Bendize minha alma, ao Senhor

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O salmo 102, das Sagradas Escrituras, é por excelência um hino de louvor, de agradecimento ao Senhor. O ser humano manifesta toda a sua gratidão a Deus. Leia atentamente esta belíssima oração.

 

“Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que existe em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e jamais te esqueças de todos os seus benefícios. É ele que perdoa as tuas faltas, e sara as tuas enfermidades. É ele que salva tua vida da morte, e te coroa de bondade e de misericórdia. É ele que cumula de benefícios a tua vida, e renova a tua juventude como a da águia.

 

O Senhor faz justiça, dá o direito aos oprimidos. Revelou seus caminhos a Moisés, e suas obras aos filhos de Israel. O Senhor é bom e misericordioso, lento para a cólera e cheio de clemência. Ele não está sempre a repreender, nem eterno é o seu ressentimento. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas, porque tanto os céus distam da terra quanto sua misericórdia é grande para os que o temem; tanto o oriente dista do ocidente quanto ele afasta de nós nossos pecados. Como um pai tem piedade de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem, porque ele sabe de que é que somos feitos, e não se esquece de que somos pó. Os dias do homem são semelhantes à erva, ele floresce como a flor dos campos.

 

Apenas sopra o vento, já não existe, e nem se conhece mais o seu lugar. É eterna, porém, a misericórdia do Senhor para com os que o temem. E sua justiça se estende aos filhos de seus filhos, sobre os que guardam a sua aliança, e, lembrando, cumprem seus mandamentos. Nos céus estabeleceu o Senhor o seu trono, e o seu império se estende sobre o universo. Bendizei ao Senhor todos os seus anjos, valentes heróis que cumpris suas ordens, sempre dóceis à sua palavra. Bendizei ao Senhor todos os seus exércitos, ministros que executais sua vontade. Bendizei ao Senhor todas as suas obras, em todos os lugares onde ele domina. Bendize, ó minha alma, ao Senhor.”

 

O judaísmo deu um grande destaque a este salmo, tanto que o colocou na liturgia do Kippur, a solenidade da Expiação. Até a tradição cristã e toda a cultura ocidental lhe dão um ‘amplo respiro’, reconhecendo a suma importância deste hino. É um hino de alegria que se canta a Deus. É uma meditação sapiencial sobre a limitação da vida humana que depõe toda a confiança à misericórdia eterna de Deus. O salmo se divide em duas partes.

 

Na primeira parte, exalta-se, justamente, o amor e a misericórdia de Deus. Um Deus que se apresenta com um rosto tenro, de piedade e de compaixão. Seguem uma lista de nomes atribuídos a Deus: Aquele


Senhor, chegue até vós o meu clamor!

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A vida das pessoas não se resume somente em alegrias e glórias, mas também em sofrimentos e dores. Quantas lágrimas desceram e descem de rostos humanos, dia e noite? Nisso sou testemunho. É nesses contextos que o homem e a mulher, na maioria das vezes, se dirigem a Deus. Clamam por Ele. Invocam Ele de todo coração. Os filhos e filhas de Deus reconhecem, assim, a própria limitação e buscam o Altíssimo qual seu socorredor. O salmo 101 das Sagradas Escrituras nos vem ao encontro, descrevendo a oração de um pobre aflito que desabafa toda a sua angústia perante o Deus Altíssimo. Leia atentamente.

“Senhor, ouvi a minha oração, e chegue até vós o meu clamor. Não oculteis de mim a vossa face no dia de minha angústia. Inclinai para mim o vosso ouvido. Quando vos invocar, acudi-me prontamente, porque meus dias se dissipam como a fumaça, e como um tição consomem-se os meus ossos. Queimando como erva, meu coração murcha, até me esqueço de comer meu pão. A violência de meus gemidos faz com que se me peguem à pele os ossos. Assemelho-me ao pelicano do deserto, sou como a coruja nas ruínas. Perdi o sono e gemo, como pássaro solitário no telhado. Insultam-me continuamente os inimigos, em seu furor me atiram imprecações. Como cinza do mesmo modo que pão, lágrimas se misturam à minha bebida, devido à vossa cólera indignada, pois me tomastes para me lançar ao longe. Os meus dias se esvaecem como a sombra da noite e me vou murchando como a relva. Vós, porém, Senhor, sois eterno, e vosso nome subsiste em todas as gerações. Levantai-vos, pois, e sede propício a Sião; é tempo de compadecer-vos dela, chegou a hora… porque vossos servos têm amor aos seus escombros e se condoem de suas ruínas. E as nações pagãs reverenciarão o vosso nome, Senhor, e os reis da terra prestarão homenagens à vossa glória. Quando o Senhor tiver reconstruído Sião, e aparecido em sua glória, quando ele aceitar a oração dos desvalidos e não mais rejeitar as suas súplicas, escrevam-se estes fatos para a geração futura, e louve o Senhor o povo que há de vir, porque o Senhor olhou do alto de seu santuário, do céu ele contemplou a terra; para escutar os gemidos dos cativos, para livrar da morte os condenados; para que seja aclamado em Sião o nome do Senhor, e em Jerusalém o seu louvor, no dia em que se hão de reunir os povos, e os reinos para servir o Senhor. Deus esgotou-me as forças no meio do caminho, abreviou-me os dias. Meu Deus, peço, não me leveis no meio da minha vida, vós cujos anos são eternos. No começo criastes a terra, e o céu é obra de vossas mãos. Um e outro passarão, enquanto vós ficareis. Tudo se acaba pelo uso como um traje. Como uma veste, vós os substituís e eles hão de sumir. Mas vós permaneceis o mesmo e vossos anos não têm fim. Os filhos de vossos servos habitarão seguros, e sua posteridade se perpetuará diante de vós.”

