Alice Gorda, Rainha Moma do Amapá

comentários

o Setentrião do Brasil viveu uma rainha: a maravilhosa Alice Guedes de Azevedo. Seu reino era o império da alegria, da pândega e da roseta. O tributo devido por seus súditos correspondia a um simples sorriso. Sem ter apego a bens materiais, a rainha Alice não tinha fortuna, nem cetro de brilhantes ou coroa de ouro. Em reconhecimento ao amor que ela nutria pelo carnaval, a soberana vontade do povo lhe deu um trono e o direito de ofuscar, por um breve período de tempo, o brilho dos poderosos. Se o seu reino tivesse um primeiro ministro, ele seria o FALCONIERE, o “Cavaleiro do Samba” que assegurou sua sagração como Rainha Moma. Seu fiel escudeiro, O Rei Momo SACACA, preferia chamá-la de Madrinha e jamais pretendeu ser mais importante que ela. Nem o passista campeador “SUCURIJU” se encheu de vaidades ao substituir o Rei Sacaca quando este foi guindado à esfera celeste para alegrar a corte dos Querubins.

O quarteto aqui mencionado despontou para a folia carnavalesca no bairro moreno da cidade, onde surgiu triunfante a “Ordem dos Foliões da Orgia e do Samba”, eternizada entre nos como Boêmios do Laguinho. Foi neste reduto onde impera a cor do ébano que a Alice Gorda começou sua jornada carnavalesca na Província dos Tucujú. Cativante e conciliadora, a Rainha Alice Gorda estendeu sua simpatia pelos Cantões Maracatu, Piratão, Piratinha, Cegonhas, Embaixada, Felicidade, Solidariedade, Unidos do Buritizal, Império do Povo, Quilombo dos Palmares, Unidos do Amapá e pelos Condados Reunidos da Liba, da Abloca e da Banda.

Antes de vestir os trajes reais, Alice tinha predileção pela fantasia de ARLEQUIM, evidenciando o vermelho e o branco. Por gostar do branco e do vermelho apaixonou-se pela Escola Acadêmicos do Salgueiro, do Rio de Janeiro. Foi por influência desta entidade carnavalesca carioca que a Escola de Samba Boêmios do Laguinho também se vestiu de alvi-rubro. Com este traje secular brincou descontraidamente enquanto o excesso de peso ainda não havia prejudicado sua mobilidade. Sempre foi apaixonado pelas festas populares que fazem a riqueza folclórica do nosso país. Entretanto, o carnaval, foi o maior encantamento de sua vida. Se não dava para caminhar, a Alice se conformava em ficar sobre o capô do motor de um caminhão ou na carroçaria de uma camionete. Nem tudo foram flores na caminhada de Alice Gorda. Por ter aceitado uma homenagem de Piratas da Batucada, que contou e cantou sua vida na Avenida FAB, ela foi acusada de ter cometido o crime de lesa pátria e traído Boêmios do Laguinho. Triste e decepcionada com a atitude de pessoas que apenas apareciam na associação no período do carnaval, ela bateu em retirada. Em 1967, consciente de que poderia ter dissabores, Alice aceitou ser “testa de ferro” de um bloco de sujos que congregava integrantes do Bloco do Amapá Clube e carnavalescos partidários políticos do Coronel Janary Gentil Nunes, eleito deputado federal em 1966. Se o Amujacy Alencar, o Savino Souza, o Jarbas Gato ou qualquer outro cidadão que participou da campanha do ex-governador tivesse despontado como coordenador do bloco, certamente a Prefeitura Municipal de Macapá não teria aceitado a inscrição requerida para participar da programação oficial. Naquele ano, uma “orquestra” foi colocada na carroçaria de um caminhão para animar os brincantes.

O Veiculo fez o mesmo percurso ainda cumprido pela Banda e só começou a tocar a marcha “A Banda”, composta pelo Chico Buarque, com maior ímpeto quando atingiu a Avenida FAB. Imediatamente, os coordenadores do carnaval mandaram os soldados da Guarda Territorial montar uma barreira no esquina da Avenida FAB com a Rua Eliezer Levy para impedir que o bloco passasse em frente ao palanque oficial. Quem usou o termo “Banda” foram as autoridades e não os brincantes ou a imprensa. Alice foi acusada de ter sido conivente com os “bagunceiros e desrespeitadores da ordem”. Jornais de Macapá e de Belém não a pouparam. Braba como ela só, Alice subiu nas tamancas e enfrentou o imbróglio com muita altivez. A maioria dos que a meteu no “foguete sem rabo” se acovardou e sumiu do mapa.

No decorrer dos 45 anos em que viveu em Macapá, Alice Gorda promoveu e ajudou a promover as pândegas e as pantomimas carnavalescas. Como o firmamento precisava de uma estrela de primeira grandeza, Alice mudou de endereço, deixando seus súditos conscientes de que apenas a fraternidade é capaz de fazer o carnaval existir. Assim, neste carnaval de 2019, mesmo que as entidades carnavalescas não desfilarem no Sambódromo, as atenções de seus integrantes devem estar voltadas para o céu, onde Alice a tudo observa, com um largo sorriso estampado no rosto. mesmo lamentando que o rufar dos tambores não ecoem na Latitude Zero do globo. O maravilhoso Reino da Alegria de Alice Gorda sempre estará em festa para perpetuar a sua memória. O Estado Amapá foi o único que possuiu uma Rainha Moma.


