Senhor, vós me perscrutais e me conheceis

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O salmo 138 das Sagradas Escrituras é um canto ao Deus Todo-poderoso, onisciente e onipotente. Esse hino nos oferece uma verdadeira sabedoria para contemplar o grande mistério do Deus transcendente, mas, ao mesmo tempo, presente na história. Podemos dividir o canto em quatro partes. Os versículos de 1 a 6 revelam que Deus perscruta e conhece profundamente a vida; os versículos de 7 a 12 mostram como Deus está presente em qualquer lugar; os versículos de 13 a 18 descrevem a criação como um todo e, por enfim, os versículos de 19 a 24 descrevem como Deus perscruta tudo e julga o mal que paira ao redor da obra criada por Ele, e como sabe libertar.

O canto manifesta, na substância, como Deus salva toda a humanidade em todas as suas dimensões históricas e de espaço. Nos primeiros seis versículos, nota-se destacadamente o verbo ‘conhecer’. Isto no sentido que Deus conhece tudo e, portanto, revela a comunhão Dele com o ser humano: “Sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto. De longe penetrais meus pensamentos.” No entanto, os versículos a seguir, de 7 a 12, descreve a experiência louca do ser humano de viver sem Deus. Por isso o fiel declara: “Para onde irei, longe de vosso Espírito? Para onde fugir, apartado de vosso olhar? Se subir até os céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrareis também. Se tomar as asas da aurora, se me fixar nos confins do mar, é ainda vossa mão que lá me levará, e vossa destra que me sustentará. Se eu dissesse: “Pelo menos as trevas me ocultarão, e a noite, como se fora luz, me há de envolver”. As próprias trevas não são escuras para vós, a noite vos é transparente como o dia e a escuridão, clara como a luz.”

Os versículos de 13 a 18 proclamam a grandeza do ser humano, obra maravilhosa de Deus: “Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, vós me tecestes no seio de minha mãe. Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso.” Com essa linguagem simbólica de ‘plasmar’ e ‘tecer’ revela a ação de Deus na criação do ser humano. O nosso Deus se torna como se fosse um escultor da nossa vida. Quanto é preciosa a vida que está em nossas mãos. Somos um canteiro de obras de nosso Senhor. O milagre da criação e da própria existência é contemplado pelo autor do salmo com a fé e a sua expressão poética.

E, por fim, os versículos de 19 a 24, mostram como fiel tenta se identificar com Deus, confiando totalmente na sua ação libertadora: “Oxalá extermineis os ímpios, ó Deus, e que se apartem de mim os sanguinários! Eles se revoltam insidiosamente contra vós, perfidamente se insurgem vossos inimigos. Pois não hei de odiar, Senhor, aos que vos odeiam? Aos que se levantam contra vós, não hei de abominá-los?…Perscrutai-me, Senhor, para conhecer meu coração; provai-me e conhecei meus pensamentos. Vede se ando na senda do mal, e conduzi-me pelo caminho da eternidade.” O salmista mostra que o juízo final condenará o mal e a idolatria, oposição a Deus, será derrotada.


Às margens dos rios de Babilônia, nos assentávamos chorando

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O salmo 136 das Sagradas Escrituras lembra a tragédia vivida por Israel pela destruição de Jerusalém no ano 586 antes de Cristo e, sucessivamente, o novo exilio em Babilônia. Essa lembrança foi misturada com música, poesia e literatura da tradição judaica. Ao todo, o salmo se confecciona com nove intensos versículos. Os primeiros, de 1 a 4, têm como grande cenário os rios de Babilônia. No entanto, os versículos 5 e 6 transmitem a saudosa lembrança de Jerusalém.

Enfim, os últimos versículos se concentram de novo sobre Babilônia, manifestando toda a vingança sobre ela. Porém, é a partir dessa saudade de Sião, onde envolve todos os membros do corpo e suas manifestações: “Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! Que minha língua se me apegue ao palato, se eu não me lembrar de ti”. E se formos analisar todos esses detalhes, podemos dizer: as mãos são determinantes para os tocadores de harpas, mas o fato que elas ficaram penduradas nos salgueiros daquela terra ficou evidente que o silêncio de luto tomou conta do povo em exilio. Uma tristeza absoluta. E as línguas? São indispensáveis para os cantores.

