Deus nos fala

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Evangelho de Lucas 21, 25-28.34-36
“Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra a aflição e a angústia apoderar-se-ão das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definharão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda a terra. As próprias forças dos céus serão abaladas. Então verão o Filho do Homem vir sobre uma nuvem com grande glória e majestade. Quando começarem a acontecer estas coisas, reanimai-vos e levantai as vossas cabeças; porque se aproxima a vossa libertação. Velai sobre vós mesmos, para que os vossos corações não se tornem pesados com o excesso do comer, com a embriaguez e com as preocupações da vida; para que aquele dia não vos apanhe de improviso. Como um laço cairá sobre aqueles que habitam a face de toda a terra. Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do Homem.”

O evangelista Lucas nos encoraja, dizendo que o Senhor está para chegar. Essa é uma palavra de grande esperança. O retorno do Filho do Homem, de fato, é super consolidado e confirmado em todo o Novo Testamento. E como acontecerá isso? Todo mundo, desejoso de saber, encontra nesses versículos uma excelente descrição. Veja bem, essas imagens cósmicas, descritas aqui, o que nos sugerem de fato? Medo, terror, preocupação? Nada disso! Essas imagens têm na verdade um sentido positivo, porque nos ajudam a discernir o começo da nova criação, tão proclamada por toda a Sagrada Escritura, que vai substituir à antiga.

E essa nova criação tem a tarefa de manifestar a chegada do Filho do Homem, que introduz o início dos novos tempos, que é o Reino de Deus. Um Reino próximo das pessoas, bem humano; e as comunidades cristãs têm a missão de fazer da história da humanidade uma solidariedade com essa nova criação de Deus. Por isso, não podemos ficar parados, mas devemos-nos ‘levantar e erguer a cabeça’ para sermos parte viva dessa nova realidade de Nosso Senhor Jesus. Essa certeza vai ajudar a derrubar todas as outras seguranças que o ser humano constrói na sua história.

Experimente a refletir somente alguns segundos para ver como a gente vai criando no nosso dia a dia as próprias certezas. É verdade que a gente precisa ter algo para não se deixar levar pelas inseguranças que podem gerar instabilidade, medo etc., mas precisa ver também quais são essas certezas, de que tipo. Nesse sentido, devemos sempre nos confrontar com a proposta do nosso mestre Jesus para termos consciência das nossas opções cristãs. É nisso que seremos julgados. A vinda dele é garantida e não temos dúvidas; e por isso é nele que se concentram as nossas vidas. Além do mais, Lucas acrescenta que essa vinda, essa libertação é próxima.

Isto é, que a nossa vida é já envolvida na chegada das ‘últimas realidades’. Não somos mais assim estranhos à vida de Deus. Por isso, Jesus nos convida a prestar bem atenção a esses momentos de Deus que nos propiciam as riquezas da nossa vida. E como fazer isso? Através da constante vigilância e a oração. O que quer dizer isso? Sabemos com certeza máxima que Deus vem, agora quando Ele vem a gente não sabe, aliás, Ele vai chegar quando menos esperar. Nesse sentido, precisamos ser sempre prontos para acolhê-Lo. Como? Não se distraindo com as preocupações da vida, dissipações, bebedeiras; rezar todos os dias para confiar cada vez mais em Deus.

Portanto, vigilância e serenidade pela oração geram a paz que permitem o verdadeiro encontro com o nosso Deus. Assim sendo, as nossas seguranças se fundamentam nas Palavras de Jesus, porque o mundo de verdade passará, mas as suas Palavras não passarão. E Ele nos confirma que ninguém sabe quanto ao tempo do fim do mundo.

Nós temos uma só coisa a fazer: seguir Jesus com toda a nossa vida. Esta é a única certeza por parte nossa. Concluindo: qual é a sua maior preocupação? O ensino de Jesus é determinante na sua vida?


Deus nos fala

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O evangelista João nos apresenta a figura de Pilatos como o intérprete da verdade sobre o Mestre Jesus. Ele é um governador romano, portanto, não judeu, excluído do povo escolhido, que tenta compreender quem é Jesus. Por isso, João nos mostra que Pilatos direciona ao Mestre três perguntas. E além de tentar inocentá-lo, queria mesmo descobrir a verdade sobre Ele. Na primeira pergunta Jesus lhe respondeu: “Falas assim por ti mesmo ou outros te disseram isso de mim?”. A indagação de Jesus era para saber se Pilatos estava mesmo disposto a se questionar profundamente sobre a verdade de Deus ou era somente uma sua curiosidade.

Quantas vezes, também entre nós, acontece de querermos fazer uma experiência de Deus somente por mera curiosidade, superficialmente, porque temos medo de nos questionar até no fundo da nossa ‘alma’! Insiste Pilatos, quase como desprezando os chefes dos sacerdotes e o povo judeu, a ter uma resposta por parte de Jesus. Mas o Mestre responde, citando por bem três vezes “o meu reino”. O que quis dizer o Messias com isso? A realeza do Cristo está totalmente ligada a Deus, que se realiza através do seu amor para cada criatura humana. Esta realeza submetida a Deus nunca poderá aceitar compromissos com outros poderes para sobreviver.

Não pode nem ser confundida com poderes desse mundo: “meu Reino não é daqui”. Porém, com isso, não quer dizer que não tem nada a ver com o mundo e as nossas realidades que vivemos, mas que a sua origem não é desse mundo porque não se funda, não se plasma sobre os valores, os conceitos de vida e os pontos de vista do poder mundano. Assim sendo, a realeza de Jesus é para testemunhar a verdade de Deus Pai, pela qual temos a salvação. Com isso, devemos, como bons súditos, saber escutá-lo e segui-lo para poder garantir a nossa vida. Ele é o nosso rei e nós, como fiéis obedientes, depositamos a total confiança, porque tudo faz pela gente.

