Louva, ó minha alma, o Senhor!

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O salmo 145 das Sagradas Escrituras é o grande louvor ao Senhor Deus. Um louvor sem fim, que perdura até o fim: “Louvarei o Senhor por toda a vida. Salmodiarei o meu Deus enquanto existir.” Portanto, é um hino de festa, mas, ao mesmo tempo, pode-se notar uma grande concentração teológica. Veja nesses versículos: “É esse o Deus que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm; que é eternamente fiel à sua palavra, que faz justiça aos oprimidos, e dá pão aos que têm fome. O Senhor livra os cativos; o Senhor abre os olhos aos cegos; o Senhor ergue os abatidos; o Senhor ama os justos. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva; mas entrava os desígnios dos pecadores. O Senhor reinará eternamente; ó Sião, teu Deus é rei por toda a eternidade.”

Observa-se quantas vezes o nome de Deus é citado. E qual o sentido de todos esses nomes? Preocupam-se em celebrar quanto esse Deus ama as suas criaturas, em particular, àquelas fragilizadas e fracas. E mostra o salmista através da citação “Deus que fez o céu, a terra e o mar”, de maneira bem simbólica, a criação do universo na sua totalidade. É esse o Deus criador que tudo lhe pertence, e nós queremos adora-Lo. Por que queremos adora-Lo? Porque Ele é fiel para sempre à sua imensa obra criada. Que maravilha aos nossos olhos essa obra divina! Não temos palavras ao contemplarmos tudo isso. Além do mais, revela o autor que Deus faz ‘justiça aos oprimidos’ e abate os poderosos. Um Deus, portanto, que é justo e defensor dos últimos.

Na mesma lógica, continua o salmista dizendo que Deus ‘dá pão aos que tem fome’. Assim sendo, afirma, de maneira indireta, sobre a destinação universal dos bens que estão antes de cada direito de propriedade privada. Continua dizendo que o Senhor livra os presos e abre os olhos aos cegos. Isto mostra implicações da era messiânica, revelando assim sinais da nova criação de uma nova humanidade. O salmista conclama também que Deus ‘ergue os abatidos’: Ele se curva sobre aquele que está no chão pelo desespero e pela humilhação da vida e fica próximo para lhe dar a possibilidade de se agarrar e assim se levantar para ter novas perspectivas de vida. Dignidade. Tem mais: ‘O Senhor ama os justos’, isto é, os fiéis que seguem e vivem a lei moral divina. ‘O Senhor protege os peregrinos, os estrangeiros’: eles têm em terra estrangeira o defensor e protetor supremo que é o mesmo Deus. ‘Ele ampara o órfão e viúva’, categorias desprotegidas de um defensor, neste caso, que seriam pai e esposo, e, portanto, confiados diretamente ao Senhor. ‘Entrava os desígnios dos pecadores’, o autor quer mostrar como Deus se opõe àqueles que se afastam Dele em seus gestos e mentalidades. É a justiça que prevalece contra os projetos dos ímpios, de forma que quem reina é sempre o Senhor.

Por isso, o louvor é proclamar o projeto de amor e de misericórdia de Deus sobre o mundo. É este Reino que perdurará pelos séculos, de maneira gradual e eficaz. Esta perspectiva leva a louvar sempre o Senhor da Vida.


Ó, meu Deus, meu rei, eu vos glorificarei!

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Este hino é um solene louvor ao Senhor, rei da história. É o salmo 144 das Sagradas Escrituras que celebra a soberania de Deus pelo seu amor para todas as suas criaturas. Um amor que revela todo o seu carinho e ternura para que sua obra principal, o ser humano, se perpetue para sempre. Assim sendo, podemos reconhecer que Deus está presente na história, e não só, mas revela o próprio plano em relação a ela, que é de harmonia e paz. É um plano em que a colaboração dos seres humanos é cada vez mais participativa. Um plano de colaboração efetiva.