Avião da FAB cai em Anajás

comentários

No dia 27 de fevereiro de 1948, uma sexta-feira, um avião Douglas C-47 A-85-DL, prefixo 2040, da Força Aérea Brasileira, da linha Rio de Janeiro-Caiene-Rio de Janeiro, com escala em Belém, que havia decolado do aeroporto de Rochambeau e que retornava à capital federal era dado como desaparecido por volta de 21h45min, após passar sobre a cidade de Macapá às 21h30min. Diferentemente dos aviões do Correio Aéreo Nacional, os Douglas C-47 DA FAB não desciam em Macapá, Amapá e Oiapoque. Mas sua passagem sobre Macapá foi registrada pela Estação de Rádio-Telegrafia dos Serviços Aéreos Cruzeiro do Sul. A aeronave transportava 28 pessoas sendo 22 passageiros e 6 tripulantes. A Base Aérea de Belém, que recebera mensagem do comandante relatando problemas, logo despachou vários aviões para realizar buscas e prestar socorro às possíveis vitimam. Por ocasião do último contato com a base aérea de Belém, o telegrafista informou que o avião sobrevoava a Ilha do Marajó, sem precisar o local exato em que se encontrava. Na mesma noite. O Brigadeiro do Ar Fontenelle solicitou apoio ao governo do Território Federal do Amapá para buscas por via fluvial.

Os iates Itaguary e São Raimundo, que integravam a frota de embarcações do Serviço de Navegação Territorial foram liberados para atender a solicitação das autoridades da FAB. O Itaguary seguiu para a região da ilha Caviana e o São Raimundo tomou o rumo do rio Jurupary. O iate São Raimundo foi o que mais se aproximou do local do acidente, visto que o rio Jurupary corta áreas da Ilha do Marajó próxima a Anajás e Afuá. A notícia do acidente aéreo se espalhou pelo Brasil apenas na manhã do dia 28 de fevereiro. A Rádio Clube do Pará, através de sua onda curta alertou os moradores da região fronteiriça a Macapá, solicitando que eles colaborassem com a Base Aérea de Belém caso tivessem informações sobre o desastre.

A Rádio Difusora de Macapá, à época, só possuía a Onda Média (Amplitude Modulada), cuja propagação se dava com maior alcance à noite. Ela também divulgou diversos boletins informativos. Somente às primeiras horas do dia primeiro de março o comando da Base aérea de Belém foi notificado que o avião havia realizado um pouso forçado na pequena cidade de Anajás, graças aos esforços do prefeito Silvio Carvalho e populares, que utilizaram faróis, candeeiros e archotes para sinalizar o local onde era possível o pouso de emergência. Os contatos foram feitos pelo senhor Otávio Franco, presidente do Breve Industrial, através de sua estação de rádio amador.

Em Anajás não havia serviço de rádio-telegrafia, nem energia elétrica. O comandante de uma embarcação que saíra de Anajás com destino a Breves comunicou os detalhes do acidente ao senhor Otávio Franco.

Ainda no dia 1º de março, a FAB constatava que a aterrissagem do avião ocorrera por volta das 22 horas do dia 27 de fevereiro, sob a sinalização de faróis e archotes, Anajás não tinha pista de pouso. Como o avião ficou sobre voando a cidade o prefeito Silvio Carvalho deduziu que havia problemas. Ao descer, o avião liberou bastante gasolina, mas não explodiu. Porém, os populares que procuravam salvar os ocupantes da aeronave não se deram conta de que os archotes poderiam provocar incêndio, coisa que acabou acontecendo.

O major Ary Proença, comandante da Base Aérea de Belém esteve no local dirigindo as operações de resgate das vítimas. Constatou, que dos 28 viajores, apenas 3 escaparam. Dentre os 25 mortos, 6 eram tripulantes, 8 eram militares do Oiapoque e 11 passageiros civis. Dois aviões catalina amerissaram no rio Anajá para recolher os mortos e feridos. O prefeito Silvio de Carvalho Santos recebeu diversos cumprimentos pela bela iniciativa de orientar o piloto do avião no pouso forçado. Pouco tempo depois do sinistro, Silvio Carvalho veio trabalhar em Macapá e foi um dos prefeitos de Mazagão.


Falta-nos um sistema de cultura

comentários

Embora o lema da Bandeira Nacional seja “Ordem e Progresso”, pinçado da frase concebida pelo Francês Augusto Conte: “O Amor por principio e a Ordem por base; o Progresso por fim”, o Brasil continua sendo um país que tem suas leis, códigos e normas, mas seus mandatários não gostam de cumpri-las. O absolutismo que prevaleceu na nação brasileira, desde a sua descoberta até o fim da Monarquia, continuou marcante no período republicano e parece não ter fim.

Ainda não conseguimos implantar um Sistema Nacional de Cultura porque os governantes preferem posar de “Mecenas”, embora, no serviço público, com aplicação de dinheiro do Tesouro Nacional esse tipo de protetor cultural não existe. O mecenato é próprio dos que usam recursos advindos de suas atividades empresariais ou de quem reserva parte de seus ganhos para estimular os cultores das artes. O Brasil andou perto de implantar um sistema cultural há cerca de quatro anos, mas não o fez, a conta do apadrinhamento que os políticos usam para manter produtores das artes sob suas asas. No Amapá, seguindo os estudos realizados pelo Governo Federal, também elaboramos nosso Sistema de Cultura. O Executivo Nacional reuniu, em Brasília, em 2010, gente de todas as vertentes culturais, dispensando total atenção para os que se mostraram coniventes com a condenável prática de submissão aos chefões do Partido dos Trabalhadores exercida no país. A bola bateu na trave, foi pela linha de fundo e ninguém quis ir buscá-la para dar reinicio ao jogo. Uma prova cabal dessa verdade está no fato dos governantes terem extinguido os Conselhos de Cultura, normativos e fiscalizadores por natureza. Os governantes que não o extinguiram o transformaram em singelos Conselhos Deliberativos, principalmente para acomodar agentes culturais de sua preferência, muito mais militantes políticos do que cultores das artes. Recentemente, no decorrer da campanha política para a Presidência da República, o consagrado compositor/cantor Chico Buarque de Holanda declarou seu irrestrito apoio à candidata Dilma Rousseff.

