Macapá deixa de ser povoação

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Aproveitando o ensejo da viagem que realizou a Capitania de São José do Rio Negro, onde foi tratar das questões fronteiriças de Portugal com a Espanha, o Capitão General Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Governador do Estado do Grão Pará, colocou em prática o plano de elevar as povoações mais expressivas à condição de vila e as aldeias indígenas ao nível de povoados. Antes de aportar em Macapá, Mendonça Furtado parou na aldeia dos índios Urucará, onde o Padre Antônio Vieira havia introduzido índios nhengaibas, perseguidos por escravagistas. No dia 24 de janeiro de 1758, a aldeia Urucará foi elevada à categoria de vila e testemunhou a instalação do Senado da Câmara. A denominação mudou para Portel. A comitiva do governador chegou a Macapá dia 1º de fevereiro e as delineações do espaço que iria abrigar a vila ocorreram imediatamente. Este espaço corresponde as Praças Veiga Cabral (Largo de São Sebastião) e Barão do Rio Branco (Largo de São José/São João).As denominações dadas aos dois largos traduzem bem a intenção de Mendonça Furtado em homenagear não apenas os santos, mas também seu irmão Sebastião José de Carvalho e Melo e o Rei D. José I. é claro que o delineamento em questão não passou de uma simples escolha, sem compreender a limpeza total da área, que por ser de cerrado facilitou a empreitada. No dia dois de fevereiro, a cerimônia de posse dos membros do Senado da Câmara certamente aconteceu no núcleo pioneiro de Macapá. Nela havia instalações diversas e a população ali residia. Devido ao porte que Mendonça Furtado quis dar a Macapá, o Senado da Câmara foi formado por quatro membros: Francisco Espíndola Bittencourt, que exerceria a presidência e seria o Juiz Ordinário; Carlos de Melo, acumulando as funções de Procurador do Executivo e Tesoureiro; Thomé Francisco Vieira e Manoel José Paes como vogais. Todos eram açorianos, brancos e letrados. Finda a cerimônia de posse, a comitiva do governador, acrescida por militares do reduto fortificado e por populares deu vivas ao Rei de Portugal e desejou-lhe longa vida. A ligação entre o platô da fortificação e a área do atual centro histórico era feita através de uma ponte de madeira construída sobre o igarapé do Igapó e por uma estrada aterrada. A abertura de vias públicas data de 1761, correspondendo a nove ruas, nove travessas e passagens, dois largos maiores e um largo menor.

No dia 4 de fevereiro houve missa campal celebrada pelo bispo Miguel de Bulhões e concelebrada pelo Padre Miguel Ângelo de Morais. Encerrado o ato litúrgico o bispo do Grão-Pará assentou a pedra fundamental da Igreja de São José. A seguir, o Governador Mendonça Furtado convidou o Ouvidor Geral Pascoal Abranches Madeira Fernandes a conduzir o cerimonial que redundaria na declaração de elevação do povoado à categoria de vila, que o fez de maneira formal e marcante, a começar pela ereção do pelourinho, símbolo das franquias municipais. Em Portugal “o pelourinho era um pilar de pedra, de estilo burlesco, mas às vezes formoso. Servia de poste para o condenado receber açoites, como lugar de execução, do qual penduravam o criminoso, ou contra o qual se estrangulava e decapitava.” Na Amazônia bastava um grosseiro tronco de madeira com duas travas cruzadas no topo ou argolas. Aos romanos o denominavam pilori e o tinham como símbolo da autoridade e da justiça. O termo pilori evoluiu para pelouro, que era cada um dos ramos da administração de uma vila ou de uma cidade afeta aos vereadores da Câmara Municipal, onde se reuniam os vogais representantes do povo e entre eles o Juiz Ordinário e o Procurador. A franquia de que desfrutavam as vilas consistia na liberdade e direito de cobras impostos e ministrar a justiça em primeira instância. O vogal era o representante paritário da classe popular e tinha direito a voto. A direção da segunda vila a ser instalada por Mendonça Furtado foi exercida pelo Senado da Câmara, cujo prédio foi construído ao lado direito da Igreja, no espaço que hoje abriga a Biblioteca Estadual Elcy Rodrigues Lacerda.

Pouco a pouco, a contar de 1761, as casas destinadas aos moradores da vila e os prédios públicos foram sendo construído em taipa-de-mão. A área inicialmente habitada era delimitada pelas ruas Formosa (Cândido Mendes) e da Campina (Tiradentes) e pelas Travessas do Lago (General Gurjão) e da Estrela (Presidente Vargas). Por trás da Igreja de São José, que sempre ficou de frente para a rua São José, passava a rua dos Inocentes, interligando as travessas do Lago e da Estrela. O largo que demorava após a igreja também ficou rotulado pelo povo como Largo dos Inocentes. Com o passar do tempo, o quadrado compreendido entre a Rua São José, a rua da Campina e as Travessas do Lago e da Estrela tornou-se o ponto mais habitado de Macapá. O povo dizia que ali tinha tanta gente que mais parecia um formigueiro. A expansão no sentido do rio Amazonas ocorreu muito tempo depois. Neste dia 4 de fevereiro de 2019, comemoramos os 261 anos da elevação do povoado de Macapá à categoria de vila. Se contarmos o tempo desde o ano de 1751, período em que Macapá passou na condição de povoado, a existência de colonizadores nesta área sobe para aproximadamente 268 anos.


