada pelo governo português, como forma de preparo médicos para a Amazônia. No momento em que a cidade de Macapá completa mais um ano de sua elevação à categoria de vila, lembramos a epopéia deste ilustre macapaense, que a despeito de inúmeros contratempos, não se deixou abater pelas vicissitudes da vida, tornando-se um exemplo para a posteridade.


Seu Manuel, o popular “Pau Furado”

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Moreno, corpo esguio e rosto marcado pelo sofrimento, assim era o seu Manuel, um deficiente físico que vivia da caridade pública na cidade de Macapá. Morava em um prédio que fora construído pelo governo do Território Federal do Amapá para abrigar o “Restaurante dos Operários” e servir de abrigo aos que vieram de outras plagas para trabalhar na construção de diversos prédios públicos e que viviam em alojamentos precariamente edificados. Os trabalhadores permaneciam naquele local pelo tempo necessário para construírem suas casas em lotes que a Divisão de Terras e Localização distribuía.

O restaurante acabou sendo rotulado de Barracão dos Imigrantes, ficava na esquina da Rua São José com a Avenida Professora Cora Rola de Carvalho. Pelo centro dessa segunda via pública passava a tubulação do primeiro sistema de esgoto de Macapá. A área era tão alagada que houve foi preciso construir-se pequenos pilares para manter os tubos fora do lamaçal. No inicio seu Manuel usava apenas uma grossa bengala para sustentar a mudança de passo da perna esquerda. Depois se fez imprescindível trocar a bengala por uma muleta relativamente desgastada para poder se deslocar, haja vista que a atrofia da perna esquerda se agravara. Quase não falava e a dentição lhe era escassa.

A despeito de ser deficiente físico, seu Manuel caminhava bastante. Seu ponto preferido para sentar-se e ver o tempo passar era a calçada da residência da senhora Sofia Mendes Coutinho, situada no canto da Avenida General Gurjão com a Rua São José. Ali ficava horas a fio observando tudo que se passava no centro histórico de Macapá. À tarde, quando a maré enchia por volta das 16 horas, seu Manuel deixava a calçada e rumava para o trapiche major Eliezer Levy. Com muito aprumo caminhava sobre a longa ponte até alcançar o ancoradouro frontal. Á época existia na cabeça do trapiche um abrigo coberto destinado a passageiros e cargas miúdas. Era o local onde seu Manuel ficava fitando as águas do Rio Amazonas e acompanhando a chegadas dos reboques a vela provenientes da região das ilhas do Pará, que traziam açaí, frutas e peixe. Tudo era vendido rapidamente aos costumeiros fregueses, principalmente às mulheres amassadeiras do nosso rico e gostoso “petróleo”.

À conta da caridade dos caboclos seu Manuel sempre voltava para o barraco com alguns peixinhos frescos, suficientes para o preparo de um reanimante caldinho. Ele também podia ser encontrado sentado na calçada da Igreja de São José proseando com o amigo Ponciano ou sobre a panela da rede de esgoto da Avenida Cora de Carvalho. Todo mundo se admirava de o ver escalando aquele objeto alto sem pedir a ajuda de terceiros. As crianças que tão bem conheciam seu Manuel não lhe faltavam com o respeito. Algumas evitavam passar perto daquele cidadão desvalido porque os próprios pais diziam que iriam chamar o “Pau Furado” caso os filhos não se comportassem direito. A mesma coisa falavam em relação ao senhor Benedito Lino do Carmo, o Congó. A molecada da Matriz até que tentava tirar um dedo de prosa com seu Manoel, mas ele falava meio embrulhado e somente as pessoas pacientes conseguiam entendê-lo. Se naquele tempo, os políticos distribuíssem dentaduras, a pronúncia do “Pau Furado” seria melhor. Nunca consegui saber de que localidade veio seu Manoel. Algumas pessoas diziam que ele era proveniente da ilha do Marajó e teria contraído paralisia infantil. A origem do seu apelido e o complemento do nome de batismo jamais foram descobertas. Seu Manuel detestava ser apelidado.

