Promessas à granel renovadas

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Os promesseiros políticos estão de volta e mais inconsequente. São praticamente os mesmos de outras jornadas, Falam que nem papagaio da cabeça amarela, curicas e maritacas. A cara deles nem treme. Eles correspondem aos periquitos que só pousam nas mangueiras quando elas estão frutíferas. Chegam com uma fome feroz e não dispensam sequer as manguinhas verdes. As palavras chaves são as mesmas de sempre: novas escolas, postos médicos, atendimento dentário, assistência hospitalar esmerada, novos coletivos, geração de empregos, asfaltamento de ruas, avenidas, becos e pontes, bibliotecas com moderníssimo acervo, segurança pública eficiente, limpeza total das cidades, aberturas de novas estradas e revestimento asfáltico das existentes, etc. Segundo informes de domínio público, são mais de 600 candidatos concorrendo aos cargos de deputado estadual, deputado federal, senador e governador. Alguns deles já alcançaram o píncaro da glória, mas agora estão em queda livre e prestes a sentirem o “cheiro da perpetua”. Mesmo assim não perdem a pose. Falam com a voz mansa como se fossem “anjos de candura”, mas só parecem. Dizem, que o diabo quando não vem manda o secretário ou alguém que o represente.

No jogo da politicagem o desrespeito entre os concorrentes é brutal. Até as criaturas mais sujas do que pau de galinheiro juram que são anjos de candura. Para agradar os eleitores, vários candidatos evidenciam apelidos bem bizarros, porque a escrita ou a pronúncia literal não soam bem. Sujeito de baixa estatura, que tem a bunda baixa é identificado como “cu-de-rã” ou “De rã”. Outro, cujo “cegonho” não ergue mais o pescoço é “Pau Mole”. Até um tal de “Sobre Cú” busca um lugar ao solo. É famosa a história de um indivíduo que ficou rotulado como “calça nova”. Sendo conhecidíssimo no serviço público, por exigir e receber propina caiu na besteira de enaltecer sua duvidosa honestidade por ocasião de um comício. Batendo nos bolsos laterais da calça gritou: “nestes bolsos nunca entraram dinheiro público”. Um eleitor, que conhecia muito bem a vida pregressa do bafento, retrucou: “calça nova, né Gabiru”? Há concorrentes afirmando que obteve somas elevadas de dinheiro federal para a execução de obras no Amapá. É tanta grana que daria para construir mais duas UNIFAP.

Um ex-governador que não admitia a plantação de soja em nossos cerrados, agora propala que vais estimular tal prática agrícola e prensar os grãos aqui mesmo. Outro ex-gestor santiaguês, em duas oportunidades ignorou a presença de duas equipes técnicas do Hospital do Câncer, de Barretos, São Paulo, que veio a Macapá a convite do Padre Paulo Roberto. Os técnicos da referida casa de saúde tentaram marcar audiência com o governador, mas ele os ignorou. Entretanto, agora, a mater vive espalhando que devota especial carinho à saúde pública. Nossos eleitores ainda apoiam quem procede de modo inadequado. Basta haver uma compensação pessoal para destinarem votos aos enganadores. Passadas as eleições, sem receberem coisa alguma passam a hostilizar os pretensiosos. Ocorre que pretensão é um coisa e a realidade outra.
A política bem conduzida é importante e salutar. Porém, querer praticá-la usando de práticas aéticas e imorais penaliza os munícipes e só apresenta vantagens para os que agem em conluio ou “cumandita”. Por isso, a “política” é tida como a arte de enganar os trouxas. E é mesmo. Vez por outra, velhacos políticos tiram do fundo da cartola alguém que o eleitor nem conhece. O sujeito é orientado a agir com cidadão exemplar e merecedor de toda a confiança possível. Este tipo de gente é rotulada como “jabuti”, que num passo de mágica sai do chão para o galho de uma árvores. Ora, jabuti não sobre em árvore, dirão alguns eleitores. Isso mesmo, mas vocês, estimulados por políticos velhacos o colocam em plano elevado. A desgraça é que, uma vez estabelecido no galho, o jabuti não quer descer de jeito algum.

A queda só acontece quando a árvore é derrubada. Para evitar o desmatamento é recomendável manter o jabuti no chão. Quem não dispuser de fartos recursos financeiros e não conseguir fechar acordo consistente com financiadores de campanhas não deve de atrever a concorrer a um cargo eletivo. Nem sempre o eleitor está disposto a fazer uso do voto de protesto, que é optar por um candidato tido sem expressão, cuja vitória despertará revoltas e rancores nos candidatos melhor qualificados. Coisas deste tipo já ocorreram no Brasil.Em São Paulo os eleitores votaram no rinoceronte “Cacareco”,que era do Zoológico do Rio de Janeiro e tinha cedido para o congênere paulista por um certo período de tempo.

Os eleitores gozadores alegaram, que sendo vereador na pauliceia o “Cacareco” teria que exercer seu mandato na terra da garoa.Em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, foi eleito o “Bode Cheiroso”, caprino que chegou a vestir paletó e ser levado à Câmara Municipal no dia da posse.( 2016).


Doenças de mau caráter

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Os colonizadores portugueses rotulavam como doenças de mau caráter a malária, o sarampo, a varíola e as febres motivadoras de diarreias sanguinolentas. A malária manifestou-se desde o inicio da colonização do Brasil. Já em 1549, o Padre Manuel da Nóbrega se referia à malária como terçã (ou febre terçã, que se repetia a cada três dias) quartã, sezão, maleita, paludismo e carneirada. O primeiro surto de varíola ocorreu no período de 1561 a 1565, irrompendo principalmente na Bahia, se alastrando por São Paulo de Piratininga. O Padre Leonardo do Vale, que exercia suas atividades sacerdotais na Bahia, registrou que a varíola matava tanta gente que não havia quem se dispusesse a cavar covas fundas com medo de ser contaminado pela terrível doença. Alguns corpos eram enterrados sob monturos e ao redor das casas. Tão mal enterrados que os porcos os descobriam e comiam.

