O narcisismo digital

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Estamos imersos totalmente em uma cultura digital e aquilo que se destaca pode ser classificado de ‘narcisismo’. Por que isso? Constata-se como o individualismo está imperando no nosso meio. Diria um individualismo até exasperado e que se presencia em todos os níveis. Por exemplo, até na fotografia se realiza a famosa ‘selfie’, que permite fazer tudo sozinho, dando a total liberdade de autorreferência e autoexecução. Não só, a tendência da juventude é ter uma forte característica narcisista. Esta, poderíamos dizer, é uma epidemia que,com o tempo,cresce mais e mais.

Nota-se como o ‘eu’ está pronunciado e escrito intensamente e constantemente. Na vida cotidiana, na televisão, nos jornais, nas redes sociais, o ‘eu’ domina tudo. Pode observar como até na políticao protagonista é o ‘eu’. É uma realidade, podemos dizer assim, escravizada pelo espelho.Além do mais, estamos nos limites de um ‘narcisismo exacerbado’. As redes sociais estão cheias de informações, às vezes, bem banais, cheias de fotografias e de proclamas. Torna-se público até as sequencias bem pessoais e de vida familiar.

E, depois, mais interessante é ainda quando aparecem muitos ‘like’ e ‘follower’, em que mostram o grau de satisfação dos interessados. Então, é legítimo se perguntar:o que poderá acontecer quando o mecanismo autopromocional de personagens importantes, tipo Messi ou outro, queviraliza, torna-se referência de imitação, também para um jovem de Belém ou de outra cidade da Amazônia?

Já teve a respeito pessoas que tentaram dar uma resposta a tudo isso. Creio que se pode dizer que o ‘narcisismo’ é o encolhimento em si da própria energia vital, isto é, permitir de se enriquecer através do intercâmbio de experiências e, ao mesmo tempo, se colocar em jogo, perdendo em parte algumas certezas. E também o narcisista achando de ser poderoso, pode chegar a negar o limite da morte. Ele é o poderoso! Essa nova cultura digital-tecnológica convida a se restringir sob o aspecto afetivo e, ao mesmo tempo, evitar ter brigas com os outros.

Assim sendo, parece que se projeta a substituir as relações humanas com o investimento dos objetos, porque eles não comprometem a própria personalidade. Desse jeito, a capacidade das pessoas que se sentem totalmente satisfeitas das suas realizações acabase enfraquecendo ou até se tornam ausentes.Sob o aspecto educativo, por exemplo, quando os pais procuram dar tudo para os próprios filhos, desta forma, evita-se cada conflito, e assim compromete-se o crescimento psíquico. De fato, tirar dos próprios filhos das provas de responsabilidades e de compromissos contribui a criar gerações auto-gratificadas e autorreferidas.

Comtudo isso, o narcisismo se torna o protagonista na nova realidade cultural em que os relacionamentos se relativizam, fragilizando toda verdade e objetividade. A essa altura, torna-se muito difícil praticarmos os valores comunitários e, sobretudo, praticarmos o ensino e testemunho de Jesus.


A memória não é mais nossa

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Iniciando o novo ano 2020, muitas considerações passam pela minha mente. É lícito se perguntar, por exemplo, até que ponto nos lembraremos das coisas passadas? Até que ponto as novas gerações têm conhecimento bem objetivo daquilo que se passou? Até onde chega a nossa memória? Parece-me que a cultura analógica, do passado, tinha mais uma pressão sobre a memória e, no entanto, a cultura digital se reforça mais na ação da tecnologia. As pessoas de mais de idade, de cabelos brancos, se recordam, por exemplo, que para aprender a fazer as primeiras contas usavam expedientes bem manuais. Isto se acabou quando entraram no mercado as calculadoras eletrônicas e depois as digitais.

