O 1º Natal no Território do Amapá

comentários

Criado a 13 de setembro de 1943, o Território Federal do Amapá só foi instalado no dia 25 de janeiro de 1944, tendo a cidade Macapá como capital, muito embora o ato governamental que criou a nova unidade federada determinasse que a sede fosse a cidade de Amapá. A nomeação do primeiro governador, capitão Janary Gentil Nunes Janary Gentil Nunes tinha ocorrido dia 27 de dezembro de 1943, e sua posse no dia 29, no Ministério da Justiça e Negócios Interiores, órgão ao qual os territórios estavam subordinados.

O Natal de 1943, repleto de esperanças por um novo porvir foi comemorado com muita singeleza pelo humilde povo que residia na área desmembrada do Estado do Pará. Nos anos de 1944, 1945 e 1946, o governo territorial adotou algumas programações festivas que contaram com a efetiva participação da população. Algumas lojas já dispunham de artigos natalinos e de presentes, bem diferentes do que habitualmente vinha ocorrendo na pequena “Estância das Bacabas”. Os brinquedos industriais então disponíveis eram caros, fato que contribuía para a encomenda de brinquedos artesanais bem fabricados por alguns marceneiros locais. Em 1947, como parte das festividades do Natal, o governo territorial programou para o dia 24 de dezembro significativos eventos. Um deles foi levado a efeito às 20 horas, no bairro do Hospital, assim chamada a área onde surgiu o Hospital Geral de Macapá e que hoje integra o bairro central. Em um barracão preparado pelos operários do Hospital Geral de Macapá, que se encontrava em construção, a comunidade negra, que havia sido remanejada do Largo de São João (Praça Barão do Rio Branco), para terrenos mais elevados, motivando o uso da palavra Favela, dançou alegremente o Marabaixo tomando a Mucura, a gengibirra e o mungunzá (mingau de milho). O outro festejo se deu na sede social do Trem Esporte Clube Beneficente, agremiação que tinha sido fundada em 1º de janeiro de 1947, e de imediato passou a ser a grande referência da alegria no bairro proletário de Macapá. Sob a coordenação da senhora Doninha Banhos de Araújo ocorreu a apresentação do auto de Natal intitulado “As Pastorinhas”, que fez muito sucesso.

No centro da cidade, na então Passagem Francisco Caldeira Castelo Branco, atual Rua Tiradentes, aconteceu uma concorrida festa dançante na casa do senhor Sebastião Canuto da Costa, cidadão amante dos folguedos e bastante estimado no seio da comunidade macapaense. A parte festiva foi encerrada por volta das 23h30min horas, a fim de que os partícipes dos eventos pudessem assistir a “Missa do Galo”, que foi realizada na Igreja de São José, na época, o único templo católico existente em Macapá. A Paróquia de São José era dirigida pelos padres Felipe Blanck e Antônio Schultz, que integravam a Congregação da Sagrada Família. Em 1948, estando os padres do Instituto Pontifício das Missões Estrangeiras conduzindo os destinos do catolicismo no Amapá, a programação se estendeu ao município de Oiapoque, com a inauguração das reformas da velha capela local. A solenidade foi conduzida pelo prefeito Amilcar da Silva Pereira e pelos padres Vitório Galliani e Carlos Bassanini. Havia tanta gente, que a missa acabou sendo rezada na praça. Em Macapá, antes da santa missa foram entregues as fitas de aspirantes a treze candidatos à Congregação Mariana e descoberto o 1º presépio aramado na cidade.

O material usado na montagem do presépio veio da Itália e foi montado à direita da entrada do nosso mais antigo prédio, cuja inauguração ocorreu no dia 6 de março de 1761. A Santa Missa do Natal foi celebrada pelo Padre Aristides Piróvano, o Administrador Apostólico do Amapá e concelebrada pelos demais sacerdotes. Um coral bem ensaiado cantou músicas natalinas tradicionais, ao som do “harmonium” (acordeom) do Padre Vitório Galiane. Na manhã do dia 25 de dezembro, as crianças mais abastadas apresentavam seus belos brinquedos, que os pais egressos de Belém tinham comprado na capital paraense. Os menos aquinhoados exibiam carros de madeira feitos por marceneiros e carpinteiros locais e bonecas de pano concebidas por familiares. As crianças pobres inventavam seus próprios brinquedos, como revolveres de madeira e animais representados por mangas verdes de diversos tamanhos.


Amazônia e os efeitos da 2ª Guerra Mundial – Parte I

comentários

O primeiro ciclo da borracha no Brasil teve inicio em 1879 e se estendeu até 1912. Foram 33 anos de muita riqueza e progresso. Apenas na segunda metade do século XIX, a goma elástica entraria com vigor na economia amazônica, se bem que, já em 1827, trinta toneladas tivessem sido produzidas, rendendo a quantia de nove contos de réis. Em 1905, a borracha representava o segundo lugar entre os produtos de exportação do Brasil logo abaixo do café. Em 1910, a goma elástica chegou a figurar com 40% do valor da exportação nacional.