Os indivíduos que os sepultavam eram contaminados e morriam a mingua No decênio de 1580, conforme registrou Gabriel Soares de Souza a malária marcou sua presença entre os indígenas. Desprovidos de recursos médicos utilizados pelos portugueses, os índios buscavam a cura alimentando-se de mingau de farinha de carimã e untando-se com água de jenipapo. Acredita-se que a malária chegou ao Brasil trazida pelos navios que transportavam escravos. Julgavam que sim porque Angola estava sujeita às mesmas carneiradas, com que morrem muita gente. Em 1662, uma epidemia de varíola teve inicio no Maranhão e se espalhou pelo litoral brasileiro até São Paulo. Só no porto de Santos ela vitimou um terço da população. Na Bahia, entre os anos 1680 e 1684, o surto de varíola foi considerado castigo do céu.

A doença atingiu em cheio principalmente as famílias numerosas, com até 50 pessoas, que viviam em casas pequenas e dormiam amontoadas. Também pereceram escravos e agregados. No Pará, a varíola surgiu de maneira fulminante nos anos de 1720, 1724, 1740, 1743 a 1749. Foi tão agressiva que ceifou a vida de 40 mil pessoas. Conhecida como a peste das “bexigas”, a varíola marcou sua passagem pelo Maranhão, em 1724,, 1730, 1785-1787 e 1799. Em Pernambuco em 1705 a 1715 e 1793. Na Bahia em 1732 a 1733. Em São Paulo em 1723 a 1730, 1741 a 1744, 1761 e 1798. Em Goiás em 1771.

A sujeira era um terrível hábito dos moradores das vilas e cidades. Toda a imundície gerada nas casas era direcionada para as ruas, travessas e vielas. Até 1617, as ruas das cidades não eram calçadas e a água da chuva arrastava para o leito das vias públicas detritos diversos e dejetos humanos ladeira à baixo. Imagine que uma importante ladeira de Salvador era rotulada como “Ladeira da Preguiça”, visto que o transeunte cauteloso tinha que andar muito devagar para vencê-la, notadamente subindo-a. Em 1817, no Rio de Janeiro, a pavimentação das ruas era ruim e a iluminação fraca. Animais e escravos viviam vagando pelas ruas e nelas faziam as suas necessidades fisiológicas. Em 1768, o marques do Lavradio, governador e capitão-general da Bahia, em carta direcionada ao rei de Portugal, afirmou o adiantamento do Brasil ocorria muito devagar. Em 1798, Luis dos Santos Vilhena, professor de grego em Salvador, disse que o Brasil “era a morada da pobreza, o berço da preguiça e o teatro dos vícios”. Indagava em seguida: “Por que um país tão fecundo das produções da natureza, tão rico em essências, tão vasto em extensão, há de ser habitado por um tão diminuto número de colonos, a maior parte pobre, muitos deles esfaimados”.

A resposta pode estar no fato de as elites portuguesas, formada pelos intelectuais, ficarem tomadas de verdadeiro pavor quando se falava em mudar a situação do Brasil colônia. Isto porque a mudança poderia tirar o povo desvalido da dominação dos poderosos.

O Estado português via o Brasil como uma fonte perene de renda. O povo que o habitava ficava a mercê do sentimento do rei. Todos dependiam da sua bondade. No Estado do Grão Pará, por volta de 1752, o governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado rogava ao Marques de Pombal, seu irmão e primeiro ministro do rei, que o tirasse do Brasil assim que completasse três anos de gestão. Mendonça Furtado dizia que se achava cercado de “miseráveis ignorantes”.

O citado governador chegou a Belém em setembro de 1751 e encontrou a população enfrentando uma epidemia de varíola, cujo inicio se deu em 1750 e continuou implacável até 1758. Em março de 1752, ao visitar o povoado de Macapá, que mandara instalar em novembro de 1751, Mendonça Furtado soube que oitenta moradores tinham morrido vitimados por febres e diarréia sanguinolenta. Os açorianos eram maioria entre os mortos. Índios e negros cativos também pereceram. À época, só mortos ilustres eram enterrados nas igrejas, deixando o interior dos templos dominado pela podridão dos cadáveres.


Os territórios federais criados em 1943

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No período colonial a área da Região Amazônica estava dividida em dez unidades político-territoriais entre capitanias gerais e secundárias, subordinadas diretamente ao Governo Central de Portugal. Eram elas Maranhão, Grão Pará, Tapuiara, Gurupá, Cametá, Cabo Norte (Amapá), São José do Rio Negro (Amazonas), Mato Grosso e Goiás. Proclamada a independência, toda vasta região Amazônica ficou sob a administração de uma única unidade política, a Província do Pará, que, logicamente não condições para tal.

O Constituinte de 1823, Antonio Carlos de Andrade e Silva, propôs a reformulação da divisão do País, criando várias unidades políticas na Amazônia. Em 1849, o visconde de Porto Seguro (Francisco Adolfo de Varnhagen) propôs a divisão da Amazônia em oito províncias: Centro Amazonas, Rio Negro, Paraguai-Xingu, Madeira, Pará, Novo Piauí Goiás e Maranhão. Porém, a única modificação ocorrida foi a criação da Província do Amazonas, em 1850, desmembrada da Província do Grão-Pará. Com a proclamação da República em 15 de novembro de 1889, as Províncias passaram a ser identificadas como Estados. Apenas uma nova unidade federativa foi criada, em 1903, o Território do Acre, par4a dar solução ao problema decorrente da compra da área que pertencia à Bolívia.

As reivindicações de outrora não encontraram resguardo na primeira constituição republicana, haja vista, que nenhum dispositivo abordava o tema divisão territorial. Elas ressurgiriam a partir de 1930, embaladas pelos propósitos do movimento revolucionário desencadeado pela Aliança Renovadora, que destituiu do cargo de presidente Washington Luiz e escolheu Getúlio Vargas como seu substituto. Alguns parlamentares foram exagerados na formulação das propostas apresentadas. No entendimento de Ari Machado Guimarães, a Amazônia deveria ser dividida em 23 departamentos, com a mesma estrutura institucional do Acre. Seu projeto não mereceu atenção alguma.

