Mensagem de sua santidadeo papa franciscopara o dia mundial das missões de 2018

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(…)Todo o homem e mulher é uma missão, e esta é a razão pela qual se encontra a viver na terra. Ser atraídos e ser enviados são os dois movimentos que o nosso coração, sobretudo quando é jovem em idade, sente como forças interiores do amor que prometem futuro e impelem a nossa existência para a frente. Ninguém, como os jovens, sente quanto irrompe a vida e atrai. Viver com alegria a própria responsabilidade pelo mundo é um grande desafio. (…)

A Igreja, ao anunciar aquilo que gratuitamente recebeu (cf. Mt 10, 8; At 3, 6), pode partilhar convosco, queridos jovens, o caminho e a verdade que conduzem ao sentido do viver nesta terra. Jesus Cristo, morto e ressuscitado por nós, oferece-Se à nossa liberdade e desafia-a a procurar, descobrir e anunciar este sentido verdadeiro e pleno. Queridos jovens, não tenhais medo de Cristo e da sua Igreja! Neles, está o tesouro que enche a vida de alegria. Digo-vos isto por experiência: graças à fé, encontrei o fundamento dos meus sonhos e a força para os realizar. Vi muitos sofrimentos, muita pobreza desfigurar o rosto de tantos irmãos e irmãs. E todavia, para quem está com Jesus, o mal é um desafio a amar cada vez mais. Muitos homens e mulheres, muitos jovens entregaram-se generosamente, às vezes até ao martírio, por amor do Evangelho ao serviço dos irmãos. A partir da cruz de Jesus, aprendemos a lógica divina da oferta de nós mesmos (cf. 1 Cor1, 17-25) como anúncio do Evangelho para a vida do mundo (cf. Jo 3, 16). Ser inflamados pelo amor de Cristo consome quem arde e faz crescer, ilumina e aquece a quem se ama (cf. 2 Cor 5, 14). Na escola dos santos, que nos abrem para os vastos horizontes de Deus, convido-vos a perguntar a vós mesmos em cada circunstância: «Que faria Cristo no meu lugar?»
(…) Na convivência das várias idades da vida, a missão da Igreja constrói pontes intergeracionais, nas quais a fé em Deus e o amor ao próximo constituem fatores de profunda união.

Por isso, esta transmissão da fé, coração da missão da Igreja, verifica-se através do «contágio» do amor, onde a alegria e o entusiasmo expressam o sentido reencontrado e a plenitude da vida. A propagação da fé por atração requer corações abertos, dilatados pelo amor. Ao amor, não se pode colocar limites: forte como a morte é o amor (cf. Ct 8, 6). E tal expansão gera o encontro, o testemunho, o anúncio; gera a partilha na caridade com todos aqueles que, longe da fé, se mostram indiferentes e, às vezes, impugnadores e contrários à mesma.

Ambientes humanos, culturais e religiosos ainda alheios ao Evangelho de Jesus e à presença sacramental da Igreja constituem as periferias extremas, os «últimos confins da terra», aos quais, desde a Páscoa de Jesus, são enviados os seus discípulos missionários, na certeza de terem sempre com eles o seu Senhor. Nisto consiste o que designamos por missio ad gentes. A periferia mais desolada da humanidade carente de Cristo é a indiferença à fé ou mesmo o ódio contra a plenitude divina da vida. Toda a pobreza material e espiritual, toda a discriminação de irmãos e irmãs é sempre consequência da recusa de Deus e do seu amor.

Hoje para vós, queridos jovens, os últimos confins da terra são muito relativos e sempre facilmente «navegáveis». O mundo digital, as redes sociais, que nos envolvem e entrecruzam, diluem fronteiras, cancelam margens e distâncias, reduzem as diferenças. Tudo parece estar ao alcance da mão: tudo tão próximo e imediato… E todavia, sem o dom que inclua as nossas vidas, poderemos ter miríades de contatos, mas nunca estaremos imersos numa verdadeira comunhão de vida. A missão até aos últimos confins da terra requer o dom de nós próprios na vocação que nos foi dada por Aquele que nos colocou nesta terra. Atrevo-me a dizer que, para um jovem que quer seguir Cristo, o essencial é a busca e a adesão à sua vocação.

(…) Muitos jovens encontram, no voluntariado missionário, uma forma para servir os «mais pequenos», promovendo a dignidade humana e testemunhando a alegria de amar e ser cristão. Estas experiências eclesiais fazem com que a formação de cada um não seja apenas preparação para o seu bom-êxito profissional, mas desenvolva e cuide um dom do Senhor para melhor servir aos outros. Estas louváveis formas de serviço missionário temporâneo são um começo fecundo e, no discernimento vocacional, podem ajudar-vos a decidir pelo dom total de vós mesmos como missionários.
(…) Apraz-me repetir a exortação que dirigi aos jovens chilenos: «Nunca penses que não tens nada para dar, ou que não precisas de ninguém. Muita gente precisa de ti. Pensa nisso! Cada um de vós pense nisto no seu coração: muita gente precisa de mim» (Encontro com os jovens, Santiago – Santuário de Maipú, 17/I/2018).

