Seu Manuel, o popular “Pau Furado”

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Moreno, corpo esguio e rosto marcado pelo sofrimento, assim era o seu Manuel, um deficiente físico que vivia da caridade pública na cidade de Macapá. Morava em um prédio que fora construído pelo governo do Território Federal do Amapá para abrigar o “Restaurante dos Operários” e servir de abrigo aos que vieram de outras plagas para trabalhar na construção de diversos prédios públicos e que viviam em alojamentos precariamente edificados. Os trabalhadores permaneciam naquele local pelo tempo necessário para construírem suas casas em lotes que a Divisão de Terras e Localização distribuía.

O restaurante acabou sendo rotulado de Barracão dos Imigrantes, ficava na esquina da Rua São José com a Avenida Professora Cora Rola de Carvalho. Pelo centro dessa segunda via pública passava a tubulação do primeiro sistema de esgoto de Macapá. A área era tão alagada que houve foi preciso construir-se pequenos pilares para manter os tubos fora do lamaçal. No inicio seu Manuel usava apenas uma grossa bengala para sustentar a mudança de passo da perna esquerda. Depois se fez imprescindível trocar a bengala por uma muleta relativamente desgastada para poder se deslocar, haja vista que a atrofia da perna esquerda se agravara. Quase não falava e a dentição lhe era escassa.

A despeito de ser deficiente físico, seu Manuel caminhava bastante. Seu ponto preferido para sentar-se e ver o tempo passar era a calçada da residência da senhora Sofia Mendes Coutinho, situada no canto da Avenida General Gurjão com a Rua São José. Ali ficava horas a fio observando tudo que se passava no centro histórico de Macapá. À tarde, quando a maré enchia por volta das 16 horas, seu Manuel deixava a calçada e rumava para o trapiche major Eliezer Levy. Com muito aprumo caminhava sobre a longa ponte até alcançar o ancoradouro frontal. Á época existia na cabeça do trapiche um abrigo coberto destinado a passageiros e cargas miúdas. Era o local onde seu Manuel ficava fitando as águas do Rio Amazonas e acompanhando a chegadas dos reboques a vela provenientes da região das ilhas do Pará, que traziam açaí, frutas e peixe. Tudo era vendido rapidamente aos costumeiros fregueses, principalmente às mulheres amassadeiras do nosso rico e gostoso “petróleo”.

À conta da caridade dos caboclos seu Manuel sempre voltava para o barraco com alguns peixinhos frescos, suficientes para o preparo de um reanimante caldinho. Ele também podia ser encontrado sentado na calçada da Igreja de São José proseando com o amigo Ponciano ou sobre a panela da rede de esgoto da Avenida Cora de Carvalho. Todo mundo se admirava de o ver escalando aquele objeto alto sem pedir a ajuda de terceiros. As crianças que tão bem conheciam seu Manuel não lhe faltavam com o respeito. Algumas evitavam passar perto daquele cidadão desvalido porque os próprios pais diziam que iriam chamar o “Pau Furado” caso os filhos não se comportassem direito. A mesma coisa falavam em relação ao senhor Benedito Lino do Carmo, o Congó. A molecada da Matriz até que tentava tirar um dedo de prosa com seu Manoel, mas ele falava meio embrulhado e somente as pessoas pacientes conseguiam entendê-lo. Se naquele tempo, os políticos distribuíssem dentaduras, a pronúncia do “Pau Furado” seria melhor. Nunca consegui saber de que localidade veio seu Manoel. Algumas pessoas diziam que ele era proveniente da ilha do Marajó e teria contraído paralisia infantil. A origem do seu apelido e o complemento do nome de batismo jamais foram descobertas. Seu Manuel detestava ser apelidado.

No tempo de manga ele fazia a festa. Primeiramente amassava bem a fruta. Depois, chupava a poupa, devorava a casca e fazia um malabarismo tremendo com o caroço dentro da boca. Ao ser jogado fora, o caroço estava branquinho da silva. Seu Manuel residiu no Barraco dos Operários até morrer, no final da década de 1960. O propósito do Governador Ivanhoé Gonçalves Martins em melhorar o aspecto urbano de Macapá mudou completamente o habitat do Pau Furado. O prédio que o abrigava encontrava-se praticamente desativado e não servia mais refeições. Os alimentos necessários a subsistência de seu Manuel continuavam a ser dados por pessoas caridosas, entre elas a Alice Gorda que na época gerenciava um hotel. Foi a Alice Gorda, nossa eterna Rainha Moma, quem providenciou o sepultamento daquele homem que tanto sofreum até desencarnar do verbo.


Felipe Patroni, mente em ebulição

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O paraense Felipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente, natural de Acará, onde nasceu em 1798, deixou seu recanto natal em 1816, para residir em Belém, embora tivesse em mente obter uma oportunidade para ir estudar Direito em Portugal. Era filho do alferes Manoel Joaquim da Silva Martins e afilhado do capitão de fragata Felipe Alberto Patroni, do qual herdou o nome. No mesmo ano em que se estabeleceu na capital do Pará, Felipe Patroni embarcou para Lisboa, seguindo depois para Coimbra, matriculando-se em sua famosa universidade. Aderiu às ideias iluministas e passou a embalar o sonho de dar novos rumos à política Vicente na Província do Pará. Aportou em Belém em janeiro de 1822, levando em sua bagagem uma impressora comprada na Imprensa Nacional de Lisboa, contando com a sociedade do tenente coronel Simões Cunha e tenente de milícia José Batista Camecram. Instalou a impressora na via que hoje tem o nome de Tomázia Perdigão.

No dia 1º/4/1822 Felipe Patroni fundou “O Paraense”, o primeiro jornal da Amazônia. A edição inicial circulou no dia 22/5, defendendo uma Constituição paraense. Também defendia a Independência do Brasil e a liberdade de imprensa. Antes deste feito, quando ainda residia em Lisboa, teve a primazia de ser o primeiro a falar na Assembleia Constituinte Portuguesa, no dia 22.11.1822, na Sala das Cortes, na presença do rei D. João VI. Proferia contundente discurso sem poder concluí-lo devido à interferência dos bajuladores do monarca. Rogava a D. João a adoção de um plano de eleições, contendo normas para escolher a nova Junta Governativa do Pará.