Em seguida, Juarez Távora sugeriu a criação de 15 unidades federais, entre elas, Rio Negro, Javari, Purus, Madeira, Guaporé, Cuiabá, Tapajós, Xingu, Tocantins, Mearim e Goiás. Outras propostas surgiram, sendo bem interessante a que Evandro Backeuser apresentou em 1933. Seu projeto previa a criação de 36 unidades político-administrativas evidenciou o “critério eqüipotência”, exigindo que “as partes de um todo devem ser mais ou menos equivalentes, não só em área como em eficiência política e econômica”.

A Constituição de 1934 determinava que, qualquer Território surgido no Brasil, só poderia ser elevado a condição de Estado, mediante lei especial, assim que tivesse 300.000 habitantes e recursos suficientes para a manutenção dos serviços públicos. Este dispositivo constitucional jogou um balde de água fria no quesito divisão territorial. Porém, em 1937, a nova Constituição dos Estados Unidos do Brasil possuía um dispositivo mais viável: “a União poderá criar, no interesse da defesa nacional, com partes desmembradas dos Estados, Territórios Federais, cuja administração será regulada por lei especial”.
A eclosão da II Guerra Mundial contribuiu bastante para que o Governo Federal atentasse para a necessidade de criar fronteiras vivas e a defesa da Segurança Nacional. No dia 11 de outubro de 1940, o Presidente Getúlio Vargas, que tinha estado em Manaus estendeu sua viagem até a cidade amazonense de Porto Velho. Sua visita deveria durar apenas três horas, mas foi prorrogada até o dia 13 devido às questões político-administrativas ali encontradas. A área do atual Estado de Rondônia era conhecida como região do Alto Madeira e seus ocupantes reivindicavam há bastante tempo a criação de um território federal com sede em Porto Velho. Getúlio Vargas era defensor da campanha “Marcha para o Oeste” e sabia ser necessária a ocupação de áreas de fronteiras, caso do atual Estado de Rondônia, onde funcionava a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, dirigida pelo Tenente Aluisio Ferreira.

A borracha produzida no vale do Guaporé e regiões limítrofes eram transportadas através da ferrovia. Ao ver a relativa infra-estrutura local, Getúlio disse: ”Isso já é um Território Federal”. Autorizou os estudos para a criação de cinco Territórios Federais: Guaporé (desmembrado do Amazonas e Mato Grosso), Rio Branco (Amazonas); Amapá (Pará), Iguaçu (Paraná) e Ponta Porã (Mato Grosso). Às 16 horas do dia 13 de setembro de 1943, no salão dos despachos do Palácio do Catete, Getúlio Vargas assinou o Decreto-Lei nº 5.812, instituindo as novas unidades federais.


Macapá, hostilidades e revanchismos – II

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Na noite de 18 de setembro de 1898, tendo como local o Teatro Nossa Senhora da Paz, o Partido Republicano Paraense ofereceu um banquete a seus filiados, membros da imprensa e pessoas gradas da comunidade, para lançar a candidatura de Justo Leite Chermont ao governo do Estado do Pará. A idéia partiu do Dr. Paes de Carvalho e contou com a aceitação dos principais lideres da referida associação política, notadamente do maranhense Antônio José de Lemos, que então exercia o cargo de Intendente Municipal de Belém. Por volta das 23 horas do dia acima mencionado, quando o jantar já havia terminado, o Intendente fez uso da palavra afirmando que o senhor Justo Chermont seria o candidato do PRP no pleito que iria acontecer no dia 15 de novembro de 1900. A 22 de junho de 1899, Antonio lemos reelegeu-se intendente de Belém.
Nessa oportunidade, Justo Chermont exercia o cargo de Senador da República, no rio de janeiro e Augusto Montenegro era Deputado Federal. Próximo à eleição deu-se um que deixou os paraenses perplexos: Antônio Lemos ignorou Justo Chermont e lançou a candidatura de Augusto Montenegro. Ora, Justo Chermont sendo sócio de Lemos no Jornal “A Província do Pará” e em outras atividades comerciais parecia ser a pessoa mais credenciada para contar com o apoio do Intendente. Entretanto, Justo Chermont tinha personalidade forte e jamais se deixaria levar pelos arroubos autoritários de Lemos. Consta que o mote da atitude de Lemos foi a animosidade que ele mantinha com Pedro Chermont e o cumprimento de uma promessa que fizera ao Dr. Joaquim José Assis, seu protetor no jornal “A Província do Pará” para vingar-se de Justo Chermont, do qual o Dr. Assis era sogro.

O pedido de vingança teria sido feito no leito de morte do Dr. Assis porque Justo Chermont o prejudicou financeiramente. Entre os delegados municipais do PRP, figuravam Augusto Montenegro como representante de Macapá e João Gualberto da Costa por Mazagão Os dois municípios pertenciam ao Pará e a sede de Mazagão ainda era o atual Mazagão Velho. Ambos viviam em Belém e nunca visitaram os municípios que representavam. No dia 15 de setembro de 1890, em seção realizada as 19h30, 36 delegados de PRP votaram para escolher os candidatos do partido na eleição de 1900. Augusto Montenegro obteve 35 votos, Geminiano de Lyra Castro, 32 e Fulgêncio Simões 2. Consequentemente a chapa seria formada por Montenegro e Geminiano. Nessa época votava-se no titular e no vice. Em Macapá, o Intendente Theodoro Mendes manifestou-se por Geminiano como candidato a vice-governador e Justo Chermont para governador. Acontece que Justo Chermont integrava o Partido Federal, sua candidatura fora lançada no dia 21 de outubro de 1899 e divulgada no jornal “A República”. Seu companheiro de chapa era Firmo José da Costa Braga.