Como a produção não repousava sobre uma estrutura econômica adequada, toda a riqueza sumiu repentinamente, suplantada pela produção dos plantadores de seringueiras do Oriente. O segundo ciclo foi bem mais curto, correspondendo ao período de 1941 a 1945. Em maio de 1941, o Presidente dos Estados Unidos do Brasil, Getúlio Dorneles Vargas firmou um acordo com os Estados Unidos da América do Norte, denominado “Acordo de Washington” para elevar a produção da borracha brasileira. A carência do produto no mercado internacional foi motivada pela ocupação dos seringais plantados pelos ingleses, na Malásia, por tropas japonesas, um dos países do Eixo. Desde 1939, a segunda guerra mundial estava em vigor. Os seringais brasileiros estavam abandonados.Cerca de 35 mil trabalhadores, que migraram para a Amazônia em épocas mais recuadas viviam entregues à própria sorte. Nos termos do Acordo de Washington, o Brasil deveria elevar sua produção, de 18 mil para 45 mil toneladas. A meta era mobilizar 100 mil seringueiros. Com a entrada dos Estados Unidos no grande conflito, as providências necessárias à concretização do acordo precisaram ser aceleradas. Em 1942 começou o alistamento compulsório dos retirantes da seca, feito pelo Serviço de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia-SEMTA, sediada no Nordeste, em Fortaleza. Além da SEMTA também foram criadas a Superintendência para o Abastecimento do Vale da Amazônia-SAVA, o Serviço Especial de Saúde Pública, o Serviço de Navegação da Amazônia e Administração dos Portos do Pará e o Banco de Crédito da Borracha. “A constituição do Banco foi autorizada pelo governo federal através do Decreto-lei nº 4.451, de 9 de julho de 1942,mas somente em fevereiro do ano seguinte entrou em funcionamento efetivo. A necessidade de um autêntico instituto de crédito se fazia tão premente, que o capital inicial de 50 milhões de cruzeiros teve de ser triplicado, em menos de um ano e meio Desde que intensificada a indústria extrativa de borracha, a região amazônica passou a depender do Banco de Crédito de maneira completa. Em quatro anos, a entidade passou a ser encarada Omo a espinha dorsal de sua economia. Por essa razão, encerrada a guerra, eliminada a necessidade do produto que determinara sua abertura, mesmo assim o Banco da Borracha não pôde fechar as portas,como seria natural.Os característicos do organismo de emergência nem por isso deixaram de influir na marcha do instituto e eis que, retirados os diretores norte-americanos, entrou em colapso,abalando o organismo econômico do vale, A essa altura, o Banco do Brasil que, praticamente, deixara de operar na região norte,foi convocado a acudir o estabelecimento em crise”.

O recrutamento voluntário de trabalhadores nordestinos deveria ter incorporado 65 mil “Soldados da Borracha” ao contingente de 35 mil já estabelecidos na Amazônia, mas não foi além de 55 mil. O Brasil fornecia a borracha e recebia investimentos financeiros para montar uma grande infraestrutura industrial. Toda a produção seguia em potentes aviões norte-americanos para os Estados Unidos, fugindo ao risco de torpedeamento caso o transporte fosse marítimo.

Aliás, os torpedeamentos realizados por submarinos alemães a navios mercantes, no trecho Brasil-Estados Unidos, impediram a importação de produtos alimentícios e farmacêuticos necessários aos moradores de Belém, Manaus e outros centros populacionais da Região Norte, despertaram a ganância por lucros fáceis em muitos comerciantes. Nas duas maiores cidades nortista, os comerciantes tiveram de ser contidos em suas ânsias de conseguir lucros altos aumentando os preços de remédios e alimentos. Também por retirarem os mesmos das prateleiras.


A Pedra do Guindaste – Final

comentários

Em setembro de 1931, estando exercendo suas atividades na Promotoria Pública do Pará, o Dr. Otávio Meira foi designado para vistoriar todos os cartórios, juizados e prefeituras de Belém até Mazaganópolis, sede do município de Mazagão. Os municípios de Macapá e Mazaganópolis estavam sob jurisdição do Estado do Pará. É bem pitoresca sua narrativa sobre desembarque e embarque de cargas e passageiros em Macapá, pois ainda não havia sido construído o trapiche da cidade. Segundo o Dr. Otávio Meira, na maré alta, os barcos com menor calado podiam entrar no Igarapé do Igapó ou Bacaba, mas o mesmo não acontecia com os navios, que fundeavam e ficavam ao sabor das ondas. Tornava-se mais prático aguardar a maré baixa, que deixava inteiramente à mostra a Pedra do Guindaste. Em algumas oportunidades, quando a maré estava alta e as águas calmas, usava-se uma embarcação tipo barcaça para receber as cargas dos navios. Neste caso, elas permaneciam fundeadas próximo à pedra, sobre a qual, uma engenhoca tipo bate-estacas, equipada com moitão/roldana e corda fazia o papel de um guindaste, daí o nome atribuído à formação rochosa. Para vencer o estirão da praia era usado um carro puxado por dois bois. Foi graças aos termos do seu relatório, que o Interventor Federal Magalhães Barata liberou verbas para a construção do primeiro trapiche de Macapá.

