Povo meu, siga o meu testemunho!

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O extenso salmo 77 é um grande louvor ao Deus que age na história como o verdadeiro protagonista da nossa salvação.

“Escuta, ó meu povo, minha doutrina; às palavras de minha boca presta atenção. Abrirei os lábios, pronunciarei sentenças, desvendarei os mistérios das origens. O que ouvimos e aprendemos, através de nossos pais, nada ocultaremos a seus filhos, narrando à geração futura os louvores do Senhor, seu poder e suas obras grandiosas. Ele promulgou uma lei para Jacó, instituiu a legislação de Israel, para que aquilo que confiara a nossos pais, eles o transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração o conhecesse, e os filhos que lhes nascessem pudessem também contar aos seus.

Aprenderiam, assim, a pôr em Deus sua esperança, a não esquecer as divinas obras, a observar as suas leis; e a não se tornar como seus pais, geração rebelde e contumaz, de coração desviado, de espírito infiel a Deus. Os filhos de Efraim, hábeis no arco, voltaram as costas no dia do combate. Não guardaram a divina aliança, recusaram observar a sua lei. Eles esqueceram suas obras, e as maravilhas operadas ante seus olhos. Em presença de seus pais, ainda em terras do Egito, ele fez grandes prodígios nas planícies de Tanis. O mar foi dividido para lhes dar passagem, represando as águas, verticais como um dique; De dia ele os conduziu por trás de uma nuvem, e à noite ao clarão de uma flama. Rochedos foram fendidos por ele no deserto, com torrentes de água os dessedentara. Da pedra fizera jorrar regatos, e manar água como rios. Entretanto, continuaram a pecar contra ele, e a se revoltar contra o Altíssimo no deserto. Provocaram o Senhor em seus corações, reclamando iguarias de suas preferências. E falaram contra Deus: Deus será capaz de nos servir uma mesa no deserto? Eis que feriu a rocha para fazer jorrar dela água em torrentes. Mas poderia ele nos dar pão e preparar carne para seu povo? O Senhor ouviu e se irritou: sua cólera se acendeu contra Jacó, e sua ira se desencadeou contra Israel, porque não tiveram fé em Deus nem confiaram em seu auxílio. Contudo, ele ordenou às nuvens do alto, e abriu as portas do céu. Fez chover o maná para saciá-los, deu-lhes o trigo do céu. Pôde o homem comer o pão dos fortes, e lhes mandou víveres em abundância, depois fez soprar no céu o vento leste, e seu poder levantou o vento sul. Fez chover carnes, então, como poeira, numerosas aves como as areias do mar, as quais caíram em seus acampamentos, ao redor de suas tendas. Delas comeram até se fartarem, e satisfazerem os seus desejos. Mas apenas o apetite saciaram, estando-lhes na boca ainda o alimento, desencadeia-se contra eles a cólera divina, fazendo perecer a sua elite, e prostrando a juventude de Israel. Malgrado tudo isso, persistiram em pecar, não se deixaram persuadir por seus prodígios. Então, Deus pôs súbito termo a seus dias, e seus anos tiveram repentino fim. Quando os feria, eles o procuravam, e de novo se voltavam para Deus. E se lembravam que Deus era o seu rochedo, e que o Altíssimo lhes era o salvador. Mas suas palavras enganavam, e lhe mentiam com a sua língua. Seus corações não falavam com franqueza, não eram fiéis à sua aliança. Mas ele, por compaixão, perdoava-lhes a falta e não os exterminava. Muitas vezes reteve sua cólera, não se entregando a todo o seu furor. Sabendo que eles eram simples carne, um sopro só, que passa sem voltar. Quantas vezes no deserto o provocaram, e na solidão o afligiram! Recomeçaram a tentar a Deus, a exasperar o Santo de Israel. Esqueceram a obra de suas mãos, no dia em que os livrou do adversário, quando operou seus prodígios no Egito e maravilhas nas planícies de Tânis. (…) Conduziu-o com firmeza sem nada ter que temer, enquanto aos inimigos os submergiu no mar. Ele os levou para uma terra santa, até os montes que sua destra conquistou. Ele expulsou nações diante deles, distribuiu-lhes as terras como herança, fez habitar em suas tendas as tribos de Israel. (…)”
Este salmo proclama o ‘Credo histórico’ transmitido pela geração antiga àquela mais jovem sobre a obra de salvação que Deus fez ao longo da história. E para transmitir tudo isso se evidencia o uso dos verbos ‘escutar – conhecer – narrar’; os sujeitos são os pais, filhos e gerações e o objeto da fé são as ações gloriosas e poderosas, os prodígios, as obras, as leis, os comandos, o testemunho e aliança. Assim mostra que a história é o lugar especial da revelação divina. Isto é, o Senhor ama manifestar-se dentro do tempo em que o ser humano se acha a vontade. Deus entra nas ações do homem e da mulher para botar as raízes da salvação. Esse Deus, portanto, é sempre protagonista nas vidas das criaturas. Ele, parece, não cansa em conduzir-nos.


Minha voz clama pelo meu Deus

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Um casal bem novo teve um filho. Tudo corre bem, inicialmente, mas depois de um ano e pouco de vida a criança adoece. Foi internada no hospital com risco de vida. Os pais, abalados, não sabiam mais o que fazer. O desespero tomou conta. A solidariedade dos amigos se intensificou, mas o quadro de saúde do filho estava piorando. Então, os pais intensificaram suas orações, apelando a Deus, autor da vida, que pudesse reverter o quadro de saúde do único filho. Com essa confiança, quiseram acompanhar o filho doente, clamando pelo Deus. O salmo 76 do Antigo Testamento das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender por que essa confiança.

