Enterro da felicidade

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Na área por onde foi aberta a Av. Hélio Guarany Pennafort, que o pessoal insiste em chamar Beira Rio, e onde se encontra instalado o prédio da Yamada, havia um aglomerado de casas de gente humilde, que preferia residir perto do Elesbão. O caminho usado pelos moradores tinha um declive a partir da Av. Henrique Galúcio, apelidado “Baixa da Maria Mucura”. Este designativo tinha a ver com a carência de beleza física da Dona Maria, cujo rosto fino e pontiagudo lembrava a cara do marsupial que adora comer galinhas. Depois do aglomerado de casas vinha a paia e a mata. Morava naquele lugar, a tal Baixa da Maria Mucura, uma senhora que possuía uma filha “borrachudinha”, que os caboclos da região das Ilhas do Pará preferiam denominar de “bacorota”.
A danada da pirralha, cuja idade girava pela casa dos 14 anos de idade era bem apetrechada de corpo, rostinho sapeca, cinturinha de pilão, pernas arredondadas e lábios carnudos. Tinha tudo que um homem deseja numa fêmea. Volta e meia a menina escapulia de casa e ia bater pernas pelo Mercado Central e na Fortaleza de Macapá. Ela adorava ouvir assobios e galanteios que partiam dos açougueiros e dos soldados da Guarda Territorial. Os vizinhos e conhecidos de sua genitora viviam dizendo, que cedo ou tarde a garota iria arranjar “o que a Maria ganhou na capoeira.” Gente da língua amaldiçoada. Um sujeito conhecido como Dico, embarcadiço de uma canoa transportadora de açaí e outras frutas, entre o Furo da Cidade e o Elesbão, passou uma cantada na guria e arrastou-a para as pedras que ficavam na praia da Fortaleza. Assanhada por demais, A bacorota “arriou os quatro pneus” e deixou o Dico se fartar no “fuc-fuc”. O danado do Dico havia prometido casar com a “pequena”, mas desapareceu. A mãe da menina era lavadeira, atividade que não lhe rendia os trocados necessários para satisfazer as necessidades básicas dela e da filha.

Conseqüentemente, a Ritinha comia uma vez por dia, quase sempre no horário do almoço, mas não era muita coisa. À noite, jogava pra dentro da barriga uma cuia de açaí e um pedaço de peixe assado, coisa que não era freqüente. Ora, se a Ritinha comia pouco, como é que engordou tanto? A mãe da Ritinha botou a filha em confissão e descobriu o mistério. Não pensou duas vezes e decidiu ir à Central de Policia registrar queixa contra o Dico, por crime de sedução. Na época, isso dava um “galho danado” e o deflorador, caso não quisesse casar, ia cumprir pena no Presídio São Pedro, no bairro Beirol. Ao chegar à Central de Polícia, a mãe da Ritinha foi encaminhada ao escrivão conhecido como “Kid Moringueira”, cabra passado na “casca do alho” e bom de conversa. Atuava com atenção redobrada quando a deflorada era e bonita, mas procedia de imediato a lavratura do termo circunstanciado se a vitima fosse judiada pela beleza. O Kid Moringueira ouviu atentamente o relato feito pela lavadeira e prometeu intimar as partes com brevidade. Expediu uma intimação contra o Dico, recomendando que a mãe da guria levasse o documento ao dono da canoa onde o deflorador havia trabalhado, visto que o tal canoeiro era tio do “Don Juan”. Nos termos da intimação, o Dico deveria comparecer à Central de Policia no mesmo dia e horário em que a Ritinha e sua mãe também estariam lá. A primeira a ser ouvida foi a Ritinha. Os olhos do Moringueira brilharam intensamente ao ver aquela “bacorotinha”, cheirando a leite, na sua frente. Indagou se a virgindade tirada pelo Dico estava fazendo falta. A Ritinha respondeu que não. Moringueira foi mais incisivo: “queres casar com o Dico?”. Não, falou a Ritinha.Esse negócio de casamento e coisa da mamãe. Ritinha foi orientada a ficar em outra sala, sem falar com sua genitora. Moringueira chamou o Dico às falas e pegou pesado: “E aí, malandrão, casa ou não casa? O Dico respondeu: “Pra que, se eu não dou conta nem de mim.” Moringueira foi taxativo: ”Se não casares com a Ritinha vais passar um bom tempo no Beirol”. “Por mim”, disse o Dico. Ao voltar a falar com a lavadeira, Moringueira aconselhou-a a não exigir o casamento da Ritinha com o Dico.

O caboclo não tinha emprego, era feio, gostava da cachaça e só iria aumentar sua desventura, porque teria de alimentar um vadio. A lavadeira aceitou o conselho, desde que o Dico fosse para o Beirol. Era tudo que o Moringueira queria ouvir. Novamente ele conversou com a Ritinha e disse: “Minha filha, a barra está limpa. Convenci tua mãe que teu casamento com o Dico é uma besteira, e ela concordou. O Dico não vai escapar do presídio, pois disse que não casa nem apanhando. Agora, presta atenção: “ Já que estais com esta sepultura aberta, que tal nos dois fazermos o enterro da felicidade?”


Macapá pitoresco

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A cidade de Macapá tem coisas curiosas que surgiram ao longo da sua história. O local onde foi instalado o povoado era conhecido como Maca-Paba em novembro de 1751, vocábulo de origem nheengatu, que tanto pode ser entendido como “Estância das Bacabas” ou “Onde Acabam as Bacabas”. O primeiro significado prepondera sobre o outro, e parece mais apropriado. A povoação surgiu em torno de um Forte de Faxina edificado no platô de terra firme onde mais tarde seria erguida a portentosa Fortaleza de Macapá. Tudo era muito simples, prevalecendo os tipos de construção denominados “taipa de pilão”, “taipa de mão” e tijupá.

