Referências ao rio Aporema

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Quando estive no rio Aporema, pela primeira vez, há cerca de 55 ano,seu ainda integrava o movimento escoteiro. Sob o comando do chefe Humberto Santos, um grupo de discípulos de Baden Powell foi participar de um acampamento na propriedade do senhor Lauro Lobo, membro de uma tradicional família da região do Lago Duas Bocas. Alojamos-nos sob o assoalho da residência do nosso anfitrião, que era bem elevado devido à água que o inverno fazia jorrar na região formando um grande lago. Como estávamos no período da estiagem o aguaceiro do inverno havia escoado e apenas o rio retinha o precioso liquido. O Seu Lauro era um figuraço. Contador de causos fantásticos deixava os mais novos bem temerosos quando a noite caia. Somente agora retornei à região cortada pelo rio Aporema, ali ficando entre os dias 19 e 22 de abril, na fazendola do compadre Raimundo Magalhães, instalada na Vila do Bonito, que os populares chamam Vila dos Crentes, onde há uma igreja evangélica, escola e as casas dos moradores. Neste período do ano as chuvas são fortes e freqüentes.

As margens do rio estão cobertas pela água pluvial e, em determinados pontos, a profundidade passa de dois metros. Há outras residências na margem direita do Aporema e sobre os tesos ou ilhas, onde o aguaceiro não prontifica. Percorremos cerca de 210 km, partindo de Macapá, até alcançarmos a entrada do ramal de 38 km, que dá acesso ao Distrito de São Benedito. A partir desta vila a viagem ocorreu a bordo da voadeira do Magalhães. Fiquei fascinado com a paisagem. Na margem esquerda do Aporema foi fincada uma cerca de arame, que delimita uma área permanente de proteção ambiental. As vilas do Bonito e de São Benedito, juntamente com Floresta, Fazenda Modelo, Livramento, Meraúba, Nazaré, Conceição, Assentamento São Benedito, Campina Grande, Santa Maria do Lago Duas Bocas, Tabaco, Las Palmas, Santa Rosa do Araguary, Guanabara do Araguary, Mangueira, Tartarugal Grande, Assentamento do Mutum, Limão, Terra Firme (Uapezal), Ponta do Socorro, Vareiro, Lago Novo e Andiroba fazem parte do Distrito do Aporema e integram o Município de Tartarugalzinho, criado no dia 17 de dezembro de 1987.

O rio Aporema nasce na colina das Colônias, correndo em direção NO-SE e depois SE-NO, estendendo-se por 75 km até atingir o rio Araguari, do qual é tributário. O nome do importante caudal deriva do vocábulo indígena “apo”, que é designativo de raiz e “rema”, que quer dizer fedorenta. É provável, que os índios conheceram alguma árvore ou planta aquática cuja raiz fosse fedida. Algumas pessoas usam o termo apurema, mas isso não é correto. O inicio da criação de gado no distrito de Aporema data de 1847, quando Procópio Rôla e Lira Lobato introduziram as primeiras rezes bovinas. Isso ocorreu após a instalação da “Colônia Militar Dom Pedro II” e sua ocupação por soldados, colonos, índios e negros. O contingente armado passou a impedir que os franceses penetrassem em território paraense e dele retirassem produtos de valor comercial. Por volta de 1946, mesmo havendo uma criação de gado ao Deus-dará, um inventário de rebanhos do Território Federal do Amapá indicou que existiam 49.974 rezes na nova unidade federada, Macapá revelou a existência de 26.815 cabeças de gado; Amapá com 22.254 e Mazagão com 903 animais.

O maior produtor de gado bubalino no Amapá é Cutias do Araguary. Dados divulgados pelo Ministério da Pecuária e Agricultura revelam que o Brasil possui 1,15 milhões de búfalos e 150 milhões de cabeças de gado bovino. Dentro de 30 anos, o rebanho bubalino deve elevar-se a 50 milhões de rezes. No Norte do Brasil, o Estado do Pará desponta com 720 mil búfalos, dos quais, 461.275 estão no Marajó. No Nordeste são 135 mil rezes e no Sudeste 104 mil, O restante está espalhado por outras regiões. Além do Marajó, que beira o Atlântico (Soure e Salvaterra), merecem destaque Chaves e Cutias do Araguary. Ainda preso à Região Norte, revelamos que, em termos percentuais, o Pará tem 38% do rebanho bubalino; Amapá 18; Maranhão 6,5%. Na região dos lagos, Amapá, a criação poderia ser mais expressiva,mas ela exige investimentos elevados, entre eles a plantação de capim e assistência veterinária, coisa que poucos pecuaristas levam em conta.


Jânio quis ocupar a Guiana Francesa

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No dia 3.8.1961, o presidente Jânio Quadros recebeu em audiência o governador do território federal do Amapá, José Francisco de Moura Cavalcante, e lhe disse que iria mandar invadir a Guiana Francesa, anexando-a ao Brasil. A revelação fez Moura Cavalcante levantar-se abruptamente e ficar andando de um lado para outro da sala, balançando a cabeça em sinal de não. Jânio mandou que o governador sentasse para ouvir os detalhes do estapafúrdio plano. A operação militar, denominada “Cabralzinho”, visava ocupar o departamento ultramarino da França, se possível de forma pacífica, mediante a dominação das forças ali estabelecidas. A justificativa para desencadear a ação dava conta de que o manganês do Amapá, exportado há mais de 4 anos pela Icomi, ocorria de maneira fraudulenta através do porto de Caiene e seria importante o Brasil ter seu território estendido do Caribe ao rio da Prata.Obviamente, Jânio também desejava ocupar o Uruguai. Estarrecido, Moura Cavalcante ouviu as ordens transmitidas pelo presidente: “Eu acho que chegou a hora de resolver definitivamente isso. Por que não anexamos a Guyana Francesa ao território brasileiro? Não tolero mais ver o minério de manganês do Amapá ser vendido para o exterior. Pretendo acabar com isso, notadamente porque entendo que parte sai do Porto de Santana e outra parte de Caiene, uma coisa absurda.”

