Rompendo laços com o Pará

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Quando o Presidente dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas decidiu criar mais cinco Territórios Federais, um com a denominação Amapá, o Estado do Pará tinha 53 municípios, figurando no meio deles Macapá, Mazagão e Amapá. A decisão de Getúlio Vargas visou à ocupação e o desenvolvimento de áreas de fronteira, à época muito vulneráveis. No caso do Território Federal do Amapá, a fronteira com a Guiana Francesa contava com a presença da Colônia Militar de Clevelândia do Norte, mas aventava-se a possibilidade de que tropas alemãs pudessem ser enviadas para a colônia da França, país então ocupado por tropas de Adolf Hitler.

O ato presidencial, que tomou o nº 5.812 foi assinado no dia 13/9/1943. Para governar o Amapá, o presidente da República nomeou o então capitão Janary Gentil Nunes, paraense da cidade de Alenquer. Esta nomeação ocorreu no dia 27 /12 /1943 e a posse do governador aconteceu no dia 29, na sede do Ministério as Justiça e Negócios interiores. O titular da administração amapaense se estabeleceu provisoriamente em Belém, a fim de poder tomar as medidas expressamente necessárias para a instalação do governo. Através dos jornais e das emissoras de rádio divulgou notas a respeito da contratação de mão-de-obra qualificada para construção civil, segurança pública, magistério, medicina, enfermagem, motoristas terrestres e navais. Carpinteiros, marceneiros, vigilantes, pessoal burocrático. Como não havia agência bancária em Macapá, a dotação orçamentária para o exercício de 1944, da ordem de dez milhões de cruzeiros foi depositada na Agência Central do Banco do Brasil, na capital paraense.

No dia 25/1/1944, uma terça-feira, ao alvorecer, o avião Douglas DC 3, do Aero Clube do Pará, decolou de Belém com destino a Macapá. Além da tripulação, estavam a bordo o Governador Janary Gentil Nunes, o Advogado Raul Montero Valdez, o Advogado e Político João Guilherme Lameira Bittencourt, Secretário-Geral do Pará. O Interventor Federal do Estado do Pará era o então Coronel Joaquim de Magalhães Cardoso Barata, investido do cargo desde o dia 8/2/1943. Barata era membro destacado do Partido Liberal e “amigo de farda” de Janary Nunes. Seu apoio ao jovem gestor do Território Federal do Amapá foi importantíssimo. No momento em que se deu a instalação do governo, o municípios de Macapá contava com uma população de aproximadamente 9 mil habitantes.Em 1920, o contingente populacional do município de Macapá era de 18.387 pessoas.Nesta época a jurisdição de Macapá se estendia à região das Ilhas do Pará e o canal norte do rio Amazonas não figurava como limite territorial entre ele e vizinho estado.

A cidade de Macapá, carente de assistência médica, sem energia elétrica, esgoto, água encanada, agência bancária, tinha apenas 1.936 almas. O grosso da população vivia na zona rural. A criação do Território Federal do Amapá tirou do Estado do Pará os municípios de Macapá, Mazagão e Amapá. Conseqüentemente, restaram 50 municípios. Na Região Norte havia dois Estados: Pará e Amazonas e o Território Federal do Acre, com população de 1.593.100 pessoas. O censo demográfico de 1940 demonstrou que o crescimento vegetativo da população foi mais expressivo na faixa etária de zero a 29 anos, assim distribuído: 0 a 9 anos igual a 272.933; 10 a 19, em torno de 215.913; de 20 a 29, aproximadamente 171.181 habitantes.Em 1943, a população do Pará era de 1.022.100 habitantes. Viviam 484.100 indivíduos no Amazonas e 86.900 almas no Acre.

A exemplo da maioria dos municípios paraenses, as unidades municipais do Amapá enfrentavam sérios problemas de saúde. Se a coisa era complicada na cidade de Belém, imagine no interior. O índice de alfabetização das pessoas com 18 anos para mais era de 46,6%, correspondente a valor absoluto de 229.831 cidadãos, de um montante de 493.666 pessoas residentes na capital. A taxa de crescimento da população variava de 38,49% a 46,51%. A relação das doenças que mais matavam por ano indicava os seguintes dados: Infecciosas e parasitárias (5.042); câncer e outros tumores (286); aparelho circulatório (1.206); urinárias e aparelho genital, exceto doenças venéreas, gangrenas e puerperais (2.820); respiratórias, não incluindo tuberculose (1.278).


Ambores de asfalto em chamas

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O Contador Pauxy Gentil Nunes, quarto governador do Território Federal do Amapá, iniciou sua gestão administrativa quando ainda era muito presente a lembrança e os efeitos do acidente aéreo, ocorrido no dia 21 de janeiro de 1958, na vila Carmo do Macacoary, que ceifou as vidas do Deputado Federal Coaracy Gentil Monteiro Nunes, Suplente Hildemar Pimentel Maia e do piloto Hamilton Henrique da Silva. Antes dele, o cargo era ocupado pelo médico Amilcar da Silva Pereira, que substituira o Coronel Janary Gentil Nunes, guindado para a Presidência da Petrobrás. No período de 2 de fevereiro de 1956 a 14 de fevereiro de 1958, Pauxy Nunes atuou como Secretário Geral da administração territorial.