O Forte de Faxina, decorrente de taipa de pilão, não tinha muralhas e correspondia a uma base com anteparos e reparos para os canhões. Entenda-se que reparo é o suporte de uma boca-de-fogo, com dispositivos que permitem dar-lhe os movimentos necessários à execução da pontaria, limitar o recuo e facilitar-lhe o transporte. Em outras palavras, reparo é o carrinho onde o canhão repousa. Em 1758, quando traçaram a planta da Vila de Macapá, o “risco” reservou espaços para dois “largos”, o de São Sebastião e o de São José. O primeiro acabou passando a história como Largo da Matriz, depois Praça Capitão Assis de Vasconcelos e Praça Veiga Cabral. Naquela época, Largo era largo mesmo. O Largo de São José mudou para Largo de São João e Praça Barão do Rio Branco.
O povo dizia que a primeira praça era a de baixo e a segunda, a de cima. O traçado da Vila compreendia ruas e travessas. As antigas ruas hoje são avenidas. As travessas viraram ruas. Macapá pouco cresceu entre 1758 e 1943. O burgo, sede do Município de Macapá, pertencente ao Estado do Pará, era um lugar decadente onde a malária campeava. A partir de 1944 o panorama começou a mudar. Em abril daquele ano, o governador Janary Nunes iniciou a desapropriação das casas construídas em volta do Largo de São João, Praça de cima ou Barão do Rio Branco. Indenizou todos os moradores e fez surgir um novo bairro, o Laguinho. Em seguida, veio o bairro do Hospital. Como as casas eram construídas no topo das elevações que circundavam um lago, o pessoal de fora lascou o nome de Favela. As obras realizadas na cidade atraíram pedreiros, carpinteiros, mestres-de-obras, artífices, marceneiros.

O governo construiu a Olaria Territorial, produzindo tijolos, telhas, manilhas para esgoto, ladrilhos para assoalhos etc. À concentração de residências em torno do empreendimento, o pessoal deu o nome de bairro da Olaria. A área próxima era alagada e os gestores territoriais e municipais, optaram por fixar os proletários em espaço contíguo ao bairro da Fortaleza.

O crescimento foi rápido. Descobriram que naquelas terras havia sido instalado o trem de lapidação das pedras da Fortaleza. Trem é o conjunto de ferramentas e instrumentos necessários à realização de um trabalho. Foi o bastante para o bairro perder o designativo anterior e ganhar a alcunha de Trem, o bairro proletário, visto que a prole (filhos) dos moradores era muito grande. Os que viviam ligados às atividades próprias de ribeirinhos se fixaram no Elesbão. Entre o bairro da Fortaleza e o Elesbão, havia uma passagem tortuosa, em declive, onde morava uma senhora desprovida de beleza física, cujo rosto lembrava um marsupial amazônico. Seu apelido deu nome à ruela: baixa da Maria Mucura. Gradativamente a área municipal expandiu-se, com a formação de outros bairros: Igarapé das Mulheres, Morro do Sapo, Vacaria, Pacoval, Muritizal e depois Buritizal, CEA, Equatorial, Muca, Beirol. Alguns acontecimentos a nível nos contribuíram para a denominação de outros aglomerados: Jacareacanga, Malvinas, Coréia do Norte e Coréia do Sul e Nicarágua. O nome mais curioso foi dado a uma extensão da cidade no atual bairro Santa Rita, próximo ao Aeroporto: Planície dos Corruptos.

A área fora desapropriada e, devidamente dividida, foi destinada aos amigos de um governador acusado de ações ilícitas. Atualmente, nossa distinta e maltratada Macapá possui cerca de 40 aglomerados populacionais entre conjuntos e bairros: Centro, Laguinho, Trem, Perpétuo Socorro, Santa Inês, Beirol, Santa Rita, Jesus de Nazaré, Pacoval, Nova Esperança, Buritizal, Congos, Alvorada, São Lázaro, Renascer, Muca, Jardim Marco Zero, Zerão, Universidade, Jardim Felicidade I e II, Novo Horizonte, Infraero I e II, Cidade Nova, Aturiá, Jardim Equatorial, Pedrinhas, Boné Azul, Açaí, Brasil Novo, Cabralzinho, Pantanal, Marabaixo I, II e III, Liberdade, Morada das Palmeiras, Horto Floretal. Um dia um sujeito perguntou-me por que os amapaenses gostavam tanto dos Cubanos, a ponto de nominar um bairro como Cuba. Esclareci que o nome correto é Cuba de Asfalto, nada a ver com o velho Fidel. De barbicha, fantasioso e falastrão já basta um “aquelezinho” que perambula por estas plagas.


Aperitivo Caimbé

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Na edição número dois (31/3/1945), do Jornal Amapá, impresso pelo governo do Território Federal do Amapá há partir o dia 19 de março de 1945, encontram-se diversas propagandas de estabelecimentos comercias instalados em Macapá e em outras localidades da novel unidade federada. Um anúncio bem simples evidencia que, naquela época, fabricava-se na cidade um aperitivo denominado “CAIMBÉ”, preparado pelo macapaense Pedro Azevedo Costa. O reclame publicitário dizia: “Provem CAIMBÉ, de P. A. Costa. Aperitivo de gosto agradável, barato e inofensivo, licenciado pelo Laboratório Central de Enologia do Rio de Janeiro sob o nº. 00396. À venda na Av. Presidente Vargas, nº. 46. Aceitam-se encomendas de qualquer quantidade”.
O senhor Pedro Azevedo Costa, mais conhecido por Perico Costa, integrava uma família tradicional de Macapá, cuja referência maior era o general do Exército e engenheiro militar João Álvares de Azevedo Costa, macapaense que, no inicio de sua carreira, ainda no tempo do II Império do Brasil, fez parte da guarda pessoal do Imperador D. Pedro II. Perico Costa era proprietário de uma casa comercial de secos e molhados e fabricava o aperitivo em sua residência, um amplo imóvel que figurava como um dos melhores de Macapá. Suas atividades se estendiam de segunda-feira a sábado. Aliás, naquela época havia uma tal “lei seca” que proibia a venda de bebidas alcoólicas aos domingos.Ela vigorou no período de 1939/1945, na chamada Era Vargas, sendo prorrogada até 1951, pelo Decreto-lei nº. 7.604/1945.