Por isso, o autor do hino diz: “Que minha língua se me apegue ao palato, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.” Inutilmente, os nossos opressores tentaram violentar o nosso silêncio de tristeza, exigindo cânticos de alegria. Os cantos de Israel não são folclore, exibição espetacular, mas hinos de culto no Templo de Sião. E, enfim, os versículos de 7 a 9 são uma violenta execração contra os inimigos de Israel. Porém, a maldição é confiada a Deus, porque Ele mesmo fará justiça ao seu eleito, é Ele o verdadeiro defensor.

Aqui se refere em particular aos edomitas, quais descendentes de Esaú, irmão de Jacó e filho de Isaque, emparentados com os hebreus. Eles se aliaram com as forças invasoras de Babilônia, cujo rei era Nabucodonosor, no ano 586 a.C. e conquistaram Israel. Portanto, tornaram-se traidores. Mas a grande maldição é reservada para a “filha de Babilônia”. Como? “Ó filha de Babilônia, a devastadora, feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste! Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para esmagá-los contra o rochedo!”

Perante toda essa violência, Deus quer conduzir o seu povo, além de tudo isso, na espera que se revele junto à justiça também a força do amor que supera todas as incompreensões, desafios e vinganças. E para ajudar entender melhor isso, podemos citar o evangelho de Mateus em que diz: “Tendes ouvido o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direi¬ta, oferece-lhe também a ou¬tra…Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem.” O amor prevalece sobre toda violência e ajuda a ter horizontes infinitos.


Pastoral da comunicação

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A Pastoral da Comunicação (Pascom) é um instrumento de evangelização bem concreto e indispensável.

Não podemos considerar a Pascom somente uma atividade pastoral que se acrescenta as outras inúmeras atividades, para enriquecer a nossa ação evangelizadora. Ela é um especial instrumento que se insere em todas as atividades pastorais para rendê-las mais eficazes e fortes. Não serve a nada ter muitas atividades pastorais sem ter uma capacidade comunicativa. Pode se compreender melhor tudo isso, constatando certo desânimo, incapacidade e tristeza da nossa atividade pastoral evangelizadora.

Com isto, temos uma certeza: que não é a pastoral ou a evangelização a serem colocadas em discussão, mas, sim, a nossa capacidade comunicativa. Portanto, uma comunidade sem a Pascom coloca em risco a atividade pastoral e a evangelização.

A comunicação é a alma de tudo. Naturalmente, isso não é nunca uma ação individual, mas a realização em um contexto de participação comunitária. Ela exige uma constante formação, sendo uma ciência em contínua evolução. É uma estratégia que exige um planejamento capaz de identificar os pontos fortes e frágeis da comunicação atual e, portanto, precisa de pessoas preparadas, capazes de dialogar e, sobretudo, disponíveis para aprender.
É a única estrada a percorrer, porque é movida da mensagem de Jesus, que nos pede para anunciar a todas as pessoas o evangelho da salvação.

O que é que faz a Pascom? Educa comunicadores sociais comprometidos com a verdade. Ajuda as pessoas, inseridas na pastoral e profissionais da área, a fazer o uso prudente dos meios como o rádio, a televisão, o jornal, redes sociais e outros. Desenvolve uma ação de acolhida das pessoas na comunidade para fazê-las sentir a vontade como irmãos e irmãs. Organiza atividades formativas de comunicação e promoção humana em favor da comunidade, para que haja uma maior identidade entre o comunicador e o receptor. Empenha-se em desenvolver atividades de ação comunitária e de produção, por meio de jornais, audiovisuais, rádios, internet, fotografias, banners e outros. Cria porta-vozes das mesmas comunidades ou entidades diocesanas, ou religiosas, para que as informações se tornem oficiais, sem distorcê-las.

Participa dos debates sociais para dar a sua contribuição ao processo de democratização dos meios de comunicação. Celebra jornadas ou momentos comemorativos, seguindo as indicações do magistério da Igreja. O momento fundamental desta atividade é a avaliação de cada projeto e ação, para compreender até que ponto tem conseguido fazer comunicação. Muitas vezes, este ato determinante comunicativo não é tomado a sério em nossas atividades.

Concluindo: pela minha experiência de missionário e evangelizador posso dizer que os caminhos percorridos pelas nossas pastorais de comunicação são exclusivamente ‘pastorais dos meios de comunicação’. Portanto estamos bem longe da verdadeira PASCOM.