No tempo de manga ele fazia a festa. Primeiramente amassava bem a fruta. Depois, chupava a poupa, devorava a casca e fazia um malabarismo tremendo com o caroço dentro da boca. Ao ser jogado fora, o caroço estava branquinho da silva. Seu Manuel residiu no Barraco dos Operários até morrer, no final da década de 1960. O propósito do Governador Ivanhoé Gonçalves Martins em melhorar o aspecto urbano de Macapá mudou completamente o habitat do Pau Furado. O prédio que o abrigava encontrava-se praticamente desativado e não servia mais refeições. Os alimentos necessários a subsistência de seu Manuel continuavam a ser dados por pessoas caridosas, entre elas a Alice Gorda que na época gerenciava um hotel. Foi a Alice Gorda, nossa eterna Rainha Moma, quem providenciou o sepultamento daquele homem que tanto sofreum até desencarnar do verbo.


Felipe Patroni, mente em ebulição

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O paraense Felipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, natural de Acará, onde nasceu em 1798, deixou seu recanto natal em 1816, para residir em Belém, embora tivesse em mente obter uma oportunidade para ir estudar Direito em Portugal. Era filho do alferes Manoel Joaquim da Silva Martins e afilhado do capitão de fragata Felipe Alberto Patroni, do qual herdou o nome. No mesmo ano em que se estabeleceu na capital do Pará, Felipe Patroni embarcou para Lisboa, seguindo depois para Coimbra, matriculando-se em sua famosa universidade. Aderiu às ideias iluministas e passou a embalar o sonho de dar novos rumos à política Vicente na Província do Pará. Aportou em Belém em janeiro de 1822, levando em sua bagagem uma impressora comprada na Imprensa Nacional de Lisboa, contando com a sociedade do tenente coronel Simões Cunha e tenente de milícia José Batista Camecram. Instalou a impressora na via que hoje tem o nome de Tomázia Perdigão.

No dia 1º/4/1822 Felipe Patroni fundou “O Paraense”, o primeiro jornal da Amazônia. A edição inicial circulou no dia 22/5, defendendo uma Constituição paraense. Também defendia a Independência do Brasil e a liberdade de imprensa. Antes deste feito, quando ainda residia em Lisboa, teve a primazia de ser o primeiro a falar na Assembleia Constituinte Portuguesa, no dia 22.11.1822, na Sala das Cortes, na presença do rei D. João VI. Proferia contundente discurso sem poder concluí-lo devido à interferência dos bajuladores do monarca. Rogava a D. João a adoção de um plano de eleições, contendo normas para escolher a nova Junta Governativa do Pará.

O jornal português “Indagador Constitucional” publicou o seguinte texto: “Um deputado deverá corresponder a cada 30 mil almas, entrando neste número os escravos, os quais mais que ninguém devem ter quem se compadeça deles, proporcionando-lhes um sorte mais feliz até que um dia se lhe restituam seus direitos”. Fez isso na condição de delegado da Junta Provisória do Pará. O jornal “O Paraense” contou com a circulação de 70 edições, mas silenciou a partir de fevereiro de 1823. O Brasil era independente, mas a Província do Pará não a aderiu, mantendo seus laços com Portugal. O jornal fundado por Felipe Patroni infernizou a vida dos governantes do Pará. Num determinado momento, as críticas veiculadas pelo jornal abalaram a estrutura governamental. Seus titulares recorreram ao tenente coronel Simões Cunha, sócio de Felipe Patroni, para fazer sumir os tipos de metal utilizados na impressão do jornal. Simões Cunha se prestou a atender a solicitação dos governantes, garantindo o encerramento das atividades do periódico. Para surpresa geral. O Paraense voltou a ser impresso, acentuando o grau de suas críticas. Previdente, Felipe Patroni tinha outros tipos bem guardados, pois sabia que não poderia confiar demais em seus sócios. Eles acabaram retirando-se da sociedade em troca de promoções de patente e outras vantagens pessoais. Outras tentativas para calar o jornal ocorreram. Nem a prisão de Felipe Patroni fez o jornal parar de circular. Com sua ausência, o cônego Batista Campos assumiu a direção do órgão e foi perseguido por isso.

