Levanto os olhos para vós!

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O salmo 122 das Sagradas Escrituras focaliza a importância dos olhos para a vida do ser humano. De fato, diz-se que eles são o espelho do interior da pessoa, permitem perscrutar as pessoas. Aliás, às vezes, justamente se reconhece que os olhos nos olhos valem mais de tantas palavras ou discursos entre os indivíduos. A linguagem é muita mais forte do que as outras linguagens. O salmo tomado em consideração é enfocado sobre os olhares que se encontram.

Diz o seguinte: “Levanto os olhos para vós, que habitais nos céus. Como os olhos dos servos estão fixos nas mãos de seus senhores, como os olhos das servas estão fixos nas mãos de suas senhoras, assim nossos olhos estão voltados para o Senhor, nosso Deus, esperando que ele tenha piedade de nós.” E como os olhos dos servos observam minuciosamente as mãos dos seus patrões para captar qualquer mínimo gesto que possa revelar a vontade ou bondade deles.

Na simples invocação pessoal e comunitária, é comparada ao mundo dos palácios reais de Oriente, onde a esperança dos pobres neles depositam confiança. Assim, o fiel que reza, intercede Deus, alimenta a esperança de que seus inimigos serão derrotados; a justiça será feita e a sua libertação está próxima. A relação do fiel com o seu Deus é o esteio da sua vida. Porém, precisa também evidenciar que é bem diferente essa confiança entre os servos e os seus patrões e os fieis com Deus.

A relação de submissão a Deus gera salvação, bondade, piedade. É bem diferente a submissão aos patrões que a Deus. É uma submissão que gera promoção, liberdade e vida. Na segunda parte do salmo, evidencia-se outra simbologia chamada de saciedade, de fartura, não de comida ou de favores, mas de desprezo e zombarias: “Tende misericórdia de nós, Senhor, tende misericórdia de nós, porque estamos saturados de desprezo. 4. Nossa alma está em excesso repleta da zombaria dos opulentos e do desprezo dos soberbos.”

E o autor do salmo explica que a causa desse imenso sofrimento provém de duas classes sociais que ele define os “opulentos”, isto é, aqueles que não precisam e nem estão aí com Deus e assim chegam até ironizar os outros, e os soberbos. Perante toda essa situação, Deus, que é o Senhor da Vida, toma ‘partido’ em favor dos que são escravizados. Deus tem compaixão dos que o imploram e pedem a sua ajuda. O Deus da Vida é justo e tem piedade.

E o papa Francisco no ‘Angelus’ do dia 16.12.2018 falou o seguinte: “A consciência de que nas dificuldades podemos sempre dirigir-nos ao Senhor, e de que Ele jamais refuta nossas invocações, é um grande motivo de alegria”. E continua o Santo Padre: “Nenhuma preocupação, nenhum medo jamais conseguirá tirar-nos a serenidade que vem não de coisas humanas, das consolações humanas: não; a serenidade que vem de Deus, do saber que Deus guia amorosamente nossa vida, e o faz sempre. Mesmo em meio aos problemas e aos sofrimentos, esta certeza alimenta a esperança e a coragem.”


Que alegria: “vamos subir à casa do Senhor”!

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“Que alegria quando me vieram dizer: Vamos subir à casa do Senhor”. O salmo 121, das Sagradas Escrituras, inicia com essa manifestação de felicidade por realizar seu grande desejo de visitar a cidade Jerusalém. Às suas portas, o salmista fica vislumbrado pela sua grandeza e magnificência. “Eis que nossos pés se estacam diante de tuas portas, ó Jerusalém! Jerusalém, cidade tão bem edificada, que forma um tão belo conjunto!” E a partir dessa contemplação, o autor do salmo proclama o centro de unidade das doze tribos de Israel, que em Sião se unem numa única fé. Além do mais, Jerusalém, a cidade santa, é o único âmbito do culto legítimo, segundo a lei de Israel, como o livro do Deuteronômio descreve, o centro da liturgia no templo.

