São José, patrono universal da igreja

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José, filho de Jacó e neto de Matam, nasceu em Belém da Judéia, no século I antes de Cristo. Pertencia à tribo de Judá e descendia do rei Davi de Israel. Era viúvo quando desposou Maria. Sua idade girava em torno de 54 anos, enquanto Maria ainda vivia sua adolescência. José gerou duas filhas e quatro filhos com sua primeira esposa e com essa prole foi viver com a jovem eleita para ser a mãe de Jesus Cristo. Os filhos homens de José eram: Tiago, José, Simão e Judá.

Eles conviveram intensamente com Jesus até constituírem suas famílias e o Divino Mestre iniciou suas pregações. Nenhum deles foi apóstolo. Maria passou sua infância no Templo de Jerusalém, sendo uma das jovens consagradas a Deus. Ela e as demais virgens foram preparadas para ser esposas dedicadas, tementes a Deus. Todas sabiam que uma delas poderia ser a escolhida para, por obra e graça do Espírito Santo gerar o Filho de Deus. Seguindo o costume hebraico, os casamentos eram previamente acertados entre os membros das tribos que compunham as tribos de Israel. José e Maria eram integrantes da tribo de Davi. Como José já estava viúvo quando Maria alcançou a idade de casar, o carpinteiro lhe foi dado como esposo. Conta-se que Maria não quis deixar o templo ao atingir a idade de casar. Os anciãos do Tempo oraram por instruções divinas e uma voz disse que o marido de Maria sairia dentre os homens solteiros que fossem ao Templo e ali deixassem seus cajados durante a noite. O eleito seria o dono do cajado que amanhecesse coberto de flores.

Muitos pretendentes assim procederam, mas nenhuma novidade ocorreu. Idêntica oportunidade foi concedida aos viúvos e José decidiu levar seu cajado ao Templo. Pela manhã o cajado de José estava coberto de lírios, o símbolo da pureza e da retidão. Contratado o casamento, José esperou o momento exato para conviver com Maria. Antes que isso acontecesse o Arcanjo Gabriel apareceu a Maria para comunicar-lhe que ela seria a mãe de Jesus. Entretanto, Gabriel só apareceu a José quando ele já havia descoberto que Maria estava grávida e eles nunca tinham coabitado. Como era um homem muito reservado e experiente, José afastou-se de Maria, mas não fez alarde de que não era o pai da criança que Maria estava gerando. José manteve em segredo sua desilusão. Se tivesse tornado público o ocorrido, certamente Maria teria sido lapidada, porque assim deviam ser punidas as adúlteras. Essa punição está contida no Deuteranômio, um dos livros sagrados que formam a Bíblia. A lapidação consistia em apedrejamento público da mulher que o homem rejeitasse por traição. As sagradas escrituras tratam da vinda do Messias e os judeus praticantes do judaísmo sabiam disso. José tinha ampla consciência de que seria um protetor para Maria e para o fruto que seria gerado em seu ventre. Como homem justo que exercia uma profissão capaz assegurar o sustento da família, José passou à História como o pai nutricio do Divino Mestre.

José sempre dedicou especial atenção a Jesus no decorrer da infância do Salvador. Lucas se encarregou de deixar isso bem evidente no evangelho que escreveu. Mateus fala dos pontos de vista de José. A última menção feita a José nas Sagradas escrituras é quando o carpinteiro procura por Jesus no Templo de Jerusalém e o encontra discutindo a doutrina do judaísmo com os anciãos. Acredita-se que José já tivesse morrido quando Jesus foi crucificado.

A veneração dos cristãos a São José começou a se espalhar a partir do século quinze. Antes disso o protetor terreno do Divino Mestre pouco era lembrado. Tinha maior acatamento outro José, filho de Jacó e Raquel que se encheu de glórias como um Zaphnath (descobridor das coisas ocultas), no Egito. Este personagem era conhecido como São José do Egito. A história deste José está contada no Gênese, um dos livros do Pentateuco. Sua vinda ao mundo é considerada uma graça de Deus porque Raquel era estéril. Mesmo sem ser o primogênito, José era o filho preferido de Jacó, fato que levou os irmãos a odiá-lo. Numa viagem ao Egito eles o venderam como escravo a mercadores ismaelitas por 20 moedas (shequel) de prata. Levado ao Egito, José foi comprado por Potifar, que era oficial e capitão da guarda do faraó. Por ser um belo rapaz, José era assediado pela mulher de Potifar a qual rejeitava por respeito a seus princípios religiosos. Sentindo-se humilhada, a mulher do oficial disse ao marido que José vivia tentando seduzi-la. José foi preso e entre os demais prisioneiros revelou-se excelente intérprete de sonhos.