É um salmo de desabafo de um pobre cansado e angustiado. É uma descrição bem detalhada das misérias humanas e dos sofrimentos corporais. Focaliza a solidão desse pobre fiel, levando-o a quase um espectro fúnebre. Ao mesmo tempo, salienta uma grande hostilidade de inimigos que fazem graça dele e o amaldiçoam. Perante ele, há uma mesa com alimentos amargos, cinzas – símbolo dos pêsames e da penitência-, e lágrimas: “cinza do mesmo modo que pão, lágrimas se misturam à minha bebida”. O alimento aqui representa simbolicamente uma vida sustentada pela dor e sofrimento. Uma vida amarga.

Assim, o fiel se dirige ao seu Deus, fazendo uma profissão de fé. E a partir daí renova a sua esperança elevando hinos de felicidades. Tudo isso lhe permite renascer tanto espiritualmente quanto fisicamente pelo resto da sua vida. Sendo assim, demonstra-se que a oração do suplicante é feita de dimensões pessoais e que refletem também as questões de vida comunitária. O Senhor, Criador de tudo, aquele que supera o tempo e o espaço, sempre acompanhará os seus fiéis. Portanto, este salmo nos revela a unidade da oração. Uma oração que integra a pessoa e a comunidade, as questões pessoais e aqueles do povo. Na oração, não se separa a pessoa do resto da realidade. E além do mais, uma oração que é sempre animadora, que combate a solidão e o abandono do ser humano, dando espaço a um horizonte de esperança não obstante tanta ‘tempestade’. Nesse perfil suplicante que cresce uma dimensão humana repleta de um olhar de vida eterna.


Cantarei a bondade e a justiça

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Qual é autonomia da ação do ser humano no âmbito da criação? Qual é o espaço da liberdade humana no contexto da criação? É livre? De fato, vivemos em um tempo em que a ação do ser humano tem sempre mais condições de modificar a realidade criada. Que sentido tem esse agir humano (livre e responsável) no contexto da criação feita por Deus? Para onde deve se encaminhar a criatividade humana? Essas perguntas nos levam a entender o papel das pessoas. E o salmo 100, das Sagradas Escrituras, nos ajuda a dar algumas respostas a tudo isso. Quem faz a experiência de Deus na vida pode dizer que, através do louvor ao Senhor e o comportamento que não se confunde com o mal, poderá ter uma melhor compreensão no âmbito da criação. Agindo corretamente e louvando Deus não podemos confundir a nossa vida. Leia o que diz o salmo:

“Cantarei a bondade e a justiça. A vós, Senhor, salmodiarei. Pelo caminho reto quero seguir. Oh, quando vireis a mim? Caminharei na inocência de coração, no seio de minha família. Não proporei ante meus olhos nenhum pensamento culpável. Terei horror àquele que pratica o mal, não será ele meu amigo. Estará sempre longe de mim o coração perverso, não quero conhecer o mal. Exterminarei o que em segredo caluniar seu próximo. Não suportarei homem arrogante e de coração vaidoso. Meus olhos se voltarão para os fiéis da terra, para fazê-los habitar comigo. Será meu servo o homem que segue o caminho reto. O fraudulento não há de morar jamais em minha casa. Não subsistirá o mentiroso ante meus olhos. Todos os dias extirparei da terra os ímpios, banindo da cidade do Senhor os que praticam o mal.”

Este salmo pode ser rezado sempre, porque ajuda a enfrentar o reto comportamento do dia a dia da vida. O que ele focaliza? Em primeiro lugar põe em evidência o aspecto chamado ‘moral’ da vida humana. O salmista é rigoroso em focalizar um comportamento severo em cumprir integralmente as leis de Deus e saber ouvir a própria consciência. No caminho, na ‘inocência de coração’, o mesmo Deus vai ao seu encontro e faz de tudo para sustenta-lo. Um Deus presente e forte para o seu fiel. Naturalmente, o compromisso do fiel é tal que se opõe firmemente à injustiça e ao mal: “Terei horror àquele que pratica o mal, não será ele meu amigo”.

Além disso, tem outro aspecto que se evidencia no compromisso social: “Meus olhos se voltarão para os fiéis da terra”. É um combate contra a calúnia e o falso testemunho nos tribunais, demonstrando uma hostilidade às classes poderosas e, ao mesmo tempo, uma defesa para os pobres indefesos e os justos. Tudo isso revela um grande compromisso para eliminar as injustiças e o mal que imperam na vida da sociedade. É um programa de justiça que quer imitar a ação de Deus na sociedade. E o final, descrito como uma cruel violência, um derramento de sangue, que gera certa inquietude nas pessoas, não é nada mais que um gênero literário muito usado no Oriente.

Na verdade, é uma expressão semítica, adjetivo que se refere aos povos que tradicionalmente falaram línguas semíticas entre os quais os árabes e hebreus, de um sério e determinado compromisso para combater e eliminar o mal, a injustiça e a malvadez humana. Este salmo, eu creio, que ainda é atual. Precisamos combater o veneno da ambição que nega o outro, da soberba que radicaliza o egoísmo. E não só: lutar para que os poderes busquem sempre o bem das pessoas, na verdade e na justiça. O papa Francisco no dia 23 de outubro 2013, Dia Mundial das Missões, falou o seguinte: “A luta contra o mal é dura e longa, requer paciência e resistência”.