Devido a isso, os judeus tinham a obrigação de fazer a peregrinação à cidade santa para celebrar a própria fé em Deus nas solenidades de Páscoa, Pentecostes e das Tendas: “Para lá sobem as tribos, as tribos do Senhor, segundo a Lei de Israel, para celebrar o nome do Senhor.” Perante tudo isso, Jerusalém é a sede da ‘casa de Davi’, isto é, a dinastia na qual Deus tinha escolhido de se revelar ao seu povo. E por fim aparece: “Lá se acham os tronos de justiça, os assentos da casa de Davi.” Sendo a capital politica, Jerusalém era também a sede do tribunal superior onde os tribunais locais se dirigiam. Era nessa sede superior que as controvérsias iam ser resolvidas de maneira definitiva, e isto tranquilizava o povo que conseguia a justiça.
Nos versículos finais, de 6 a 9, há uma querida saudação a Jerusalém: “Pedi, vós todos, a paz para Jerusalém, e vivam em segurança os que te amam. Reine a paz em teus muros, e a tranquilidade em teus palácios. Por amor de meus irmãos e de meus amigos, pedirei a paz para ti. Por amor da casa do Senhor, nosso Deus, pedirei para ti a felicidade.” Tudo é cadenciado pela palavra ‘Paz’. É um augúrio e, ao mesmo tempo, uma saudação na ‘cidade da paz’. A paz que aqui menciona é a paz messiânica que manifesta felicidade, prosperidade, serenidade e bem. A respeito disso, podemos observar também que no versículo 9, em que expressa quase um adeus à cidade santa, a paz citada se une ao bem, de onde vem a famosa expressão franciscana: “Paz e bem”.

Essa tradicional saudação ‘paz e bem’ provém, portanto, do contato com a espiritualidade hebraica. Somente a partir do XV século começa a se difundir no ambiente franciscano esse tipo de saudação. Papa Francisco falou na peregrinação à Terra Santa em maio de 2014: “A paz é um dom que se deve buscar pacientemente e construir «artesanalmente» através dos pequenos e grandes gestos que formam a nossa vida diária. Consolida-se o caminho da paz, se reconhecermos que todos temos o mesmo sangue e fazemos parte do género humano; se não nos esquecermos que temos um único Pai no Céu e que todos nós somos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança.”


De onde me virá socorro?

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“Para os montes levanto os olhos: de onde me virá socorro”? O salmo 120 das Sagradas Escrituras inicia assim, proclamando a grande confiança do fiel ao seu Deus: “O meu socorro virá do Senhor, criador do céu e da terra”. É o fiel peregrino que levanta o seu hino de louvor ao Senhor da vida. Por que o monte? O ‘monte’ representa a cidade santa, Sião, qual grande desejo do peregrino que anda pelos caminhos tortuosos das colinas e dos vales para alcançar essa meta. Logo em seguida, o salmo celebra o Deus que vigia, porque guarda com toda atenção o seu fiel.

Dos versículos de 3 a 8, emerge o verbo ‘guardar’. A imagem de atalaia é apresentada como aquela que toma conta o tempo todo: dia e noite: “não há de dormir, nem adormecer”. Para melhor entender isso, o salmista faz referência aos pastores que tutelam dia e noite o próprio rebanho dos assaltos. Assim é o máximo Pastor, Deus, em relação aos seus fiéis. O Senhor não descansa, de jeito nenhum, para defender o seu rebanho. Outra colocação é a famosa ‘estar à direita’, que significa o defensor, que tendo na sua esquerda o protegido, com a direita pode impugnar a espada para acudir o amigo.

Além disso, tem mais uma interpretação: no processo judicial, o acusado tinha o seu advogado à direita. Deus é também aquele que guarda o caminho cotidiano do sol quente e da luz da lua. Assim sendo, o desejo do peregrino é aquele de ser protegido pela sombra divina. Por que o autor acrescenta a luz da lua? No antigo Oriente, e também em outras culturas, os raios lunares eram considerados perigosos à saúde. Só para resgatar também uma fala que se costuma dizer entre nós: ‘aquele fulano é lunático’, é pra dizer que a pessoa tal tem um modo estranho de se comportar, inconstante.