O jornal português “Indagador Constitucional” publicou o seguinte texto: “Um deputado deverá corresponder a cada 30 mil almas, entrando neste número os escravos, os quais mais que ninguém devem ter quem se compadeça deles, proporcionando-lhes um sorte mais feliz até que um dia se lhe restituam seus direitos”. Fez isso na condição de delegado da Junta Provisória do Pará. O jornal “O Paraense” contou com a circulação de 70 edições, mas silenciou a partir de fevereiro de 1823. O Brasil era independente, mas a Província do Pará não a aderiu, mantendo seus laços com Portugal. O jornal fundado por Felipe Patroni infernizou a vida dos governantes do Pará. Num determinado momento, as críticas veiculadas pelo jornal abalaram a estrutura governamental. Seus titulares recorreram ao tenente coronel Simões Cunha, sócio de Felipe Patroni, para fazer sumir os tipos de metal utilizados na impressão do jornal. Simões Cunha se prestou a atender a solicitação dos governantes, garantindo o encerramento das atividades do periódico. Para surpresa geral. O Paraense voltou a ser impresso, acentuando o grau de suas críticas. Previdente, Felipe Patroni tinha outros tipos bem guardados, pois sabia que não poderia confiar demais em seus sócios. Eles acabaram retirando-se da sociedade em troca de promoções de patente e outras vantagens pessoais. Outras tentativas para calar o jornal ocorreram. Nem a prisão de Felipe Patroni fez o jornal parar de circular. Com sua ausência, o cônego Batista Campos assumiu a direção do órgão e foi perseguido por isso.

Em fevereiro de 1823, Felipe Patroni foi preso no Forte do Castelo e neste local deveria permanecer até julgamento. Porém, acabou sendo mandado para Portugal que, pelo menos para os governantes da Província do Pará, mantinha jurisdição em seu território. Livre da prisão, retornou para Brasil e passou a residir no Rio de Janeiro, sede do governo imperial do Brasil. Sua mente já estava mais tranquila, fato que lhe permitiu instalar um escritório de advocacia. Casou com a prima Maria Ana, em 1929, indo exercer o cargo de juiz de fora de Niterói. Em 1842, alimentando pretensões políticas, retornou para Belém e conseguiu eleger-se deputado na Assembleia Nacional. Teve notável atuação na legislatura de 1842 a 1845, representando o Pará, mas não obteve novo mandato. Em 1851 vendeu seus bens e escravos para residir em Lisboa, onde faleceu no dia 15/7/1866, com 68 anos de idade. A cidade de Belém lhe prestou uma justíssima homenagem, declarando-o patrono da praça localizada na Cidade Velha à margem da avenida 16 de novembro.


Torre da Vigia do Rio Curiaú

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Em 1740, o Governador do Maranhão e Grão Pará, Capitão General João de Abreu Castelo Branco, deferiu uma proposta do Capitão Antônio Gonçalves para que construísse as suas expensas, uma fortificação na foz do Rio Curiaú, querendo apenas ser o seu comandante e superintendente dos serviços de fortificação do Grão Pará, com posto vitalício. Como o deferimento implicava em despesas para a Coroa Portuguesa, o governador submeteu a questão à apreciação do Rei D. João V. Através da Carta Régia de 9 de março de 1740,o monarca não acatou a proposta e alegou que a Coroa não poderia correr o risco de ver repetir-se o erro de Francisco de Melo Falcão,que no século XVII se obrigara a construir quatro fortalezas no interior da colônia, executando as obras com imperfeições, utilizando material de má qualidade e sem bom acabamento.

Em Macapá já existia um reduto fortificado erguido em 1738, que se manteve operando regularmente. A obra sonhada pelo Capitão Antônio Gonçalves foi construída em 1761, na foz do rio Curiaú, sobre um estrado de madeira, com a finalidade de fiscalizar um extenso trecho do rio Amazonas, que não era avistado do reduto fortificado da Vila de Macapá. Qualquer aventureiro, que navegasse no sentido da nascente do grande caudal, o faria protegido pela mata e só seria notado quando sua embarcação alcançasse a enseada próxima a Macapá. Em 1761, ainda não havia sido edificada a Fortaleza de São José e a área sobre a qual ela está assentada era ocupada por um Forte de Faxina, construído em três meses, entre o final de abril e o dia 31 de julho de 1761, pelo engenheiro Gaspar João Geraldo Gronfelds, época em que o Grão Pará era governado pelo Capitão General Manuel Bernardo de Melo e Castro.

A função primordial da Torre de Vigia do Curiaú consistia em avisar a guarnição de Macapá sobre a aproximação de qualquer embarcação pela margem esquerda do Amazonas. O aviso seria dado pelo disparo de um tiro de canhão, como acontecia em outras vilas e cidades do Brasil. A prática durou até o final do ano de 1761, por ser julgada alarmista. Ao ouvir o som do disparo, o aventureiro retrocedia e não podiam ser perseguidos, haja vista que, na Vigia do Curiaú não havia barco artilhado.

Os canhões foram retirados e transportados para o Forte de Faxina. Outros procedimentos foram adotados. Durante o dia, uma bandeira seria hasteada. À noite, os soldados da Torre de Vigia soltariam foguetes. Sempre que a guarnição da Torre de Vigia desse um sinal, durante o dia ou à noite, um mensageiro saia à cavalo com destino a Macapá e outro cobria o percurso fluvial na canoa. O contato terrestre entre o Forte de Faxina e a Torre de Vigia do Curiaú era feito através de uma estrada vicinal,por onde,freqüentemente cavalgavam soldados que procediam incursões no arredor norte da Vila de Macapá. Os militares também caçavam escravos fugidos. O percurso por terra se estendia até o local onde despontou a fazenda de criação de gado do Alferes Manuel Antônio de Miranda, hoje identificada como Curiaú de Dentro. Curiaú é um vocábulo indígena, que significa o “comedouro dos curiás”, uma espécie de patos pequenos.

O vocábulo curuá também designa um pato com as mesmas características. Para completar o circuito, os soldados utilizavam um batelão, manejando remos e varejões. A Vigia compreendia uma casa para o corpo da guarda e uma guarita, edificada em cima de um banco de areia, numa distância de 70 braças, equivalente a 150 metros da margem. A ligação entre os dois pontos era favorecida por uma ponte de madeira. Da vigia observava-se longo trecho do Rio Amazonas, que não se vislumbrava do Forte de Faxina, em Macapá.