Em fevereiro de 1823, Felipe Patroni foi preso no Forte do Castelo e neste local deveria permanecer até julgamento. Porém, acabou sendo mandado para Portugal que, pelo menos para os governantes da Província do Pará, mantinha jurisdição em seu território. Livre da prisão, retornou para Brasil e passou a residir no Rio de Janeiro, sede do governo imperial do Brasil. Sua mente já estava mais tranquila, fato que lhe permitiu instalar um escritório de advocacia. Casou com a prima Maria Ana, em 1929, indo exercer o cargo de juiz de fora de Niterói. Em 1842, alimentando pretensões políticas, retornou para Belém e conseguiu eleger-se deputado na Assembleia Nacional. Teve notável atuação na legislatura de 1842 a 1845, representando o Pará, mas não obteve novo mandato. Em 1851 vendeu seus bens e escravos para residir em Lisboa, onde faleceu no dia 15/7/1866, com 68 anos de idade. A cidade de Belém lhe prestou uma justíssima homenagem, declarando-o patrono da praça localizada na Cidade Velha à margem da avenida 16 de novembro.


Torre da Vigia do Rio Curiaú

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Em 1740, o Governador do Maranhão e Grão Pará, Capitão General João de Abreu Castelo Branco, deferiu uma proposta do Capitão Antônio Gonçalves para que construísse as suas expensas, uma fortificação na foz do Rio Curiaú, querendo apenas ser o seu comandante e superintendente dos serviços de fortificação do Grão Pará, com posto vitalício. Como o deferimento implicava em despesas para a Coroa Portuguesa, o governador submeteu a questão à apreciação do Rei D. João V. Através da Carta Régia de 9 de março de 1740,o monarca não acatou a proposta e alegou que a Coroa não poderia correr o risco de ver repetir-se o erro de Francisco de Melo Falcão,que no século XVII se obrigara a construir quatro fortalezas no interior da colônia, executando as obras com imperfeições, utilizando material de má qualidade e sem bom acabamento.

Em Macapá já existia um reduto fortificado erguido em 1738, que se manteve operando regularmente. A obra sonhada pelo Capitão Antônio Gonçalves foi construída em 1761, na foz do rio Curiaú, sobre um estrado de madeira, com a finalidade de fiscalizar um extenso trecho do rio Amazonas, que não era avistado do reduto fortificado da Vila de Macapá. Qualquer aventureiro, que navegasse no sentido da nascente do grande caudal, o faria protegido pela mata e só seria notado quando sua embarcação alcançasse a enseada próxima a Macapá. Em 1761, ainda não havia sido edificada a Fortaleza de São José e a área sobre a qual ela está assentada era ocupada por um Forte de Faxina, construído em três meses, entre o final de abril e o dia 31 de julho de 1761, pelo engenheiro Gaspar João Geraldo Gronfelds, época em que o Grão Pará era governado pelo Capitão General Manuel Bernardo de Melo e Castro.

A função primordial da Torre de Vigia do Curiaú consistia em avisar a guarnição de Macapá sobre a aproximação de qualquer embarcação pela margem esquerda do Amazonas. O aviso seria dado pelo disparo de um tiro de canhão, como acontecia em outras vilas e cidades do Brasil. A prática durou até o final do ano de 1761, por ser julgada alarmista. Ao ouvir o som do disparo, o aventureiro retrocedia e não podiam ser perseguidos, haja vista que, na Vigia do Curiaú não havia barco artilhado.

Os canhões foram retirados e transportados para o Forte de Faxina. Outros procedimentos foram adotados. Durante o dia, uma bandeira seria hasteada. À noite, os soldados da Torre de Vigia soltariam foguetes. Sempre que a guarnição da Torre de Vigia desse um sinal, durante o dia ou à noite, um mensageiro saia à cavalo com destino a Macapá e outro cobria o percurso fluvial na canoa. O contato terrestre entre o Forte de Faxina e a Torre de Vigia do Curiaú era feito através de uma estrada vicinal,por onde,freqüentemente cavalgavam soldados que procediam incursões no arredor norte da Vila de Macapá. Os militares também caçavam escravos fugidos. O percurso por terra se estendia até o local onde despontou a fazenda de criação de gado do Alferes Manuel Antônio de Miranda, hoje identificada como Curiaú de Dentro. Curiaú é um vocábulo indígena, que significa o “comedouro dos curiás”, uma espécie de patos pequenos.

O vocábulo curuá também designa um pato com as mesmas características. Para completar o circuito, os soldados utilizavam um batelão, manejando remos e varejões. A Vigia compreendia uma casa para o corpo da guarda e uma guarita, edificada em cima de um banco de areia, numa distância de 70 braças, equivalente a 150 metros da margem. A ligação entre os dois pontos era favorecida por uma ponte de madeira. Da vigia observava-se longo trecho do Rio Amazonas, que não se vislumbrava do Forte de Faxina, em Macapá.