O aperitivo Caimbé era preparado com a casca da árvore de igual nome que viceja nos cerrados, cerradões, lavrados e capões. Algumas espécies podem ser encontradas nas várzeas. As folhas têm propriedades medicinais contra artrite, diabetes e pressão alta, O chá das flores atua contra tosse, bronquite e resfriados. A infusão da casca fornece uma bebida eficiente para curar aftas, dores de cabeça e de estômago, resfriados e pulmões. A espécie utilizada no fabrico do aperitivo é da Curatella americana, planta dileciácea da Amazônia, de pequeno porte, de madeira imputrescível, usada em cavernas de canoas, marcenaria e construção civil. A casca é rica em tanino, as folhas são ásperas, usadas como lixas, e os frutos dão uma tinta pardo-escura.

A árvore com estas propriedades é encontrada em várias regiões do Brasil com nomes diversos: lixeira, caimbé, cajueiro bravo, cajueiro bravo do campo, cambarba, marajoara, penttiera, sambaiba e sobro. Para colher a casca da árvore caimbé, os empregados de Perico Costa não precisavam andar muito. Em toda a área de campo que circundava a pequena cidade de Macapá os tortuosos caimbés imperavam. Era só usar o terçado e retirar a quantidade de casca necessária. Em seguida ela era macerada à cacete e colocada em tambores com água e açúcar para fermentar. Algum produto químico era adicionado, mas a fórmula nunca foi revelada. Devido à resina de cor amarelo-esverdeada da madeira, o aperitivo ficava amarelo claro. A dosagem alcoólica não era forte, mas os gulosos acabavam ficando embriagados. Quando havia treino dos times de futebol de Macapá, no campo da Praça Capitão Augusto Assis de Vasconcelos, nos dias de semana, a venda do aperitivo aumentava consideravelmente no comércio do Perico Costa. Encerrado o treino e mesmo jogos, os atletas se dirigiam ao ponto de venda do Caimbé para matar a sede. A maioria deles afirmava que o produto tinha efeitos cicatrizantes e ajudava a curar baques, gastrite, arranhões e até unha encravada. O Sr. Walter Batista Nery, que em 1945, integrava o elenco do Amapá Clube, diz que o aperitivo era muito bom, com sabor variando entre o mel e o licor. Perico Costa sempre procurou obedecer à lei que proibia a venda de bebidas alcoólicas aos domingos. Entretanto, em maio de 1945, confiou na suposta discrição do freguês João Evangelista de Almeida e vendeu-lhe um litro de Caimbé num dia de domingo. Nem bem saiu da casa do comerciante, o comprador foi bebericar perto da Divisão de Segurança e Guarda e acabou sendo recolhido aos costumes. Na edição nº. 6 do Jornal Amapá, que circulou no dia 12 de maio de 1945, o fato ganhou destaque na coluna Registros Policiais: “Vendia Caimbé Durante Lei Seca – Pedro. A. Costa, conhecido fabricante da bebida denominada “Caimbé”, não se conformando com a lei seca, vendeu, em um domingo, um litro dessa aguardente composta a João Evangelista de Almeida. Feita a apreensão da “água que passarinho não bebe” o fabricante vendedor foi obrigado a pagar a multa regulamentar”. Desse dia em diante, Perico Costa não atendeu nem os pedidos especiais que algumas autoridades faziam as escondidas. Quem desejasse ter o aperitivo Caimbé para saboreá-lo aos domingos, em sua residência, tinha que comprá-lo no decorrer da semana. Curioso é que na época já funcionava na esquina da Rua São José com a Avenida Presidente Vargas, o Bar Elite, de João Vieira de Assis, onde a cerveja era servida bem gelada.

O Bar Elite também dispunha de outras renomadas bebidas, mas o pessoal preferia mesmo era o aperitivo fabricado por Perico Costa, por ser mais barato.


A revolução militar de 1964 e a censura

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Quando eclodiu o movimento militar de 1964, duas emissoras de rádio funcionavam em Macapá. A mais antiga Rádio Difusora de Macapá era mantida pelo governo do Território Federal do Amapá e estava no ar desde 1946. Operava apenas em amplitude modulada, na freqüência de 1460 kilociclos. Tinha um bom alcance, notadamente à noite, podendo ser sintonizada até mesmo no exterior. A partir de 1953, a Rádio Difusora passou a contar com um transmissor de onda tropical, faixa de 61 metros e freqüência de 4.915 quilociclos. Com maior poder de penetração na região Norte só existia a Rádio Clube do Pará, que era mais conhecida pelo prefixo PRC 5. A emissora oficial do Governo do Território Federal do Amapá era autorizada a funcional com o prefixo ZYE 2. Seu slogan era: “Rádio Difusora de Macapá, uma voz do Amapá a serviço do Brasil”.

A segunda emissora de rádio a ser instalada em Macapá não tinha a autorização oficial para fazê-lo. Seus idealizadores e proprietários usaram de um artifício para colocá-la no ar. Valeram-se da condição política que alguns deles possuíam junto às autoridades locais e nacionais e emitiram um rádio-telégrafo contendo a suposta autorização necessária ao seu funcionamento. A idéia de fundar a nova emissora despontou em 1962, ocasião em que o Brasil estava sendo presidido pelo advogado gaúcho João Belchior Marques Goulart, que assumiu o poder depois que Jânio da Silva Quadros o renunciou no dia 25 de agosto de 1961. Esta emissora tinha o nome de Rádio Equatorial, prefixo ZYD 11 e freqüência de 1640 kilociclos, em Amplitude Modulada (AM). A rádio operou em fase experimental no segundo semestre de 1962 e passou a operar normalmente em dezembro do mesmo ano. Macapá ressentia-se da falta de uma emissora, haja vista que a Rádio Difusora só operava em onda tropical devido a problemas técnicos em seu transmissor de onda média. O transmissor foi remetido a São Paulo para conserto, mas a fábrica o declarou irrecuperável. Consequentemente, a rádio do governo territorial quase não era ouvida na capital. Em contrapartida, a Rádio Equatorial agia como ferrenha defensora governamental. Até mesmo uma casa de propriedade do governo, situada na esquina da Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Tiradentes foi usada para que a Equatorial nela se instalasse.