(…) A Maria, Rainha dos Apóstolos, ao Santos Francisco Xavier e Teresa do Menino Jesus, ao Beato Paulo Manna, peço que intercedam por todos nós e sempre nos acompanhem.

Vaticano, 20 de maio de 2018
FRANCISCO


Louvarei o senhor de todo o coração

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Lendo o salmo 110 das Sagradas Escrituras me lembrei do Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis. Transcrevo aqui somente estes versículos, para melhor entender. São Francisco reconhece a grandeza de Deus e, portanto, precisa louva-La e reconhece-La. “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão Sol, que clareia o dia e que, com a sua luz, nos ilumina. Ele é belo e radiante, com grande esplendor; de Ti, Altíssimo, é a imagem. (…) Louvai todos e bendizei o meu Senhor! Dai-Lhe graças e servi-O com grande humildade!” É um convite para todos nós a vivermos essa verdade. Agora leia atentamente o salmo.

“Aleluia. Louvarei o Senhor de todo o coração, na assembleia dos justos e em seu conselho. Grandes são as obras do Senhor, dignas de admiração de todos os que as amam. Sua obra é toda ela majestade e magnificência. E eterna a sua justiça. Memoráveis são suas obras maravilhosas; o Senhor é clemente e misericordioso.

Aos que o temem deu-lhes o sustento; lembrar-se-á eternamente da sua aliança. Mostrou ao seu povo o poder de suas obras, dando-lhe a herança das nações pagãs. As obras de suas mãos são verdade e justiça, imutáveis os seus preceitos, irrevogáveis pelos séculos eternos, instituídos com justiça e equidade.

Enviou a seu povo a redenção, concluiu com ele uma aliança eterna. Santo e venerável é o seu nome. O temor do Senhor é o começo da sabedoria; sábios são aqueles que o adoram. Sua glória subsiste eternamente.”

O salmo inicia com ‘Aleluia’ e logo em seguida descreve a celebração da ação de Deus na história da salvação. Uma presença de Deus feita de grandes obras que chamam a atenção da humanidade que o ama. Aqui, encontra-se, na verdade, a revelação de Deus através da aliança com o seu povo Israel: desde o êxodo até o Sinai. Tudo caracterizado por obras, justiça, grandes prodígios, a aliança, o direito, a redenção, a piedade, a compaixão de Deus; no entanto, Israel responde com a fé e a celebração litúrgica. O grande memorial. Nesse sentido, reconheço que os nossos irmãos mais velhos, os judeus, nos ensinam a importância de viver a memória do passado no presente.

Hoje se sou aquilo que sou é também mérito daquele passado que caracterizou a história do presente. Assim, é evidente o meu louvor. Para que tudo isso aconteça é preciso ama-Lo, reconhece-Lo qual protagonista da nossa história. O desenho universal de Deus para a nossa salvação, de toda a humanidade, não acontece de maneira somente secreta, isto é, no espírito dos homens. E, sobretudo, para nós, cristãos, Deus decidiu enviar na história o seu Filho assumindo a nossa realidade de carne. O Deus ‘Santo e terrível’ está entre nós e se revela a todos nós com o dom da ‘Aliança’, da fidelidade e da redenção.

E daqui nasce o hino de louvor do fiel e aquele ‘Aleluia’ alegre que se manifesta na oração de louvor. Com essa dimensão de reconhecimento, permite-os enaltecer a própria vida e ter horizontes sem fim. Por fim, o papa Francisco falou na homilia durante missa na capela Santa Marta do dia 05.02.2018, reportada pelo ‘Osservatore Romano’. “O povo levava consigo a própria história, a memória da eleição, a memória da promessa e a memória da aliança. E com esta carga de memória aproximava-se do templo. Não só: o povo, acrescentou Francisco, levava também «a nudez da aliança», isto é, simplesmente as duas tábulas de pedra, nua, assim como tinha sido de Deus e não como a tinham aprendido dos escribas, que a “barroquizaram” com tantas prescrições. Aquele era o seu tesouro: a aliança nua: amo-te, amas-me. O primeiro mandamento, amar a Deus; segundo, amar o próximo. Nua”.

Depois, continuou o Pontífice, “com aquela memória de eleição, da promessa e da aliança, o povo sobe e leva a aliança. Ao chegar em cima quando eram todos idosos, levaram a arca, introduziram a arca no santuário e na arca nada havia exceto as duas tábulas de pedra. Eis a «nudez da aliança». E no excerto bíblico lê-se que quando os sacerdotes saíram, a nuvem encheu o templo do Senhor. Era a glória do Senhor que fazia morada no templo. Naquele momento, explicou o Papa, o povo entrou em adoração, passando da memória para a adoração, caminhando em subida. Assim começou a adoração em silêncio. Eis o percurso realizado pelos Israelitas: dos sacrifícios que faziam no caminho em subida, ao silêncio, à humilhação da adoração. E àquela experiência na qual se antecipa a vida no céu, acrescentou, só podemos chegar com a memória de termos sido eleitos, de ter dentro do coração uma promessa que nos impele a ir, com a aliança na mão e no coração”.