Podemos constatar que esse plano se manifesta em duas instâncias. Na primeira se fala de obras, majestade gloriosa, grandes ações, imensa bondade e justiça, isto é, poderosa entrada de salvação na história: “Grande é o Senhor e sumamente louvável, insondável é a sua grandeza. Cada geração apregoa à outra as vossas obras, e proclama o vosso poder. Elas falam do brilho esplendoroso de vossa majestade, e publicam as vossas maravilhas. Anunciam o formidável poder de vossas obras e narram a vossa grandeza. Proclamam o louvor de vossa bondade imensa, e aclamam a vossa justiça. O Senhor é clemente e compassivo, generoso e cheio de bondade. O Senhor é bom para com todos, e sua misericórdia se estende a todas as suas obras.”

Portanto, nós não somos abandonados às ventanias ou aos fragores das águas, mas somos entregues à ação prodigiosa de Deus poderoso que nos ama sem fim e que nos reserva um projeto eterno. Na segunda instância, Deus revela a sua fidelidade misericordiosa e de amor em relação ao ser humano, mas sobretudo ao pobre: “O Senhor se aproxima dos que o invocam, daqueles que o invocam com sinceridade. Ele satisfará o desejo dos que o temem, ouvirá seus clamores e os salvará. O Senhor vela por aqueles que o amam, mas exterminará todos os maus.” É um Deus que se abaixa para proteger as suas criaturas, parecido a um pai que protege os seus filhos, e os ajuda a levantar aqueles que estão vacilando ou prostrados na poeira.
O final do salmo é um convite ao louvor universal: “Que minha boca proclame o louvor do Senhor, e que todo ser vivo bendiga eternamente o seu santo nome.” Confirmação da grandeza da vida pela grandeza de Deus. E proclamamos com o nosso salmista: “Glorifiquem-vos, Senhor, todas as vossas obras, e vos bendigam os vossos fiéis. Que eles apregoem a glória de vosso reino, e anunciem o vosso poder, para darem a conhecer aos homens a vossa força, e a glória de vosso reino maravilhoso.”

O Papa Francisco celebrou a Eucaristia na Capela da Casa Santa Marta, no dia 14/12/2017, e na sua homilia disse:

“Sou capaz de falar com o Senhor assim ou tenho medo? Cada um responda. Mas, alguém pode dizer, pode perguntar: “Qual é o local teológico da ternura de Deus? Onde pode ser encontrada a ternura de Deus? Qual é o lugar onde a ternura de Deus se manifesta melhor? Na chaga. As minhas chagas, as chagas de Jesus, quando se encontram as minhas e as suas chagas. Em suas chagas fomos curados”.


Bendito seja o senhor, meu rochedo!

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O salmo 143 da Bíblia se concentra sobre o Messias. É um hino que resgata outros textos que poderíamos defini-los em duas partes: dos versículos de 1 a 11 e a outra parte de 12 a 15. Na primeira parte, constatamos a exaltação da vitória do rei, ligada à manifestação poderosa de Deus salvador. Por isso, o fiel, humildemente, reconhece que sem Deus nada seria: “Que é o homem, Senhor, para cuidardes dele, que é o Filho do Homem para que vos ocupeis dele? O homem é semelhante ao sopro da brisa, seus dias são como a sombra que passa.”

Os versículos de 5 a 7 revelam que Deus se manifesta na história pelos cortejos de elementos do universo e de eventos históricos, demonstrando a sua transcendência e a sua realeza sobre o cosmo e o tempo: “Inclinai, Senhor, os vossos céus e descei, tocai as montanhas para que se abrasem, fulminai o raio e dispersai-os, lançai vossas setas e afugentai-os”. Perante tudo isso, segue o agradecimento pela ação salvadora de Deus nos versículos de 9 a 10: “Ó Deus, vou cantar-vos um cântico novo, vos louvarei com a harpa de dez cordas. Vós que aos reis dais a vitória, que livrastes Davi, vosso servo”.