Tudo corria muito bem para o lado dos proprietários da Rádio Equatorial até que, a 31 de março de 1964, um golpe militar destituiu do governo do Brasil o presidente João Goulart. Ocupava o cargo de governador do Território Federal do Amapá o coronel Terêncio Furtado de Mendonça Porto, nomeado por João Goulart a pedido do deputado federal Janary Gentil Nunes. No período em que os militares começaram a demonstrar descontentamento com a gestão de Jango Goulart, Terêncio Porto lhe declarou solidariedade. Também se mostrou solidário com os revoltosos, mas não os convenceu. Com a posse do General Luiz Mendes da Silva no cargo de governador do Amapá, a Rádio Equatorial foi fechada, encampada e teve seus bens incorporados a Rádio Difusora.
A emissora oficial tornou-se senhora absoluta da audiência no Território do Amapá operando em amplitude modulada e em onda tropical. Mesmo sem a declaração formal da censura, uma série de restrições foi impostas para os órgãos de imprensa. Determinadas palavras e nomes de políticos não podiam ser pronunciadas e muitas letras de músicas foram consideradas contrárias aos ideais da “gloriosa revolução de 1964” . Atuando na Rádio Difusora desde fevereiro de 1962, sempre tive cautela em minhas locuções. Só um louco cometeria a asneira de dizer que algum prédio do governo estava entregue às baratas ou que a gestão de governador ou prefeito era uma esculhambação.

A instalação da censura trouxe restrições ao pessoal da imprensa. Ninguém podia trabalhar sem ter uma carteira expedida pelo Departamento da Polícia Federal. Os órgãos de imprensa passaram a estar bem atentos à maneira de agir de seus funcionários e colaboradores. Os noticiários, roteiros musicais, crônicas e editoriais das emissoras de rádio tinham que ser submetidos à censura do Polícia Federal. A programação diária da emissora deveria der gravada integralmente e deixada por setenta e duas horas à disposição da Polícia Federal. Ninguém podia dizer no ar que nutria simpatia pela União Soviética, Cuba ou qualquer outro país considerado comunista. Os eternos descontentes viviam sob permanente observação e repreendidos quando se excediam. Eram bem quistos os bajuladores. No que se refere à propaganda comercial, não era permitido que se estimulasse o consumo de bens alimentícios e de combustíveis. Aliás, os postos de combustíveis fechavam as vinte e uma horas de sexta-feira e só voltavam a funcional às seis horas da manhã de segunda feira. Entre segunda e sexta-feira eles só atendiam os consumidores das seis às vinte e uma horas. Jornalista que usasse os termos “milico”, se referindo aos militares, entraria numa fria, como se costumava dizer.


Cacau, o manjar dos deuses

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O cacaueiro é nativo de regiões de florestas pluviais da América Tropical, cultivado desde o Peru ao México. Os botânicos acreditam que o cacau é originário das cabeceiras do Rio Amazonas e compreende dois grupos: Criollo e Forasteiro. O Criollo tomou a direção norte, atingindo a região do Rio Orenoco, a América Central e o México. O Forasteiro se espalhou pela bacia Amazônica abaixo e Guianas. Este grupo é considerado o verdadeiro cacau brasileiro. Quando os colonizadores espanhóis chegaram ao México notaram que os Astecas cultivavam o cacau e usavam as sementes como moeda, um procedimento que também foi usado no Pará muito tempo depois. Na América Central, os Maias agiam da mesma forma.

O cacaueiro era chamado “cacahualt” e tido como sagrado, pois os Astecas acreditavam ser de procedência divina. A classificação cientifica do cacau foi realizada pelo botânico sueco Carolus Linneus, que o descreveu como “Theobrona Cacau”, o manjar dos deuses. Registros históricos relativos à viagem de Cristovão Colombo, que redundou na descoberta da América, dão conta, de que o grande navegador levou de Honduras para a Europa, as primeiras sementes de cacau. Anos depois, durante a conquista do México, o Imperador Montezuma mandou servir a Fernando Cortez a espessa bebida feita com as bagas do cacahualt, a qual os índios adicionavam baunilha e outros produtos da terra. Os espanhóis juntaram-lhe açúcar a fim de dar-lhe melhor sabor. No meado do século XVI, o cacahualt era conhecido em toda a Europa e passou a ser pronunciado chocolate. No inicio dos anos setecentos, os ingleses misturaram o leite ao chocolate, cabendo aos holandeses, na segunda década do século passado, o solidificarem. Aos suíços, depois de 1850, coube o mérito de inventar o milk chocolate.

O cacau forasteiro era cultivado na região Amazônica, por diversas tribos indígenas havendo registros sobre a atuação dos índios Turás, estabelecidos no Rio Madeira. Em outubro de 1637, o desbravador Pedro Teixeira, que empreendia uma viagem no sentido das nascentes do Rio Amazonas recebeu a visita dos gentios catequizados, que iam colher o cacau nativo, bem abundante nas margens do citado caudal. O cultivo oficial do cacau, no Brasil começou em 1679, graças à autorização contida em uma Carta Régia. Tentativas de plantação de cacau, em larga escala, no Pará, não apresentou resultados animadores. As pragas, as inundações e a carência de mão-de-obra, despontaram como entraves. Em 1874, Frederico Steiger introduziu o cacau em Ilhéus, na Bahia e obteve meios propícios. O Estado da Bahia produz 95% do cacau brasileiro e exporta 90%. Em segundo lugar, com 3,5% desponta o Espírito Santo. A Amazônia contribui com apenas 1,5% da produção nacional. Na produção mundial, a Costa do Ouro ocupa o primeiro lugar. Depois vem o Brasil, a Nigéria e a Costa do Marfim. Os Estados Unidos da América do Norte são os maiores consumidores de cacau, absorvendo quase quarenta por cento da produção mundial. Em segundo plano, alinhadas aparecem Inglaterra e França. O fruto do cacaueiro tem a forma de um pepino mais ou menos alongado e sulcado, no sentido do cumprimento e contem de 15 a 56 sementes envolvidas numa polpa branca. A polpa é doce, acidulada e comestível. Dela se faz geléia, vinho, vinagre e àlcool.