“Minha voz se eleva para Deus e clamo. Elevo minha voz a Deus para que ele me atenda; No dia de angústia procuro o Senhor. De noite minhas mãos se levantam para ele sem descanso; e, contudo, minha alma recusa toda consolação. Faz-me gemer a lembrança de Deus; na minha meditação, sinto o espírito desfalecer. Vós me conservais os olhos abertos, estou perturbado, falta-me a palavra. Penso nos dias passados, lembro-me dos anos idos. De noite reflito no fundo do coração e, meditando, indaga meu espírito: Porventura, Deus nos rejeitará para sempre? Não mais há de nos ser propício? Estancou-se sua misericórdia para o bom? Estará sua promessa desfeita para sempre? Deus se terá esquecido de ter piedade? Ou sua cólera anulou sua clemência? E concluo então: O que me faz sofrer é que a destra do Altíssimo não é mais a mesma… Das ações do Senhor eu me recordo, lembro-me de suas maravilhas de outrora. Reflito em todas vossas obras, e em vossos prodígios eu medito. Ó Deus, santo é o vosso proceder. Que deus há tão grande quanto o nosso Deus? Vós sois o Deus dos prodígios, vosso poder manifestastes entre os povos. Com o poder de vosso braço resgatastes vosso povo, os filhos de Jacó e de José. As águas vos viram, Senhor, as águas vos viram; elas tremeram e as vagas se puseram em movimento. Em torrentes de água as nuvens se tornaram, elas fizeram ouvir a sua voz, de todos os lados fuzilaram vossas flechas. Na procela ribombaram os vossos trovões, os relâmpagos iluminaram o globo; abalou-se com o choque e tremeu a terra toda. Vós vos abristes um caminho pelo mar, uma senda no meio das muitas águas, permanecendo invisíveis vossos passos. Como um rebanho conduzistes vosso povo, pelas mãos de Moisés e de Aarão.”

Este salmo mostra como o fiel, perante os problemas do cotidiano que ameaçam a vida, apela ao auxilio de Deus, único verdadeiro socorredor. Perante as ameaças da vida, que não são poucas, se confia na intervenção de Deus. Enfrentar tudo isso, sobretudo os momentos mais tenebrosos, chega-se até em desconfiar em Deus: por que tudo isso? Por que comigo nada dá certo? Somente dor e sofrimento se questiona o fiel. O conflito que se gera neste orante está entre um passado melhor e vencedor e um presente marcado pela derrota e o drama.

Nesse contraste violento da pessoa e da comunidade, se questionam se Deus na sua ação mudou. Ele não nos ama mais? Cansou-se da humanidade? Ele nos abandonou? O salmo inicia, dos versículos de 2 a 11, com uma angústia e súplica a respeito do presente triste e sobre o silêncio de Deus. Tudo isso é representado por uma noite de lágrimas, de oração e meditação. O salmista vive um drama assim chamado espiritual: esse Deus que fez tantos prodígios no passado, ajudou Israel a sair da escravidão do Egito e conquistar a terra prometida, agora ficou mudo, não é mais operante. Por que isso? Questiona-se o fiel.

Não pode ser uma simples ilusão de Deus naquilo que operou no passado. É Ele o Deus de ontem e hoje. Assim sendo, o fiel reconhece nesta segunda parte do salmo que Deus salvou Israel no passado e que foi o Senhor da história e do universo e o presente, portanto, iluminado pela experiência salvadora passada, torna-se a sua efetiva esperança. Aquele passado, antes ou depois, se manifestará com toda a sua força também no presente.

A salvação passada é penhor daquela que se espera. E o salmista relembrando os prodígios do passado quer afirmar as razões da esperança. Sim, Deus no passado guiou o seu povo pelo deserto para conduzi-lo à terra prometida. A sua ‘mão poderosa’ e invisível era representada pela mão visível de Moisés e Arão. Portanto, aquela salvação do passado é hipoteca de um novo êxodo, uma nova salvação definitiva do novo povo de Deus. Assim sendo, o salmo iniciou com uma profunda lamentação e termina com um hino de fé e de esperança ao nosso verdadeiro pastor de todos. Este é um salmo de encorajamento perante as dificuldades da vida.


Com Deus somos vitoriosos

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É na ótica de Deus que poderemos construir uma convivência mais justa e fraterna. Quem não se lembra da história de Zaqueu? Uma vez que se encontra com Jesus, ele conseguiu se libertar de toda a sua ganância e devolveu tudo aquilo que roubou. E não só, mas também doou parte de seus bens. Jesus, Deus, derrubou o poder dinheiro e libertou o filho de Deus. Quanto hoje precisamos viver essa grande verdade: Que Deus consiga derrotar todo esse poder do dinheiro. Isso pode acontecer, na medida em que consigamos nos encontrar com Ele. O salmo 75 das Sagradas Escrituras nos ajuda melhor nesse sentido.

“Deus se fez conhecer em Judá, seu nome é grande em Israel. Em Jerusalém está seu tabernáculo e em Sião a sua morada. Lá ele quebrou as fulminantes flechas do arco, os escudos, as espadas e todas as armas. O esplendor luminoso de vosso poder manifestou-se do alto das eternas montanhas. Foram despojados os guerreiros ousados, eles dormem tranquilos seu último sono. Os valentes sentiram fraquejar suas mãos. Só com a vossa ameaça, ó Deus de Jacó, ficaram inertes carros e cavalos. Terrível sois, quem vos poderá resistir, diante do furor de vossa cólera? Do alto do céu proclamastes a sentença; calou-se a terra de tanto pavor, quando Deus se levantou para pronunciar a sentença de libertação em favor dos oprimidos da terra. Pois o furor de Edom vos glorificará e os sobreviventes de Emat vos festejarão. Fazei votos ao Senhor vosso Deus e cumpri-os. Todos os que o cercam tragam oferendas ao Deus temível, a ele que abate o orgulho dos grandes e que é temido pelos reis da terra.”