O Reino dele revela outro poder em que não existem escândalos, traições, iniquidades; onde o maior é o menor e os pobres têm vez. Para discerni-lo e ter capacidade de ingressar nele precisa renascer do ‘alto’, renascer de novo da água e do Espírito. É necessário sabê-lo valorizar acima de todas as propostas do mundo. O Reino de Jesus Cristo é isento de violência e de mandões. Ele é totalmente transparente e cheio de luz, não se compromete com as trevas; e é capaz de chegar até a cruz para fazer prevalecer o verdadeiro amor. Tudo isso nos leva a optar pela verdade e não pela mentira, algo que favoreça a vida de Deus.

Quem não se compromete com tudo isso demonstra não fazer uma sincera busca da verdade, porque é demais preocupado com outros compromissos que o mundo lhe oferece. Concluindo, lhe pergunto: qual o reino que está querendo? Quer conhecer melhor Jesus para se comprometer com ele e reconhecê-lo como seu rei e Senhor?


Louvai, ó servos do Senhor!

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A graça, dom de Deus para nós, reconduz-nos à condição de filhos e filhas amados. Nós tínhamos nos apartado dessa condição com o pecado original. Com Cristo, o Novo Adão, somos chamados a fazer parte da Nova Criação. Todos, independentemente de nossos méritos, somos alvo da graça de Deus. A graça, portanto, não nos autoriza a soberba, não nos autoriza a nos sentirmos melhor que os demais. Graça é dom de Deus em sua liberdade e em seu amor, para nós, filhos e filhas.

Fazer a graça frutificar, traduzir a graça recebida em obras e em amor fraterno, depende de nós, de nossa participação! Temos visto como Maria, que encontrou graça no Senhor, deu o seu sim e participou, assim, de nossa transformação rumo ao bem, por meio de seu filho Jesus. Assim, te convido a louvar o nosso Deus com o salmo 112 das Sagradas Escrituras.

“Aleluia. Louvai, ó servos do Senhor, louvai o nome do Senhor. 2. Bendito seja o nome do Senhor, agora e para sempre. 3. Desde o nascer ao pôr-do-sol, seja louvado o nome do Senhor. 4. O Senhor é excelso sobre todos os povos, sua glória ultrapassa a altura dos céus. Quem se compara ao Senhor, nosso Deus, que tem seu trono nas alturas, 6. e do alto olha o céu e a terra? 7. Ele levanta do pó o indigente e tira o pobre do monturo 8. para, entre os príncipes, fazê-lo sentar, junto dos grandes de seu povo. 9. E a mulher, que, antes, era estéril, ele a faz, em sua casa, mãe feliz de muitos filhos.”

Agora vamos tentar entender um pouquinho o salmo. Esse hino faz parte da liturgia judaica da Páscoa e também da Pentecostes e das Cabanas. Seguindo as indicações seja da Mishnah que do Talmud, as grandes coletas das tradições hebraicas, os salmos ‘112 e 113 A’ eram recitados antes da ceia pascal, e no final da ceia se orava os salmos ‘113 B e 117’. Esses salmos do louvor têm ou no começo ou no fim o famoso ‘Aleluia’, isto é, ‘louvai Deus’.

É um salmo sucinto e podemos dividi-lo em três estrofes. A primeira que vai dos versículos de 1 a 3 é dedicada ao louvor do nome santo de Deus, da sua pessoa. Isto é celebrado e hosanado pelos fiéis, em forma de ladainha, por três vezes, sempre repetindo ‘nome do Senhor’. A segunda estrofe dos versículos de 4 a 6, no entanto, exalta a transcendência cósmica de Deus. Isso porque Deus domina não somente as realidades materiais que nos pertencem, mas também os seres que vão além, isto é, os celestiais. Tudo lhe pertence e tudo controla. E a terceira estrofe dos versículos de 7 a 9 Deus de cima do cosmo, da sua imensa transcendência se abaixa para “levantar do pó o indigente e tirar o pobre do monturo” e, assim, tira-los da humilhação.
Esse salmo celebra Deus imenso nas alturas e, ao mesmo tempo, tão próximo das pessoas e das suas realidades. Um Deus transcendente e um Deus presente. Um Deus presente, sobretudo com as criaturas que sofrem e humilhadas. Você se lembra do canto do Magnificat? Muito bem, nele encontramos dois desses versículos: “Lançou os olhos para a baixeza da sua escrava” e “Depôs do trono os poderosos, e elevou os humildes.” E o papa João Paulo II, na audiência geral de quarta feira, 26.02.2003, disse o seguinte:

“Devemos apenas deixar-nos atrair pelo insistente apelo a louvar o Senhor: ‘Louvai ao Senhor… louvai-O… louvai-O!’. Na abertura, Deus é apresentado sob dois aspectos fundamentais do seu mistério. Ele é, sem dúvida transcendente, misterioso, distinto do nosso horizonte: a sua habitação real é o “santuário” celeste, o “firmamento do seu poder”, semelhante a uma fortaleza inacessível ao homem. Contudo, Ele está próximo de nós: está presente no “santuário” de Sião e age na história através dos seus “prodígios” que revelam e tornam experimentável “a sua imensa grandeza”. Por conseguinte, entre a terra e o céu estabelece-se como que um canal de comunicação em que se encontram a ação do Senhor e o cântico de louvor dos fiéis. A Liturgia une os dois santuários, o templo terrestre e o céu infinito, Deus e o homem, o tempo e a eternidade.