E agora, bendizei o senhor

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O salmo 133 das Sagradas Escrituras é breve e simples, sem grandes pretensões teológicas, mas muito usado na tradição cristã como oração nas vésperas. Veja o que ele diz:

“E agora, bendizei o Senhor, vós todos, servos do Senhor, vós que habitais na casa do Senhor, durante as horas da noite. Levantai as mãos para o santuário, e bendizei o Senhor. De Sião te abençoe o Senhor, ele que fez o céu e a terra!”

Estamos em Sião e os fiéis presentes, antes de sair do templo, pedem aos sacerdotes para não interromper a oração, mas que se estenda à noite toda. Dessa forma, mantem-se o contínuo louvor ao Senhor. Louvando dia e noite, Deus se torna uma oração infinita, potenciando o ser humano. Aqui o contexto do salmo é um hino litúrgico dividido em duas maneiras de vivê-lo. Na primeira maneira, nota-se quem são os sujeitos que fazem o louvor, isto é, os sacerdotes. Eles, servos do Senhor, rezam em pé, posição típica da oração feita em público. O lugar dessa oração contínua é no Templo, a casa de Deus. E, nesse momento litúrgico, levantam-se as mãos, suplicando ao Senhor o Deus da vida.

A segunda maneira marcada pelo evento litúrgico é o verbo: “abençoar”. “Te abençoe o Senhor”. Que bonita essa expressão, usada largamente pelo nosso povo brasileiro. Seria triste perder uma tradição como essa, enriquecedora de uma profunda humanidade. Dito isso, o salmo mostra aqui que não são mais os sacerdotes, isto é, os fiéis como aqui os definem, que louvam e agradecem a Deus. É o mesmo Deus que abençoa o seu fiel, porque lhe agradou o seu louvor e, portanto, lhe doa a sua graça.

Esses louvores são características da liturgia do templo de Sião. O salmo termina com uma bênção e, ao mesmo tempo, é também uma profissão de fé em Deus, que tudo criou e que está presente na história da humanidade. O papa Francisco disse aos jovens na cerimônia de abertura da Jornada Mundial da Juventude 2019: “«O cristianismo não é um conjunto de verdades para se acreditar, nem de leis para se observar nem de proibições. Visto assim, seria muito repugnante. O cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto, que reivindica e pede o meu amor. O cristianismo é Cristo» (Santo Óscar Romero, Homilia, 6/XI/1977); é continuar o sonho pelo qual Ele deu a vida: amar com o mesmo amor com que Ele nos amou. A certeza de saber que fomos amados com um amor cativante que não queremos nem podemos calar e que nos desafia a responder da mesma maneira: com amor. Um amor que não se impõe nem esmaga, um amor que não marginaliza nem obriga a estar calado, um amor que não humilha nem subjuga. É o amor do Senhor: amor diário, discreto e respeitador, amor feito de liberdade e para a liberdade, amor que cura e eleva. É o amor do Senhor, que se entende mais de levantamentos do que de quedas, mais de reconciliação do que de proibições, mais de dar nova oportunidade do que de condenar, mais de futuro do que de passado. É o amor silencioso, da mão estendida no serviço e na doação sem se vangloriar”.


Como é bom para irmãos unidos viverem juntos

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O salmo 132 das Sagradas Escrituras é repleto de alegria, ao exaltar a fraternidade e a comunhão entre as pessoas. O hino é contextualizado na procissão dos peregrinos, provindos de todo lugar da Terra Santa, que vão ao Templo. Nesse sentido, pode ser representado o Israel unido, uma comunidade de fé, que consegue viver na paz e tranquilidade. Na história do cristianismo, este salmo foi resgatado como ideal da vida religiosa comunitária. De fato, Santo Agostinho achou este hino como o lema da vida monacal. Veja o texto, bastante breve, mas conciso:

“Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos. É como um óleo suave derramado sobre a fronte, e que desce para a barba, a barba de Aarão, para correr em seguida até a orla de seu manto. É como o orvalho do Hermon, que desce pela colina de Sião; pois ali derrama o Senhor a vida e uma bênção eterna.”

Temos aqui imagens simbólicas: o óleo e o orvalho. O que significam? O óleo perfumado simboliza várias situações e atitudes, entre elas a hospitalidade, alegria, festa e também consagração sacerdotal e da realeza. E aqui o autor do salmo apresenta a consagração sacerdotal que se referia ao sacerdote Aarão, pai do sacerdócio bíblico. Continua o salmista narrando a sacralidade da fraternidade, representada aqui com a barba. A barba no Oriente é concebida como vitalidade e potência; e as vestes são a dignidade. Portanto, uma consagração que engloba todo o ser humano na sua corporeidade.