Certa vez interpretou o sonho do Faraó livrando o império egípcio de sete anos de tormentos. Ganhou destaque na corte sem tornar-se arrogante. Era um homem bom e justo. O José carpinteiro sempre foi humilde e resignado. Somente a partir do ano de 1749 a Igreja Católica incluiu seu nome no Calendário Romano fixando a data da sua festa em 19 de março. São Francisco de Assis e Santa Teresa d’Ávila ajudaram a espalhar a devoção. Em 1870, o Papa Pio IX declarou São José Patrono Universal da Igreja Católica Apostólica Romana. O Papa Benedito XV o declarou patrono da Justiça Social. Em 1955, o Papa Pio XII estabeleceu uma segunda festa para São José, a festa de “São José Trabalhador” a ser celebrada no dia 1º de maio, dia do trabalho. Na arte litúrgica da Igreja, São José é mostrado como um homem velho com um ramo de lírio na mão direita e o menino Jesus sentado em seu braço esquerdo. Ele também é retratado realizando seu trabalho de carpinteiro e ensinando o oficio a Jesus. Quando é retratado só, São José carrega um cajado florido de lírios. Outra representação muito conhecida de São José evidencia sua dedicação a Maria Santíssima e a Jesus por ocasião da fuga que empreenderam para o Egito. São José caminha pelo deserto puxando um burro, sobre o lombo do qual viajam Maria e o Salvador. É uma das mais expressivas cenas da Sagrada Família. Tanto esta cena como a retratação de São José em sua oficina, nos podemos ver ao lado do altar mor da Igreja Matriz de Macapá. Os dois afrescos foram pintados pelo Padre Lino Simonelli por volta do ano de 1950. A retratação da oficina de São José foi a que mais me deixou impressionado porque eu conheci um marceneiro de Macapá que possuía uma serra igual a que o santo carpinteiro usava.
A escolha de São José como padroeiro de Macapá não é obra do acaso. Quando o povoado de Macapá foi instalado, em novembro de 1751, o Rei de Portugal era D. José I, devoto do santo. Nada mais prático para que fosse prestada dupla homenagem, ao santo e ao rei. São José é o padroeiro de Macapá há 259 anos. A fortaleza de Macapá também leva seu nome e nela existiam duas imagens de São José. Uma na capela. Outra no frontispício do portal de entrada. Na década de 1920, quando a Fortaleza foi declarada sem serventia e abandonada, a imagem postada no frontispício do portão foi retirada e guardada na Igreja Matriz de São José. Essa imagem mostra São José usando botas. Sobre esse assunto escreverei no próximo domingo.


Beirol

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Três tipos de falésias existiram em Macapá, na margem esquerda do Rio Amazonas. As falésias da Fortaleza de São José se destacaram mais, tendo entre 5 a 6 metros de altura. À esquerda da imponente fortificação, um pouco além do Igarapé do Igapó tinha inicio outro trecho, que correspondia ao perímetro entre a área da antiga Rua da Praia, até o torrão cortado pela Rua Cândido Mendes de Almeida. Nessa parte elevada foram edificados o Fórum de Macapá, atual OAB, Residência Governamental, Posto de Puericultura Iracema Carvão Nunes, Casa Maternal, Rádio Difusora de Macapá, Laboratório de Análises Clínicas, Escola José de Alencar e várias residências. Em termos de vias públicas, podemos enquadrar o trecho entre as Avenidas Padre Júlio Maria de Lombarde e Matheus de Azevedo Coutinho. À esquerda da Fortaleza, a partir do ponto onde foi aberta a Avenida Ataíde Teive, até o prédio do Sesc/Araxá, ainda podemos ver sinais evidentes da terceira falésia, notando o quanto ela é alta.

A toda esta extensão de terra, os militares da Fortaleza chamavam de beirol. A designação é bem interessante e não aparece nos dicionários brasileiros. A rigor, nem em Portugal a palavra é empregada. Então, qual a origem do vocábulo? Existiu em Portugal, uma casa de detenção denominada “Prezidio de Beirollas”, certamente erguido em área de falésias à beira mar. Beirollas passou a ser escrito como beirola, significando beirada ou beira, correspondendo a uma espécie de paredão de terra. Originaram-se de beirola as palavras beiranita, beiranito, beiredo, beiró, beirô, beiroa e beirão, que é o feminino de beirola e quer dizer habitante da beira.

Consta que por ocasião dos exercícios de tiro com canhoes instalados no baluarte Madre de Deus, os artilheiros das forças aquarteladas na Fortaleza usavam como alvo, uma parte do paredão ou beirol, na área onde surgiu a comunidade de Mucajá. O nome beirol voltou a ser mencionado após a instalação do Território Federal do Amapá, haja vista que a área do atual bairro macapaense foi escolhida para ser concedida às pessoas interessadas em desenvolver atividades próprias do setor primário. Os lotes, com cerca de 500m de frente por 500 de fundo, deveriam abrigar projetos de criação de aves, suínos, bovinos e produção de verduras e frutos. Infelizmente, alguns dos contemplados com lotes não permaneceram o tempo necessário para tocarem seus projetos. Apenas dois detentores de lotes levaram em frente suas iniciativas; Cláudio Carvalho do Nascimento e João Barbosa, o dono da Vacaria. Atualmente, apenas o primeiro permanece residindo no lote recebido. Ali, ele criou gado e desenvolveu outras importantes atividades. Sua propriedade ficava bem isolada do centro de Macapá e boa parte do terreno era alagada. Nem o trecho da estrada Macapá/Fazendinha passava em frente de sua casa. Aos poucos, o Beirol foi sendo ocupado por novos moradores de Macapá, que não conseguiram terreno do Trem. Em 1949, o Beirol sediou uma Colônia Prisional, o primeiro presídio da cidade. Antes dele, os presos com penas mais drásticas iam cumpri-las em Belém, no Presídio São José. Os demais ficavam na Fortaleza. Os apenados do Beirol criavam aves, suínos e plantavam árvores frutíferas, principalmente caju. Por causa disso, o presídio era identificado como Cajual. Num espaço hoje ocupado pela Igreja de São Pedro e um posto de saúde do Lions Clube, foi construído um forno crematório.

A rodovia Macapá Fazendinha, perímetro da atual Jovino Dinoá, começava na Avenida Feliciano Coelho e passava entre o Presídio e o forno crematório. No segundo semestre de 1949, quando o governo amapaense decidiu construir um estádio de futebol, nos termos exigidos pela Confederação Brasileira de Desportos e Fifa, uma área próxima à Colônia Prisional São Pedro foi escolhida, mas descartada por ser julgada distante do centro de Macapá. O Estádio Territorial, depois Municipal, e mais tarde Glicério Marques, despontou um pouco além da Favela. Na área litorânea do bairro Santa Inês, originalmente chamada Vacaria, as águas do Amazonas lavavam o terreno baixo inundável. O aparecimento do Araxá foi obra de Pauxy Gentil Nunes, que ali fixou um rudimentar balneário para uso nos fins de semana.O acesso era feito pela estrada Macapá/Fazendinha, da mesma forma que hoje prevalece, através da Rua Jovino Albuquerque Dinoá.