O Intendente Municipal era o Major Eliezer Levy e a obra teve inicio em 1932. Teve inicio em 1969, as entabulações para a concepção de uma imagem de São José, padroeiro de Macapá e seu assentamento na Pedra do Guindaste. Sem alardes, as partes interessadas, envolvendo Dom José Maritano, Bispo Prelado de Macapá e o Governador do Amapá, General Ivanhoé Gonçalves Martins, tomaram todas as providências cabíveis. Ninguém contestou o fato de a imagem não carregar o Menino Jesus nos braços e ficar de frente para o rio mais caudaloso do globo terrestre. Devidamente iluminado, a imagem de São José não recebeu a missão de proteger a cidade. Como um importante símbolo do catolicismo ali ficou incólume. Porém, na noite de 23 de setembro de 1973, o navio Domingos Assmar, que fazia linha fluvial entre Macapá/Belém/Macapá foi arremessado contra a pedra, quebrando-a e lançando nas águas agitadas do Amazonas a apreciável escultura do santo padroeira da cidade.

O cidadão Antônio Assmar, proprietário da embarcação assumiu os ônus pelo restauro da imagem e a construção de uma pilastra de concreto, para substituir a Pedra do Guindaste. Novamente entrou em ação o luso-brasileiro Antônio Pereira da Costa, recuperando sua obra de arte. Para erigir a pilastra foi contratada a firma Platon Engenharia e Comércio, então capitaneada por Clarck Charles Platon. Tudo voltou a ficar como antigamente, até o momento em que, apareceram os difusores de uma nova idéia, imediatamente refugada pela comunidade macapaense que preza suas tradições. Pretendiam os arautos do turismo trocar a atual imagem por outra bem maior. Também seria removida a pilastra pioneira por outra de maior diâmetro, da qual partiria uma passarela ligando-a ao trapiche Eliezer Levy.

A nova imagem deveria conter o Menino Jesus nos braços e ficar de frente para a cidade. Estas propostas não foram o ponto que fez despertar o descontentamento popular. Inaceitável foi ignorar o valor histórico da obra concebida pelo escultor e arquiteto Antônio Pereira da Costa, apenas porque ela não tem tamanho exorbitante. Outro erra cometido pelos idealistas malfadados foi dizer que a imagem atual iria ser colocada na frente da Fortaleza de São José. Ora, a frente do monumento bélico corresponde a sua área de proteção patrimonial, onde a escultura seria um “corpo estranho, que não faz parte do projeto de autoria de Henrique Galúcio. Felizmente, as novidades não encontraram guarida no sei da comunidade macapaense. Até praticantes de outros credos não as aprovaram. Ocorre, que a imagem de “São José da Beira Rio” precisa ser protegida e colocada longe de gente fantasiosa. Um pedido formal de tombamento da imagem será dirigido ao IPHAN.


A Pedra do Guindaste – 1ª parte

comentários

Até o ano de 1723, embora já estivesse em vigor o Tratado de Utrecht, firmado entre Portugal e França a 11 de abril de 1713, que determinava ser luso-brasileira a região da Costa do Cabo do Norte, pretendida pelos francos, estes teimavam em realizar incursões pelo Rio Amazonas valendo-se da amizade estabelecida com os índios Aruan, Tucujú e Aroaqui, que constituíam os três grupos mais perigosos e hostis aos portugueses. No dia 14 de fevereiro do ano supra mencionado, os frades das ordens de Santo Antônio e da Conceição da Beira e Minho, foram encarregados de tentar, mais uma vez, a pacificação dos irredutíveis Aruan. Foi um passo importante obtido pelos freis João e Bernardino, ambos franciscanos de Santo Antônio, os quais lograram assentar vários povoados nas terras da boca norte do Amazonas e na Ilha do Marajó. Uma série de outras medidas foram tomadas pelos portugueses, mas os franceses insistiram em querer fixar posições na Amazônia Oriental. Portugal erguera o Forte de Santo Antônio sobre as ruínas do Forte de Cumaú tomado dos ingleses, mas o tempo e a falta regular de manutenção aceleraram sua deterioração levando-o à ruína.

No dia 5 de outubro de 1738, o capitão-general João de Abreu Castelo Branco visitou o Forte de Santo Antônio e comprovou a sua fragilidade. Através de carta endereçada ao Rei D. João V, recomendou a construção de outra fortificação em lugar mais próximo da foz do Amazonas e em área mais ampla. Ainda em 1738, um forte de faxina foi montado enquanto as providências relativas ao levantamento de uma casa forte fosse tomadas, o que não aconteceu por falta de recursos. Pequenos quartéis foram feitos e ocupados por um destacamento comandado por um capitão.

Entre 1738 e 1749, ficou bem evidente a necessidade de ser erguida uma grande fortaleza, haja vista que, o reduto artilhado com apenas duas peças de artilharia já demonstrava sérios desgastes. Os quartéis levantados em 1738 ocuparam espaços no platô de terra firme onde surgiu o povoado de São José de Macapá, na primeira quinzena de 1751, e mais tarde a portentosa Fortaleza de São José, entre 1764 a 1782. O aspecto do litoral onde foi implantado o povoado de Macapá era bem singelo, chamando a atenção dos navegadores e colonizadores uma formação rochosa assentada na margem esquerda do Rio Amazonas, Nada de sobrenatural havia sobre sua existência. Era simplesmente uma pedra, com a mesma matéria encontrada nas falésias do platô da fortaleza. Ela ornou a praia de Macapá até setembro de 1973. Desde 1970 existiu sobre ela uma imagem de São José, esposa de Maria e pai putativo de Jesus Cristo.