FELIZ CÍRIO


Oráculo do senhor ao meu senhor

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Lembro-me de que, nos anos 1980, quando visitei o presidio de Macapá, encontrei um detento jovem e muito educado. Ele estava preso por um crime que dizia não ter cometido. Lembro, como fosse hoje, ele sentado no chão da cela e com a Bíblia na mão. Eu em frente da grade que o custodiava. Então, iniciei o diálogo, perguntando-lhe como estava. Ele me respondeu de imediato que somente aquela Sagrada Escritura que estava meditando lhe estava dando coragem de suportar tanta dor, por estar atrás das grades. Ele me dizia: “Essa Palavra me está confortando, padre, me dá força de aguentar tanta humilhação e injustiça. Porém, eu acredito que Deus vai me tirar daqui, desse inferno”. Fiquei meditando como esse jovem encontrou uma resposta de esperança naquela situação de dor. A sua humanidade ferida era sanada pela Palavra de Deus. Nesse sentido, te convido a ler atentamente o salmo 109 das Sagradas Escrituras:

“Eis o oráculo do Senhor que se dirige a meu senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu faça de teus inimigos o escabelo de teus pés. 2. O Senhor estenderá desde Sião teu cetro poderoso: Dominarás, disse ele, até no meio de teus inimigos. 3. No dia de teu nascimento, já possuis a realeza no esplendor da santidade; semelhante ao orvalho, eu te gerei antes da aurora. 4. O Senhor jurou e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedec. “O Senhor está à tua direita: ele destruirá os reis no dia de sua cólera. 6. Julgará os povos pagãos, empilhará cadáveres; por toda a terra esmagará cabeças. 7. Beberá da torrente no caminho; por isso, erguerá a sua fronte.”

Agora vamos tentar entende melhor. Só para ter uma ideia, o Novo Testamento usou várias vezes os versículos 1 e 4 para Jesus, transformando desse jeito em um texto, assim chamado, messiânico, isto é, ao Messias o Salvador. Perante o tribunal judaico, Jesus responde misturando uma passagem de Daniel, 7,13, e com o primeiro versículo desse salmo: “Eu vos declaro que vereis doravante o Filho do Homem sentar-se à direita do Todo-poderoso, e voltar sobre as nuvens do céu (Mt 26, 64)”.

Esse salmo se divide em duas partes. A primeira parte, versículos de 1 a 3, apresenta-nos um oráculo real encaminhado por Deus ao rei. Nisso se proclama a entronização do rei judaico à ‘direita’ de Deus, que isto pode indicar tanto a direita da arca, quanto da dignidade do rei como representante de Deus. A segunda parte do salmo, versículos de 4 a 7, contem um oráculo sacerdotal. Por que isso? Como garantia de um solene juramento divino, assim aquela dignidade real mencionada na primeira parte seria acrescentada por aquela sacerdotal.

Nesse salmo, a referência a Melquisedec, rei e sacerdote de Salem, a antiga Jerusalém, é talvez um meio para justificar o sacerdócio do rei junto aquele oficial do Templo, ligado a Arão e Sadok. Portanto, depois que o rei foi consagrado, em hebraico ‘messias’, faz uma marcha triunfal pelo mundo. Segundo a Tradição da nossa Igreja discerniu, nesse Salmo, os temas fundamentais da história da Salvação, quais da chegada do Reino de Deus, nos versículos de 1 a 3; ao nascimento de Cristo e à sua divindade, no versículo 3; do seu combate contra o poder do mal, nos versículos 5 a 6; alusão à sua paixão, morte e ressurreição, no versículo 7; da sua ascensão e glorificação à direita de Deus, versículo 1; ao seu sacerdócio eterno, versículo 4. E no decurso do ano litúrgico, este salmo nos conduz para o caminho pascal de Cristo.

Este percurso, para a Igreja que contempla neste salmo, discerne os mistérios da história salvação que, através os reis, os sacerdotes e os profetas do Antigo Testamento, se encontram em Cristo rei, sacerdote e profeta. O papa Francisco na capela de S. Marta, no dia 10.06.2016, disse: «Devemos procurar sempre o Senhor: todos nós sabemos como são os maus momentos, momentos que te fazem desanimar, sem fé, obscuros, nos quais não vemos o horizonte, não somos capazes de nos erguer, todos o sabemos!». Mas «é o Senhor que vem, nos restabelece com o pão e com a sua força e nos diz “levanta-te e vai em frente, caminha!”». Por isso, «para encontrar o Senhor devemos estar assim: de pé e a caminho»; depois «esperar que ele fale: coração aberto». E ele nos dirá “sou eu”; e nesse momento a fé fortalece-se». Mas a fé «é para mim, para que eu a guarde?Não, deve ser levada a outros, para ungir os outros, para a missão». Por conseguinte, «de pé e a caminho; em silêncio para encontrar o Senhor; e em missão para levar esta mensagem, esta vida aos outros».


Deus do meu louvor, não fique calado!