Imediatamente, surgiram nas redes sociais diversas postagens afirmando que a declaração de Chico Buarque decorria do apoio financeiro dado pelo Ministério da Cultura a uma irmã do cantor, algo em torno de oitocentos mil reais. No período em que Gilberto Gil foi Ministro da Cultura, o cantor Caetano Veloso disse que estava sendo discriminado pelo governo, que lhe negou recursos para a realização de um trabalho musical. No Amapá, um parlamentar conseguiu arrancar do orçamento federal a importância de 600 mil reais para contemplar apadrinhados, entre eles um irmão que completava 50 anos de idade. Dentre os governantes amapaenses, o Waldez Góes foi o que mais se aproximou da implantação de um Sistema Cultural. Reinstalou o Conselho de Cultura, que havia sido jogado no abismo por João Capiberibe, instituiu a Lei de Incentivo à Cultura e deu ao Silogeu uma estrutura normativa e fiscalizadora invejável. Os bajuladores e submissos não gostaram.

Os que exerceram controle administrativo da Secretaria Estadual de Cultura declararam guerra ao Colegiado e se negaram a fornecer-lhe os documentos que a lei lhe assegurava o direito de exigir. Ao final do mandato dos conselheiros prevaleceu a vontade do parlamentar, que prometeu imorredouro apoio ao Waldez caso ele nomeasse apenas seus escolhidos. O tal parlamentar abandonou com a parceria, já no governo do Camilo, assim que nuvens negras pairaram sobre a cabeça do ex-governador. Agora, a partir do dia 1º de janeiro de 2015, Waldez Góes vai governar o Amapá pela terceira vez. Os membros do setor cultural que almejam ver o Estado trilhando a rota do mérito e não do favorecimento aguardam medidas saneadores em todos os sentidos. Se isso não acontecer, o Amapá estará ferrado e desamparado da esperança. Basta de tantas festas sem objetividade alguma. Vamos recuperar o Parque do Forte, tornar atrativa uma visita à Base Aérea de Amapá, apoiar as entidades culturais que podem engrandecer as ações de governo e mandar as favas os oportunistas. Agora, em 2018, configurada a vitória de Waldez Góes nas eleições, resta-nos esperar que o tal sonhado Sistema Cultural se torne realidade.


Remanso e Elesbão

comentários

Ao lado direito do platô de terra firme onde está edificada a imponente Fortaleza de São José de Macapá, havia uma reentrância denominada remanso. Tinha este nome porque naquela pequena enseada as águas do Rio Amazonas não corriam com tanta força. Existem dois conceitos bem definidos sobre remanso: a) contracorrente junto à margem de um rio; b) trecho de rio que não apresenta corrente apreciável.

Na faixa litorânea que hoje integra os bairros, central e Santa Inês, instalaram-se alguns dos primeiros escravos trazidos pelos imigrantes açorianos que aqui chegaram a partir de 1751. Antes da vinda dos açorianos, por volta de 1738, um contingente de soldados chefiados por um capitão já ocupava espaço no platô, erguendo um forte de faxina. No final de ano de 1751, 86 casais de açorianos iniciaram a construção da igreja e dos tijupares que iriam abrigá-los. As instalações destes prédios eram bem simples e dominaram a área de abrangência da grande fortaleza. Enquanto os açorianos se devotavam a São José e faziam suas festas em louvor ao Espírito Santo, os negros mantinham suas tradições religiosas acobertadas pela veneração a Santo Elesbão. Este santo da Igreja católica teria sido descendente de Salomão e da Rainha de Sabá. Foi o 47º imperador da região da Etiópia, pais que dominava vasta região a oeste do Mar Vermelho. Santo Elesbão viveu no século VI dC e foi contemporâneo do Imperador romano Justiniano.

Combateu e venceu os hameritas, anulando a rebelião que eles tinham desencadeado. Abdicou o trono da Etiópia a favor do filho e rumou para Jerusalém. Posteriormente se retirou para o deserto e aí viveu como monge anacoreta até falecer no dia 27 de outubro de 555. Por ser um santo negro, ganhou a devoção dos escravos africanos difundida principalmente pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, Santo Elesbão e Santa Efigênia, rainha da Núbia, filha do rei Egyppo que foi batizada pelo apóstolo Mateus. Curioso é que os próprios imigrantes portugueses e açorianos eram chamados de Elesbão, certamente devido ao fato de não serem considerados de sangue puro. Consta que os imigrantes de pele clara ou parda, que não eram escravos, deveriam ser identificados com o nome da localidade de onde provinham. Os embarcados em Lisboa teriam seus nomes incluídos na relação titulada como Lisboa. Entretanto, o escrivão da alfândega equivocou-se e escreveu Elesbão em vez de Lisboa. Com o passar do tempo muitas pessoas incorporaram a palavra Elesbão ao nome de batismo.

Sobre a praia do remanso, no terreno do encosto leste da fortaleza e na área do Elesbão os moradores de Macapá que apreciavam residir na margem do rio foram construindo suas habitações. No trecho identificado como Elesbão, atualmente cortado pela Avenida Hélio de Souza Pennafort, que começa na Avenida Henrique Antônio Galúcio e termina da avenida 1º de Maio, vários pioneiros da edificação do povoado de Macapá formaram um aglomerado urbano. Este amontoado de casinhas e gente perdurou até meados da década de 1980, ocasião em que o Governador do Território Federal do Amapá, Annibal Barcellos, o extinguiu e transferiu os moradores para o bairro Nova Esperança.