Deus, portanto, nos liberta dos perigos do dia e da noite: “De dia, o sol não te fará mal; nem a lua durante a noite”. E terminando o salmo salienta: “O Senhor te resguardará de todo o mal; ele velará sobre tua alma. O Senhor guardará os teus passos, agora e para todo o sempre”. Uma expressão bíblica que indica a vida toda. De fato, a nossa vida não é tudo isso? Caminhos certos e incertos que se experimentam ao longo da nossa temporalidade. Cada momento da nossa vida está sob o olhar do nosso Deus que vigila a nossa breve passagem terrena, mas igualmente sobre o futuro misterioso da imensidade da nossa vida que acontece depois da irmã morte.

E o papa Francisco disse para o II dia mundial dos pobres, 18.11.2018, o seguinte: “O Senhor escuta os pobres que clamam por Ele e é bom para quantos, de coração dilacerado pela tristeza, a solidão e a exclusão, n’Ele procuram refúgio. Escuta todos os que são espezinhados na sua dignidade e, apesar disso, têm a força de levantar o olhar para o Alto a fim de receber luz e conforto. Escuta os que se veem perseguidos em nome duma falsa justiça, oprimidos por políticas indignas deste nome e intimidados pela violência; e contudo sabem que têm em Deus o seu Salvador.”


Na hora da tribulação, clamei ao senhor

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O salmo 119 faz parte do “cântico das ascensões”. Poderíamos até considera-lo um canto do peregrino de Sião. Um homem que fez a experiência do socorro de Deus na aflição, no desespero, e agora é alvejado pelos inimigos que tentam, de toda maneira, acabar com ele; e ele, por sua vez, depõe toda confiança no Senhor.

O hino inicia com uma lamentação: “Na hora da tribulação, clamei ao Senhor e ele me atendeu”. Com este versículo, define-se, praticamente, toda a estruturação do salmo. É a partir daí que se desenvolve a oração. Enfoca-se numa vigorosa discussão contra os ‘lábios mentirosos’ e ‘a língua pérfida’, isto é, o falar mal dos outros, fazer fofocas e, assim, colocando na cruz a vida de uma pessoa. O fiel rezando pede a intercessão do juízo de Deus sobre esse tipo de perseguição que pessoas mal intencionadas fazem.

E o salmista acrescenta: “Que ganharás, qual será teu proveito, ó língua pérfida? Flechas agudas de guerreiro, carvões ardentes de giesta”. Assim sendo, as palavras são parecidas a flechas bem agudas que um combatente joga contra ao seu adversário. A respeito disso, o papa Francisco falou o seguinte, na audiência geral de 14 de novembro: “O bisbilhoteiro, a bisbilhoteira, são pessoas que matam: matam os outros, porque a língua mata como uma faca. Tenham atenção! Um bisbilhoteiro ou bisbilhoteira é um terrorista, porque com a sua língua atira a bomba e vai embora tranquilo, mas o que diz aquela bomba lançada destrói a fama dos outros”. Porém, Deus, pela sua imensa potência, pode evitar essa terrível crueldade e faze-la voltar pra quem mesmo fofocou. O autor do salmo insiste, dizendo que as palavras são parecidas também a ‘carvões ardentes de giesta’. E acrescenta que Deus pode pega-los e joga-los de novo contra quem os jogou. E isto é terrível.

A segunda parte, dos versículos de 5 a 7, dá continuidade ao aspecto belicoso. Uma intercessão que inicia com ar de preocupação: “Ai de mim!”. É o fiel que se sente abandonado. Ele diz isto porque, vivendo em Israel, parece que vive em Mosoch, habitantes do Caucásio, ou em Cedar, território no deserto da Síria. Cedar e Mosoch são considerados como sinônimos de “bárbaros”, isto é, que não tem lei, não tem direito a defendê-lo, praticamente existe somente as leis do mais experto e a do mais poderoso.

Este fiel se encontra circundado por um ambiente bárbaro e inimigo. Perigoso e antagônico. Os olhos do fiel, do suplicante, são direcionados para Sião, que aqui é evocada de maneira alusiva com a palavra “paz”. Este fiel se identifica com a sagrada Jerusalém e, portanto, considera-se um morador espiritual desta ‘cidade da paz’.

Assim sendo, este salmo, podemos dizer, se torna uma oração certa para os operadores da paz. Por que isso? Porque eles devem enfrentar um mundo totalmente hostil e perigoso, não obstante isso, devem proclamar sempre a paz, deixando a Deus o julgamento.


Felizes aqueles cuja vida é pura!