A invasão seria realizada por uma expedição composta por cinco brigadas (2.500 homens) recrutadas de cidades distintas do Amapá, uma flotilha da Marinha de Guerra e aviões da FAB. As brigadas avançariam através de picadas abertas na mata, pois, à época, ainda não tínhamos ligação terrestre com Oiapoque. Em território guianense, a tropa seguiria pela estrada que liga Caiene a Saint George. A flotilha se posicionaria em frente a Caiene, sitiando-a.Os aviões da FAB prestariam apoio logístico e tático à empreitada. Fora Jânio, Moura Cavalcante e o comandante da Colônia Militar de Clevelândia do Norte, o assunto era de conhecimento do Marechal Cordeiro de Farias, Golbery do Couto e Silva, José Aparecido de Oliveira e Afonso Arinos de Melo Franco. Sentindo que Moura Cavalcante havia ficado chocado com a revelação, Jânio perguntou se ele cumpriria rigorosamente suas ordens. Ainda relativamente jovem e muito decidido, o pernambucano que governava o Amapá respondeu afirmativamente. Em meado de 1961, Moura Cavalcante tinha recebido uma ordem de Jânio para fiscalizar as balanças de pesagem de manganês no Porto de Santana, haja vista, que informes passados ao presidente da República levantavam suspeitas de fraude. Sem comunicar nada à gerencia da Icomi, Moura Cavalcante deixou Macapá no momento em que um navio estava atracado no cães de Santana para embarcar manganês.

O governador foi dirigindo um Jeep e ainda era cedo quando parou no portão da companhia mineradora exigindo que a grossa corrente que impedia sua entrada fosse abaixada. O pessoal da segurança pediu, que o gestor territorial se identificasse, o que ele se recusou a fazer, gritando que era o governador do Amapá e cumpria ordens de Jânio Quadros. Estabeleceu-se o impasse, porque o pessoal da segurança foi orientado a não permitir a passagem de uma pessoa de identidade ignorada. Moura Cavalcante engatou a marcha à ré dando a impressão de que se retiraria do local. Em seguida, com a primeira marcha de força engatada, investiu contra a corrente, quebrando-a e seguindo para a área do porto. Ao descer do veículo foi detido por seguranças da Icomi e impedido de ter acesso aos equipamentos de pesagem e embarque de minério. Levado para a sala do gerente da empresa foi extremamente grosseiro e prepotente. Só recuperou sua lucidez quando o gerente da companhia fê-lo ver, que a área da Icomi, particular e concedida na forma da lei não podia ser invadida. O fato foi repassado para Jânio Quadros, que passou a hostilizar a Icomi.
O governador ainda mandou iniciar a picada para o Oiapoque e ficou aguardando a vinda de Jânio para deslanchar a operação de invasão e anexação da Guiana Francesa. A Franca era presidida Pelo General Charles De Gaulle, que certamente reagiria a altura se Jânio Quadros não tivesse renunciado no dia 25.8.1961.


O beco do abieiro

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Na cidade de Macapá, no meio do espaço delimitado pelas travessas Floriano Peixoto (Presidente Vargas) e Braz de Aguiar (Coriolano Jucá) e pelas ruas São José e Barão do Rio Branco (Cândido Mendes), havia uma larga passagem que ligava o largo de São Sebastião (Praça Veiga Cabral) ao largo de São João (praça Barão do Rio Branco). Devido à existência de um frondoso abieiro a passagem era conhecida como o “Beco do Abieiro”. Outro estreita viela, entre a vila Santa Engrácia e o quintal da casa do coronel Theodoro Manuel Mendes ligava essa passagem a atual Rua Cândido Mendes. Residiam em torno do Beco do abieiro diversas famílias tradicionais de Macapá, entre elas a do senhor Miguel Gantus, presidente do Cumaú Esporte Clube. Sua residência ficava no canto do Beco do Abieiro com a atual Avenida Getúlio Vargas e também funcionava como sede da agremiação alviverde da cidade. Conseqüentemente, embora houvesse um campo de futebol na ala “A” da Praça Veiga Cabral, o time do Cumaú preferia treinar no campinho armado na área do Beco do Abieiro. Após a criação do Território Federal do Amapá e a instalação do governo territorial em Macapá, algumas donas de casa aproveitaram o ensejo da chegada de trabalhadores para alugar alguns cômodos de suas residências e até mesmo a casa toda. Entre as locadoras de quartos destacava-se Dona Oswaldina, senhora carismática que a todos tratava com muita educação. Ela era viúva e contava com a companhia das filhos Marialvo e Luiz, e das filhas Alcinda e Nazaré. Em um dos cômodos de sua casa instalou-se a jovem Aracy Nascimento da Silva, professora normalista egressa de Belém que veio compor o magistério da novel unidade federada.