O homem que adorava palavras novas

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Em qualquer lugar deste mundo há pessoas que falam pelos cotovelos, são ávidas em dar noticias quentinhas e costumam usam palavras que ouvem nos meios de comunicação, mas nem sempre nem sempre sabem o que elas significam. Gente com essas características existem pelo Brasil inteiro e algumas delas já transitaram pela vida em terras do Amapá. A avidez em contar novidades, sem procurar saber se o que lhe contavam tinha algum cunho de verdade, acabou rotulando alguns cidadãos como “mentira fresca”, “sabe tudo”, “orelhudo”, “boateiro”, etc. Na década de 1960, na cidade de Amapá, aconteceu um fato bem interessante, envolvendo um sujeito que parecia ter a língua grande demais. Em tudo ele metia sua “colher enferrujada”, dando palpites e formulando acusações a terceiros sem ter as provas cabais. Certo dia, um incêndio ocorrido na Prefeitura Municipal de Amapá destruiu grande parte do arquivo da comuna, inclusive documentos contábeis.

O tal sujeito nem esperou o fogo ser apagado para sair espalhando que o responsável pelo incêndio era o Prefeito Leonel Nascimento, cujas prestações de conta estavam eivadas de irregularidades. A acusação contra o baiano Leonel Nascimento era descabida e isso ficou evidente quando o inquérito policial foi concluído. Porém, no foco dos acontecimentos, o sujeito falador dizia abertamente que o prefeito era o único culpado. Familiares, parentes e amigos aconselharam o presepeiro a parar com as bobagens que andava falando. De nada adiantaram os conselhos e as ponderações. Cada vez mais incisivo, o indivíduo destilava seu veneno sem medir as conseqüências. Seu ponto preferido para contar novidades duvidosas era um bar que ficava no inicio da Avenida Antônio Lemos, voltado para a praça, no canto oposto onde ficava o prédio da Prefeitura de Amapá.

Como costuma acontecer, sempre que um incêndio ocorre em órgão público, a polícia instaura um processo para apurar as causas e a responsabilidade do sinistro. Esta providência foi adotada em Amapá, mas ninguém se ariscou a atuar como testemunha de acusação, nem mesmo o contumaz orelhudo. No período em que os policiais passaram na cidade o boateiro andou sumido, provavelmente enfornado em fazenda de familiares. Depois da passagem dos policiais, chegaram à cidade de Amapá, sem qualquer alarde, os três membros de uma comissão de inquérito administrativo. À noite, no bar mais freqüentado da cidade, os integrantes da comissão tomavam um lanche quando apareceu o boateiro. As pessoas naturais de Amapá sabiam que havia forasteiros no bar, entretanto não tinham a menor idéia do motivo da visita. Como todo sujeito presepeiro gosta de jogar para a platéia, não demorou muito para que o orelhudo começasse a fazer suas costumeiras acusações contra o prefeito. Instigado por seus conterrâneos, ele até encenava o modo como teria agido o gestor municipal. Até parecia que o boateiro estava no arquivo da prefeitura quando o fogo começou.

Os membros da comissão de inquérito administrativo ouviam tudo com absoluta discrição, rindo com os jeitos e trejeitos que o acusador fazia. Em dado momento, o presidente da comissão perguntou ao tagarela se ele era homem suficiente para confirmar as denuncias caso fosse “inquirido” a fazê-lo. Radiante com o termo inquirido, que até aquele momento desconhecia, o tagarela se limitou a dizer “unrum”.

Diante da resposta, feita na presença de testemunhas, o presidente da comissão esclareceu o motivo de sua presença em Amapá e disse ao tagarela que ele seria intimado a depor. Pensando que iria sair bem do sufoco, o tagarela empregou uma palavra nova que tinha ouvido há pouco tempo: “assim não mestre, estou anexo ao caso”. E foi anexo mesmo, embora julgasse que o significado do termo fosse “estou fora”. Quem não ficou anexo foi o prefeito Leonel Nascimento que teve sua inocência reconhecida pelo Juiz de Direito da Comarca de Amapá. Leonel nasceu em Ilhéus/Bahia, no dia 13/4/1922. Chegou ao Amapá em outubro de 1945.Faleceu dia 25/1/2019, prestes a completar 97 anos de idade.Deixou páginas apinhadas de bons serviços prestados ao Amapá.


Cuidado com o navio dos cabeludos

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Durante toda a minha infância, passada em Macapá, ouvi os macapaenses de mais idade dizerem aos meninos que temiam ir ao barbeiro: “cuidado com o navio dos cabeludos”. Os que migraram para cá após a implantação do Território Federal do Amapá, que não eram interioranos do marajó e regiões adjacentes nos diziam: “o barbeiro tem família”. Eu e os outros garotos escutávamos estas coisas e indagávamos o porquê deveríamos ter cuidado com o tal navio. Um dia perguntei ao meu saudoso pai, Francisco Torquato de Araújo, qual a função da embarcação que a molecada temia e que nunca aparecia. Ele me contou que não houve propriamente um navio com o propósito de pegar os meninos que não gostavam de cortar o cabelo e sim a execução de campanhas de atendimento médico e social ás pessoas carentes que residiam na Ilha do Marajó, Macapá, Mazagão e baixo-amazonas.

A campanha fazia parte do governo itinerante instituído pelo Interventor Federal no Pará, Magalhães Barata, que visitava frequentemente as vilas e cidades interioranas levando médicos, enfermeiras, odontólogos, barbeiros, servidores públicos dos serviços de expedição de carteiras de identidade, carteira de trabalho, certidões de nascimento, casamento, óbito e muitos medicamentos. Este tipo de campanha de saúde pública foi organizado nos moldes das campanhas militares, haja vista que o povo tinha o costume de não prestigiá-las. Assim, todos eram obrigados, pela força, a se submeterem as práticas sanitaristas.

Os portadores de doenças contagiosas eram afastados dos sadios e ficavam praticamente encarcerados, caso contrário fugiam. Esta maneira de agir da população interiorana não acontecia por acaso. Até 1923, a política de saúde pública não fazia parte da agenda do governo.