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O salmo 108 das Sagradas Escrituras é “o salmo-maldição”, “uma ladainha de imprecações”, “um poema mais estranho e discutido do Saltério” e se diz também “que seria melhor tira-lo do Saltério”. É um salmo debatido pelos exegetas cristãos, estudiosos das Sagradas Escrituras. Também o Concilio Vaticano II cancelou este salmo da lista do Saltério Litúrgico. Parece um salmo não tão fácil para se entender. Leia atentamente:

“Ó Deus de meu louvor, não fiqueis insensível, porque contra mim se abriu boca ímpia e pérfida. Falaram-me com palavras mentirosas, com discursos odiosos me envolveram; e sem motivo me atacaram. Em resposta ao meu afeto me acusaram. Eu, porém, orava. Pagaram-me o bem com o mal, e o amor com o ódio. Suscitai contra ele um ímpio, levante-se à sua direita um acusador. Quando o julgarem, saia condenado, e sem efeito o seu recurso. Sejam abreviados os seus dias, tome outro o seu encargo. Fiquem órfãos os seus filhos, e viúva a sua esposa. Andem errantes e mendigos os seus filhos, expulsos de suas casas devastadas. Arrebate o credor todos os seus bens, estrangeiros pilhem o fruto de seu trabalho. Ninguém lhes tenha misericórdia, nem haja quem se condoa de seus órfãos. Exterminada seja a sua descendência, extinga-se o seu nome desde a segunda geração. Conserve o Senhor a lembrança da culpa de seus pais, jamais se apague o pecado de sua mãe. Deus os tenha sempre presentes na memória, e risque-se da terra a sua lembrança, porque jamais pensou em ter misericórdia, mas perseguiu o pobre e desvalido e teve ódio mortal ao homem de coração abatido. Amou a maldição: que ela caia sobre ele! Recusou a bênção: que ela o abandone! Seja coberto de maldição como de um manto, que ela penetre em suas entranhas como água e se infiltre em seus ossos como óleo. Seja-lhe como a veste que o cobre, como um cinto que o cinja para sempre. Esta, a paga do Senhor àqueles que me acusam e que só dizem mal de mim. Mas vós, Senhor Deus, tratai-me segundo a honra de vosso nome. Salvai-me em nome de vossa benigna misericórdia, porque sou pobre e miserável; trago, dentro de mim, um coração ferido. Vou-me extinguindo como a sombra da tarde que declina, sou levado para longe como o gafanhoto. Vacilam-me os joelhos à força de jejuar, e meu corpo se definha de magreza. Fizeram-me objeto de escárnio, abanam a cabeça ao me ver. Ajudai-me, Senhor, meu Deus. Salvai-me segundo a vossa misericórdia. Que reconheçam aqui a vossa mão, e saibam que fostes vós que assim fizestes. Enquanto amaldiçoam, abençoai-me. Sejam confundidos os que se insurgem contra mim, e que vosso servo seja cumulado de alegria. Cubram-se de ignomínia meus detratores, e envolvam-se de vergonha como de um manto. Celebrarei altamente o Senhor, e o louvarei em meio à multidão, porque ele se pôs à direita do pobre, para o salvar dos que o condenam.”

Este salmo é, na verdade, o testemunho da encarnação da palavra de Deus nas vibrações e emoções humanas dos conflitos e ações de desespero. Aqui é descrita uma forte lamentação de um fiel inocente perante ao tribunal supremo de Deus, no Templo, porque é perseguido e caluniado. Nesta intercessão, manifesta-se a maldição que se preenche de vinte imprecações. Em que consiste tudo isso? O acusado pede a Deus para que essas calúnias e perseguições recaiam todas sobre os seus adversários de modo que possa resplandecer a sua inocência. Um salmo carregado de vingança e de humores primitivos. Perante a constatação que parece um Deus mudo e de outro lado os maus que ameaçam a vida dos justos, a reação do autor dessa oração é confiar em Deus que os condene severamente.

Para compreender esse tipo de salmo bem ‘vingativo’ é necessário recorrer à estrutura do estilo semita que é ligada à exasperação dos sentimentos e da mesma linguagem simbólica. Não se deve ignorar que as maldições, como se encontram nos rituais mesopotâmicos, pertencem a estereótipos rituais e de cultos ligados, entre tantos, a juízos de Deus. A palavra aqui se torna força de reclamação e também confiança na intervenção de Deus. Além do mais, por trás dos inimigos se esconde uma personificação do mal na sociedade.

Assim sendo, a imprecação contra o mal é uma maneira de participar da luta contra o mal até no fim dos tempos. Vale a pena acrescentar aqui também aquela teoria retribuída que é vista como uma forma de justiça distribuída a todos. E enfim se deve ainda considerar a encarnação da palavra de Deus na vida histórica e cultural do ser humano para transforma-lo e enriquece-lo. Portanto, somos convidados a discernir nessa progressão escatológica da Revelação que nos leva para o eterno e a paz.


Meu coração está firme, ó Deus!

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Na angustia, Israel levanta esse hino ao seu Deus. Um hino poético-litúrgico que manifesta toda a confiança ao Senhor, rei de todos os povos. O salmo 107, das Sagradas Escrituras, é um clamor de reconhecimento e partilha da potência de Deus. Leia atentamente o encanto dessa oração.