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O salmo 118 das Sagradas Escrituras é o mais cumprido de todos os salmos (176 versículos). Podemos também dizer que é um ‘poema da palavra’. Neste salmo, canta-se a ‘Torah’, a Lei de Deus; uma Lei que vai além da mesma Lei e se torna a Palavra revelada. A Palavra que se manifesta com toda a sua onipotência. Pode-se observar que a cada versículo está presente pelo menos um dos oito termos com que se define a Lei-Palavra de Deus. Eles são a seguir: Lei, Palavra, Testemunho, Juízo, Dito, Decreto, Preceito e Ordem. Revela-se, neste salmo, um tema muito interessante que é aquele do caminho. O caminho da vida. Ele é o símbolo de vida e existência do dia-a-dia. E pelo fato que representa a vida, não descarta as dificuldades, tentações e os sofrimentos, mas, ao mesmo tempo, demonstra uma grande serenidade e confiança na Palavra de Deus. E não só, além do mais diz que: “saborosa é para mim vossa palavra! É mais doce que o mel à minha boca.” A Palavra de Deus é um ponto firme de referência para a vida do fiel. Sem ela, sente-se perdido. Que sentido tem esse testemunho para nós cristãos? É uma bela lição para tomar a sério e colocar em prática essa Palavra de vida eterna. Poderíamos dizer ainda que são bem-aventurados aqueles que praticam a Palavra de Deus, porque se tornam de fato irmãos e irmãs (Lc. 8,21). Pelo testemunho desse extraordinário salmo, revela-se a transparência de vida do fiel; e ele quer ser correto-verdadeiro: “Afastai-me do caminho da mentira, e fazei-me fiel à vossa Lei. Escolhi o caminho da verdade, impus-me os vossos decretos.” Outro aspecto: como um jovem manterá pura a sua vida? A resposta é: “Sendo fiel às vossas palavras. De todo o coração eu vos procuro.”

Guardando, fielmente, na própria vida a Palavra de Deus não se ofenderá Deus. Assim sendo, se terá capacidade de pronunciar todos os decretos do Senhor e mantê-los vivos com as constantes reflexões. Essa é a verdadeira alegria do fiel, do justo, porque nunca esquece a sua Palavra. Tudo isso é uma graça, manter viva a Palavra do Senhor. O fiel insiste e pede a Deus que abri os seus olhos para poder enxergar as maravilhas de sua Lei. Reconhece que os seus esforços não são suficientes para alcançar esta sintonia com o Senhor, se não tiver a sua própria ajuda. Ao mesmo tempo, os soberbos, aqueles que se afastam da sua Palavra, são malditos, perdidos nos meandros da vida.

Estar longe da Palavra de Deus, fica-se confundido, sem rumo. Aí aparece a vaidade em que não se enxerga mais o caminho da vida. Essa Palavra divina vale muito mais do que dinheiro e capital que o ser humano constrói. Isso é um nada perante a Palavra de Deus. Sim, a verdadeira sabedoria provém da Palavra de Deus e não do dinheiro. E termina o salmo dizendo que a Palavra de Deus é isenta de toda a impureza e, por isso, o salmista diz: Cante minha língua as vossas palavras.


Louvai o senhor, porque ele é bom!

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O salmo 117, das Sagradas Escrituras, é usado no culto judaico da celebração da Páscoa e também nas principais solenidades do ano litúrgico. Os pesquisadores são propensos em associar este salmo à Festa dos Tabernáculos, Festa das Cabanas, Festa das Tendas[ ou, ainda, Festa das Colheitas, tendo em vista que coincide com a estação das colheitas em Israel, no começo do outono.

É a comemoração da grande passagem de Israel no deserto para a terra prometida. Uma celebração que convida a louvar o amor de Deus para o seu povo: “Louvai o Senhor, porque ele é bom; porque eterna é a sua misericórdia.” Depois da louvação, inicia-se a procissão que acontece entre as ‘cabanas dos justos’, isto é, nas ruas da cidade santa: “Brados de alegria e de vitória ressoam nas tendas dos justos.” Assim começa um hino de agradecimento: “Na tribulação invoquei o Senhor; ouviu-me o Senhor e me livrou…”, em que o fiel é convidado a manter a confiança na mão poderosa do Senhor que o conduz à salvação.