No ano em referência surgiu o sistema previdenciário e foram criadas as Caixas de Aposentadoria e Pensões-CAPs. Porém, apenas os beneficiários das CAPs recebiam atendimento médico. Não havia política Nacional de Saúde. Até 1930, a assistência médica individual das classes dominantes era feita pelos profissionais legais da medicina, os chamados médicos de família.

O restante da população era atendida por entidades filantrópicas através de hospitais mantidos pela Igreja Católica e recorria à medicina caseira. Nas duas primeiras décadas do Século XX, as ações de saúde pública foram vinculadas ao Ministério da Justiça, cabendo aos estados controlar as endemias, epidemias, fiscalização de alimentos, portos e fronteiras.

Em 1930, a Saúde Pública foi anexada ao Ministério da Educação tornando-se encargo do Departamento Nacional de Saúde Pública, com foco principal nas atividades sanitárias. Criados neste ano, os sanatórios para tratamento da tuberculose e hanseníase. Em decorrência de um acordo firmado com os Estados Unidos da América, em 1942, o governo do Brasil criou o Serviço Especial de Saúde Pública-SESP, dando apoio aos trabalhadores envolvidos na produção da borracha que não eram assistidos pelos serviços tradicionais.

A campanha realizada pelo governo de Magalhães Barata foi rotulada em anos recentes como Operação Cívico-Social, ou simplesmente ACISO. Deu excelentes resultados, mas despertou a ira dos figurões da política adversária. Eles diziam que o Interventor Federal havia abandonado Belém. O jornal Folha do Norte desenvolveu intensa campanha antibaratista e acabou contagiando grande parte da população belenense. Enquanto isso acontecia, os interioranos recebiam atendimentos diversos. Até pequenas cirurgias foram feitas em pessoas que poderiam ter morrido por falta de assistência médica. Curativos, aplicação de vacinas e antibióticos, extração de dentes, cortes de cabelo, combate a piolhos, a bichos do pé e outros serviços foram prestados.

A ordem era pegar na marra os resistentes e submetê-los a ação médico-social. Os moleques eram os campeões do medo. Tiveram que ser agarrados por policiais para que os barbeiros, dentistas e enfermeiros fizessem seus trabalhos. No meio dos fartos cabelos que eles apresentavam vivia centenas de piolhos. Por isso, o corte tinha que ser feito com máquina zero, deixando apenas uma singela pastinha. O estrago que os piolhos faziam nos homens e mulher deixava os médicos abismados. Feridas em profusão havia na cabeça e na nuca da maioria das pessoas. Curioso é que as mulheres passavam óleo de andiroba e de pracaxi nos cabelos para combater os piolhos. Outras faziam uso do vinagre. Após os cortes de cabelo das mulheres, os barbeiros jogavam “neocid” na cabeça das mais atacadas pelos piolhos e a enrolavam com pano branco. Sobre as feridas os enfermeiros colocavam sulfa ou pomada São Lucas. Não foram poucos os registros de óbito de interioranos em decorrência da “febre de trincheira”. Esta denominação surgiu durante a I e a II Guerras Mundiais devido à morte de soldados atacados por piolhos dentro das trincheiras.


Histórico sobre a região do rio Cassiporé

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Segundo Robert Harcourt, a região situada entre o rio Araguary (Arrawary) e o rio Cassiporé (Cassiporough), era comandada pelo cacique Anacaiuri, maioral dos Yaos, índios da etnia caraíba. Para o geógrafo Keimes (1656), a jurisdição de Anacaiuri se estendia desde o Amazonas até o Essequibo. Por volta de 1666, os Yaos tinham aí uma habitação bela e cultivada, onde viviam cerca quarenta indivíduos.

Pelo Tratado firmado entre Portugal e França, em 1700, a região compreendida entre os rios Araguary e Vivente Pinzon (Oiapoque), passou a ser considerada neutra ou contestada. O litígio seria resolvido através de arbitramento internacional confiado à Confederação Helvética (Suíça).

A França alegava que o Rio Vicente Pinzão era, ora o Araguary, ora o Cassiporé, ora o Amazonas. O Laudo de Berna foi exarado dia 1º de Dezembro de 1900, sustentando a tese brasileira de que o Vicente Pinzon ou Pinzão é o mesmo que os índios denominavam Oiapoque (casa de Oiapim). Cassiporé é um rio que se localiza no Estado do Amapá.

Tem cerca de 320 km de extensão, dos quais 80 são navegáveis. Na foz, a costa é baixa, não se avistando do largo, por detrás do mangal. Nesse rio a pororoca faz-se sentir. Deságua no Oceano Atlântico. Seu principal afluente é o Araporé, pela margem esquerda. Também é o nome de um cabo que é o extremo Nordeste do pontal leste da barra do rio do mesmo nome.

No fim do século XVI e durante o século XVII, o território contestado, entre a margem esquerda do rio Araguary e a margem direita do rio Oiapoque era conhecido como “Província do Aracari”, compreendendo três senhorias: Arawary (Araguary), Maycary (Mayacaré) e Cocshbery (cassiporé). Essa última se estendia até os confins da Província.

Em 1900, o contestado tinha dois centros populosos diferentes pela natureza de seus habitantes e pelo gênero da indústria e comércio: o Amapá e o Calçoene.Calçoene restringia-se ao rio deste nome, ao lado esquerdo da cachoeira Firmino, com população esparsa por regiões do Cassiporé, Tapiry, Jane e Tajinhy. O núcleo populacional ali existente era mais conhecido como vila Firmino.