Um procedimento simples, mas totalmente diferente. Passou-se do esforço de memória pessoal para o esforço de uso da técnica. Enfraqueceu-se o uso da memória e fortaleceu-se os auxílios da memória, fornecidos pela tecnologia. Assim sendo, daqui alguns anos somos capazes de esquecer datas importantíssimas que constituem a nossa tradição para deixar espaço ao presente imediatista. Desse modo, acontece com toda a linguagem simbólica que vai perdendo a sua capacidade de transmitir os múltiplos sentidos da mesma. Esvaziando a linguagem simbólica se esgotam as mensagens. Agindo desse jeito, aos poucos, vamos perder também o verdadeiro sentido espiritual do Natal e das festas natalinas, concentrando-nos na questão material das mesmas.

Assim é bem fácil se reduzir a fazer uma experiência de um Jesus meramente humano, com todas as suas consequências que comportam, deixando de lado que é também verdadeiro Deus. Sendo também enfraquecida a memória, não se consegue resgatar o passado que nos ajuda a contemplar a verdade. Neste caso, fazemos uma experiência de um Jesus somente histórico e pertinente aos próprios desejos. Desse jeito, fazemos da nossa vida uma realidade bem limitada. E creio que esse momento histórico que estamos enfrentando, em que desapareceram todos os pontos de referências politicas, ideológicas, éticas e jurídicas, a Palavra de Deus pode dar um verdadeiro sentido da vida. Perdendo, num certo sentido a memória, perdemos a capacidade de fazer uma profunda profissão de fé.

A religiosidade cristã se tornou uma questão periférica. Ás vezes me pergunto: até que ponto os nossos fiéis, por exemplo, que vão à Missa se deixam envolver pela radicalidade do evento cristão ou se radicalizam exclusivamente sobre os aspectos puramente rituais e formais? Agora, aumentando sempre mais a cultura digital poderá diminuir sensivelmente a verdade sobre Jesus o Cristo? Uma cultura desse tipo parece que relativize um pouquinho tudo. Onde está a verdade? Parece que as pessoas perguntem hoje. Uma coisa é certa: devemos buscar a verdade, mas como fazemos se a nossa memória está, num certo sentido, afetada? Então, como resgatar uma memória prejudicada? O que fazer? É urgente se reapropriar de algo que é nosso e não delegar exclusivamente para a técnica aquilo que é nosso. A técnica é importante para nos auxiliar e não para nos expropriar.


Promovemos uma cultura da paz

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Todos nós somos convidados por uma política da paz. Esta é possível por meio de uma informação de paz. Paz e informação. Duas realidades fundamentais para a convivência humana. Parece que estão em risco. O nosso mundo, onde o progresso avança sempre mais e a tecnologia dos meios de comunicação se expande com ritmos acelerados, mostra-nos a real ligação e dependência entre esses dois fatores, a comunicação e a informação.

Aliás, dizia o papa S. João Paulo II, elas representam hoje um poder que poderia bem servir a causa da paz, mas também criar tensões e provocar guerras e violações dos direitos humanos. Segundo McLuhan, nós estamos determinados pela tecnologia, ou seja, pelo determinismo tecnológico e, por isso, para ele, a única solução é desconectar o cabo de força da tomada, isto é, cortar esse tipo de comunicação. Certamente, nós não estamos de acordo com esse tipo de afirmação, embora reconheçamos que a situação seja preocupante. Porém, achamos que o ser humano possa encontrar as soluções por meio da sua capacidade do saber e do dialogar. No entanto, nos questionamos: será que estamos ensaiando, vivendo esta dimensão do saber e do dialogar?

Pelo menos nós da Igreja nos interrogamos o que estamos fazendo, de fato, em relação a isso?

Além do mais, por exemplo, como a informação é submetida a limitações e condicionamentos políticos e econômicos, arriscando, assim, de ser sempre menos independente, livre e insuficiente. Desde sempre, a guerra como o terrorismo se alimentam por uma informação facciosa, parcial e duvidosa que gera medo, ódio e violência.