Somente para contextualizar, este salmo é um hino de vitória do Deus de Israel em Sião, pouco depois a conquista da “cidade santa” por parte de Davi e a trasladação da arca a Jerusalém. Deus triunfa contra os poderosos, os valentes para salvar os pobres. Deus aniquila os instrumentos de poder que exaltam as pessoas. O salmo se divide em quatro estrofes. A primeira, dos versículos de 2 a 4, mostra a força vitoriosa de Deus que quebra todas as armas dos inimigos do seu povo. A verdadeira libertação vem pelas “mãos” de Deus. Na segunda estrofe, versículos de 5 a 7, numa cena de guerra, Deus é apresentado qual grande triunfador. Ele com o seu esplendor luminoso despoja os guerreiros ousados. Segue a terceira estrofe, versículos de 8 a 10, onde Deus o “terrível” proclama lá do céu o juízo sobre a humanidade que a deixa apavorada. Assim, o pobre e oprimido logo que assistem esse julgamento que deixa totalmente apavorados os ímpios, pervertidos, sabem que o processo da história vai mudar. Os poderosos serão humilhados e rebaixados.

Por fim, a quarta estrofe, versículos de 11 a 13, mostra que toda a terra é envolvida na adoração desse Deus “terrível” e “justo”. Assim sendo, Deus não é fonte de medo, mas qual raiz de justiça para todos e, sobretudo, em relação aos “reis da terra”. E o papa Francisco nos ajuda a entender melhor pela homilia feita na missa na casa Santa Marta no Vaticano: “Deus permanece com os justos e nunca os abandona”.

“Uma mãe corajosa, com marido, três filhos, menos de 40 anos e um cancro que a obriga permanecer na cama. Por quê? Uma mulher idosa, pessoa com a oração no coração e com um filho assassinado pela máfia. Por quê?” (…) “Os pensamentos de tantas pessoas cuja fé convicta e arraigada é colocada à prova pelos dramas da vida. Por que é que isto acontece? Que proveito temos em guardar os mandamentos de Deus enquanto os soberbos progridem praticando o mal, desafiam a Deus e não são castigados?” (…) “Quantas vezes vemos esta realidade em muitas pessoas más, em pessoas que fazem o mal e parece que na sua vida tudo vai bem: são felizes, têm tudo o que querem, não lhes falta nada. Por quê Senhor? É um dos muitos porquês.”

Continua o papa Francisco: “proclama ‘bem-aventurado’ o homem que não entra no conselho dos ímpios” e que “encontra a sua alegria na lei do Senhor”. “Agora não vemos os frutos desta gente que sofre, desta gente que carrega a cruz, como aquela Sexta-feira Santa e aquele Sábado Santo em que não se viam os frutos do Filho de Deus Crucificado, dos seus sofrimentos. E tudo o que fará, será bem feito. E o que o diz o salmo sobre os ímpios, sobre aqueles que nós pensamos que vai tudo bem? ‘Não são assim os ímpios, mas são como a palha que o vento disperde. Porque o Senhor acompanha o caminho dos justos, enquanto o caminho dos ímpios perece”.

E citando a parábola do rico: “O curioso daquele homem é que não se diz o nome. É somente um adjetivo: é um rico. Dos ímpios, no Livro da Memória de Deus, não há nome: é um ímpio, é um trapaceiro, é um explorador… Não tem nome, somente adjetivos. Ao invés, todos os que buscam caminhar na via do Senhor estarão com seu Filho, que tem o nome, Jesus Salvador. Mas um nome difícil de entender, inclusive inexplicável para a provação da cruz e por tudo aquilo que Ele sofreu por nós”.


Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz (Parte I)

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1. Votos de paz
Paz a todas as pessoas e a todas as nações da terra! A paz, que os anjos anunciam aos pastores na noite de Natal, é uma aspiração profunda de todas as pessoas e de todos os povos, sobretudo de quantos padecem mais duramente pela sua falta. Dentre estes, que trago presente nos meus pensamentos e na minha oração, quero recordar de novo os mais de 250 milhões de migrantes no mundo, dos quais 22 milhões e meio são refugiados. Estes últimos, como afirmou o meu amado predecessor Bento XVI, «são homens e mulheres, crianças, jovens e idosos que procuram um lugar onde viver em paz». E, para o encontrar, muitos deles estão prontos a arriscar a vida numa viagem que se revela, em grande parte dos casos, longa e perigosa, a sujeitar-se a fadigas e sofrimentos, a enfrentar arames farpados e muros erguidos para os manter longe da meta.

Com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental.

Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros. Há muito que fazer antes de os nossos irmãos e irmãs poderem voltar a viver em paz numa casa segura. Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e beneficência, uma atenção vigilante e abrangente, a gestão responsável de novas situações complexas que às vezes se vêm juntar a outros problemas já existentes em grande número, bem como recursos que são sempre limitados. Praticando a virtude da prudência, os governantes saberão acolher, promover, proteger e integrar, estabelecendo medidas práticas, «nos limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido, [para] lhes favorecer a integração». Os governantes têm uma responsabilidade precisa para com as próprias comunidades, devendo assegurar os seus justos direitos e desenvolvimento harmónico, para não serem como o construtor insensato que fez mal os cálculos e não conseguiu completar a torre que começara a construir.

2. Porque há tantos refugiados e migrantes?
Na mensagem para idêntica ocorrência no Grande Jubileu pelos 2000 anos do anúncio de paz dos anjos em Belém, São João Paulo II incluiu o número crescente de refugiados entre os efeitos de «uma sequência infinda e horrenda de guerras, conflitos, genocídios, “limpezas étnicas”» que caraterizaram o século XX. E até agora, infelizmente, o novo século não registou uma verdadeira viragem: os conflitos armados e as outras formas de violência organizada continuam a provocar deslocações de populações no interior das fronteiras nacionais e para além delas. Todavia as pessoas migram também por outras razões, sendo a primeira delas «o desejo de uma vida melhor, unido muitas vezes ao intento de deixar para trás o “desespero” de um futuro impossível de construir». As pessoas partem para se juntar à própria família, para encontrar oportunidades de trabalho ou de instrução: quem não pode gozar destes direitos, não vive em paz. Além disso, como sublinhei na Encíclica Laudato si’, «é trágico o aumento de migrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental».
A maioria migra seguindo um percurso legal, mas há quem tome outros caminhos, sobretudo por causa do desespero, quando a pátria não lhes oferece segurança nem oportunidades, e todas as vias legais parecem impraticáveis, bloqueadas ou demasiado lentas.
Em muitos países de destino, generalizou-se largamente uma retórica que enfatiza os riscos para a segurança nacional ou o peso do acolhimento dos recém-chegados, desprezando assim a dignidade humana que se deve reconhecer a todos, enquanto filhos e filhas de Deus. Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.
Todos os elementos à disposição da comunidade internacional indicam que as migrações globais continuarão a marcar o nosso futuro. Alguns consideram-nas uma ameaça. Eu, pelo contrário, convido-vos a vê-las com um olhar repleto de confiança, como oportunidade para construir um futuro de paz.