Durante a oração, nós realizamos uma espécie de subida para a luz divina e, ao mesmo tempo, experimentamos uma descida de Deus que se adapta ao nosso limite para nos ouvir e nos falar, para se encontrar conosco e nos salvar. (…) Portanto, está envolvida no louvor divino, antes de mais, a criatura humana com a sua voz e o seu coração. Com ela, são idealmente interpelados todos os seres vivos, todas as criaturas que respiram (cf. Gn 7, 22), para que elevem o seu hino de gratidão ao Criador pelo dom da existência.”


Feliz o homem que teme o senhor

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O salmo 111 nos diz que é feliz a pessoa (e eu diria também a nação) que teme o Senhor. E esse respeito, obediência a Deus, não se dá tanto em falar Dele, como diz Jesus Cristo: ‘não que diz Senhor, Senhor, mas que faz a vontade Dele entra no Reino de Deus’. Portanto, a felicidade é consequência de seguir a Deus, colocando em prática a sua vontade que é de amar. Hoje em dia, podemos dizer que as pessoas são realmente felizes? As nações são felizes? Por que todas essas agitações, rupturas, ódios, ciúmes, mentiras, vinganças e guerras? Te convido a ler o salmo para depois tentar entendê-lo melhor.

“Aleluia. Feliz o homem que teme o Senhor, e põe o seu prazer em observar os seus mandamentos. 2. Será poderosa sua descendência na terra, e bendita a raça dos homens retos. 3. Suntuosa riqueza haverá em sua casa, e para sempre durará sua abundância. 4. Como luz, se eleva, nas trevas, para os retos, o homem benfazejo, misericordioso e justo. Feliz o homem que se compadece e empresta, que regula suas ações pela justiça. 6. Nada jamais o há de abalar: eterna será a memória do justo. 7. Não temerá notícias funestas, porque seu coração está firme e confiante no Senhor. 8. Inabalável é seu coração, livre de medo, até que possa ver confundidos os seus adversários. 9. Com largueza distribuiu, deu aos pobres; sua liberalidade permanecerá para sempre. Pode levantar a cabeça com altivez. 10. O pecador, porém, não pode vê-lo sem inveja, range os dentes e definha; anulam-se, assim, os desejos dos maus.”

O salmo que acabaste de ler é uma resposta ética, de comportamento do fiel que queira colocar realmente em prática aquilo que Deus exige, que a sua Palavra orienta. Esse hino é, de fato, uma bem-aventurança para o justo. Isto, naturalmente, marcado pela visão sapiencial da contraposição do justo e o ímpio. O hino oferece dois personagens em contraposições: um, o justo, lhe são dedicados nove versículos sobre dez e, no entanto, o ímpio somente um versículo. O pecador, infiel, assim assiste ao triunfo do justo, fiel, fazendo o que? Diz o salmo: “não pode vê-lo sem inveja, range os dentes e definha; anulam-se, assim, os desejos dos maus.” Quem é o justo, o fiel? É aquele que segue fielmente a Aliança do Senhor e é humilde; e se preocupa de estar próximo dos pobres e dos que sofrem e reparte com eles a sua ajuda, a sua caridade.

Essa ação caridosa, segundo a concepção da retribuição do Antigo Testamento que é caracterizada por esse binômio ‘delito-castigo’ e ‘justiça-prêmio’, leva a ter uma grande bênção de Deus, que, além do mais, se estende a toda família e marca toda a geração que pertence ao justo, ao fiel: “Será poderosa sua descendência na terra, e bendita a raça dos homens retos.” Assim sendo, segundo a visão clássica sapiencial bíblica, quem pratica o bem gera felicidade. É o compromisso com a caridade que dá felicidade também para uma nação. No Novo Testamento, encontramos também em São Paulo como referência ao versículo 9 deste salmo, na segunda carta aos Coríntios, no versículo 9 o seguinte: “Como está escrito: Espalhou, deu aos pobres, a sua justiça subsiste para sempre.”

E o papa Francisco na audiência geral na Praça S. Pedro do dia 11.06.2014 disse o seguinte: “Estejamos atentos a não pôr a esperança no dinheiro, no orgulho, no poder e na vaidade, pois tudo isto não nos pode prometer nada de bom! Por exemplo, penso nas pessoas que têm responsabilidades sobre os outros e se deixam corromper; pensais que uma pessoa corrupta será feliz no além? Não, todo o fruto do seu suborno corrompeu o seu coração e será difícil alcançar o Senhor. Penso em quantos vivem do tráfico de pessoas e do trabalho escravo; pensais que quantos traficam pessoas, que exploram o próximo com o trabalho escravo têm o amor de Deus no seu coração? Não, não têm temor de Deus e não são felizes. Não o são! Penso naqueles que fabricam armas para fomentar as guerras; mas que profissão é esta!? Estou convicto de que se agora eu vos dirigir a pergunta: quantos de vós sois fabricantes de armas? Nenhum, ninguém! Estes fabricantes de armas não vêm para ouvir a Palavra de Deus! Eles fabricam a morte, são mercantes de morte, fazem da morte mercadoria. Que o temor de Deus os leve a compreender que um dia tudo acaba e que deverão prestar contas a Deus. (…)

Peçamos ao Senhor a graça de unir a nossa voz à dos pobres, para acolher o dom do temor de Deus e poder reconhecer-nos, juntamente com eles, revestidos de misericórdia e de amor a Deus, que é o nosso Pai, o nosso pai. Assim seja!”


Louvarei o Senhor de todo o coração

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Lendo o salmo 110 das Sagradas Escrituras me lembrei do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis. Transcrevo aqui somente estes versículos, para melhor entender. São Francisco reconhece a grandeza de Deus e, portanto, precisa louva-La e reconhece-La. “Louvado sejas, meu Senhor,  com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia e que, com a sua luz, nos ilumina. Ele é belo e radiante, com grande esplendor; de Ti, Altíssimo, é a imagem. (…) Louvai todos e bendizei o meu Senhor! Dai-Lhe graças e servi-O com grande humildade!” É um convite para todos nós a vivermos essa verdade. Agora leia atentamente o salmo.