O pleito transcorreu num clima de muita violência, principalmente no interior do Estado do Pará, fato que levou muita gente a não comparecer às seções eleitorais. Muitos eleitores votaram no PRP com medo de sofrer represálias. Mesmo contando com o apoio político de Lauro Sodré, os candidatos do Partido Federal foram fragorosamente derrotados. Concluída a apuração, a 27 de janeiro de 1901, Augusto Montenegro obteve 35.525 votos e Justo Chermont não foi além de 8.431 votos. O candidato à vice pelo PRP, Geminiano Lyra teve mais votos do que Augusto Montenegro: 33.545.
O vice de Chermont, senhor Firmo Braga conseguiu 8.425. Os eleitos tomaram posse no dia 1º de fevereiro, no Congresso Legislativo Estadual, às 9h30. Passado o pleito tudo indicava que a normalidade política se estabeleceria no Pará. E teria ocorrido não fosse o sentimento de vingança que animava Cipriano José dos Santos, o mais exaltados dos membros do Partido Republicano do Pará. É-lhe atribuída a idéia de destituir do cargo de Intendente de Macapá, Tenente Coronel Manuel Theodoro Mendes. Para por em execução seu plano, Cipriano Santos valeu-se do Capitão da Guarda Nacional Aprígio Peres Nunes, que tinha uma propriedade na região das ilhas fronteiras a Macapá e que à época integrava a jurisdição administrativa desse município. Por influência de Cipriano Santos, o capitão Aprígio tinha sido nomeado Prefeito de Segurança (Delegado de Polícia) e deveria substituir o Coronel Coriolano Jucá. No dia 25 de março de 1901, a bordo de sua canoa a vela “Flor da Bondade”, Aprígio Nunes e 20 dos seus apaziguados desembarcaram em Macapá, fundeando a embarcação no Igarapé do Igapó, próximo a Fortaleza de São José. Veio com ele o Juiz de Direito Substituto, Manuel Buarque da Rocha Pedregulho, que viera substituir o Juiz de Direito Francisco Peregrino dos Santos Tocantins. Estranhando a presença de Nunes e tantos capangas, o negro Pedro Cecílio da Silva, vulgarmente conhecido como Pedro Lazarino, compareceu a uma reunião, à noite, na casa do novo juiz. Ficou sabendo que o movimento tinha como alvo seu compadre Theodoro Mendes. Questionado sobre sua presença na reunião, Pedro Lazarino disse que estava brigado com o Intendente. No desenrolar da reunião, Aprígio Nunes revelou seu plano: tirar da Intendência Theodoro Mendes, mesmo que assassinado. Assim que saiu da reunião, Lazarino foi à casa de Theodoro, mas ele achou que tudo não passava de invencionice. Ainda à noite, Lazarino manteve contato com o Capitão-mor Pompeu Aureliano de Moura e contou o que ouvira na casa de Aprígio. Imediatamente, Pompeu Aureliano recrutou um bom número de soldados da Guarda Nacional e os posicionou próximo ao local da reunião. Misturados no meio do povo sublevado por Lazarino, os soldados desalojaram o grupo de Aprígio Nunes, que respondeu com cerrado tiroteio a noite toda. Aprígio foi informado de que sua canoa tinha sido incendiada e deixou a cidade numa pequena “montaria”.O Juiz Manuel da Rocha Pedregulho, foi apanhado pelos defensores de Theodoro Mendes e colocado com suas filhas e esposa em um chiqueiro. Só não foi morto porque o Coronel Coriolano Jucá, Prefeito de Segurança determinou que os militares regressassem à Fortaleza e o povo se dispersasse. O Dr. Pedregulho e seus familiares foram colocados sob a proteção do Coronel Coriolano e alojados na casa da Professora Cora de Carvalho. No confronto morreram 2 soldados e dois populares.


Corruptores e corruptos

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Os romanos usavam o vocábulo corruptione para designar o ato ou efeito de corromper as normas éticas para cobrança de impostos, correta aplicação de recursos financeiros, concessão de serviços públicos, maneira de viver em sociedade e lidar com os bens materiais e imateriais do Império/República. O termo corrupto era, e ainda é empregado no sentido de podre, estragado, infectado, devasso, depravado, errado e viciado. Corruptore era utilizado para identificar aquele que suborna que peita. O elemento que cedia diante da oferta do corruptor era o corruptu. Houve um período tão crítico na história de Roma, que o grande Cícero bradou: O’ tempore, O’ mores! A corrupção na “caput mundi” atingia níveis alarmantes de depravação e roubalheira. Este estado de coisas contribuiu para a ruína do Império. Curioso é que os romanos criaram o Corpus Júris Civilis, que é a base do direito no mundo, mas no meio dos magistrados, imperadores, senadores, pretores, cônsules e demais funcionários havia os que, embora pregassem a moralitate (caráter), atuavam como corruptores e corruptos.

O tempo passou e as medidas para evitar a corrupção foram aperfeiçoadas, mas a ação nefasta dos corruptos também progrediu. Neste nosso Brasil varonil, a roubalheira vem desde o descobrimento, em 1500. Os melhores postos de direção eram ocupados por parentes dos Governadores Gerais, dos Capitães-mores e dos maiorais da Coroa. Eles não tinham o menor acanhamento para roubar. O Brasil progrediu assim mesmo, razão pela qual muita gente afirma que é melhor roubar, mas fazer, do que simplesmente roubar. Para alguns entendidos em manobras corruptoras, o melhor programa de governo para tirar proveito de verbas públicas é tocar obras e realizar compras. Além de a licitação ser direcionada, os valores das obras e das aquisições ultrapassam os limites aceitáveis em um processo normal. No caso das “compras”, o risco dos bens adquiridos não serem entregues é muito grande. Isso é mais fácil de acontecer do que uma obra deixar de ser realizada ou pelo menos iniciada. Recentemente, a Polícia Federal realizou diversas prisões de pessoas tidas como suspeitas de envolvimento em corrupção. Até que a Justiça julgue estes casos, ninguém pode ser declarado culpado, Entretanto, quando os nomes dos envolvidos foram divulgados, a população condenou previamente quem já esteve mantido sob suspeita em outras ocasiões.