E continuou o pontífice: “Clamar dia e noite’ a Deus! Impressiona-nos esta imagem da oração. Mas vamos nos perguntar: por que Deus quer isso? Ele já não conhece as nossas necessidades? Que sentido tem ‘insistir’ com Deus? Esta é uma boa pergunta, que nos faz aprofundar um aspecto muito importante da fé: Deus nos convida a rezar com insistência, não porque não sabe do que precisamos, ou porque não nos ouve. Pelo contrário, Ele ouve sempre e sabe tudo sobre nós, com amor”… “Nós lutamos com ele ao lado, e a nossa arma é precisamente a oração, que nos faz sentir a sua presença, a sua misericórdia, a sua ajuda”. O Senhor está conosco e, portanto, canta a sua bondade.


Servi o senhor com alegria!

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Em meu livro sobre a Eucaristia, escrevi o seguinte:A importância de fazer uma ação de graças e de louvor nos confirma o dom de Deus na nossa história e o desejo de estar constantemente na sua presença. Isso acontece quebrando a nossa rotina cotidiana e semanal, dando-nos oportunidade de contemplar a nossa vida como um todo; que vai além dos nossos compromissos de sobrevivência. Com essa prática da participação da Eucaristia aos domingos, acresce em nós uma consciência de nos alimentar do corpo e sangue de Jesus, o Cristo, para a vida em plenitude.

Essa partilha dominical nos permite louvar o quanto é bom o nosso Deus e o quanto Lhe pertencemos. Por isso, todo domingo é uma nova Páscoa, enquanto celebremos a Morte e Ressurreição de Jesus, o Cristo. Essa sua presença é verdadeira comida para todos nós, tanto para vida presente, quanto para a futura.

Naturalmente, essa gratidão por receber tudo isso de graça nos educa, em um mundo onde se pensa que tudo nos é devido, a sempre agradecer, a não se fechar em si, a não gerar egoísmo. É uma educação ao reconhecimento porque: “me amou e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2,20).

O amor Dele que chega sempre primeiro na nossa vida. De fato, é o Espírito Santo que faz a história de Jesus ser sempre atual e presente. Portanto, não é uma história fechada ao passado. O Espírito Santo é aquele que continua o tempo de Jesus até nós, ilumina e conduz a Igreja. Por isso, diz Jesus: “Se alguém me ama, guarda a minha palavra, e meu Pai o amará. Eu e meu Pai viremos e faremos nele a nossa morada”.

Portanto, toda essa obra de Deus na nossa vida não acontece de maneira mecânica, mas precisa aderir à ação de Deus na nossa vida. E a Eucaristia é também essa oportunidade. Essa adesão é dada por meio de uma opção bem consciente de sermos cristãos, isto é, escutando e vivendo as palavras de Jesus conscientizadas pelo Espírito Santo. Vivendo bem concretamente o ensino do Mestre. É nisso que se revela o verdadeiro amor por Cristo. Um amor eucarístico que nos sintoniza perfeitamente com a vontade de Deus Pai.

Assim, ainda vemos que, o amor se revela a partir da confiança total em Deus, em deixar-se guiar pelos caminhos da vida. E o salmo 99, das Sagradas Escrituras, nos ajuda nesse sentido.
“Aclamai o Senhor, por toda a terra. Servi o Senhor com alegria. Vinde, entrai exultantes em sua presença. Sabei que o Senhor é Deus: ele nos fez, e a ele pertencemos. Somos o seu povo e as ovelhas de seu rebanho. Entrai cantando sob seus pórticos, vinde aos seus átrios com cânticos; glorificai-o e bendizei o seu nome, porque o Senhor é bom, sua misericórdia é eterna e sua fidelidade se estende de geração em geração.”

É um salmo de louvor que sentimos a necessidade de fazer ao nosso Deus, como agradecimento por tudo aquilo que faz por nós e pelo seu amor eterno. Nos primeiros versículos, é uma manifestação de fé em um Deus que é o Criador e único e que estabelece a aliança com Israel. Esse Deus é bom e misericordioso, e com o seu amor mantem firme a sua fidelidade em tudo o que Ele fez. O autor do hino manifesta todo o seu louvor expresso pelos verbos que o povo de Israel usava no culto. Deus se torna presente nessas melodias litúrgicas, porém uma presença transcendente, embora que seja até pessoal. Essa presença que se caracteriza pelo seu amor. E o papa emérito Bento XVI falou no dia 22 de junho de 2011 o seguinte a respeito: “Nos salmos de agradecimento e de louvor, recordando o dom recebido ou contemplando a grandeza da misericórdia de Deus, reconhece-se também a própria pequenez e a necessidade de ser salvos, o que é a base da súplica. (…) De tal modo, na oração dos salmos, a súplica e o louvor se entrelaçam e se fundem em um único canto que celebra a graça eterna do Senhor que se inclina diante da nossa fragilidade. Exatamente para permitir ao povo dos crentes que se unam neste canto, o Livro dos Salmos foi dado a Israel e à Igreja. Os salmos, de fato, ensinam a rezar. Neles, a Palavra de Deus se converte em palavra de oração – e são as palavras do salmista inspirado –, que se torna também palavra do orante que reza os salmos. (…) Os salmos são oferecidos ao crente como texto de oração, que tem como único fim o de converter-se na oração de quem os assume e com eles se dirige a Deus.”