 

“Aleluia. Louvarei o Senhor de todo o coração, na assembleia dos justos e em seu conselho. Grandes são as obras do Senhor, dignas de admiração de todos os que as amam. Sua obra é toda ela majestade e magnificência. E eterna a sua justiça. Memoráveis são suas obras maravilhosas; o Senhor é clemente e misericordioso.

 

Aos que o temem deu-lhes o sustento; lembrar-se-á eternamente da sua aliança. Mostrou ao seu povo o poder de suas obras, dando-lhe a herança das nações pagãs. As obras de suas mãos são verdade e justiça, imutáveis os seus preceitos, irrevogáveis pelos séculos eternos, instituídos com justiça e equidade.

 

Enviou a seu povo a redenção, concluiu com ele uma aliança eterna. Santo e venerável é o seu nome. O temor do Senhor é o começo da sabedoria; sábios são aqueles que o adoram. Sua glória subsiste eternamente.”

 

O salmo inicia com ‘Aleluia’ e logo em seguida descreve a celebração da ação de Deus na história da salvação. Uma presença de Deus feita de grandes obras que chamam a atenção da humanidade que o ama. Aqui, encontra-se, na verdade, a revelação de Deus através da aliança com o seu povo Israel: desde o êxodo até o Sinai. Tudo caracterizado por obras, justiça, grandes prodígios, a aliança, o direito, a redenção, a piedade, a compaixão de Deus; no entanto, Israel responde com a fé e a celebração litúrgica. O grande memorial. Nesse sentido, reconheço que os nossos irmãos mais velhos, os judeus, nos ensinam a importância de viver a memória do passado no presente.

 

Hoje se sou aquilo que sou é também mérito daquele passado que caracterizou a história do presente. Assim, é evidente o meu louvor. Para que tudo isso aconteça é preciso ama-Lo, reconhece-Lo qual protagonista da nossa história. O desenho universal de Deus para a nossa salvação, de toda a humanidade, não acontece de maneira somente secreta, isto é, no espírito dos homens. E, sobretudo, para nós, cristãos, Deus decidiu enviar na história o seu Filho assumindo a nossa realidade de carne. O Deus ‘Santo e terrível’ está entre nós e se revela a todos nós com o dom da ‘Aliança’, da fidelidade e da redenção.

 

E daqui nasce o hino de louvor do fiel e aquele ‘Aleluia’ alegre que se manifesta na oração de louvor. Com essa dimensão de reconhecimento, permite-os enaltecer a própria vida e ter horizontes sem fim.  Por fim, o papa Francisco falou na homilia durante missa na capela Santa Marta do dia 05.02.2018, reportada pelo ‘Osservatore Romano’. “O povo levava consigo a própria história, a memória da eleição, a memória da promessa e a memória da aliança. E com esta carga de memória aproximava-se do templo. Não só: o povo, acrescentou Francisco, levava também «a nudez da aliança», isto é, simplesmente as duas tábulas de pedra, nua, assim como tinha sido de Deus e não como a tinham aprendido dos escribas, que a “barroquizaram” com tantas prescrições. Aquele era o seu tesouro: a aliança nua: amo-te, amas-me. O primeiro mandamento, amar a Deus; segundo, amar o próximo. Nua”.

 

Depois, continuou o Pontífice, “com aquela memória de eleição, da promessa e da aliança, o povo sobe e leva a aliança. Ao chegar em cima quando eram todos idosos, levaram a arca, introduziram a arca no santuário e na arca nada havia exceto as duas tábulas de pedra. Eis a «nudez da aliança». E no excerto bíblico lê-se que quando os sacerdotes saíram, a nuvem encheu o templo do Senhor. Era a glória do Senhor que fazia morada no templo. Naquele momento, explicou o Papa, o povo entrou em adoração, passando da memória para a adoração, caminhando em subida. Assim começou a adoração em silêncio. Eis o percurso realizado pelos Israelitas: dos sacrifícios que faziam no caminho em subida, ao silêncio, à humilhação da adoração. E àquela experiência na qual se antecipa a vida no céu, acrescentou, só podemos chegar com a memória de termos sido eleitos, de ter dentro do coração uma promessa que nos impele a ir, com a aliança na mão e no coração”.


As redes sociais informam ou desinformam?

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Eupubliquei este artigono jornal Liberal quatro anos atrás. Fui convidado a republica-lo para melhor compreender esse cenário nacional e internacional dasFake News que ameaçam a nossa convivência.

Por que notícias falsas correm rapidamente nas redes sociais? Qual a intenção de tudo isso? Para que serve esse tipo de (des) informação? Em síntese, poderíamos dizer que as falsas informações percorrem de forma extraordinárias as redes sociais porque é através delas que se tenta firmar as amizades com pessoas de mesmo caráter e que trocam conteúdos entre si. Todos nós sabemos que a informação é um fenômeno de contagio social e, nesse sentido, nunca, como hoje, vimos a grande importância que assumiu a mídia como informação. Essa vitalidade das notícias tem uma semelhança entre as pandemias e a maneira como circula uma falsa notícia nas redes sociais, mas também tem grandes diferenças.