A volta do besouro verde

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Existe na linguagem popular uma expressão bastante pitoresca que revela o sentimento de vingança que uma pessoa sente em relação a quem lhe causou algum mal. A contrariedade pode decorrer de palavras, gestos ou ações ofensivas e agressivas, porque o atingido não reza na cartilha do agressor. Portanto, a volta do besouro verde equivale à hora do revide. Jesus Cristo sempre condenou o sentimento de desforra. Tanto é verdade, que ecoa na mente de todos os cristãos suas palavras recomendando que um atingido na face ofereça o outro lado para também ser batido. Esse ensinamento é difícil de ser cumprido, principalmente pelos homens, pois, afinal de contas, “em cara de homem não se bate”.

O próprio individuo agressor sempre fica no aguardo do troco. Na esfera política, alguns governantes e detentores de cargos eletivos costumam subtrair do povo aquilo que lhes é necessário para sobreviver. Agem dessa forma quando os eleitores não aceitam suas lideranças e denunciam seus deslizes. As ações perniciosas de pérfidos políticos atrapalham o cidadão reto, mas também martirizam os autores dos feitos. Muitas vidas foram ceifadas ao longo da história da humanidade porque os poderosos vingaram-se das pessoas que contrariavam seus interesses. O tempo passou, mas a expressão “a volta do besouro verde” ainda permanece em voga. Aqui mesmo, no Estado do Amapá, existem sentimentos de vingança em profusão pairando no ar e enraizados na mente dos eleitores. E de onde vem tal expressão. Os que vivem nas regiões onde ocorre a criação de gado se acostumaram a ver um besouro esverdeado, conhecido como escaravelho, que usa o excremento de mamíferos herbívoros para se alimentar e enterrar seus ovos.

O trabalho de recolher excrementos é sempre reservado as fêmeas. Elas separam pedaços do esterco ainda frescos, rolam na terra até formar bolas, algumas maiores do que a própria artífice. Em seguida, apoiando-se nas patas dianteiras, rolam as bolas pra trás na direção de um buraco que é sua morada. Se a bola de fezes não couber no buraco a fêmea do besouro trata de ampliar a entrada. Depois de introduzir a bola no buraco, a besoura fura uma câmara na pelota e ali poe seus ovos. A quentura do esterco em fermentação acelera a eclosão dos ovos e o aparecimento das lavas. Tanto a mãe como os filhos se alimentas do esterco.

O trabalho da fêmea do besouro é demorado. Em determinados momentos ela alça vôo e desaparece, dando a impressão de que desistiu da empreitada. Algum tempo depois, sempre “zunindo”, ela reaparece e reinicia sua acrobacia. Alguém pode julgar que a besoura seja desprovida de inteligência. Ledo engano, seu cérebro é do tamanho de um grão de arroz, mas lhe assegura eficiência e maestria, no duro trabalho de rolar ou virar bosta. O político que se elegeu com o apoio de eleitores, que depois foram desconsiderados, sabe que, numa próxima eleição deve estar preparado para aguardar “a volta do besouro verde”. Mas não é só na política que a expressão é usada. Lembro de um fato pitoresco ocorrido com um contemporâneo das lides esportivas, que se enamorou de uma garota bonita, mas foi rejeitado por ela com frase: “vê se tu te enxergas”. Na ocasião, o jovem lhe disse: “ta legal, mas eu vou esperar a volta do besouro verde”. Assediada por homens endinheirados, a moça acabou vivendo com eles tórridos romances em freqüentes orgias, até adoecer e perder a bela estampa que a tornara tão desejada. Refeita da doença já não possuía tantos atrativos e acabou freqüentando o rendez-vous do “Vico”. Certa noite, sem ter conseguido freguês, ela viu o jovem que desprezara adentrar no “Vico”. A fome a impeliu a se aproximar dele para pedir que o mesmo lhe pagasse um prato de sopa e ofereceu seu corpo como recompensa. Foi atendida quanto à sopa, mas recusada como parceira de tranza. E ainda ouviu o rapaz dizer: “lembras que eu te disse que iria esperar a volta do besouro verde?”. O troco foi dado.


Boto não vira gente

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Essa conversa de que o boto vira gente, para seduzir mulheres que vivem nas margens de rios e igarapés, surgiu quando algumas jovens solteiras engravidavam e seus familiares cuidavam de proteger sua honra.

Em tempos mais recuados, quando uma mulher solteira engravidava dava um rolo danado. Com medo das ameaças do sujeito que lhe aplicara o “benefício”, não revelava sua identidade. Para todos os efeitos, o “beneficiador” tinha sido o boto vermelho.

Mas não eram apenas as solteiras que ficavam prenhes “misteriosamente”. Algumas mulheres casadas, amigadas ou amancebadas, cujos maridos passavam longo tempo fora de casa, perambulando pela floresta, riscando seringueira ou colhendo produtos extrativos, envolviam-se com outro homem e lançavam a culpa no pobre do boto.

Certamente, devido ao fato do boto ter pênis e ficar irrequieto quando uma mulher menstruada navega em pequena canoa, acompanhando-a o tempo todo, os índios e os caboclos inventaram a lenda de que o pobre mamífero da ordem dos cetáceos se transformava em homem para deflorar as virgens amazônidas que frequentavam festas dançantes de devoção ou de aniversário.

Como o “embarrigamento” de donzelas era relativamente acentuado, muitas famílias se apressavam em dizer que a “barriguda” tinha sido seduzida pelo boto. A lenda corresponde a uma história fantasiosa demais.