O comando da Vigia estava entregue a um cabo de esquadra, que tinha sob ordens alguns soldados. As instruções para emissão de avisos à Macapá foram baixadas pelo Coronel Nuno da Cunha Ataíde Verona, comandante da Praça de Macapá, a 26/10/1762. A resposta do aviso ocorreria, de dia, com o hasteamento de uma bandeira e à noite, com um tiro de canhão. Tanto a casa da guarnição, quanto a guarita das sentinelas, ficavam sobre palafitas, com altura suficiente que impedisse serem atingidas pela maré. A Vigia foi mantida em operação até 1908, quando o governo brasileiro resolveu desativar a Fortaleza de São José.Esse relato deixa bem claro o quanto é fantasiosa a propagação de que o Curiaú abrigou um quilombo.


Submarinos alemães afundados na costa do Amapá

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Kaiserliche Marine da Alemanha utilizou 1.168 submarinos na II Guerra Mundial. Cerca de 150 atuaram no litoral brasileiro e afundaram 33 navios mercantes que transportavam matérias primas para os Estados Unidos da América. Os alemães identificavam estas poderosas armas como “Unterseeboat”, que literalmente quer dizer “pequeno barco de baixo-de-água”. De forma simplifica, usavam a letra U e um número para identificá-los. Singrando as águas atlânticas, entre os Estados Unidos e o Golfo do México, os U-boats tinham o propósito de afundar navios de carga que transportavam suprimentos e material bélico dos Estados Unidos e Canadá para a Europa. Ao entrarem na guerra, os Estados Unidos fizeram uso de radar, sonar, carga de profundidade, decodificação de códices, escolta aérea e formação de comboios, diminuindo a eficácia alemã.

Em meados de 1941, começou a ser instalada a “Cintura do Atlântico”, que correspondia ao trecho de 1.700 milhas entre Natal e Dacar. O Brasil autorizou os USA a instalar bases aéreas nas cidades de Amapá, Belém, Natal e Recife e liberou-lhes os portos de Recife e Salvador. Ainda em meados de 1941, chegava a Natal a “Task-Force 3” dos Estados Unidos. Em represália, os alemães atacaram navios brasileiros na costa americana e no Caribe. Foram a pique os navios Cabedelo, Buarque, Olinda, Arabutan, Cairu e Parnaíba. Em águas brasileiras, o submarino italiano “Bergarigo” torpedeou sem sucesso o navio Comandante Lira.Barcos corsários camuflados de navios mercantes supriam as necessidades dos submarinos alemães. Havia U boats que só faziam o abastecimento dos outros e eram chamados de “milchkuh” ou vaca leiteira. A Força do Atlântico Sul, criada pelos americanos estava sediada em Recife. A ação contra os U-boats destruiu nove unidades alemãs, duas delas na costa do Amapá: U-590 e U-662.O U-Boat-590, comandado pelo capitão OBLT Werner Kruer vinha sendo caçado porque afundara o navio Pelotas Lóyde. Navegava na superfície ao largo da costa do Amapá, em alto mar, dia 9/7/1943, quando o avião Catalina PBY-3, do Esquadrão PV-94 sediado em Belém, que patrulhava a região norte o avistou a 200 milhas do litoral amapaense. Ao perceber a aproximação do avião o submarino emergiu e desapareceu por cerca de uma hora. Logo depois retornou á superfície, ocasião em que o catalina mergulhou sobre ele e lançou suas bombas, atingindo-o em cheio. O U-590 foi ao fundo no ponto demarcado por 3º e 22’ de Latitude Sul e 48º, 38’ de Longitude Oeste. Restaram na superfície do oceano 5 homens e vários destroços.

A tripulação do Catalina jogou ao mar várias balsas, mas apenas 2 alemães conseguiram alcançá-las. Horas mais tarde eles foram recolhidos por um navio e levados para os Estados Unidos e submetidos a interrogatórios.O U-Boat-662 navegava ao largo da costa do Amapá, no dia 21/7/1943, comandado pelo capitão OBLT Heinz-Eberhard Muller, a espreita do comboio T3-2, que seguia com destino aos Estados Unidos. Ele já havia afundado três navios. O Catalina 94-P-4, que dava cobertura aos navios brasileiros avistaram o submarino a 4 milhas de distância e se posicionou para o ataque.