A planta tem ciclo perene. A colheita ocorre em abril/maio e novembro a janeiro. A preparação do cacau em bolas e bastões é bem artesanal. Uma vez colhidas, as sementes são posta para secar. Depois de torradas são maceradas no pilão. Algumas pessoas adicionam ovos de galinha para dar mais liga. As sementes liberam bastante gordura, da qual é feio o chocolate e a manteiga-de-cacau. Na hora de preparar a bebida, rala-se a bola ou o bastão sobre água quente. O chocolate preparado dessa forma pode ser consumido com açúcar. Em Mazagão-Velho, por ocasião da festa do Divino Espírito Santo, o chocolate é servido aos devotos, misturado a ovos batidos. Na Amazônia, esse costume ainda é bem preservado. No presente momento, o Estado do Pará é o segundo produtor de cacau no Brasil. Novas plantações deverão elevar a produção além dos atuais 6% .


São José, patrono universal da igreja

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José, filho de Jacó e neto de Matam, nasceu em Belém da Judéia, no século I antes de Cristo. Pertencia à tribo de Judá e descendia do rei Davi de Israel. Era viúvo quando desposou Maria. Sua idade girava em torno de 54 anos, enquanto Maria ainda vivia sua adolescência. José gerou duas filhas e quatro filhos com sua primeira esposa e com essa prole foi viver com a jovem eleita para ser a mãe de Jesus Cristo. Os filhos homens de José eram: Tiago, José, Simão e Judá.

Eles conviveram intensamente com Jesus até constituírem suas famílias e o Divino Mestre iniciou suas pregações. Nenhum deles foi apóstolo. Maria passou sua infância no Templo de Jerusalém, sendo uma das jovens consagradas a Deus. Ela e as demais virgens foram preparadas para ser esposas dedicadas, tementes a Deus. Todas sabiam que uma delas poderia ser a escolhida para, por obra e graça do Espírito Santo gerar o Filho de Deus. Seguindo o costume hebraico, os casamentos eram previamente acertados entre os membros das tribos que compunham as tribos de Israel. José e Maria eram integrantes da tribo de Davi. Como José já estava viúvo quando Maria alcançou a idade de casar, o carpinteiro lhe foi dado como esposo. Conta-se que Maria não quis deixar o templo ao atingir a idade de casar. Os anciãos do Tempo oraram por instruções divinas e uma voz disse que o marido de Maria sairia dentre os homens solteiros que fossem ao Templo e ali deixassem seus cajados durante a noite. O eleito seria o dono do cajado que amanhecesse coberto de flores.

Muitos pretendentes assim procederam, mas nenhuma novidade ocorreu. Idêntica oportunidade foi concedida aos viúvos e José decidiu levar seu cajado ao Templo. Pela manhã o cajado de José estava coberto de lírios, o símbolo da pureza e da retidão. Contratado o casamento, José esperou o momento exato para conviver com Maria. Antes que isso acontecesse o Arcanjo Gabriel apareceu a Maria para comunicar-lhe que ela seria a mãe de Jesus. Entretanto, Gabriel só apareceu a José quando ele já havia descoberto que Maria estava grávida e eles nunca tinham coabitado. Como era um homem muito reservado e experiente, José afastou-se de Maria, mas não fez alarde de que não era o pai da criança que Maria estava gerando. José manteve em segredo sua desilusão. Se tivesse tornado público o ocorrido, certamente Maria teria sido lapidada, porque assim deviam ser punidas as adúlteras. Essa punição está contida no Deuteranômio, um dos livros sagrados que formam a Bíblia. A lapidação consistia em apedrejamento público da mulher que o homem rejeitasse por traição. As sagradas escrituras tratam da vinda do Messias e os judeus praticantes do judaísmo sabiam disso. José tinha ampla consciência de que seria um protetor para Maria e para o fruto que seria gerado em seu ventre. Como homem justo que exercia uma profissão capaz assegurar o sustento da família, José passou à História como o pai nutricio do Divino Mestre.

José sempre dedicou especial atenção a Jesus no decorrer da infância do Salvador. Lucas se encarregou de deixar isso bem evidente no evangelho que escreveu. Mateus fala dos pontos de vista de José. A última menção feita a José nas Sagradas escrituras é quando o carpinteiro procura por Jesus no Templo de Jerusalém e o encontra discutindo a doutrina do judaísmo com os anciãos. Acredita-se que José já tivesse morrido quando Jesus foi crucificado.

A veneração dos cristãos a São José começou a se espalhar a partir do século quinze. Antes disso o protetor terreno do Divino Mestre pouco era lembrado. Tinha maior acatamento outro José, filho de Jacó e Raquel que se encheu de glórias como um Zaphnath (descobridor das coisas ocultas), no Egito. Este personagem era conhecido como São José do Egito. A história deste José está contada no Gênese, um dos livros do Pentateuco. Sua vinda ao mundo é considerada uma graça de Deus porque Raquel era estéril. Mesmo sem ser o primogênito, José era o filho preferido de Jacó, fato que levou os irmãos a odiá-lo. Numa viagem ao Egito eles o venderam como escravo a mercadores ismaelitas por 20 moedas (shequel) de prata. Levado ao Egito, José foi comprado por Potifar, que era oficial e capitão da guarda do faraó. Por ser um belo rapaz, José era assediado pela mulher de Potifar a qual rejeitava por respeito a seus princípios religiosos. Sentindo-se humilhada, a mulher do oficial disse ao marido que José vivia tentando seduzi-la. José foi preso e entre os demais prisioneiros revelou-se excelente intérprete de sonhos.