A casa de dona Oswaldina era geminada com o imóvel ocupado pelo comerciante Zoilo Pereira Córdova, dono do Bar ABC,situado na área onde está erguido o Teatro das Bacabeiras. Seu Zoilo Córdova tinha vários filhos, entre eles a Mariana a Lélé, o Paloca e o Pedro Maurício, meus contemporâneos da Casa dos Padres e do Grupo Escolar Barão do Rio Branco. No canto direito da passagem, esquina da Presidente Vargas,sentido da Praça Barão, ficava a residência do senhor Filomena, um dos primeiros açougueiros a ocuparem “talhos de carne” no Mercado Central. Nas outras extremidades do beco residiam Raimundo Ladislau, o grande tirador de ladrões do Marabaixo e Benedito Lino do Carmo, o velho Congó.

O Beco do Abieiro era muito freqüentado e por isso cheiro de novidades. Ao entardecer os moradores colocavam cadeiras nas calçadas e o papo rolava solto até a hora do jantar. A primeira descaracterização do Beco do Abieiro veio com a construção do prédio da Agência dos Correios e Telégrafos. Depois surgiu a “Lojas Pernambucanas”, acabando de vez com o campo de futebol do Cumaú Esporte Clube. O jornalista e radialista Carlos Cordeiro Gomes, o popular “Segura o Balde” também residiu na casa de Dona Oswaldina, local onde, a 11 de agosto de 1953, faleceu inesperadamente a Professora Aracy Nascimento da Silva.


Mazagão por via terrestre – I

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uando os colonizadores portugueses decidiram desativar a cidadela de Mazagão, no Marrocos, deslocando para a Amazônia parte do contingente populacional que ali residia, um processo seletivo indicaria os que ficariam em Lisboa e os que se estabeleceriam em Belém do Grão Pará e Nova Mazagão. Diferente de Macapá, que surgiu como povoado, Nova Mazagão despontou como vila. Os dois núcleos eram necessários para firmar a soberania lusitana na Amazônia Oriental. Nova Mazagão, devido a sua localização enfrentou mais problemas do que Macapá, chegando ao ponto de ver muitos vilarinhos abandonarem o burgo em busca de lugares mais propícios para viver. Não fosse a persistência dos menos favorecidos economicamente, a vila poderia ter se revelado um grande fracasso. Em dado momento, devido às chamadas doenças de mau caráter, como o sarampo, tifo e malária, as autoridades estabelecidas em Belém chegaram a pensar em promover a transferência dos moradores para a Colônia D. Pedro II, no Rio Araguary. Como o empreendimento que redundou no surgimento de Ferreira Gomes também capengava e os custos para a mudança revelaram-se elevados, Nova Mazagão escapou da extinção. O Rio Mutuacá (mata do mutum) é um tributário do Amazonas cuja nascente está localizada no Lago dos Aruãs a montante da vila de Mazagão Velho. Recebe dois importantes afluentes: o Ajudante, pela margem esquerda e o Igarapé Grande pela margem direita. O Mutuacazinho, à esquerda de seu curso provém dos lagos acima do Carvão. A localização de Nova Mazagão foi instalada numa área de terras altas, delimitada pelo Igarapé Piri e pelo próprio Mutuacá. Este caudal teve sua denominação alterada pelos moradores da região para “rio de Mazagão Velho” ou simplesmente Mazagão Velho. O trecho estreito do Mutuacá, que passa em frente ao  núcleo populacional já foi um pouco mais cargo e profundo permitindo a entrada de embarcações de razoável calado. O estreitamento e assoreamento decorreram de questões geológicas e não de uma praga lançada sobre o rio por um padre da Ordem de Nossa Senhora da Piedade. Nos dias atuais, os bergantins utilizados no inicio da instalação da vila teriam problemas para alcançar o trecho. Entretanto, as viagens programadas para este tipo de embarcação aconteceram no período invernoso com a ocorrência de maré laçantes. Os mazaganenses, que já foram identificados como mazaganistas, se acostumaram a percorrer longos estirões por via fluvial. A maioria do pessoal utilizava pequena canoa classificada como “montaria”. Quem possuía condição financeira mais confortável navegava em regatões, batelões e vigilengas. Mesmo nas montarias, os caboclos improvisavam velas quando o vento era favorável. Estas “velas” podiam ser folha de açaizeiro, galho de árvore ou singelas bujarronas preparadas com tecidos de velas descartadas pelos donos de canoas grandes. Vieram, progressivamente, os motores a vapor, os motores a óleo e os motores de popa. O morador de Mazagão Velho, que precisasse empreender uma viagem para Macapá, recorria aos proprietários de canoas grandes a vela ou se disponibilizavam a remar por até 8 horas na vazante da maré. Para alcançar a região cortada pelos rios Navio, Maracá, Cajary e Jarí, o tempo de viagem era bem superior. Para ir a Belém, o mazaganense recorria aos préstimos dos comerciantes donos de canoas grandes a vela. Os mutuacaenses sabiam a programação das viagens de seus “patrões”, para os quais vendiam as sementes oleaginosas (murumuru, apracaxi, ucuuba e andiroba), repassadas à Praça de Belém para o fabrico de sabão e velas votivas. Assim, embarcavam no navio gaiola “Sapatinho de Noiva” (Clodóvio Coelho), na lancha “Ondina” (Senador Flexa), barco “Corsário” e canoa “Patrulha” (Francisco Torquato), “Cidade de Mazagão” (João Potock) e outras. A conta do isolamento, de Mazagão Velho perdeu a escala dos navios “Cassiporé” e “Oyapoque”, que ingressavam no rio Mutuacá, mas não podiam chegar até o porto de Mazagão Velho, surgiu, em 1915, Mazaganópolis (Cidade de Mazagão). Instalada na margem direita do Furo do Beija flor, a nova sede do município suavizou a questão do isolamento, mas não o eliminou.