No entanto, o orvalho representa a vida, a fecundidade. Perante uma situação de deserto, clima estéril, o orvalho muda numa realidade produtiva. Assim sendo, a fraternidade é tão sagrada que é parecida ao orvalho para as vidas das pessoas e do país. Por isso, o fiel sonha com o rico orvalho do monte Hermon, 2760 m de altura, que espalha por toda a terra de Israel, alcançando a grande Jerusalém, dando-lhe frescor e fecundidade de vida.

Nesse sentido, a fraternidade deve reinar em todo Israel, em todo o seu povo. E isto representa uma bênção de Deus que dá vida para sempre. É um hino do amor dos filhos de Deus que estreitam laços de firme fraternidade: Deus conosco. Assim sendo, experimentando esta caridade fraterna, saboreia-se antecipadamente a Jerusalém celeste, onde desaparece toda lágrima, dor, guerra, ódio e morte. Vida para sempre. E, portanto, perante tudo isso a imensa população, de todas as raças e línguas, elevarão um canto de louvor e de alegria ao Senhor da vida. O papa Francisco escreveu na mensagem para o Dia Mundial da Paz, em dia 01.01.2014:
“Uma fraternidade privada da referência a um Pai comum como seu fundamento último não consegue subsistir. Uma verdadeira fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade transcendente. A partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se «próximo» para cuidar do outro.”


Seus fiéis exultarão de alegria

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“Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor, cingido com um efod de linho. O rei e todos os israelitas conduziram a arca do Senhor, soltando gritos de alegria e tocando a trombeta.” O salmo 131 das Sagradas Escrituras revive essa trasladação da arca para Jerusalém, a nova capital escolhida pelo rei Davi. Foi um juramento que fez ao Senhor: “Não entrarei na tenda em que moro, não me deitarei no leito de meu repouso, não darei sono aos meus olhos nem repouso às minhas pálpebras, até que encontre uma residência para o Senhor, uma morada ao Poderoso de Jacó.”
Essa morada da arca era muito importante porque representava a proximidade de Deus com o seu povo. Ele era tudo para o seu escolhido: fonte de prosperidade, de salvação e alegria. E nessa entrada triunfante litúrgica, lembra-se cantando o evento do reencontro da arca nas “campinas de Jaar”, na região de Éfrata: “A arca estava em Éfrata, nós a encontramos nas campinas de Jaar.” Agora com a presença de Deus o povo se sente seguro e manifesta toda a sua devoção e louvação.

“Entremos em sua morada, prostremo-nos diante do escabelo de seus pés. Levantai-vos, Senhor, para vir ao vosso repouso, vós e a arca de vossa majestade. Vistam-se de justiça os vossos sacerdotes, e jubilosos cantem de alegria vossos fiéis.” É a alegria da presença do Altíssimo. E perante a certeza que Davi é o escolhido de Deus que não o abandona, segue-se um juramento: “De que não há de se retratar: Colocarei em teu trono um descendente de tua raça.” Esse juramento divino, diz o salmo, é condicionado por um “Se”: “Se teus filhos guardarem minha aliança e os preceitos que eu lhes hei de ensinar, também os descendentes deles, para sempre, se sentarão em teu trono.”

Isto significa que ao dom de Deus deve corresponder por parte humana uma adesão fiel e observância dos preceitos. Deus assim age na história da humanidade, não no sentido único, mas de participação das pessoas. É verdade que o Senhor toma a iniciativa primeiro, porém, envolvendo as suas criaturas na ação Dele. E acrescentou o Senhor: “É aqui para sempre o lugar de meu repouso, é aqui que habitarei porque o escolhi. Abençoarei copiosamente sua subsistência, fartarei de pão os seus pobres.”

O autor do hino, enfim, apresenta Davi como uma lâmpada resplandecente. Qual a importância da luz? A luz na Bíblia é um símbolo divino. Assim sendo, Davi reflete essa presença brilhante de Deus de Sião. Para nós cristãos, esse salmo se torna uma oração ao Deus conosco, que escolhe de estar próximo das suas criaturas, pela encarnação de Jesus Cristo. Portanto, uma profissão de fé ao Deus que se encarna para compartilhar a carne do ser humano, isto é, à sua fragilidade. E por fim termina que para cobrir de confusão os inimigos do seu escolhido, consagrado fará brilhar na sua fronte o seu diadema. Toda a realeza encobri o seu enviado.