“Meu coração está firme, ó Deus, meu coração está firme; vou cantar e salmodiar. Desperta-te, ó minha alma; 3. despertai-vos, harpa e cítara; quero acordar a aurora. 4. Entre os povos, Senhor, vos louvarei; salmodiarei a vós entre as nações, porque acima dos céus se eleva a vossa misericórdia, e até as nuvens a vossa fidelidade. 6. Resplandecei, ó Deus, nas alturas dos céus, e brilhe a vossa glória sobre a terra inteira. 7. Para ficarem livres vossos amigos, ajudai-nos com vossa mão, ouvi-nos. 8. Deus falou no seu santuário: Triunfarei, e me apoderarei de Siquém, medirei com o cordel o vale de Sucot. 9. Minha é a terra de Galaad, minha a de Manassés; Efraim será o elmo de minha cabeça; Judá, o meu cetro; 10. Moab, a bacia em que me lavo. Sobre Edom porei minhas sandálias, cantarei vitória sobre a Filistéia. 11. Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me levará até Edom? 12. Quem, senão vós, Senhor, que nos repelistes, e já não andais à frente dos nossos exércitos?” “Dai-nos auxílio contra o inimigo, porque é vão qualquer socorro humano. 14. Com Deus faremos proezas, ele esmagará os nossos inimigos.”

Israel não pode ficar sem Ywhè (Deus) e, portanto, o busca de todo coração. Sem Deus, se sente perdido e, por isso, no versículo 12, diz o seguinte: “Quem, senão vós, Senhor, que nos repelistes, e já não andais à frente dos nossos exércitos?” E Deus responde lá no seu Santuário dizendo que triunfará em toda a Palestina, desde Siquém até o vale de Sucot em Transjordânia, das regiões de Galaad e Manassés àquelas de Efraim e Judá até aos territórios de Moab, Edom e Filisteia. A Palavra de Deus se torna uma fonte de segurança e de esperança para Israel.

Assim sendo, começa o dia com um canto de louvor e salmodiando: “Desperta-te, ó minha alma; despertai-vos, harpa e cítara; quero acordar a aurora.” Isto significa que a previsão da Palavra de Deus se torna realidade, verdade; Israel vai readquirir a liberdade próprio entre os confins da terra prometida. O salmo termina com uma antífona cheia de esperança, segura à eficácia da Palavra divina: “Com Deus faremos proezas”. Com tudo isso, nós aprendemos que tendo a certeza que Deus reina no mundo todo e na mesma história da humanidade nos revigora nos nossos compromissos e atividades humanas em nunca desanimar e ter sempre a fronte erguida para enfrentar os problemas do cotidiano.
A respeito disso, o papa Francisco falou no dia 13 de novembro 2016 o seguinte: “Quantas supostas certezas da nossa vida pensávamos que fossem definitivas e, depois, se revelaram efêmeras! Por outro lado, quantos problemas nos pareceram sem saída e depois foram superados”. Francisco recordou que Jesus pede para não se deixar atemorizar e desorientar por “guerras, revoluções e calamidades”, porque “elas também fazem parte da realidade deste mundo”.

“A história da Igreja é rica de exemplos de pessoas que viveram tribulações e sofrimentos terríveis com serenidade, porque tinham a consciência de estar firmemente nas mãos de Deus”. Continua o papa Francisco, Deus “é um Pai fiel e cuidadoso que jamais abandona os seus filhos, permanecer firmes no Senhor, caminhar na esperança, trabalhar para construir um mundo melhor, apesar das dificuldades e os fatos tristes que marcam a existência pessoal e coletiva é o que conta realmente”.

Sempre o papa Francisco, no final do jubileu da Misericórdia: “De um lado, o Ano Santo nos solicitou a manter fixo o olhar na realização do Reino de Deus; de outro, a construir o futuro nesta terra, trabalhando para evangelizar o presente”. Enfim, termina o pontífice: “Na mente e no coração a certeza de que Deus conduz a nossa história e conhece o fim último das coisas e dos acontecimentos”.

É esta experiência de um Deus presente na vida que nos sustenta ao longo da nossa caminhada da vida, nos permite de enfrentar o nosso dia a dia com uma mentalidade firme e forte e muita esperançosa. Então, o nosso Deus, encarnado entre nós, é o verdadeiro aliado que nos permite discernir a verdadeira vida.


Louvai o Senhor, porque ele é bom!

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O salmo 106 das Sagradas Escrituras é dividido por uma solene abertura litúrgica; logo em seguida, encontramos um maravilhoso canto de agradecimento articulado, por sua vez, em quatro obrigados, ex-voto e, por fim, um final de agradecimento a Deus por tudo aquilo que fez para realizar a história de salvação.

“Aleluia. Louvai o Senhor, porque ele é bom. Porque eterna é a sua misericórdia. Assim o dizem aqueles que o Senhor resgatou, aqueles que ele livrou das mãos do opressor, assim como os que congregou de todos os países, do oriente e do ocidente, do Norte e do Sul. Erravam na solidão do deserto, sem encontrar caminho de cidade habitável. Consumidos de fome e de sede, sentiam desfalecer-lhes a vida. Em sua angústia, clamaram então para o Senhor, ele os livrou de suas tribulações e os conduziu pelo bom caminho, para chegarem a uma cidade habitável. Agradeçam ao Senhor por sua bondade, e por suas grandes obras em favor dos homens, porque dessedentou a garganta sequiosa, e cumulou de bens a que tinha fome.