Um Natal marcado pela tristeza

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A noite do dia 24 de dezembro de 1944 começava a dominar a pequena Macapá, quando o Posto Telegráfico recebeu uma mensagem passada de Vargem Grande, dando conta de que o padre Júlio Maria Lombaerd havia falecido em circunstâncias trágicas. Imediatamente, com a comunicação impressa em telegrama, o estafeta foi à Casa Paroquial entregá-lo aos padres Phelipe Blanke e Antônio Schulte, religiosos que, a exemplo do padre Júlio, integravam a Congregação da Sagrada Família, estabelecida em Macapá desde o ano de 1911.

Os sinos do campanário da Igreja São José passaram a executar o toque fúnebre de maneira intermitente, atraindo a população para frente do templo. Procurando conter a emoção, o padre Felipe Blanke, vigário da Paróquia de Macapá, repassou a todos a notícia que havia recebido. Há 22 anos o padre Júlio tinha deixado Macapá, fugindo da malária que o fustigava. Depois de atuar algum tempo na Vila Pinheiro (Icoaraci), no Pará, foi fixar-se em Manhumirim, no estado de Minas Gerais. A população ainda tinha viva na memória a figura do padre Júlio, um homem decidido que tantos benefícios trouxe para a então abandonada cidade paraense de Macapá e tinha por ela uma grande amizade. Júlio Emilio Lombaerd nasceu na Bélgica, no dia 7 de janeiro de 1878. Aos 17 anos, a 1º de novembro de 1895, em Maison Carré, África, recebeu o hábito sacerdotal. Sua consagração ocorreu a 18 de abril de 1897, aos 19 anos de idade. A recepção diaconal verificou-se a 6 de outubro e a ordenação sacerdotal a 13 de junho de 1908. Em setembro deste ano despediu-se dos familiares e embarcou para o Brasil, com destino a pobre e diminuta cidade paraense de Macapá. No dia 15 de outubro de 1908, o navio que transportava o Padre Júlio chegou a Pernambuco. Ele passaria quase 5 anos trabalhando em Recife, Natal e Belém.Chegou a Macapá no dia 27 de fevereiro de 1913, sendo recebido na Doca da Fortaleza pelos sacramentinos José Lauth (vigário de Macapá desde 1911) e Hermano Elsing, vigário de Mazagão, dois velhos amigos dos tempos de seminário. Em pouco período de tempo percorreu toda a região do atual Estado do Amapá e quase morreu ao ser picado por uma mosca peçonhenta na serra do Tumuc-Humac. A 2 de maio de 1913, foi nomeado pelo governador do Estado do Pará, Enéas Martins, para o cargo de Diretor das Escolas Reunidas de Macapá, fato que fez melhor consideravelmente o desempenho das mesmas, Padre Julio era empreendedor nato e fundou várias instituições benfazejas em Macapá: Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria, Colégio e Orfanato Santa Maria, Cine Olímpia, Filarmônica São José e a Farmácia Comunitária. Na Ilha de Santana instalou a casa destinada ao retiro dos religiosos da Congregação da Sagrada Família. Sob a gestão dos padres italianos do Pontifício Instituto das Missões Estrangeira esta propriedade funcionou como pensionato e seminário. No atual bairro Buritizal o saudoso sacerdote belga criou a Fazenda Santa Maria, em cujas terras se fez a instalação do atual Cemitério São José.

Na fazenda ficavam os animais que os criadores de Macapá doavam ao santo padroeiro da cidade, que ali permaneciam até o dia do leilão a 19 de março. Antes da chegada dos padres sacramentinos, era o Padre François Rellier, francês com atividades na Guiana Francesa que prestava assistência espiritual aos macapaenses. O povo quase não ia à igreja e uma considerável parcela dele se devotava ao espiritismo africano e usava santos para angariar dinheiro em proveito próprio. O Padre Júlio reduziu drasticamente esta prática e por isto ganhou a antipatia dos espertalhões.

A comunidade negra deve a ele a organização da festa das coroas que ainda hoje simbolizam o Divino Espírito Santo e a Santíssima Trindade nas duas quadras do Marabaixo. Porém, em 1923, o Padre Júlio precisou deixar Macapá para livrar-se da malária. Levou consigo as religiosas da Congregação das Filhas do Coração Imaculado de Maria e todo o acervo das instituições que criara. Fixou suas atividades na então Vila Pinheiro (Icoaraci), no Estado do Pará, onde as freiras residiram até transferirem suas ações para Caucaia, no Ceará, onde ainda existe a Congregação. Padre Júlio não tardou a arribar com passagem por Alecrim, no Rio Grande do Norte e Rio de Janeiro. Em busca de um clima mais ameno o ilustre vigário escolheu Manhumirim para reiniciar sua brilhante trajetória religiosa. Construiu o Hospital São Vicente de Paulo, o Seminário Apostólico, o Jornal “O Lutador” e outros empreendimentos. Em Dores de Indaiá, cidade mineira erigiu o Seminário São Rafael. Em 1931, no período da Ditadura Vargas, Padre Júlio foi acusado de ser integralista nazista e rebelde às autoridades brasileiras. Respondeu com muito altruísmo ao processo que lhe foi movido, sendo declarado inocente a 31 de outubro de 1931. Somente depois da decisão judicial ele recebeu o titulo de cidadão brasileiro e passou a usar o nome Júlio Maria de Lombarde. Nos dias atuais, a Fundação Padre Júlio atua em diversas partes do Brasil.