Na vila do Espírito Santo do rio Amapá Pequeno ou simplesmente Amapá, viviam cerca de 4.000 pessoas, quase que exclusivamente brasileiros ocupadas com a pesca, criação de gado, extração da borracha e fabrico da farinha.

Em Calçoene a atividade principal era a extração de ouro. A população era formada por crioulos franceses e ingleses, com poucos brasileiros. Depois da incorporação do contestado ao Pará, a região foi denominada “Território do Aricari”, com limites entre o Araguary e Oiapoque compreendendo 2 circunscrições administrativas. A segunda circunscrição foi denominada Cassiporé, que se estendia do Mayacaré ao Oiapoque, tendo o povoado de Calçoene como sede.

A ocupação expressiva da região começou na fase posterior a Independência do Brasil, com migrações para Amapá, Calçoene, Cunani, Cassiporé, Uaçá, Arucauá e Curipi.Em 1894, a vila de Calçoene tinha cerca de 6.000 habitantes. Em 1895, a vila de Amapá era habitada por 600 brasileiros. Em Cunani moravam 284 brasileiros, em Cassiporé 120, em Uaçá 80, em Curipi 70 e em Urucará 80, todos são índios.

O rio Cassiporé, a partir de 1945, passou a ser o limite entre os municípios de Amapá (margem direita) e Oiapoque (margem esquerda). O fenômeno da pororoca é observado com mais intensidade no verão. VILA VELHA – situada à margem esquerda do rio Cassiporé é um povoado encaixado na Área de Proteção Ambiental de Vila Velha, fora do Parque Nacional do Cabo Orange e faz parte do Município de Oiapoque.

Há muito tempo explorou-se ouro no alto rio Cassiporé. O Último censo demográfico realizado em agosto de 1957, indicou haver em Vila Velha cerca de 250 almas. A Festa religiosa de maior vulto ocorre dia 19 de março, em louvor a São José, o padroeiro da Vila.


Xerife destituído, até o sol raiar

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No Natal de 1957, sem esperar receber presente de Papai Noel tive uma imensa surpresa. Ao passar a mão direita sob minha rede, deparei com um embrulho retangular, mas sem a altura que me levasse a pensar em um carro. Se fosse uma bola de futebol o embrulho seria redondo.
Além de o volume ter formato comprido, nada fazia barulho quando eu o sacudi. O relógio da sala de casa havia soado cinco badaladas. Ciente que ainda era madrugada coloquei o embrulho sobre o peito e tentei dormir.Quem disse que eu consegui realizar esta proeza.
Nossa casa tinha apenas dois quartos e eu dormia no segundo cômodo, juntamente com minhas quatro irmãs. Mesmo tendo minha rede atada rente a porta e perto do interruptor, eu não poderia ligar a luz, porque seria admoestado por elas. A angústia foi tomando conta de mim e me obrigou a sair do quarto apalpando a parede em direção à porta que demandava para o corredor, elo de ligação entre a sala e a cozinha.
Esqueci até que tinha medo de escuro e das possíveis almas penadas que eu encontraria pelo caminho. Minha mãe tinha falecido em julho de 1955, motivando uma tristeza imensa no seio da família. No Natal deste ano fatídico as comemorações natalinas passaram longe de casa e nenhum presente nos foi dado. Papai precisou ausentar-se para cuidar dos seus empreendimentos comerciais sediados na região das ilhas do Pará, deixando-nos aos cuidados da mazaganense Hortência Furtado, que era sua madrinha de águas bentas. Assim que cheguei à cozinha acendi a luz e rapidamente desembrulhei o presente. A imagem captada pelos meus olhos me transportou para o velho oeste norte americano. Dentro da caixa havia todos os apetrechos próprios de um xerife: cinturão, coldre, revólver colt 45 e um rolo de espoletas. Para poder usar a estrela de xerife, precisei vestir a camiseta do uniforme de educação física do Grupo Escolar Barão do Rio Branco.
Devidamente identificado como homem da lei, coloquei o cinturão com o coldre, abri o revolver e adaptei o rolo de espoletas no local apropriado. Para dar mais realce ao destemido justiceiro usei o meu chapéu de escoteiro. A empolgação era tanta, que nem reparei se o dia já havia raiado. Num piscar de olhos o tiroteio começou. Duplo som era ouvido. O das espoletas e o que eu fazia com a boca, inclusive o ricochete das balas batendo nas pedras. Minha alegria durou pouco.
A mesma alma caridosa que me deu o presente se apossou dele com um ultimato: “Mano, ainda é madrugada, Só vou devolver tua arma se tu dormires mais um pouco”. Enfezado e indignado, deitei no assoalho da sala e adormeci. Por volta das oito horas fui despertado e voltei a personificar o Hopalong Cassidy, um dos heróis do cinema americano. Antes do meio dia a munição tinha acabado.
Na manhã do dia 26 de dezembro eu fui ao Armazém Macapá e a outras lojas do nosso humilde comércio. Nenhuma casa que vendia presentes possuía rolos de espoletas. O jeito foi reviver o tempo em que eu usava revólveres de madeira.
Nos filmes que assisti no Cine Teatro Territorial e no Barracão Pio XII, as balas dos mocinhos nunca acabavam. Por isso julguei que o meu trabuco era de facínora. O que mais atirava era o Allan “Rock” Lane, mais conhecido como Rock Lane. O Roy Rogers e o Gene Autri cantavam mais do que atiravam.No meu tempo de criança os presentes mais vistosos eram caros. Os caros podiam ser de pinho, lata ou mica. Ainda não existia o plástico.
O dono de um brinquedo feito de mica precisava ter muito cuidado. O material era frágil e quebrava com facilidade. Alguns garotos malvados sentiam prazer em chutar ou pisar um brinquedo de mica. Um caminhão de madeira acabava sendo um ótimo presente. Marceneiros e carpinteiros fabricavam rodas ou ripas da carroceria, caso elas quebrassem. A maioria dos revólveres de brinquedo, vendidos no nosso comércio era de ferro fundido As cores variavam, mas prevaleciam as tonalidades prata e preta.