3. Com olhar contemplativo
A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos «a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha». Estas palavras propõem-nos a imagem da nova Jerusalém. O livro do profeta Isaías (cap. 60) e, em seguida, o Apocalipse (cap. 21) descrevem-na como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admira e enche de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.
Precisamos de lançar, também sobre a cidade onde vivemos, este olhar contemplativo, «isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (…), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça», por outras palavras, realizando a promessa da paz.
Detendo-se sobre os migrantes e os refugiados, este olhar saberá descobrir que eles não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e deste modo enriquecem a vida das nações que os acolhem. Saberá vislumbrar também a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive onde não abundam os recursos. Este olhar contemplativo saberá, enfim, guiar o discernimento dos responsáveis governamentais, de modo a impelir as políticas de acolhimento até ao máximo dos «limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido», isto é, tomando em consideração as exigências de todos os membros da única família humana e o bem de cada um deles.


É Natal

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O Santo Natal revela o quanto Deus nos ama. Ele se torna pequeno para ser acolhido por todos nós. Nosso Deus é maravilhoso, sábio em nos ajudar a compartilhar sua divindade. É nisso que consiste nossa dignidade. Somos atraídos para essa verdade. Podemos ver, nesta circunstância, como até as pessoas afastadas da Igreja, ou simplesmente que não se sentem atraídas por uma experiência de fé, conseguem ser absorvidas por este magnífico evento que marcou, de maneira definitiva, a nossa história. Então, é bom focalizarmos alguns elementos constitutivos do Santo Natal, sob o aspecto da comunicação. Vejamos, por exemplo, como os pastores agiram frente a essa extraordinária realidade.

Os pastores se comportaram como verdadeiros jornalistas, porque não faziam outra coisa senão dar uma boa notícia, sem acréscimos de comentários pessoais. Aquilo que viram, transmitiram. Talvez isso pudesse questionar hoje nossa profissão de jornalistas, ou mesmo de comunicadores. Quantas vezes as notícias não são corretas porque queremos manipula-las com nosso ponto de vista ou com interesses de corporação? Em várias ocasiões, nossa ação comunicativa chega a não ter escrúpulos. No entanto, os pastores daquela época foram bem transparentes ao narrar aquilo que viram, e nada mais. Portanto, contando os fatos, precisamos demonstrar total transparência; e todos somos chamados em causa, porque todos comunicamos, de um jeito ou de outro, para sustentar nossas relações sociais, comunitárias e familiares.

Porém, em muitas ocasiões, quanta falta de transparência em tudo isso! Podem ver que as problemáticas, as dificuldades de se entender, os conflitos que surgem em consequência disso, tornam-se quase como uma denúncia da nossa não correta ação comunicativa. Assim sendo, creio que é necessário imitarmos aqueles pastores. É verdade que a objetividade é muito difícil, mas ser transparentes é o nosso dever. Hoje em dia, estamos vivendo um bombardeio de informações, mas tudo isso nos leva a ter um conhecimento real e verdadeiro da realidade, ou cria mais confusão na nossa cabeça, favorecendo mais conflitos pessoais e sociais? E aquela gruta onde nasceu o Menino Jesus? Que comunicação em tudo isso! A humildade e a simplicidade revelam um fato extraordinário de Deus que se rebaixa até nós.

Pergunto-me: se Deus se torna presente na nossa vida com total humildade, por que nós não podemos estar juntos despojados de qualquer arrogância, soberba, altivez? O Altíssimo se faz presentíssimo, não desprezando a nossa realidade, mas, ao contrário, compartilhando conosco o seu grande poder porque é preocupado com a nossa vida. Então, como queremos caminhar com os outros para compartilharmos aquilo que somos? Temos a coragem de nos rebaixar para favorecer os outros? A onipotência do nosso Deus, por incrível que pareça, se manifesta nessa capacidade de entrar na nossa vida. Uma verdadeira e transparente comunicação é totalmente humilde porque quer favorecer a vida e, sobretudo, de quem mais necessita. É solidária e fraterna. Não é uma elucubração de palavras e pensamentos, mas de testemunho de vida.

Aquele silêncio recolhido daquela gruta emana uma magnífica e poderosa comunicação: a vida não tem limite. Quantas vezes não sabemos priorizar o silêncio, porque achamos que isto prejudica a nossa fala para comunicar. No entanto, no nascimento, Deus não fez manifestações de praça, barulhos de palavras, não tocaram tambores, ao contrário de nós, quando queremos mostrar algo de importante usamos todos os possíveis meios que estão ao nosso dispor para contar o evento da nossa vida.

Deus prefere comunicar no silêncio, porém, nós preferimos comunicar com barulhos. Que diferença! Creio que esta grande solenidade do Santo Natal possa se tornar, para todos, um momento de reflexão sobre como podemos aperfeiçoar a comunicação entre nós.

Por fim, aquela estrela que indicou a santa gruta nos revela quantas estrelas existem também na nossa vida, para nos ajudar na nossa peregrinação terrestre? E às vezes pela pouca sensibilidade ao “novo”, determinado pelo excessivo materialismo, nos impede de fazer a experiência do verdadeiro Natal. Feliz e Santo Natal.