A importante escultura foi feita pelo luso-brasileiro Antônio Pereira da Costa, natural da Freguesia de Valadares, Conselho Vila Nova de Gaia, Distrito do Porto, em Portugal. Na comunidade de Valadares as atividades principais concentravam-se na agricultura e na produção de cerâmicas. Antônio Pereira da Costa e seu pai eram ceramistas e escultores de inegáveis méritos, com importantes obras realizadas no Rio de Janeiro, em São Luiz do Maranhão, Belém do Pará e em Macapá.

Na então capital do ex-Território Federal do Amapá, Seu Antônio Costa instalou sua oficina de trabalho no quintal da Augusta e Respeitável Loja Maçônica Duque de Caxias tendo recebido especial autorização de seus irmãos, que sempre o distinguiram como um invulgar “obreiro da paz”. Muitas das suas obras ainda são vistas e admiradas nas cidades de Macapá e Amapá: Grupo Escolar Barão do Rio Branco, Hospital Geral de Macapá, Maternidade Mãe Luzia, Fórum de Macapá, que hoje abriga a Seccional da Ordem dos Advogados do Brasil, os Leões assentados na frente do citado prédio, a Estátua de Francisco Xavier da Veiga Cabral, em Amapá, o Busto de Tiradentes, o busto do Deputado Federal Coaracy Nunes, na Praça do Aeroporto Internacional Alberto Alcolumbre, o Tempo da Loja Duque de Caxias e a Imagem de São José que ainda permanece sobre um pilar de concreto ereto sobre as pedras menores da antiga formação rochosa derrubada pelo navio Antônio Assmar, em setembro de 1973. Outro leão esculpido pelo Senhor Antônio Pereira da Costa foi encomendado pelo comerciante Hermano Jucá Araújo, meu tio paterno e torcedor apaixonado do Clube do Remo. Pintada de azul, a escultura foi mandada para Belém e instalada no Estádio Evandro Almeida.


A Trans-Amapá

comentários

No dia 19/3//945, a circular pela 1º vez, o jornal “Amapá”, órgão informativo do Governo do Território Federal do Amapá divulgou seguinte notícia: “Uma das preocupações do Governo do Território é estabelecer comunicações terrestres, dando assim oportunidade ao desenvolvimento de núcleos de população e produção ao longo de eixos rodoviários. Na Amazônia, a norma comum é a projeção ripícola, à margem dos rios navegáveis. As estradas fluviais, dando ensejo ao transporte e ás comunicações, atraem naturalmente o homem e o seu trabalho. Todavia são necessárias as ligações transversais, por terra, em auto-estradas ou ferrovias, por inúmeros motivos, que seria ocioso discriminar. Dai o interesse do Governador Janary Nunes em realizar a Trans-Amapá, cujo traçado inicial foi feito pelo General Rondon, de Macapá à Clevelândia, ligando os vales dos rios Amazonas e Oiapoque, através do Araguary.

Estudos estão sendo realizados neste sentido, sobre o caminho Macapá-Porto Grande, no Araguari, onde trafegam caminhões em “trilhos” primitivos. Foi feito o levantamento do traçado até Porto Grande, numa extensão de 113 km e o trecho que vai de Porto Grande à colônia Ferreira Gomes. No verão, trafegando por trilhas feitas pelo campo, um caminhão gastava 6 horas para chegar a Porto Grande”. No inverno, devido aos imensos atoleiros, apenas os veículos mais robustos e com tração nas quatro rodas eram utilizados. Em janeiro de 1944, marco da efetiva existência do Território Federal do Amapá, a rodovia Macapá-Clevelândia não ia além de 25 km. Tinha inicio no quilômetro zero e terminava na entrada da vicinal que se destinava a região do rio Pedreira. Nos dias atuais, o quilômetro zero ficaria no cruzamento da Avenida FAB com a Rua Eliezer Levy. Não era qualquer motorista que se atrevia a cobrir a distância entre Macapá e Porto Grande na época das chuvas. O condutor tinha que ser bem experiente e jamais realizaria tal proeza sem contar com a ajuda de acompanhantes. A partir do km 25, os caminhões seguiram uma trilha carroçável e cheia de volteios. Quando as máquinas pesadas entraram em operação, a terraplanagem não corrigiu o traçado original.

Houve quem defendeu a realização de estudos para a abertura de um novo traçado, reduzindo em mais de 30 km o trecho atualmente utilizado. O traçado da Trans-Amapá tinha inicio ao lado do aeroporto da Panair do Brasil e correspondia à via atualmente rotulada como Av. FAB. A partir do km 0, canto onde está o terreno do E.C.Macapá, o trecho serpenteava até a atual Jovino Dinoá. A partir daí, em diagonal, avançava para o ponto hoje marcado pela esquina da Rua Leopoldo Machado com a Machado de Assis. Vinha a seguir um estirão no sentido da via hoje chamada Padre Júlio Maria de Lombaerd. Convergindo à direita, o condutor tomava o rumo do km 9, de onde parte o ramal que se estende ao posto da Policia Rodoviária. Neste ponto, guinando para a direita, um singelo traçado feito pelas rodas dos caminhões iria originar o ramal do Curiaú. Até recentemente, carroças e caminhões não passavam sobre o igarapé Jandiá e do lago do Pacoval. Para chegar a Macapá, os agricultores do Curiaú usaram um atalho rasgado na área onde, em 1958, o Governador Pauxy Nunes construiu a pista do Aeroporto Internacional de Macapá. O caminho carroçável circundava a pista de vôo e enveredava por área de campo até atingir o trecho mais estremo da Avenida FAB. A Av. Rua Hildemar Maia favorecia a ligação entre a Av. FAB e o aeroporto.