O aterro da área do remanso, do Elesbão e do igarapé do Igapó começou a ser feito em 1978, durante a gestão do Governador Arthur Azevedo Henning. A contar de 1979, os trabalhos foram intensificados pelo Comandante Annibal Barcellos, se estendendo pela orla de Macapá até as proximidades do igarapé Jandiá, dando origem à Praça Abdalla Houat, Praça Jacy Barata Jucá e expansão do Perpétuo Socorro. Para iniciar o aterro dos trechos citados, o DNOS procedeu à drenagem da praia onde seriam construídas as rampas acostáveis do bairro Santa Inês, do Igarapé das Mulheres e próximo ao canal do rio Amazonas. Somente na conclusão do aterro utilizou-se laterrita.

O Elesbão era uma referência para quem queria comprar peixe, carne de caça, frutas e açaí, que os caboclos das ilhas fronteiriças a Macapá traziam para comerciar. Ali morou uma senhora sobejamente conhecida em Macapá como Maria Mucura. Com todo respeito à sua memória, o rosto da ditosa senhora era tal e qual a cara do marsupial devorador de aves. O pequeno declive existente perto de sua casa ficou famoso como baixa da Maria Mucura. É claro que ela não gostava do apelido e xingava os desrespeitosos até a milésima geração.Moradores do bairro do Trem de Lapidação e adjacências, que gostavam de degustar uma cachacinha da marca Alvorada não deixavam de passar no boteco do seu Neco Brito e deliciar, de uma talagada só, o famoso produto advindo de Abaetetuba. Na volta para casa voltavam a encostar-se à birosca “Jesus, Maria, José” para engolir a saideira.

No entorno da Fortaleza, junto ao remanso, foi instalado um matadouro municipal. Sobre a praia funcionou um abatedouro de porcos, pertencente ao senhor Pedro Pinheiro Borges. Também existiu um dançará na área, cujo nome parece ter sido “Bela Vista”. Quando a “porrada comia no centro”, dava gosto ver os brigões caírem na lama ou na água. Sujos e molhados iam depurar a maldita cana e sossegar o facho na Delegacia de Polícia. Ambiente mais calmo era o “Bananeira”, aprazível recanto onde uma família do local promovia festas e vendia refeições. Só funcionava nos fins de semana. Quem caísse na besteira de beber, comer e não pagar era sumariamente denunciado na Polícia e esconjurado pelo resto da vida e mais três meses.


Macapá deixa de ser povoação

comentários

Aproveitando o ensejo da viagem que realizou a Capitania de São José do Rio Negro, onde foi tratar das questões fronteiriças de Portugal com a Espanha, o Capitão General Francisco Xavier de Mendonça Furtado, Governador do Estado do Grão Pará, colocou em prática o plano de elevar as povoações mais expressivas à condição de vila e as aldeias indígenas ao nível de povoados. Antes de aportar em Macapá, Mendonça Furtado parou na aldeia dos índios Urucará, onde o Padre Antônio Vieira havia introduzido índios nhengaibas, perseguidos por escravagistas. No dia 24 de janeiro de 1758, a aldeia Urucará foi elevada à categoria de vila e testemunhou a instalação do Senado da Câmara. A denominação mudou para Portel. A comitiva do governador chegou a Macapá dia 1º de fevereiro e as delineações do espaço que iria abrigar a vila ocorreram imediatamente. Este espaço corresponde as Praças Veiga Cabral (Largo de São Sebastião) e Barão do Rio Branco (Largo de São José/São João).As denominações dadas aos dois largos traduzem bem a intenção de Mendonça Furtado em homenagear não apenas os santos, mas também seu irmão Sebastião José de Carvalho e Melo e o Rei D. José I. é claro que o delineamento em questão não passou de uma simples escolha, sem compreender a limpeza total da área, que por ser de cerrado facilitou a empreitada. No dia dois de fevereiro, a cerimônia de posse dos membros do Senado da Câmara certamente aconteceu no núcleo pioneiro de Macapá. Nela havia instalações diversas e a população ali residia. Devido ao porte que Mendonça Furtado quis dar a Macapá, o Senado da Câmara foi formado por quatro membros: Francisco Espíndola Bittencourt, que exerceria a presidência e seria o Juiz Ordinário; Carlos de Melo, acumulando as funções de Procurador do Executivo e Tesoureiro; Thomé Francisco Vieira e Manoel José Paes como vogais. Todos eram açorianos, brancos e letrados. Finda a cerimônia de posse, a comitiva do governador, acrescida por militares do reduto fortificado e por populares deu vivas ao Rei de Portugal e desejou-lhe longa vida. A ligação entre o platô da fortificação e a área do atual centro histórico era feita através de uma ponte de madeira construída sobre o igarapé do Igapó e por uma estrada aterrada. A abertura de vias públicas data de 1761, correspondendo a nove ruas, nove travessas e passagens, dois largos maiores e um largo menor.

No dia 4 de fevereiro houve missa campal celebrada pelo bispo Miguel de Bulhões e concelebrada pelo Padre Miguel Ângelo de Morais. Encerrado o ato litúrgico o bispo do Grão-Pará assentou a pedra fundamental da Igreja de São José. A seguir, o Governador Mendonça Furtado convidou o Ouvidor Geral Pascoal Abranches Madeira Fernandes a conduzir o cerimonial que redundaria na declaração de elevação do povoado à categoria de vila, que o fez de maneira formal e marcante, a começar pela ereção do pelourinho, símbolo das franquias municipais. Em Portugal “o pelourinho era um pilar de pedra, de estilo burlesco, mas às vezes formoso. Servia de poste para o condenado receber açoites, como lugar de execução, do qual penduravam o criminoso, ou contra o qual se estrangulava e decapitava.” Na Amazônia bastava um grosseiro tronco de madeira com duas travas cruzadas no topo ou argolas. Aos romanos o denominavam pilori e o tinham como símbolo da autoridade e da justiça. O termo pilori evoluiu para pelouro, que era cada um dos ramos da administração de uma vila ou de uma cidade afeta aos vereadores da Câmara Municipal, onde se reuniam os vogais representantes do povo e entre eles o Juiz Ordinário e o Procurador. A franquia de que desfrutavam as vilas consistia na liberdade e direito de cobras impostos e ministrar a justiça em primeira instância. O vogal era o representante paritário da classe popular e tinha direito a voto. A direção da segunda vila a ser instalada por Mendonça Furtado foi exercida pelo Senado da Câmara, cujo prédio foi construído ao lado direito da Igreja, no espaço que hoje abriga a Biblioteca Estadual Elcy Rodrigues Lacerda.