Nós vos louvamos, senhor!

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A grandeza da humanidade está na sua transcendência, na sua capacidade de ir além da sua percepção. É esta capacidade que dá razão para valorizar os outros e não pensar somente em si. Na medida em que temos uma consciência das nossas limitações humanas, das nossas precariedades, talvez tenhamos mais capacidade de sentirmos mais fraternos e mais humildes. O Salmo 74 das Sagradas Escrituras nos ajuda nesse sentido:

“Nós vos louvamos, Senhor, nós vos louvamos; glorificamos vosso nome e anunciamos vossas maravilhas. No tempo que fixei, julgarei o justo juízo. Vacile, embora, a terra com todos os seus habitantes, fui eu quem deu firmeza às suas colunas. Digo aos arrogantes: Não sejais insolentes; aos ímpios: Não levanteis vossa fronte, Não ergais contra o Altíssimo a vossa cabeça, deixai de falar a Deus com tanta insolência. Não é do Oriente, nem do Ocidente, nem do deserto, nem das montanhas que vem a salvação. Mas Deus é o juiz; a um ele abate, a outro exalta. Há na mão do Senhor uma taça de vinho espumante e aromático. Dela dá de beber. E até as fezes hão de esgotá-la; hão de sorvê-la os ímpios todos da terra. Eu, porém, exultarei para sempre, salmodiarei ao Deus de Jacó. Abaterei todas as potências dos ímpios, enquanto o poder dos justos será exaltado”.

Esse Salmo foca a questão do juízo universal de Deus. Começa com a resposta divina perante a intercessão do fiel, do justo, e logo em seguida tem o comentário (7-9). Qual é esse oráculo? É o Juízo de Deus. Com isso, quer relembrar ao ímpio que a sua constante arrogância está desafiando Deus. O ímpio se acha dono de tudo e de todos. E os versículos de 3 a 6 mostram a intervenção de Deus que julga os arrogantes e os ímpios, porque se acham poderosos. No entanto, é Ele o Senhor da justiça e da moral. É Ele o Criador e revela todo o seu poder sacudindo a terra, cuja estrutura é dominada por Ele.

Aqui fala que a terra é fundada sobre as colunas, porque é segundo a cosmologia oriental daquele tempo. Naturalmente, hoje, devido todo o conhecimento cientifico alcançado, sabemos a verdade sobre a terra e o cosmo. De qualquer forma, o Deus, que tudo criou, levanta a sua voz contra os ímpios que, na ousadia deles, O desafiam. A verdadeira justiça vem do único juiz, que é Deus, e não na busca de modelos e pessoas humanas. O verdadeiro juiz, Deus, pode realmente exaltar ou rebaixar segundo direito e verdade. Ele sabe discernir perfeitamente o poder dos ímpios que são hipnotizados pela avidez do dinheiro e pelo ser servidos nos seus tronos.

Assim sendo, esse Deus, conforme o salmista, não é indiferente à história da humanidade, mas acompanha o drama dela e, sobretudo, sabe fazer justiça perante os arrogantes e poderosos deste mundo. Nesse sentido, o fiel desse Salmo invoca a Deus para que faça justiça e liberte os justos. Os fiéis confiam exclusivamente na justiça de Deus, porque na dos homens não a encontram. E o Papa Francisco nos esclarece mais ainda essa presença de Deus, em um discurso pronunciado na “Jornada Mundial da Juventude” do dia 28.07.2016: “… «Onde está Deus?» Onde está Deus, se no mundo existe o mal, se há pessoas famintas, sedentas, sem abrigo, deslocadas, refugiadas? Onde está Deus, quando morrem pessoas inocentes por causa da violência, do terrorismo, das guerras? Onde está Deus, quando doenças cruéis rompem laços de vida e de afeto? Ou quando as crianças são exploradas, humilhadas e sofrem – elas também – por causa de graves patologias? Onde está Deus, quando vemos a inquietação dos duvidosos e dos aflitos na alma? Há perguntas para as quais não existem respostas humanas. Podemos apenas olhar para Jesus e perguntar-lhe. E a sua resposta é esta: «Deus está neles», Jesus está neles, sofre neles, profundamente identificado com cada um. Está tão unido a eles, que quase formam «um só corpo». (…) Foi o próprio Jesus que escolheu identificar-se com estes nossos irmãos e irmãs provados pelo sofrimento e a angústia, aceitando percorrer o caminho doloroso para o calvário. Ao morrer na cruz, entrega-se nas mãos do Pai e leva consigo e em si mesmo, com amor de doação, as chagas físicas, morais e espirituais da humanidade inteira. Abraçando o madeiro da cruz, Jesus abraça a nudez e a fome, a sede e a solidão, a dor e a morte dos homens e mulheres de todos os tempos.(…) Somos chamados a servir Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada, a tocar a sua carne bendita em quem é excluído, tem fome, tem sede, está nu, preso, doente, desempregado, é perseguido, refugiado, migrante. Naquela carne bendita, encontramos o nosso Deus; naquela carne bendita, tocamos o Senhor.(…) O Caminho da Cruz é o caminho da vida e do estilo de Deus, que Jesus nos leva a percorrer mesmo através das sendas duma sociedade por vezes dividida, injusta e corrupta”.