O comando da Vigia estava entregue a um cabo de esquadra, que tinha sob ordens alguns soldados. As instruções para emissão de avisos à Macapá foram baixadas pelo Coronel Nuno da Cunha Ataíde Verona, comandante da Praça de Macapá, a 26/10/1762. A resposta do aviso ocorreria, de dia, com o hasteamento de uma bandeira e à noite, com um tiro de canhão. Tanto a casa da guarnição, quanto a guarita das sentinelas, ficavam sobre palafitas, com altura suficiente que impedisse serem atingidas pela maré. A Vigia foi mantida em operação até 1908, quando o governo brasileiro resolveu desativar a Fortaleza de São José.Esse relato deixa bem claro o quanto é fantasiosa a propagação de que o Curiaú abrigou um quilombo.


Submarinos alemães afundados na costa do Amapá

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Kaiserliche Marine da Alemanha utilizou 1.168 submarinos na II Guerra Mundial. Cerca de 150 atuaram no litoral brasileiro e afundaram 33 navios mercantes que transportavam matérias primas para os Estados Unidos da América. Os alemães identificavam estas poderosas armas como “Unterseeboat”, que literalmente quer dizer “pequeno barco de baixo-de-água”. De forma simplifica, usavam a letra U e um número para identificá-los. Singrando as águas atlânticas, entre os Estados Unidos e o Golfo do México, os U-boats tinham o propósito de afundar navios de carga que transportavam suprimentos e material bélico dos Estados Unidos e Canadá para a Europa. Ao entrarem na guerra, os Estados Unidos fizeram uso de radar, sonar, carga de profundidade, decodificação de códices, escolta aérea e formação de comboios, diminuindo a eficácia alemã.

Em meados de 1941, começou a ser instalada a “Cintura do Atlântico”, que correspondia ao trecho de 1.700 milhas entre Natal e Dacar. O Brasil autorizou os USA a instalar bases aéreas nas cidades de Amapá, Belém, Natal e Recife e liberou-lhes os portos de Recife e Salvador. Ainda em meados de 1941, chegava a Natal a “Task-Force 3” dos Estados Unidos. Em represália, os alemães atacaram navios brasileiros na costa americana e no Caribe. Foram a pique os navios Cabedelo, Buarque, Olinda, Arabutan, Cairu e Parnaíba. Em águas brasileiras, o submarino italiano “Bergarigo” torpedeou sem sucesso o navio Comandante Lira.Barcos corsários camuflados de navios mercantes supriam as necessidades dos submarinos alemães. Havia U boats que só faziam o abastecimento dos outros e eram chamados de “milchkuh” ou vaca leiteira. A Força do Atlântico Sul, criada pelos americanos estava sediada em Recife. A ação contra os U-boats destruiu nove unidades alemãs, duas delas na costa do Amapá: U-590 e U-662.O U-Boat-590, comandado pelo capitão OBLT Werner Kruer vinha sendo caçado porque afundara o navio Pelotas Lóyde. Navegava na superfície ao largo da costa do Amapá, em alto mar, dia 9/7/1943, quando o avião Catalina PBY-3, do Esquadrão PV-94 sediado em Belém, que patrulhava a região norte o avistou a 200 milhas do litoral amapaense. Ao perceber a aproximação do avião o submarino emergiu e desapareceu por cerca de uma hora. Logo depois retornou á superfície, ocasião em que o catalina mergulhou sobre ele e lançou suas bombas, atingindo-o em cheio. O U-590 foi ao fundo no ponto demarcado por 3º e 22’ de Latitude Sul e 48º, 38’ de Longitude Oeste. Restaram na superfície do oceano 5 homens e vários destroços.

A tripulação do Catalina jogou ao mar várias balsas, mas apenas 2 alemães conseguiram alcançá-las. Horas mais tarde eles foram recolhidos por um navio e levados para os Estados Unidos e submetidos a interrogatórios.O U-Boat-662 navegava ao largo da costa do Amapá, no dia 21/7/1943, comandado pelo capitão OBLT Heinz-Eberhard Muller, a espreita do comboio T3-2, que seguia com destino aos Estados Unidos. Ele já havia afundado três navios. O Catalina 94-P-4, que dava cobertura aos navios brasileiros avistaram o submarino a 4 milhas de distância e se posicionou para o ataque.

O submarino imediatamente acionou a artilharia antiaérea, conseguindo ferir o radiotelegrafista do avião. O aparelho iniciou um pique raso, já atingido pelo fogo inimigo. Mesmo com problemas no estabilizador vertical e na cantoneira exterior do casco da estação radiotelegráfica, o Catalina conseguiu despejar suas bombas sobre o submarino, atingindo em cheio o casco a bombordo, da torre de comando à frente da proa. Esta se elevou sob espessa cortina de fumaça e o submarino afundou sob mancha de óleo. Pouco tempo depois, quatro tripulantes, entre eles o capitão foram vistos na superfície do oceano.

O Catalina lançou balsas, para onde nadaram os sobreviventes que foram resgatados pelo navio USS – S Siren e levados para os Estados Unidos. Bastante danificado o catalina 94-P-4 retornou a Belém com problemas hidráulicos e de comunicação pelo rádio. O submarino foi a pique na posição Latitude 3º 56’ Sul e Longitude 48º 46’ Oeste.


Festa Civica no dia do Laudo Suiço – 1ª parte

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No dia 1º de dezembro de 1949, ocorreram em Macapá as cerimônias alusivas à data de assinatura do Laudo de Berna, assim chamada a decisão arbitral do presidente da Confederação Helvética, tomada há 49 anos, que assegurou ao Brasil os direitos sobre as terras compreendidas entre a margem esquerda do Rio Araguary e a margem direita do rio Oiapoque, que a França teimava em dizer que lhes pertenciam. Às 7h:30min foi rezada missa na Igreja de São José. Às 8 horas, no parque esportivo da praça capitão Augusto Assis de Vasconcelos (Veiga Cabral), houve demonstração de Educação Física, realizada pelos alunos e alunas do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, sob a direção do então sargento Irineu da Gama Paes e da professora Wanda de Abreu Lima, instrutores de cultura física de nossos estudantes.