O perímetro entre a Leopoldo Machado e o Km 9 foi o 1º a ser asfaltado, na gestão do governador Ivanhoé Gonçalves Martins. A construção do pontilhão do Igarapé Jandiá permitiu que os veículos passassem a circular na zona norte de Macapá. À conta da expansão surgiu a Rua Adilson José Pinto Pereira e posteriormente a Tancredo Neves.  A rodovia Macapá-Clevelândia, traçada pelo então General Cândido Mariano Rondon, em 1929, que em 1944, só possuía 25 km aterrados, ainda não está em plenas condições de uso. Grande parte do trecho recebeu asfaltamento e algumas pontes de concreto. Entretanto, outras pontes de madeira precisam ser substituídas e o traçado definitivo da rodovia teima em não sair.


Confidências ao Mucuim

comentários

No decorrer da irradiação do Programa “À Hora dos Tucujú”, que eu e a Cristina Homobono apresentávamos através da Rádio Difusora de Macapá, um ouvinte residente no Buritizal ligou para saber notícias do Historiador Estácio Vidal Picanço, visto que, a maioria dos radialistas não citava seu nome. Informei-lhe que o Estácio enfrentava sérios problemas de saúde, contando com a abnegação de seus familiares para superá-los. O ouvinte tinha sido aluno do Estácio e torcia pelo Amapá Clube, agremiação onde o brilhante Historiador atuou como goleiro, usando o apelido de Mucuim. De volta á minha casa encontrei uma carta do Estácio, escrita à máquina, lamentando estar doente e praticamente esquecido. Decidi escrever algumas linhas ao ditoso professor, com o título de Confidências ao Mucuim:

“Meu caro Estácio Vidal. Convivendo com você no rádio, na educação, no jornalismo e nas lides esportivas, sou testemunha da tua luta para assegurar que a bela história do Amapá seja difundida e valorizada. Você mesmo fez isso com invulgar propriedade. Se hoje comemoramos a data da elevação do povoado de Macapá à categoria de vila, dia 4 de fevereiro, é porque suas cobranças ganharam adesão do Conselho Territorial de Cultura e ecoaram no Plenário da Câmara Municipal de Macapá, forçando a aprovação de uma lei determinando que assim fosse. Apenas nos dois tornamos evidentes nos meios de comunicação os clamores dos antepassados. Você divulgou os principais fatos da História do Amapá através de jornais. Eu continuo a fazê-lo pelas ondas do rádio e, devido a tua impossibilidade de atuar na imprensa escrita, tenho publicado alguns artigos. Mesmo escrevendo sobre fatos históricos, tenho angariado a antipatia de alguns neófitos jornalistas. Não sei o motivo dos achincalhes. Suponho que estou incomodando a alta estima dos parvos e dos sedentos por reconhecimento e consideração. Entretanto, nossos ex-alunos e os atuais estudantes, notadamente os universitários, nos prestigiam e nos valorizam. Insistem comigo em obter informações nos meus arquivos e tomar por empréstimo livros e fotografias. Agem exatamente como outros estudantes e professores fizeram no tempo em que o nobre amigo estava são e podia atendê-los. É curioso este fato.

Os estudantes deveriam pesquisar nas bibliotecas das escolas onde estão matriculados ou na Biblioteca Estadual Elcy Rodrigues Lacerda. Ocorre, que elas não têm acervo histórico da forma como nos e outros pesquisadores possuímos. Acervo conseguido a custa de muito esforço, perseverança e dispêndio de recursos próprios. Fizemos isso para suprir as nossas próprias carências de informação, pois, na condição de professores de História, nosso dever era repassar conhecimentos aos alunos. Não foram poucos os pedidos, que os lentes de História, nosso contemporâneos fizeram aos governadores, no sentido de ser constituído um grupo de pesquisa no seio na Divisão de Difusão Cultural/Secretaria de Educação e Cultura. O propósito era o de formar um banco de dados históricos, para uso público. Os invejosos, que sempre procuram ridicularizar medidas dessa natureza, disseram que a reivindicação não tinha sentido. Hoje, outros indivíduos prepotentes e despeitados ressoam os ditos do passado. Sem poder recorrer a uma fonte oficial, os estudantes desenvolvem pesquisas junto a pessoas inventivas, contribuindo para a deturpação dos fatos reais. A transmissão oral da “estória” não tem o valor incontestável da História.

Também existem os que não pesquisam e se valem dos escritos alheios para querer demonstrar conhecimento. Dá-se, a isso, o nome de saber de experiência feita. Camões dizia: “Não se aprende, senhor, na fantasia, sonhando ou estudando,mas vendo,tratando e planejando”. Nosso saudoso amigo Hélio Penafort costumava dizer que: “quando o caboclo não sabe alguma coisa, faz valer a imaginação”. A História não permite fantasias. O estudo da História tem que ser realizado com os olhos da História e não relacionado a conceitos atuais. A cultura é a ação consciente do homem para transformar a natureza em seu proveito. “Só os presunçosos não sabem”. Não se avexe, porque você nunca será esquecido.