Era Natal

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Foi no Natal passado. Os sinos da Matriz badalavam o seu blim-blim-blom anunciando que o Natal chegava. As miríades de estrelas brigavam com nuvens ameaçadoras de chuvas lá no céu, enquanto a rainha noite lá nas alturas, uma vez ou outra mostrava o seu rosto timidamente.
Havia chovido na cidade toda a tarde e por todo o início da noite. Assim tínhamos uma noite fria para os hábitos climáticos da cidade.
O dia tinha sido agitado, o centro comercial fervilhava, as vitrines eram convidativas ao consumo, como um espelho mágico que atraía os passeantes. Naquela tarde não vi o Sol poente esconder-se no horizonte e tão pouco vi a Vênus despontar no céu com o seu vesperal encanto.
Muitos comemoravam o Natal, mas não aquilatavam o verdadeiro valor daquela data. Nunca imaginariam que um dia há muitos anos, sobre os montes silentes, os rebanhos dormiam e os pastores vigiavam.
O sinal foi dado por uma grande estrela que fulgurou na imensidão do espaço sideral. Como um viajor, são os pastores familiares aos astros.
A abóbada celeste como um imenso candelabro é a ampulheta por onde se esvai a poeira das constelações aos olhos dos que atravessam as noites sobre a Terra ou sobre as águas em vigília. Os pastores mapeiam com os seus olhos todos os recantos cintilantes da abóbada celeste. As ovelhas adormecem sob a quietude silenciosa do vale seguras no velar dos não dormitantes que centram os ouvidos aos mínimos ruídos.
Naquela vigília, surge no céu uma grande estrela.
Débeis emoções, indizível sensação de calma e gozo de viver, parecia tornar-se como uma pena seus rudes corpos queimados pelo vento oriental e afeitos as duras fadigas da vida pastoril. Um canto se fez ouvir. Sons melodiosos perpassavam no ar transparente, pareciam teias de sons diáfanos de imponderabilidade mais imponderável do que a brisa mais tênue.
As vozes que promanavam do céu proclamavam: “GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE”.
Estando os pastores ainda perplexos, uma voz ecoou: “tranquilizai-vos. Trago-vos notícias de grande alegria, que será também para todo o povo. Porque na cidade de Davi nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor. Natal é Deus encarnado e habitando entre nós”.
A Ceia de Natal com certeza seria fausta.
Dirigia o meu carro por uma das ruas, enquanto o sino da catedral ainda batia. Foi quando os meus olhos fitaram uma criança sem camisa, descalça, vestida de uma longa bermuda.
Parei no primeiro estacionamento. Passei observar aquela criança que na noite de Natal quando faustas ceias seriam feitas, desde o mais humilde até o mais rico. Mas aquela criança perambulava descalça naquela noite fria. Olhava vitrines, os latões de lixos, talvez querendo mitigar a fome do seu Natal, nos repastos sobejantes caídos da mesa do almoço daquela véspera de Natal.
Continuei acompanhando aquela criança, ninguém lhe dava atenção.
De repente, tirou algo do lixo e comeu. Não sei se foi uma maça podre ou uma fruta de natal sobejada.
Vi por um momento naquela criança a teofania do Filho de Deus naquela noite de Belém, quando os residentes diziam para José: “não há lugar”.
Aquela criança perdeu-se na escuridão da noite. E assim ela se foi.


O primeiro presépio da Igreja de São José

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Ocorreu na noite de 22 de junho de 1948, na Igreja de São José a despedida dos Padres Antônio Schulte e João Lentnerz, integrantes da Congregação da Sagrada Família. Eles deixariam a cidade de Macapá no dia posterior com destino a Belém. Antes de partirem, os sacerdotes sacramentinos dirigiram ao povo palavras comovedoras, agradecendo a acolhida e a colaboração que a comunidade católica lhes prestou.

Dia 23, às 11 horas, o Padre Antônio Schulte é levado pelos sacerdotes italianos recém chegados a Macapá, pelo capitão Janary Gentil Nunes, governador do Território Federal do Amapá, membros de sua equipe de governo e pelo povo ao Trapiche Municipal Major Eliezer Levy, onde a lancha Amapá o aguardava.

O Padre João Lentnerz ainda realizou uma desobriga pela região das Ilhas do Pará antes de afastar-se definitivamente de Macapá. Desde o dia 29 de maio de 1948, já estavam na cidade os sacerdotes italianos Aristides Piróvano e Arcângelo Cerqua. Eles vieram acompanhando o Bispo de Santarém, D.Anselmo Pietrula e ficaram hospedados na residência governamental.

Foram os dois primeiros padres do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras-PIME, a pisarem em solo macapaense. O PIME iria substituir a Congregação da Sagrada Família. No dia 30 de maio Aristides Piróvano foi declarado Superior Apostólico e Arcângelo Cerqua assumiu o cargo de vigário da Paróquia de São José.

Os sacramentinos permaneceram em Macapá até o dia 23 de junho. Os padres italianos foram chegando aos poucos. No dia 10 de junho, a bordo de um avião da Força Aérea Brasileira, chegam a Macapá os Padres Ângelo Bubani e Vitório Galliani. À noite, na hora da benção do Santíssimo Sacramento, o Padre Vitório tocou pela primeira vez seu harmonium e tentou convencer os fiéis a cantar.