O cargo equivalia ao de vice-governador. Com a saída de Amilcar Pereira, para canditar-se ao cargo de Deputado Federal, o Presidente Juscelino Kubitschek efetivou Pauxy Nunes como governador a contar da ultima data supra mencionada, e, na mesma data nomeou o Promotor Público João Telles como Secretário Geral. Entre fevereiro de 1958 a 17 de fevereiro de 1961, o clima político foi tenso, haja vista, que Pauxy Nunes revelou acentuada intempestividade e hostilidade em relação aos adversários políticos filiados ao Partido Trabalhista Brasileiro. João Teles conservou sua “mineirice” e tentou conter o temperamento explosivo do parceiro. Sobejamente conhecido como devotado desportista na região amazônica, principalmente no Pará e no Amapá, Pauxy Nunes ganhou a alcunha de “Caudilho do Norte”. Sua atuação como gestor público não foi das piores. A ele, a cidade de Macapá deve o traçado de ruas e avenidas, graças ao Plano Diretor da Administração Amapaense.

No inicio do ano de 1960, o governo territorial adquiriu um lote de tambores de piche destinado ao asfaltamento das principais vias públicas de Macapá. O capeamento de ruas e avenidas utilizaria o processo alto-selante, que, em 1963, a Indústria e Comércio de Minérios S.A. tinha realizado nas travessas da Vila Amazonas, Vila da Serra do Navio e do Escritório Central. O processo consistia em jogar o piche sobre a terra, cobrindo-o com areia. Isso exigia um bom tempo para o piche absorvesse a areia e a mistura secasse. O período invernoso não era propicio para um trabalho dessa natureza, por isso, os tambores foram colocados atrás da Fortaleza de São José, próximo ao baluarte de Nossa Senhora da Conceição.

O tempo passou, o mato cresceu em volta dos tambores e a estiagem presente a partir de setembro provocou o vazamento do material de fácil combustão. Na noite de 24 de setembro de 1960, um incêndio de graves proporções irrompeu no local. A sirena da Usina de Força e Luz, situada na Av. General Gurjão foi ligada e o povo ganhou as ruas. O fogo, certamente ateado no capinzal por algum sujeito de má índole atingiu o piche derramado no solo e se expandiu.

Os tambores fechados eram arremessados ao ar com sucessivas explosões. A situação só começou a ser controlada, quando o Corpo de Voluntários de Defesa de Incêndios, conhecido como CVDCI, pertencente à ICOMI chegou ao local do sinistro. A unidade de Santana utilizou um caminhão-bomba com capacidade para quatro mil litros d’água, extintores de carga especial e outros dispositivos inexistentes em Macapá. Os bombeiros voluntários da ICOMI integravam duas unidades, em Santana e Serra do Navio, cada uma delas com 42 homens, todos funcionários da empresa mineradora. Bem treinados e agindo com muita cautela, não demoraram a eliminar o fogo. Mereceu reconhecimento especial da ICOMI o funcionário Hilkias Alves de Araújo, chapa 5499, que, usando roupa adequada subiu nos tambores ainda livres das chamas, para despejar água no interior deles. Sem os vedadores das tampas, e, conseqüentemente, sem gás represado, o piche não iria explodir. Em maior número, os demais membros da CVDCI faziam jorrar muita água sobre os tambores incandecentes.

A cidade de Macapá, que passou maus momentos com pavorosos incêndios, em 1960 ainda não tinha um grupamento de bombeiros regulamentado e aparelhado. Com muita limitação, a Guarda Territorial se virava para apagá-los.


Relatórios de governadores

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Apartir do ano de 1944, os governadores do território federal do Amapá tinham que elaborar minucioso relatório de suas atividades e encaminhá-los ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Posteriormente foi criado o Ministério do Interior, que passou a coordenar e supervisionar as unidades criadas em áreas de segurança nacional. Sem ter uma situação jurídico-administrativa claramente definida, os territórios federais figuravam como apêndices do poder central brasileiro.

Os governadores eram nomeados pelo presidente da República, cabendo-lhes a nomeação e designação de gestores para cargos e funções publicas, inclusive de prefeitos. No período em que os territórios estiveram subordinados ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores, o rigor concernente às prestações de contas era rígido, notadamente porque o país passava por mudanças radicais depois de ficar mais de 15 anos sob a ditadura Vargas. Com a retomada democrática e o funcionamento do Congresso Nacional e das assembleias legislativas, velhos e perniciosos vícios políticos, como tráfego de influência ressurgiram. No Amapá, ao final de cada exercício gestacional, o relatório de governo, que simplesmente poderia ser enviado para o Rio de Janeiro através do Correio Aéreo Nacional, motivava a ida de vários servidores do então Serviço de Administração Geral-SAG. No fundo, isso representava um prêmio aos seus elaboradores e titulares da área meio da administração territorial. Documentos preciosos foram gerados e bem poderiam estar conservados em lugares apropriados. Infelizmente a papelada pública, por falta de um arquivo público se perdeu ou foi criminosamente cremada. Se alguém quiser ter acesso aos primeiros relatórios do governador Janary Gentil Nunes, talvez os encontre no Arquivo Público Nacional. Certamente verá citações marcantes, como essa referente a concordância do presidente Getúlio Dorneles com a doação de 10 lotes de terra do Patrimônio Municipal de Macapá ao Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado-IPASE, para que o referido instituto construísse 10 casas residenciais e as vendesse a servidores públicos.A área doada ao IPASE corresponde aos lotes situados à esquerda da Avenida Iracema Carvão Nunes, entre as Ruas José Serafim Gomes Coelho(atual Tiradentes) e General Rondon. A decisão de Getúlio Vargas foi publicada no Diário Oficial da União, que circulou no dia 11.4.1953. Observe, que nem o prefeito de Macapá e nem o governador tinham competência para doar terras integrantes do Território Federal do Amapá,algo que ainda prontifica. Somente na gestão do governador Ivanhoé Gonçalves Martins, iniciada em 20.4.1967, esta situação foi evidenciada de forma clara.