De fato, os inimigos podem cerca-lo “como um enxame de abelhas”, mas a fé no seu Deus o liberta, Isto é, Israel esmaga os seus inimigos. E aquela procissão chega à porta santa do Templo, onde acontece um diálogo entre assembleia e sacerdotes para a admissão ao Templo: “Abri-me as portas santas, a fim de que eu entre para agradecer ao Senhor”, canta o solista em nome da assembleia. E os sacerdotes respondem: “Esta é a porta do Senhor: só os justos por ela podem passar.” E, uma vez que se entrou no templo de Sião, inicia-se uma extraordinária liturgia de agradecimento.

Nela, exalta-se a ‘pedra’ angular do Templo, símbolo do Senhor: “A pedra rejeitada pelos arquitetos tornou-se a pedra angular. Isto foi obra do Senhor, é um prodígio aos nossos olhos.” E os sacerdotes dão início à dança sagrada e rodam o altar com ‘coroas’. Este rito ainda hoje os Hebreus celebram na festa das cabanas. A celebração termina com um breve hino ao ‘meu Deus’. Só para lembrar, esta benção sacerdotal é citada pelo evangelista Mateus (21,9) na entrada triunfal de Jerusalém, no dia dos ramos. O “Bendito seja o que vem em nome do Senhor! Da casa do Senhor nós vos bendizemos” se tornou o nosso ‘Hosana’ muito considerado pela tradição cristã.

O papa Francisco falou em 22.11.2013: “Na cerimônia litúrgica, o que é mais importante: os cânticos, os rituais belos ou tudo? Mais importante é a adoração, toda a comunidade reunida, diante do altar, onde se celebra o sacrifício e a adoração” e continuou: “Mas, eu acho – digo com humildade -, que nós cristãos perdemos um pouco o sentido da adoração e pensamos: vamos ao templo, reunamo-nos como irmãos, porque é bom, é belo; mas o centro é onde Deus está”. A nossa vida precisa ser preenchida também de louvores, sobretudo ao nosso Deus.


Louvai ao Senhor todas as nações!

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O salmo 116 é o mais breve de todos os 150 salmos das Sagradas Escrituras. Poderíamos compara-lo a uma oração simples e breve do nosso dia-a-dia, como o ‘Glória ao Pai’. Isto também ao término da reza de cada salmo se diz “Glória ao Pai…”. Este salmo é um convite para todos os povos a louvar o Senhor. Louvor é uma alta expressão de fé, reconhecimento das nações ao seu Deus. De fato, estamos em uma busca que vai além de nossa dimensão humana. Nessa busca, não temos nenhuma certeza, mas, mesmo assim, buscamos. É isso que dá sentido ao nosso ser. Buscando, não nos fechamos nem nas nossas “pequenas coisas do dia-a-dia” nem nas “coisonas” que vivemos, nas grandes conquistas ou nas grandes dores. Enxergamos além!
No fundo da consciência, na intimidade do ser coração, o ser humano chega a essa voz que o chama ao Bem. Ele sente “a lei escrita pelo próprio Deus no seu coração”. A consciência, portanto, é o centro mais secreto, o santuário do ser humano. Na intimidade do ser, encontra-se a voz de Deus. E, nessa intimidade, os seres humanos estão unidos aos demais. Por conseguinte, se prevalece a reta consciência, as pessoas têm condições de se manterem longe das escravidões e das opressões do mundo, de construírem seu mundo mais justo, mais próximo do Reino de Deus.
Por isso, o salmo é um canto de ação de garças de todos os justos que buscam e amam Deus de coração sincero: “Porque sem limites é a sua misericórdia para conosco, e eterna a fidelidade do Senhor.” Essa oração não se restringe somente a um povo, mas a todos de origens diferentes, culturas e línguas diversas e também de outras histórias e espiritualidades. Não exclui ninguém: “Aleluia. Louvai ao Senhor todas as nações, louvai-o todos os povos”. O que nós consideramos rezando esse hino, embora breve, um conteúdo expressivo de teologia bíblica da Aliança onde se exalta o “amor” e a “fidelidade”, quais referências fundamentais da ação de Deus.
O que se entende por isso? Primeiro o amor. Ele abraça os valores como a fidelidade, a misericórdia, a bondade e a ternura. Isto significa que entre nós e o Senhor existe uma relação que não é fria como efetivamente aquela entre um rei e um seu súdito, um subalterno, mas como aquela que se desenvolve entre dois amigos, entre os esposos, entre pai e mãe com os seus filhos. Segundo a fidelidade. A fidelidade em si manifesta a ‘verdade’, isto é, a genuinidade de uma relação, a autenticidade e, ao mesmo tempo, a lealdade que se mantém não obstante os obstáculos e as provas da vida. Por isso, o autor do salmo diz que em tudo isso ‘dura pela eternidade’. O amor de Deus é fiel para a eternidade e ele é puro e alegre que não se deixa condicionar pelas nossas infidelidades e misérias humanas. Ele nunca nos abandona. Ele não quer nos deixar perder nas trevas do não sentido da vida, do vazio da vida e, sobretudo, da morte.