A corrupção tem seus agentes certos. Eles atuam como se fossem autênticos anjos de candura. Há um código de conduta entre eles, que os obriga a propalar a inocência de quem é flagrado cometendo delito. Surgem alguns amigos para dizer que o fulano é dotado de ilibada moral. Quem defende corrupto ou é um partícipe do crime ou é conivente. Como é que alguém de bons princípios pode aceitar que órgãos colegiados de suma importância, como o Senado e a Câmara Federal, permitam que elementos despudorados permaneçam exercendo os seus mandatos? As evidências de culpa dos denunciados são tão flagrantes, que o processo de cassação de mandato deveria ser bem simples e rápido. O pior é ver o povo participar de passeatas protestando contra as medidas saneadoras. O povo se vê forçado a isso porque é massa de manobra e recebe “atendimento social” dos corruptos. Assim, para não perder a ajuda do “benfeitor”, o povo carente passa a ser conivente. Os falsos moralistas acham que tudo isso é normal. Mas não é. A operação lava jato está realizando uma varredura no cenário político nacional, mostrando ao Brasil inteiro a maneira de agir de empresários e gestores públicos que assaltaram os cofres da Petrobras. O ex-presidente Luiz Inácio da Silva está preso, condenado em segunda instância. A condenação se refere a um dos 10 processos, que tramitam contra ele na Justiça. Mesmo sem conhecer os termos dos processos, seus aliados políticos proclamam sua inocência. Chegam ao absurdo de dizer, que a ONU – Organização das Nações Unidas deverá punir o Brasil, por estar desrespeitando os direitos humanos. A ONU não tem cacife para interferir num país soberano como o Brasil. Vivemos em uma democracia, onde as instituições integradoras dos três poderes atuam regularmente, na forma constitucional.


Submarinos alemães afundados na costa do Amapá

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A Kaiserliche Marine da Alemanha utilizou 1.168 submarinos na II Guerra Mundial. Cerca de 150 atuaram no litoral brasileiro e afundaram 33 navios mercantes que transportavam matérias primas para os Estados Unidos da América. Os alemães identificavam estas poderosas armas como “Unterseeboat”, que literalmente quer dizer “pequeno barco de baixo-de-água”. De forma simplifica, usavam a letra U e um número para identificá-los. Singrando as águas atlânticas, entre os Estados Unidos e o Golfo do México, os U-boats tinham o propósito de afundar navios de carga que transportavam suprimentos e material bélico dos Estados Unidos e Canadá para a Europa. Ao entrarem na guerra, os Estados Unidos fizeram uso de radar, sonar, carga de profundidade, decodificação de códices, escolta aérea e formação de comboios, diminuindo a eficácia alemã. Em meados de 1941, começou a ser instalada a “Cintura do Atlântico”, que correspondia ao trecho de 1.700 milhas entre Natal e Dacar. O Brasil autorizou os USA a instalar bases aéreas nas cidades de Amapá, Belém, Natal e Recife e liberou-lhes os portos de Recife e Salvador. Ainda em meados de 1941, chegava a Natal a “Task-Force 3” dos Estados Unidos. Em represália, os alemães atacaram navios brasileiros na costa americana e no Caribe. Foram a pique os navios Cabedelo, Buarque, Olinda, Arabutan, Cairu e Parnaíba. Em águas brasileiras, o submarino italiano “Bergarigo” torpedeou sem sucesso o navio Comandante Lira.Barcos corsários camuflados de navios mercantes supriam as necessidades dos submarinos alemães.Havia U boats que só faziam o abastecimento dos outros e eram chamados de “milchkuh” ou vaca leiteira. A Força do Atlântico Sul, criada pelos americanos estava sediada em Recife. A ação contra os U-boats destruiu nove unidades alemãs, duas delas na costa do Amapá: U-590 e U-662.

O U-Boat-590, comandado pelo capitão OBLT Werner Kruer vinha sendo caçado porque afundara o navio Pelotas Lóyde. Navegava na superfície ao largo da costa do Amapá, em alto mar, dia 9/7/1943, quando o avião Catalina PBY-3, do Esquadrão PV-94 sediado em Belém, que patrulhava a região norte o avistou a 200 milhas do litoral amapaense. Ao perceber a aproximação do avião o submarino emergiu e desapareceu por cerca de uma hora. Logo depois retornou á superfície, ocasião em que o catalina mergulhou sobre ele e lançou suas bombas, atingindo-o em cheio. O U-590 foi ao fundo no ponto demarcado por 3º e 22’ de Latitude Sul e 48º, 38’ de Longitude Oeste.Restaram na superfície do oceano 5 homens e vários destroços. A tripulação do Catalina jogou ao mar várias balsas, mas apenas 2 alemães conseguiram alcançá-las. Horas mais tarde eles foram recolhidos por um navio e levados para os Estados Unidos e submetidos a interrogatórios.

O U-Boat-662 navegava ao largo da costa do Amapá, no dia 21/7/1943, comandado pelo capitão OBLT Heinz-Eberhard Muller, a espreita do comboio T3-2, que seguia com destino aos Estados Unidos. Ele já havia afundado três navios. O Catalina 94-P-4, que dava cobertura aos navios brasileiros avistaram o submarino a 4 milhas de distância e se posicionou para o ataque. O submarino imediatamente acionou a artilharia antiaérea, conseguindo ferir o radiotelegrafista do avião. O aparelho iniciou um pique raso, já atingido pelo fogo inimigo. Mesmo com problemas no estabilizador vertical e na cantoneira exterior do casco da estação radiotelegráfica, o Catalina conseguiu despejar suas bombas sobre o submarino, atingindo em cheio o casco a bombordo, da torre de comando à frente da proa. Esta se elevou sob espessa cortina de fumaça e o submarino afundou sob mancha de óleo. Pouco tempo depois, quatro tripulantes, entre eles o capitão foram vistos na superfície do oceano. O Catalina lançou balsas, para onde nadaram os sobreviventes que foram resgatados pelo navio USS – S Siren e levados para os Estados Unidos. Bastante danificado o catalina 94-P-4 retornou a Belém com problemas hidráulicos e de comunicação pelo rádio. O submarino foi a pique na posição Latitude 3º 56’ Sul e Longitude 48º 46’ Oeste.


Frutas da minha infância

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Os primeiros anos da minha vida, compreendidos entre maio de 1944 e abril de 1946, foram passados na cidade de Mazaganópolis, onde meu pai, Francisco Torquato de Araújo era prefeito municipal. Qualquer moleque com dois anos de idade já consegue comer determinadas frutas, desde que elas não tenham caroço grande. No quintal da residência do gestor municipal havia goiabeiras, bananeiras, cajueiros e camapu. Como não gosto de caju in natura e do suco que ele fornece, duvido que o degustasse.