O verde território da esperança

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Nasci no ano de 1944, quando a implementação do Território Federal do Amapá ocorria de forma acelerada. A área que passou a integrar a nova unidade criada em 13/9/1943 era relegada pelo Estado do Pará e já havia sido desejada por aventureiros, principalmente pelos franceses. A falta de infra-estrutura social e econômica era patente. A cidade de Macapá, sede do antigo município de igual denominação, jurisdicionado ao Pará, não possuía água encanada, energia elétrica, hospital e empreendimentos geradores de empregos. Em pouco tempo, o panorama mudou radicalmente. Subordinado ao Ministério da Justiça e Negócios Interiores, o Amapá tinha que andar na linha.

O governador Janary Gentil Nunes, paraense natural de Alenquer tinha perfeita consciência de que sua missão atendia exigência da segurança nacional. Desenvolveu seu trabalho enfrentando mudanças radicais no alto escalão da Nação tendo como principal galardão sua eficiência e probidade. O povo recebeu com simpatia a filosofia por ele implantada, evidenciando o otimismo em relação ao futuro e a crença de que tudo precisava mudar. Nas escolas públicas, os estudantes aprenderam a dar valor ao civismo. Sem o amor de seus filhos, o Amapá não progrediria. Usava-se com freqüência a expressão: “Amapá, o Verde Território da Esperança”. O Amapá era e ainda é verde, mas a esperança está passando ao largo, como um navio pilotado por aventureiros, sem rumo certo. Apesar de haver portos bastante seguros, onde a embarcação possa atracar, os comandantes buscam um destino sem fundamentos morais e éticos. O melhor atracadouro é a esperança, que precisa ser entendida como condição de progresso. A palavra vem de esperar, ansiar, almejar. Esperar que a nossa terra seja respeitada,seu povo valorizado, a riqueza que produzimos retorne à população em forma de educação, saúde, segurança e emprego. Os eleitores amapaenses precisam rejeitar os oportunistas, que se prevalecem de cargos eletivos para surrupiar o dinheiro público. No decorrer das campanhas eles agem como autênticos “santos do pau oco”. Depois de eleitos revelam um cinismo revoltante, mostrando que não cultuam o civismo e são capazes de praticar atos abomináveis.

O verde, da frase que titula este artigo teve inicialmente o sentido de novo. O verde das nossas matas e campos vem sendo preservado a custa de muito esforço dos cidadãos residentes no meio rural e por força das leis de proteção ambiental. É tão importante, que passou a nominar um projeto concebido pelo Senador José Sarney propondo a criação da Zona Franca Verde no Amapá. Ontem, dia 18/12/2015, a Presidente Dilma Rousseff sancionou a nova lei, renovando as esperanças dos amapaenses. Considerada um corredor econômico, que viabiliza a instalação de indústrias para a fabricação de produtos com matéria prima de origem animal, vegetal e mineral, a ZFV oferece atrativos às indústrias que desejarem se instalar no Amapá. Em épocas mais recuadas, em Calçoene, tivemos uma fábrica rudimentar, que extraia essência de pau-rosa, vendendo-a a japoneses, europeus e norte-americanos. Desde o meu tempo de guri, ouço dizer que os campos do Amapá não prestam para a agricultura. A terra é improdutiva e ácida. Como não presta? A Companhia Progresso do Amapá-COPRAM, empresa que integrava o grupo do empresário Augusto Antunes usou uma vasta faixa de serrado para plantar cana-de-açúcar e o resultado foi excepcional.

A empresa pretendia implantar uma fábrica de açúcar para produzir 100 mil sacos do produto ao mês. Infelizmente, manobras dos grandes usineiros do Nordeste impediram a concessão da licença federal. A COPRAM ateou fogo na plantação e a liberou para quem quisesse retirar canas da área. Experimentos com soja registram bom nível de produtividade, até mesmo nos campos do Curralinho, bem perto de Macapá. Ora, se os campos de Rondônia e os lavrados de Roraima estão sendo utilizados para o desenvolvimento de grandes empreendimentos agrícolas, por que, nos campos do Amapá o mesmo não pode acontecer? No primeiro semestre de 2016, o governo federal deverá regularizar as terras do Amapá e isso ajudará a mudar esta triste realidade.


Pauxi Nunes, um desportista esquecido

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Pauxy Gentil Nunes, filho do comerciante Ascendino Nunes e Laury Nunes, portanto irmão de Janary Gentil Nunes, primeiro governador do Território Federal do Amapá, nasceu na cidade de Alenquer, no Estado do Pará, no dia 27 de fevereiro de 1918. Estudou o primário na cidade natal. O Ginásio (primeiro ciclo) e o curso de Humanidades (segundo ciclo) foram feitos em Belém, no Colégio Progresso Paraense. Depois de passar alguns meses atuando em Macapá, integrando a equipe de governo do irmão, seguiu para o Rio de Janeiro onde passou a trabalhar no Instituto dos Bancários. Formou-se como Contador, no dia 5 de dezembro de 1947 e ingressou na Representação do Governo do Amapá na capital federal. Amante dos esportes, principalmente do futebol, Pauxy Nunes assumiu um papel relevante dentro da Representação do Amapá, articulando-se com os grandes clubes cariocas e com a Confederação Brasileira de Desportos no sentido de estruturar e desenvolver o futebol do Amapá.