Pouco a pouco, a contar de 1761, as casas destinadas aos moradores da vila e os prédios públicos foram sendo construído em taipa-de-mão. A área inicialmente habitada era delimitada pelas ruas Formosa (Cândido Mendes) e da Campina (Tiradentes) e pelas Travessas do Lago (General Gurjão) e da Estrela (Presidente Vargas). Por trás da Igreja de São José, que sempre ficou de frente para a rua São José, passava a rua dos Inocentes, interligando as travessas do Lago e da Estrela. O largo que demorava após a igreja também ficou rotulado pelo povo como Largo dos Inocentes. Com o passar do tempo, o quadrado compreendido entre a Rua São José, a rua da Campina e as Travessas do Lago e da Estrela tornou-se o ponto mais habitado de Macapá. O povo dizia que ali tinha tanta gente que mais parecia um formigueiro. A expansão no sentido do rio Amazonas ocorreu muito tempo depois. Neste dia 4 de fevereiro de 2019, comemoramos os 261 anos da elevação do povoado de Macapá à categoria de vila. Se contarmos o tempo desde o ano de 1751, período em que Macapá passou na condição de povoado, a existência de colonizadores nesta área sobe para aproximadamente 268 anos.


O homem que adorava palavras novas

comentários

Em qualquer lugar deste mundo há pessoas que falam pelos cotovelos, são ávidas em dar noticias quentinhas e costumam usam palavras que ouvem nos meios de comunicação, mas nem sempre nem sempre sabem o que elas significam. Gente com essas características existem pelo Brasil inteiro e algumas delas já transitaram pela vida em terras do Amapá. A avidez em contar novidades, sem procurar saber se o que lhe contavam tinha algum cunho de verdade, acabou rotulando alguns cidadãos como “mentira fresca”, “sabe tudo”, “orelhudo”, “boateiro”, etc. Na década de 1960, na cidade de Amapá, aconteceu um fato bem interessante, envolvendo um sujeito que parecia ter a língua grande demais. Em tudo ele metia sua “colher enferrujada”, dando palpites e formulando acusações a terceiros sem ter as provas cabais. Certo dia, um incêndio ocorrido na Prefeitura Municipal de Amapá destruiu grande parte do arquivo da comuna, inclusive documentos contábeis.

O tal sujeito nem esperou o fogo ser apagado para sair espalhando que o responsável pelo incêndio era o Prefeito Leonel Nascimento, cujas prestações de conta estavam eivadas de irregularidades. A acusação contra o baiano Leonel Nascimento era descabida e isso ficou evidente quando o inquérito policial foi concluído. Porém, no foco dos acontecimentos, o sujeito falador dizia abertamente que o prefeito era o único culpado. Familiares, parentes e amigos aconselharam o presepeiro a parar com as bobagens que andava falando. De nada adiantaram os conselhos e as ponderações. Cada vez mais incisivo, o indivíduo destilava seu veneno sem medir as conseqüências. Seu ponto preferido para contar novidades duvidosas era um bar que ficava no inicio da Avenida Antônio Lemos, voltado para a praça, no canto oposto onde ficava o prédio da Prefeitura de Amapá.

Como costuma acontecer, sempre que um incêndio ocorre em órgão público, a polícia instaura um processo para apurar as causas e a responsabilidade do sinistro. Esta providência foi adotada em Amapá, mas ninguém se ariscou a atuar como testemunha de acusação, nem mesmo o contumaz orelhudo. No período em que os policiais passaram na cidade o boateiro andou sumido, provavelmente enfornado em fazenda de familiares. Depois da passagem dos policiais, chegaram à cidade de Amapá, sem qualquer alarde, os três membros de uma comissão de inquérito administrativo. À noite, no bar mais freqüentado da cidade, os integrantes da comissão tomavam um lanche quando apareceu o boateiro. As pessoas naturais de Amapá sabiam que havia forasteiros no bar, entretanto não tinham a menor idéia do motivo da visita. Como todo sujeito presepeiro gosta de jogar para a platéia, não demorou muito para que o orelhudo começasse a fazer suas costumeiras acusações contra o prefeito. Instigado por seus conterrâneos, ele até encenava o modo como teria agido o gestor municipal. Até parecia que o boateiro estava no arquivo da prefeitura quando o fogo começou.

Os membros da comissão de inquérito administrativo ouviam tudo com absoluta discrição, rindo com os jeitos e trejeitos que o acusador fazia. Em dado momento, o presidente da comissão perguntou ao tagarela se ele era homem suficiente para confirmar as denuncias caso fosse “inquirido” a fazê-lo. Radiante com o termo inquirido, que até aquele momento desconhecia, o tagarela se limitou a dizer “unrum”.