Ora, como é que um jovem estranho de roupas brancas, usando chapéu para encobrir o furo (respiradouro) no topo da cabeça e exalando um forte pixé, diferentemente dos caboclos que abusavam do perfume, não despertava curiosidade dos pais das moças e demais marmanjos? E, porque apenas o boto tinha o poder de se transformar em gente? A bota também deveria ter o mesmo poder.
É provável que os homens das próprias famílias mantivessem relações sexuais com filhas, sobrinhas, enteadas, cunhadas, sogras e agregadas, tirando proveito da lenda do boto pra lançar uma cortina de fumaça sobre o “estado interessante” das fêmeas da família.

O boto tem pênis, e a bota possui peitos e vagina. No período de acasalamento, que acontece de outubro e novembro, a bota expele uma secreção que tem o mesmo cheiro do sangue da mulher menstruada, que excita o boto, avisando-o de que está pronta para a reprodução.

A secreção não pode ser entendida como menstruação, haja vista que essa só ocorre nas mulheres e primatas (chimpanzés, gorilas e outras macacas). Na menstruação, o sangue que a mulher e as fêmeas primatas expelem pela vagina decorre da eliminação do endométrio devido à falta de fecundação dos óvulos. Nas fêmeas das demais espécies animais o endométrio é absorvido pelo útero.
Vale esclarecer que a cadela não menstrua, como muita gente pensa. O sangramento que algumas delas liberam provém do rompimento de pequenos vasos devido ao elevado fluxo de sangue no período do cio.

A ignorância dos índios e dos caboclos, em termos de anatomia, fez surgir a lenda. É claro que o homem só reproduz outro ser com mulheres. Pode transar com fêmeas de outras espécies, que nada acontece.

Conta-se que muitos caboclos realizavam tapagem de igarapés usando o “pari”, para capturar peixes, aprisionando botas caso elas estivessem no trecho interditado. Depois da vazante da maré, estando a bota indefesa sobre a lama, o pescador saciava seu apetite sexual. Existem registros de elementos que agiram dessa forma e eles são unânimes em dizer que as contrações dos músculos vaginais da bota deixam o ser humano estafado.

O cansaço não provinha do ato sexual em si, mas do esforço desprendido para se manter sobre a bota. De um modo geral, o caboclo matava a bota temendo que ela estivesse grávida.
Ao nascer, o boto vermelho tem a pele cinza. Seu nome científico é “Inia geoffrensis”. Coube ao francês Jacques Cousteau alterar a designação boto vermelho para boto cor de rosa. A outra espécie é preta, nominada tucuxi, mas parece que não tem o mesmo poder do boto vermelho.

No interior da Amazônia, o filho de mulher que não sabe quem é o pai do bruguelo é tido como “filho de boto”. Com certeza, boto de cinco dedos em cada mão. Como tudo acontece no Brasil, não estranhem se aparecer boto com apenas quatro dedos na mão esquerda.


Um raid pela democracia

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Quando eclodiu a Revolução Militar de 1964, que tirou do cargo de Presidente da República o Dr. João Belchior Marques Goulart, o Tenente do Exército José Alves Pessoa, residente em Macapá, não aprovou a ação de seus colegas de farda e protestou ao ver cidadãos serem presos e excluídos do serviço público de maneira sumária.

O ilustre militar também foi atingido por medidas coercitivas, à pior delas o feriu profundamente seu amor cívico pelo Brasil. Por incrível que pareça, mesmo vivo, o Tenente Pessoa foi compulsoriamente passado para a reserva e assim mantido como se estivesse morto. Uma série de acusações lhe foi direcionada, entre elas a pecha de ser subversivo e indisciplinado. Ora, o Tenente Pessoa presidiu o Tiro de Guerra nº 130 e o fez muito bem. Evidenciou sua condição de disciplinador em todas as circunstâncias. Costumava estimular seus subordinados propensos a fracassar nas aulas de instrução militar, que o Exército é uma instituição para gente decidida, forte e disciplinada. Dizia que “guerra é guerra” e não tem moleza. Ninguém em sã consciência deve considerá-lo insensível, porque o velho “Engrena” era boa praça. Depois de ser duramente punido pelo Exército, o Tenente Pessoa enfrentou momentos muito difíceis. Até alguns indivíduos que se diziam amigos lhe viraram as costas e o hostilizaram. Em 1972, ano do sesquicentenário da independência do Brasil, o Tenente Pessoa decidiu empreender uma caminhada para demonstrar publicamente o seu amor pela Pátria. A jornada, que ele denominou “Raid pedestre Oiapoque-Chuí” teve largada na margem direita do rio Oiapoque e chegada a margem esquerda do Arroio Chuí, foi organizada com bastante alarde e contou com o apoio de seus irmãos maçons,familiares,desportistas, escotistas e amigos sinceros.

Os patronos da jornada foram: Almirante Benjamim Sodré (destacado escotista do Pará), Marechal Juarez F. Távora (grande amigo de farda),Marechal do Ar Eduardo Gomes, General Ivanhoé Gonçalves Martins, governador do Território Federal do Amapá, Dr. Laudo Natel, governador do Estado de São Paulo,Dr. Euclides Triches,governador do Rio Grande DO Sul e Dr. João Havelange,Presidente da Confederação Brasileira de Desportos. Patrocinaram o raid a Região Escoteira do Amapá, representada pelo Chefe Clodoaldo Carvalho do Nascimento e a Federação Amapaense de Desportos através de seu presidente Wilson Pontes de Sena. Á época em que residia no Rio Grande do Norte, sua terra natal, José Alves Pessoa compôs com os amigos Humberto Lustosa da Câmara, Aguinaldo Vasconcelos, Henrique B. Oliveira e Antônio G. da Silva, todos integrantes do movimento escoteiro potiguar, um grupo cívico que realizou uma caminhada entre Natal e São Paulo.

O propósito do grupo foi comemorar o Centenário da Independência do Brasil. Conforme planejaram, dia 7 de setembro de 1922, eles estavam em São Paulo, em frente ao monumento do Ipiranga. No raid de 1972, ele quis relembrar o feito anterior e novamente fez uso da farda dos discípulos de Baden Powell, afinal de contas, no escotismo existe a máxima de que “uma vez escoteiro, sempre escoteiro”.