A exibição de ginástica rítmica compreendeu números de sueca e exercícios de bastão, tudo feito com a máxima precisão. Terminada a demonstração de educação física, as pessoas presentes foram convidadas a se dirigirem ao prédio do Grupo Escolar Barão do Rio Branco, onde seria realizada a exposição de prendas e trabalhos manuais dos alunos do citado educandário. Às 9 horas o governador do Território Federal do Amapá, Raul Montero Valdez cortou a fita simbólica que vedava a entrada da sala de aula onde os trabalhos estavam expostos, franqueando a visitação pública. A diretora do Grupo Escolar, professora Maria Lúcia Brasil e o Dr. Marcilio Felgueiras Vianna, Diretor da Divisão de Educação, foram bastante cumprimentados pela bela iniciativa. As professoras de prendas Clarisse Lobo e Iza Pinto de Almeida receberam calorosas saudações dos convidados e estudantes. Em seguida à visitação aos trabalhos da Exposição de Prendas, o governador convidou a todos para dirigirem-se ao Cine Teatro Territorial onde haveria uma solenidade para premiar os melhores alunos do Grupo Escolar.

A cerimônia foi conduzida por uma meda diretora composta pelo governador Raul Montero Valdez; dr. Jarbas Amorim Cavalcanti, Juiz de Direito da Comarca de Macapá; dr. Marcilio Felgueiras Vianna,Diretor da Divisão de Educação;professora Maria Lucia Sampaio Brasil,diretora do Grupo Barão do Rio Branco; Sr. Mário Dias Teixeira,chefe do Serviço de Fomento Animal da Divisão de Produção e Pesquisa;Sr. Felipe Gillet,chefe do Serviço de Fomento Vegetal da mesma Divisão de Produção, representando o diretor do órgão e o Sr. José Serra e Silva, Prefeito Municipal de Macapá.Inicialmente foi realizada a entrega de prêmios aos alunos que lograram maiores médias nos exames finais: Pedro Maurício Naice Córdoba, do Jardim de Infância, com a média 70; Maria Duarte da Costa, da Alfabetização, com média 100; Fernando Dias Maciel, da 1ª série primária, com média 90; Maria de Nazaré Cunha,da 2ª série primária,com a média 75; Raimundo Amanajás de Brito, da 3ª série primária, com a média 85; Maria Stela Barbosa da Silva, da 4ª série primária, com a média 77;Regina Coeli Barriga Brito, da 5ª série, com média 71. Depois passou a ser feita a entrega dos boletins escolares, destacando-se os primeiros lugares obtidos nas diversas séries, com citação de suas professoras: Na época, havia 10 turmas de alfabetização funcionando no Grupo Escolar Barão do Rio Branco.

Os alunos com maior aproveitamento escolar durante o ano letivo de 1949, foram os seguintes: Antônio Almeida dos Anjos, média 76, professora Raimunda da Silva Virgolino; Sara Antônio Tito, média 94, professora Oscarina Santos; Getúlio do Espírito Santo Mota, média 86, professora Margarida Marques da Silva; Lúcia Tavares Souza, média 98, professora Elizetre Aymoré; Domitila Eufrásia dos Santos, média 87, professora Maria Cristina Botelho; Maria José dos Santos, média 87, professora Maria Nazaré Pinheiro; João dos Santos Nascimento, média 98, professora Elza Cunha; Francisco de Lima Soares, média 91, professora Raimunda Mendes Coutinho; Aurelinda Pereira da Costa e Amiraldo Elleres Nunes Filho,média 90, professora Odila Prexedes; Ivone Cruz da Silva, média 91, professora Maria Doroty Souza.( seqüência na próxima edição)


Tal é o dia do batizado

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Os filhos do casal Domingos da Silva Santos e Antônia da Encarnação Xavier, seis ao todo, ou um rosário como dizia a matriarca da família, levavam a vida na base do vento a favor. O grupo recebia a intromissão de um moleque negro chamado Simplicio, amigo fiel de Joaquim José. O recanto da família era a Fazenda Pombal, à margem do rio das Mortes e próximo a Vila de São João Del-Rei, nas Minas Gerais. A fazenda passou a enfrentar problemas econômicos a partir de 1753, quando o ouro retirado à beira dos córregos e na lombada da colina começou a rarear. Metade dos escravos foi vendida, mantido o restante dos serviçais para tocar a lavoura do milho e da cana-de-açúcar. A cobrança excessiva de impostos contribuía decisivamente para a decadência da Fazenda Pombal. Domingos da Silva Santos não queria que os filhos se tornassem simples trabalhadores braçais da fazenda. Pretendia dar-lhes instrução e meios de vida menos penosa. Estudos em seminários era coisa comum na capitania de Minas Gerais. Seguindo o costume, Domingos Xavier, o filho mais velho, foi mandado para o seminário de Mariana. No princípio de 1754, Domingos da Silva Santos, procurou o mulato Mestre Lucas e matriculou os filhos Antônio e Joaquim José na singela escola que o amigo mantinha em São João del-Rei, instalada próxima a igreja de São Francisco. Mestre Lucas, que havia cursado as aulas do seminário de Mariana, ensinava as primeiras letras e rudimentos de música. Antônio tinha oito anos, Joaquim José, sete. Seis meses depois da matrícula, Joaquim José já lia e escrevia como gente grande, sendo apontado por Mestre Lucas, como exemplo a seguir. O mulato dizia que Joaquim José iria longe. Quanto aos outros alunos, sem palmatória e vara de marmelo não evoluíam. Um dia, Joaquim José regressava para casa quando viu, na saída da vila de São João del-Rei, sobre um poste de madeira plantado à margem do córrego do Lenheiro, a cabeça ensangüentada de um negro, de olhos abertos e língua pendente. A cabeça fora de um escravo condenado à forca porque agrediu o senhor, depois de chicoteado. Os olhos arregalados do negro pareciam seguir os transeuntes. A cena deixou o menino aterrorizado e enfermo por alguns dias. Ao fim de uma semana o pai foi levá-lo a escola, uma vez que ele se recusava a ir sozinho com o irmão mais novo. Ao passar pelo poste onde estava a cabeça do negro, Joaquim José verificou que os urubus já haviam devorado quase tudo. Em 1755, Domingos da Silva Santos foi escolhido para as funções de vereador à Câmara da Vila de São José, vizinha a São João del-Rei. Não podia fazer quase nada. Mas, o dinheiro ajudava bastante. Naquele ano ocorreu o terremoto de Lisboa. A Coroa desencadeou o arrocho de impostos, destinado à reconstrução da capital Portuguesa. Joaquim José computou mais uma revolta íntima contra o poder lusitano. Para completar sua indignação, perdeu a mãe em 1755 e o pai, em 1757. Os irmãos Domingos e Antônio estudavam no seminário de Mariana. Em 1759, a irmã Maria Vitória casou-se e foi morar na povoação de Santa Rita do Rio Abaixo, cerca de três léguas da Fazenda Pombal. O adolescente Joaquim José, agora, somava 14 anos de idade e dirigia com sucesso a Fazenda Pombal.