O senhor reina, tremem os povos!

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Da Antropologia Teológica, reafirmamos nossa fé no ser humano, como fruto do “sopro de Deus” que lhe dá vida. Aprendemos que para descobrir Deus temos de passar pelo ser humano. Muitas vezes, presos na lógica do mundo, pensamos apenas no homem decaído, que não presta, que não tem jeito. Mas, esse humano não se esgota em sua trajetória histórica e sua escolha pelo pecado. Nós não vemos Deus. Então, o que estamos vendo? A obra dele! Esse conhecimento é “uma porta aberta ao infinito”. E no fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo.

O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos demais homens, no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas morais que surgem na vida individual e social. E o salmo 98 das Sagradas Escrituras nos convida a reconhecer a grandeza de Deus através do ser humano.

“O Senhor reina, tremem os povos; seu trono está sobre os querubins: vacila a terra. Grande é o Senhor em Sião, elevado acima de todos os povos. Seja celebrado vosso grande e temível nome, porque ele é Santo. Reina o Rei poderoso que ama a justiça; sois vós que estabeleceis o que é reto, sois vos que exerceis em Jacó o direito e a justiça. Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos ante o escabelo de seus pés, porque ele é Santo. Entre seus sacerdotes estavam Moisés e Aarão, e Samuel um dos que invocaram o seu nome: clamavam ao Senhor, que os atendia. Falava-lhes na coluna de nuvem, eles guardavam os seus preceitos e a lei que lhes havia dado. Senhor, nosso Deus, vós os ouvistes, fostes para eles um Deus propício, ainda quando puníeis as suas injustiças. Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos ante sua montanha santa, porque santo é o Senhor, nosso Deus.”

Este salmo celebra a santidade transcendente de Deus e, ao mesmo tempo, os compromissos dos seres humanos com Ele. É nessa reciprocidade que se vive o Deus que aposta tudo na vida. O hino aqui nos descreve a contemplação da potência de Deus com esses nomes: rei, grande, temível, excelso, santo, poderoso e justo. Para reforçar isso, focaliza uma reflexão moral sobre a Aliança como ajuda a viver mais intensamente a obra do Senhor. E por assinalar melhor isso são citados os grandes mediadores da aliança, quais: Moisés, Arão e Samuel. Moisés qual legislador, Arão o sacerdote e Samuel o profeta. Personagens destacadas na observância da Aliança.

De fato, foram fiéis em guardar os decretos e as leis de Deus, o qual os ouvia e perdoava nas suas falhas, exaltando-os na sua santidade. O ‘escabelo de seus pés’ de Deus, que quer dizer o trono Dele, Israel o tinha identificado na arca de puro ouro. E o Deus invisível se torna presente ao seu povo descendo nessa arca. E daqui Ele governa, julga e se pronuncia; pune e perdoa, manifestando assim a sua vontade. Desse trono da arca, espaço sagrado do templo, Deus todo poderoso se manifesta ao ser humano, deixando-o firme ou espantado, fiel ou perplexo.

E assim se perpetua a confiança em Deus, contrastando as propostas dos poderosos dessa terra que no fim são sempre ilusórias. A ação de Deus tão complexa e decidida será sempre a favor dos seus filhos e filhas. Um Deus, o nosso, que não é indiferente à nossa realidade, mas se compromete dia a dia conosco. Um Deus que garante a sua justiça, amando-nos até o fim. Assim sendo, qual é o deus tão próximo como o nosso Deus? E o papa Francisco, na homilia de 06.05.2018, falou o seguinte:

“Não fomos nós a amar Deus, mas Ele amou-nos em primeiro lugar. “Oh…eu amo a Deus. Faço cinco novenas por mês. Faço isso e aquilo…”. Sim, mas… como é a tua língua? Como vai a tua língua? É exatamente esta a pedra de comparação para ver o amor. Amo os outros? Pergunta-te: como vai a minha língua? Dir-te-á se é amor verdadeiro. Deus amou-nos em primeiro lugar. Espera-nos sempre com o amor. Mas o termómetro para saber a temperatura do meu amor é a língua. Se falou mal dos outros, não amei.”


Cantai ao senhor um cântico novo!

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É só na liberdade que o homem e mulher se podem converter ao bem e reconhecer as maravilhas do Senhor na vida deles. Os homens e as mulheres de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na em um modo condenável, como se ela consistisse na licença para fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no ser humano. Pois Deus quis «deixar o ser humano entregue à sua própria decisão» para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele. Exige, portanto, a dignidade do ser humano que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja, movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa.

Não é só a dor e a progressiva dissolução do corpo que atormentam o ser humano, mas também, e ainda mais, o temor de que tudo acabe para sempre. Mas a intuição do próprio coração fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte. Todas as tentativas da técnica, por muito úteis que sejam, não conseguem acalmar a ansiedade do ser humano: o prolongamento da longevidade biológica não pode satisfazer aquele desejo de uma vida ulterior, invencivelmente radicado no seu coração. Assim sendo, o salmo 97, das Sagradas Escrituras, nos convida a reconhecer e cantar a presença prodigiosa de Deus na vida das pessoas como glorificação também do próprio ser humano.

“Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele operou maravilhas. Sua mão e seu santo braço lhe deram a vitória. 2.O Senhor fez conhecer a sua salvação. Manifestou sua justiça à face dos povos. 3.Lembrou-se de sua bondade e de sua fidelidade em favor da casa de Israel. Os confins da terra puderam ver a salvação de nosso Deus. 4.Aclamai o Senhor, povos todos da terra; regozijai-vos, alegrai-vos e cantai. 5.Salmodiai ao Senhor com a cítara, ao som do saltério e com a lira. 6.Com a tuba e a trombeta elevai aclamações na presença do Senhor rei. 7.Estruja o mar e tudo o que contém, o globo inteiro e os que nele habitam. 8.Que os rios aplaudam, que as montanhas exultem em brados de alegria 9.diante do Senhor que chega, porque ele vem para governar a terra. Ele governará a terra com justiça, e os povos com equidade.”

Este hino, cheio de alegria, de entusiasmo e confiança, é dedicado à realeza de Deus. O autor desse salmo nos convida a reconhecer as maravilhas que o Senhor opera entre nós. É um canto que permite ter uma ligação da ação presente de Deus na história da humanidade e a ação perfeita dos chamados ‘últimos tempos’. Justamente, esse salmo faz uma ligação do presente com o futuro em que o Senhor governará o mundo com justiça. É essa certeza de Deus, Senhor de todo o tempo, que sustenta e anima a comunidade. Uma comunidade que louva e se une à própria natureza em que o mar com o seu fragor faz ouvir o seu som ameaçador, e, ao mesmo tempo, eleva hinos ao Deus Senhor de toda a criação.

Além do mar, juntam-se os rios que com os seus percursos sinuosos parecem que elevam ao Senhor todo poderoso palmas, aplaudindo dando formas de dança jubilosa. E, enfim, as montanhas que se erguem para o céu parecem dançar perante o Senhor, dando força e vigor a toda a criação. Tudo isso revela que nem fosse como um imenso coro que exalta Deus o grande juiz. E o santo padre, papa Francisco, no dia 03 de fevereiro se 2016 falou a respeito: “A Sagrada Escritura nos apresenta Deus como misericórdia infinita, mas também como justiça perfeita. Como conciliar as duas coisas? Como se articula a realidade da misericórdia com as exigências da justiça? Poderia parecer que são duas realidades que se contradizem; na realidade não é assim, porque é justamente a misericórdia de Deus que leva a cumprimento a verdadeira justiça. Mas de qual justiça se trata?Se pensamos na administração legal da justiça, vemos que quem se considera vítima de uma injustiça se dirige ao juiz no tribunal e pede que seja feita justiça. Trata-se de uma justiça retributiva, que inflige uma pena ao culpado, segundo o princípio de que a cada um deve ser dado aquilo que lhe é devido. Como diz o livro dos Provérbios: “Quem pratica a justiça é destinado à vida, mas quem persegue o mal é destinado à morte” (11, 19).” Seguindo o nosso Deus podemos viver a verdadeira justiça.


Senhor, sois o soberano de toda a terra!

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O pecado original é a ruptura do ser humano com Deus, a rejeição de sua aliança e, assim, da amizade com Deus. Embora o pecado seja uma condição universal, que atinge a todos, o pecado não tem origem em Deus. Disso decorrem algumas consequências sobre as quais precisamos refletir:

• Todos têm pecado e precisam da salvação.
• O Antigo Testamento enfatiza a dimensão comunitária do pecado.
• O mal é transmitido entre as gerações (a solidariedade no mal); mas, também, existe a solidariedade no bem, a transmissão do bem entre as gerações.

Quanto à dimensão comunitária do pecado, lembremo-nos que há toda uma estrutura societária que sustenta o pecado. Há toda uma estrutura que reproduz a ruptura com Deus, que induz ao não respeito à sua Palavra e, assim, impede a realização plena dos objetivos da Criação. Por isso, convido-te a ler o salmo 96 das Sagradas Escrituras para ver como Deus se impõe qual soberano da terra, não obstante a existência do pecado.
“O Senhor reina! Que a terra exulte de alegria, que se rejubile a multidão das ilhas. Está envolvido em escura nuvem, seu trono tem por fundamento a justiça e o direito. Ele é precedido por um fogo que devora em redor os inimigos. Seus relâmpagos iluminam o mundo, a terra estremece ao vê-los. Na presença do Senhor, fundem-se as montanhas como a cera, em presença do Senhor de toda a terra. Os céus anunciam a sua justiça e todos os povos contemplam a sua glória. São confundidos os que adoram estátuas e se gloriam em seus ídolos; pois os deuses se prostram diante do Senhor. Ouve e se alegra Sião, exultam as cidades de Judá por causa de vossos juízos, Senhor. Porque vós, Senhor, sois o soberano de toda a terra, vós sois o Altíssimo entre todos os deuses. O Senhor ama os que detestam o mal, ele vela pelas almas de seus servos e os livra das mãos dos ímpios. A luz resplandece para o justo, e a alegria é concedida ao homem de coração reto. Alegrai-vos, ó justo, no Senhor, e dai glória ao seu santo nome.”

Este salmo se supõe que tenha sido redigido do século IV em diante a.C. pelo profeta quando retorna do exílio. O hino inicia com uma proclamação, “O Senhor reina!”, típico dos salmos em que o Senhor é aclamado rei (Salmos 47 e 93), qual poderosa manifestação da soberania de Deus. Aqui se trata de uma grande e majestosa manifestação de Deus através das tempestades da natureza contra qualquer idolatria e, no entanto, toma a defesa dos seus fiéis que o adoram. As aclamações do universo do céu e da terra recepcionam a vinda do grande Rei soberano de tudo, acompanhado das nuvens, pelas trevas, fogo e relâmpagos, e também pela justiça, o direito e a glória.