As mulheres até que se manifestaram, mas os homens pareciam estar mudos. Na época em que o Padre Júlio Maria Lombaerd atuou em Macapá, uma banda de música formada por meninos, intitulada Filarmônica São José, se apresentava na igreja em momentos festivos. Porém, não havia o mágico harmonium que os macapaense chamavam de sanfona, Aliás, o Padre Vitório Galliani não gostava que seu belo instrumento fosso rotulado como sanfona ou acordeom. Dia 25 de junho de 1948, o rebocador Araguary, que integrava a frota do governo do Amapá aportava no Trapiche Eliezer Levy, proveniente de Belém, trazendo a bordo mais cinco sacerdotes do PIME: Lino Simonelli, Mário Limonta, Luiz Viganó, Jorge Basile e Carlos Bassanini.

O Padre Mário Limonta já encontrou na Casa Paroquial parte do material que utilizaria para ampliar e reformar o citado imóvel, instalando novos banheiros, sanitários e dormitórios. Ele não era engenheiro, mas conhecia muito bem o oficio de construtor. Com bastante rapidez, ajudado por operários locais, Mário Limonta avançou bastante na reforma da Casa dos Padres e assentou as pias de água benta na igreja. Dia 17 de julho, em avião da FAB, chegou o Irmão Francesco Mazzolene, um homem de avantajada compleição física que ficaria conhecido em Macapá como Caterpillar.

Os trabalhos de restauração da Igreja de São José foram iniciados no dia 11 de outubro. A 4 de novembro o aspecto geral da igreja era bem diferente a as ações dos operários chefiados pelo Padre Mário Limonta se concentravam no batistério. No dia 10 de novembro, depois de trabalhar até altas horas da noite, os trabalhadores aprontaram a sala de reuniões e concluíram a pintura da fachada do templo. Os arremates da pintura couberam ao Padre Mário Limonta.

Quem vê a pintura do altar principal e dos altares laterais julga que eles são feitos de mármore, mas não são. A frente da casa de orações exigiu maior criatividade. Alguns elementos novos foram introduzidos no frontispício. Para poder executar seu trabalho, o Padre Mário Limonta precisou sentar em uma espécie de balanço que era sustentado pelo gigantesco Irmão Francisco. A cena atraiu dezenas de curiosos para frente da igreja. Postado sempre em um ponto superior, Francisco Mazzolene controlava com as mãos as cordas do balanço que permitiam ao pintor subir ou descer de nível. Dia 1º de dezembro foi a vez de a sacristia apresentar nova caiação e reorganização.

O número de sacerdotes do PIME, que era de nove passou para onze com a chegada dos Padres Simão Corridore e Ângelo Negri. Pouco depois, a 18 de dezembro, desembarcam no velho aeroporto da Panair do Brasil os Padres Antônio Cocco e Pedro Locati, elevando para treze o número de sacerdotes, mais o Irmão Mazzolene. Com o advento do Natal, Padre Mário Limonta volta a mostrar sua versatilidade construindo um presépio no interior da igreja de São José. Tudo é muito simples, mas encanta quem o vê. Na noite de 24 de dezembro foi celebrada a missa da meia note e a igreja ficou lotada.

No decorrer do ato litúrgico foram entregues as fitas de aspirantes a 13 candidatos à Congregação Mariana, cuja organização foi iniciada no dia 24 de outubro pelo servidor público e católico praticante Klepper Navegante Motta. Ao final da missa deu-se a descoberta do presépio compreendendo as mesmas figuras expostas por São Francisco de Assis em 1223: Menino Jesus, Virgem Maria, São José, manjedoura, burro, boi, ovelhas, anjos, estrela, pastores e os três Reis Magos. No Brasil, a primeira encenação foi mostrada aos índios, em 1552.


O Burro do Pitaica

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O comerciante Manuel Eudóxio Pereira, conhecido na cidade de Macapá pela alcunha de Pitaica, foi um dos mais ilustres filhos de Macapá. Amigo de todos procurava ajudar os mais necessitados, notadamente os que apreciavam a “marvada pinga”, Católico fervoroso, podia ser encontrado com facilidade na Igreja de São José durante os cultos católicos. Era forte, decidido, daí o apelido de Pitaica, nome de uma árvore encontrada no campo, na terra-firme e na várzea. Possuía um burro deverasmente enfezado, que puxava uma carroça destinada aos serviços da “Casa Popular”(Armazém do Povo), de sua propriedade.

Mesmo atrelado à carroça, o burro dava trabalho.

Em razão de ser endemoniado, o burro passava a maior parte do tempo preso a uma corda, num terreno vago que existiu na esquina da Travessa Floriano Peixoto com a Rua São José, local onde funcionou o Banco da Lavoura de Minas Gerais e hoje abriga uma loja. O cenário das peripécias do burro do Pitaica é a Macapá do final da década de 1930 e inicio da década de 1950. Naquele tempo, era coisa comum os quadrúpedes viverem soltos nas ruas, principalmente depois das 18 horas. Na periferia da pequena cidade muitos moradores mantinham atividades agrícolas e pecuárias.

Cavalos, éguas, burro e mulas trabalhavam durante o dia, puxando carroças e transportando cargas e até gente. Valiam-se da noite para pastar, beber água e praticar “o aquele”. O burro do Pitaica adorava pastar no campo de futebol que existia na Praça Capitão Augusto Assis de Vasconcelos, onde reinava absoluto entre as éguas e mulas mais velhas que já não interessavam aos mais novos. O diabo é que o burro do Pitaica era demasiadamente avexado, partidário do “vamos que vamos”.