Outros estavam nas trevas e na sombra da morte, prisioneiros na miséria e em ferros, por se haverem revoltado contra as ordens de Deus e terem desprezado os desígnios do Altíssimo. Pelo sofrimento lhes humilhara o coração, sucumbiam sem que ninguém os socorresse. Em sua angústia, clamaram então para o Senhor, e ele os livrou de suas tribulações. Tirou-os das trevas e da sombra da morte, quebrou-lhes os grilhões. Agradeçam ao Senhor por sua bondade, e por suas grandes obras em favor dos homens. Ele arrombou as portas de bronze, e despedaçou os ferrolhos de ferro. Outros, enfermos por causa de seu mau proceder, eram feridos por causa de seus pecados. Todo alimento lhes causava náuseas, chegaram às portas da morte. Em sua angústia clamaram então para o Senhor; ele os livrou de suas tribulações. Enviou a sua palavra para os curar, para os arrancar da morte. Agradeçam ao Senhor por sua bondade, e por suas grandes obras em favor dos homens. Ofereçam sacrifícios de ação de graças, e proclamem alegremente as suas obras. Os que se fizeram ao mar, para trafegar nas muitas águas, foram testemunhas das obras do Senhor e de suas maravilhas no alto-mar. Sua palavra levantou tremendo vento, que impeliu para o alto as suas ondas. Subiam até os céus, desciam aos abismos, suas almas definhavam em angústias. Titubeavam e cambaleavam como ébrios, e toda a sua perícia se esvaiu.

Em sua agonia clamaram então ao Senhor, e ele os livrou da tribulação. Transformou a procela em leve brisa, e as ondas do mar silenciaram. E se alegraram porque elas amainaram, e os conduziu ao desejado porto. Agradeçam eles ao Senhor por sua bondade, e por suas grandes obras em favor dos homens. Celebrem-no na assembleia do povo, e o louvem no conselho dos anciãos. Transformou rios em deserto, e fontes de água em terra árida. Converteu o solo fértil em salinas, por causa da malícia de seus habitantes. Mudou o deserto em lençol de água, e a terra árida em abundantes fontes. (…) À vista disso os justos se alegram, e toda a maldade deve fechar a boca. Quem é sábio para julgar estas coisas e compreender as misericórdias do Senhor?”

Quais são, portanto, os ex votos descritos no salmo? O primeiro ex-voto é de um viajante que, com uma caravana, se tinha aventurado nas arriscadas pistas do deserto (vv. 4-9). Ele com fome, com sede e exausto tinha sido orientado por Deus no caminho certo, em direção de uma cidade. O segundo ex-voto é proclamado por um preso. Das trevas e da sombra da morte, quebrou-lhes os grilhões a bondade do Senhor, e por suas grandes obras em favor dos homens Ele arrombou as portas de bronze, e despedaçou os ferrolhos de ferro. O terceiro ex-voto é de um enfermo. A doença física, na perspectiva do Antigo Testamento da retribuição, é uma consequência do pecado. Clamando então para o Senhor, Ele o livrou de suas tribulações, arrancando-o da morte.

O quarto e último ex-voto é aquele de um marinheiro. Perante a tempestade do mar, eles titubeavam e cambaleavam como ébrios. Em sua agonia, clamaram então ao Senhor, e ele os livrou da tribulação. Transformou a procela em leve brisa, e as ondas do mar silenciaram. É um salmo de agradecimento de todo Israel, peregrino no deserto, prisioneiro, doente pelos seus pecados e perturbado pelas tempestades da história, porque é libertado pelo seu Deus. A conclusão é focada sobre quem é o verdadeiro sábio. Ele é aquele que sabe perscrutar os meandros da história para poder compreender a presença fiel de Deus. Tudo o que acontece na vida do ser humano é visto a partir de como Deus faz prevalecer o seu amor.


Louvai o Senhor porque ele é bom

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O salmo 105, das Sagradas Escrituras, devido sua extensão, deixei de transcrever a última parte, conta-nos a história de Israel, focando a parte da sua infidelidade. Leia atentamente.