Em 1767, Joaquim José deixou a fazenda e passou a andar cruzando sertões em todos os sentidos. Fazia de tudo para sobreviver. Mas, a vida de mascate não lhe trouxe fortuna. Era ruim de negócio. Doía a consciência sempre que o lucro obtido não se lhe afigurava justo ou honesto. Passou a ser pesquisador de outro e orientador de lavras. Fez muita gente nadar em prosperidade, enquanto ele mesmo, pouco auferia. O jovem idealista, Joaquim José, ganhou o apelido de Tiradentes, depois que passou ao ofício de dentista. “A esta habilidade de arrancar e colocar dentes juntou a de curar certas moléstias, principalmente da pele, por meios de ervas e raízes, e ainda a de realizar pequenas operações cirúrgicas”. Vagava pelos sertões incessantemente, consertando aqui uma boca, sarando ali uma ferida na perna, lancetando um tumor acolá. O novo ofício, rotulado pelo povo como “Tiradentes”, lhe valia pouco, porque sentia pena dos clientes. Joaquim José foi preso pela primeira vez, na Vila de Minas Novas, por ter agredido um português que chicoteava um escravo. Veio a sua mente a lembrança do escravo degolado em São João del-Rei.

Por volta de 1778, residindo no centro da Capital de Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier era, então, alferes do Regimento de Dragões. Tinha 33 anos de idade. Foi servir em Vila Rica , atual Ouro Preto. Usava vasta cabeleira e densa abarba. Era loquaz e alegre, passando por momentos de tristeza e silêncio, com o olhar perdido na distância. Fronte ampla, olhos brilhantes gestos decisivos, corajoso, dissimulado e extremamente generoso. A fama da sua valentia alcançara o próprio reino, de onde se expediram ordens para que lhe fosse entregue a ronda da serra da Mantiqueira, que os bandoleiros infestavam, tornando perigosas as viagens entre Vila Rica e o Rio de Janeiro. Também fazia a exploração dos sertões para saber e indicar se havia ouro ou não. O soldo que recebia não trouxe a Tiradentes a tranqüilidade com que contava. Apesar de ter livrado a serra Mantiqueira dos bandoleiros, nunca foi promovido. Os abusos de poder das autoridades o irritavam. Pediu licença do Regimento de Dragões e foi tentar a mineração. Pouco depois voltou à milícia, cada vez mais indignado com os governantes. Em 1788, no final do mês de março, ele partiu para o Rio de Janeiro, onde conheceu o Doutor José Álvares Maciel, natural de Vila Rica que estudava em Coimbra. No primeiro encontro o assunto Independência do Brasil veio à baila. Voltando a Vila Rica foi imaginando o Brasil independente. Pensou na bandeira: “Há de levar um triangulo!“. Um triângulo que representa a Santíssima Trindade. A idéia foi crescendo. Já não era discutida reservadamente entre Tiradentes e Álvares Maciel, mas também com Tomás Antônio Gonzaga, os Padres Toledo e Rolim, Cláudio Manoel da Costa e Coronel Inácio José de Alvarenga Peixoto. Alvarenga e Cláudio que tão bem conheciam o latim discutiam o dístico a ser adotado. De inicio, pensaram em “Libertas Oequo Spiritu”, logo abandonado, visto que constava na bandeira dos americanos e ingleses. “Evoluíram para Art Liberto, Art Mihil” e depois para “Libertas quae sera tamen”… (Liberdade ainda que tardia). A sugestão foi de Alvarenga Peixoto, aprovada por todos. A bandeira corresponderia a um retângulo branco, tendo ao centro um triângulo vermelho e abaixo dele o dístico “Libertas qual será também”. A senha instituída por imposição de Tiradentes era: “Tal dia é o Batizado”. A divulgação do movimento cresceu bastante, alcançando Tijuco, Serro, Montes Claros, Vila São José, Vila São João, Laje, Paraopeba, Tamanduá, Campanha, Baependi, Juiz de Fora, Matias, Barbosa, Prados, Borda do Campo, Sabará, Mariana, Congonhas do Campo e Carijós. Tudo ia bem até a adesão do Coronel Joaquim Silvério dos Reis, que denunciou o movimento em troca de regalias pessoais. (Continua no próximo domingo)


Enterro da felicidade

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Na área por onde foi aberta a Av. Hélio Guarany Pennafort, que o pessoal insiste em chamar Beira Rio, e onde se encontra instalado o prédio da Yamada, havia um aglomerado de casas de gente humilde, que preferia residir perto do Elesbão. O caminho usado pelos moradores tinha um declive a partir da Av. Henrique Galúcio, apelidado “Baixa da Maria Mucura”. Este designativo tinha a ver com a carência de beleza física da Dona Maria, cujo rosto fino e pontiagudo lembrava a cara do marsupial que adora comer galinhas. Depois do aglomerado de casas vinha a paia e a mata. Morava naquele lugar, a tal Baixa da Maria Mucura, uma senhora que possuía uma filha “borrachudinha”, que os caboclos da região das Ilhas do Pará preferiam denominar de “bacorota”.
A danada da pirralha, cuja idade girava pela casa dos 14 anos de idade era bem apetrechada de corpo, rostinho sapeca, cinturinha de pilão, pernas arredondadas e lábios carnudos. Tinha tudo que um homem deseja numa fêmea. Volta e meia a menina escapulia de casa e ia bater pernas pelo Mercado Central e na Fortaleza de Macapá. Ela adorava ouvir assobios e galanteios que partiam dos açougueiros e dos soldados da Guarda Territorial. Os vizinhos e conhecidos de sua genitora viviam dizendo, que cedo ou tarde a garota iria arranjar “o que a Maria ganhou na capoeira.” Gente da língua amaldiçoada. Um sujeito conhecido como Dico, embarcadiço de uma canoa transportadora de açaí e outras frutas, entre o Furo da Cidade e o Elesbão, passou uma cantada na guria e arrastou-a para as pedras que ficavam na praia da Fortaleza. Assanhada por demais, A bacorota “arriou os quatro pneus” e deixou o Dico se fartar no “fuc-fuc”. O danado do Dico havia prometido casar com a “pequena”, mas desapareceu. A mãe da menina era lavadeira, atividade que não lhe rendia os trocados necessários para satisfazer as necessidades básicas dela e da filha.