E o salmista descreve perante essa manifestação de Deus a reação negativa dos idólatras e dos ídolos contraposta àquela dos fiéis que se regozijam e ficam felizes. E a celebração litúrgica dos adoradores de Deus é um reavivar a presença soberana do Senhor que esmaga os adoradores de estátuas e faz triunfar os justos. Os justos são iluminados pelo Senhor rei do cosmo e, assim, compartilham desde já a sua plenitude da esperança de Vida. O autor desse hino define de maneira bem expressiva esses fiéis do Senhor: “Aqueles que amam o Senhor”, “Aqueles que odeiam o mal”, “Fiéis”, “Justos”, “Retos de coração”, “Homens da alegria”, “Alegrai-vos e dai glória ao seu santo nome.”

Inspirados pelo autor desse salmo, podemos reconhecer realmente que Deus é o nosso único soberano e que está acima de todas as nossas misérias e fracassos, conduzindo-nos na vida de plenitude. E o papa Francisco escreveu para o 51° Dia Mundial da Paz: “A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos «a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha». Estas palavras propõem-nos a imagem da nova Jerusalém. O livro do profeta Isaías (cap. 60) e, em seguida, o Apocalipse (cap. 21) descrevem-na como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admira e enche de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.(…)
Precisamos lançar também sobre a cidade onde vivemos este olhar contemplativo, «isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (…), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça», por outras palavras, realizando a promessa da paz.”


Cantai ao senhor, terra inteira!

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O pecado original é a ruptura do ser humano com Deus, a rejeição de sua aliança e, assim, da amizade com Deus. Embora o pecado seja uma condição universal, que atinge a todos, o pecado não tem origem em Deus. Disso decorrem algumas consequências sobre as quais precisamos refletir:

• Todos têm pecado e precisam da salvação.
• O Antigo Testamento enfatiza a dimensão comunitária do pecado.
• O mal é transmitido entre as gerações (a solidariedade no mal); mas, também, existe a solidariedade no bem, a transmissão do bem entre as gerações.

Quanto à dimensão comunitária do pecado, lembremo-nos que há toda uma estrutura societária que sustenta o pecado. Há toda uma estrutura que reproduz a ruptura com Deus, que induz ao não respeito a sua Palavra e, assim, impede a realização plena dos objetivos da criação. Nesse sentido, o salmo 95, das Sagradas Escrituras, nos convida a reconhecer o Deus único e louva-Lo e proclama-Lo às nações a sua glória. A glória que nos resgata do pecado.

“Cantai ao Senhor um cântico novo. Cantai ao Senhor, terra inteira. Cantai ao Senhor e bendizei o seu nome, anunciai cada dia a salvação que ele nos trouxe.Proclamai às nações a sua glória, a todos os povos as suas maravilhas. Porque o Senhor é grande e digno de todo o louvor, o único temível de todos os deuses.Porque os deuses dos pagãos, sejam quais forem, não passam de ídolos. Mas foi o Senhor quem criou os céus. Em seu semblante, a majestade e a beleza; em seu santuário, o poder e o esplendor. Tributai ao Senhor, famílias dos povos, tributai ao Senhor a glória e a honra, tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome. Trazei oferendas e entrai nos seus átrios. Adorai o Senhor, com ornamentos sagrados. Diante dele estremece a terra inteira. Dizei às nações: O Senhor é rei. E (a terra) não vacila, porque ele a sustém. Governa os povos com justiça. Alegrem-se os céus e exulte a terra, retumbe o oceano e o que ele contém, regozijem-se os campos e tudo o que existe neles. Jubilem todas as árvores das florestas com a presença do Senhor, que vem, pois ele vem para governar a terra: julgará o mundo com justiça, e os povos segundo a sua verdade.”

Segundo o salmo, a natureza é como se fosse uma grande mensagem do seu Criador, em que proclama ‘o Senhor reina!’. É um hino que exalta e louva qual o destino do ser humano e da sua história. Um destino universal em que se terão novos céus e novas terras no reino definitivo e esplendoroso do Reino de Deus. O salmo nos convida a “sonhar” sobre o nosso futuro ligado em Deus. Uma nova realidade se prospecta para nós. Por isso, cantemos ao nosso Deus. Os versículos de 10 a 13 manifestam a grande alegria, porque a ação de Deus que vem para julgar e governar é iminente, está para acontecer.

Assim sendo, o ser humano não pode ficar indiferente e neutro na presença da idolatria, das nações que se prostram para ela. A presença de Deus aniquila tudo isso. Nesse sentido, o autor desse salmo é totalmente confiante que essa presença de Deus, que não tardará, tomará conta da história e ajudará os justos a participarem plenamente da nova vida no Senhor, autor de tudo o que contemplamos. É Ele o Senhor da vida e da nossa vida e, portanto, podemos sonhar com o futuro maravilhoso. A nossa expectativa é imensa, confiante e cheia de esperança.