General Maximiniano Gurjão

comentários

Hilário Maximiniano Antunes Gurjão, emérito militar brasileiro, filho do Major Hilário Pedro Gurjão e de Dorothéa de Andrade Gurjão, nasceu em Belém, sede da Província do Pará, no dia 21/2 /1820. Seu avô paterno foi o Capitão General português Francisco Pedro Gorjão, 18º Governador do Estado do Grão-Pará, no período de 1747 a 1751. A tendência de Hilário ser militar se concretizou no dia 13/5/1836, quando ele se alistou no Exército, ocasião em que o movimento intitulado Cabanagem estava em andamento no Pará.

A bordo da escuna “Bella Maria”tomou parte no bloqueio e bombardeio da Pedreira, forçando Eduardo Angelim q desencadear a evacuação de Belém. Ainda no decorrer de 1836 comandou as tropas enviadas ao Acará, onde os cabanos estavam instalados, tendo a missão precípua de prender Eduardo Angelim. No dia 3 de janeiro recebeu a designação para comandar a guarnição estabelecida na Fortaleza de São José, na então Vila de São José de Macapá. Em 1837, Hilário Gurjão havia alcançado o posto de cadete passando à patente de 2º tenente em 1838. Ainda exercia suas funções na Fortaleza de Macapá, quando saiu sua promoção a 1º tenente, no dia 2 de dezembro. Ao retornar a Belém, no ano posterior, matriculou-se na Escola de Artilharia. Permaneceu na capital paraense até 1845, ostentando a patente de capitão, que foi outorgada em 1841. Com o apoio de seus superiores e do Presidente da Província do Pará, José Thomaz Henrique, seguiu para o Rio de Janeiro, ingressando na Escola Militar. Deixou-a no dia 2/8/ 1851, como Bacharel em Matemática e classificado na Arma de Artilharia. De volta a Belém passou a servir no terceiro Batalhão do Exército.

A criação do Comando das Armas da Província do Amazonas, o major Hilário Gurjão foi incumbido dirigir as obras de fortificação daquela região, tarefa executada com aprumo. Transferido para Belém, continuou a desempenhar suas atividades normais e também lecionou Geografia e História no Colégio Paraense. Em 1857, como tenente-coronel, acompanhou o Presidente da Província do Pará, Antonio Coelho de Sá e Albuquerque, em uma viagem de inspeção as fortalezas de Macapá (São José), Gurupá (Santo Antônio) e Òbidos (Pauxis).

No ano supracitado foi para o Rio de Janeiro, ficando aquartelado no terceiro Batalhão de Artilharia. Em 1863, Gurjão assumiu o comando da Fortaleza de Santa Cruz, com a missão de reformá-la amplamente. Ele estava no comando do Primeiro Batalhão de Infantaria quando, em 1865, teve inicio a Guerra do Paraguay. No posto de coronel, partiu para o campo de luta, comandando a 17º Brigada. Em janeiro de 1866 passou para o comando da 3ª Brigada de Infantaria. Participou dos combates do Passo da Pátria, de Estero Belaco. Dirigia as forças do Exército Brasileiro estacionadas em Corrientes (Argentina), quando o Duque de Caxias designou-o para comandar a artilharia do 2º Corpo do Exército, com a responsabilidade da artilharia de vanguarda da coluna atacante na batalha de Tuiuti. A mais sangrenta das batalhas da Guerra do Paraguai começou às 11 horas do dia 24 de maio de 1869 e terminou às 17 horas. A refega se deu nos pântanos e matas do lago de Tuiuti. Os paraguaios tinham 20 mil soldados e contaram mais de seis mil mortos. Entre as tropas da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) as baixas foram em menor número.

Os brasileiros lutaram denodadamente em terreno adverso e perderam 3.011 homens. Num ímpeto de bravura, querendo estimular seus comandados, o general Gurjão, então subcomandante das tropas do Brasil, galopou no sentido dos inimigos, conseguindo chegar bem perto deles, mas, gravemente ferido foi ao chão. Com a chegada do grosso da tropa comandado pelo Duque de Caxias a vitória foi assegurada. O general Gurjão foi resgatado e transferido para o Hospital de Sangue da cidade de Humaitá e ali faleceu no dia 17/1/1869. Belém e Macapá lhe prestaram justas homenagens. Nas duas cidades há uma rua com seu nome. No centro da Praça D. Pedro II, em Belém, existe um belo monumento perpetuando sua memória. Anos depois da guerra, seus restos mortais foram transferidos para o Cemitério da Soledade, na capital do Pará.


HABENT SUA FATA LIBELLI

comentários

Ao ser concretizada a pretensão de se proceder à reativação da Academia Amapaense de Letras, em 1988, recebi a incumbência de cuidar da parte estrutural do Silogeu.

Os que promoveram a sua fundação não chegaram a elaborar o estatuto e o regimento da instituição. De imediato concebemos o Estatuto e passamos a operar. Atentei para a adoção de um lema para a sociedade literária do Amapá e fui localizá-lo entre expressão latina contidas no “Diccionário Prático Encyclopédico Illustrado Luso-Brasileiro, publicado na cidade do Porto, em Portugal, edição de 1935, sob a direção de Jayme de Seguir. Prendeu minha atenção a expressão “HABENT SUA FATA LIBELLI” usada pelo escritor romano Terencianus Maurus, no século II, correspondendo ao verso 1.286, cujo teor é: “Pro captu lectoris habent sua fata libelli” (Os escritos têm seu destino de acordo com a capacidade do leitor).