É penoso para o Senhor ver morrer os seus fiéis

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O salmo 115 das Sgradas Escrituras é um hino que exalta a libertação: “Erguerei o cálice da salvação, invocando o nome do Senhor”. Naquele tempo, era costume fazer um sacrifício de ação de graças pela conquista da libertação de um grave perigo de morte, pela ajuda de Deus.

Dessa maneira, vemos o rito do “cálice da salvação”, em que a pessoa que foi beneficiada por Deus levanta o cálice e proclama o nome do Senhor perante o povo reunido. E este povo reunido é constituído pelos familiares e amigos da pessoa libertada.

Nesse especifico caso, refere-se à ceia pascal hebraica em que se agradece pela libertação. Esse salmo se tornou também importante para o cristianismo, em que o apóstolo Paulo cita na segunda carta aos Coríntios “Eu cri, por isto falei, também nós cremos, e por isso falamos.” Também na carta aos Romanos “todo homem como mentiroso”, e colocação influi em Santo Agostino um debate sobre o pecado original.

Ele dizia em síntese que para destacar a necessidade da graça, insiste em uma visão do homem como sujeito ao pecado, condenado (“massa danada”), que só pode ser salvo pelo batismo. O homem sem a graça não pode ser salvo e não pode fazer nada de bom. Aqui é a necessidade absoluta de Cristo: a necessidade da graça é a necessidade de Cristo.

O autor do salmo diz: “Cumprirei os meus votos para com o Senhor, na presença de todo o seu povo”. Ele descreve o rito sacrifical de agradecimento no Templo. E nesta celebração, o fiel faz uma declaração solene, em que Deus não pode ficar indiferente perante a morte dos seus fieis: “É penoso para o Senhor ver morrer os seus fiéis”.

Além disso, manifesta a pertença do fiel à comunidade de Deus: “Senhor, eu sou vosso servo; vosso servo, filho de vossa serva”. A denominação ‘filho de vossa serva’ significa quem nascia dentro de uma comunidade-família também de uma escrava e vinha adotado como filho do chefe da tribo, e, nesse caso, seria Deus.

E, por fim, o autor descreve a libertação realizada por Deus: “quebrastes os meus grilhões”, isto é Javé que salvou o seu filho da morte. Diante de tudo isso, é evidente ser esse salmo um hino de total confiança ao seu poderoso Senhor. E essa potência se revela de maneira especial sobre a derrota da morte física. Com tudo isso, o fiel não se cansa em invocar o seu Deus. É um salmo bem presente também nos nossos dias. O papa Francisco falou no ANGELUS, 11.12.2016, praça São Pedro, em Roma:

“O Senhor vem a nossa vida como libertador, nos libertar de todas as escravidões interiores e exteriores. É Ele que nos indica o caminho da fidelidade, da paciência e da perseverança porque, quando ele voltar, a nossa alegria será plena… Sinais externos convidam-nos a acolher o Senhor que vem sempre e bate à nossa porta, bate ao nosso coração, para estar ao nosso lado; convidam-nos a reconhecer os seus passos entre aqueles dos irmãos que passam ao nosso lado, sobretudo os mais débeis e necessitados.” Feliz 2019!