Ao mesmo tempo, cada vez que se esconde ou se muda a verdade, que se obscurece uma manifestação ou projeto de paz, que se privilegiam os interesses de uns no lugar do bem comum, cumpre-se assim um grave atentado à construção da paz. S. João Paulo II escreveu: “as formas e as maneiras como são apresentadas situações e problemas tais como o desenvolvimento, os direitos humanos, as relações entre os povos, os conflitos ideológicos, sociais e políticos, as reivindicações nacionais, a corrida para ter mais armas, para fazer alguns exemplos, influem diretamente em formar a opinião pública e criar mentalidades orientadas no sentido da paz ou abertas, no entanto, para soluções de força”.

Continua o Santo papa: “A comunicação social, se quiser ser instrumento de paz, deverá superar as considerações unilaterais e parciais, removendo preconceitos, criando, no entanto, um espírito de compreensão e de recíproca solidariedade”. Infelizmente, os grandes e poderosos meios de informação difundem uma falsa ideia da paz que se associa a inércia, renúncia, entrega, resignação, impotência. As imagens, palavras e atitudes irresponsáveis transmitem princípios e comportamentos que corroem as raízes por uma cultura da paz. Porém, a paz se gera e mantém com uma informação e uma comunicação livre, se preocupa com o bem comum, é próxima aos direitos e as necessidades das pessoas. Assim sendo, uma livre informação pode crescer somente na paz.

Assim, não devemos “dormir”, mas acordar as nossas aspirações para uma cultura de paz.


Natal 2019

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Ajoelhado no último banco da igreja, com a cabeça reclinada e bem segura entre as mãos, estava, um dia desse, um rapaz rezando sozinho. E ali permaneceu um bom tempo. Eu pensei: “por que preferia ficar na Igreja, sozinho, no lugar de se divertir num boteco junto com os outros colegas?” Aliás, naquele fim de semana, estavam bem lotados todos os bares da redondeza e todos manifestavam alegrias e descontração na diversão. Por que esse jovem preferiu ficar rezando na Igreja? Tinha sentido estar sozinho em um lugar tão diferente como a Igreja?

Estamos celebrando este ano o Santo Natal 2019. Há 2019 anos que nasceu Jesus.

Como a gente vive este grande acontecimento? Como aquele rapaz que preferiu ir para a Igreja rezar ou se divertir em festas como muitas pessoas fazem? Os mistérios de Deus se tornam inacessíveis para aqueles que procuram preencher a própria vida através dos barulhos e festas da vida. Eu creio que aquele rapaz, da Igreja, esteja no caminho certo: é por aí que conseguiremos dar sentido a nossa vida, a preenchê-la de verdade. Reconheço, também, que muitas pessoas estão fazendo coisas maravilhosas na vida delas. Verdadeiras conversões. Isto me leva a louvar a Deus por estes seus filhos/as tão queridos. São para mim verdadeiras testemunhas de fé. Este ano contemplo o nascimento de Jesus na vida dessas pessoas.

As palavras ressoam continuamente na minha vida: “Padre Cláudio, a minha vida parecia um inferno, mas depois que comecei a participar ativamente da vida da Igreja tudo mudou. Quer dizer, as dificuldades sempre me acompanham, mas é a maneira nova de enfrenta-las, talvez com uma cabeça mais fria, porque tenho a perfeita consciência que Deus está comigo”. E continua: “O tempo que perdi até agora quero recupera-lo, doando-me cada vez mais na vida da Igreja, porque este Jesus está fazendo tudo por mim, ele tem demais paciência comigo”.

Quem festeja o verdadeiro Natal de Jesus, e não aquele da festa dos barulhos, isto é, do consumismo, irá compreender que Deus não está longe dele e, portanto, se torna o seu mais importante aliado.

Desse jeito, quem faz esta experiência leva-o a saber discernir qual é verdadeiro Natal e como festeja-Lo. Eu desejo que todas as pessoas, que sempre me acompanharam e que me conhecem, possam fazer a verdadeira experiência do santo Natal de Jesus. Temos somente que ganhar com isso e nada a perder. Tenham coragem e não se deixem levar pelos falsos natais que o mundo do consumo propõe continuamente.