Ele só vivia de orelha em pé e voltadas para trás, sinal evidente de que estava a fim de transar. Nem sequer cortejava as pretendidas. Como o burro era muito violento, as fêmeas o rejeitavam com coices e mordidas, coisa que ele retribuía com maestria. Parece que o burro era fã da máxima “ou dá, ou desce”. O pior é que não eram só as orelhas que o burro levantava.

A genitália do bicho era de tal forma desconforme, que dava a impressão dele ter nascido com cinco pernas. Com relativa frequência, os donos dos animais maltratados iam ter com o Pitaica pedindo que ele mandasse o burro para a região rio Pedreira, caso contrário a vida do bicho iria correr grande risco. Reclamar na Polícia era perda de tempo, haja vista que o senhor Manuel Eudóxio Pereira tinha muita influência na cidade, sendo vizinho da Delegacia Central. A solução do Pitaica consistia em prender o burro. Em contrapartida, os donos das vitimas do burro deveriam encontrar outro local para que elas pastassem em paz. Quando o burro encontrava uma fêmea assanhada como ele, o “love you” era da moléstia.

Houve um caso muito interessante protagonizado pelo burro ao montar, na marra, em uma eguinha prestes a debutar no exercício da luxúria. O dono da eguinha exigiu indenização, alegando que o burro havia emprenhado sua cria. O queixoso alegou que a maneira violenta como o estupro foi praticado causou o remonte de cinco costelas da infeliz criatura. Pitaica lhe passou uma descompostura, dizendo que o burro é um animal estéril e não tem como gerar filhos. Na prática, a eguinha gostou tanto do desempenho do burro, que ia direto ao local de seu cativeiro todas as vezes que fugia da casa do dono.

Outro fato diz respeito a uma exigência que algumas beatas fizeram ao Pitaica através do Padre Felipe Blanck, vigário da Matriz de São José. Elas costumavam assistir a missa das 6 horas da manhã, diariamente, e não suportavam ver o burro todo excitado, olhando as fêmeas que pastavam no campo de futebol. Consta que elas colocavam as mãos sobre os olhos, mas o povo comentava que os dedos sempre ficavam afastados.

A injúria foi de tal monta que uma das beatas sugeriu que o Pitaica mandasse fazer um calção de mescla reforçado para esconder as vergonhas do animal. O prianismo do burro ficou tão famoso, que passou a ser referência, sempre que alguém, cheio de frescurite, queria dar uma de gostosão: “o que falta pra ti é o burro do Pitaica”


A Estrada de Ferro que enferrujou

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No inicio das atividades da Indústria e Comércio de Minérios S.A.- ICOMI, em Serra do Navio, o Rio Amapari era a via fluvial usada por quem, partindo de Porto Platon, pretendia alcançar aquela região onde estavam as jazidas de manganês. Antes da chegada da mineradora, faiscadores de ouro e pequenos comerciantes usavam a citada rota.

O registro da existência do minério de manganês tinha sido realizado pelo geólogo Josalfredo Borges, em 1934. Em 1946, quando os trabalhos de instalação do governo do Território Federal do Amapá, do qual era o governador, o capitão Janary Gentil Nunes conclamou os cidadãos que atuavam em áreas de exploração mineral, a fornecer ao executivo, amostras de pedras com características de minerais. Um dos frequentes usuários do rio Amapari, Mário Cruz, dono de uma ubá impulsionada por motor de popa archimedes de 12 HP, que mantinha em sua casa, na cidade de Belém, algumas pedras escuras, as quais ele imaginava serem ferro, transportou-as para Macapá e as apresentou à Divisão de Produção e Pesquisa.

O geólogo alemão Frits Louis Archerman, que prestava serviços ao governo territorial, logo identificou como manganês. Outras amostras confirmaram a existência de ferro, tantalita, estanho. Mediante concessão do governo brasileiro, a ICOMI deu inicio a implantação de uma soberba infra-estrutura operacional para extrair e vender o manganês. A logística da empresa também foi magistral no tratamento de seus funcionários. Tudo que a ICOMI precisou levar para Serra do Navio saia do Porto de Santana, por via rodoviária até Porto Platon. Na sequência da viagem ocorria com o uso de pequenas embarcações, que também traziam amostras de minérios. Posteriormente, a empresa usou uma balsa de ferro e nela transportou as primeiras toneladas de manganês, da vila Santa Terezinha para Porto Platon. Em caçambas, o minério foi transferido para a área onde surgiria o píer e o cais da companhia, em Santana. Isso continuou acontecendo até entrar em operação a Estrada de Ferro do Amapá.

A construção foi iniciada em janeiro de 1954 e inaugurada em 5/1/1957. “Para a construção de suas instalações no Amapá, a ICOMI obteve um crédito no Eximbank, de Washington, de US4 67.500.000,00(sessenta e sete milhões e quinhentos mil dólares), a juros de 4-1/2%(quatro e meio por cento), para financiamento das importações de materiais e pagamento das despesas de construção no Brasil. Deste total,posto à disposição da empresa, foram dispendidos apenas, em números redondos, 55 milhões de dólares”.

A extensão da linha principal é de 193,594 km, acrescido de 12,832 km das linhas correspondentes aos pátios de manobras e desvios, perfazendo o total de 206,426 km. Cada quilômetros tem 1.765 dormentes. Em toda a extensão da linha há cerca de 368.679 dormentes. Na fase mais operosa da ICOMI, deslizaram sobre os trilhos da Estrada de Ferro do Amapá nove locomotivas: três GM Diesel Elétricas, modelo 1200 SW , uma modelo 1500 SW e quatro GE C 30-7. A empresa dispunha de 80 vagões para transporte de minérios com capacidade de 70 toneladas cada. Em 1997, a ICOMI encerrou suas atividades com a exploração de manganês.