O submarino imediatamente acionou a artilharia antiaérea, conseguindo ferir o radiotelegrafista do avião. O aparelho iniciou um pique raso, já atingido pelo fogo inimigo. Mesmo com problemas no estabilizador vertical e na cantoneira exterior do casco da estação radiotelegráfica, o Catalina conseguiu despejar suas bombas sobre o submarino, atingindo em cheio o casco a bombordo, da torre de comando à frente da proa. Esta se elevou sob espessa cortina de fumaça e o submarino afundou sob mancha de óleo. Pouco tempo depois, quatro tripulantes, entre eles o capitão foram vistos na superfície do oceano.

O Catalina lançou balsas, para onde nadaram os sobreviventes que foram resgatados pelo navio USS – S Siren e levados para os Estados Unidos. Bastante danificado o catalina 94-P-4 retornou a Belém com problemas hidráulicos e de comunicação pelo rádio. O submarino foi a pique na posição Latitude 3º 56’ Sul e Longitude 48º 46’ Oeste.


Festa Civica no dia do Laudo Suiço – 1ª parte

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No dia 1º de dezembro de 1949, ocorreram em Macapá as cerimônias alusivas à data de assinatura do Laudo de Berna, assim chamada a decisão arbitral do presidente da Confederação Helvética, tomada há 49 anos, que assegurou ao Brasil os direitos sobre as terras compreendidas entre a margem esquerda do Rio Araguary e a margem direita do rio Oiapoque, que a França teimava em dizer que lhes pertenciam. Às 7h:30min foi rezada missa na Igreja de São José. Às 8 horas, no parque esportivo da praça capitão Augusto Assis de Vasconcelos (Veiga Cabral), houve demonstração de Educação Física, realizada pelos alunos e alunas do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, sob a direção do então sargento Irineu da Gama Paes e da professora Wanda de Abreu Lima, instrutores de cultura física de nossos estudantes.

A exibição de ginástica rítmica compreendeu números de sueca e exercícios de bastão, tudo feito com a máxima precisão. Terminada a demonstração de educação física, as pessoas presentes foram convidadas a se dirigirem ao prédio do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, onde seria realizada a exposição de prendas e trabalhos manuais dos alunos do citado educandário. Às 9 horas o governador do Território Federal do Amapá, Raul Montero Valdez cortou a fita simbólica que vedava a entrada da sala de aula onde os trabalhos estavam expostos, franqueando a visitação pública. A diretora do Grupo Escolar, professora Maria Lúcia Brasil e o Dr. Marcilio Felgueiras Vianna, Diretor da Divisão de Educação, foram bastante cumprimentados pela bela iniciativa. As professoras de prendas Clarisse Lobo e Iza Pinto de Almeida receberam calorosas saudações dos convidados e estudantes. Em seguida à visitação aos trabalhos da Exposição de Prendas, o governador convidou a todos para dirigirem-se ao Cine Teatro Territorial onde haveria uma solenidade para premiar os melhores alunos do Grupo Escolar.

A cerimônia foi conduzida por uma meda diretora composta pelo governador Raul Montero Valdez; dr. Jarbas Amorim Cavalcanti, Juiz de Direito da Comarca de Macapá; dr. Marcilio Felgueiras Vianna,Diretor da Divisão de Educação;professora Maria Lucia Sampaio Brasil,diretora do Grupo Barão do Rio Branco; Sr. Mário Dias Teixeira,chefe do Serviço de Fomento Animal da Divisão de Produção e Pesquisa;Sr. Felipe Gillet,chefe do Serviço de Fomento Vegetal da mesma Divisão de Produção, representando o diretor do órgão e o Sr. José Serra e Silva, Prefeito Municipal de Macapá.Inicialmente foi realizada a entrega de prêmios aos alunos que lograram maiores médias nos exames finais: Pedro Maurício Naice Córdoba, do Jardim de Infância, com a média 70; Maria Duarte da Costa, da Alfabetização, com média 100; Fernando Dias Maciel, da 1ª série primária, com média 90; Maria de Nazaré Cunha,da 2ª série primária,com a média 75; Raimundo Amanajás de Brito, da 3ª série primária, com a média 85; Maria Stela Barbosa da Silva, da 4ª série primária, com a média 77;Regina Coeli Barriga Brito, da 5ª série, com média 71. Depois passou a ser feita a entrega dos boletins escolares, destacando-se os primeiros lugares obtidos nas diversas séries, com citação de suas professoras: Na época, havia 10 turmas de alfabetização funcionando no Grupo Escolar Barão do Rio Branco.