O relatório do citado ano evidencia o conteúdo do item 3.1.3 – Filosofia Administrativa do Governo o seguinte texto: “Nos primeiros momentos de nossa gestão, entendemos por bem definir a filosofia do Governo. Assim estabelecemos as relações dos órgãos da administração entre si e com o Governador. Esta filosofia está sintetizada no seguinte: O Decreto-lei nº 7.773, de 23.7.1945, não define as atribuições do Serviço de Administração Geral em relação às municipalidades. No entanto, faz parte do seu organograma uma Seção de Municipalidade, com unções de assessoria e fiscalização, donde decorre a necessidade de orientação técnica e auditagem nas prestações de contas, a serem feitas, como é óbvio, pela Seção de Contabilidade”.

O general Luiz Mendes da Silva, que governou o Amapá no período de 15.5.1964 a 19.4.1967, relatou que a educação possuía 209 escolas primárias e 10 ginásios, atendendo uma clientela de 25 mil alunos no primário e 5 mil no secundário.Cerca de 1420 universitários estudavam em diversos estados. No tocante à saúde, frisou que havia um número reduzido de médicos, dentistas e enfermeiras, porque os vencimentos dos mesmos não eram atrativos. Denunciou o contrabando que andava solto nas costas do Amapá. O gado saía do Território com destino a Caiene. O café, embarcado clandestinamente em Belém seguia a mesma rota. A carne de gado custava, em Caiene, o dobro ou o triplo do preço praticado no Amapá.


Um Natal marcado pela tristeza

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a noite do dia 24 de dezembro de 1944 começava a dominar a pequena Macapá, quando o Posto Telegráfico recebeu uma mensagem passada de Vargem Grande, dando conta de que o padre Júlio Maria Lombaerd havia falecido em circunstâncias trágicas. Imediatamente, com a comunicação impressa em telegrama, o estafeta foi à Casa Paroquial entregá-lo aos padres Phelipe Blanke e Antônio Schulte, religiosos que, a exemplo do padre Júlio, integravam a Congregação da Sagrada Família, estabelecida em Macapá desde o ano de 1911.

Os sinos do campanário da Igreja São José passaram a executar o toque fúnebre de maneira intermitente, atraindo a população para frente do templo. Procurando conter a emoção, o padre Felipe Blanke, vigário da Paróquia de Macapá, repassou a todos a notícia que havia recebido. Há 22 anos o padre Júlio tinha deixado Macapá, fugindo da malária que o fustigava. Depois de atuar algum tempo na Vila Pinheiro (Icoaraci), no Pará, foi fixar-se em Manhumirim, no estado de Minas Gerais. A população ainda tinha viva na memória a figura do padre Júlio, um homem decidido que tantos benefícios trouxe para a então abandonada cidade paraense de Macapá e tinha por ela uma grande amizade. Júlio Emilio Lombaerd nasceu na Bélgica, no dia 7 de janeiro de 1878. Aos 17 anos, a 1º de novembro de 1895, em Maison Carré, África, recebeu o hábito sacerdotal. Sua consagração ocorreu a 18 de abril de 1897, aos 19 anos de idade. A recepção diaconal verificou-se a 6 de outubro e a ordenação sacerdotal a 13 de junho de 1908. Em setembro deste ano despediu-se dos familiares e embarcou para o Brasil, com destino a pobre e diminuta cidade paraense de Macapá. No dia 15 de outubro de 1908, o navio que transportava o Padre Júlio chegou a Pernambuco. Ele passaria quase 5 anos trabalhando em Recife, Natal e Belém.Chegou a Macapá no dia 27 de fevereiro de 1913, sendo recebido na Doca da Fortaleza pelos sacramentinos José Lauth (vigário de Macapá desde 1911) e Hermano Elsing, vigário de Mazagão, dois velhos amigos dos tempos de seminário. Em pouco período de tempo percorreu toda a região do atual Estado do Amapá e quase morreu ao ser picado por uma mosca peçonhenta na serra do Tumuc-Humac. A 2 de maio de 1913, foi nomeado pelo governador do Estado do Pará, Enéas Martins, para o cargo de Diretor das Escolas Reunidas de Macapá, fato que fez melhor consideravelmente o desempenho das mesmas, Padre Julio era empreendedor nato e fundou várias instituições benfazejas em Macapá: Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria, Colégio e Orfanato Santa Maria, Cine Olímpia, Filarmônica São José e a Farmácia Comunitária. Na Ilha de Santana instalou a casa destinada ao retiro dos religiosos da Congregação da Sagrada Família. Sob a gestão dos padres italianos do Pontifício Instituto das Missões Estrangeira esta propriedade funcionou como pensionato e seminário. No atual bairro Buritizal o saudoso sacerdote belga criou a Fazenda Santa Maria, em cujas terras se fez a instalação do atual Cemitério São José.

Na fazenda ficavam os animais que os criadores de Macapá doavam ao santo padroeiro da cidade, que ali permaneciam até o dia do leilão a 19 de março. Antes da chegada dos padres sacramentinos, era o Padre François Rellier, francês com atividades na Guiana Francesa que prestava assistência espiritual aos macapaenses. O povo quase não ia à igreja e uma considerável parcela dele se devotava ao espiritismo africano e usava santos para angariar dinheiro em proveito próprio. O Padre Júlio reduziu drasticamente esta prática e por isto ganhou a antipatia dos espertalhões.