Diante da resposta, feita na presença de testemunhas, o presidente da comissão esclareceu o motivo de sua presença em Amapá e disse ao tagarela que ele seria intimado a depor. Pensando que iria sair bem do sufoco, o tagarela empregou uma palavra nova que tinha ouvido há pouco tempo: “assim não mestre, estou anexo ao caso”. E foi anexo mesmo, embora julgasse que o significado do termo fosse “estou fora”. Quem não ficou anexo foi o prefeito Leonel Nascimento que teve sua inocência reconhecida pelo Juiz de Direito da Comarca de Amapá. Leonel nasceu em Ilhéus/Bahia, no dia 13/4/1922. Chegou ao Amapá em outubro de 1945.Faleceu dia 25/1/2019, prestes a completar 97 anos de idade.Deixou páginas apinhadas de bons serviços prestados ao Amapá.


Cuidado com o navio dos cabeludos

comentários

Durante toda a minha infância, passada em Macapá, ouvi os macapaenses de mais idade dizerem aos meninos que temiam ir ao barbeiro: “cuidado com o navio dos cabeludos”. Os que migraram para cá após a implantação do Território Federal do Amapá, que não eram interioranos do marajó e regiões adjacentes nos diziam: “o barbeiro tem família”. Eu e os outros garotos escutávamos estas coisas e indagávamos o porquê deveríamos ter cuidado com o tal navio. Um dia perguntei ao meu saudoso pai, Francisco Torquato de Araújo, qual a função da embarcação que a molecada temia e que nunca aparecia. Ele me contou que não houve propriamente um navio com o propósito de pegar os meninos que não gostavam de cortar o cabelo e sim a execução de campanhas de atendimento médico e social ás pessoas carentes que residiam na Ilha do Marajó, Macapá, Mazagão e baixo-amazonas.

A campanha fazia parte do governo itinerante instituído pelo Interventor Federal no Pará, Magalhães Barata, que visitava frequentemente as vilas e cidades interioranas levando médicos, enfermeiras, odontólogos, barbeiros, servidores públicos dos serviços de expedição de carteiras de identidade, carteira de trabalho, certidões de nascimento, casamento, óbito e muitos medicamentos. Este tipo de campanha de saúde pública foi organizado nos moldes das campanhas militares, haja vista que o povo tinha o costume de não prestigiá-las. Assim, todos eram obrigados, pela força, a se submeterem as práticas sanitaristas.

Os portadores de doenças contagiosas eram afastados dos sadios e ficavam praticamente encarcerados, caso contrário fugiam. Esta maneira de agir da população interiorana não acontecia por acaso. Até 1923, a política de saúde pública não fazia parte da agenda do governo.

No ano em referência surgiu o sistema previdenciário e foram criadas as Caixas de Aposentadoria e Pensões-CAPs. Porém, apenas os beneficiários das CAPs recebiam atendimento médico. Não havia política Nacional de Saúde. Até 1930, a assistência médica individual das classes dominantes era feita pelos profissionais legais da medicina, os chamados médicos de família.

O restante da população era atendida por entidades filantrópicas através de hospitais mantidos pela Igreja Católica e recorria à medicina caseira. Nas duas primeiras décadas do Século XX, as ações de saúde pública foram vinculadas ao Ministério da Justiça, cabendo aos estados controlar as endemias, epidemias, fiscalização de alimentos, portos e fronteiras.

Em 1930, a Saúde Pública foi anexada ao Ministério da Educação tornando-se encargo do Departamento Nacional de Saúde Pública, com foco principal nas atividades sanitárias. Criados neste ano, os sanatórios para tratamento da tuberculose e hanseníase. Em decorrência de um acordo firmado com os Estados Unidos da América, em 1942, o governo do Brasil criou o Serviço Especial de Saúde Pública-SESP, dando apoio aos trabalhadores envolvidos na produção da borracha que não eram assistidos pelos serviços tradicionais.

A campanha realizada pelo governo de Magalhães Barata foi rotulada em anos recentes como Operação Cívico-Social, ou simplesmente ACISO. Deu excelentes resultados, mas despertou a ira dos figurões da política adversária. Eles diziam que o Interventor Federal havia abandonado Belém. O jornal Folha do Norte desenvolveu intensa campanha antibaratista e acabou contagiando grande parte da população belenense. Enquanto isso acontecia, os interioranos recebiam atendimentos diversos. Até pequenas cirurgias foram feitas em pessoas que poderiam ter morrido por falta de assistência médica. Curativos, aplicação de vacinas e antibióticos, extração de dentes, cortes de cabelo, combate a piolhos, a bichos do pé e outros serviços foram prestados.

A ordem era pegar na marra os resistentes e submetê-los a ação médico-social. Os moleques eram os campeões do medo. Tiveram que ser agarrados por policiais para que os barbeiros, dentistas e enfermeiros fizessem seus trabalhos. No meio dos fartos cabelos que eles apresentavam vivia centenas de piolhos. Por isso, o corte tinha que ser feito com máquina zero, deixando apenas uma singela pastinha. O estrago que os piolhos faziam nos homens e mulher deixava os médicos abismados. Feridas em profusão havia na cabeça e na nuca da maioria das pessoas. Curioso é que as mulheres passavam óleo de andiroba e de pracaxi nos cabelos para combater os piolhos. Outras faziam uso do vinagre. Após os cortes de cabelo das mulheres, os barbeiros jogavam “neocid” na cabeça das mais atacadas pelos piolhos e a enrolavam com pano branco. Sobre as feridas os enfermeiros colocavam sulfa ou pomada São Lucas. Não foram poucos os registros de óbito de interioranos em decorrência da “febre de trincheira”. Esta denominação surgiu durante a I e a II Guerras Mundiais devido à morte de soldados atacados por piolhos dentro das trincheiras.


Histórico sobre a região do rio Cassiporé

comentários

Segundo Robert Harcourt, a região situada entre o rio Araguary (Arrawary) e o rio Cassiporé (Cassiporough), era comandada pelo cacique Anacaiuri, maioral dos Yaos, índios da etnia caraíba. Para o geógrafo Keimes (1656), a jurisdição de Anacaiuri se estendia desde o Amazonas até o Essequibo. Por volta de 1666, os Yaos tinham aí uma habitação bela e cultivada, onde viviam cerca quarenta indivíduos.