De modo geral é citada apenas habent sua fata libelli, traduzido como os livros têm seu próprio destino. Pouco se sabe sobre o autor da expressão. Ele teria nascido na Mauritânia, então província romana e compôs um manual em versos sobre presódia e métrica com o titulo” De litteres, syllabis, metria”(sobre as letras, sílabas e metros), aplicado sobretudo a exemplo de Horácio.

O autor troca de métrica cada vez que trata de um verso ou estrofe diferente. Essa obra, esquecida durante a idade média, foi redescoberta em 1493 e novamente perdida depois de impressa pela primeira vez, em Milão, no ano de 1407. A edição mais famosa é a de Simon de Colores, de 1531. A edição mais recente é de Chiara Cignolo, de 2002. Nessa obra aparece pela primeira vez a expressão latina que ficou famosa; Habent Sua Fata Libelli. Há várias traduções a respeito da expressão, mas todas evidenciam a importância dos livros, que devem estar disponíveis para uso do leitor interessado em se instruir.

Que importância tem os livros que permanecem encaixotados em depósitos de bibliotecas públicas? Milhares ou milhões se perderam ou foram jogados fora.

Da capacidade do leitor depende o destino dos escritos. A expressão latina que intitula este artigo é o lema da Academia Amapaense de Letras.


A pracinha Cypriano Santos

comentários

No espaço delimitado pelas ruas São José e Tiradentes e pelas Avenidas Presidente Vargas e Coriolano Jucá, cortado pela Passagem dos Inocentes, existiu um singelo logradouro público identificado como Pracinha Cypriano Santos. Essa pracinha não tinha nenhuma estrutura que a credenciasse a possuir tão pomposo rótulo. Entretanto, devido a sua localização, os moradores que tinham o fundo dos seus quintais contornando-a, se davam ao luxo de ter portões nas cercas dos fundos. À tardinha, notadamente no período de estiagem, várias pessoas convergiam para a pracinha, onde permaneciam até a escuridão dominar a pequena cidade de Macapá. A área da Pracinha Cypriano Santos era similar a do Largo dos Inocentes, sendo um pouco menor.

Os dois espaços eram cortados pela Passagem Coronel José Serafim Gomes Coelho, nome de um dos mais proeminentes Intendentes do Município de Macapá. O batismo da pracinha ocorreu no tempo em que a área do atual Estado do Amapá pertencia ao Estado do Pará, equivalendo a uma homenagem ao médico e político Cypriano José dos Santos. Esse ilustre cidadão nasceu em Belém, no dia onze de dezembro de 1859, sendo filho do paraense Cypriano José dos Santos e da maranhense Antônia Maria da Conceição Santos. Depois de cursado o primário e secundário, em Belém, seguiu para a cidade de Salvador, na Bahia. Entre os anos de 1880 e 1885, frequentou a Faculdade de Medicina da Bahia, obtendo o grau de médico, defendendo a tese sobre “medidas profiláticas contra a invasão das moléstias infectocontagiosas”. Ao retornar a Belém, em 1886, montou uma clínica médica e filiou-se ao Partido Conservador, cujo líder era o Cônego Manoel José de Siqueira Mendes, que, na época do Império foi três vezes presidente da Província do Pará. Após a proclamação da República, Cypriano Santos aderiu o Partido Radical.

A 29 de outubro de 1887, casou com Luciana Nicolau dos Santos, filha do comerciante Conrado Nicolau, que exercia a função de vice-cônsul de Portugal, em Bragança. Em 1891, Cypriano Santos ingressou no Partido Republicano, juntamente com Justo Leite Chermont, Lauro Nina Sodré, Paes de Carvalho e Antônio José Lemos, o dono do jornal “A Província do Pará”. Esse jornal reinou absoluto em Belém até 1896, dando a seu dono um imenso poder. Na época, Cypriano Santos integrava o grupo político dominante no Pará, com alguns de seus membros ocupando cargos eletivos na Assembléia Legislativa. A força desse grupo ficou patente no dia 22 de junho de 1891, quando Lauro Nina Sodré foi eleito governador. Em primeiro de janeiro de 1896, surgia na capital paraense a “Folha do Norte”, fundada pelo então deputado federal Enéas Martins. Não tardou para que Cypriano Santos e outros importantes políticos se tornassem sócios do novo jornal. Em 1898, Lauro Sodré instalou, em Belém, o Partido Republicano Federal, contando com a solidariedade de Cypriano Santos, da Folha do Norte e de outros elementos. O Partido Republicano do Pará ficou sob a liderança de Paes de Carvalho e de Antônio Lemos. O novo partido fez surgir a “corrente laurista”, tendo como condutor político e chefe o estrategista Siqueira Campos.

A animosidade entre lauristas e lemistas intensificou-se e perdurou por 12 anos, causando dolorosos dissabores aos integrantes da “Folha do Norte”, que frequentemente, a mando dos lemistas, eram presos e espancados. Auxiliares, colaboradores e amigos também sofriam perseguições. As edições mais picantes eram apreendidas. Tudo isso acontecia devido à coragem de Cypriano Santos e de seus funcionários em denunciar os desmandos de Antônio Lemos. Quanto mais os lemistas perseguiam Cypriano Santos e seu jornal, mais o povo e o comércio de Belém devotavam admiração à Folha do Norte, ajudando na manutenção do referido jornal. Exerceu vários cargos eletivos, entre os quais o de deputado constituinte do Congresso do Estado do Pará e presidente da Câmara, em legislaturas sucessivas. Em 1901, por ocasião da eleição para governador do Pará, Cypriano Santos apoiou Lauro Sodré, tornando-se ferrenho adversário de Augusto Montenegro e José Lemos. O vencedor foi Augusto Montenegro. Como o Intendente de Macapá, Theodoro Mendes, não apoiou seu candidato, Cypriano Santos resolveu hostilizá-lo e tramar seu assassinato. Isso só não aconteceu, porque a trama foi descoberta e a guarnição da Fortaleza de Macapá botou pra correr seus capangas.