É um hino messiânico. Quem nos ajuda a compreender é o período histórico desse canto. Estamos no tempo do pós-exílio e a monarquia de Davi caiu e, portanto, era esperado o Messias ideal. De fato, o salmista, perante a destruição de Jerusalém no ano 586 a. C. e da dinastia de Davi, revela que Deus está presente na casa de Davi através do Messias. Assim sendo, a alegria reaparece pela paz e prosperidade que vive o povo escolhido: “Sejam nossos filhos como as plantas novas, que crescem na sua juventude; sejam nossas filhas como as colunas angulares esculpidas, como os pilares do templo. Encham-se os nossos celeiros de frutos variados e abundantes, multipliquem-se aos milhares nossos rebanhos, por miríades cresçam eles em nossos campos; sejam fecundas as nossas novilhas. Não haja brechas em nossos muros, nem ruptura nem lamentações em nossas praças… Feliz o povo cujo Deus é o Senhor.”

O que se apresenta nesse texto? A família, os campos e a cidade. A família aparece como uma descendência bem rica: os filhos comparados a plantas novas e colunas angulares e pilares do templo. Os campos e as suas prosperidades são sinal da bênção divina. E, enfim, a cidade é descrita como segura, e, portanto, não deve temer os ataques dos inimigos, as deportações e o desespero dos órfãos. Assaltos, deportações, lamentações são eliminados pelos livros da história. As famílias são felizes e ricas de filhos. Os campos produzem muitos frutos. Perante uma paisagem exuberante e serena aumenta a alegria e a esperança por uma humanidade justa e fraterna. E nisso parece que a paz se torna uma realidade.

Quero parabenizar, neste dia 27.07.19, a senhora Vera Bandeira Arruda por mais um ano de vida; vida ao serviço de Deus! Exultem ‘céu e terra’ por essa filha de Deus!


Senhor, ouvi a minha oração

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O salmo 142 das Sagradas Escrituras foi escrito no tempo do pós-exílio. É uma súplica penitencial, uma oração ao Senhor pela condição de pecado do ser humano. Dentre os 150 salmos, há sete que invocam a penitência: 6, 31, 37, 50, 101, 129 e o 142. Este último inicia por uma proclamação. “Não entreis em juízo com o vosso servo, porque ninguém que viva é justo diante de vós”. Aquilo que se pode perceber na leitura deste salmo é uma impostação ao redor de duas oscilações poéticas e temáticas que se entrelaçam por toda a sua narração. Dos versículos de 1 a 6, nota-se uma constante e persistente invocação ao Senhor, que é fiel à sua obra e ao seu amor, bem diferente do ser humano que é inconstante e que nada tem para se vangloriar.

O fiel se debate em um drama que parece cruel e sem fim. Um íncubo letal. De fato, o inimigo precipitou-o no perigo da morte. E assim o autor do salmo descreve tudo isso com: a “terra” qual alusão à morte, as “trevas” enquanto negação da via que conduz à luz do sol, e, enfim, os “mortos desde há muito tempo”: “O inimigo trama contra a minha vida, ele me prostrou por terra; relegou-me para as trevas com os mortos.” E logo em seguida o autor diz: “Desfalece-me o espírito dentro de mim, gela-me no peito o coração. Lembro-me dos dias de outrora, penso em tudo aquilo que fizestes, reflito nas obras de vossas mãos. Estendo para vós os braços: minha alma, como terra árida, tem sede de vós.”

É uma descrição de si mesmo, daquilo que experimenta e vive. É o profundo desejo da palavra e da intervenção de Deus para que o possa salvar. E essa expressão do fiel “estendo para vós os braços: minha alma, como terra árida, tem sede de vós” é um grito de socorro a Deus. Nos versículos de 7 a 12 é a oração que manifesta a sua máxima tensão. O fiel percebe como a morte o persegue: “Apressai-vos em me atender, Senhor, pois estou a ponto de desfalecer.” Assim sendo, se Deus oculta a sua face, o ser humano cai no vazio e “desce à sepultura”. Porém, o fiel é confiante que o final não será assim: que o desespero e a morte tomem conta da sua vida.