Pelo Tratado firmado entre Portugal e França, em 1700, a região compreendida entre os rios Araguary e Vivente Pinzon (Oiapoque), passou a ser considerada neutra ou contestada. O litígio seria resolvido através de arbitramento internacional confiado à Confederação Helvética (Suíça).

A França alegava que o Rio Vicente Pinzão era, ora o Araguary, ora o Cassiporé, ora o Amazonas. O Laudo de Berna foi exarado dia 1º de Dezembro de 1900, sustentando a tese brasileira de que o Vicente Pinzon ou Pinzão é o mesmo que os índios denominavam Oiapoque (casa de Oiapim). Cassiporé é um rio que se localiza no Estado do Amapá.

Tem cerca de 320 km de extensão, dos quais 80 são navegáveis. Na foz, a costa é baixa, não se avistando do largo, por detrás do mangal. Nesse rio a pororoca faz-se sentir. Deságua no Oceano Atlântico. Seu principal afluente é o Araporé, pela margem esquerda. Também é o nome de um cabo que é o extremo Nordeste do pontal leste da barra do rio do mesmo nome.

No fim do século XVI e durante o século XVII, o território contestado, entre a margem esquerda do rio Araguary e a margem direita do rio Oiapoque era conhecido como “Província do Aracari”, compreendendo três senhorias: Arawary (Araguary), Maycary (Mayacaré) e Cocshbery (cassiporé). Essa última se estendia até os confins da Província.

Em 1900, o contestado tinha dois centros populosos diferentes pela natureza de seus habitantes e pelo gênero da indústria e comércio: o Amapá e o Calçoene.Calçoene restringia-se ao rio deste nome, ao lado esquerdo da cachoeira Firmino, com população esparsa por regiões do Cassiporé, Tapiry, Jane e Tajinhy. O núcleo populacional ali existente era mais conhecido como vila Firmino.

Na vila do Espírito Santo do rio Amapá Pequeno ou simplesmente Amapá, viviam cerca de 4.000 pessoas, quase que exclusivamente brasileiros ocupadas com a pesca, criação de gado, extração da borracha e fabrico da farinha.

Em Calçoene a atividade principal era a extração de ouro. A população era formada por crioulos franceses e ingleses, com poucos brasileiros. Depois da incorporação do contestado ao Pará, a região foi denominada “Território do Aricari”, com limites entre o Araguary e Oiapoque compreendendo 2 circunscrições administrativas. A segunda circunscrição foi denominada Cassiporé, que se estendia do Mayacaré ao Oiapoque, tendo o povoado de Calçoene como sede.

A ocupação expressiva da região começou na fase posterior a Independência do Brasil, com migrações para Amapá, Calçoene, Cunani, Cassiporé, Uaçá, Arucauá e Curipi.Em 1894, a vila de Calçoene tinha cerca de 6.000 habitantes. Em 1895, a vila de Amapá era habitada por 600 brasileiros. Em Cunani moravam 284 brasileiros, em Cassiporé 120, em Uaçá 80, em Curipi 70 e em Urucará 80, todos são índios.

O rio Cassiporé, a partir de 1945, passou a ser o limite entre os municípios de Amapá (margem direita) e Oiapoque (margem esquerda). O fenômeno da pororoca é observado com mais intensidade no verão. VILA VELHA – situada à margem esquerda do rio Cassiporé é um povoado encaixado na Área de Proteção Ambiental de Vila Velha, fora do Parque Nacional do Cabo Orange e faz parte do Município de Oiapoque.

Há muito tempo explorou-se ouro no alto rio Cassiporé. O Último censo demográfico realizado em agosto de 1957, indicou haver em Vila Velha cerca de 250 almas. A Festa religiosa de maior vulto ocorre dia 19 de março, em louvor a São José, o padroeiro da Vila.