Certa vez interpretou o sonho do Faraó livrando o império egípcio de sete anos de tormentos. Ganhou destaque na corte sem tornar-se arrogante. Era um homem bom e justo. O José carpinteiro sempre foi humilde e resignado. Somente a partir do ano de 1749 a Igreja Católica incluiu seu nome no Calendário Romano fixando a data da sua festa em 19 de março. São Francisco de Assis e Santa Teresa d’Ávila ajudaram a espalhar a devoção. Em 1870, o Papa Pio IX declarou São José Patrono Universal da Igreja Católica Apostólica Romana. O Papa Benedito XV o declarou patrono da Justiça Social. Em 1955, o Papa Pio XII estabeleceu uma segunda festa para São José, a festa de “São José Trabalhador” a ser celebrada no dia 1º de maio, dia do trabalho. Na arte litúrgica da Igreja, São José é mostrado como um homem velho com um ramo de lírio na mão direita e o menino Jesus sentado em seu braço esquerdo. Ele também é retratado realizando seu trabalho de carpinteiro e ensinando o oficio a Jesus. Quando é retratado só, São José carrega um cajado florido de lírios. Outra representação muito conhecida de São José evidencia sua dedicação a Maria Santíssima e a Jesus por ocasião da fuga que empreenderam para o Egito. São José caminha pelo deserto puxando um burro, sobre o lombo do qual viajam Maria e o Salvador. É uma das mais expressivas cenas da Sagrada Família. Tanto esta cena como a retratação de São José em sua oficina, nos podemos ver ao lado do altar mor da Igreja Matriz de Macapá. Os dois afrescos foram pintados pelo Padre Lino Simonelli por volta do ano de 1950. A retratação da oficina de São José foi a que mais me deixou impressionado porque eu conheci um marceneiro de Macapá que possuía uma serra igual a que o santo carpinteiro usava.
A escolha de São José como padroeiro de Macapá não é obra do acaso. Quando o povoado de Macapá foi instalado, em novembro de 1751, o Rei de Portugal era D. José I, devoto do santo. Nada mais prático para que fosse prestada dupla homenagem, ao santo e ao rei. São José é o padroeiro de Macapá há 259 anos. A fortaleza de Macapá também leva seu nome e nela existiam duas imagens de São José. Uma na capela. Outra no frontispício do portal de entrada. Na década de 1920, quando a Fortaleza foi declarada sem serventia e abandonada, a imagem postada no frontispício do portão foi retirada e guardada na Igreja Matriz de São José. Essa imagem mostra São José usando botas. Sobre esse assunto escreverei no próximo domingo.


Beirol

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Três tipos de falésias existiram em Macapá, na margem esquerda do Rio Amazonas. As falésias da Fortaleza de São José se destacaram mais, tendo entre 5 a 6 metros de altura. À esquerda da imponente fortificação, um pouco além do Igarapé do Igapó tinha inicio outro trecho, que correspondia ao perímetro entre a área da antiga Rua da Praia, até o torrão cortado pela Rua Cândido Mendes de Almeida. Nessa parte elevada foram edificados o Fórum de Macapá, atual OAB, Residência Governamental, Posto de Puericultura Iracema Carvão Nunes, Casa Maternal, Rádio Difusora de Macapá, Laboratório de Análises Clínicas, Escola José de Alencar e várias residências. Em termos de vias públicas, podemos enquadrar o trecho entre as Avenidas Padre Júlio Maria de Lombarde e Matheus de Azevedo Coutinho. À esquerda da Fortaleza, a partir do ponto onde foi aberta a Avenida Ataíde Teive, até o prédio do Sesc/Araxá, ainda podemos ver sinais evidentes da terceira falésia, notando o quanto ela é alta.

A toda esta extensão de terra, os militares da Fortaleza chamavam de beirol. A designação é bem interessante e não aparece nos dicionários brasileiros. A rigor, nem em Portugal a palavra é empregada. Então, qual a origem do vocábulo? Existiu em Portugal, uma casa de detenção denominada “Prezidio de Beirollas”, certamente erguido em área de falésias à beira mar. Beirollas passou a ser escrito como beirola, significando beirada ou beira, correspondendo a uma espécie de paredão de terra. Originaram-se de beirola as palavras beiranita, beiranito, beiredo, beiró, beirô, beiroa e beirão, que é o feminino de beirola e quer dizer habitante da beira.

Consta que por ocasião dos exercícios de tiro com canhoes instalados no baluarte Madre de Deus, os artilheiros das forças aquarteladas na Fortaleza usavam como alvo, uma parte do paredão ou beirol, na área onde surgiu a comunidade de Mucajá. O nome beirol voltou a ser mencionado após a instalação do Território Federal do Amapá, haja vista que a área do atual bairro macapaense foi escolhida para ser concedida às pessoas interessadas em desenvolver atividades próprias do setor primário. Os lotes, com cerca de 500m de frente por 500 de fundo, deveriam abrigar projetos de criação de aves, suínos, bovinos e produção de verduras e frutos. Infelizmente, alguns dos contemplados com lotes não permaneceram o tempo necessário para tocarem seus projetos. Apenas dois detentores de lotes levaram em frente suas iniciativas; Cláudio Carvalho do Nascimento e João Barbosa, o dono da Vacaria. Atualmente, apenas o primeiro permanece residindo no lote recebido. Ali, ele criou gado e desenvolveu outras importantes atividades. Sua propriedade ficava bem isolada do centro de Macapá e boa parte do terreno era alagada. Nem o trecho da estrada Macapá/Fazendinha passava em frente de sua casa. Aos poucos, o Beirol foi sendo ocupado por novos moradores de Macapá, que não conseguiram terreno do Trem. Em 1949, o Beirol sediou uma Colônia Prisional, o primeiro presídio da cidade. Antes dele, os presos com penas mais drásticas iam cumpri-las em Belém, no Presídio São José. Os demais ficavam na Fortaleza. Os apenados do Beirol criavam aves, suínos e plantavam árvores frutíferas, principalmente caju. Por causa disso, o presídio era identificado como Cajual. Num espaço hoje ocupado pela Igreja de São Pedro e um posto de saúde do Lions Clube, foi construído um forno crematório.

A rodovia Macapá Fazendinha, perímetro da atual Jovino Dinoá, começava na Avenida Feliciano Coelho e passava entre o Presídio e o forno crematório. No segundo semestre de 1949, quando o governo amapaense decidiu construir um estádio de futebol, nos termos exigidos pela Confederação Brasileira de Desportos e Fifa, uma área próxima à Colônia Prisional São Pedro foi escolhida, mas descartada por ser julgada distante do centro de Macapá. O Estádio Territorial, depois Municipal, e mais tarde Glicério Marques, despontou um pouco além da Favela. Na área litorânea do bairro Santa Inês, originalmente chamada Vacaria, as águas do Amazonas lavavam o terreno baixo inundável. O aparecimento do Araxá foi obra de Pauxy Gentil Nunes, que ali fixou um rudimentar balneário para uso nos fins de semana.O acesso era feito pela estrada Macapá/Fazendinha, da mesma forma que hoje prevalece, através da Rua Jovino Albuquerque Dinoá.