Conseqüentemente, a Ritinha comia uma vez por dia, quase sempre no horário do almoço, mas não era muita coisa. À noite, jogava pra dentro da barriga uma cuia de açaí e um pedaço de peixe assado, coisa que não era freqüente. Ora, se a Ritinha comia pouco, como é que engordou tanto? A mãe da Ritinha botou a filha em confissão e descobriu o mistério. Não pensou duas vezes e decidiu ir à Central de Policia registrar queixa contra o Dico, por crime de sedução. Na época, isso dava um “galho danado” e o deflorador, caso não quisesse casar, ia cumprir pena no Presídio São Pedro, no bairro Beirol. Ao chegar à Central de Polícia, a mãe da Ritinha foi encaminhada ao escrivão conhecido como “Kid Moringueira”, cabra passado na “casca do alho” e bom de conversa. Atuava com atenção redobrada quando a deflorada era e bonita, mas procedia de imediato a lavratura do termo circunstanciado se a vitima fosse judiada pela beleza. O Kid Moringueira ouviu atentamente o relato feito pela lavadeira e prometeu intimar as partes com brevidade. Expediu uma intimação contra o Dico, recomendando que a mãe da guria levasse o documento ao dono da canoa onde o deflorador havia trabalhado, visto que o tal canoeiro era tio do “Don Juan”. Nos termos da intimação, o Dico deveria comparecer à Central de Policia no mesmo dia e horário em que a Ritinha e sua mãe também estariam lá. A primeira a ser ouvida foi a Ritinha. Os olhos do Moringueira brilharam intensamente ao ver aquela “bacorotinha”, cheirando a leite, na sua frente. Indagou se a virgindade tirada pelo Dico estava fazendo falta. A Ritinha respondeu que não. Moringueira foi mais incisivo: “queres casar com o Dico?”. Não, falou a Ritinha.Esse negócio de casamento e coisa da mamãe. Ritinha foi orientada a ficar em outra sala, sem falar com sua genitora. Moringueira chamou o Dico às falas e pegou pesado: “E aí, malandrão, casa ou não casa? O Dico respondeu: “Pra que, se eu não dou conta nem de mim.” Moringueira foi taxativo: ”Se não casares com a Ritinha vais passar um bom tempo no Beirol”. “Por mim”, disse o Dico. Ao voltar a falar com a lavadeira, Moringueira aconselhou-a a não exigir o casamento da Ritinha com o Dico.

O caboclo não tinha emprego, era feio, gostava da cachaça e só iria aumentar sua desventura, porque teria de alimentar um vadio. A lavadeira aceitou o conselho, desde que o Dico fosse para o Beirol. Era tudo que o Moringueira queria ouvir. Novamente ele conversou com a Ritinha e disse: “Minha filha, a barra está limpa. Convenci tua mãe que teu casamento com o Dico é uma besteira, e ela concordou. O Dico não vai escapar do presídio, pois disse que não casa nem apanhando. Agora, presta atenção: “ Já que estais com esta sepultura aberta, que tal nos dois fazermos o enterro da felicidade?”


Macapá pitoresco

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A cidade de Macapá tem coisas curiosas que surgiram ao longo da sua história. O local onde foi instalado o povoado era conhecido como Maca-Paba em novembro de 1751, vocábulo de origem nheengatu, que tanto pode ser entendido como “Estância das Bacabas” ou “Onde Acabam as Bacabas”. O primeiro significado prepondera sobre o outro, e parece mais apropriado. A povoação surgiu em torno de um Forte de Faxina edificado no platô de terra firme onde mais tarde seria erguida a portentosa Fortaleza de Macapá. Tudo era muito simples, prevalecendo os tipos de construção denominados “taipa de pilão”, “taipa de mão” e tijupá.

O Forte de Faxina, decorrente de taipa de pilão, não tinha muralhas e correspondia a uma base com anteparos e reparos para os canhões. Entenda-se que reparo é o suporte de uma boca-de-fogo, com dispositivos que permitem dar-lhe os movimentos necessários à execução da pontaria, limitar o recuo e facilitar-lhe o transporte. Em outras palavras, reparo é o carrinho onde o canhão repousa. Em 1758, quando traçaram a planta da Vila de Macapá, o “risco” reservou espaços para dois “largos”, o de São Sebastião e o de São José. O primeiro acabou passando a história como Largo da Matriz, depois Praça Capitão Assis de Vasconcelos e Praça Veiga Cabral. Naquela época, Largo era largo mesmo. O Largo de São José mudou para Largo de São João e Praça Barão do Rio Branco.
O povo dizia que a primeira praça era a de baixo e a segunda, a de cima. O traçado da Vila compreendia ruas e travessas. As antigas ruas hoje são avenidas. As travessas viraram ruas. Macapá pouco cresceu entre 1758 e 1943. O burgo, sede do Município de Macapá, pertencente ao Estado do Pará, era um lugar decadente onde a malária campeava. A partir de 1944 o panorama começou a mudar. Em abril daquele ano, o governador Janary Nunes iniciou a desapropriação das casas construídas em volta do Largo de São João, Praça de cima ou Barão do Rio Branco. Indenizou todos os moradores e fez surgir um novo bairro, o Laguinho. Em seguida, veio o bairro do Hospital. Como as casas eram construídas no topo das elevações que circundavam um lago, o pessoal de fora lascou o nome de Favela. As obras realizadas na cidade atraíram pedreiros, carpinteiros, mestres-de-obras, artífices, marceneiros.

O governo construiu a Olaria Territorial, produzindo tijolos, telhas, manilhas para esgoto, ladrilhos para assoalhos etc. À concentração de residências em torno do empreendimento, o pessoal deu o nome de bairro da Olaria. A área próxima era alagada e os gestores territoriais e municipais, optaram por fixar os proletários em espaço contíguo ao bairro da Fortaleza.