A partir dessas considerações se torna difícil prever e analisar suas dinâmicas. A essa altura, podemos nos questionar: sobre esse tipo de ação nas redes, é possível considera-la como inteligência grupal-comunitária ou poderia ser considerada uma ignorância grupal-comunitária? Provavelmente, por que não considera-la as duas faces da mesma moeda? Uma coisa é certa: a informação é um fenômeno de contágio social. Assim que recebo, por exemplo, algumas informações dos meus amigos ou conhecidos e começo a repassa-las. É como se tivesse sido infectado. E, por sua vez, eu infecto os outros. Portanto, como se defender dos vírus das redes?
Falando de informação, a sociedade tem uma grande incidência sobre a possibilidade de contágio. E se por acaso essas informações vierem de amigos ou de pessoas que simpatizamos e que confiamos porque têm os mesmos interesses e pensamentos, então têm ainda mais importâncias as informações. Assim sendo, é possível prevê onde, quanto e quando se difunde uma informação falsa? Perante esse questionamento, precisamos compreender o que é uma notícia falsa, o que é desinformação. Às vezes, é simples para entender, às vezes, é meio complicado. Portanto, compreender qual é a percepção do mundo a respeito de uma determinada notícia pode ser bem complexo.

Precisamos detalhar o espaço, o ambiente onde nasce essa falsa notícia; identificar as pessoas com quem se mantém o contato constantemente e seus costumes de vida, e assim por diante. Com essas novas tecnologias que invadem qualquer território pode ser mais possível identificar elementos para uma melhor analise da realidade e, assim, cruzar as notícias e identifica-las. Mas se isso é verdade para peneirar melhor as notícias, também é verdade que se podem difundir cada vez mais notícias falsas. Essas redes sociais, colocando a disposição de todos quaisquer tipos de notícia, podem iludir muitos de saber tudo, de estar informado de maneira eficiente. No entanto, isso não é verdade.

É bem sabido, sobretudo para quem se dedica na área de comunicação, que às vezes são necessários anos de estudo para compreender determinadas notícias. Vejam, por exemplo, essas tão martirizadas notícias de conflitos e guerras no mundo, ou a violência no nosso meio: quem sabe a verdade? Requer conhecimento bem profundo que saiba fazer uma correta leitura da notícia. Para tudo isso é preciso preparação. No final, em todas as coisas que se fazem no dia a dia dificilmente se improvisa: conhecimento e experiência se tornam os ingredientes principais da nossa ação. Alias, pode se tornar uma ignorância coletiva, na medida em que as redes divulgam falsas notícias ou informações. É urgente, nesse sentido, estabelecer uma escala de valores. Isto nos dará mais capacidades de vigiar as notícias. Não somente isso, mas também nos alertar sobre os valores reais que aparecem através dessas informações. É urgente nos conscientizar para evitar abrir um grande conflito entre a idade da inteligência coletiva e da ignorância coletiva. Infelizmente, essa ignorância coletiva pode mudar a própria realidade: compreender uma coisa por outra pode levar a situações desastrosas. É um retrocesso da convivência humana. É recomendável, deste modo, quando se quer lançar uma notícia, embora pensando de fazer um favor aos outros e amigos, sempre verifica-la.

Para fazer isso, pode-se pesquisar até um motor de busca, procurar um site que alerte sobre as falsas notícias ou consultar pessoas que sejam peritos de tal assunto e argumento. Com isso, sentimos de aumentar sempre mais o nosso monitoramento cotidiano sobre aquilo que se comunica nas redes, para analisar até que ponto as informações sejam corretas. Assim, ajudamos fazer transparecer a verdade das notícias.


Mensagem de sua santidadeo papa franciscopara o dia mundial das missões de 2018

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(…)Todo o homem e mulher é uma missão, e esta é a razão pela qual se encontra a viver na terra. Ser atraídos e ser enviados são os dois movimentos que o nosso coração, sobretudo quando é jovem em idade, sente como forças interiores do amor que prometem futuro e impelem a nossa existência para a frente. Ninguém, como os jovens, sente quanto irrompe a vida e atrai. Viver com alegria a própria responsabilidade pelo mundo é um grande desafio. (…)

A Igreja, ao anunciar aquilo que gratuitamente recebeu (cf. Mt 10, 8; At 3, 6), pode partilhar convosco, queridos jovens, o caminho e a verdade que conduzem ao sentido do viver nesta terra. Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, oferece-Se à nossa liberdade e desafia-a a procurar, descobrir e anunciar este sentido verdadeiro e pleno. Queridos jovens, não tenhais medo de Cristo e da sua Igreja! Neles, está o tesouro que enche a vida de alegria. Digo-vos isto por experiência: graças à fé, encontrei o fundamento dos meus sonhos e a força para os realizar. Vi muitos sofrimentos, muita pobreza desfigurar o rosto de tantos irmãos e irmãs. E todavia, para quem está com Jesus, o mal é um desafio a amar cada vez mais. Muitos homens e mulheres, muitos jovens entregaram-se generosamente, às vezes até ao martírio, por amor do Evangelho ao serviço dos irmãos. A partir da cruz de Jesus, aprendemos a lógica divina da oferta de nós mesmos (cf. 1 Cor1, 17-25) como anúncio do Evangelho para a vida do mundo (cf. Jo 3, 16). Ser inflamados pelo amor de Cristo consome quem arde e faz crescer, ilumina e aquece a quem se ama (cf. 2 Cor 5, 14). Na escola dos santos, que nos abrem para os vastos horizontes de Deus, convido-vos a perguntar a vós mesmos em cada circunstância: «Que faria Cristo no meu lugar?»
(…) Na convivência das várias idades da vida, a missão da Igreja constrói pontes intergeracionais, nas quais a fé em Deus e o amor ao próximo constituem fatores de profunda união.

Por isso, esta transmissão da fé, coração da missão da Igreja, verifica-se através do «contágio» do amor, onde a alegria e o entusiasmo expressam o sentido reencontrado e a plenitude da vida. A propagação da fé por atração requer corações abertos, dilatados pelo amor. Ao amor, não se pode colocar limites: forte como a morte é o amor (cf. Ct 8, 6). E tal expansão gera o encontro, o testemunho, o anúncio; gera a partilha na caridade com todos aqueles que, longe da fé, se mostram indiferentes e, às vezes, impugnadores e contrários à mesma.