“Aleluia. Louvai o Senhor porque ele é bom, porque a sua misericórdia é eterna. Quem contará os poderosos feitos do Senhor? Quem poderá apregoar os seus louvores? Felizes aqueles que observam os preceitos, aqueles que, em todo o tempo, fazem o que é reto. Lembrai-vos de mim, Senhor, pela benevolência que tendes com o vosso povo. Assisti-me com o vosso socorro, para que eu prove a felicidade de vossos eleitos, compartilhe do júbilo de vosso povo e me glorie com os que constituem vossa herança. Como nossos pais, nós também pecamos, cometemos a iniquidade, praticamos o mal. Nossos pais, no Egito, não prezaram os vossos milagres, esqueceram a multidão de vossos benefícios e se revoltaram contra o Altíssimo no mar Vermelho. Mas ele os poupou para a honra de seu nome, para tornar patente o seu poder. Ameaçou o mar e ele se tornou seco, e os conduziu por entre as ondas como através de um deserto. Livrou-os das mãos daquele que os odiava, e os salvou do poder inimigo. As águas recobriram seus adversários, nenhum deles escapou. Então acreditaram em sua palavra, e cantaram os seus louvores. Depressa, porém, esqueceram suas obras, e não confiaram em seus desígnios. Entregaram-se à concupiscência no deserto, e tentaram a Deus na solidão. Ele lhes concedeu o que pediam, mas os feriu de um mal mortal. Em seus acampamentos invejaram Moisés e Aarão, o eleito do Senhor. Abriu-se a terra e tragou Datã, e sepultou os sequazes de Abiron. Um fogo devassou as suas tropas e as chamas consumiram os ímpios. Fabricaram um bezerro de ouro no sopé do Horeb, e adoraram um ídolo de ouro fundido. Eles trocaram a sua glória pela estátua de um touro que come feno. Esqueceram a Deus que os salvara, que obrara prodígios no Egito, maravilhas na terra de Cam, estupendos feitos no mar Vermelho. Já cogitava em exterminá-los se Moisés, seu eleito, não intercedesse junto dele para impedir que sua cólera os destruísse. Depois, eles desprezaram uma terra de delícias, desconfiados de sua palavra. (…).”
O salmo inicia mostrando a iniquidade e o mal praticado pelo povo. Depois passa pelo deserto, onde a fome provoca rebeliões e desconfiança nos desígnios de Deus. Assim, o Senhor intervém fornecendo o maná e as codornizes. Logo em seguida, a terra tragou Datã e sepultou os sequazes de Abiron e a fabricação do bezerro de ouro no Horeb e sua adoração por parte do povo escolhido. O povo, neste caso, se torna idolátrico, uma blasfema contra o seu Deus. Depois disso, descreve, o autor do hino, a murmuração de Israel como um resumo de toda a infidelidade do povo e, ao mesmo tempo, rejeita seriamente o pecado ligado aos cultos de fertilidade realizados no santuário pagã de Baal Peor (vv28-31).

Além do mais, a incredulidade perante as águas de Meribá e outras infidelidades na terra prometida demonstram o quanto este povo foi rebelde e de cabeça dura. Eu acho que aquela história se repete ainda hoje: quanta dureza no nosso coração e, assim, nos afastamos do nosso Deus que faz contínuos prodígios entre nós. Dito isto, podemos notar uma constante em todas essas reflexões do salmo em que existe um binômio da retribuição bíblica: ‘delito-castigo’. Além desse, acompanha também outro binômio positivo da ‘conversão-perdão’. Isto representa a história da salvação que não para, é sempre ativa.

Sendo assim, se reconfirma a esperança de salvação não obstante todas as dificuldades da vida humana e as tortuosidades dos seus caminhos bem amargos. O autor do salmo mostra, deste modo, que a última palavra de Deus não é aquela do julgamento e da condenação, mas do perdão e à chamada da conversão. De tal modo, expressa-se um olhar caridoso de Deus e que tem muita compaixão do seu povo. Um Deus que abre perante o pecador arrependido o nascimento de um novo dia que não terá fim.

O papa Francisco falou na sua homilia em S. Marta-Vaticano – 30.10.15: “Deus tem compaixão. Tem compaixão por cada um de nós, tem compaixão da humanidade e mandou seu Filho para curá-la, para regenerá-la, para renová-la… Deus tem compaixão. Deus coloca o seu coração de Pai, coloca o seu coração por cada um de nós. E quando Deus perdoa, perdoa como um Pai e não como um funcionário do tribunal, que lê a sentença e diz: ‘Absolvido por insuficiência de provas’. Nos perdoa por dentro. Perdoa porque se colocou no coração desta pessoa”.


Celebrai o senhor, aclamai o seu nome!

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O salmo 104, das Sagradas Escrituras, apresenta a história de salvação que Israel canta na liturgia. É um salmo bem resplandecente e pleno de confiança na ação redentora de Deus. É um hino que revela toda a sua rejeição ao pecado que prejudica a vida. É, em síntese, uma exaltação da história de salvação de Israel.

“Aleluia. Celebrai o Senhor, aclamai o seu nome, apregoai entre as nações as suas obras. Cantai-lhe hinos e cânticos, anunciai todas as suas maravilhas. Gloriai-vos do seu santo nome; rejubile o coração dos que procuram o Senhor. Recorrei ao Senhor e ao seu poder, procurai continuamente sua face.