O silêncio do abandono

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A vida é um meandro, cheia de curvas, que reserva muitasvezes surpresas e abandonos. Quantos sofrimentos, incompreensões, lágrimas na vida do ser humano! Parece em certas ocasiões que até Deus o tenha abandonado. Mas a gente se pergunta: “Será que Deus abandona a sua melhor obra, que é o ser humano?”, ou “será que Deus é tão insensível em relação às provas da vida do ser humano?”. O salmo 73 das Sagradas Escrituras nos dá uma resposta a tudo isso:

“Por que, Senhor, persistis em nos rejeitar? Por que se inflama vossa ira contra as ovelhas de vosso rebanho? Recordai-vos de vosso povo que elegestes outrora, da tribo que resgatastes para vossa possessão, da montanha de Sião onde fizestes vossa morada. Dirigi vossos passos a estes lugares definitivamente devastados; o inimigo tudo destruiu no santuário. Os adversários rugiam no local de vossas assembleias, como troféus hastearam suas bandeiras. Pareciam homens a vibrar o machado na floresta espessa. Rebentaram os portais do templo com malhos e martelos, atearam fogo ao vosso santuário, profanaram, arrasaram a morada do vosso nome. Disseram em seus corações: Destruamo-los todos juntos; incendiai todos os lugares santos da terra. Não vemos mais nossos emblemas, já não há nenhum profeta e ninguém entre nós que saiba até quando… Ó Deus, até quando nos insultará o inimigo? O adversário blasfemará vosso nome para sempre? Por que retirais a vossa mão? Por que guardais vossa destra em vosso seio? Entretanto, Deus é meu rei desde os tempos antigos, ele que opera a salvação por toda a terra. Vosso poder abriu o mar, esmagastes nas águas as cabeças de dragões. Quebrastes as cabeças do Leviatã, e as destes como pasto aos monstros do mar. Fizestes jorrar fontes e torrentes, secastes rios caudalosos. Vosso é o dia, a noite vos pertence: vós criastes a lua e o sol, vós marcastes à terra seus confins, estabelecestes o inverno e o verão. Lembrai-vos: o inimigo vos insultou, Senhor, e um povo insensato ultrajou o vosso nome. Não abandoneis ao abutre a vida de vossa pomba, não esqueçais para sempre a vida de vossos pobres. Olhai para a vossa aliança, porque todos os recantos da terra são antros de violência. Que os oprimidos não voltem confundidos, que o pobre e o indigente possam louvar o vosso nome. Levantai-vos, ó Deus, defendei a vossa causa. Lembrai-vos das blasfêmias que continuamente vos dirige o insensato. Não olvideis os insultos de vossos adversários, e o tumulto crescente dos que se insurgem contra vós.”

Este salmo é marcado pela tristeza do abandono e do poder esmagador dos que perseguem os que acreditam em Deus. Ele é dividido em duas situações: o silêncio de Deus de uma parte e da outra o silêncio da morte e da destruição do Templo de Deus. A partir dos versículos de 1 a 9, focaliza-se a lamentação sobre a destruição do Templo. O inimigo com a sua arrogância destruidora parecia ser superior à presença de Deus no seu Templo. Os inimigos não tinham piedade de nada e de ninguém: tudo destruíam. E o pior, é que ninguém sabe até quando vai todo esse esmagamento.
Depois disso, o salmo se concentra nos versículos de 10 a 23 em uma oração incessante a Deus para que possa intervir a favor do justo. E o fiel salmista relembra a ação universal de Deus na criação quando esmagou a prepotência dos dragões, do Leviatã, símbolos horríveis do ‘nada’. E a partir dessa potência de Deus Israel aguarda a sua intervenção em favor do seu povo. Porém, vive ansioso porque parece que Deus ainda não tomou a iniciativa. Os poderosos infiéis triunfam sobre os fieis. Mas os fieis confiam na fidelidade de Deus. É questão de tempo.

Portanto, se de um lado tem o medo porque Deus ainda está ausente de outro lado existe a confiança que Deus pode tardar, mas não deixará de agir para salvar os seus fieis. O ‘coração’ dessa oração é aquele do silêncio de Deus na prova, no sofrimento que estão vivendo os justos. E isso poderia levar os inimigos a argumentarem, confutarem a própria existência de Deus. Ainda hoje tem aqueles que dizem, perante a tanta violência e dor, que Deus é simplesmente uma invenção dos que acreditam. Assim reage o fiel insistindo com Deus de não se deixar blasfemar, mas de intervir para comprovar que Ele é realmente Deus, Senhor da história.

Assim sendo, a oração é para romper o silêncio de Deus. Revelando que Deus é o verdadeiro dono da história humana. Está nas mãos Dele o destino da humanidade, e não dos poderosos desse mundo. A história da humanidade, por quanto possa ser abalada pelas crueldades e atrocidades, ela não é jogada no caos. É preciosa aos olhos amorosos de Deus.


O mal será derrotado

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Quantos desesperos e gritos de dor se elevam todos os dias na vida das pessoas! O mal circunda o ser humano e o deixa ainda mais fragilizado na sua existência. Por que a maldade domina a vida? O salmo 38, das Sagradas Escrituras, fala-nos a respeito:

“Disse comigo mesmo: Velarei sobre os meus atos, para não mais pecar com a língua. Porei um freio em meus lábios, enquanto o ímpio estiver diante de mim. Fiquei mudo, mas sem resultado, porque minha dor recrudesceu.Meu coração se abrasava dentro de mim, meu pensamento se acendia como um fogo, então eu me pus a falar: Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim, e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero.A largura da mão: eis a medida de meus dias, diante de vós minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro. De fato, o homem passa como uma sombra, é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá.E agora, Senhor, que posso esperar? Minha confiança está em vós. Livrai-me de todas as faltas, não me abandoneis ao riso dos insensatos.Calei-me, já não abro a boca, porque sois vós que operais. Afastai de mim esse flagelo, pois sucumbo ao rigor de vossa mão.Quando punis o homem, fazendo-lhe sentir a sua culpa, consumis, como o faria a traça, o que ele tem de mais caro. Verdadeiramente, apenas um sopro é o homem. Ouvi, Senhor, a minha oração, escutai os meus clamores, não fiqueis insensível às minhas lágrimas. Diante de vós não sou mais que um viajor, um peregrino, como foram os meus pais.Afastai de mim a vossa ira para que eu tome alento, antes que me vá para não mais voltar.”