O papa Francisco falou no dia 18.12.2013: “Ele escolheu habitar a nossa história como ela é, com todos os seus limites. Assim, Deus mostrou, de modo insuperável, a Sua misericórdia.”


Páscoa: resposta à cultura midiática

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Hoje, mais do que nunca, as pessoas são invadidas por “rios de palavras”, frutos de uma tecnologia perfeccionista e, ao mesmo tempo, exibicionista. Essa emergente onda comunicativa é fruto de uma civilização concentrada sobre a cotidiana experiência dos meios de comunicação social. Eles constituem a alma de cada ação humana. Portanto, aquilo que acontece na complexa e difícil atividade do nosso mundo é ligada à incidência da sequência de mensagens que invadem a vida de cada um, na presunção de oferecer a verdade.
Infelizmente, deve se notar que a busca pela resposta fundamental, que a humanidade tanto persegue, não passa através dos mecanismos do fruto da inteligência humana, que é aquela que nós hoje comumente chamamos de mídia. De fato, a opinião atual acha que esta mídia possa resolver o problema das conturbadas cotidianidades do ser humano moderno, o qual, porém, fica traído por esta sua aposta, porque suas principais perguntas ficam sem respostas. As propostas da cultura midiática se revelam insuficientes porque são ligadas à materialidade do ter. É uma comunicação que caracteriza o nosso tempo e que não consegue levantar, motivar as pessoas a ir além dos seus limitados e apertados horizontes.
A pessoa, sabemos, é algo muito mais que isto, vai bem além pela sua vocação que tem. O acontecimento da ressurreição entra neste contexto, permitindo uma visão que supera este nosso horizonte fechado. Hoje, mais que nunca, o nosso tempo registra esta situação. A Ressurreição nos testemunha a atualidade de sua mensagem. Páscoa se revela, assim como em todos os tempos e também hoje, a verdadeira leitura que propõe ao ser humano não se deixar levar sob a pressão da lógica do tempo que passa. A Ressurreição é uma proposta de comunicação encarnada, a qual é mediadora de vida. Nela, o projeto humano acha a plenitude da sua busca. Por isso, a sua celebração não pertence à retórica das tradicionais festividades.
Páscoa é a oferta viva e permanente em um tempo de presunção e de confusão. É evidente que nesta perspectiva a nossa comunicação, para ser vital, deve possuir alguns requisitos contemplativos do mistério pascal. Neste sentido, constrói-se um verdadeiro percurso comunicativo, a partir do evento da experiência cristã, mais do que o tecnológico. A Ressurreição nos ajuda a nos encontrar constantemente. Portanto, uma comunicação verdadeira tem de passar por esta experiência, que nos revela que vamos além de uma simples história humana. Como o Cristo ressurgido conseguiu dar tanta coragem aos apóstolos trancados no cenáculo por medo e que não hesitaram depois em sair para testemunha-Lo, assim nós podemos fazer da nossa comunicação que seja mais objetiva e verdadeira, na medida em que nos deixamos viver por este evento único na história.
Páscoa é tudo para nós. É a nossa festa, a nossa vida, é a nossa comunicação. A Páscoa nos ajuda a enxergar aquilo que nós humanos não sabemos ver.
Por tudo isso FELIZ PÁSCOA.


Senhor, meu coração não se enche de orgulho!

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O salmo 130 das Sagradas Escrituras, por sinal bastante breve, é de uma confiança tão terna e suave que poderíamos comparar a uma cena bem familiar de uma mãe que tem no seu colo o bebê e o acaricia com toda a sua ternura. Veja o que diz esse hino:

“De Davi. Senhor, meu coração não se enche de orgulho, meu olhar não se levanta arrogante. Não procuro grandezas nem coisas superiores a mim. Ao contrário, mantenho em calma e sossego a minha alma, tal como uma criança no seio materno, assim está minha alma em mim mesmo. Israel, põe tua esperança no Senhor, agora e para sempre.”