Ambientes humanos, culturais e religiosos ainda alheios ao Evangelho de Jesus e à presença sacramental da Igreja constituem as periferias extremas, os «últimos confins da terra», aos quais, desde a Páscoa de Jesus, são enviados os seus discípulos missionários, na certeza de terem sempre com eles o seu Senhor. Nisto consiste o que designamos por missio ad gentes. A periferia mais desolada da humanidade carente de Cristo é a indiferença à fé ou mesmo o ódio contra a plenitude divina da vida. Toda a pobreza material e espiritual, toda a discriminação de irmãos e irmãs é sempre consequência da recusa de Deus e do seu amor.

Hoje para vós, queridos jovens, os últimos confins da terra são muito relativos e sempre facilmente «navegáveis». O mundo digital, as redes sociais, que nos envolvem e entrecruzam, diluem fronteiras, cancelam margens e distâncias, reduzem as diferenças. Tudo parece estar ao alcance da mão: tudo tão próximo e imediato… E todavia, sem o dom que inclua as nossas vidas, poderemos ter miríades de contatos, mas nunca estaremos imersos numa verdadeira comunhão de vida. A missão até aos últimos confins da terra requer o dom de nós próprios na vocação que nos foi dada por Aquele que nos colocou nesta terra. Atrevo-me a dizer que, para um jovem que quer seguir Cristo, o essencial é a busca e a adesão à sua vocação.

(…) Muitos jovens encontram, no voluntariado missionário, uma forma para servir os «mais pequenos», promovendo a dignidade humana e testemunhando a alegria de amar e ser cristão. Estas experiências eclesiais fazem com que a formação de cada um não seja apenas preparação para o seu bom-êxito profissional, mas desenvolva e cuide um dom do Senhor para melhor servir aos outros. Estas louváveis formas de serviço missionário temporâneo são um começo fecundo e, no discernimento vocacional, podem ajudar-vos a decidir pelo dom total de vós mesmos como missionários.
(…) Apraz-me repetir a exortação que dirigi aos jovens chilenos: «Nunca penses que não tens nada para dar, ou que não precisas de ninguém. Muita gente precisa de ti. Pensa nisso! Cada um de vós pense nisto no seu coração: muita gente precisa de mim» (Encontro com os jovens, Santiago – Santuário de Maipú, 17/I/2018).

(…) A Maria, Rainha dos Apóstolos, ao Santos Francisco Xavier e Teresa do Menino Jesus, ao Beato Paulo Manna, peço que intercedam por todos nós e sempre nos acompanhem.

Vaticano, 20 de maio de 2018
FRANCISCO


Louvarei o senhor de todo o coração

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Lendo o salmo 110 das Sagradas Escrituras me lembrei do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis. Transcrevo aqui somente estes versículos, para melhor entender. São Francisco reconhece a grandeza de Deus e, portanto, precisa louva-La e reconhece-La. “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia e que, com a sua luz, nos ilumina. Ele é belo e radiante, com grande esplendor; de Ti, Altíssimo, é a imagem. (…) Louvai todos e bendizei o meu Senhor! Dai-Lhe graças e servi-O com grande humildade!” É um convite para todos nós a vivermos essa verdade. Agora leia atentamente o salmo.

“Aleluia. Louvarei o Senhor de todo o coração, na assembleia dos justos e em seu conselho. Grandes são as obras do Senhor, dignas de admiração de todos os que as amam. Sua obra é toda ela majestade e magnificência. E eterna a sua justiça. Memoráveis são suas obras maravilhosas; o Senhor é clemente e misericordioso.

Aos que o temem deu-lhes o sustento; lembrar-se-á eternamente da sua aliança. Mostrou ao seu povo o poder de suas obras, dando-lhe a herança das nações pagãs. As obras de suas mãos são verdade e justiça, imutáveis os seus preceitos, irrevogáveis pelos séculos eternos, instituídos com justiça e equidade.

Enviou a seu povo a redenção, concluiu com ele uma aliança eterna. Santo e venerável é o seu nome. O temor do Senhor é o começo da sabedoria; sábios são aqueles que o adoram. Sua glória subsiste eternamente.”

O salmo inicia com ‘Aleluia’ e logo em seguida descreve a celebração da ação de Deus na história da salvação. Uma presença de Deus feita de grandes obras que chamam a atenção da humanidade que o ama. Aqui, encontra-se, na verdade, a revelação de Deus através da aliança com o seu povo Israel: desde o êxodo até o Sinai. Tudo caracterizado por obras, justiça, grandes prodígios, a aliança, o direito, a redenção, a piedade, a compaixão de Deus; no entanto, Israel responde com a fé e a celebração litúrgica. O grande memorial. Nesse sentido, reconheço que os nossos irmãos mais velhos, os judeus, nos ensinam a importância de viver a memória do passado no presente.

Hoje se sou aquilo que sou é também mérito daquele passado que caracterizou a história do presente. Assim, é evidente o meu louvor. Para que tudo isso aconteça é preciso ama-Lo, reconhece-Lo qual protagonista da nossa história. O desenho universal de Deus para a nossa salvação, de toda a humanidade, não acontece de maneira somente secreta, isto é, no espírito dos homens. E, sobretudo, para nós, cristãos, Deus decidiu enviar na história o seu Filho assumindo a nossa realidade de carne. O Deus ‘Santo e terrível’ está entre nós e se revela a todos nós com o dom da ‘Aliança’, da fidelidade e da redenção.