E com a imagem do dia que amanhece, deixando a noite escura das provas, Deus derrotará as trevas do sofrimento, rejeitando definitivamente as trevas da vida. Então, ele proclama: “Fazei-me sentir, logo, vossa bondade, porque ponho em vós a minha confiança. Mostrai-me o caminho que devo seguir, porque é para vós que se eleva a minha alma.” Deus, protagonista do fiel, se deixa conduzir pelo percurso da vida: “Em vós que ponho a minha esperança.” Continuando, diz: “Ensinai-me a fazer vossa vontade, pois sois o meu Deus. Que vosso Espírito de bondade me conduza pelo caminho reto.” E essa intervenção de Deus, além de oferecer a salvação do fiel, compreende também o julgamento rigoroso sobre os infiéis que serão eliminados porque ameaçaram o servo fiel do Senhor: “Pela vossa bondade, destruí meus inimigos e exterminai todos os que me oprimem, pois sou vosso servo.”


Senhor, eu vos chamo, vinde logo em meu socorro

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O salmo 140 das Sagradas Escrituras é uma súplica incessante do fiel ao Deus da vida. O salmista revela como a oração se torna uma essencial comunicação do ser humano com o Senhor. Uma oração que envolve todo o ser humano e é articulada até pelos componentes do seu corpo: mãos estendidas, boca, coração, cabeça: “Senhor, eu vos chamo, vinde logo em meu socorro; escutai a minha voz quando vos invoco. Que minha oração suba até vós como a fumaça do incenso, que minhas mãos estendidas para vós sejam como a oferenda da tarde. Ponde, Senhor, uma guarda em minha boca, uma sentinela à porta de meus lábios.”

O fiel está preocupado de não se deixar atrair pelo mal, saber resistir a tudo que possa conduzi-lo a se opor à ação de Deus na sua vida. Uma existência com Deus e não sem Ele. O autor descreve que a solidariedade com os perversos e, portanto, com o mal é representada pelos festins: “Não deixeis meu coração inclinar-se ao mal, para impiamente cometer alguma ação criminosa. Não permitais que eu tome parte nos festins dos homens que praticam o mal.” Assim sendo, o fiel está pronto para assumir como uma autopunição se for conivente com o mal. Mas ele, no entanto, desafiando os seus falsos amigos proclama, grita a sua inocência: “Se o justo me bate é um favor, se me repreende é como perfume em minha fronte. Minha cabeça não o rejeitará; porém, sob seus golpes, apenas rezarei.”
A imagem do óleo perfumado, típica oferta para um hóspede de respeito, se costumava fazer. E justamente o justo não se deixa levar pelo óleo dos malvados para se tornar conivente deles. E nesse sentido o fiel demonstra toda a sua fidelidade em não se deixar corromper por esses perversos para não ser excluído da assembleia de Israel. A fidelidade, portanto, mantem o fiel longe das tentações do mal. E a partir dessa colocação proclama uma maldição contra esses perversos e corruptos: “Seus chefes foram precipitados pelas encostas do rochedo, e ouviram quão brandas eram as minhas palavras. Como a terra fendida e sulcada pelo arado, assim seus ossos se dispersam à beira da região dos mortos.”

É evidente que essa fidelidade do justo fiel é firme, parecida a uma rocha que mantem a estabilidade do solo. Por tudo isso, Deus o abençoa e, no entanto, o ímpio, o malvado, é destinado à total falência e desespero. E o salmo conclui: “Pois é para vós, Senhor, que se voltam os meus olhos; eu me refugio junto de vós, não me deixeis perecer. Guardai-me do laço que me armaram, e das ciladas dos que praticam o mal. Caiam os ímpios, de uma vez, nas próprias malhas; quanto a mim, que eu escape são e salvo.”