E o papa Francisco falou na homilia do Natal 2014: “Como acolhemos a ternura de Deus? Deixo-me alcançar por Ele, deixo-me abraçar, ou impeço-Lhe de aproximar-Se? «Oh não, eu procuro o Senhor!» – poderíamos replicar. Porém, a coisa mais importante não é procurá-Lo, mas deixar que seja Ele a procurar-me, a encontrar-me e a cobrir-me amorosamente das suas carícias. Esta é a pergunta que o Menino nos coloca com a sua mera presença: permito a Deus que me queira bem?”

Feliz Santo Natal 2019 e o ano 2020 seja marcado no compromisso com o nosso único Mestre Jesus.


Filosofia e Religião: a revolução de Cristo

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Quem nos ajuda a explorar esse tema tão importante é uma pessoa que vem de longe: São Justino. Ele nasceu em Samaria, na Terra Santa, pelos anos 100. Foi filósofo e mártir que defendeu a nossa religião das graves acusações dos pagãos e dos judeus. Ele escreveu o “Diálogo com o Hebreu Trifone”, entre um rabino e um cristão. Qual foi o debate deles?
Uma longa discussão sobre a interpretação das profecias messiânicas que se acham nas Sagradas Escrituras. Justino mostra como em Jesus se realiza o projeto de Deus tanto da criação quanto da redenção. Ele é a Razão eterna, a Razão criadora. Nesse sentido, todo ser humano participa dessa Razão que é Jesus, Princípio e Fim, enquanto ser racional.
Assim, Justino projeta o seu percurso intelectual através da leitura das Sagradas Escrituras e pela filosofia cristã que ajuda alcançar com a certeza as verdades últimas sobre Deus, o mundo e o ser humano. De fato, a filosofia cristã marcou constantemente os primeiros séculos, dando-nos filósofos de renome como Agostinho e Orígenes. Houve uma mudança de relevo com a entrada da filosofia cristã em relação ao passado. Assim sendo, nos perguntamos: como era antes do cristianismo e como era vista a religião? A religião era uma atividade que se concretizava em ritos e sacrifícios, em que as pessoas participavam, e nada mais que isso ou talvez um crer que se refazia ao mito tradicional.
No entanto, debater sobre Deus era da filosofia, que se debruçava sobre os princípios fundamentais da vida e se restringia a segmentos da sociedade que possuíam instrumentos materiais e intelectuais para poder ensaia-la e alimenta-la. A partir de Jesus Cristo, essa prática filosófica se universaliza e se abre a todos. Não é mais restrita a uma elite, mas alcança todos os segmentos da sociedade pela mediação dos intelectuais e dos pregadores cristãos que se refazem, a partir das Sagradas Escrituras e dos seus comentários. A respeito disso, é só lembrar um dos grandes autores: Santo Agostinho. Ele ainda hoje é um autor dos mais lidos no mundo.
Todo esse movimento filosófico cristão que vai da prática cultual a um sistema de conhecimento e de crença em relação a Deus, a partir de Jesus, leva a uma ética bem consistente, alimentando a prática religiosa ancorada a uma viva liturgia, à Bíblia e à Tradição da Igreja. Assim sendo, o cristianismo desde as suas origens se impôs na vida das sociedades e do mundo intelectual, através do seu pensamento. O cristianismo, podemos dizer também, é uma verdadeira filosofia e, ao mesmo tempo, caminho universal de acesso para a verdade sobre Deus e sobre o ser humano. Hoje em dia, no mundo do relativismo dialógico sobre os valores, a religião e o debate inter-religioso, Cristo resgata a humanidade, dando-lhe uma plenitude de vida. Portanto, Jesus Cristo é também uma manifestação histórica de vida na sua totalidade e de reflexão que promove todos e não somente os cristãos. Portanto, uma profunda filosofia passa também pelo Jesus, qual luz para as nações.


A nova cultura, uma nova religião?

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O uso do computador não é um simples instrumento em nossas mãos para efetivar, eficientemente, as nossas mensagens ou trabalhos. O uso desse prodigioso meio leva também a uma nova maneira de pensar e agir. E se formos analisar um programa de computador, concluiremos que não é mais nada que um cálculo algorítmico. E a partir dessa constatação, podemos dizer que a nossa cultura atual é um processo de dados finitos, isto é, algorítmicos. Quais as consequências dessa nova cultura? Parece-me que as pessoas e a mesma sociedade em geral apelam ao computador como a solução pra tudo.