Os justos se rejubilam pela presença de Deus

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O salmo 67 das Sagradas Escrituras (Antigo Testamento) tem origem no começo da poesia hebraica, isto é, no século X antes de Cristo. Ele pode ser considerado o hino ‘A vós, ó Deus, louvamos’ qual o Senhor do universo e da história. Leia atentamente:
“Levanta-se Deus; eis que se dispersam seus inimigos, e fogem diante dele os que o odeiam. Eles se dissipam como a fumaça, como a cera que se derrete ao fogo. Assim perecem os maus diante de Deus. Os justos, porém, exultam e se rejubilam em sua presença, e transbordam de alegria. Cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao seu nome, abri caminho para o que em seu carro avança pelo deserto. Senhor é o seu nome, exultai em sua presença. É o pai dos órfãos e o protetor das viúvas, esse Deus que habita num templo santo. Aos abandonados, Deus preparou uma casa, conduz os cativos à liberdade e ao bem-estar; só os rebeldes ficam num deserto ardente. Ó Deus, quando saíeis à frente de vosso povo, quando avançáveis pelo deserto, a terra tremia, os próprios céus rorejavam diante de vós, o monte Sinai estremecia na presença do Deus de Israel. Sobre vossa herança fizestes cair generosa chuva, e restaurastes suas forças fatigadas. Vosso rebanho fixou habitação numa terra que vossa bondade, ó Deus, lhe havia preparado. Apenas o Senhor profere uma palavra, tornam-se numerosas as mulheres que anunciam a boa nova: Fogem, fogem os reis dos exércitos; os habitantes partilham os despojos. Enquanto entre os rebanhos repousáveis, as asas da pomba refulgiam como prata, e de ouro era o brilho de suas penas. Quando o Todo-poderoso dispersava os reis, caía a neve sobre o Salmon. Os montes de Basã são elevados, alcantilados são os montes de Basã. Montes escarpados, por que invejais a montanha que Deus escolheu para morar, para nela estabelecer uma habitação eterna? São milhares e milhares os carros de Deus: do Sinai vem o Senhor ao seu santuário. Subindo nas alturas levastes os cativos; recebestes homens como tributos, aqueles que recusaram habitar com o Senhor Deus. Bendito seja o Senhor todos os dias; Deus, nossa salvação, leva nossos fardos: nosso Deus é um Deus que salva, da morte nos livra o Senhor Deus. Sim, Deus parte a cabeça de seus inimigos, o crânio hirsuto do que persiste em seus pecados. Dissera o Senhor: Ainda que seja de Basã, eu os farei voltar, eu os trarei presos das profundezas do mar, para que banhes no sangue os teus pés, e a língua de teus cães receba dos inimigos seu quinhão. Contemplam a vossa chegada, ó Deus, a entrada do meu Deus, do meu rei, no santuário; Vêm na frente os cantores, atrás os tocadores de cítara; no meio, as jovens tocando tamborins. Bendizei a Deus nas vossas assembleias, bendizei ao Senhor, filhos de Israel! Eis Benjamim, o mais jovem, que vai na frente; depois os príncipes de Judá, com seus esquadrões; os príncipes de Zabulon, os príncipes de Neftali. Mostrai, ó Deus, o vosso poder, esse poder com que atuastes em nosso favor. Pelo vosso templo em Jerusalém, ofereçam-vos presentes os reis! Reprimi a fera dos canaviais, a manada dos touros com os novilhos das nações pagãs. Que eles se prosternem com barras de prata. Dispersai as nações que se comprazem na guerra. Aproximem-se os grandes do Egito, estenda a Etiópia suas mãos para Deus. Reinos da terra, cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao Senhor, que é levado pelos céus, pelos céus eternos; eis que ele fala, sua voz é potente: Reconhecei o poder de Deus! Sua majestade se estende sobre Israel, sua potência aparece nas nuvens. De seu santuário, temível é o Deus de Israel; é ele que dá ao seu povo a força e o poder. Bendito seja Deus!”
No começo do hino, há a invocação litúrgica que usa o canto oficial para a marcha da arca (onde se guardava os dez mandamentos e outros objetos sagrados). Ao som das trombetas, os inimigos se dissipam como a fumaça e se derretem como a cera ao fogo. Na primeira parte, exalta-se o êxodo do Egito e a entrada na terra prometida de Canãa, tendo Deus o guia de Israel. É Ele o pai e defensor dos órfãos e das viúvas. A segunda parte tem o domínio da figura Guerreiro Divino que guia os exércitos nas batalhas e garante as vitórias de Israel. E esse guerreiro é descrito com o seu brasão nacional que representa as asas da pomba que ‘refulgiam como prata, e de ouro era o brilho de suas penas’. No entanto, Deus estabelece a sua morada sobre os montes de Sião e do Sinai garantindo, assim, a sua presença constante. A terceira parte descreve a procissão de Israel até o Templo, Sião, para celebrar Deus. Depois da resposta vitoriosa de Deus, ordena-se a procissão com os cantos e aclamações para comemorar o triunfo contra os poderosos inimigos. As potências do mal são derrotadas pelo Senhor Deus. E por isso é dedicada uma aclamação gloriosa ao Deus: Ele é o verdadeiro vitorioso e poderoso. Creio que também nós precisamos ensaiar essa verdade: não apostar na vida daquilo que passa, por quanto atraente possa ser, mas naquilo que não passa: Deus!