A 26 de fevereiro de 1944, participou da histórica reunião que redundou na fundação do Amapá Esporte Clube. Ao lado de Francisco Serrano, Manuel Eudóxio Pereira (Pitaica), Zoilo Pereira Córdova, Eloy Monteiro Nunes (seu tio) e outros abnegados desportistas fez valer a preferência do grupo pelas cores do Botafogo de Futebol e Regatas. Posteriormente, quando a agremiação passou a figurar com o designativo Amapá Clube, as letras iniciais do nome foram colocadas no interior da “Estrela Solitária”. O futebol de Macapá era excessivamente amador.

Os presidentes dos clubes, influentes no governo, promoviam a vinda de jogadores de Belém compensando-os com empregos nas repartições públicas. Entretanto, sem uma mentora regional organizada na forma da legislação exigida pela Confederação Brasileira de Desportos, o Amapá jamais participaria de uma competição oficial. A fundação da Federação de Desportos do Amapá, a 26 de junho de 1945 foi um acontecimento memorável. A idéia da sua criação partiu de Pauxy Nunes, a quem os dirigentes de clubes conferiram a presidência. Até que ela funcionasse normalmente, muitos momentos de inércia foram registrados. Depois da criação da FDA os clubes preocuparam-se com o aspecto organizacional. Em 1947, aconteceu o primeiro campeonato e o Esporte Clube Macapá conquistou o titulo Por solicitação de Pauxy Nunes a CBD prometeu incluir o Território do Amapá nas disputas do Campeonato Brasileiro de Futebol entre seleções das unidades federadas, caso o governo territorial construísse um estádio.

O espaço da Praça capitão Assis Vasconcelos (Veiga Cabral) não possuía área para acomodar o novo empreendimento. Aliás, o campo sequer possuía as medidas mínimas toleradas pela FIFA e CBD. No dia 15 de janeiro de 1950, o Estádio Territorial era inaugurado com o jogo Pará 1×0 Amapá. Desde este momento até julho de 1953 foi o Delegado da FDA junto a CBD, transferindo a função para Kepler Navegante Mota. No Dia 7 de novembro de 1954, por iniciativa de Pauxy Nunes, contando com o apoio do governo e da CBD, aconteceu, em Macapá, um congresso das federações desportivas do Norte e Nordeste do Brasil. Dirigiu o evento o senhor Rivadávia Correa Mayer, presidente da mentora mater nacional. Seu vice era Jean-Marie Goodefroide de Havelange. Idêntica promoção ocorreu em Salvador, nos dias 27 e 28 de 1957, de âmbito nacional.

O tenente José Alves Pessoa era o presidente da Federação de Desportos e o Prof. Mário Quirino exercia o cargo de presidente da Federação de Desportos Aquáticos. Pauxy Nunes se encontrava em Macapá, na condição de Secretário Geral (vice-governador) do Amapá e deus aos próceres mencionados todo o apoio necessário para que eles fossem a Bahia. Neste encontro foi lançada a candidatura de Havelange para a presidência da CBD. As ações de Pauxy Nunes visavam o esporte amador e foram sentidas nos Estados e Territórios Federais, Ainda nos dias atuais, na cidade de Icoaraci/Pará é realizado o Torneio Pauxy Nunes. Além do desporto, Pauxy tem o mérito de ter sido o primeiro governante a promover o asfaltamento de algumas ruas de Macapá, transferir o aeroporto para uma área mais distante do centro urbano e assistir melhor o interior.


Proclamação da República do Brasil

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As ideias republicanas existiam no Brasil desde o tempo em que ele era colônia de Portugal, despontando a Inconfidência Mineira como o primeiro movimento neste sentido. Durante o regime imperial, elas ganharam mais adeptos e eram pregadas abertamente. Em novembro de 1870, no Rio de Janeiro, um grupo de idealistas fundou o 1º Clube Republicano. A 3/12 do citado ano, eles lançaram o “Manifesto Republicano”, publicado no jornal “A República”. Antes desse feito, os estudantes do Rio de Janeiro fizeram circular um jornalzinho denominado “O Radical Acadêmico”, impresso em 9/6/1870.

Entre os feitores do periódico estava o médico, jornalista e político Lopes Trovão, ativo propagandista das idéias republicanas. Ainda no ano em epígrafe, em São Paulo, surgia outro Clube Republicano, cuja liderança mais expressiva era Manuel Ferraz de Campos Sales, que viria a ser o 4º Presidente da República, período de 1898 a 1902. Em 1873, os republicanos reuniram-se na famosa Convenção Republicana de Itu, no interior de São Paulo, na casa do então Deputado Prudente de Moraes. Na condição de parlamentar, ele representou as classes liberais e os conservadores. Compareceram 133 convencionais, 78 cafeicultores e 55 profissionais de diversas áreas.

As ações desenvolvidas pelos republicanos não tinham nada de pessoal em relação ao Imperador D. Pedro II, que era bastante estimado. Porém, uma série de fatores mostrava que o regime monárquico estava decadente e inadequado para um país como o Brasil. Desde 1865, quando teve inicio a Guerra do Paraguai, o animo dos oficiais militares foi influenciado pela propaganda que visava dar fim à monarquia.