Não aprecio camapu. Acredito que bananas e goiabas me agradavam muito. No Reduto do Rio Furo Seco, localizado na região das Ilhas do Pará, que era propriedade da minha família, a variedade de frutas era bem maior: taperebá, ingá (de moça, de velha, cipó, de macaco, pracuuba), grumixama, melão,melão-de-São Caetano, marajá, maracujá-do-sertão, murumuru grelado, açaí, bacaba,biribá,mari,mari-mari,sapoti, murici,jambo, manga, abiu, tucumã, mucajá, melancia e mututi.

Aliás, o interiorano aplicava outro nome a essa frutinha amarela e doce :” remela-de-cachorro”. No inicio de 1948, passamos a morar em Macapá, no centro histórico da cidade, mas não perdemos nosso vinculo com o Furo Seco. Nossa casa tinha sido feita sob encomenda, à Avenida General Gurjão, incrustada no quadrilátero urbano que os macapaenses chamavam de “Formigueiro”. Não tardei a conhecer uma frutinha meio azeda, cuja arvore ocupava um espaço por trás da sede do Esporte Clube Macapá, entidade esportiva que substituiu o Panair Esporte Clube. Meu pai dizia que o nome da fruta era ginja, trazida pelos portugueses no tempo da colonização de Macapá. De um modo geral, as pessoas apanhavam as ginjas para fazer doce em calda. A iguaria era gostosa, notadamente com farinha bem torrada. Em 1950, um pouco mais crescido e com seis anos de idade, passei a frequentar o Jardim de Infância, instalado à esquerda do Grupo Escolar Barão do Rio Branco. Pertinho da minha sala havia uma frondosa árvore denominada mutambeira. As frutinhas eram pretinhas e doces. A molecada juntava e enchia a boca, mastigando-as para extrair um sumo bem agradável. A massa ninguém engolia. Em seguida, andando pela área do antigo campo de aviação da Panair do Brasil, conheci a maravilhosa “mama”, fruta envolta em casca de cor bege, cuja polpa era branca.

Quem a chupava em razoável quantidade dava a impressão de ter tomado leite, deixando o liquido escorrer pelos cantos da boca. O povo chamava a árvore de mameira, mas sua identidade florestal é tarumã-da-terra firme. O terreno que havia pertencido à Panair do Brasil e depois ficou como patrimônio dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul S.A. parecia um jardim de frutas exóticas.
Devido à extensão do terreno, o senhor Rocha, gerente da Cruzeiro, não dava conta de fiscalizá-lo integralmente. Furtivamente, as pessoas ultrapassavam as cercas de arame farpado para recolher inúmeras frutas. Ali conheci uma fruta muito gostosa, o jutaí, também rotulado como jatobá. Perto da casa do Seu Rocha podíamos ver alguns jutaizeiros e inúmeras frutas no chão. Seria arriscado demais tentar pegá-las. Uma vez, balando rolinhas, vi o Seu Rocha caminhando sob os jutaizeiros e decidi arriscar um pedido. A primeira pergunta que ele fez foi sobre minha filiação: ”tu és filho de quem, moleque?” Eu respondi: “do Seu Chico Torquato”. De modo cordial, Seu Rocha mandou que eu entrasse e juntasse jutaís. Menino do meu tempo dificilmente usava camisa.

Um calção, sem bolsos era o suficiente. Enrolei no cós do short umas três frutas, levando uma quantidade maior nas mãos. Desejei tanto dispor das sacolas que as donas de casa faziam com sacos de sal ou com pedaços de lonas de caminhão. A aventura me custou um baita carão dado, por meu pai. Nos terrenos baldios de Macapá, mesmo no centro da cidade, encontrávamos diversos pés de jurubeba. Algumas senhoras nos mandavam colher as frutinhas avermelhadas, mas diziam que elas eram venenosas e só podiam ser usadas para o preparo de xaropes.

Depois, soubemos que elas podiam ser digeridas sem cozimento. Seu Ponciano, ilustre morador do Formigueiro, dizia: “qualquer fruta, que o passarinho comer é bom alimento”. A declaração dele acabou com os velhos tabus.


Jornal “O Balufa”

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Partiu do ginasiano Carlos Oliveira Nery, a idéia da criação de um jornalzinho independente no Colégio Amapaense. Fui o primeiro a ser informado de tal pretensão, haja vista que integrávamos a 4ª série ginasial B e éramos bons amigos. Isso aconteceu no dia 10 de setembro de 1962, após uma aula de Português, ministrada pelo Professor Raimundo Pantoja Lobo, o popular Aporema. Ao comentar a respeito do primeiro jornal a circular no Brasil, “A Gazeta”, do Rio de Janeiro, no ano de 1808, o ilustre mestre também se lembrou do Jornal “O Castelo”, periódico que circulou sob a coordenação do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa. Entusiasmado com o assunto, o Carlos Nery decidiu concretizar sua idéia. Rapidamente formou um grupo constituído por ele, Nilson Montoril de Araújo, Pantaleão Gonçalves de Oliveira, Aldony da Fonseca Araújo, José Maria “Gato” e Lucas Vale. Em 1962, o Colégio Amapaense era dirigido pelo Engenheiro e Professor de Matemática Manuel Nogueira, que se propões a nos apoiar, desde que, divulgássemos coisas deveras importantes.

A cordialidade do Professor Nogueira nos deu animo redobrado e nos levou à presença do Professor Antônio Munhoz Lopez, Diretor da Divisão de Educação.Na época, a Divisão de Educação funcionava em um anexo do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, atrás da Biblioteca e Arquivo Público. Fomos bem recebidos e aproveitamos para reivindicar a doação de papel, tinta e stêncil para mimeógrafo. Firmamos a importante parceria convidando o Professor Munhoz para nos honrar com artigos sobre literatura e cinema. O Carlos Nery era um craque em pedir. Tinha uma conversa capaz de derrubar avião. Dentre os nossos mais frequentes colaboradores, despontava o Carlos Nilson da Costa, que era aluno do Curso Científico, reconhecidamente “bom de caneta” Em dado momento, lembramos que o jornal ainda não tinha nome. Como o nosso grupo era muito ativo e levava tudo na brincadeira, além de ter a pecha de anarquista, decidimos usar o apelido do Aldony Araújo: Balufa. Ele era bem gordinho e alguém sapecou a adjetivo Balofo, que significa muito volumoso em relação ao peso. Acontece que nosso amigo Aldony não se importava com a alcunha e ela estava correta. Todos o chamavam de Balufa. A brincadeira virou coisa séria e não faltaram colaboradores.