Em 1998, retirou-se do Amapá. Os bens que ela deixou, na forma do contrato de concessão que lhe foi feito pelo Governo Federal, eles passaram a pertencer ao Governo do Estado do Amapá. Foi quando a desdita se abateu sobre a ferrovia. A gestão estadual não conseguiu manter as composições operando com a mesma competência revelada pela ICOMI. Surgiram três empresas, que também se revelaram tremendos fiascos: MMX(2006), Anglo American (2008) e a Zanim (2013). Esta última ainda foi contemplada da concessão da Estrada de Ferro, mas não deu conta do recado. Segundo registros disponíveis nas redes sociais dão conta de que, no dia 15 de dezembro de 2014, o trem de carga circulou pela última vez, entre Serra do Navio e o Porto de Santana. No ano posterior foi a vez do trem puxando vagões com passageiros. A partir de então, toda a estrutura existente nos 206,426 quilômetros vem sendo saqueada.

Em 2017, através de um relatório, a SETRAP afirma, que as áreas de segurança perto dos trilhos estão sendo invadida. As ocorrências foram registradas na Polícia, mas nada de prático poderá acontecer sem a intervenção judicial. Muita coisa já foi surrupiada e levada para fora do Estado.


Catequese nas terras da Amazônia

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No inicio da colonização do Brasil, Portugal não devotou tanta atenção aos índios. Havia a crença de que eles eram desprovidos de alma, não valendo a pena instruí-los na forma da doutrina católica. Além do mais, os gentios tinham sua própria religião, viviam despreocupadamente, caçavam e pescavam para assegurar a alimentação dos comunitários. Quando se acostumavam a conviver com os portugueses, assimilavam rapidamente o modo de agir dos colonizadores. E3ntretanto, a convivência relativamente amistosa não tardou a se transformar em conflito. Foi assim, em todo o Brasil litorâneo, logo após a chegada dos brancos.

Na região Norte, notadamente nas terras do Grão Pará, os primeiros religiosos a desembarcar na primitiva Belém foram os padres franciscanos da Província de Santo Antônio de Lisboa, fato ocorrido no dia 11 de novembro de 1617. Vieram com o propósito de converter os índios ao catolicismo e constituir pequenos núcleos nos arredores da vila de Santa Maria de Belém, fundada a 12 de janeiro de 1616. Isso foi possível após que as tropas portuguesas chefiadas por Alexandre de Moura chegarem ao Maranhão e conseguissem derrotar os franceses, no dia 4 de novembro de 1615. A ocupação de São Luiz foi vital para o envio da expedição comandada por Francisco Caldeira Castelo Branco à região onde despontou a capital paraense. Em 1621 foi criado o Estado do Maranhão e Grão Pará, cujo primeiro governador foi Francisco Coelho de Carvalho, que favoreceu o desenvolvimento da vida social e religiosa em São Luiz, a sede do governo. Em Belém não foi diferente. Em 1618, a vila contava com o concurso de um vigário e dois franciscanos de Santo Antônio.

Em 1624, São Luiz passou a contar com a presença do frei Cristovão de Lisboa, que era da província franciscana portuguesa de Nossa Senhora da Piedade. Bem qualificado, o sacerdote em questão era qualificador do Santo Oficio. Comissário de sua província, em Portugal e primeiro custódio da província no Maranhão. Como comissário do Santo Oficio (inquisição) e visitador eclesiástico, percorreu o norte do atual Brasil e procurou organizar as missões no Maranhão. Outras ordens religiosas portuguesas também se estabeleceram no Grão Pará: Jesuítas, capuchos da Piedade, capuchos da Conceição de Beira e Minho e os mercedários. Para evitar problemas entre as áreas confiadas às ordens, Dom Pedro II, rei de Portugal fez a repartição das tarefas catequéticas no Maranhão e no Pará.

As terras situadas à margem direita do rio Amazonas (o lado sul) foi confiada aos Jesuítas, que foram os mais numerosos. A Marge esquerda (o lado norte) foi rateada entre os mercedários, capuchos da Piedade, capuchos da Conceição, capuchos de Santo Antônio. Os carmelitas passaram a atuar nas confluências dos rios Solimões, Negro e Madeira. O propósito de Portugal em fazer concessões aos religiosos era o de segurar as fronteiras da colônia. Era imprescindível anular a atuação e concorrência dos franceses no litoral do Amapá e em Caiena, dos holandeses e dos espanhóis. Outra tarefa consistia em transformar índios brabos em índios mansos, fazendo-os colaborar com o objetivo mercantilista lusitano. Os carmelitas e os franciscanos adaptaram-se mais ou menos a este esquema. Os jesuítas, porém, tiveram um plano próprio, não imposto pelo sistema. Opuseram-se ao esquema colonial e entraram em conflito grave com a administração do império português. Acabaram sendo expulsos do Brasil. As terras do atual Estado do Amapá foram confiadas aos franciscanos da província de Santo Antônio de Lisboa (Pádua). “Aí o perigo decorria da aventura dos franceses e holandeses. Além das terras do Cabo do Norte, eles também ganharam a incumbência de agir no Marajó e Norte do Rio Amazonas.

Os índios aruãs, apegados aos franceses foram bastante hostis com os franciscanos, mas, aos pouco passaram a conviver amistosamente com eles. Eram os índios profundos conhecedores dos rios e florestas. Valendo-se disso, os religiosos, principalmente os jesuítas, organizaram a coleta de drogas do sertão. Para convencer os índios, os sacerdotes diziam que a quantidade precisava ser elevada, haja vista, que uma parte seria destinada a “Tupã bae” (coisa de Tupã). A produção compreendia cravo, canela, madeira,ovos de tartaruga, cacau, salsaparrilha, manacuru (peixe boi)