Em 1874, os Bispos D. Macedo Costa (Pará) e Frei Vital Oliveira (Bahia), estribados em bula concebida pelo Papa Pio IX, eliminou das Confrarias Religiosas quem fosse maçom e declarava-os excomungados. Ocorre que as ordenações papais não eram aprovadas pelo governo, pois feriam a Constituição do Império. Em função disso, os Bispos foram condenados a 4 anos de prisão e trabalhos forçados.Á época, o catolicismo era a religião oficial do Brasil e o Imperador tinha posição relevante na Igreja.D. Vital e D. Macedo Costa cometeram crime de responsabilidade civil por desrespeitarem a Carta Magna.Isso levou os católicos a aceitar as idéias republicanas. Nos cursos jurídicos de São Paulo e Olinda os ataques que o poeta Castro Alves fazia contra a escravidão e à monarquia motivaram os alunos a aderirem à campanha republicana. A Questão Militar, gerada pelos incidentes entre militares e Ministros causou danos irreversíveis.

Os Ministros proibiram que os militares discutissem assuntos de Exército e da Marinha através da Imprensa. Por ter descumprido a ordem, o tenente-coronel Antonio de Sena Madureira foi punido, Ele havia concedido entrevista ao jornal “A Federação”. Os protestos evoluíram nos quartéis. Em Porto Alegre, o Marechal Deodoro da Fonseca, que tinha enorme liderança no país, promoveu uma reunião onde os militares protestaram contra a liberdade de expressão. Foi chamado ao Rio de Janeiro com urgência para conversa com D. Pedro II. Sua punição era tida como certa, mas a aclamação que seus colegas de farda lhe proporcionaram levou o Imperador a anular a punição aplicada a Sena Madureira. Outra causa importante foi a abolição da escravatura. A medida gerou profunda transformação econômica. Libertos, os negros deixaram as fazendas de café, gado, cana-de-açúcar e outras atividades produtivas, ocasionando a escassez de mão-de-obra e a falência de muitos produtores, que se revoltaram com o Imperador.

Dia 14.11.1889, o major Sólon Ribeiro espalhou o boato que o Ministério do Visconde de Ouro Preto tinha decretado a prisão de Deodoro da Fonseca. O marechal estava enfermo em sua residência, mas, mesmo assim foi, no dia 15, levado a juntar-se a outros lideres republicano e aos militares em Campo de Santana. Deodoro comandou a tropa até o Quartel General e destituiu ouro Preto do cargo de 1º Ministro. Este mandou que o marechal Floriano Peixoto enfrentasse os republicanos. Além de recusar-se a cumprir a ordem, Floriano Peixoto juntou-se aos revoltosos. Estava proclamada a República.


Rodovia Mazagão Velho-Mazagão Novo

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Em 1949, um grupo de homens destemidos, residentes em Mazagão Velho, decidiu desencadear uma empreitada homérica, que a maioria de seus conterrâneos considerou coisa de louco. A figura proeminente da turma era Washington Elias dos Santos, jovem que integrou o contingente de soldados da Amazônia na campanha que a Força Expedicionária Brasileira realizou na Itália durante a Segunda Guerra Mundial. A partir de agosto daquele ano, quando a estiagem começava a marcar sua presença, os valentes mazaganenses passaram a reunir para tratar da abertura do pico da estrada que ligaria o burgo onde nasceram à cidade de Mazaganópolis, então sede do município de Mazagão.

Os que ouviam falar de tal propósito giravam o dedo indicador ao lado direito da cabeça, insinuando que os desbravadores deveriam estar doidos. Como é que alguém, em sã consciência, aparecia com uma novidade tão absurda? Se o governo do Território Federal do Amapá ainda não havia tomado a iniciativa para realizar a obra era porque a floresta, as áreas alagadas, os rios e igarapés se apresentavam como obstáculos difíceis de ser vencidos. Outro grande problema sempre era lembrado, a malária. Naquele tempo, a doença imperava no interior e causava muitos estragos na saúde dos que precisavam penetrar nas matas em busca de alimentação e para coletar produtos com boa aceitação no comércio. Além de Washington Elias dos Santos, popularmente conhecido como “Vavá”, os intrépidos Osmundo Barreto e Laudelino Maia Barreto, o Lódio, afirmavam que o pico da estrada poderia ser feito sem riscos eminentes. O povo ouvia os comentários e apoiava a pretensão, afinal de contas, estava cansado de empreender viagens desgastantes entre Mazagão Velho e Mazagão Novo usando pequenas canoas rotuladas como “montarias”, “cascos”, ”batelões” e “reboques”. Deslocamentos em embarcações motorizadas era coisa rara naquele tempo. Na vila de Mazagão Velho apenas duas pessoas possuíam motores de popa.

O comerciante Inácio Santos, pai do “Vavá” tinha um Archimedes de 12 HP. O capitão da Guarda Nacional Wolfgang Fonseca, ex-vereador nos idos do Conselho de Intendência Municipal, quando o Pará mantinha jurisdição na região, valia-se de um Johnson de 25 HP, mais veloz que o Archimedes e menos possante. Transitar numa ubá propulsionada por um motor de popa era privilégio de poucos. A gasolina não era cara e só podia ser comprada em lata com 20 litros e tambores com 200 litros. A granel só os comerciantes podiam vender. Os reboques adaptados com vela ajudavam bastante, mas apenas quando havia vento. Canoas e barcos movidos a vela quase sempre andavam abarrotados de madeira, sementes oleaginosas e mercadorias decorrentes de fretes. A propulsão das montarias, cascos e batelões provinha do remo. Por esta razão, os pobres viajantes programavam seus deslocamentos na “reponta da maré”. Remar contra amare só por necessidade. Para sair da vila de Mazagão Velho, descer o rio Mutuacá até sua foz e depois enveredar à esquerda no sentido de Mazagão levava, se os remadores caprichassem no serviço, cerca de 8 a 10 horas. Munidos de machados, terçados, serras, serrotes, machadinhas, cordas e rancho, os desbravadores iniciaram o trabalho voluntário seguindo o “rumo da venta”.