A comunidade negra deve a ele a organização da festa das coroas que ainda hoje simbolizam o Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade nas duas quadras do Marabaixo. Porém, em 1923, o Padre Júlio precisou deixar Macapá para livrar-se da malária. Levou consigo as religiosas da Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria e todo o acervo das instituições que criara. Fixou suas atividades na então Vila Pinheiro (Icoaraci), no Estado do Pará, onde as freiras residiram até transferirem suas ações para Caucaia, no Ceará, onde ainda existe a Congregação. Padre Júlio não tardou a arribar com passagem por Alecrim, no Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro. Em busca de um clima mais ameno o ilustre vigário escolheu Manhumirim para reiniciar sua brilhante trajetória religiosa. Construiu o Hospital São Vicente de Paulo, o Seminário Apostólico, o Jornal “O Lutador” e outros empreendimentos. Em Dores de Indaiá, cidade mineira erigiu o Seminário São Rafael. Em 1931, no período da Ditadura Vargas, Padre Júlio foi acusado de ser integralista nazista e rebelde às autoridades brasileiras. Respondeu com muito altruísmo ao processo que lhe foi movido, sendo declarado inocente a 31 de outubro de 1931. Somente depois da decisão judicial ele recebeu o titulo de cidadão brasileiro e passou a usar o nome Júlio Maria de Lombarde. Nos dias atuais, a Fundação Padre Júlio atua em diversas partes do Brasil.


O 1º Natal no Território do Amapá

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Criado a 13 de setembro de 1943, o Território Federal do Amapá só foi instalado no dia 25 de janeiro de 1944, tendo a cidade Macapá como capital, muito embora o ato governamental que criou a nova unidade federada determinasse que a sede fosse a cidade de Amapá. A nomeação do primeiro governador, capitão Janary Gentil Nunes Janary Gentil Nunes tinha ocorrido dia 27 de dezembro de 1943, e sua posse no dia 29, no Ministério da Justiça e Negócios Interiores, órgão ao qual os territórios estavam subordinados.

O Natal de 1943, repleto de esperanças por um novo porvir foi comemorado com muita singeleza pelo humilde povo que residia na área desmembrada do Estado do Pará. Nos anos de 1944, 1945 e 1946, o governo territorial adotou algumas programações festivas que contaram com a efetiva participação da população. Algumas lojas já dispunham de artigos natalinos e de presentes, bem diferentes do que habitualmente vinha ocorrendo na pequena “Estância das Bacabas”. Os brinquedos industriais então disponíveis eram caros, fato que contribuía para a encomenda de brinquedos artesanais bem fabricados por alguns marceneiros locais. Em 1947, como parte das festividades do Natal, o governo territorial programou para o dia 24 de dezembro significativos eventos. Um deles foi levado a efeito às 20 horas, no bairro do Hospital, assim chamada a área onde surgiu o Hospital Geral de Macapá e que hoje integra o bairro central. Em um barracão preparado pelos operários do Hospital Geral de Macapá, que se encontrava em construção, a comunidade negra, que havia sido remanejada do Largo de São João (Praça Barão do Rio Branco), para terrenos mais elevados, motivando o uso da palavra Favela, dançou alegremente o Marabaixo tomando a Mucura, a gengibirra e o mungunzá (mingau de milho). O outro festejo se deu na sede social do Trem Esporte Clube Beneficente, agremiação que tinha sido fundada em 1º de janeiro de 1947, e de imediato passou a ser a grande referência da alegria no bairro proletário de Macapá. Sob a coordenação da senhora Doninha Banhos de Araújo ocorreu a apresentação do auto de Natal intitulado “As Pastorinhas”, que fez muito sucesso.

No centro da cidade, na então Passagem Francisco Caldeira Castelo Branco, atual Rua Tiradentes, aconteceu uma concorrida festa dançante na casa do senhor Sebastião Canuto da Costa, cidadão amante dos folguedos e bastante estimado no seio da comunidade macapaense. A parte festiva foi encerrada por volta das 23h30min horas, a fim de que os partícipes dos eventos pudessem assistir a “Missa do Galo”, que foi realizada na Igreja de São José, na época, o único templo católico existente em Macapá. A Paróquia de São José era dirigida pelos padres Felipe Blanck e Antônio Schultz, que integravam a Congregação da Sagrada Família. Em 1948, estando os padres do Instituto Pontifício das Missões Estrangeiras conduzindo os destinos do catolicismo no Amapá, a programação se estendeu ao município de Oiapoque, com a inauguração das reformas da velha capela local. A solenidade foi conduzida pelo prefeito Amilcar da Silva Pereira e pelos padres Vitório Galliani e Carlos Bassanini. Havia tanta gente, que a missa acabou sendo rezada na praça. Em Macapá, antes da santa missa foram entregues as fitas de aspirantes a treze candidatos à Congregação Mariana e descoberto o 1º presépio aramado na cidade.

O material usado na montagem do presépio veio da Itália e foi montado à direita da entrada do nosso mais antigo prédio, cuja inauguração ocorreu no dia 6 de março de 1761. A Santa Missa do Natal foi celebrada pelo Padre Aristides Piróvano, o Administrador Apostólico do Amapá e concelebrada pelos demais sacerdotes. Um coral bem ensaiado cantou músicas natalinas tradicionais, ao som do “harmonium” (acordeom) do Padre Vitório Galiane. Na manhã do dia 25 de dezembro, as crianças mais abastadas apresentavam seus belos brinquedos, que os pais egressos de Belém tinham comprado na capital paraense. Os menos aquinhoados exibiam carros de madeira feitos por marceneiros e carpinteiros locais e bonecas de pano concebidas por familiares. As crianças pobres inventavam seus próprios brinquedos, como revolveres de madeira e animais representados por mangas verdes de diversos tamanhos.