Nota-se uma afinidade e identificação das pessoas com esse procedimento algorítmico. Diria que se tornou quase como se fosse uma súplica do ser humano ao computador, parecida a uma súplica religiosa. Esse uso da tecnologia leva o ser humano a expressar total confiança para alcançar os seus objetivos e interesses cotidianos. Sente-se poderoso na posse desse instrumento matemático. Portanto, não é somente um simples uso eficiente, mas uma fé que permite ter as respostas exaustivas da vida. Esse fideísmo tecnológico, isto é, sem nenhuma racionalização, mas crendo cegamente, torna-se como se fosse uma religião que conduz a escolha ideológicas, fortalecendo a materialidade.

Assim sendo, o racionalismo tecnológico se torna protagonista da vida das pessoas e dos jovens. Porém, esse racionalismo algorítmico tem uns limites que vão da vida religiosa à vida política, da cultura à vida cotidiana. Por que isso? Porque os compromissos e as analogias das aproximações algorítmicas levam geralmente a suprimir tudo aquilo que não se compreende. A partir disso, se compreende como politicamente tudo se torna muito limitado porque se torna razoável somente aquilo que se entende. A nossa sociedade hoje é envolvida nisso e então a verdade é geralmente e exclusivamente pessoal.
Assim é difícil dialogar. Uma politica sem diálogo leva a exasperações e fracassos da sociedade. A mesma coisa na religião, se não se consegue compreender ou se tem a percepção de não ser bem atendido se migra com tanta facilidade para outra religião. Tudo se generaliza e se formaliza, dizendo que mais ou menos tudo é igual. A verdade se torna subjetiva e não objetiva e o pensamento mágico é um claro processo algorítmico. Além do mais, ‘o perigo é raciocinar que o pensamento humano e os processos da computação são como idênticos. Nós confundimos o conhecimento e o significado, o processo e o propósito. O problema, portanto, torna então não a perspectiva de um computador que simule o pensamento humano, mas o impacto desgastante do pensamento computacional sobre o ser humano.’
Efetivamente, se o nosso raciocino é cada vez mais dependente dos sistemas de computação tanto mais deveremos enfrentar processos racionais que estão fora do nosso controle, e mais dependentes da técnica informática. Por isso, com toda sinceridade, confiamos e delegamos a esse processo algorítmico o nosso pensar e agir. De tal modo, a verdadeira ameaça cultural ainda somos nós, porque fomos nós a dar todo esse poder ao processo algorítmico computacional.