Os alunos com maior aproveitamento escolar durante o ano letivo de 1949, foram os seguintes: Antônio Almeida dos Anjos, média 76, professora Raimunda da Silva Virgolino; Sara Antônio Tito, média 94, professora Oscarina Santos; Getúlio do Espírito Santo Mota, média 86, professora Margarida Marques da Silva; Lúcia Tavares Souza, média 98, professora Elizetre Aymoré; Domitila Eufrásia dos Santos, média 87, professora Maria Cristina Botelho; Maria José dos Santos, média 87, professora Maria Nazaré Pinheiro; João dos Santos Nascimento, média 98, professora Elza Cunha; Francisco de Lima Soares, média 91, professora Raimunda Mendes Coutinho; Aurelinda Pereira da Costa e Amiraldo Elleres Nunes Filho,média 90, professora Odila Prexedes; Ivone Cruz da Silva, média 91, professora Maria Doroty Souza.( seqüência na próxima edição)


Tal é o dia do batizado

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Os filhos do casal Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier, seis ao todo, ou um rosário como dizia a matriarca da família, levavam a vida na base do vento a favor. O grupo recebia a intromissão de um moleque negro chamado Simplicio, amigo fiel de Joaquim José. O recanto da família era a Fazenda Pombal, à margem do rio das Mortes e próximo a Vila de São João Del-Rei, nas Minas Gerais. A fazenda passou a enfrentar problemas econômicos a partir de 1753, quando o ouro retirado à beira dos córregos e na lombada da colina começou a rarear. Metade dos escravos foi vendida, mantido o restante dos serviçais para tocar a lavoura do milho e da cana-de-açúcar. A cobrança excessiva de impostos contribuía decisivamente para a decadência da Fazenda Pombal. Domingos da Silva Santos não queria que os filhos se tornassem simples trabalhadores braçais da fazenda. Pretendia dar-lhes instrução e meios de vida menos penosa. Estudos em seminários era coisa comum na capitania de Minas Gerais. Seguindo o costume, Domingos Xavier, o filho mais velho, foi mandado para o seminário de Mariana. No princípio de 1754, Domingos da Silva Santos, procurou o mulato Mestre Lucas e matriculou os filhos Antônio e Joaquim José na singela escola que o amigo mantinha em São João del-Rei, instalada próxima a igreja de São Francisco. Mestre Lucas, que havia cursado as aulas do seminário de Mariana, ensinava as primeiras letras e rudimentos de música. Antônio tinha oito anos, Joaquim José, sete. Seis meses depois da matrícula, Joaquim José já lia e escrevia como gente grande, sendo apontado por Mestre Lucas, como exemplo a seguir. O mulato dizia que Joaquim José iria longe. Quanto aos outros alunos, sem palmatória e vara de marmelo não evoluíam. Um dia, Joaquim José regressava para casa quando viu, na saída da vila de São João del-Rei, sobre um poste de madeira plantado à margem do córrego do Lenheiro, a cabeça ensangüentada de um negro, de olhos abertos e língua pendente. A cabeça fora de um escravo condenado à forca porque agrediu o senhor, depois de chicoteado. Os olhos arregalados do negro pareciam seguir os transeuntes. A cena deixou o menino aterrorizado e enfermo por alguns dias. Ao fim de uma semana o pai foi levá-lo a escola, uma vez que ele se recusava a ir sozinho com o irmão mais novo. Ao passar pelo poste onde estava a cabeça do negro, Joaquim José verificou que os urubus já haviam devorado quase tudo. Em 1755, Domingos da Silva Santos foi escolhido para as funções de vereador à Câmara da Vila de São José, vizinha a São João del-Rei. Não podia fazer quase nada. Mas, o dinheiro ajudava bastante. Naquele ano ocorreu o terremoto de Lisboa. A Coroa desencadeou o arrocho de impostos, destinado à reconstrução da capital Portuguesa. Joaquim José computou mais uma revolta íntima contra o poder lusitano. Para completar sua indignação, perdeu a mãe em 1755 e o pai, em 1757. Os irmãos Domingos e Antônio estudavam no seminário de Mariana. Em 1759, a irmã Maria Vitória casou-se e foi morar na povoação de Santa Rita do Rio Abaixo, cerca de três léguas da Fazenda Pombal. O adolescente Joaquim José, agora, somava 14 anos de idade e dirigia com sucesso a Fazenda Pombal.