Portanto, as ciladas dos perversos não têm futuro. Essas ciladas serão desmascaradas e derrotadas. E o papa Francisco falou no dia 24.02.2019: “Jesus nos assegura que nosso comportamento, marcado pelo amor para com aqueles que nos fazem mal, não será em vão. Ele diz: ‘Perdoai e sereis perdoados. Dai e vos será dado porque, com a mesma medida com que medirdes os outros, vós também sereis medido’”.


Senhor, vós me perscrutais e me conheceis

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O salmo 138 das Sagradas Escrituras é um canto ao Deus Todo-poderoso, onisciente e onipotente. Esse hino nos oferece uma verdadeira sabedoria para contemplar o grande mistério do Deus transcendente, mas, ao mesmo tempo, presente na história. Podemos dividir o canto em quatro partes. Os versículos de 1 a 6 revelam que Deus perscruta e conhece profundamente a vida; os versículos de 7 a 12 mostram como Deus está presente em qualquer lugar; os versículos de 13 a 18 descrevem a criação como um todo e, por enfim, os versículos de 19 a 24 descrevem como Deus perscruta tudo e julga o mal que paira ao redor da obra criada por Ele, e como sabe libertar.

O canto manifesta, na substância, como Deus salva toda a humanidade em todas as suas dimensões históricas e de espaço. Nos primeiros seis versículos, nota-se destacadamente o verbo ‘conhecer’. Isto no sentido que Deus conhece tudo e, portanto, revela a comunhão Dele com o ser humano: “Sabeis tudo de mim, quando me sento ou me levanto. De longe penetrais meus pensamentos.” No entanto, os versículos a seguir, de 7 a 12, descreve a experiência louca do ser humano de viver sem Deus. Por isso o fiel declara: “Para onde irei, longe de vosso Espírito? Para onde fugir, apartado de vosso olhar? Se subir até os céus, ali estareis; se descer à região dos mortos, lá vos encontrareis também. Se tomar as asas da aurora, se me fixar nos confins do mar, é ainda vossa mão que lá me levará, e vossa destra que me sustentará. Se eu dissesse: “Pelo menos as trevas me ocultarão, e a noite, como se fora luz, me há de envolver”. As próprias trevas não são escuras para vós, a noite vos é transparente como o dia e a escuridão, clara como a luz.”

Os versículos de 13 a 18 proclamam a grandeza do ser humano, obra maravilhosa de Deus: “Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, vós me tecestes no seio de minha mãe. Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso.” Com essa linguagem simbólica de ‘plasmar’ e ‘tecer’ revela a ação de Deus na criação do ser humano. O nosso Deus se torna como se fosse um escultor da nossa vida. Quanto é preciosa a vida que está em nossas mãos. Somos um canteiro de obras de nosso Senhor. O milagre da criação e da própria existência é contemplado pelo autor do salmo com a fé e a sua expressão poética.

E, por fim, os versículos de 19 a 24, mostram como fiel tenta se identificar com Deus, confiando totalmente na sua ação libertadora: “Oxalá extermineis os ímpios, ó Deus, e que se apartem de mim os sanguinários! Eles se revoltam insidiosamente contra vós, perfidamente se insurgem vossos inimigos. Pois não hei de odiar, Senhor, aos que vos odeiam? Aos que se levantam contra vós, não hei de abominá-los?…Perscrutai-me, Senhor, para conhecer meu coração; provai-me e conhecei meus pensamentos. Vede se ando na senda do mal, e conduzi-me pelo caminho da eternidade.” O salmista mostra que o juízo final condenará o mal e a idolatria, oposição a Deus, será derrotada.


Às margens dos rios de Babilônia, nos assentávamos chorando

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O salmo 136 das Sagradas Escrituras lembra a tragédia vivida por Israel pela destruição de Jerusalém no ano 586 antes de Cristo e, sucessivamente, o novo exilio em Babilônia. Essa lembrança foi misturada com música, poesia e literatura da tradição judaica. Ao todo, o salmo se confecciona com nove intensos versículos. Os primeiros, de 1 a 4, têm como grande cenário os rios de Babilônia. No entanto, os versículos 5 e 6 transmitem a saudosa lembrança de Jerusalém.