Não a nós, Senhor, não a nós!

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A aliança de Deus com Israel é o tema central do Velho Testamento. O povo de Israel compreende a criação, a partir da aliança de Deus com eles. Embora a criação seja universal e aplicada a todos os povos, essa aliança não é exclusividade de uma casta, ela também tem caráter universal. A aliança com Javé é o ponto de partida para Israel, que lhe permite compreender os fatos e os acontecimentos na sua história e na história do mundo. O povo de Israel é constituído no Êxodo e no cativeiro. Nesse ambiente hostil e de escravidão, a Aliança com Deus justifica todas as ações do povo. Nessa experiência com Deus, há uma busca pela compreensão do ser humano.

Portanto, é a aliança que lhe permite compreender também a criação. O Antigo Testamento, trata como ‘criação’ e ‘aliança’ se relacionam; assim sendo, de como interpretar essa relação.

• Uma é a clássica tese pela qual a aliança é o ‘pressuposto’ da criação: Deus cria o mundo para poder escolher um povo e firmar com ele uma aliança. É o destino de Israel, mas também o destino da Igreja.

• A outra é aquela que busca refletir sobre a criação como um dado em si, sem depender de outras questões.

O salmo 113 ‘B’, das Sagradas Escrituras, nos ajuda a entender como esse nosso Deus age conosco e merece nossa glorificação.

Ele é dividido em 113 ‘A’ e em 113 ‘B’ pela famosa tradução dos ‘setenta’ e a ‘vulgada’ de S. Jeronimo tinha de maneira errada unidos em um só salmo 113. No entanto, em hebraico os dois salmos são conferidos em 114 que é o 113 ‘A’ e o 115 que é o 113 ‘B’. Também esse salmo faz parte do ‘Aleluia pascal’ que acompanha a liturgia da Páscoa hebraica e das maiores solenidades do calendário de Israel. É um hino que combate a idolatria. Ele inicia como fosse uma homilia sobre o verdadeiro Deus, qual Criador e Senhor de tudo, que aposta na humanidade.

Logo em seguida vem a denúncia da idolatria, produzida pelo ser humano, que não tem futuro e é impotente: “Têm boca, mas não falam, olhos e não podem ver…” Depois disso, se concentra na bênção solene: “abençoará a casa de Israel, abençoará a casa de Aarão, abençoará os que temem ao Senhor, os pequenos como os grandes.” Essa bênção, em primeiro lugar à casa de Israel, isto é o inteiro povo na sua identidade de comunidade nacional e religiosa. Logo depois vem a casa de Arão que são os sacerdotes que guardam a Palavra de Deus e o Templo de Sião. E enfim se dirige aos fieis praticantes, os pobres do Senhor.

Portanto, é na casa de Israel, de Arão e dos fieis praticantes que desce a bênção de Deus. Essa bênção divina se caracteriza de geração em geração na fertilidade dos seus rebanhos e dos produtos da terra. Perante essa graça de Deus em favor do seu povo, dos seus escolhidos, vem a resposta dos fieis, que agradecem pelo dom da fertilidade e da vida como sinal da presença de Deus. Fieis que contemplam esta ação de graça do Senhor explodem de alegria e levantam o hino de louvor.