Surge inevitável a questão de querermos compreender de onde vem todo o mal, sofrimento e dor que fazem parte da vida da humanidade. Se tudo o que Deus fez é bom, como então? Para isso, remontamos à Bíblia. Seus vários livros se preocupam com o mal. Neles se encontra uma multiplicidade de imagens para falar do tema. Não se encontra neles uma resposta simples, racional, mas uma resposta de fé. Razão e fé (confiança) estão presentes nesse salmo. Por isso a Bíblia é diferente de outros livros. E esse salmo nos ajuda a fazer essa profissão de fé.

Deus não criou o mal. Ele se preocupa em libertar os seres humanos do mal. Para combater o mal, é preciso confiar em Deus. Resgatar nossa ligação direta com Deus, pela qual fomos criados, e que desfrutávamos no Jardim do Éden. Lembremos o prólogo do Evangelho de João, que nos chama filhas e filhos de Deus, para acentuar nossa dependência a Deus. E a dependência a Deus, a confiança em Deus, é uma liberdade total, para os seres humanos, pois também significa sua liberdade perante os esquemas do mundo, com sua lógica limitada, opressora, que reproduz muitas vezes o mal, que afasta Deus. Significa viver mirando as “coisas do alto”, o que tem consequências muito profundas em nosso mundo, em nosso modo de viver e conviver com os demais filhos e filhas.

Nós, seres humanos, não somos geradores do mal, mas aderimos a ele. Porém, procuramos dar uma razão a toda essa desgraça que vivemos no dia a dia, no mundo todo, com violências, guerras, fomes, injustiças, desigualdades brutais. Muitos se fazem a pergunta ou justificam sua falta de fé assim: por que Deus permite tudo isso? Quem tem de responder a essa questão somos nós. O problema não é Deus. Ele não criou o mal!

A Bíblia trata do problema do mal. Tenta compreender a relação entre Deus e o mal. Qual é a ligação entre Deus e o mal? A fonte do conhecimento é conhecer Deus. Já na origem, havia a preocupação sobre o mal. O ser humano, por si só não era capaz. Ele se apega a Javé, que vai lhe explicar, como nos mostra o fiel desse salmo. Deus é o ator principal. Não é a humanidade. A fonte do conhecimento é, portanto, Deus. Se não queremos fazer a experiência de Deus, ficamos com nossos conhecimentos limitados, pois restritos ao conhecimento da criatura.

Sabemos que os seres humanos são vítimas do mal e, também, aderem ao mal. Mas, temos a certeza de que Deus reverte essa situação. Na medida em que nos deixamos conduzir por Deus, conseguimos vencer o mal. Deus respeita sua criatura, seu livre arbítrio, mas não a abandona. Então, a realidade que o profeta Isaías descreve é a que vai triunfar.

Onde há intimidade com Deus, tudo é possível, o mal não prolifera. Temos uma relação com a terra que, de hostil e penosa, torna-se na nova criação, uma relação de reconciliação: “… serão plantadas vinhas cujos frutos comerão” (Is 65, 21). O trabalho se torna resposta à graça de Deus e instrumento para uma vida feliz: “não trabalharão mais em vão, não darão mais à luz filhos voltados a uma morte repentina” (Is 65, 23). Quantas promessas! Que destino de plenitude nos é reservado na aposta no nosso Deus! E o último mal a ser derrotado é a morte.


Entrar no santuário do senhor

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Uma questão que ouço constantemente na vida das pessoas é esse tipo de queixa: “Deus, por que permite essa violência, essas atrocidades no meio de nós? Morte de crianças, sequestros, homicídios, imoralidades, deturpação da realidade, corrupção…” As pessoas querem entender a difícil convivência da humanidade. Mas parece que não conseguem dar uma razão. Lendo o salmo 72, das Sagradas Escrituras, pode-se tentar dar uma resposta.

“Oh, como Deus é bom para os corações retos, e o Senhor para com aqueles que têm o coração puro! Contudo, meus pés iam resvalar, por pouco não escorreguei, porque me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens. Eles se adornam com um colar de orgulho, e se cobrem com um manto de arrogância. Da gordura que os incha sai a iniquidade, e transborda a temeridade. Zombam e falam com malícia, discursam, altivamente, em tom ameaçador. Com seus propósitos afrontam o céu e suas línguas ferem toda a terra. Por isso se volta para eles o meu povo, e bebe com avidez das suas águas. E dizem então: Porventura Deus o sabe? Tem o Altíssimo conhecimento disto? Assim são os pecadores que, tranquilamente, aumentam suas riquezas. Então foi em vão que conservei o coração puro e na inocência lavei as minhas mãos? Pois tenho sofrido muito e sido castigado cada dia. Se eu pensasse: Também vou falar como eles, seria infiel à raça de vossos filhos. Reflito para compreender este problema, mui penosa me pareceu esta tarefa, até o momento em que entrei no vosso santuário e em que me dei conta da sorte que os espera. Sim, vós os colocais num terreno escorregadio, à ruína vós os conduzis. Eis que subitamente se arruinaram, sumiram, destruídos por catástrofe medonha. Como de um sonho ao se despertar, Senhor, levantando-vos, desprezais a sombra deles. Quando eu me exasperava e se me atormentava o coração, eu ignorava, não entendia, como um animal qualquer. Mas estarei sempre convosco, porque vós me tomastes pela mão. Vossos desígnios me conduzirão, e, por fim, na glória me acolhereis. Afora vós, o que há para mim no céu? Se vos possuo, nada mais me atrai na terra. Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus. Sim, perecem aqueles que de vós se apartam, destruís os que procuram satisfação fora de vós. Mas, para mim, a felicidade é me aproximar de Deus, é pôr minha confiança no Senhor Deus, a fim de narrar as vossas maravilhas diante das portas da filha de Sião.”

Esse hino inicia louvando o Senhor porque Ele é bom com aqueles que são transparentes na vida. Não são duplos, isto é, que se comportam dizendo uma coisa e fazendo outra. Porém, o fiel fica irritado e amargurado vendo esses ímpios malvados tendo uma existência esbanjando riqueza e felicidade e, no entanto, ele lutando para sobreviver. Ele rezando manifesta toda essa preocupação, porque o ímpio se enche de orgulho, estufa o peito e pratica a violência.