Amazônia e os efeitos da 2ª Guerra Mundial – Parte I

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O primeiro ciclo da borracha no Brasil teve inicio em 1879 e se estendeu até 1912. Foram 33 anos de muita riqueza e progresso. Apenas na segunda metade do século XIX, a goma elástica entraria com vigor na economia amazônica, se bem que, já em 1827, trinta toneladas tivessem sido produzidas, rendendo a quantia de nove contos de réis. Em 1905, a borracha representava o segundo lugar entre os produtos de exportação do Brasil logo abaixo do café. Em 1910, a goma elástica chegou a figurar com 40% do valor da exportação nacional.

Como a produção não repousava sobre uma estrutura econômica adequada, toda a riqueza sumiu repentinamente, suplantada pela produção dos plantadores de seringueiras do Oriente. O segundo ciclo foi bem mais curto, correspondendo ao período de 1941 a 1945. Em maio de 1941, o Presidente dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas firmou um acordo com os Estados Unidos da América do Norte, denominado “Acordo de Washington” para elevar a produção da borracha brasileira. A carência do produto no mercado internacional foi motivada pela ocupação dos seringais plantados pelos ingleses, na Malásia, por tropas japonesas, um dos países do Eixo. Desde 1939, a segunda guerra mundial estava em vigor. Os seringais brasileiros estavam abandonados.Cerca de 35 mil trabalhadores, que migraram para a Amazônia em épocas mais recuadas viviam entregues à própria sorte. Nos termos do Acordo de Washington, o Brasil deveria elevar sua produção, de 18 mil para 45 mil toneladas. A meta era mobilizar 100 mil seringueiros. Com a entrada dos Estados Unidos no grande conflito, as providências necessárias à concretização do acordo precisaram ser aceleradas. Em 1942 começou o alistamento compulsório dos retirantes da seca, feito pelo Serviço de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia-SEMTA, sediada no Nordeste, em Fortaleza. Além da SEMTA também foram criadas a Superintendência para o Abastecimento do Vale da Amazônia-SAVA, o Serviço Especial de Saúde Pública, o Serviço de Navegação da Amazônia e Administração dos Portos do Pará e o Banco de Crédito da Borracha. “A constituição do Banco foi autorizada pelo governo federal através do Decreto-lei nº 4.451, de 9 de julho de 1942,mas somente em fevereiro do ano seguinte entrou em funcionamento efetivo. A necessidade de um autêntico instituto de crédito se fazia tão premente, que o capital inicial de 50 milhões de cruzeiros teve de ser triplicado, em menos de um ano e meio Desde que intensificada a indústria extrativa de borracha, a região amazônica passou a depender do Banco de Crédito de maneira completa. Em quatro anos, a entidade passou a ser encarada Omo a espinha dorsal de sua economia. Por essa razão, encerrada a guerra, eliminada a necessidade do produto que determinara sua abertura, mesmo assim o Banco da Borracha não pôde fechar as portas,como seria natural.Os característicos do organismo de emergência nem por isso deixaram de influir na marcha do instituto e eis que, retirados os diretores norte-americanos, entrou em colapso,abalando o organismo econômico do vale, A essa altura, o Banco do Brasil que, praticamente, deixara de operar na região norte,foi convocado a acudir o estabelecimento em crise”.

O recrutamento voluntário de trabalhadores nordestinos deveria ter incorporado 65 mil “Soldados da Borracha” ao contingente de 35 mil já estabelecidos na Amazônia, mas não foi além de 55 mil. O Brasil fornecia a borracha e recebia investimentos financeiros para montar uma grande infraestrutura industrial. Toda a produção seguia em potentes aviões norte-americanos para os Estados Unidos, fugindo ao risco de torpedeamento caso o transporte fosse marítimo.

Aliás, os torpedeamentos realizados por submarinos alemães a navios mercantes, no trecho Brasil-Estados Unidos, impediram a importação de produtos alimentícios e farmacêuticos necessários aos moradores de Belém, Manaus e outros centros populacionais da Região Norte, despertaram a ganância por lucros fáceis em muitos comerciantes. Nas duas maiores cidades nortista, os comerciantes tiveram de ser contidos em suas ânsias de conseguir lucros altos aumentando os preços de remédios e alimentos. Também por retirarem os mesmos das prateleiras.


A Pedra do Guindaste – Final

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Em setembro de 1931, estando exercendo suas atividades na Promotoria Pública do Pará, o Dr. Otávio Meira foi designado para vistoriar todos os cartórios, juizados e prefeituras de Belém até Mazaganópolis, sede do município de Mazagão. Os municípios de Macapá e Mazaganópolis estavam sob jurisdição do Estado do Pará. É bem pitoresca sua narrativa sobre desembarque e embarque de cargas e passageiros em Macapá, pois ainda não havia sido construído o trapiche da cidade. Segundo o Dr. Otávio Meira, na maré alta, os barcos com menor calado podiam entrar no Igarapé do Igapó ou Bacaba, mas o mesmo não acontecia com os navios, que fundeavam e ficavam ao sabor das ondas. Tornava-se mais prático aguardar a maré baixa, que deixava inteiramente à mostra a Pedra do Guindaste. Em algumas oportunidades, quando a maré estava alta e as águas calmas, usava-se uma embarcação tipo barcaça para receber as cargas dos navios. Neste caso, elas permaneciam fundeadas próximo à pedra, sobre a qual, uma engenhoca tipo bate-estacas, equipada com moitão/roldana e corda fazia o papel de um guindaste, daí o nome atribuído à formação rochosa. Para vencer o estirão da praia era usado um carro puxado por dois bois. Foi graças aos termos do seu relatório, que o Interventor Federal Magalhães Barata liberou verbas para a construção do primeiro trapiche de Macapá.