No dia 1º de março o Tenente Pessoa deixou a cidade do Oiapoque com destino a Macapá. Se atualmente a Rodovia BR 156 ainda interpõe muitos obstáculos, imagine há 43 anos. O caminhante de então não era mais o vigoroso jovem potiguar do circuito Natal-São Paulo. Em 1972, o Tenente Pessoa estava com 69 anos de idade. Após cobrir o percurso Oiapoque-Macapá, com mais de 600 km, o bravo caminhante seguiu para Belém, onde iniciou a segunda etapa da empreitada. Entre Belém e a Rodoviária do Rio de Janeiro, passando por Belo Horizonte, ele caminhou 3.347 km. Passou a semana da Pátria em São Paulo. Concluiu seu roteiro no dia 19 de novembro de 1972, no Arroio Chui, onde derramou água do rio Oiapoque levada em um frasco.


Rompendo laços com o Pará

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Quando o Presidente dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas decidiu criar mais cinco Territórios Federais, um com a denominação Amapá, o Estado do Pará tinha 53 municípios, figurando no meio deles Macapá, Mazagão e Amapá. A decisão de Getúlio Vargas visou à ocupação e o desenvolvimento de áreas de fronteira, à época muito vulneráveis. No caso do Território Federal do Amapá, a fronteira com a Guiana Francesa contava com a presença da Colônia Militar de Clevelândia do Norte, mas aventava-se a possibilidade de que tropas alemãs pudessem ser enviadas para a colônia da França, país então ocupado por tropas de Adolf Hitler.

O ato presidencial, que tomou o nº 5.812 foi assinado no dia 13/9/1943. Para governar o Amapá, o presidente da República nomeou o então capitão Janary Gentil Nunes, paraense da cidade de Alenquer. Esta nomeação ocorreu no dia 27 /12 /1943 e a posse do governador aconteceu no dia 29, na sede do Ministério as Justiça e Negócios interiores. O titular da administração amapaense se estabeleceu provisoriamente em Belém, a fim de poder tomar as medidas expressamente necessárias para a instalação do governo. Através dos jornais e das emissoras de rádio divulgou notas a respeito da contratação de mão-de-obra qualificada para construção civil, segurança pública, magistério, medicina, enfermagem, motoristas terrestres e navais. Carpinteiros, marceneiros, vigilantes, pessoal burocrático. Como não havia agência bancária em Macapá, a dotação orçamentária para o exercício de 1944, da ordem de dez milhões de cruzeiros foi depositada na Agência Central do Banco do Brasil, na capital paraense.

No dia 25/1/1944, uma terça-feira, ao alvorecer, o avião Douglas DC 3, do Aero Clube do Pará, decolou de Belém com destino a Macapá. Além da tripulação, estavam a bordo o Governador Janary Gentil Nunes, o Advogado Raul Montero Valdez, o Advogado e Político João Guilherme Lameira Bittencourt, Secretário-Geral do Pará. O Interventor Federal do Estado do Pará era o então Coronel Joaquim de Magalhães Cardoso Barata, investido do cargo desde o dia 8/2/1943. Barata era membro destacado do Partido Liberal e “amigo de farda” de Janary Nunes. Seu apoio ao jovem gestor do Território Federal do Amapá foi importantíssimo. No momento em que se deu a instalação do governo, o municípios de Macapá contava com uma população de aproximadamente 9 mil habitantes.Em 1920, o contingente populacional do município de Macapá era de 18.387 pessoas.Nesta época a jurisdição de Macapá se estendia à região das Ilhas do Pará e o canal norte do rio Amazonas não figurava como limite territorial entre ele e vizinho estado.

A cidade de Macapá, carente de assistência médica, sem energia elétrica, esgoto, água encanada, agência bancária, tinha apenas 1.936 almas. O grosso da população vivia na zona rural. A criação do Território Federal do Amapá tirou do Estado do Pará os municípios de Macapá, Mazagão e Amapá. Conseqüentemente, restaram 50 municípios. Na Região Norte havia dois Estados: Pará e Amazonas e o Território Federal do Acre, com população de 1.593.100 pessoas. O censo demográfico de 1940 demonstrou que o crescimento vegetativo da população foi mais expressivo na faixa etária de zero a 29 anos, assim distribuído: 0 a 9 anos igual a 272.933; 10 a 19, em torno de 215.913; de 20 a 29, aproximadamente 171.181 habitantes.Em 1943, a população do Pará era de 1.022.100 habitantes. Viviam 484.100 indivíduos no Amazonas e 86.900 almas no Acre.

A exemplo da maioria dos municípios paraenses, as unidades municipais do Amapá enfrentavam sérios problemas de saúde. Se a coisa era complicada na cidade de Belém, imagine no interior. O índice de alfabetização das pessoas com 18 anos para mais era de 46,6%, correspondente a valor absoluto de 229.831 cidadãos, de um montante de 493.666 pessoas residentes na capital. A taxa de crescimento da população variava de 38,49% a 46,51%. A relação das doenças que mais matavam por ano indicava os seguintes dados: Infecciosas e parasitárias (5.042); câncer e outros tumores (286); aparelho circulatório (1.206); urinárias e aparelho genital, exceto doenças venéreas, gangrenas e puerperais (2.820); respiratórias, não incluindo tuberculose (1.278).


Ambores de asfalto em chamas

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O Contador Pauxy Gentil Nunes, quarto governador do Território Federal do Amapá, iniciou sua gestão administrativa quando ainda era muito presente a lembrança e os efeitos do acidente aéreo, ocorrido no dia 21 de janeiro de 1958, na vila Carmo do Macacoary, que ceifou as vidas do Deputado Federal Coaracy Gentil Monteiro Nunes, Suplente Hildemar Pimentel Maia e do piloto Hamilton Henrique da Silva. Antes dele, o cargo era ocupado pelo médico Amilcar da Silva Pereira, que substituira o Coronel Janary Gentil Nunes, guindado para a Presidência da Petrobrás. No período de 2 de fevereiro de 1956 a 14 de fevereiro de 1958, Pauxy Nunes atuou como Secretário Geral da administração territorial.