E daqui nasce o hino de louvor do fiel e aquele ‘Aleluia’ alegre que se manifesta na oração de louvor. Com essa dimensão de reconhecimento, permite-os enaltecer a própria vida e ter horizontes sem fim. Por fim, o papa Francisco falou na homilia durante missa na capela Santa Marta do dia 05.02.2018, reportada pelo ‘Osservatore Romano’. “O povo levava consigo a própria história, a memória da eleição, a memória da promessa e a memória da aliança. E com esta carga de memória aproximava-se do templo. Não só: o povo, acrescentou Francisco, levava também «a nudez da aliança», isto é, simplesmente as duas tábulas de pedra, nua, assim como tinha sido de Deus e não como a tinham aprendido dos escribas, que a “barroquizaram” com tantas prescrições. Aquele era o seu tesouro: a aliança nua: amo-te, amas-me. O primeiro mandamento, amar a Deus; segundo, amar o próximo. Nua”.

Depois, continuou o Pontífice, “com aquela memória de eleição, da promessa e da aliança, o povo sobe e leva a aliança. Ao chegar em cima quando eram todos idosos, levaram a arca, introduziram a arca no santuário e na arca nada havia exceto as duas tábulas de pedra. Eis a «nudez da aliança». E no excerto bíblico lê-se que quando os sacerdotes saíram, a nuvem encheu o templo do Senhor. Era a glória do Senhor que fazia morada no templo. Naquele momento, explicou o Papa, o povo entrou em adoração, passando da memória para a adoração, caminhando em subida. Assim começou a adoração em silêncio. Eis o percurso realizado pelos Israelitas: dos sacrifícios que faziam no caminho em subida, ao silêncio, à humilhação da adoração. E àquela experiência na qual se antecipa a vida no céu, acrescentou, só podemos chegar com a memória de termos sido eleitos, de ter dentro do coração uma promessa que nos impele a ir, com a aliança na mão e no coração”.

FELIZ CÍRIO


Oráculo do senhor ao meu senhor

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Lembro-me de que, nos anos 1980, quando visitei o presidio de Macapá, encontrei um detento jovem e muito educado. Ele estava preso por um crime que dizia não ter cometido. Lembro, como fosse hoje, ele sentado no chão da cela e com a Bíblia na mão. Eu em frente da grade que o custodiava. Então, iniciei o diálogo, perguntando-lhe como estava. Ele me respondeu de imediato que somente aquela Sagrada Escritura que estava meditando lhe estava dando coragem de suportar tanta dor, por estar atrás das grades. Ele me dizia: “Essa Palavra me está confortando, padre, me dá força de aguentar tanta humilhação e injustiça. Porém, eu acredito que Deus vai me tirar daqui, desse inferno”. Fiquei meditando como esse jovem encontrou uma resposta de esperança naquela situação de dor. A sua humanidade ferida era sanada pela Palavra de Deus. Nesse sentido, te convido a ler atentamente o salmo 109 das Sagradas Escrituras:

“Eis o oráculo do Senhor que se dirige a meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu faça de teus inimigos o escabelo de teus pés. 2. O Senhor estenderá desde Sião teu cetro poderoso: Dominarás, disse ele, até no meio de teus inimigos. 3. No dia de teu nascimento, já possuis a realeza no esplendor da santidade; semelhante ao orvalho, eu te gerei antes da aurora. 4. O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. “O Senhor está à tua direita: ele destruirá os reis no dia de sua cólera. 6. Julgará os povos pagãos, empilhará cadáveres; por toda a terra esmagará cabeças. 7. Beberá da torrente no caminho; por isso, erguerá a sua fronte.”

Agora vamos tentar entende melhor. Só para ter uma ideia, o Novo Testamento usou várias vezes os versículos 1 e 4 para Jesus, transformando desse jeito em um texto, assim chamado, messiânico, isto é, ao Messias o Salvador. Perante o tribunal judaico, Jesus responde misturando uma passagem de Daniel, 7,13, e com o primeiro versículo desse salmo: “Eu vos declaro que vereis doravante o Filho do Homem sentar-se à direita do Todo-poderoso, e voltar sobre as nuvens do céu (Mt 26, 64)”.

Esse salmo se divide em duas partes. A primeira parte, versículos de 1 a 3, apresenta-nos um oráculo real encaminhado por Deus ao rei. Nisso se proclama a entronização do rei judaico à ‘direita’ de Deus, que isto pode indicar tanto a direita da arca, quanto da dignidade do rei como representante de Deus. A segunda parte do salmo, versículos de 4 a 7, contem um oráculo sacerdotal. Por que isso? Como garantia de um solene juramento divino, assim aquela dignidade real mencionada na primeira parte seria acrescentada por aquela sacerdotal.

Nesse salmo, a referência a Melquisedec, rei e sacerdote de Salem, a antiga Jerusalém, é talvez um meio para justificar o sacerdócio do rei junto aquele oficial do Templo, ligado a Arão e Sadok. Portanto, depois que o rei foi consagrado, em hebraico ‘messias’, faz uma marcha triunfal pelo mundo. Segundo a Tradição da nossa Igreja discerniu, nesse Salmo, os temas fundamentais da história da Salvação, quais da chegada do Reino de Deus, nos versículos de 1 a 3; ao nascimento de Cristo e à sua divindade, no versículo 3; do seu combate contra o poder do mal, nos versículos 5 a 6; alusão à sua paixão, morte e ressurreição, no versículo 7; da sua ascensão e glorificação à direita de Deus, versículo 1; ao seu sacerdócio eterno, versículo 4. E no decurso do ano litúrgico, este salmo nos conduz para o caminho pascal de Cristo.