O crescimento foi rápido. Descobriram que naquelas terras havia sido instalado o trem de lapidação das pedras da Fortaleza. Trem é o conjunto de ferramentas e instrumentos necessários à realização de um trabalho. Foi o bastante para o bairro perder o designativo anterior e ganhar a alcunha de Trem, o bairro proletário, visto que a prole (filhos) dos moradores era muito grande. Os que viviam ligados às atividades próprias de ribeirinhos se fixaram no Elesbão. Entre o bairro da Fortaleza e o Elesbão, havia uma passagem tortuosa, em declive, onde morava uma senhora desprovida de beleza física, cujo rosto lembrava um marsupial amazônico. Seu apelido deu nome à ruela: baixa da Maria Mucura. Gradativamente a área municipal expandiu-se, com a formação de outros bairros: Igarapé das Mulheres, Morro do Sapo, Vacaria, Pacoval, Muritizal e depois Buritizal, CEA, Equatorial, Muca, Beirol. Alguns acontecimentos a nível nos contribuíram para a denominação de outros aglomerados: Jacareacanga, Malvinas, Coréia do Norte e Coréia do Sul e Nicarágua. O nome mais curioso foi dado a uma extensão da cidade no atual bairro Santa Rita, próximo ao Aeroporto: Planície dos Corruptos.

A área fora desapropriada e, devidamente dividida, foi destinada aos amigos de um governador acusado de ações ilícitas. Atualmente, nossa distinta e maltratada Macapá possui cerca de 40 aglomerados populacionais entre conjuntos e bairros: Centro, Laguinho, Trem, Perpétuo Socorro, Santa Inês, Beirol, Santa Rita, Jesus de Nazaré, Pacoval, Nova Esperança, Buritizal, Congos, Alvorada, São Lázaro, Renascer, Muca, Jardim Marco Zero, Zerão, Universidade, Jardim Felicidade I e II, Novo Horizonte, Infraero I e II, Cidade Nova, Aturiá, Jardim Equatorial, Pedrinhas, Boné Azul, Açaí, Brasil Novo, Cabralzinho, Pantanal, Marabaixo I, II e III, Liberdade, Morada das Palmeiras, Horto Floretal. Um dia um sujeito perguntou-me por que os amapaenses gostavam tanto dos Cubanos, a ponto de nominar um bairro como Cuba. Esclareci que o nome correto é Cuba de Asfalto, nada a ver com o velho Fidel. De barbicha, fantasioso e falastrão já basta um “aquelezinho” que perambula por estas plagas.


Aperitivo Caimbé

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Na edição número dois (31/3/1945), do Jornal Amapá, impresso pelo governo do Território Federal do Amapá há partir o dia 19 de março de 1945, encontram-se diversas propagandas de estabelecimentos comercias instalados em Macapá e em outras localidades da novel unidade federada. Um anúncio bem simples evidencia que, naquela época, fabricava-se na cidade um aperitivo denominado “CAIMBÉ”, preparado pelo macapaense Pedro Azevedo Costa. O reclame publicitário dizia: “Provem CAIMBÉ, de P. A. Costa. Aperitivo de gosto agradável, barato e inofensivo, licenciado pelo Laboratório Central de Enologia do Rio de Janeiro sob o nº. 00396. À venda na Av. Presidente Vargas, nº. 46. Aceitam-se encomendas de qualquer quantidade”.
O senhor Pedro Azevedo Costa, mais conhecido por Perico Costa, integrava uma família tradicional de Macapá, cuja referência maior era o general do Exército e engenheiro militar João Álvares de Azevedo Costa, macapaense que, no inicio de sua carreira, ainda no tempo do II Império do Brasil, fez parte da guarda pessoal do Imperador D. Pedro II. Perico Costa era proprietário de uma casa comercial de secos e molhados e fabricava o aperitivo em sua residência, um amplo imóvel que figurava como um dos melhores de Macapá. Suas atividades se estendiam de segunda-feira a sábado. Aliás, naquela época havia uma tal “lei seca” que proibia a venda de bebidas alcoólicas aos domingos.Ela vigorou no período de 1939/1945, na chamada Era Vargas, sendo prorrogada até 1951, pelo Decreto-lei nº. 7.604/1945.

O aperitivo Caimbé era preparado com a casca da árvore de igual nome que viceja nos cerrados, cerradões, lavrados e capões. Algumas espécies podem ser encontradas nas várzeas. As folhas têm propriedades medicinais contra artrite, diabetes e pressão alta, O chá das flores atua contra tosse, bronquite e resfriados. A infusão da casca fornece uma bebida eficiente para curar aftas, dores de cabeça e de estômago, resfriados e pulmões. A espécie utilizada no fabrico do aperitivo é da Curatella americana, planta dileciácea da Amazônia, de pequeno porte, de madeira imputrescível, usada em cavernas de canoas, marcenaria e construção civil. A casca é rica em tanino, as folhas são ásperas, usadas como lixas, e os frutos dão uma tinta pardo-escura.

A árvore com estas propriedades é encontrada em várias regiões do Brasil com nomes diversos: lixeira, caimbé, cajueiro bravo, cajueiro bravo do campo, cambarba, marajoara, penttiera, sambaiba e sobro. Para colher a casca da árvore caimbé, os empregados de Perico Costa não precisavam andar muito. Em toda a área de campo que circundava a pequena cidade de Macapá os tortuosos caimbés imperavam. Era só usar o terçado e retirar a quantidade de casca necessária. Em seguida ela era macerada à cacete e colocada em tambores com água e açúcar para fermentar. Algum produto químico era adicionado, mas a fórmula nunca foi revelada. Devido à resina de cor amarelo-esverdeada da madeira, o aperitivo ficava amarelo claro. A dosagem alcoólica não era forte, mas os gulosos acabavam ficando embriagados. Quando havia treino dos times de futebol de Macapá, no campo da Praça Capitão Augusto Assis de Vasconcelos, nos dias de semana, a venda do aperitivo aumentava consideravelmente no comércio do Perico Costa. Encerrado o treino e mesmo jogos, os atletas se dirigiam ao ponto de venda do Caimbé para matar a sede. A maioria deles afirmava que o produto tinha efeitos cicatrizantes e ajudava a curar baques, gastrite, arranhões e até unha encravada. O Sr. Walter Batista Nery, que em 1945, integrava o elenco do Amapá Clube, diz que o aperitivo era muito bom, com sabor variando entre o mel e o licor. Perico Costa sempre procurou obedecer à lei que proibia a venda de bebidas alcoólicas aos domingos. Entretanto, em maio de 1945, confiou na suposta discrição do freguês João Evangelista de Almeida e vendeu-lhe um litro de Caimbé num dia de domingo. Nem bem saiu da casa do comerciante, o comprador foi bebericar perto da Divisão de Segurança e Guarda e acabou sendo recolhido aos costumes. Na edição nº. 6 do Jornal Amapá, que circulou no dia 12 de maio de 1945, o fato ganhou destaque na coluna Registros Policiais: “Vendia Caimbé Durante Lei Seca – Pedro. A. Costa, conhecido fabricante da bebida denominada “Caimbé”, não se conformando com a lei seca, vendeu, em um domingo, um litro dessa aguardente composta a João Evangelista de Almeida. Feita a apreensão da “água que passarinho não bebe” o fabricante vendedor foi obrigado a pagar a multa regulamentar”. Desse dia em diante, Perico Costa não atendeu nem os pedidos especiais que algumas autoridades faziam as escondidas. Quem desejasse ter o aperitivo Caimbé para saboreá-lo aos domingos, em sua residência, tinha que comprá-lo no decorrer da semana. Curioso é que na época já funcionava na esquina da Rua São José com a Avenida Presidente Vargas, o Bar Elite, de João Vieira de Assis, onde a cerveja era servida bem gelada.