Identidade Cristã

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Lendo e relendo a homilia do papa Francisco, que fez nas Catacumbas de Priscila no dia 02.11.2019, me ajudou a refletir mais profundamente quanto é difícil viver ainda hoje a vocação cristã. O Santo Padre disse: “Ainda hoje há cristãos perseguidos, mais do que nos primeiros séculos. Isto — as catacumbas, a perseguição, os cristãos — e estas Leituras fazem-me pensar em três palavras: identidade, lugar e esperança.”
E continua o papa Francisco: “A identidade destas pessoas que aqui se reuniram para celebrar a Eucaristia e louvar o Senhor é a mesma que a dos nossos irmãos de hoje em muitos países onde ser cristão é um crime, é proibido, não têm direito. A identidade é esta que ouvimos: são as Bem-Aventuranças.”
O papa insiste como se adquire esta identidade cristã: “Com as Bem-Aventuranças. Se fizeres isto, se viveres assim, és cristão. “Não, mas olha, eu pertenço a essa associação, a essa outra… eu sou deste movimento…”. Sim, sim, sim, todas estas coisas são boas, mas são fantasias diante desta realidade. O teu documento de identidade é este [indica o Evangelho], e se não o tiveres, de nada servem os movimentos ou outras pertenças. Ou vives assim, ou não és cristão.”
O Santo Padre é mais ainda contundente: “Simplesmente! O Senhor disse isto. “Sim, mas não é fácil, não sei como viver assim…”. Há outra passagem do Evangelho que nos ajuda a entender melhor isto, e aquele trecho do Evangelho será também o “grande protocolo” segundo o qual seremos julgados. É Mateus 25. Com estas duas passagens do Evangelho, das Bem-Aventuranças e do grande protocolo, mostraremos, vivendo isto, a nossa identidade de cristãos. Sem isto não há identidade. Há a ficção de ser cristão, mas não a identidade.”
Assim sendo é urgente resgatarmos a nossa identidade cristã e por sua vez o lugar para viver isso: “O lugar. Aquelas pessoas que vieram aqui para esconder, para estar a salvo, até para enterrar os mortos; e aquelas pessoas que hoje celebram a Eucaristia secretamente, nos países onde isso é proibido… Penso naquela religiosa na Albânia que estava num campo de reeducação, na época comunista, e aos sacerdotes era proibido distribuir os sacramentos, e aquela religiosa batizava secretamente. As pessoas, os cristãos sabiam que aquela religiosa batizava e as mães aproximavam-se dela com os filhos; mas ela não tinha um copo, algo onde colocar a água… Então fazia-o com o sapato: tirava a água do rio e batizava com o sapato. O lugar do cristão está um pouco em toda a parte, não temos um lugar privilegiado na vida. Alguns querem tê-lo, são cristãos “qualificados”. Mas eles correm o risco de ficar com o “qualificados” e abandonar o “cristão”. Qual é o lugar dos cristãos? «As almas dos justos estão nas mãos de Deus» (Sb 3, 1): o lugar do cristão está nas mãos de Deus, onde Ele quiser. O lugar do cristão é na intercessão de Jesus diante do Pai. Nas mãos de Deus. E aí temos a certeza, o que acontece, até a cruz.” E continua o papa: “A nossa identidade diz que seremos abençoados se nos perseguirem, se disserem tudo contra nós; mas se estivermos nas mãos de Deus feridos de amor, estamos certos. Esta é a nossa casa. E hoje podemos perguntar-nos: mas onde me sinto mais seguro? Nas mãos de Deus ou com outras coisas, com outras certezas que “emprestamos” mas que no final decairão, que não têm consistência?”
E por fim: “A esperança. Onde tudo é recriado, aquela pátria onde todos nós iremos. E para entrar lá você não precisa de coisas estranhas, você não precisa de atitudes sofisticadas: você só precisa mostrar sua carteira de identidade.”


Este pobre grita e o senhor o escuta

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É no Salmo 34,7, da Sagrada Escritura, que se encontram estas Palavras: “Este pobre grita e o Senhor o escuta” (Sl 34,7). No entanto, muitas vezes, algumas pessoas são desconfiadas, mesmo que se digam que acreditam em Deus. Mas, por que o Senhor escuta o pobre? Por que é melhor que os outros? Nada disso. Deus escuta o pobre porque ele não tem mais ninguém em quem confiar, em ter ajuda. Acha-se completamente sozinho e abandonado. Então, Deus vai ao encontro desses pobres, porque Ele escuta os seus gritos, os seus clamores, as suas intercessões.

O Deus das Sagradas Escrituras está do lado deles, mas sem excluir ninguém, porque todos são filhos Dele. Como uma mãe ou um pai que se preocupa mais com o filho que tem mais dificuldade, dando-lhe as devidas atenções e ajuda. Assim é o nosso Deus. Desse modo, se Deus faz isso nós, também devemos imita-Lo. A nossa sociedade, infelizmente, gera muita pobreza. Os pobres estão ao nosso lado e muitas vezes nem percebemos isso, ou se percebemos fazemos aquele gesto de caridade e tudo acaba por aí. Dificilmente discutimos o porquê disso e tomamos decisões de como acabar na raiz tudo isso.