São palavras suaves e de encorajamento, porque Deus socorre os seus filhos e filhas com o seu amor infinito. Já o grande profeta Oséias (11,1-4) mencionava a ternura de Deus em relação ao ser humano: “Israel era ainda criança, e já eu o amava, e do Egito chamei meu filho. Mas, quanto mais os chamei, mais se afastaram; ofereceram sacrifícios aos Baals e queimaram ofertas aos ídolos. Eu, entretanto, ensinava Efraim a andar, tomava-o nos meus braços, mas não compreenderam que eu cuidava deles. Segurava-os com laços humanos, com laços de amor; fui para eles como o que tira da boca uma rédea, e dei-lhes alimento.”

A respeito disso também Jesus falou sobre a grandeza da infância espiritual: “Os discípulos aproxima¬ram-se de Jesus e perguntaram-lhe: “Quem é o maior no Reino dos Céus?”. Jesus chamou uma criancinha, colocou-a no meio deles e disse: “Se não vos transformardes e vos tornardes como criancinhas, não entrareis no Reino dos Céus. Aquele que se fizer humilde como esta criança será maior no Reino dos Céus. E o que recebe em meu nome a um menino como este, é a mim que recebe (Mt 18,1-5)”.

O autor do salmo apresenta, por contrasto, duas atitudes que o ser humano pode assumir no seu cotidiano: da humildade e da soberbia. A soberbia é apresentada aqui com o símbolo da montanha, representada pela sua altura e, por isso, quis dizer que a pessoa vê de cima para baixo, manifestando toda a sua arrogância e grandeza, desprezando os outros. E, de outro lado, a humildade representada pelo fiel humilde. Ele é comparado a quem “não procura grandezas nem coisas superiores a ele”. O fiel humilde, portanto, é uma pessoa calada, bem distante da pessoa soberba que pretende, iludindo-se, de se colocar até no lugar de Deus.
No entanto, o humilde é parecido a um bebê desmamado, carregado nos ombros, no jeito da cultura africana. E essa comparação é parecida ao fiel que a sua vida não é determinada somente pela alimentação, mas, sobretudo, pela relação de confiança com Deus. O Deus parecido a uma mãe que acode o seu filho, dando todo o seu carinho e ternura. Poderíamos dizer que a vida do ser humano inicia na ação do espírito, autêntica confiança, totalmente entregue, mas aderindo com a própria liberdade e personalidade. E o Papa Francisco nos pergunta: “Quantas maravilhas fez Deus por mim? E esta é a libertação de Deus. Deus faz muitas maravilhas e liberta-nos.”


Do fundo do abismo, clamo a vós, Senhor!

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“Do fundo do abismo, clamo a vós, Senhor; Senhor, ouvi minha oração.” É o início do salmo 129 das Sagradas Escrituras, muito conhecido pela tradição cristã. É um salmo penitencial, bem apreciado pela piedade popular. Palavras que iluminam o caminho dos fiéis para aumentar e reforçar a intimidade com Deus. É também muito usado pela liturgia fúnebre católica. Uma súplica para a vida que somente Deus pode garantir: “Que vossos ouvidos estejam atentos à voz de minha súplica. Se tiverdes em conta nossos pecados, Senhor, Senhor, quem poderá subsistir diante de vós? Mas em vós se encontra o perdão dos pecados, para que, reverentes, vos sirvamos.”

O salmista mostra que quem atrapalha essa intimidade com Deus são os pecados. Por isso, grita para Deus, pedindo perdão. E esta experiência da misericórdia do Senhor lhe permite de se chegar cada vez mais a Ele. Com esta proximidade, surge a questão do serviço e, por isso, a resposta do amor de Deus é retribuído com o serviço. É o amor divino que gera o temor. Nesse sentido, o fiel vai fazer de tudo para não se afastar dessa grande manifestação de existência misericordiosa de Deus. E assim prossegue o hino: “Ponho a minha esperança no Senhor. Minha alma tem confiança em sua palavra. Minha alma espera pelo Senhor, mais ansiosa do que os vigias pela manhã.”

O autor se coloca em primeira pessoa, insistindo na confiança e esperança no Senhor, fazendo alusão à imagem do vigia como exemplo de tudo isso. É essa tenacidade que o pecador convertido se apega: a sua libertação. E o autor do hino proclama assim: “Mais do que os vigias que aguardam a manhã, espere Israel pelo Senhor, porque junto ao Senhor se acha a misericórdia; encontra-se nele copiosa redenção. E ele mesmo há de remir Israel de todas as suas iniquidades.” Proclamação essa que envolve ‘todo Israel’ naquilo que se refere à culpa, à justiça e à redenção.