O Bar Elite também dispunha de outras renomadas bebidas, mas o pessoal preferia mesmo era o aperitivo fabricado por Perico Costa, por ser mais barato.


A revolução militar de 1964 e a censura

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Quando eclodiu o movimento militar de 1964, duas emissoras de rádio funcionavam em Macapá. A mais antiga Rádio Difusora de Macapá era mantida pelo governo do Território Federal do Amapá e estava no ar desde 1946. Operava apenas em amplitude modulada, na freqüência de 1460 kilociclos. Tinha um bom alcance, notadamente à noite, podendo ser sintonizada até mesmo no exterior. A partir de 1953, a Rádio Difusora passou a contar com um transmissor de onda tropical, faixa de 61 metros e freqüência de 4.915 quilociclos. Com maior poder de penetração na região Norte só existia a Rádio Clube do Pará, que era mais conhecida pelo prefixo PRC 5. A emissora oficial do Governo do Território Federal do Amapá era autorizada a funcional com o prefixo ZYE 2. Seu slogan era: “Rádio Difusora de Macapá, uma voz do Amapá a serviço do Brasil”.

A segunda emissora de rádio a ser instalada em Macapá não tinha a autorização oficial para fazê-lo. Seus idealizadores e proprietários usaram de um artifício para colocá-la no ar. Valeram-se da condição política que alguns deles possuíam junto às autoridades locais e nacionais e emitiram um rádio-telégrafo contendo a suposta autorização necessária ao seu funcionamento. A idéia de fundar a nova emissora despontou em 1962, ocasião em que o Brasil estava sendo presidido pelo advogado gaúcho João Belchior Marques Goulart, que assumiu o poder depois que Jânio da Silva Quadros o renunciou no dia 25 de agosto de 1961. Esta emissora tinha o nome de Rádio Equatorial, prefixo ZYD 11 e freqüência de 1640 kilociclos, em Amplitude Modulada (AM). A rádio operou em fase experimental no segundo semestre de 1962 e passou a operar normalmente em dezembro do mesmo ano. Macapá ressentia-se da falta de uma emissora, haja vista que a Rádio Difusora só operava em onda tropical devido a problemas técnicos em seu transmissor de onda média. O transmissor foi remetido a São Paulo para conserto, mas a fábrica o declarou irrecuperável. Consequentemente, a rádio do governo territorial quase não era ouvida na capital. Em contrapartida, a Rádio Equatorial agia como ferrenha defensora governamental. Até mesmo uma casa de propriedade do governo, situada na esquina da Avenida Iracema Carvão Nunes com a Rua Tiradentes foi usada para que a Equatorial nela se instalasse.

Tudo corria muito bem para o lado dos proprietários da Rádio Equatorial até que, a 31 de março de 1964, um golpe militar destituiu do governo do Brasil o presidente João Goulart. Ocupava o cargo de governador do Território Federal do Amapá o coronel Terêncio Furtado de Mendonça Porto, nomeado por João Goulart a pedido do deputado federal Janary Gentil Nunes. No período em que os militares começaram a demonstrar descontentamento com a gestão de Jango Goulart, Terêncio Porto lhe declarou solidariedade. Também se mostrou solidário com os revoltosos, mas não os convenceu. Com a posse do General Luiz Mendes da Silva no cargo de governador do Amapá, a Rádio Equatorial foi fechada, encampada e teve seus bens incorporados a Rádio Difusora.
A emissora oficial tornou-se senhora absoluta da audiência no Território do Amapá operando em amplitude modulada e em onda tropical. Mesmo sem a declaração formal da censura, uma série de restrições foi impostas para os órgãos de imprensa. Determinadas palavras e nomes de políticos não podiam ser pronunciadas e muitas letras de músicas foram consideradas contrárias aos ideais da “gloriosa revolução de 1964” . Atuando na Rádio Difusora desde fevereiro de 1962, sempre tive cautela em minhas locuções. Só um louco cometeria a asneira de dizer que algum prédio do governo estava entregue às baratas ou que a gestão de governador ou prefeito era uma esculhambação.

A instalação da censura trouxe restrições ao pessoal da imprensa. Ninguém podia trabalhar sem ter uma carteira expedida pelo Departamento da Polícia Federal. Os órgãos de imprensa passaram a estar bem atentos à maneira de agir de seus funcionários e colaboradores. Os noticiários, roteiros musicais, crônicas e editoriais das emissoras de rádio tinham que ser submetidos à censura do Polícia Federal. A programação diária da emissora deveria der gravada integralmente e deixada por setenta e duas horas à disposição da Polícia Federal. Ninguém podia dizer no ar que nutria simpatia pela União Soviética, Cuba ou qualquer outro país considerado comunista. Os eternos descontentes viviam sob permanente observação e repreendidos quando se excediam. Eram bem quistos os bajuladores. No que se refere à propaganda comercial, não era permitido que se estimulasse o consumo de bens alimentícios e de combustíveis. Aliás, os postos de combustíveis fechavam as vinte e uma horas de sexta-feira e só voltavam a funcional às seis horas da manhã de segunda feira. Entre segunda e sexta-feira eles só atendiam os consumidores das seis às vinte e uma horas. Jornalista que usasse os termos “milico”, se referindo aos militares, entraria numa fria, como se costumava dizer.