O cargo equivalia ao de vice-governador. Com a saída de Amilcar Pereira, para canditar-se ao cargo de Deputado Federal, o Presidente Juscelino Kubitschek efetivou Pauxy Nunes como governador a contar da ultima data supra mencionada, e, na mesma data nomeou o Promotor Público João Telles como Secretário Geral. Entre fevereiro de 1958 a 17 de fevereiro de 1961, o clima político foi tenso, haja vista, que Pauxy Nunes revelou acentuada intempestividade e hostilidade em relação aos adversários políticos filiados ao Partido Trabalhista Brasileiro. João Teles conservou sua “mineirice” e tentou conter o temperamento explosivo do parceiro. Sobejamente conhecido como devotado desportista na região amazônica, principalmente no Pará e no Amapá, Pauxy Nunes ganhou a alcunha de “Caudilho do Norte”. Sua atuação como gestor público não foi das piores. A ele, a cidade de Macapá deve o traçado de ruas e avenidas, graças ao Plano Diretor da Administração Amapaense.

No inicio do ano de 1960, o governo territorial adquiriu um lote de tambores de piche destinado ao asfaltamento das principais vias públicas de Macapá. O capeamento de ruas e avenidas utilizaria o processo alto-selante, que, em 1963, a Indústria e Comércio de Minérios S.A. tinha realizado nas travessas da Vila Amazonas, Vila da Serra do Navio e do Escritório Central. O processo consistia em jogar o piche sobre a terra, cobrindo-o com areia. Isso exigia um bom tempo para o piche absorvesse a areia e a mistura secasse. O período invernoso não era propicio para um trabalho dessa natureza, por isso, os tambores foram colocados atrás da Fortaleza de São José, próximo ao baluarte de Nossa Senhora da Conceição.

O tempo passou, o mato cresceu em volta dos tambores e a estiagem presente a partir de setembro provocou o vazamento do material de fácil combustão. Na noite de 24 de setembro de 1960, um incêndio de graves proporções irrompeu no local. A sirena da Usina de Força e Luz, situada na Av. General Gurjão foi ligada e o povo ganhou as ruas. O fogo, certamente ateado no capinzal por algum sujeito de má índole atingiu o piche derramado no solo e se expandiu.

Os tambores fechados eram arremessados ao ar com sucessivas explosões. A situação só começou a ser controlada, quando o Corpo de Voluntários de Defesa de Incêndios, conhecido como CVDCI, pertencente à ICOMI chegou ao local do sinistro. A unidade de Santana utilizou um caminhão-bomba com capacidade para quatro mil litros d’água, extintores de carga especial e outros dispositivos inexistentes em Macapá. Os bombeiros voluntários da ICOMI integravam duas unidades, em Santana e Serra do Navio, cada uma delas com 42 homens, todos funcionários da empresa mineradora. Bem treinados e agindo com muita cautela, não demoraram a eliminar o fogo. Mereceu reconhecimento especial da ICOMI o funcionário Hilkias Alves de Araújo, chapa 5499, que, usando roupa adequada subiu nos tambores ainda livres das chamas, para despejar água no interior deles. Sem os vedadores das tampas, e, conseqüentemente, sem gás represado, o piche não iria explodir. Em maior número, os demais membros da CVDCI faziam jorrar muita água sobre os tambores incandecentes.

A cidade de Macapá, que passou maus momentos com pavorosos incêndios, em 1960 ainda não tinha um grupamento de bombeiros regulamentado e aparelhado. Com muita limitação, a Guarda Territorial se virava para apagá-los.


Relatórios de governadores

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Apartir do ano de 1944, os governadores do território federal do Amapá tinham que elaborar minucioso relatório de suas atividades e encaminhá-los ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores. Posteriormente foi criado o Ministério do Interior, que passou a coordenar e supervisionar as unidades criadas em áreas de segurança nacional. Sem ter uma situação jurídico-administrativa claramente definida, os territórios federais figuravam como apêndices do poder central brasileiro.

Os governadores eram nomeados pelo presidente da República, cabendo-lhes a nomeação e designação de gestores para cargos e funções publicas, inclusive de prefeitos. No período em que os territórios estiveram subordinados ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores, o rigor concernente às prestações de contas era rígido, notadamente porque o país passava por mudanças radicais depois de ficar mais de 15 anos sob a ditadura Vargas. Com a retomada democrática e o funcionamento do Congresso Nacional e das assembleias legislativas, velhos e perniciosos vícios políticos, como tráfego de influência ressurgiram. No Amapá, ao final de cada exercício gestacional, o relatório de governo, que simplesmente poderia ser enviado para o Rio de Janeiro através do Correio Aéreo Nacional, motivava a ida de vários servidores do então Serviço de Administração Geral-SAG. No fundo, isso representava um prêmio aos seus elaboradores e titulares da área meio da administração territorial. Documentos preciosos foram gerados e bem poderiam estar conservados em lugares apropriados. Infelizmente a papelada pública, por falta de um arquivo público se perdeu ou foi criminosamente cremada. Se alguém quiser ter acesso aos primeiros relatórios do governador Janary Gentil Nunes, talvez os encontre no Arquivo Público Nacional. Certamente verá citações marcantes, como essa referente a concordância do presidente Getúlio Dorneles com a doação de 10 lotes de terra do Patrimônio Municipal de Macapá ao Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado-IPASE, para que o referido instituto construísse 10 casas residenciais e as vendesse a servidores públicos.A área doada ao IPASE corresponde aos lotes situados à esquerda da Avenida Iracema Carvão Nunes, entre as Ruas José Serafim Gomes Coelho(atual Tiradentes) e General Rondon. A decisão de Getúlio Vargas foi publicada no Diário Oficial da União, que circulou no dia 11.4.1953. Observe, que nem o prefeito de Macapá e nem o governador tinham competência para doar terras integrantes do Território Federal do Amapá,algo que ainda prontifica. Somente na gestão do governador Ivanhoé Gonçalves Martins, iniciada em 20.4.1967, esta situação foi evidenciada de forma clara.