O jornal falava de literatura, cinema, história, educação, esportes, poesia, crônicas, entrevistas, aniversários, humor e algumas fofocas. Em julho de 1963, a equipe do jornal integrou a embaixada do Grêmio/Colégio Amapaense, que realizou uma visita a Serra do Navio a convite da Gerência da Indústria e Comércio de Minérios S.A. O exemplar não era vendido. O jornal nunca criticou gestores públicos e se manteve alheio às questões políticas. Mesmo assim, sua impressão foi interrompida após a intervenção militar de 31 de março de 1964. O mesmo fato ocasionou o fechamento da sede do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa, a destituição de sua diretoria e a clandestinidade da associação. Dentre os fundadores do jornal “O Balufa”, apenas o Pantaleão Oliveira e o Nilson Montoril de Araújo vivem em Macapá. Os demais já faleceram. O Carlos Nery mudou-se para Belém, onde cursou medicina. O Lucas Vale foi residir em Brasília, onde forças de repressão o teriam eliminado. O José Maria “Gato” retornou a Manaus. O Aldony Araújo, Balufa para os amigos, que simplificaram sua alcunha para Babá, andou por Belém, mas depois retornou a Macapá. Antes do surgimento do Jornal “O Balufa”, outro periódico denominado “O Castelo”, obteve enorme aceitação nos meios educacionais do Amapá. Circulou pela primeira vez no dia 5 de novembro de 1951, como órgão de publicidade do Grêmio Literário e Cívico Rui Barbosa, criado por um grupo de alunos do Ginásio Amapaense para progredir nas atividades literárias e jornalísticas.

O Ginásio Amapaense funcionava no Grupo Escolar Barão do Rio Branco. A 1ª edição do jornal “O Castelo” colocava em destaque a memória de Rui Barbosa e continha crônicas, poesias e notícias diversas. O jornal tinha 12 páginas e boa ilustração, principalmente de um castelo, ainda hoje símbolo do “Colosso Cinzento”. Vários alunos que o idealizaram e nele publicaram obras literárias pararam de fazê-lo após a conclusão de curso ginasial. Porém, o jornalismo amapaense ganhou importante participes.


O Porco-carneiro de Macapá

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O cidadão João Barca de Araújo Coutinho, membro de uma família tradicional de Macapá, exercia a profissão de marceneiro quando ocorreu a criação do Território Federal do Amapá, a 13/9/1943. A exemplo de seus conterrâneos gostou da novidade, mas ficou meio escabreado com as noticias de que tudo mudaria na cidade onde residia. Na época, Macapá era uma pequena e carente cidade do Estado do Pará, onde o tempo passava de modo pachorrento. Muitos moradores possuíam “roçados” nas áreas periféricas da cidade e criavam seus animais soltos pelas ruas, passagens e largos. João Barca possuía um belo boi-cavalo, que em outras regiões do Brasil é denominado boi-de-montaria Era, então, figura de destaque do Marabaixo, tendo composto vários “ladrões” de sucesso. Também é de sua autoria uma canção dolente denominada “A Morte do Pedreira”.

O Pedreira foi um cavalo que pertenceu a Jeribá Álvares da Costa, criador de gado nos campos que margeiam o rio Macacoary e morreu de inanição devido ao descuido do vaqueiro encarregado de sua alimentação e segurança. O falecimento do Pedreiro ocorreu no local onde está erguido o Teatro das Bacabeiras. Após a instalação do governo territorial, a 25/1/1944, os hábitos dos moradores foram mudando gradativamente.

O boi-cavalo do João Barca deixou de pastar livremente no centro de Macapá. Capim para alimentá-lo não faltava, razão pela qual o animal era mantido no cercado da residência de seu proprietário, situada à Rua General Gurjão, entre as Ruas São José e Coronel José Serafim Gomes Coelho, a atual Tiradentes. João Barca era vizinho de meu pai, Francisco Torquato de Araújo e seu compadre de “águas bentas”.

No dia da festa de São José, seu João Barca preparava o boi-cavalo com muito capricho, colocava uma bela sela em seu dorso e o levava para o largo da Matriz. Quem quisesse dar uma voltinha ou apenas tirar fotografia montado no boi-cavalo, pagaria Cr$ 1,00 (um cruzeiro). Habilíssimo com suas ferramentas de marceneiro, seu João Barca fabricava móveis, esquadrias, utensílios domésticos e brinquedos. Na oficina dele havia uma serra igualzinha a que aparece na pintura feita pelo Padre Lino Simonelli, ao lado esquerdo do altar mor da igreja de São José. Em 1953, por ocasião da realização da 6ª Feira de Animais e Produtos Econômicos, levada a efeito na Fazendinha, a Divisão de Pesquisa e Produção apresentou como novidade uma raça de porco totalmente desconhecida na região e pouco difundida no Brasil, a chamada porco-ovelha. A raça é originária da Áustria e da Hungria e o animal tem pelos densos e cacheados, parecendo lã. Provém do cruzamento da raça britânica Lincolnshire Curly Coat com a raça Mangalitza, na Áustria. Em 1900, os porcos da Inglaterra foram vendidos para a Áustria e Hungria, países onde surgiu a raça Mangalitza Gilt. Em 2007, os ingleses decidiram reintroduzir o porco-ovelha na Grã-Bretanha, extinta na comunidade desde 1972.

O animal comprado por João Barca era um macho, ainda pequeno e tinha poucos pelos brancos. A proporção em ele que foi crescendo, os pelos cacheados foram aparecendo. A novidade foi considerada uma aberração da natureza, decorrente do cruzamento de um porco com uma ovelha, coisa impossível de acontecer, porque são animais de espécies diferentes.