A volta do besouro verde

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Existe na linguagem popular uma expressão bastante pitoresca que revela o sentimento de vingança que uma pessoa sente em relação a quem lhe causou algum mal. A contrariedade pode decorrer de palavras, gestos ou ações ofensivas e agressivas, porque o atingido não reza na cartilha do agressor. Portanto, a volta do besouro verde equivale à hora do revide. Jesus Cristo sempre condenou o sentimento de desforra. Tanto é verdade, que ecoa na mente de todos os cristãos suas palavras recomendando que um atingido na face ofereça o outro lado para também ser batido. Esse ensinamento é difícil de ser cumprido, principalmente pelos homens, pois, afinal de contas, “em cara de homem não se bate”.

O próprio individuo agressor sempre fica no aguardo do troco. Na esfera política, alguns governantes e detentores de cargos eletivos costumam subtrair do povo aquilo que lhes é necessário para sobreviver. Agem dessa forma quando os eleitores não aceitam suas lideranças e denunciam seus deslizes. As ações perniciosas de pérfidos políticos atrapalham o cidadão reto, mas também martirizam os autores dos feitos. Muitas vidas foram ceifadas ao longo da história da humanidade porque os poderosos vingaram-se das pessoas que contrariavam seus interesses. O tempo passou, mas a expressão “a volta do besouro verde” ainda permanece em voga. Aqui mesmo, no Estado do Amapá, existem sentimentos de vingança em profusão pairando no ar e enraizados na mente dos eleitores. E de onde vem tal expressão. Os que vivem nas regiões onde ocorre a criação de gado se acostumaram a ver um besouro esverdeado, conhecido como escaravelho, que usa o excremento de mamíferos herbívoros para se alimentar e enterrar seus ovos.

O trabalho de recolher excrementos é sempre reservado as fêmeas. Elas separam pedaços do esterco ainda frescos, rolam na terra até formar bolas, algumas maiores do que a própria artífice. Em seguida, apoiando-se nas patas dianteiras, rolam as bolas pra trás na direção de um buraco que é sua morada. Se a bola de fezes não couber no buraco a fêmea do besouro trata de ampliar a entrada. Depois de introduzir a bola no buraco, a besoura fura uma câmara na pelota e ali poe seus ovos. A quentura do esterco em fermentação acelera a eclosão dos ovos e o aparecimento das lavas. Tanto a mãe como os filhos se alimentas do esterco.

O trabalho da fêmea do besouro é demorado. Em determinados momentos ela alça vôo e desaparece, dando a impressão de que desistiu da empreitada. Algum tempo depois, sempre “zunindo”, ela reaparece e reinicia sua acrobacia. Alguém pode julgar que a besoura seja desprovida de inteligência. Ledo engano, seu cérebro é do tamanho de um grão de arroz, mas lhe assegura eficiência e maestria, no duro trabalho de rolar ou virar bosta. O político que se elegeu com o apoio de eleitores, que depois foram desconsiderados, sabe que, numa próxima eleição deve estar preparado para aguardar “a volta do besouro verde”. Mas não é só na política que a expressão é usada. Lembro de um fato pitoresco ocorrido com um contemporâneo das lides esportivas, que se enamorou de uma garota bonita, mas foi rejeitado por ela com frase: “vê se tu te enxergas”. Na ocasião, o jovem lhe disse: “ta legal, mas eu vou esperar a volta do besouro verde”. Assediada por homens endinheirados, a moça acabou vivendo com eles tórridos romances em freqüentes orgias, até adoecer e perder a bela estampa que a tornara tão desejada. Refeita da doença já não possuía tantos atrativos e acabou freqüentando o rendez-vous do “Vico”. Certa noite, sem ter conseguido freguês, ela viu o jovem que desprezara adentrar no “Vico”. A fome a impeliu a se aproximar dele para pedir que o mesmo lhe pagasse um prato de sopa e ofereceu seu corpo como recompensa. Foi atendida quanto à sopa, mas recusada como parceira de tranza. E ainda ouviu o rapaz dizer: “lembras que eu te disse que iria esperar a volta do besouro verde?”. O troco foi dado.


Boto não vira gente

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Essa conversa de que o boto vira gente, para seduzir mulheres que vivem nas margens de rios e igarapés, surgiu quando algumas jovens solteiras engravidavam e seus familiares cuidavam de proteger sua honra.

Em tempos mais recuados, quando uma mulher solteira engravidava dava um rolo danado. Com medo das ameaças do sujeito que lhe aplicara o “benefício”, não revelava sua identidade. Para todos os efeitos, o “beneficiador” tinha sido o boto vermelho.

Mas não eram apenas as solteiras que ficavam prenhes “misteriosamente”. Algumas mulheres casadas, amigadas ou amancebadas, cujos maridos passavam longo tempo fora de casa, perambulando pela floresta, riscando seringueira ou colhendo produtos extrativos, envolviam-se com outro homem e lançavam a culpa no pobre do boto.

Certamente, devido ao fato do boto ter pênis e ficar irrequieto quando uma mulher menstruada navega em pequena canoa, acompanhando-a o tempo todo, os índios e os caboclos inventaram a lenda de que o pobre mamífero da ordem dos cetáceos se transformava em homem para deflorar as virgens amazônidas que frequentavam festas dançantes de devoção ou de aniversário.

Como o “embarrigamento” de donzelas era relativamente acentuado, muitas famílias se apressavam em dizer que a “barriguda” tinha sido seduzida pelo boto. A lenda corresponde a uma história fantasiosa demais.

Ora, como é que um jovem estranho de roupas brancas, usando chapéu para encobrir o furo (respiradouro) no topo da cabeça e exalando um forte pixé, diferentemente dos caboclos que abusavam do perfume, não despertava curiosidade dos pais das moças e demais marmanjos? E, porque apenas o boto tinha o poder de se transformar em gente? A bota também deveria ter o mesmo poder.
É provável que os homens das próprias famílias mantivessem relações sexuais com filhas, sobrinhas, enteadas, cunhadas, sogras e agregadas, tirando proveito da lenda do boto pra lançar uma cortina de fumaça sobre o “estado interessante” das fêmeas da família.

O boto tem pênis, e a bota possui peitos e vagina. No período de acasalamento, que acontece de outubro e novembro, a bota expele uma secreção que tem o mesmo cheiro do sangue da mulher menstruada, que excita o boto, avisando-o de que está pronta para a reprodução.