E o santo padre papa Francisco, durante missa celebrada na Casa Santa Marta, no dia 11.05.2017, Vaticano, nos diz o seguinte: “Deus ficou conhecido na história. A sua salvação tem uma grande e longa história”… “A salvação de Deus está em caminho rumo à plenitude dos tempos”. O Senhor “guia o seu povo, com momentos bons e momentos ruins, com liberdade e escravidão; mas guia o povo rumo à plenitude”…“Existem os santos, os santos que todos conhecemos e os santos escondidos”. A Igreja “está cheia de santos escondidos e esta santidade é que nos leva para frente, rumo à segunda plenitude dos tempos, quando o Senhor virá, no final, para ser tudo em todos”…“Há uma terceira plenitude dos tempos, a terceira. A nossa. Cada um de nós está em caminho rumo à plenitude do próprio tempo. Cada um de nós chegará ao momento do tempo pleno e a vida acabará e deverá encontrar o Senhor. E este é o nosso momento”…“Pedir perdão a Deus não é algo automático. É entender que estou a caminho, em um povo em caminho e que um dia me encontrarei cara a cara com aquele Senhor que jamais nos deixa sós, mas nos acompanha neste caminho”.


A justiça divina supera a humana

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Na revelação transmitida na Bíblia, o Criador cria a criatura. Há, portanto, uma dependência do ser humano perante o Criador. Então, de modo aparentemente paradoxal, a relação mesma com Deus é que permite a liberdade e a responsabilidade que caracteriza o humano. Do contrário, se eu não mantiver essa busca de Deus, eu perco a minha liberdade. Pois, de fato, essa relação do ser humano com Deus é que confere a plenitude ao ser humano, que expressa a sua perfeição original. Sem essa relação, quem somos nós? Seres limitados, tolhidos, presos, vítimas das circunstâncias. Perdemos a dimensão de plenitude que nos caracteriza desde a nossa criação. Assim sendo, compreendemos por que é difícil viver a justiça na sociedade e nas instituições em geral. Mas Deus quer ser protagonista, quer queiramos ou não. Veja o salmo 93 das Sagradas Escrituras que fala justamente desse protagonismo de Deus, Ele não fica no anonimato.

“Senhor, Deus justiceiro, Deus das vinganças, aparecei em vosso esplendor. Levantai-vos, juiz da terra, castigai os soberbos como eles merecem.Até quando, Senhor, triunfarão os ímpios? Até quando se desmandarão em discursos arrogantes, e jactanciosos estarão esses obreiros do mal?Eles esmagam o povo, Senhor, e oprimem vossa herança. Trucidam a viúva e o estrangeiro, tiram a vida aos órfãos.E dizem: O Senhor não vê, o Deus de Jacó não presta atenção nisso! Tratai de compreender, ó gente estulta. Insensatos, quando cobrareis juízo?Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá? Aquele que dá lições aos povos não há de punir, ele que ensina ao homem o saber…O Senhor conhece os pensamentos dos homens, e sabe que são vãos. Feliz o homem a quem ensinais, Senhor, e instruís em vossa lei,para lhe dar a paz no dia do infortúnio, enquanto uma cova se abre para o ímpio, porque o Senhor não rejeitará o seu povo, e não há de abandonar a sua herança.Mas o julgamento com justiça se fará, e a seguirão os retos de coração. Quem se erguerá por mim contra os malfeitores? Quem será meu defensor contra os artesãos do mal?Se o Senhor não me socorresse, em breve a minha alma habitaria a região do silêncio. Quando penso: Vacilam-me os pés, sustenta-me, Senhor, a vossa graça.Quando em meu coração se multiplicam as angústias, vossas consolações alegram a minha alma. Acaso poderá aliar-se a vós um tribunal iníquo, que pratica vexames sob a aparência de lei?Atentam contra a alma do justo, e condenam o sangue inocente. Mas o Senhor certamente será o meu refúgio, e meu Deus o rochedo em que me abrigo.Ele fará recair sobre eles suas próprias maldades, ele os fará perecer por sua própria malícia. O Senhor, nosso Deus, os destruirá.”

Evidencia-se nesse salmo uma reflexão sobre o juízo divino contra as injustiças que existem efetivamente no seio do poder, nos órgãos constituídos para reger a vida de um país e, sobretudo, a injustiça contra os menos favorecidos. Esse hino se divide em duas manifestações de queixa e de testemunho de sabedoria. Tudo isso direcionado a Deus para que faça justiça. É Ele a verdadeira justiça. Os versículos de 3 a 7 e 16 a 21 são um grito de queixa pelos triunfos daqueles que praticam o mal e esbanjam da corrupção e opressão dos indefesos e pessoas humildes e desafiam Deus o Senhor do mundo.

Perante tudo isso, os que são explorados repõem toda a confiança na intervenção divina para que faça justiça. Tudo isso revela o grande escândalo da injustiça que impera na sociedade e, ao mesmo tempo, proclama a felicidade das pessoas que confiam no Senhor, o verdadeiro dono de tudo e de todos. A verdadeira justiça vem de Deus, fundamenta-se Nele. E Deus, que enxerga tudo, fará triunfar aqueles que são maltratados e perseguidos e não têm mais ninguém que os defendam. É Deus o defensor dos pobres. Evidentemente aqui se focaliza uma função jurídica de defesa dos injustiçados.