Porém, Deus, que tudo vê e escuta, se posiciona do lado deles. Não por acaso Jesus Cristo disse o seguinte: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3). Numa realidade como a nossa, que na maioria das situações coloca a riqueza como principal objetivo, as pessoas se fecham em si mesmas. A partir disso, não conseguem mais compreender além da própria concepção e enxergar além do próprio “nariz”. É interessante notar que Deus escuta e, no entanto, nós não escutamos. E por que Deus escuta? Porque Ele sabe amar, somente amar!

A partir dessa imensa verdade, podemos dizer que a nossa sociedade não sabe amar, porque não ouve o grito dos pobres. Por exemplo, uma economia de um país que não favorece os pobres significa que não os ama, está longe de praticar o exemplo de Deus. Também uma politica que exclui, que não dá prioridade aos pobres, aos últimos, não consegue entender Deus, imita-Lo, embora que possa falar muito Dele ou até reza-Lo. Se a sociedade e a política não são capazes de ouvir os pobres, às vezes, também a Igreja não está isenta disso.

Por isso, o Santo Padre, o papa Francisco, instituiu o Dia Mundial dos Pobres como um firme compromisso da mesma Igreja em estar próximos dos pobres e se solidarizar com eles. Portanto, não é uma opção política essa, mas repito, é uma opção de Deus e que a Igreja procura ser fiel ao seu Deus. A nossa fidelidade a Deus é também a fidelidade aos pobres. O nosso mundo, infelizmente, não escuta os pobres, não está ao lado deles, pelo contrário faz de conta que não existem ou se limitam aos “coitadinhos”, fazendo doações. Tanto é verdade que essa realidade dos pobres não diminui, pelo contrário, está aumentando. Qual é a nossa responsabilidade em tudo isso? O egoísmo, a soberba, a avidez e a injustiça geram a pobreza e nos rende mais pobres diante de Deus.


A igreja não pode ficar cala

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Tenho a impressão de que as incertezas e a autodestruição estão dominando nosso tempo. Tempo de mudanças antropológicas que focam um novo relativismo. Os papas, e sobretudo Bento XVI, denunciaram esse perigo. Um perigo que pode levar às ideologias totalitárias e autoritárias e que, por sua vez, pretendem ser donas da verdade. A nossa Igreja, defensora da verdade em Jesus Cristo, não pode ficar calada perante esse perigo das ideologias totalitárias. Ideologias essas que querem dominar desde o campo religioso até o campo politico e social.

A campanha contra a conduta do Sumo Pontífice, papa Francisco, por exemplo, é sustentada por uma ideologia totalitária, porque o vê como um perigo para os poderosos que, sobretudo, querem celebrar, perpetuar o presente como absoluto, abrindo assim movimentos reacionários. Com essa lógica do presente absoluto, não tem espaço para Deus, pelo menos o Deus que Jesus Cristo nos revela, porque Ele criou a realidade temporal absoluta que vai além do presente, do passado e do futuro. Com essa lógica e realidade de Deus, a vida do ser humano deve ser avaliada na totalidade e, portanto, dar vida a diferenças e manifestações de pessoas.

Nesse sentido, por exemplo, uma economia que não favorece uma solidariedade e fraternidade foge dos tempos de Deus e favorece um presente absoluto que beneficia uns e exclui outros. Também, em nível político, a tendência é privilegiar uns, deixando de lado uma maioria. Perante um cenário desse tipo, a Igreja não pode ficar calada, mas deve proclamar a grande verdade que Deus é o absoluto. Ao Deus que tudo lhe pertence. Um Deus que é Pai e que favorece todos os filhos e filhas, sem excluir ninguém. Uma ideologia do presente absoluto gera divisões, exclusões, materialismo.

Não tem mais espaço para Deus, mas, sim, para um deus que não ouve e não fala. Diria a Palavra de Deus: um deus dos pagãos. Tenho a impressão que no nosso tempo prevalece um deus dos pagãos e o Deus de Jesus Cristo é considerado muito perigoso. Assim sendo, podemos constatar que o aspecto humano esteja muito enfraquecido, justamente porque o Deus verdadeiro se tornou uma experiência de vida do passado ou pelo menos está ausente no momento presente. E a Igreja não pode ficar ausente num cenário como esse. Não pode ficar apartada.