O Intendente Municipal era o Major Eliezer Levy e a obra teve inicio em 1932. Teve inicio em 1969, as entabulações para a concepção de uma imagem de São José, padroeiro de Macapá e seu assentamento na Pedra do Guindaste. Sem alardes, as partes interessadas, envolvendo Dom José Maritano, Bispo Prelado de Macapá e o Governador do Amapá, General Ivanhoé Gonçalves Martins, tomaram todas as providências cabíveis. Ninguém contestou o fato de a imagem não carregar o Menino Jesus nos braços e ficar de frente para o rio mais caudaloso do globo terrestre. Devidamente iluminado, a imagem de São José não recebeu a missão de proteger a cidade. Como um importante símbolo do catolicismo ali ficou incólume. Porém, na noite de 23 de setembro de 1973, o navio Domingos Assmar, que fazia linha fluvial entre Macapá/Belém/Macapá foi arremessado contra a pedra, quebrando-a e lançando nas águas agitadas do Amazonas a apreciável escultura do santo padroeira da cidade.

O cidadão Antônio Assmar, proprietário da embarcação assumiu os ônus pelo restauro da imagem e a construção de uma pilastra de concreto, para substituir a Pedra do Guindaste. Novamente entrou em ação o luso-brasileiro Antônio Pereira da Costa, recuperando sua obra de arte. Para erigir a pilastra foi contratada a firma Platon Engenharia e Comércio, então capitaneada por Clarck Charles Platon. Tudo voltou a ficar como antigamente, até o momento em que, apareceram os difusores de uma nova idéia, imediatamente refugada pela comunidade macapaense que preza suas tradições. Pretendiam os arautos do turismo trocar a atual imagem por outra bem maior. Também seria removida a pilastra pioneira por outra de maior diâmetro, da qual partiria uma passarela ligando-a ao trapiche Eliezer Levy.

A nova imagem deveria conter o Menino Jesus nos braços e ficar de frente para a cidade. Estas propostas não foram o ponto que fez despertar o descontentamento popular. Inaceitável foi ignorar o valor histórico da obra concebida pelo escultor e arquiteto Antônio Pereira da Costa, apenas porque ela não tem tamanho exorbitante. Outro erra cometido pelos idealistas malfadados foi dizer que a imagem atual iria ser colocada na frente da Fortaleza de São José. Ora, a frente do monumento bélico corresponde a sua área de proteção patrimonial, onde a escultura seria um “corpo estranho, que não faz parte do projeto de autoria de Henrique Galúcio. Felizmente, as novidades não encontraram guarida no sei da comunidade macapaense. Até praticantes de outros credos não as aprovaram. Ocorre, que a imagem de “São José da Beira Rio” precisa ser protegida e colocada longe de gente fantasiosa. Um pedido formal de tombamento da imagem será dirigido ao IPHAN.


A Pedra do Guindaste – 1ª parte

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Até o ano de 1723, embora já estivesse em vigor o Tratado de Utrecht, firmado entre Portugal e França a 11 de abril de 1713, que determinava ser luso-brasileira a região da Costa do Cabo do Norte, pretendida pelos francos, estes teimavam em realizar incursões pelo Rio Amazonas valendo-se da amizade estabelecida com os índios Aruan, Tucujú e Aroaqui, que constituíam os três grupos mais perigosos e hostis aos portugueses. No dia 14 de fevereiro do ano supra mencionado, os frades das ordens de Santo Antônio e da Conceição da Beira e Minho, foram encarregados de tentar, mais uma vez, a pacificação dos irredutíveis Aruan. Foi um passo importante obtido pelos freis João e Bernardino, ambos franciscanos de Santo Antônio, os quais lograram assentar vários povoados nas terras da boca norte do Amazonas e na Ilha do Marajó. Uma série de outras medidas foram tomadas pelos portugueses, mas os franceses insistiram em querer fixar posições na Amazônia Oriental. Portugal erguera o Forte de Santo Antônio sobre as ruínas do Forte de Cumaú tomado dos ingleses, mas o tempo e a falta regular de manutenção aceleraram sua deterioração levando-o à ruína.

No dia 5 de outubro de 1738, o capitão-general João de Abreu Castelo Branco visitou o Forte de Santo Antônio e comprovou a sua fragilidade. Através de carta endereçada ao Rei D. João V, recomendou a construção de outra fortificação em lugar mais próximo da foz do Amazonas e em área mais ampla. Ainda em 1738, um forte de faxina foi montado enquanto as providências relativas ao levantamento de uma casa forte fosse tomadas, o que não aconteceu por falta de recursos. Pequenos quartéis foram feitos e ocupados por um destacamento comandado por um capitão.

Entre 1738 e 1749, ficou bem evidente a necessidade de ser erguida uma grande fortaleza, haja vista que, o reduto artilhado com apenas duas peças de artilharia já demonstrava sérios desgastes. Os quartéis levantados em 1738 ocuparam espaços no platô de terra firme onde surgiu o povoado de São José de Macapá, na primeira quinzena de 1751, e mais tarde a portentosa Fortaleza de São José, entre 1764 a 1782. O aspecto do litoral onde foi implantado o povoado de Macapá era bem singelo, chamando a atenção dos navegadores e colonizadores uma formação rochosa assentada na margem esquerda do Rio Amazonas, Nada de sobrenatural havia sobre sua existência. Era simplesmente uma pedra, com a mesma matéria encontrada nas falésias do platô da fortaleza. Ela ornou a praia de Macapá até setembro de 1973. Desde 1970 existiu sobre ela uma imagem de São José, esposa de Maria e pai putativo de Jesus Cristo.