O trecho menos complicado foi o compreendido entre Mazagão Velho e a vila do Ajudante, banhada pelo rio de igual denominação. Progressivamente o grupo foi avançando até despontar em Mazagão. Cumprida a nobre missão, os devotados mateiros aguardaram que o governo assumisse o compromisso de mandar tratores e caçambas. Não foi fácil colocar as máquinas em operação. Apenas um trator e uma caçamba foram transportados, por via fluvial para Mazagão. A caçamba saiu de Macapá com o motor funcionando, acelerado para não “morrer”. Noite e dia ela foi mantida em tais condições até que uma bateria chegasse de Belém, Também tinha problema no motor de arranque, por isso ela ficava parada num declive. Se o motor “apagasse”, o motorista soltava o freio de mão e fazia o “tranco”.Pior seria se ela precisasse de manivela.


Revendo Mazaganópolis

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Há quase três anos eu não ia a Mazagão. Havia dito que apenas uma razão muito forte me faria enfrentar a problemática e demorada travessia do rio Matapi. Nem as festas de devoção que são realizadas em Mazagão Velho eu fui prestigiar. Tinha decidido que só voltaria à cidade onde fui gerado e vivi meus primeiros cinco anos de vida após a conclusão das obras da ponte que separa as terras de Santana e Mazagão. Porem, dia 25.11. 2015, a razão forte se evidenciou, correspondendo a uma solenidade elaborada pelo Cram/Mzg. O convite para retornar ao pago que considero meu torrão natal partiu do amigo César Bernardo de Souza, que mantém permanente vigilância e precaução contra uma neoplasia em seu intestino e está engajado nos trabalhos coordenados pelo Instituto Joel Magalhães (Ijoma).

O professor Antonio Munhoz Lopes também fez parte do trio aventureiro. A despeito do fortíssimo calor, haja vista que o ar condicionado do carro do César está sem refrigerar, enfrentamos um trânsito morrinha por dentro de Santana (antiga Vila Maia) até alcançar a margem esquerda do Rio Matapi. Do outro lado do caudal havia uma viatura nos esperando, devidamente climatizada. Embarcamos na balsa do governo, que parecia uma lata de sardinhas devido ao aglomerado de carros, motos, bicicletas, gente e cachorros. Se dependesse de usar meu carro eu não teria ido. No decorrer da travessia pude contemplar a bela ponte que se estende sobre o rio e ficar aporrinhado com a insensatez dos projetistas. Se a cabeceira do lado de Santana tivesse sido direcionada para repousar sobre o asfalto da rodovia, ela já estaria pronta. Entretanto, por razões dúbias, uma guinada à direita direcionou-a para uma área de preservação ambiental. Dizem que nada foi feito por acaso. Teria havido a intenção de desapropriar uma área pertencente a um cidadão identificado com os governantes anteriores a Waldez. O Professor Munhoz também ficou indignado. Concluída a travessia do Rio Matapi apanhamos a viatura que nos esperava e rumamos para Mazagão. Novo desencanto quando via a fumaceira gerada pela queima da vegetação localizada nos dois lados da rodovia. Sinais evidentes de invasão são vistos, mas nada consta em relação à ação proibitória da SEMA e do IBAMA. Transpomos o Rio Maracapucu (chocalho comprido em tupy), que o povo teima em chamar de Anauerapucu.

A povoação ali estabelecida deve ser identificada como Maracapucu, visto que a escola local é que tem a designação de Anauerapucu. Somente depois de trafegarmos pela ponte Miguel Pinheiro Borges, estendida sobre o Rio Anauerapucu (anauera comprido) é que comecei a perceber algumas melhorias em termos de residenciais no trecho antes do Furo do Beija-Flor, onde existe uma ponte de concreto, a primeira do trecho, construída no governo de Aníbal Barcellos á frente do Território Federal do Amapá. Depois de três anos de ausência, notei que a cidade de Mazagão já não é aquele burgo relegado de outros tempos. Em breve, várias de suas ruas receberão revestimento asfáltico e a rodovia que a liga a Mazagão Velho está sendo pavimentada.

Quando a ponte do Rio Matapi for aberta ao público, quem se destina a Laranjal e Vitória do Jarí vai poder empreender a viagem passando por Mazagão, abreviando o percurso em mais de 100 quilômetros. Minha ida a Mazagão teve a ver com uma importante solenidade elaborada pelo Centro de Referência e Atendimento à Mulher – Cram/Mazagão, em parceria com o Ijoma. Fomos cordialmente recepcionados pela Psicóloga Gabriela Picanço, que desenvolve suas atividades profissionais na citada instituição, inaugurada no dia 18 de julho de 2013. O surgimento do CRAM veio em decorrência de um convênio firmado entre a Secretaria de Justiça e Segurança Publica/SEJUSP e a Secretaria de Políticas Para Mulheres, da Presidência da República. A patrona do CRAM é Francisca Jucilene da Silva do Nascimento, que foi morta por seu ex-companheiro no dia 9.5.2013, aos 27 anos de idade., na cidade de Mazagão. O auditório do Fórum de Mazagão ficou lotado, contando com a presença de estudantes, comunitários, políticos. Uma exposição de slides mostrou detalhes sobre o câncer de próstata e os cuidados que os homens precisam ter caso a doença os atinja.