O coração do malvado é um vaso cheio de loucuras e a sua boca desafia céu e terra: “dizem então: Porventura Deus o sabe? Tem o Altíssimo conhecimento disto?” No entanto, o justo é colocado à prova e sofre todos os dias a diferença do sucesso do malvado. A segunda parte dos versículos 17 a 20 marca a mudança do salmo. O fiel desse salmo muda de opinião: aquela posição fatalista do infiel que é mais feliz do justo se inverte. Por que? É entrando no santuário que lhe permite de fazer uma experiência mística em que descobre o destino último dos ímpios e dos justos.
Nessa experiência de oração, consegue discernir a verdadeira realidade da humanidade: o malvado não tem futuro e será destruído. Aquela felicidade inicial foi só uma ilusão, um sonho que termina o quanto antes. O justo, no entanto, vive a grande esperança da imortalidade pela comunhão com Deus, Senhor de tudo e de todos. Portanto, é a proximidade com Deus que ajuda compreender a preciosidade da vida dos justos.

E o papa Francisco nos convida a entrar nessa lógica da contemplação no templo com a oração persistente: “Jesus exorta a rezar sem jamais se cansar. Todos experimentamos momentos de cansaço e desânimo, principalmente quando nossa oração parece ineficaz. Mas Jesus nos garante que Deus ouve prontamente seus filhos, mesmo que isso não signifique que o faça nos tempos e nas maneiras que nós queremos. A oração não é uma varinha mágica! Ela ajuda a conservar a fé em Deus e a confiar n’Ele mesmo quando não compreendemos a Sua vontade.”


Bendito seja o senhor! Só ele faz maravilhas!

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Todos somos sedentos de justiça, desde o menor deste país até o maior. Encontro a toda hora gente que reclama de uma convivência entre as pessoas marcada pela desconfiança, corrupção e, sobretudo, queixando-se dos governantes e políticos. Aqueles que conduzem o país são continuamente alvo de críticas e queixas que não têm fim. Mas, eu me pergunto: por que chegamos a essa perturbada realidade? Não será essa situação que gera cada vez mais violência? A vida do povo está ameaçada! Será que há solução para isso? As Sagradas Escrituras, como sempre, nos iluminam. O Salmo 71 nos mostra que a justiça é construída com uma relação entre Deus e governante. É essa ligação que nos permite discernir e viver uma realidade de paz. Leia atentamente esse Salmo.

“Ó Deus, confiai ao rei os vossos juízos. Entregai a justiça nas mãos do filho real, para que ele governe com justiça vosso povo, e reine sobre vossos humildes servos com equidade. Produzirão as montanhas frutos de paz ao vosso povo; e as colinas, frutos de justiça. Ele protegerá os humildes do povo, salvará os filhos dos pobres e abaterá o opressor. Ele viverá tão longamente como dura o sol, tanto quanto ilumina a lua, através das gerações. Descerá como a chuva sobre a relva, como os aguaceiros que embebem a terra. Florescerá em seus dias a justiça, e a abundância da paz até que cesse a lua de brilhar. Ele dominará de um ao outro mar, desde o grande rio até os confins da terra. Diante dele se prosternarão seus inimigos, e seus adversários lamberão o pó. Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações. Porque ele livrará o infeliz que o invoca, e o miserável que não tem amparo. Ele se apiedará do pobre e do indigente, e salvará a vida dos necessitados. Ele o livrará da injustiça e da opressão, e preciosa será a sua vida ante seus olhos. Assim ele viverá e o ouro da Arábia lhe será ofertado; por ele hão de rezar sempre e o bendirão perpetuamente. Haverá na terra fartura de trigo, suas espigas ondularão no cume das colinas como as ramagens do Líbano; e o povo das cidades florescerá como as ervas dos campos. Seu nome será eternamente bendito, e durará tanto quanto a luz do sol. Nele serão abençoadas todas as tribos da terra, bem-aventurado o proclamarão todas as nações. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que, só ele, faz maravilhas. Bendito seja eternamente seu nome glorioso, e que toda a terra se encha de sua glória. Amém! Amém! Aqui terminam as preces de Davi, filho de Jessé.”

Esse salmo foi interpretado na figura do grande rei Salomão, qual exemplo de rei sábio, perfeito e ideal para a condução do povo. É com Salomão que se faz a verdadeira justiça. Quanto seria interessante que os governantes se espelhassem nesse grande rei. Assim sendo, o salmo focaliza, em primeiro lugar, a questão social qual a justiça e a defesa dos pobres. A defesa do pobre é um lugar comum no elogio monárquico oriental, mas em Israel a motivação é de natureza teológica: Deus protege o pobre, qual seu advogado defensor e o rei, como representante de Deus, deve ser garantia dessa proteção.

O rei também é mostrado conforme as estratégias de guerra, o grande triunfador, isto é, o triunfo do rei-messias, o consagrado, que, segundo a lógica do monarquismo, adquiria elementos cósmicos. Todas as nações se dobram ao rei de Israel e no mundo se abre uma nova realidade ascensional de riqueza: “Haverá na terra fartura de trigo, suas espigas ondularão no cume das colinas”. Imagino nos nossos tempos em que os governos buscam praticamente fazer o contrário, isto é, a riqueza está na exploração dos pobres e indefesos. Exatamente ao contrário do que o salmo nos prega.

Por isso, queremos afirmar com o salmo que o reino do rei ideal não tem nenhuma autonomia, mas se funda em Deus. O rei depende de Deus. O rei deve ser assim servidor tanto do Senhor quanto do povo. E a partir dessa realidade que podemos esperar novos rumos dos países e dos governos. Os novos ‘reis’ da terra, portanto, não podem fazer “uma economia idolátrica que precisa sacrificar vidas humanas no altar do dinheiro e da rentabilidade”, disse o papa Francisco. De fato, a idolatria nos afasta de Deus e, assim, não se consegue compreender e viver a maravilha da nossa vida.