Enfim, os últimos versículos se concentram de novo sobre Babilônia, manifestando toda a vingança sobre ela. Porém, é a partir dessa saudade de Sião, onde envolve todos os membros do corpo e suas manifestações: “Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém, que minha mão direita se paralise! Que minha língua se me apegue ao palato, se eu não me lembrar de ti”. E se formos analisar todos esses detalhes, podemos dizer: as mãos são determinantes para os tocadores de harpas, mas o fato que elas ficaram penduradas nos salgueiros daquela terra ficou evidente que o silêncio de luto tomou conta do povo em exilio. Uma tristeza absoluta. E as línguas? São indispensáveis para os cantores.

Por isso, o autor do hino diz: “Que minha língua se me apegue ao palato, se eu não me lembrar de ti, se não puser Jerusalém acima de todas as minhas alegrias.” Inutilmente, os nossos opressores tentaram violentar o nosso silêncio de tristeza, exigindo cânticos de alegria. Os cantos de Israel não são folclore, exibição espetacular, mas hinos de culto no Templo de Sião. E, enfim, os versículos de 7 a 9 são uma violenta execração contra os inimigos de Israel. Porém, a maldição é confiada a Deus, porque Ele mesmo fará justiça ao seu eleito, é Ele o verdadeiro defensor.

Aqui se refere em particular aos edomitas, quais descendentes de Esaú, irmão de Jacó e filho de Isaque, emparentados com os hebreus. Eles se aliaram com as forças invasoras de Babilônia, cujo rei era Nabucodonosor, no ano 586 a.C. e conquistaram Israel. Portanto, tornaram-se traidores. Mas a grande maldição é reservada para a “filha de Babilônia”. Como? “Ó filha de Babilônia, a devastadora, feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste! Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para esmagá-los contra o rochedo!”

Perante toda essa violência, Deus quer conduzir o seu povo, além de tudo isso, na espera que se revele junto à justiça também a força do amor que supera todas as incompreensões, desafios e vinganças. E para ajudar entender melhor isso, podemos citar o evangelho de Mateus em que diz: “Tendes ouvido o que foi dito: Olho por olho, dente por dente. Eu, porém, vos digo: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direi¬ta, oferece-lhe também a ou¬tra…Tendes ouvido o que foi dito: Amarás o teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos [maltratam e] perseguem.” O amor prevalece sobre toda violência e ajuda a ter horizontes infinitos.


Pastoral da comunicação

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A Pastoral da Comunicação (Pascom) é um instrumento de evangelização bem concreto e indispensável.

Não podemos considerar a Pascom somente uma atividade pastoral que se acrescenta as outras inúmeras atividades, para enriquecer a nossa ação evangelizadora. Ela é um especial instrumento que se insere em todas as atividades pastorais para rendê-las mais eficazes e fortes. Não serve a nada ter muitas atividades pastorais sem ter uma capacidade comunicativa. Pode se compreender melhor tudo isso, constatando certo desânimo, incapacidade e tristeza da nossa atividade pastoral evangelizadora.

Com isto, temos uma certeza: que não é a pastoral ou a evangelização a serem colocadas em discussão, mas, sim, a nossa capacidade comunicativa. Portanto, uma comunidade sem a Pascom coloca em risco a atividade pastoral e a evangelização.

A comunicação é a alma de tudo. Naturalmente, isso não é nunca uma ação individual, mas a realização em um contexto de participação comunitária. Ela exige uma constante formação, sendo uma ciência em contínua evolução. É uma estratégia que exige um planejamento capaz de identificar os pontos fortes e frágeis da comunicação atual e, portanto, precisa de pessoas preparadas, capazes de dialogar e, sobretudo, disponíveis para aprender.
É a única estrada a percorrer, porque é movida da mensagem de Jesus, que nos pede para anunciar a todas as pessoas o evangelho da salvação.