Fuá no Bar do Pina

comentários

A palavra fuá é bastante usada no Nordeste do Brasil. Se uma mulher sair à rua sem ter o cuidado de arrumar o cabelo, as faladeiras da vida alheia dirão que ele está um fuá, ou seja, ficou mal arrumado. Um cavalo manhoso e assustadiço também recebe o mesmo adjetivo. Quando ocorre briga nas festas e à conta disso termina mais cedo, o povo comenta que no forró houve um baita fuá. Obviamente, a palavra tem o sentido de confusão, fuxico, treta, muvoca, intriga, conflito e briga. Entretanto, a afirmação de que uma festa transcorreu na mais perfeita harmonia, o termo fuá deve ser entendido como balada.

O cancioneiro nordestino é repleto de músicas que narram brigas, Na composição “Forró em Caruaru”, o cantor Jackson do Pandeiro afirma, que: ”mataram vinte cabras, dois soldados e um sargento”. Em “Forró em Limoeiro”, o mesmo Rei do Ritmo diz: ”quem não tem peixeira briga no pé”. O sanfoneiro Luiz Gonzaga do Nascimento gravou muitas músicas do gênero fuá e vez por outra também se envolvia em conflitos. Até mesmo em Macapá, o Lua Gonzaga andou botando as suas asinhas de fora. No inicio de sua carreira, por ter o rosto arredondado, Luiz de Januário ganhou o apelido de “cara de lua cheia”, que foi sintetizado para Lua.

O cabra era namorador pra danar. Foi por causa de um namoro com a filha de um sujeito de bom nível financeiro, avesso ao romance, que o Rei do Baião levou uma surra do pai, o velho Januário e arribou de casa indo sentar “Praça no Exército”. Servindo em Minas Gerais, Luiz Gonzaga virou corneteiro dos bons e recebeu outro apelido “Bico de Aço”, porque o seu sopro era bem forte. Como marinheiro e soldado tinham muito cartaz com as mulheres, notadamente com as “horizontais” (prostitutas), o famoso filho de Exu, município do sertão Pernambucano transitava sob clima de intensa popularidade nos dançarás e no seio das mulheres desfrutáveis. A prova maior desta afirmativa foi patenteada no documentário “De Pai, Para Filho”, que se reporta à vida do filho famoso do velho Januário.

O cantor Gonzaguinha é fruto de um romance vivido por Luiz Gonzaga e a meretriz Adélia, nos prostíbulo do Mangue, Rio de Janeiro. Em suas incursões pelo Norte e Nordeste do Brasil, o Lua Gonzaga se divertiu a valer. Garoto propaganda do Marabaixo, levado a esta condição pelo Governador do Amapá, Janary Nunes, esteve em Macapá umas oito vezes.Numa delas, em 1956, após sua apresentação em praça pública foi levado por seus cicerones ao Bar do Pina, situado no trecho da atual Padre Júlio Maria de Lombarde, ao lado direito de quem seguia para a Rodovia Macapá-Clevelândia ou para o Porto de Santana.No mesmo trecho, na esquina com a Leopoldo Machado funcionava outro bar famoso, o “Canta Galo”. Na frente do Bar do Pina funcionava um dançará de reputação um tanto rasteira. Levado àquele local pelo pessoal da Rádio Difusora, cujo Diretor era o Agostinho Souza, Luiz Gonzaga quis conhecer o dançará e ali encontrou uma mulher bem simpática, a qual tomou por companhia.

A turma da Difusora ainda lhe pediu para desistir de tal intento, haja vista, que a garota era xodó de um cabra metido a valente, empregado da ICOMI. No Bar do Pina não havia dança,mas as vezes o “pau comia solto”. E foi o que aconteceu, quando o gostosão da pequena pintou no pedaço. O cabra foi querer levar a pistoleira na marra e o Lua não permitiu. Foi o suficiente para o fuá dominar as paradas de sucesso. Metido a “cavalo do cão”, o Rei do Baião levou um sopapo no pé do ouvido, que fez o sangue descer. Brigou todo mundo.

A turma da Difusora foi tentar apaziguar os ânimos e também apanhou. Chamada ao local. Devidamente apetrechada com os “produtos da Amazônia” (cassetetes de borracha) e “bordunas três sabores” (pedaços de maçaranduba pintado de vermelho, branco e azul), uma guarnição da Guarda Territorial, com a amabilidade que tão bem a caracterizava acabou com o furdunço. No plantão da Divisão de Segurança e Guarda estava o Delegado Antônio Melo, maneiro e aconselhador. Não houve quem o convencesse a soltar o Luiz Gonzaga, o zabumbeiro “Cata Milho” e o anão Zequinha, apelidado “Salário Mínimo”, o tocador de triangulo, antes do amanhecer. Nas outras vindas a Macapá, o Rei do Baião se comportou muito bem.