A curiosidade humana transformou o porco-carneiro numa celebridade. Gente à beça aparecia na casa do João Barca querendo ver a extraordinária criatura. O assédio só diminui quando o dono do porco pintou uma tabuleta, pendurando-a na cerca de sua casa: “Porco-carneiro, entrada Cr$ 1,00”. Além do salário de servidor público lotado na Garagem Territorial, João Barca contava com os ganhos advindos do boi-cavalo, do porco-carneiro e de seus biscates como marceneiro. A existência do porco rendeu ao Batista, filho do João Barca, a alcunha de porco-carneiro, haja vista que lhe cabia receber os curiosos, cobrar a taxa de visita e cuidar do animal. Porém, com o passar do tempo, o apelido foi esquecido e o Batista apenas ri quando essa história é lembrada.


Bar Cabloco, Bar Pacaembu e as festas do Pajé.

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Criação do Território Federal do Amapá, cuja área jurisdicional correspondia à Capitania do Cabo do Norte, deu aos moradores da região onde hoje existe o Estado do Amapá, um novo alento. A cidade de Macapá, que até janeiro de 1944, tinha apenas 2.042 habitantes, viu esse contingente se elevar para 2.512, em fins do mesmo ano e alcançar 4.192 almas em janeiro de 1948. Muita gente migrou para Macapá em busca de emprego, principalmente operários necessários às obras públicas. As famílias que possuíam casa com vários quartos passaram a aceitar hóspedes e fornecer alimentação. Proliferaram as pensões, os bares, os botecos e as biroscas. Trabalhadores com ocupações diversas também desembarcaram em Macapá. O crescimento populacional motivou os produtores das ilhas do Pará a trazerem frutas, carne de caça, peixe, açaí e farinha para suprir a carência desses produtos na cidade. Embarcações freteiras saiam de Belém, abarrotadas de mercadorias destinadas ao comércio de Macapá que se expandia.

Na área pantanosa onde foram rasgadas as avenidas Joaquim Francisco de Mendonça Júnior e Coaracy Gentil Monteiro Nunes, nas esquinas delas com a Rua São José, despontaram dois bares bem frequentados pela turma da boemia, mulheres da vida fácil e pelas que não eram declaradamente prostitutas, mas alugavam suas perseguidas. Para melhor compreensão da topografia do espaço acima referido, substitua as vias públicas por rudimentares pontes de madeira que o povo chamava estivas. As mundanas às vezes eram rotuladas como raparigas, predominando, porém o termo puta. As duas palavras ainda hoje são usadas em Portugal, mas não têm sentido pejorativo. O primeiro reduto de mulheres prostitutas de Macapá correspondia às casas de madeira construídas na lateral da ponte que passava ao lado do Bar Caboclo. As inquilinas dessas moradias eram cadastradas na Unidade Mista de Saúde de Macapá, tinham direito a carteira de beneficiárias, eram submetidas a inspeções periódicas e tratadas quando contraiam doenças sexualmente transmissíveis. Assim, os boêmios solteiros da cidade e os casados puladores de cerca, recorriam aos préstimos das “primas” relativamente tranquilos. As mundanas mais conhecidas eram: Maria Vadoca, Maria Batelão, Balança-os-Cachos, Peia-Onça e Loura. Elas e outras menos atrativas freqüentavam tanto o Bar Caboclo como o Bar Pacaembu. Entretanto, somente o Pacaembu tinha festas dançantes. Nenhum dos dois mantinha quartos destinados a encontros amorosos. Os pederastas, popularmente identificados pelo povo como “falsos à pátria”, não se atreviam sequer a passar na frente dos referidos estabelecimentos comerciais. O Bar Caboclo não era tão espaçoso como o Bar Pacaembu. Comportava uma mesa de bilhar e poucas mesas. As paredes continham pinturas regionais feitas por um jovem talentoso que hoje é artista plástico renomado: Herivelto Maciel. Vendia bebidas diversas, sorvetes e outros produtos. Enveredando por aquele espaço, serpenteando até alcançar o chamado torrão da terra, atrás do Hospital Geral, passava o Igarapé-do-Igapó ou Bacaba, identificado simploriamente como Igarapé da Fortaleza. Dificilmente ocorriam desentendimentos sérios entre frequentadores dos citados bares. De um modo geral aconteciam arengas, que a turma do deixa disso cuidava de abafar. Nunca ouvi falar que algum valentão ou porre tenha sido jogado dentro d’água. Entre as mundanas, havia uma que não falava daí seu apelido ser “Muda”. Certa noite apareceu na zona do prostíbulo um canoeiro natural da Vigia, que havia passado dois meses no Oceano Atlântico, na costa do Amapá, pescando gurijuba. O caboclo estava atormentado pelo desejo da carne e não perdeu tempo em contratar os serviços da Muda. O cabra gostava de fufurufuncar no escuto e foi logo apagando a lâmpada. Quando a ferramenta do “pelhudo” entrou em funcionamento ouviu-se o grito apavorante da Muda: mamãe! Socorrida por suas companheiras, a Muda esconjurou o canoeiro e prometeu ser mais cautelosa na escolha dos fregueses. Dizem que algum tempo depois o dito caboclo reapareceu na casa das “primas” e arrastou as asas para o lado da Mariazinha, uma nova inquilina. Quando ele fez o convite a Mariazinha lhe disse: “fazer indecência contigo? Nunca, mais antes a dor de um parto”.

No lado esquerdo da ponte que se estendia pelo trecho da atual Avenida Padre Júlio Maria de Lombarde demorava a casa de um cidadão conhecido como Pajé. Sua residência ocupava o espaço onde foi construído o Arara Center. Nos finais de semana a sala da casa do Pajé virava pista de dança e a entrada era paga. O promotor dos embalos valorizava os ritmos merengue, bolero, brega e assegurava que o ambiente era estritamente familiar. Ele dizia que na sua festa dançava o feio, o bonito, o pobre e o rico, não sendo permitida a desfeita. Se alguém se queixasse que tinha sido rejeitado por alguma dama ou cavalheiro, o Pajé mandava o ou a deselegante “pra riba da ponte”, já que não havia rua no local. Uma vez ele pegou o microfone e disse: “As mulhé tão se queixando que tem macho maleducado se fazendo de gostoso na minha festa. Quero dizer que aqui eu não atolero esculhão de dama”.