O que é que faz a Pascom? Educa comunicadores sociais comprometidos com a verdade. Ajuda as pessoas, inseridas na pastoral e profissionais da área, a fazer o uso prudente dos meios como o rádio, a televisão, o jornal, redes sociais e outros. Desenvolve uma ação de acolhida das pessoas na comunidade para fazê-las sentir a vontade como irmãos e irmãs. Organiza atividades formativas de comunicação e promoção humana em favor da comunidade, para que haja uma maior identidade entre o comunicador e o receptor. Empenha-se em desenvolver atividades de ação comunitária e de produção, por meio de jornais, audiovisuais, rádios, internet, fotografias, banners e outros. Cria porta-vozes das mesmas comunidades ou entidades diocesanas, ou religiosas, para que as informações se tornem oficiais, sem distorcê-las.

Participa dos debates sociais para dar a sua contribuição ao processo de democratização dos meios de comunicação. Celebra jornadas ou momentos comemorativos, seguindo as indicações do magistério da Igreja. O momento fundamental desta atividade é a avaliação de cada projeto e ação, para compreender até que ponto tem conseguido fazer comunicação. Muitas vezes, este ato determinante comunicativo não é tomado a sério em nossas atividades.

Concluindo: pela minha experiência de missionário e evangelizador posso dizer que os caminhos percorridos pelas nossas pastorais de comunicação são exclusivamente ‘pastorais dos meios de comunicação’. Portanto estamos bem longe da verdadeira PASCOM.


E agora, bendizei o senhor

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O salmo 133 das Sagradas Escrituras é breve e simples, sem grandes pretensões teológicas, mas muito usado na tradição cristã como oração nas vésperas. Veja o que ele diz:

“E agora, bendizei o Senhor, vós todos, servos do Senhor, vós que habitais na casa do Senhor, durante as horas da noite. Levantai as mãos para o santuário, e bendizei o Senhor. De Sião te abençoe o Senhor, ele que fez o céu e a terra!”

Estamos em Sião e os fiéis presentes, antes de sair do templo, pedem aos sacerdotes para não interromper a oração, mas que se estenda à noite toda. Dessa forma, mantem-se o contínuo louvor ao Senhor. Louvando dia e noite, Deus se torna uma oração infinita, potenciando o ser humano. Aqui o contexto do salmo é um hino litúrgico dividido em duas maneiras de vivê-lo. Na primeira maneira, nota-se quem são os sujeitos que fazem o louvor, isto é, os sacerdotes. Eles, servos do Senhor, rezam em pé, posição típica da oração feita em público. O lugar dessa oração contínua é no Templo, a casa de Deus. E, nesse momento litúrgico, levantam-se as mãos, suplicando ao Senhor o Deus da vida.

A segunda maneira marcada pelo evento litúrgico é o verbo: “abençoar”. “Te abençoe o Senhor”. Que bonita essa expressão, usada largamente pelo nosso povo brasileiro. Seria triste perder uma tradição como essa, enriquecedora de uma profunda humanidade. Dito isso, o salmo mostra aqui que não são mais os sacerdotes, isto é, os fiéis como aqui os definem, que louvam e agradecem a Deus. É o mesmo Deus que abençoa o seu fiel, porque lhe agradou o seu louvor e, portanto, lhe doa a sua graça.