A importante escultura foi feita pelo luso-brasileiro Antônio Pereira da Costa, natural da Freguesia de Valadares, Conselho Vila Nova de Gaia, Distrito do Porto, em Portugal. Na comunidade de Valadares as atividades principais concentravam-se na agricultura e na produção de cerâmicas. Antônio Pereira da Costa e seu pai eram ceramistas e escultores de inegáveis méritos, com importantes obras realizadas no Rio de Janeiro, em São Luiz do Maranhão, Belém do Pará e em Macapá.

Na então capital do ex-Território Federal do Amapá, Seu Antônio Costa instalou sua oficina de trabalho no quintal da Augusta e Respeitável Loja Maçônica Duque de Caxias tendo recebido especial autorização de seus irmãos, que sempre o distinguiram como um invulgar “obreiro da paz”. Muitas das suas obras ainda são vistas e admiradas nas cidades de Macapá e Amapá: Grupo Escolar Barão do Rio Branco, Hospital Geral de Macapá, Maternidade Mãe Luzia, Fórum de Macapá, que hoje abriga a Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil, os Leões assentados na frente do citado prédio, a Estátua de Francisco Xavier da Veiga Cabral, em Amapá, o Busto de Tiradentes, o busto do Deputado Federal Coaracy Nunes, na Praça do Aeroporto Internacional Alberto Alcolumbre, o Tempo da Loja Duque de Caxias e a Imagem de São José que ainda permanece sobre um pilar de concreto ereto sobre as pedras menores da antiga formação rochosa derrubada pelo navio Antônio Assmar, em setembro de 1973. Outro leão esculpido pelo Senhor Antônio Pereira da Costa foi encomendado pelo comerciante Hermano Jucá Araújo, meu tio paterno e torcedor apaixonado do Clube do Remo. Pintada de azul, a escultura foi mandada para Belém e instalada no Estádio Evandro Almeida.


A Trans-Amapá

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No dia 19/3//945, a circular pela 1º vez, o jornal “Amapá”, órgão informativo do Governo do Território Federal do Amapá divulgou seguinte notícia: “Uma das preocupações do Governo do Território é estabelecer comunicações terrestres, dando assim oportunidade ao desenvolvimento de núcleos de população e produção ao longo de eixos rodoviários. Na Amazônia, a norma comum é a projeção ripícola, à margem dos rios navegáveis. As estradas fluviais, dando ensejo ao transporte e ás comunicações, atraem naturalmente o homem e o seu trabalho. Todavia são necessárias as ligações transversais, por terra, em auto-estradas ou ferrovias, por inúmeros motivos, que seria ocioso discriminar. Dai o interesse do Governador Janary Nunes em realizar a Trans-Amapá, cujo traçado inicial foi feito pelo General Rondon, de Macapá à Clevelândia, ligando os vales dos rios Amazonas e Oiapoque, através do Araguary.

Estudos estão sendo realizados neste sentido, sobre o caminho Macapá-Porto Grande, no Araguari, onde trafegam caminhões em “trilhos” primitivos. Foi feito o levantamento do traçado até Porto Grande, numa extensão de 113 km e o trecho que vai de Porto Grande à colônia Ferreira Gomes. No verão, trafegando por trilhas feitas pelo campo, um caminhão gastava 6 horas para chegar a Porto Grande”. No inverno, devido aos imensos atoleiros, apenas os veículos mais robustos e com tração nas quatro rodas eram utilizados. Em janeiro de 1944, marco da efetiva existência do Território Federal do Amapá, a rodovia Macapá-Clevelândia não ia além de 25 km. Tinha inicio no quilômetro zero e terminava na entrada da vicinal que se destinava a região do rio Pedreira. Nos dias atuais, o quilômetro zero ficaria no cruzamento da Avenida FAB com a Rua Eliezer Levy. Não era qualquer motorista que se atrevia a cobrir a distância entre Macapá e Porto Grande na época das chuvas. O condutor tinha que ser bem experiente e jamais realizaria tal proeza sem contar com a ajuda de acompanhantes. A partir do km 25, os caminhões seguiram uma trilha carroçável e cheia de volteios. Quando as máquinas pesadas entraram em operação, a terraplanagem não corrigiu o traçado original.

Houve quem defendeu a realização de estudos para a abertura de um novo traçado, reduzindo em mais de 30 km o trecho atualmente utilizado. O traçado da Trans-Amapá tinha inicio ao lado do aeroporto da Panair do Brasil e correspondia à via atualmente rotulada como Av. FAB. A partir do km 0, canto onde está o terreno do E.C.Macapá, o trecho serpenteava até a atual Jovino Dinoá. A partir daí, em diagonal, avançava para o ponto hoje marcado pela esquina da Rua Leopoldo Machado com a Machado de Assis. Vinha a seguir um estirão no sentido da via hoje chamada Padre Júlio Maria de Lombaerd. Convergindo à direita, o condutor tomava o rumo do km 9, de onde parte o ramal que se estende ao posto da Policia Rodoviária. Neste ponto, guinando para a direita, um singelo traçado feito pelas rodas dos caminhões iria originar o ramal do Curiaú. Até recentemente, carroças e caminhões não passavam sobre o igarapé Jandiá e do lago do Pacoval. Para chegar a Macapá, os agricultores do Curiaú usaram um atalho rasgado na área onde, em 1958, o Governador Pauxy Nunes construiu a pista do Aeroporto Internacional de Macapá. O caminho carroçável circundava a pista de vôo e enveredava por área de campo até atingir o trecho mais estremo da Avenida FAB. A Av. Rua Hildemar Maia favorecia a ligação entre a Av. FAB e o aeroporto.