A Igreja tem uma grande responsabilidade de proclamar a Palavra de Deus, de educar, de edificar na fé e da promoção humana. Formar as consciências sócio-políticas dos fiéis, convidando-os a uma nova responsabilidade pessoal ao redor dos valores do evangelho. E perante essa crise que marca o nosso tempo, que é fruto também da passagem da era industrial à era tecnológica, de um mundo fechado nos próprios confins a um mundo globalizado, a Igreja que caminha com o mundo se sente cada vez mais envolvida.

Por tudo isso, a Igreja não pode ficar calada perante concepções antropológicas e políticas inconciliáveis com os pontos de vistas da Palavra de Deus sobre o ser humano e sobre a sociedade. É urgente evitar um ‘presente absoluto’ para valorizar todas as pessoas.

 

 * Sacerdote e doutor em teologia.

E-mail: clpighin@claudio-pighin.net

 

 


Nao sejamos “peixes” na internet

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É verdade, por aquilo que sabemos, não temos garantias de segurança total no uso e privacidade da internet. Somos como uma ‘porta’ que está sempre aberta e qualquer um pode ter acesso, pode entrar. Efetivamente, não existe segurança total, mas é também verdade que se pode evitar sermos ‘peixes na internet’. O cenário que assistimos no mundo é permeado pela nova logica digital que foge dos padrões da comunicação da ‘caneta e papel’. A nova lógica da ‘Rede’ pode ser manipulada por qualquer um, sem controle de ninguém, e divulgada sem restrições de tempo e espaço. Sendo assim, que controle pode ter uma comunicação on-line? Não só, como se pode também guardar com segurança e sem limites de tempo uma comunicação digital?

Em primeiro lugar, é necessário conhecer a origem da internet. Nasceu, na verdade, para ser um sistema de partilhar informações. Portanto, não para ser uma venda de produtos etc., e, assim, uma comunicação com limites definidos. E a lógica da escrita, do papel, desaparece neste campo digital. Por exemplo, aquilo que você escreve em seu caderno é seu e dificilmente os outros podem compartilhar, ao máximo as pessoas que lhes estão perto, e essas não são muitas. No entanto, aquilo que você escreve na internet, na rede, é exposto ao mundo todo e sem poder de controle. Uma vez que foi lançada a sua mensagem na rede está fora dos seus comandos. Assim sendo, quando se usa esse tipo de comunicação digital, precisamos ter muito bom senso para não ter depois surpresas desagradáveis e perigosas.

De fato, essas surpresas traumatizam uma infinidade de pessoas, deixando-as sem rumo e perdidas. Aumentam a desconfiança e as certezas adquiridas no passado. Pode ver, tanto no campo religioso e sócio-político, se põe tudo em discussão. Perderam-se as estabilidades. O que fazer para se opor a tudo isso? Creio que uma boa medida é ler atentamente o que aparece ou aquilo que se quer escrever on-line. Isto é, devo pensar aos meus destinatários e seus contextos e as possíveis consequências que poderão resultar. Um bom senso é nos fazer constantemente perguntas sobre tudo isso. Outro problema sério é sobre as questões dos e-mails, WhatsApp, Facebook, Instagram e outros. Aqui também a ignorância predomina.
Somos um universo de ingênuos. Por tudo isso, precisamos ter uma preparação para enfrentar o ‘Web’. No ‘Web’ tudo é sem sabor, sem cheiro e intangível. Se formos analisar a evolução humana, percebe-se que aconteceu na base da curiosidade e do medo. No entanto, hoje o medo desapareceu. Assim sendo, precisamos cada vez mais de bom senso para reconhecer os perigos que temos na internet. Sobretudo a partir dos mecanismos psicológicos. Foi através desses mecanismos que a rede destruiu a democracia representativa. Alimentou o ódio, o desgosto, insatisfação e a decepção. Muitas vezes deu voz aos ‘imbecis’ como falou o famoso semiólogo Umberto Eco. Não facilitou uma boa concentração e reflexão. E sobretudo estimulou o narcisismo, fonte de males para a nossa convivência.