Este percurso, para a Igreja que contempla neste salmo, discerne os mistérios da história salvação que, através os reis, os sacerdotes e os profetas do Antigo Testamento, se encontram em Cristo rei, sacerdote e profeta. O papa Francisco na capela de S. Marta, no dia 10.06.2016, disse: «Devemos procurar sempre o Senhor: todos nós sabemos como são os maus momentos, momentos que te fazem desanimar, sem fé, obscuros, nos quais não vemos o horizonte, não somos capazes de nos erguer, todos o sabemos!». Mas «é o Senhor que vem, nos restabelece com o pão e com a sua força e nos diz “levanta-te e vai em frente, caminha!”». Por isso, «para encontrar o Senhor devemos estar assim: de pé e a caminho»; depois «esperar que ele fale: coração aberto». E ele nos dirá “sou eu”; e nesse momento a fé fortalece-se». Mas a fé «é para mim, para que eu a guarde?Não, deve ser levada a outros, para ungir os outros, para a missão». Por conseguinte, «de pé e a caminho; em silêncio para encontrar o Senhor; e em missão para levar esta mensagem, esta vida aos outros».


Deus do meu louvor, não fique calado!

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O salmo 108 das Sagradas Escrituras é “o salmo-maldição”, “uma ladainha de imprecações”, “um poema mais estranho e discutido do Saltério” e se diz também “que seria melhor tira-lo do Saltério”. É um salmo debatido pelos exegetas cristãos, estudiosos das Sagradas Escrituras. Também o Concilio Vaticano II cancelou este salmo da lista do Saltério Litúrgico. Parece um salmo não tão fácil para se entender. Leia atentamente:

“Ó Deus de meu louvor, não fiqueis insensível, porque contra mim se abriu boca ímpia e pérfida. Falaram-me com palavras mentirosas, com discursos odiosos me envolveram; e sem motivo me atacaram. Em resposta ao meu afeto me acusaram. Eu, porém, orava. Pagaram-me o bem com o mal, e o amor com o ódio. Suscitai contra ele um ímpio, levante-se à sua direita um acusador. Quando o julgarem, saia condenado, e sem efeito o seu recurso. Sejam abreviados os seus dias, tome outro o seu encargo. Fiquem órfãos os seus filhos, e viúva a sua esposa. Andem errantes e mendigos os seus filhos, expulsos de suas casas devastadas. Arrebate o credor todos os seus bens, estrangeiros pilhem o fruto de seu trabalho. Ninguém lhes tenha misericórdia, nem haja quem se condoa de seus órfãos. Exterminada seja a sua descendência, extinga-se o seu nome desde a segunda geração. Conserve o Senhor a lembrança da culpa de seus pais, jamais se apague o pecado de sua mãe. Deus os tenha sempre presentes na memória, e risque-se da terra a sua lembrança, porque jamais pensou em ter misericórdia, mas perseguiu o pobre e desvalido e teve ódio mortal ao homem de coração abatido. Amou a maldição: que ela caia sobre ele! Recusou a bênção: que ela o abandone! Seja coberto de maldição como de um manto, que ela penetre em suas entranhas como água e se infiltre em seus ossos como óleo. Seja-lhe como a veste que o cobre, como um cinto que o cinja para sempre. Esta, a paga do Senhor àqueles que me acusam e que só dizem mal de mim. Mas vós, Senhor Deus, tratai-me segundo a honra de vosso nome. Salvai-me em nome de vossa benigna misericórdia, porque sou pobre e miserável; trago, dentro de mim, um coração ferido. Vou-me extinguindo como a sombra da tarde que declina, sou levado para longe como o gafanhoto. Vacilam-me os joelhos à força de jejuar, e meu corpo se definha de magreza. Fizeram-me objeto de escárnio, abanam a cabeça ao me ver. Ajudai-me, Senhor, meu Deus. Salvai-me segundo a vossa misericórdia. Que reconheçam aqui a vossa mão, e saibam que fostes vós que assim fizestes. Enquanto amaldiçoam, abençoai-me. Sejam confundidos os que se insurgem contra mim, e que vosso servo seja cumulado de alegria. Cubram-se de ignomínia meus detratores, e envolvam-se de vergonha como de um manto. Celebrarei altamente o Senhor, e o louvarei em meio à multidão, porque ele se pôs à direita do pobre, para o salvar dos que o condenam.”

Este salmo é, na verdade, o testemunho da encarnação da palavra de Deus nas vibrações e emoções humanas dos conflitos e ações de desespero. Aqui é descrita uma forte lamentação de um fiel inocente perante ao tribunal supremo de Deus, no Templo, porque é perseguido e caluniado. Nesta intercessão, manifesta-se a maldição que se preenche de vinte imprecações. Em que consiste tudo isso? O acusado pede a Deus para que essas calúnias e perseguições recaiam todas sobre os seus adversários de modo que possa resplandecer a sua inocência. Um salmo carregado de vingança e de humores primitivos. Perante a constatação que parece um Deus mudo e de outro lado os maus que ameaçam a vida dos justos, a reação do autor dessa oração é confiar em Deus que os condene severamente.

Para compreender esse tipo de salmo bem ‘vingativo’ é necessário recorrer à estrutura do estilo semita que é ligada à exasperação dos sentimentos e da mesma linguagem simbólica. Não se deve ignorar que as maldições, como se encontram nos rituais mesopotâmicos, pertencem a estereótipos rituais e de cultos ligados, entre tantos, a juízos de Deus. A palavra aqui se torna força de reclamação e também confiança na intervenção de Deus. Além do mais, por trás dos inimigos se esconde uma personificação do mal na sociedade.

Assim sendo, a imprecação contra o mal é uma maneira de participar da luta contra o mal até no fim dos tempos. Vale a pena acrescentar aqui também aquela teoria retribuída que é vista como uma forma de justiça distribuída a todos. E enfim se deve ainda considerar a encarnação da palavra de Deus na vida histórica e cultural do ser humano para transforma-lo e enriquece-lo. Portanto, somos convidados a discernir nessa progressão escatológica da Revelação que nos leva para o eterno e a paz.