O perímetro entre a Leopoldo Machado e o Km 9 foi o 1º a ser asfaltado, na gestão do governador Ivanhoé Gonçalves Martins. A construção do pontilhão do Igarapé Jandiá permitiu que os veículos passassem a circular na zona norte de Macapá. À conta da expansão surgiu a Rua Adilson José Pinto Pereira e posteriormente a Tancredo Neves.  A rodovia Macapá-Clevelândia, traçada pelo então General Cândido Mariano Rondon, em 1929, que em 1944, só possuía 25 km aterrados, ainda não está em plenas condições de uso. Grande parte do trecho recebeu asfaltamento e algumas pontes de concreto. Entretanto, outras pontes de madeira precisam ser substituídas e o traçado definitivo da rodovia teima em não sair.


Confidências ao Mucuim

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No decorrer da irradiação do Programa “À Hora dos Tucujú”, que eu e a Cristina Homobono apresentávamos através da Rádio Difusora de Macapá, um ouvinte residente no Buritizal ligou para saber notícias do Historiador Estácio Vidal Picanço, visto que, a maioria dos radialistas não citava seu nome. Informei-lhe que o Estácio enfrentava sérios problemas de saúde, contando com a abnegação de seus familiares para superá-los. O ouvinte tinha sido aluno do Estácio e torcia pelo Amapá Clube, agremiação onde o brilhante Historiador atuou como goleiro, usando o apelido de Mucuim. De volta á minha casa encontrei uma carta do Estácio, escrita à máquina, lamentando estar doente e praticamente esquecido. Decidi escrever algumas linhas ao ditoso professor, com o título de Confidências ao Mucuim:

“Meu caro Estácio Vidal. Convivendo com você no rádio, na educação, no jornalismo e nas lides esportivas, sou testemunha da tua luta para assegurar que a bela história do Amapá seja difundida e valorizada. Você mesmo fez isso com invulgar propriedade. Se hoje comemoramos a data da elevação do povoado de Macapá à categoria de vila, dia 4 de fevereiro, é porque suas cobranças ganharam adesão do Conselho Territorial de Cultura e ecoaram no Plenário da Câmara Municipal de Macapá, forçando a aprovação de uma lei determinando que assim fosse. Apenas nos dois tornamos evidentes nos meios de comunicação os clamores dos antepassados. Você divulgou os principais fatos da História do Amapá através de jornais. Eu continuo a fazê-lo pelas ondas do rádio e, devido a tua impossibilidade de atuar na imprensa escrita, tenho publicado alguns artigos. Mesmo escrevendo sobre fatos históricos, tenho angariado a antipatia de alguns neófitos jornalistas. Não sei o motivo dos achincalhes. Suponho que estou incomodando a alta estima dos parvos e dos sedentos por reconhecimento e consideração. Entretanto, nossos ex-alunos e os atuais estudantes, notadamente os universitários, nos prestigiam e nos valorizam. Insistem comigo em obter informações nos meus arquivos e tomar por empréstimo livros e fotografias. Agem exatamente como outros estudantes e professores fizeram no tempo em que o nobre amigo estava são e podia atendê-los. É curioso este fato.

Os estudantes deveriam pesquisar nas bibliotecas das escolas onde estão matriculados ou na Biblioteca Estadual Elcy Rodrigues Lacerda. Ocorre, que elas não têm acervo histórico da forma como nos e outros pesquisadores possuímos. Acervo conseguido a custa de muito esforço, perseverança e dispêndio de recursos próprios. Fizemos isso para suprir as nossas próprias carências de informação, pois, na condição de professores de História, nosso dever era repassar conhecimentos aos alunos. Não foram poucos os pedidos, que os lentes de História, nosso contemporâneos fizeram aos governadores, no sentido de ser constituído um grupo de pesquisa no seio na Divisão de Difusão Cultural/Secretaria de Educação e Cultura. O propósito era o de formar um banco de dados históricos, para uso público. Os invejosos, que sempre procuram ridicularizar medidas dessa natureza, disseram que a reivindicação não tinha sentido. Hoje, outros indivíduos prepotentes e despeitados ressoam os ditos do passado. Sem poder recorrer a uma fonte oficial, os estudantes desenvolvem pesquisas junto a pessoas inventivas, contribuindo para a deturpação dos fatos reais. A transmissão oral da “estória” não tem o valor incontestável da História.

Também existem os que não pesquisam e se valem dos escritos alheios para querer demonstrar conhecimento. Dá-se, a isso, o nome de saber de experiência feita. Camões dizia: “Não se aprende, senhor, na fantasia, sonhando ou estudando,mas vendo,tratando e planejando”. Nosso saudoso amigo Hélio Penafort costumava dizer que: “quando o caboclo não sabe alguma coisa, faz valer a imaginação”. A História não permite fantasias. O estudo da História tem que ser realizado com os olhos da História e não relacionado a conceitos atuais. A cultura é a ação consciente do homem para transformar a natureza em seu proveito. “Só os presunçosos não sabem”. Não se avexe, porque você nunca será esquecido.