Portanto, o sentido da vingança que aqui se fala não é uma reação cega, mas é a expressão positiva de defesa dos humilhados da justiça oficial dos ‘homens’. Deus não é ausente e está presente também onde se pratica a iniquidade. Por tudo isso, segundo o salmista, o silêncio aparente de Deus que, segundo os ímpios, é considerado como a inexistência de Deus, para os fieis é prova de mais confiança Nele, embora não seja fácil. O papa Francisco, na audiência geral de 26.04.2017, falou:

“O nosso Deus não é um Deus ausente, sequestrado por um céu longínquo; é, pelo contrario, um Deus “apaixonado” pelo homem, tão ternamente amante ao ponto de ser incapaz de se separar dele. Nós somos hábeis em romper ligações e pontes. Ele não. Se o nosso coração arrefece, o seu permanece sempre incandescente. O nosso Deus nos acompanha sempre, mesmo se, porventura, nós nos esquecêssemos d’Ele.”


O senhor reina!

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Deus chama cada ser humano. E cada ser humano é marcado desde a sua criação. Por isso, a história do ser humano é uma história de “dom da graça”. Ela é, também, uma história de pecado.
É bonita a narrativa de nossa criação, ressaltando o que recebemos do Pai. Somos fruto da graça de Deus. O que a narrativa nos ensina? O que ela nos demanda?
Três dons foram dados ao ser humano:
1) Dons naturais: razão e livre arbítrio
2) Dons preternaturais: dons que complementam a natureza do ser humano: imortalidade, integridade, moral, liberdade da concupiscência, impassibilidade (isenção de todo mal-estar) e ciência infusa.
3) Dons sobrenaturais: a amizade com Deus, a graça, a visão beatífica, as virtudes teologais, os dons do Espírito Santo.

A ciência infusa é um conhecimento que habita em nós, que recebemos como dom. Depois que o pecado original quebrou a aliança, perdemos a ciência infusa. Na condição original, não precisaríamos aprender, pois já traríamos dentro de nós o conhecimento para a vida. Mas, perdemos isso com o pecado. E quando nos afastamos de Deus perdemos esse conhecimento interior, esses dons de Deus, que nos capacitam a conhecer o mundo e quem somos realmente.
Com o Novo Adão, Jesus Cristo, podemos viver novamente também essa ciência infusa, pois a fé nos ilumina para conhecer, de uma maneira diversa do conhecimento do mundo. É fruto da ação do Espírito Santo em nós. Podemos, assim, entender a lógica de Deus, entender os ensinamentos de Jesus e, portanto, ir além do que o mundo nos dá a conhecer. A ciência infusa, como um dom de Deus, nos possibilita compreender o que para o mundo é loucura, como a morte de Jesus. Assim sendo, podemos entender que o nosso Deus não nos abandona; e o salmo 92 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender isso:
“O Senhor é rei e se revestiu de majestade, ele se cingiu com um cinto de poder. A terra, que com firmeza ele estabeleceu, não será abalada. Desde toda a eternidade vosso trono é firme e vós, vós desde sempre existis. Elevam os rios, Senhor, elevam os rios a sua voz, e fazem eclodir o fragor de suas ondas. Porém, mais poderoso que a voz das grandes águas, mais poderoso que os vagalhões do mar, mais poderoso é o Senhor nas alturas do céu. Vossas promessas são sempre dignas de fé, e a vossa casa, Senhor, é santa na duração dos séculos.”
Esse salmo pertence aos tipos de hinos dedicados a Deus rei. Hino usado geralmente nas procissões do Templo. Essas celebrações se caracterizam pela realeza de Deus, da sua presença majestosa sobre universo e a sua história. O autor manifesta aqui, nos primeiros dois versículos, toda a sua alegria ao Senhor porque sente a sua proteção e o seu sopro de vida. É o Senhor que domina tudo e com Ele nada pode ser abalado. O fiel, entusiasta do seu Deus, o exalta qual rei do cosmo e, portanto, que está acima de tudo.
É Nele que está a nossa segurança, porque Ele firme do seu trono espalha a sua luz resplandecente e infinita sinal da sua onipotência do seu amor. Segundo a cosmologia bíblica, o mundo é como uma montanha que se levanta sobre o oceano antigo, qual símbolo de todas as potências malignas que se inseriram na criação. Nos versículos 3 e 4, o salmista diz que não adianta que as aguas façam eclodir o fragor das suas ondas porque Deus não se deixa intimidar, Ele é soberano sobre tudo que existe.

Esse Deus onipotente que tudo domina está perto de Israel, essa sua proximidade encontra-se na arca do Templo de Jerusalém, na palavra infalível da Torá, a Palavra de Deus da Bíblia. Enfim, esse hino exalta o Senhor, o Criador, que gera confiança e esperança nos fiéis que se sentem ameaçados pelas tribulações da vida, pelas forças do mal. E o papa Francisco na homilia matutina feita na capela da casa Santa Marta, no Vaticano, nos diz o seguinte a respeito: “Peçamos hoje ao Senhor que nos dê a maravilha diante dele, perante as muitas riquezas espirituais que nos concedeu; e juntamente com esta maravilha nos dê a alegria, a alegria da nossa vida e de viver com o coração em paz as numerosas dificuldades; e nos proteja da tentação de procurar a felicidade em muitas coisas que afinal acabam por nos entristecer: prometem tanto, mas nada nos darão!… E conclui: “lembrai-vos bem: um cristão é um homem e uma mulher de alegria, de alegria no Senhor; um homem e uma mulher maravilhados”. Por tudo isso repetimos com o salmo: “Vossas promessas são sempre dignas de fé”. E é essa nossa fé que nos sustenta todos os dias.