Esses louvores são características da liturgia do templo de Sião. O salmo termina com uma bênção e, ao mesmo tempo, é também uma profissão de fé em Deus, que tudo criou e que está presente na história da humanidade. O papa Francisco disse aos jovens na cerimônia de abertura da Jornada Mundial da Juventude 2019: “«O cristianismo não é um conjunto de verdades para se acreditar, nem de leis para se observar nem de proibições. Visto assim, seria muito repugnante. O cristianismo é uma Pessoa que me amou tanto, que reivindica e pede o meu amor. O cristianismo é Cristo» (Santo Óscar Romero, Homilia, 6/XI/1977); é continuar o sonho pelo qual Ele deu a vida: amar com o mesmo amor com que Ele nos amou. A certeza de saber que fomos amados com um amor cativante que não queremos nem podemos calar e que nos desafia a responder da mesma maneira: com amor. Um amor que não se impõe nem esmaga, um amor que não marginaliza nem obriga a estar calado, um amor que não humilha nem subjuga. É o amor do Senhor: amor diário, discreto e respeitador, amor feito de liberdade e para a liberdade, amor que cura e eleva. É o amor do Senhor, que se entende mais de levantamentos do que de quedas, mais de reconciliação do que de proibições, mais de dar nova oportunidade do que de condenar, mais de futuro do que de passado. É o amor silencioso, da mão estendida no serviço e na doação sem se vangloriar”.


Como é bom para irmãos unidos viverem juntos

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O salmo 132 das Sagradas Escrituras é repleto de alegria, ao exaltar a fraternidade e a comunhão entre as pessoas. O hino é contextualizado na procissão dos peregrinos, provindos de todo lugar da Terra Santa, que vão ao Templo. Nesse sentido, pode ser representado o Israel unido, uma comunidade de fé, que consegue viver na paz e tranquilidade. Na história do cristianismo, este salmo foi resgatado como ideal da vida religiosa comunitária. De fato, Santo Agostinho achou este hino como o lema da vida monacal. Veja o texto, bastante breve, mas conciso:

“Oh, como é bom, como é agradável para irmãos unidos viverem juntos. É como um óleo suave derramado sobre a fronte, e que desce para a barba, a barba de Aarão, para correr em seguida até a orla de seu manto. É como o orvalho do Hermon, que desce pela colina de Sião; pois ali derrama o Senhor a vida e uma bênção eterna.”

Temos aqui imagens simbólicas: o óleo e o orvalho. O que significam? O óleo perfumado simboliza várias situações e atitudes, entre elas a hospitalidade, alegria, festa e também consagração sacerdotal e da realeza. E aqui o autor do salmo apresenta a consagração sacerdotal que se referia ao sacerdote Aarão, pai do sacerdócio bíblico. Continua o salmista narrando a sacralidade da fraternidade, representada aqui com a barba. A barba no Oriente é concebida como vitalidade e potência; e as vestes são a dignidade. Portanto, uma consagração que engloba todo o ser humano na sua corporeidade.

No entanto, o orvalho representa a vida, a fecundidade. Perante uma situação de deserto, clima estéril, o orvalho muda numa realidade produtiva. Assim sendo, a fraternidade é tão sagrada que é parecida ao orvalho para as vidas das pessoas e do país. Por isso, o fiel sonha com o rico orvalho do monte Hermon, 2760 m de altura, que espalha por toda a terra de Israel, alcançando a grande Jerusalém, dando-lhe frescor e fecundidade de vida.

Nesse sentido, a fraternidade deve reinar em todo Israel, em todo o seu povo. E isto representa uma bênção de Deus que dá vida para sempre. É um hino do amor dos filhos de Deus que estreitam laços de firme fraternidade: Deus conosco. Assim sendo, experimentando esta caridade fraterna, saboreia-se antecipadamente a Jerusalém celeste, onde desaparece toda lágrima, dor, guerra, ódio e morte. Vida para sempre. E, portanto, perante tudo isso a imensa população, de todas as raças e línguas, elevarão um canto de louvor e de alegria ao Senhor da vida. O papa Francisco escreveu na mensagem para o Dia Mundial da Paz, em dia 01.01.2014:
“Uma fraternidade privada da referência a um Pai comum como seu fundamento último não consegue subsistir. Uma verdadeira fraternidade entre os homens supõe e exige uma paternidade transcendente. A partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se «próximo» para cuidar do outro.”