Xerife destituído, até o sol raiar

comentários

No Natal de 1957, sem esperar receber presente de Papai Noel tive uma imensa surpresa. Ao passar a mão direita sob minha rede, deparei com um embrulho retangular, mas sem a altura que me levasse a pensar em um carro. Se fosse uma bola de futebol o embrulho seria redondo.
Além de o volume ter formato comprido, nada fazia barulho quando eu o sacudi. O relógio da sala de casa havia soado cinco badaladas. Ciente que ainda era madrugada coloquei o embrulho sobre o peito e tentei dormir.Quem disse que eu consegui realizar esta proeza.
Nossa casa tinha apenas dois quartos e eu dormia no segundo cômodo, juntamente com minhas quatro irmãs. Mesmo tendo minha rede atada rente a porta e perto do interruptor, eu não poderia ligar a luz, porque seria admoestado por elas. A angústia foi tomando conta de mim e me obrigou a sair do quarto apalpando a parede em direção à porta que demandava para o corredor, elo de ligação entre a sala e a cozinha.
Esqueci até que tinha medo de escuro e das possíveis almas penadas que eu encontraria pelo caminho. Minha mãe tinha falecido em julho de 1955, motivando uma tristeza imensa no seio da família. No Natal deste ano fatídico as comemorações natalinas passaram longe de casa e nenhum presente nos foi dado. Papai precisou ausentar-se para cuidar dos seus empreendimentos comerciais sediados na região das ilhas do Pará, deixando-nos aos cuidados da mazaganense Hortência Furtado, que era sua madrinha de águas bentas. Assim que cheguei à cozinha acendi a luz e rapidamente desembrulhei o presente. A imagem captada pelos meus olhos me transportou para o velho oeste norte americano. Dentro da caixa havia todos os apetrechos próprios de um xerife: cinturão, coldre, revólver colt 45 e um rolo de espoletas. Para poder usar a estrela de xerife, precisei vestir a camiseta do uniforme de educação física do Grupo Escolar Barão do Rio Branco.
Devidamente identificado como homem da lei, coloquei o cinturão com o coldre, abri o revolver e adaptei o rolo de espoletas no local apropriado. Para dar mais realce ao destemido justiceiro usei o meu chapéu de escoteiro. A empolgação era tanta, que nem reparei se o dia já havia raiado. Num piscar de olhos o tiroteio começou. Duplo som era ouvido. O das espoletas e o que eu fazia com a boca, inclusive o ricochete das balas batendo nas pedras. Minha alegria durou pouco.
A mesma alma caridosa que me deu o presente se apossou dele com um ultimato: “Mano, ainda é madrugada, Só vou devolver tua arma se tu dormires mais um pouco”. Enfezado e indignado, deitei no assoalho da sala e adormeci. Por volta das oito horas fui despertado e voltei a personificar o Hopalong Cassidy, um dos heróis do cinema americano. Antes do meio dia a munição tinha acabado.
Na manhã do dia 26 de dezembro eu fui ao Armazém Macapá e a outras lojas do nosso humilde comércio. Nenhuma casa que vendia presentes possuía rolos de espoletas. O jeito foi reviver o tempo em que eu usava revólveres de madeira.
Nos filmes que assisti no Cine Teatro Territorial e no Barracão Pio XII, as balas dos mocinhos nunca acabavam. Por isso julguei que o meu trabuco era de facínora. O que mais atirava era o Allan “Rock” Lane, mais conhecido como Rock Lane. O Roy Rogers e o Gene Autri cantavam mais do que atiravam.No meu tempo de criança os presentes mais vistosos eram caros. Os caros podiam ser de pinho, lata ou mica. Ainda não existia o plástico.
O dono de um brinquedo feito de mica precisava ter muito cuidado. O material era frágil e quebrava com facilidade. Alguns garotos malvados sentiam prazer em chutar ou pisar um brinquedo de mica. Um caminhão de madeira acabava sendo um ótimo presente. Marceneiros e carpinteiros fabricavam rodas ou ripas da carroceria, caso elas quebrassem. A maioria dos revólveres de brinquedo, vendidos no nosso comércio era de ferro fundido As cores variavam, mas prevaleciam as tonalidades prata e preta.


Era Natal

comentários

Foi no Natal passado. Os sinos da Matriz badalavam o seu blim-blim-blom anunciando que o Natal chegava. As miríades de estrelas brigavam com nuvens ameaçadoras de chuvas lá no céu, enquanto a rainha noite lá nas alturas, uma vez ou outra mostrava o seu rosto timidamente.
Havia chovido na cidade toda a tarde e por todo o início da noite. Assim tínhamos uma noite fria para os hábitos climáticos da cidade.
O dia tinha sido agitado, o centro comercial fervilhava, as vitrines eram convidativas ao consumo, como um espelho mágico que atraía os passeantes. Naquela tarde não vi o Sol poente esconder-se no horizonte e tão pouco vi a Vênus despontar no céu com o seu vesperal encanto.
Muitos comemoravam o Natal, mas não aquilatavam o verdadeiro valor daquela data. Nunca imaginariam que um dia há muitos anos, sobre os montes silentes, os rebanhos dormiam e os pastores vigiavam.
O sinal foi dado por uma grande estrela que fulgurou na imensidão do espaço sideral. Como um viajor, são os pastores familiares aos astros.
A abóbada celeste como um imenso candelabro é a ampulheta por onde se esvai a poeira das constelações aos olhos dos que atravessam as noites sobre a Terra ou sobre as águas em vigília. Os pastores mapeiam com os seus olhos todos os recantos cintilantes da abóbada celeste. As ovelhas adormecem sob a quietude silenciosa do vale seguras no velar dos não dormitantes que centram os ouvidos aos mínimos ruídos.
Naquela vigília, surge no céu uma grande estrela.
Débeis emoções, indizível sensação de calma e gozo de viver, parecia tornar-se como uma pena seus rudes corpos queimados pelo vento oriental e afeitos as duras fadigas da vida pastoril. Um canto se fez ouvir. Sons melodiosos perpassavam no ar transparente, pareciam teias de sons diáfanos de imponderabilidade mais imponderável do que a brisa mais tênue.
As vozes que promanavam do céu proclamavam: “GLÓRIA A DEUS NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE”.
Estando os pastores ainda perplexos, uma voz ecoou: “tranquilizai-vos. Trago-vos notícias de grande alegria, que será também para todo o povo. Porque na cidade de Davi nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor. Natal é Deus encarnado e habitando entre nós”.
A Ceia de Natal com certeza seria fausta.
Dirigia o meu carro por uma das ruas, enquanto o sino da catedral ainda batia. Foi quando os meus olhos fitaram uma criança sem camisa, descalça, vestida de uma longa bermuda.
Parei no primeiro estacionamento. Passei observar aquela criança que na noite de Natal quando faustas ceias seriam feitas, desde o mais humilde até o mais rico. Mas aquela criança perambulava descalça naquela noite fria. Olhava vitrines, os latões de lixos, talvez querendo mitigar a fome do seu Natal, nos repastos sobejantes caídos da mesa do almoço daquela véspera de Natal.
Continuei acompanhando aquela criança, ninguém lhe dava atenção.
De repente, tirou algo do lixo e comeu. Não sei se foi uma maça podre ou uma fruta de natal sobejada.
Vi por um momento naquela criança a teofania do Filho de Deus naquela noite de Belém, quando os residentes diziam para José: “não há lugar”.
Aquela criança perdeu-se na escuridão da noite. E assim ela se foi.