O relatório do citado ano evidencia o conteúdo do item 3.1.3 – Filosofia Administrativa do Governo o seguinte texto: “Nos primeiros momentos de nossa gestão, entendemos por bem definir a filosofia do Governo. Assim estabelecemos as relações dos órgãos da administração entre si e com o Governador. Esta filosofia está sintetizada no seguinte: O Decreto-lei nº 7.773, de 23.7.1945, não define as atribuições do Serviço de Administração Geral em relação às municipalidades. No entanto, faz parte do seu organograma uma Seção de Municipalidade, com unções de assessoria e fiscalização, donde decorre a necessidade de orientação técnica e auditagem nas prestações de contas, a serem feitas, como é óbvio, pela Seção de Contabilidade”.

O general Luiz Mendes da Silva, que governou o Amapá no período de 15.5.1964 a 19.4.1967, relatou que a educação possuía 209 escolas primárias e 10 ginásios, atendendo uma clientela de 25 mil alunos no primário e 5 mil no secundário.Cerca de 1420 universitários estudavam em diversos estados. No tocante à saúde, frisou que havia um número reduzido de médicos, dentistas e enfermeiras, porque os vencimentos dos mesmos não eram atrativos. Denunciou o contrabando que andava solto nas costas do Amapá. O gado saía do Território com destino a Caiene. O café, embarcado clandestinamente em Belém seguia a mesma rota. A carne de gado custava, em Caiene, o dobro ou o triplo do preço praticado no Amapá.


Um Natal marcado pela tristeza

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a noite do dia 24 de dezembro de 1944 começava a dominar a pequena Macapá, quando o Posto Telegráfico recebeu uma mensagem passada de Vargem Grande, dando conta de que o padre Júlio Maria Lombaerd havia falecido em circunstâncias trágicas. Imediatamente, com a comunicação impressa em telegrama, o estafeta foi à Casa Paroquial entregá-lo aos padres Phelipe Blanke e Antônio Schulte, religiosos que, a exemplo do padre Júlio, integravam a Congregação da Sagrada Família, estabelecida em Macapá desde o ano de 1911.

Os sinos do campanário da Igreja São José passaram a executar o toque fúnebre de maneira intermitente, atraindo a população para frente do templo. Procurando conter a emoção, o padre Felipe Blanke, vigário da Paróquia de Macapá, repassou a todos a notícia que havia recebido. Há 22 anos o padre Júlio tinha deixado Macapá, fugindo da malária que o fustigava. Depois de atuar algum tempo na Vila Pinheiro (Icoaraci), no Pará, foi fixar-se em Manhumirim, no estado de Minas Gerais. A população ainda tinha viva na memória a figura do padre Júlio, um homem decidido que tantos benefícios trouxe para a então abandonada cidade paraense de Macapá e tinha por ela uma grande amizade. Júlio Emilio Lombaerd nasceu na Bélgica, no dia 7 de janeiro de 1878. Aos 17 anos, a 1º de novembro de 1895, em Maison Carré, África, recebeu o hábito sacerdotal. Sua consagração ocorreu a 18 de abril de 1897, aos 19 anos de idade. A recepção diaconal verificou-se a 6 de outubro e a ordenação sacerdotal a 13 de junho de 1908. Em setembro deste ano despediu-se dos familiares e embarcou para o Brasil, com destino a pobre e diminuta cidade paraense de Macapá. No dia 15 de outubro de 1908, o navio que transportava o Padre Júlio chegou a Pernambuco. Ele passaria quase 5 anos trabalhando em Recife, Natal e Belém.Chegou a Macapá no dia 27 de fevereiro de 1913, sendo recebido na Doca da Fortaleza pelos sacramentinos José Lauth (vigário de Macapá desde 1911) e Hermano Elsing, vigário de Mazagão, dois velhos amigos dos tempos de seminário. Em pouco período de tempo percorreu toda a região do atual Estado do Amapá e quase morreu ao ser picado por uma mosca peçonhenta na serra do Tumuc-Humac. A 2 de maio de 1913, foi nomeado pelo governador do Estado do Pará, Enéas Martins, para o cargo de Diretor das Escolas Reunidas de Macapá, fato que fez melhor consideravelmente o desempenho das mesmas, Padre Julio era empreendedor nato e fundou várias instituições benfazejas em Macapá: Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria, Colégio e Orfanato Santa Maria, Cine Olímpia, Filarmônica São José e a Farmácia Comunitária. Na Ilha de Santana instalou a casa destinada ao retiro dos religiosos da Congregação da Sagrada Família. Sob a gestão dos padres italianos do Pontifício Instituto das Missões Estrangeira esta propriedade funcionou como pensionato e seminário. No atual bairro Buritizal o saudoso sacerdote belga criou a Fazenda Santa Maria, em cujas terras se fez a instalação do atual Cemitério São José.

Na fazenda ficavam os animais que os criadores de Macapá doavam ao santo padroeiro da cidade, que ali permaneciam até o dia do leilão a 19 de março. Antes da chegada dos padres sacramentinos, era o Padre François Rellier, francês com atividades na Guiana Francesa que prestava assistência espiritual aos macapaenses. O povo quase não ia à igreja e uma considerável parcela dele se devotava ao espiritismo africano e usava santos para angariar dinheiro em proveito próprio. O Padre Júlio reduziu drasticamente esta prática e por isto ganhou a antipatia dos espertalhões.