A secreção não pode ser entendida como menstruação, haja vista que essa só ocorre nas mulheres e primatas (chimpanzés, gorilas e outras macacas). Na menstruação, o sangue que a mulher e as fêmeas primatas expelem pela vagina decorre da eliminação do endométrio devido à falta de fecundação dos óvulos. Nas fêmeas das demais espécies animais o endométrio é absorvido pelo útero.
Vale esclarecer que a cadela não menstrua, como muita gente pensa. O sangramento que algumas delas liberam provém do rompimento de pequenos vasos devido ao elevado fluxo de sangue no período do cio.

A ignorância dos índios e dos caboclos, em termos de anatomia, fez surgir a lenda. É claro que o homem só reproduz outro ser com mulheres. Pode transar com fêmeas de outras espécies, que nada acontece.

Conta-se que muitos caboclos realizavam tapagem de igarapés usando o “pari”, para capturar peixes, aprisionando botas caso elas estivessem no trecho interditado. Depois da vazante da maré, estando a bota indefesa sobre a lama, o pescador saciava seu apetite sexual. Existem registros de elementos que agiram dessa forma e eles são unânimes em dizer que as contrações dos músculos vaginais da bota deixam o ser humano estafado.

O cansaço não provinha do ato sexual em si, mas do esforço desprendido para se manter sobre a bota. De um modo geral, o caboclo matava a bota temendo que ela estivesse grávida.
Ao nascer, o boto vermelho tem a pele cinza. Seu nome científico é “Inia geoffrensis”. Coube ao francês Jacques Cousteau alterar a designação boto vermelho para boto cor de rosa. A outra espécie é preta, nominada tucuxi, mas parece que não tem o mesmo poder do boto vermelho.

No interior da Amazônia, o filho de mulher que não sabe quem é o pai do bruguelo é tido como “filho de boto”. Com certeza, boto de cinco dedos em cada mão. Como tudo acontece no Brasil, não estranhem se aparecer boto com apenas quatro dedos na mão esquerda.


Um raid pela democracia

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Quando eclodiu a Revolução Militar de 1964, que tirou do cargo de Presidente da República o Dr. João Belchior Marques Goulart, o Tenente do Exército José Alves Pessoa, residente em Macapá, não aprovou a ação de seus colegas de farda e protestou ao ver cidadãos serem presos e excluídos do serviço público de maneira sumária.

O ilustre militar também foi atingido por medidas coercitivas, à pior delas o feriu profundamente seu amor cívico pelo Brasil. Por incrível que pareça, mesmo vivo, o Tenente Pessoa foi compulsoriamente passado para a reserva e assim mantido como se estivesse morto. Uma série de acusações lhe foi direcionada, entre elas a pecha de ser subversivo e indisciplinado. Ora, o Tenente Pessoa presidiu o Tiro de Guerra nº 130 e o fez muito bem. Evidenciou sua condição de disciplinador em todas as circunstâncias. Costumava estimular seus subordinados propensos a fracassar nas aulas de instrução militar, que o Exército é uma instituição para gente decidida, forte e disciplinada. Dizia que “guerra é guerra” e não tem moleza. Ninguém em sã consciência deve considerá-lo insensível, porque o velho “Engrena” era boa praça. Depois de ser duramente punido pelo Exército, o Tenente Pessoa enfrentou momentos muito difíceis. Até alguns indivíduos que se diziam amigos lhe viraram as costas e o hostilizaram. Em 1972, ano do sesquicentenário da independência do Brasil, o Tenente Pessoa decidiu empreender uma caminhada para demonstrar publicamente o seu amor pela Pátria. A jornada, que ele denominou “Raid pedestre Oiapoque-Chuí” teve largada na margem direita do rio Oiapoque e chegada a margem esquerda do Arroio Chuí, foi organizada com bastante alarde e contou com o apoio de seus irmãos maçons,familiares,desportistas, escotistas e amigos sinceros.

Os patronos da jornada foram: Almirante Benjamim Sodré (destacado escotista do Pará), Marechal Juarez F. Távora (grande amigo de farda),Marechal do Ar Eduardo Gomes, General Ivanhoé Gonçalves Martins, governador do Território Federal do Amapá, Dr. Laudo Natel, governador do Estado de São Paulo,Dr. Euclides Triches,governador do Rio Grande DO Sul e Dr. João Havelange,Presidente da Confederação Brasileira de Desportos. Patrocinaram o raid a Região Escoteira do Amapá, representada pelo Chefe Clodoaldo Carvalho do Nascimento e a Federação Amapaense de Desportos através de seu presidente Wilson Pontes de Sena. Á época em que residia no Rio Grande do Norte, sua terra natal, José Alves Pessoa compôs com os amigos Humberto Lustosa da Câmara, Aguinaldo Vasconcelos, Henrique B. Oliveira e Antônio G. da Silva, todos integrantes do movimento escoteiro potiguar, um grupo cívico que realizou uma caminhada entre Natal e São Paulo.

O propósito do grupo foi comemorar o Centenário da Independência do Brasil. Conforme planejaram, dia 7 de setembro de 1922, eles estavam em São Paulo, em frente ao monumento do Ipiranga. No raid de 1972, ele quis relembrar o feito anterior e novamente fez uso da farda dos discípulos de Baden Powell, afinal de contas, no escotismo existe a máxima de que “uma vez escoteiro, sempre escoteiro”.

No dia 1º de março o Tenente Pessoa deixou a cidade do Oiapoque com destino a Macapá. Se atualmente a Rodovia BR 156 ainda interpõe muitos obstáculos, imagine há 43 anos. O caminhante de então não era mais o vigoroso jovem potiguar do circuito Natal-São Paulo. Em 1972, o Tenente Pessoa estava com 69 anos de idade. Após cobrir o percurso Oiapoque-Macapá, com mais de 600 km, o bravo caminhante seguiu para Belém, onde iniciou a segunda etapa da empreitada. Entre Belém e a Rodoviária do Rio de Janeiro, passando por Belo Horizonte, ele caminhou 3.347 km. Passou a semana da Pátria em São Paulo. Concluiu seu roteiro no dia 19 de novembro de 1972, no Arroio Chui, onde derramou água do rio Oiapoque levada em um frasco.