Como podemos constatar na primeira parte do salmo, o protagonista era o fiel e, no entanto, na parte final, o protagonista é o povo de Israel, o escolhido. Esta passagem do individual para o povo, mostra como a salvação se alcança ao nível comunitário, que hoje nós diríamos ‘eclesialmente’. A fé que o autor desse salmo descreve é a partir da redenção do povo de Israel da escravidão do Egito. Deus que resgata das circunstâncias históricas de opressão pelo faraó do Egito para conduzi-lo para uma terra de libertação. Esse mal histórico agora passa para a libertação do mal interior.

Assim sendo, constata-se como acontecem as virtudes divinas da misericórdia e da redenção. Poderíamos representar tudo isso com o exemplo de um pai quando resgata o filho perdido na escravidão e na miséria. A humanidade reconhece as suas próprias limitações cruéis e, portanto, se apega ao seu Deus para encontrar amor e libertação. O fiel, assim, faz a experiência que o mal pode ameaça-lo, mas não poderá vencê-lo, porque Deus é maior que o mal, os infernos humanos. Perspectivas de vida e não de morte.


Como me perseguiram desde a minha juventude!

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O salmo 128 das Sagradas Escrituras revive o passado. Recorda um tempo cruel e sofrido para Israel quando o rei Nabucodonosor conquistou Jerusalém e a destruiu. Era o ano 586 antes de Cristo. O fiel resgata esse momento histórico como se fosse ele a figura principal. No entanto, o associa ao seu povo Israel, qual verdadeiro protagonista. De fato, o hino é uma queixa nacional que vira um protesto misturado pela dor, lágrimas e fortes emoções.

Ao mesmo tempo, o salmo revela a confiança que Deus vai intervir em favor do seu povo: “Mas o Senhor é justo, ele cortou as correias com que me afligiram os maus. Sejam confundidos e recuem todos os que odeiam Sião.” Na primeira parte do salmo, relembra-se a juventude de Israel, isto é, um passado de dor, sofrimento pela opressão dos inimigos. E o autor descreve essa opressão e tortura dos perseguidores que os venceram com os símbolos da agricultura: “Lavraram sobre o meu dorso os lavradores, nele abriram longos sulcos.”

Aqui está a grande novidade dos justos: o Deus que eles confiam se torna presente, fazendo justiça contra os opressores. É Deus o verdadeiro libertador deles e não as estratégias e poderes deles. O autor tudo expressa com a imagem agrícola da colheita e diz: “Que eles se tornem como a erva do telhado, que seca antes de ser arrancada. Com ela não enche as mãos o ceifador, nem seu regaço quem recolhe os feixes.” Por que o autor diz ‘como a erva do telhado’? Porque os telhados das casas da Palestina daquele tempo muitas vezes eram cobertas de terra batida.

Naturalmente, quando chovia, grelava erva. Mas, devido a pouca terra, não tinha possibilidade que germinasse nada. Assim sendo, nenhum ceifador podia tirar frutos daquele local: “Com ela não enche as mãos.” E a partir desse exemplo faz a comparação do destino dos inimigos do povo de Israel: que são iguais a erva seca, sem fruto, sem futuro. Perante uma cena estéril como essa, aqueles que enxergam tudo isso irão ironizar, achar graça e caçoa-los. É uma maldição que se precipita contra os inimigos de Israel.

Efetivamente, quando se participa de uma colheita rica e abundante se glorifica Deus e se pede que nunca venha faltar tanta fartura assim. No entanto, perante a frustrada ceifa dos perseguidores, inimigos, não se pode invocar a bênção de Deus: “Desça sobre vós a bênção do Senhor!”. Nem: “Nós vos abençoamos em nome do Senhor.” Com essa certeza que o juízo de Deus vai prevalecer na humanidade se conclui esta lamentação do povo de Israel, que na tradição cristã se tornou o hino do Cristo torturado e crucificado.

O salmista ainda proclama: “O Senhor é justo, ele cortou as correias com que me afligiram os maus.” E o papa Francisco durante a Missa na casa Santa Marta de 26.02.18 disse: “Sejam misericordiosos como o Pai é misericordioso. E mais: sejam generosos. Dai e vos será dado. O que me será dado? Uma boa medida, calcada, sacudida, transbordante. A abundância da generosidade do Senhor, quando nós seremos plenos da abundância da nossa misericórdia”.

* Sacerdote, doutor em teologia, mestre em missiologia e comunicação.E-mail: clpighin@claudio-pighin.net