A comunidade negra deve a ele a organização da festa das coroas que ainda hoje simbolizam o Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade nas duas quadras do Marabaixo. Porém, em 1923, o Padre Júlio precisou deixar Macapá para livrar-se da malária. Levou consigo as religiosas da Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria e todo o acervo das instituições que criara. Fixou suas atividades na então Vila Pinheiro (Icoaraci), no Estado do Pará, onde as freiras residiram até transferirem suas ações para Caucaia, no Ceará, onde ainda existe a Congregação. Padre Júlio não tardou a arribar com passagem por Alecrim, no Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro. Em busca de um clima mais ameno o ilustre vigário escolheu Manhumirim para reiniciar sua brilhante trajetória religiosa. Construiu o Hospital São Vicente de Paulo, o Seminário Apostólico, o Jornal “O Lutador” e outros empreendimentos. Em Dores de Indaiá, cidade mineira erigiu o Seminário São Rafael. Em 1931, no período da Ditadura Vargas, Padre Júlio foi acusado de ser integralista nazista e rebelde às autoridades brasileiras. Respondeu com muito altruísmo ao processo que lhe foi movido, sendo declarado inocente a 31 de outubro de 1931. Somente depois da decisão judicial ele recebeu o titulo de cidadão brasileiro e passou a usar o nome Júlio Maria de Lombarde. Nos dias atuais, a Fundação Padre Júlio atua em diversas partes do Brasil.


O 1º Natal no Território do Amapá

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Criado a 13 de setembro de 1943, o Território Federal do Amapá só foi instalado no dia 25 de janeiro de 1944, tendo a cidade Macapá como capital, muito embora o ato governamental que criou a nova unidade federada determinasse que a sede fosse a cidade de Amapá. A nomeação do primeiro governador, capitão Janary Gentil Nunes Janary Gentil Nunes tinha ocorrido dia 27 de dezembro de 1943, e sua posse no dia 29, no Ministério da Justiça e Negócios Interiores, órgão ao qual os territórios estavam subordinados.

O Natal de 1943, repleto de esperanças por um novo porvir foi comemorado com muita singeleza pelo humilde povo que residia na área desmembrada do Estado do Pará. Nos anos de 1944, 1945 e 1946, o governo territorial adotou algumas programações festivas que contaram com a efetiva participação da população. Algumas lojas já dispunham de artigos natalinos e de presentes, bem diferentes do que habitualmente vinha ocorrendo na pequena “Estância das Bacabas”. Os brinquedos industriais então disponíveis eram caros, fato que contribuía para a encomenda de brinquedos artesanais bem fabricados por alguns marceneiros locais. Em 1947, como parte das festividades do Natal, o governo territorial programou para o dia 24 de dezembro significativos eventos. Um deles foi levado a efeito às 20 horas, no bairro do Hospital, assim chamada a área onde surgiu o Hospital Geral de Macapá e que hoje integra o bairro central. Em um barracão preparado pelos operários do Hospital Geral de Macapá, que se encontrava em construção, a comunidade negra, que havia sido remanejada do Largo de São João (Praça Barão do Rio Branco), para terrenos mais elevados, motivando o uso da palavra Favela, dançou alegremente o Marabaixo tomando a Mucura, a gengibirra e o mungunzá (mingau de milho). O outro festejo se deu na sede social do Trem Esporte Clube Beneficente, agremiação que tinha sido fundada em 1º de janeiro de 1947, e de imediato passou a ser a grande referência da alegria no bairro proletário de Macapá. Sob a coordenação da senhora Doninha Banhos de Araújo ocorreu a apresentação do auto de Natal intitulado “As Pastorinhas”, que fez muito sucesso.

No centro da cidade, na então Passagem Francisco Caldeira Castelo Branco, atual Rua Tiradentes, aconteceu uma concorrida festa dançante na casa do senhor Sebastião Canuto da Costa, cidadão amante dos folguedos e bastante estimado no seio da comunidade macapaense. A parte festiva foi encerrada por volta das 23h30min horas, a fim de que os partícipes dos eventos pudessem assistir a “Missa do Galo”, que foi realizada na Igreja de São José, na época, o único templo católico existente em Macapá. A Paróquia de São José era dirigida pelos padres Felipe Blanck e Antônio Schultz, que integravam a Congregação da Sagrada Família. Em 1948, estando os padres do Instituto Pontifício das Missões Estrangeiras conduzindo os destinos do catolicismo no Amapá, a programação se estendeu ao município de Oiapoque, com a inauguração das reformas da velha capela local. A solenidade foi conduzida pelo prefeito Amilcar da Silva Pereira e pelos padres Vitório Galliani e Carlos Bassanini. Havia tanta gente, que a missa acabou sendo rezada na praça. Em Macapá, antes da santa missa foram entregues as fitas de aspirantes a treze candidatos à Congregação Mariana e descoberto o 1º presépio aramado na cidade.

O material usado na montagem do presépio veio da Itália e foi montado à direita da entrada do nosso mais antigo prédio, cuja inauguração ocorreu no dia 6 de março de 1761. A Santa Missa do Natal foi celebrada pelo Padre Aristides Piróvano, o Administrador Apostólico do Amapá e concelebrada pelos demais sacerdotes. Um coral bem ensaiado cantou músicas natalinas tradicionais, ao som do “harmonium” (acordeom) do Padre Vitório Galiane. Na manhã do dia 25 de dezembro, as crianças mais abastadas apresentavam seus belos brinquedos, que os pais egressos de Belém tinham comprado na capital paraense. Os menos aquinhoados exibiam carros de madeira feitos por marceneiros e carpinteiros locais e bonecas de pano concebidas por familiares. As crianças pobres inventavam seus próprios brinquedos, como revolveres de madeira e animais representados por mangas verdes de diversos tamanhos.