Em 1767, Joaquim José deixou a fazenda e passou a andar cruzando sertões em todos os sentidos. Fazia de tudo para sobreviver. Mas, a vida de mascate não lhe trouxe fortuna. Era ruim de negócio. Doía a consciência sempre que o lucro obtido não se lhe afigurava justo ou honesto. Passou a ser pesquisador de outro e orientador de lavras. Fez muita gente nadar em prosperidade, enquanto ele mesmo, pouco auferia. O jovem idealista, Joaquim José, ganhou o apelido de Tiradentes, depois que passou ao ofício de dentista. “A esta habilidade de arrancar e colocar dentes juntou a de curar certas moléstias, principalmente da pele, por meios de ervas e raízes, e ainda a de realizar pequenas operações cirúrgicas”. Vagava pelos sertões incessantemente, consertando aqui uma boca, sarando ali uma ferida na perna, lancetando um tumor acolá. O novo ofício, rotulado pelo povo como “Tiradentes”, lhe valia pouco, porque sentia pena dos clientes. Joaquim José foi preso pela primeira vez, na Vila de Minas Novas, por ter agredido um português que chicoteava um escravo. Veio a sua mente a lembrança do escravo degolado em São João del-Rei.

Por volta de 1778, residindo no centro da Capital de Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier era, então, alferes do Regimento de Dragões. Tinha 33 anos de idade. Foi servir em Vila Rica , atual Ouro Preto. Usava vasta cabeleira e densa abarba. Era loquaz e alegre, passando por momentos de tristeza e silêncio, com o olhar perdido na distância. Fronte ampla, olhos brilhantes gestos decisivos, corajoso, dissimulado e extremamente generoso. A fama da sua valentia alcançara o próprio reino, de onde se expediram ordens para que lhe fosse entregue a ronda da serra da Mantiqueira, que os bandoleiros infestavam, tornando perigosas as viagens entre Vila Rica e o Rio de Janeiro. Também fazia a exploração dos sertões para saber e indicar se havia ouro ou não. O soldo que recebia não trouxe a Tiradentes a tranqüilidade com que contava. Apesar de ter livrado a serra Mantiqueira dos bandoleiros, nunca foi promovido. Os abusos de poder das autoridades o irritavam. Pediu licença do Regimento de Dragões e foi tentar a mineração. Pouco depois voltou à milícia, cada vez mais indignado com os governantes. Em 1788, no final do mês de março, ele partiu para o Rio de Janeiro, onde conheceu o Doutor José Álvares Maciel, natural de Vila Rica que estudava em Coimbra. No primeiro encontro o assunto Independência do Brasil veio à baila. Voltando a Vila Rica foi imaginando o Brasil independente. Pensou na bandeira: “Há de levar um triangulo!“. Um triângulo que representa a Santíssima Trindade. A idéia foi crescendo. Já não era discutida reservadamente entre Tiradentes e Álvares Maciel, mas também com Tomás Antônio Gonzaga, os Padres Toledo e Rolim, Cláudio Manoel da Costa e Coronel Inácio José de Alvarenga Peixoto. Alvarenga e Cláudio que tão bem conheciam o latim discutiam o dístico a ser adotado. De inicio, pensaram em “Libertas Oequo Spiritu”, logo abandonado, visto que constava na bandeira dos americanos e ingleses. “Evoluíram para Art Liberto, Art Mihil” e depois para “Libertas quae sera tamen”… (Liberdade ainda que tardia). A sugestão foi de Alvarenga Peixoto, aprovada por todos. A bandeira corresponderia a um retângulo branco, tendo ao centro um triângulo vermelho e abaixo dele o dístico “Libertas qual será também”. A senha instituída por imposição de Tiradentes era: “Tal dia é o Batizado”. A divulgação do movimento cresceu bastante, alcançando Tijuco, Serro, Montes Claros, Vila São José, Vila São João, Laje, Paraopeba, Tamanduá, Campanha, Baependi, Juiz de Fora, Matias, Barbosa, Prados, Borda do Campo, Sabará, Mariana, Congonhas do Campo e Carijós. Tudo ia bem até a adesão do Coronel Joaquim Silvério dos Reis, que denunciou o movimento em troca de regalias pessoais. (Continua no próximo domingo)