Recordai as maravilhas que operou, seus prodígios e julgamentos por seus lábios proferidos, ó descendência de Abraão, seu servidor, ó filhos de Jacó, seus escolhidos! É ele o Senhor, nosso Deus; suas sentenças comandam a terra inteira. Ele se lembra eternamente de sua aliança, da palavra que empenhou a mil gerações, que garantiu a Abraão, e jurou a Isaac, e confirmou a Jacó irrevogavelmente, e a Israel como aliança eterna, quando disse: Dar-te-ei a terra de Canaã, como parte de vossa herança. Quando não passavam de um reduzido número, minoria insignificante e estrangeiros na terra, e andavam errantes de nação em nação, de reino em reino, não permitiu que os oprimissem, e castigou a reis por causa deles. Não ouseis tocar nos que me são consagrados, nem maltratar os meus profetas. E chamou a fome sobre a terra, e os privou do pão que os sustentava. Diante deles enviara um homem: José, que fora vendido como escravo. Apertaram-lhe os pés entre grilhões, com cadeias cingiram-lhe o pescoço, até que se cumpriu a profecia, e o justificou a palavra de Deus. Então o rei ordenou que o soltassem, o soberano de povos o livrou, e o nomeou senhor de sua casa e governador de seus domínios, para, a seu bel-prazer, dar ordens a seus príncipes, e a seus anciãos, lições de sabedoria. Então Israel penetrou no Egito, Jacó foi viver na terra de Cam. Deus multiplicou grandemente o seu povo, e o tornou mais forte que seus inimigos. Depois, de tal modo lhes mudou os corações, que com aversão trataram o seu povo, e com perfídia, os seus servidores. Mas Deus lhes suscitou Moisés, seu servo, e Aarão, seu escolhido. Ambos operaram entre eles prodígios e milagres na terra de Cam. Mandou trevas e se fez noite, resistiram, porém, às suas palavras. Converteu-lhes as águas em sangue, matando-lhes todos os seus peixes. Infestou-lhes a terra de rãs, até nos aposentos reais. A uma palavra sua vieram nuvens de moscas, mosquitos em todo o seu território. Em vez de chuva lhes mandou granizo e chamas devorantes sobre a terra. Devastou-lhes as vinhas e figueiras, e partiu-lhes as árvores de seus campos. A seu mandado vieram os gafanhotos, e lagartas em quantidade enorme, que devoraram toda a erva de suas terras e comeram os frutos de seus campos. Depois matou os primogênitos do seu povo, primícias de sua virilidade. E Deus tirou os hebreus carregados de ouro e prata; não houve, nas tribos, nenhum enfermo. Alegraram-se os egípcios com sua partida, pelo temor que os hebreus lhes tinham causado. Para os abrigar Deus estendeu uma nuvem, e para lhes iluminar a noite uma coluna de fogo. A seu pedido, mandou-lhes codornizes, e os fartou com pão vindo do céu. Abriu o rochedo e jorrou água como um rio a correr pelo deserto, pois se lembrava da palavra sagrada, empenhada a seu servo Abraão. E fez sair, com júbilo, o seu povo, e seus eleitos com grande exultação. Deu-lhes a terra dos pagãos e desfrutaram das riquezas desses povos, sob a condição de guardarem seus mandamentos e observarem fielmente suas lei.”

Pela primeira vez nos salmos, ouve-se a palavra ‘aleluia’, aclamação festiva da liturgia e, nesse caso, uma liturgia de louvor. O hino é uma reflexão de louvor sobre o Credo de Israel, um Credo não feito de intelectualismo ou de elucubração mental, mas de ações históricas de Deus na vida do seu povo.

Essas ações se concentram em cinco pilares: a ‘aliança’, com os patriarcas do seu povo, a história de ‘José’ no Egito, as pragas do Egito, o êxodo da escravidão do Egito e, por fim, a chegada à terra prometida. No entanto, a respeito das dez pragas narradas pelo livro do Êxodo aqui, no salmo, temos somente oito pragas. Este salmo é uma releitura da história sagrada do ponto de vista divino. Deus entra na história da humanidade para conduzi-la e o fiel, assim, descobre a presença de Deus. Um Deus que serve o seu povo porque o ama. E justamente para a graça da terra e da liberdade exige como resposta que se observem as Leis reveladas por Deus. Portanto, ter a terra significa tanto o lugar de possuir os bens e da libertação física e social quanto o lugar espiritual de seguir a Deus na justiça.


Senhor, meu Deus, vós sois imensamente grande!

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O salmo 103 das Sagradas Escrituras, que apresentamos hoje, é um verdadeiro hino poético sobre o mundo, o cosmo.

“Bendize, ó minha alma, o Senhor! Senhor, meu Deus, vós sois imensamente grande! De majestade e esplendor vos revestis, envolvido de luz como de um manto. Vós estendestes o céu qual pavilhão, acima das águas fixastes vossa morada. De nuvens fazeis vosso carro, andais nas asas do vento; fazeis dos ventos os vossos mensageiros, e dos flamejantes relâmpagos vossos ministros. Fundastes a terra em bases sólidas que são eternamente inabaláveis. Vós a tínheis coberto com o manto do oceano, as águas ultrapassavam as montanhas. Mas à vossa ameaça elas se afastaram, ao estrondo de vosso trovão estremeceram. Elevaram-se as montanhas, sulcaram-se os vales nos lugares que vós lhes destinastes. Estabelecestes os limites, que elas não hão de ultrapassar, para que não mais tornem a cobrir a terra. Mandastes as fontes correr em riachos, que serpeiam por entre os montes.

Ali vão beber os animais dos campos, neles matam a sede os asnos selvagens. Os pássaros do céu vêm aninhar em suas margens, e cantam entre as folhagens. Do alto de vossas moradas derramais a chuva nas montanhas, do fruto de vossas obras se farta a terra. Fazeis brotar a relva para o gado, e plantas úteis ao homem, para que da terra possa extrair o pão e o vinho que alegra o coração do homem, o óleo que lhe faz brilhar o rosto e o pão que lhe sustenta as forças. As árvores do Senhor são cheias de seiva, assim como os cedros do Líbano que ele plantou. Lá constroem as aves os seus ninhos, nos ciprestes a cegonha tem sua casa. Os altos montes dão abrigo às cabras, e os rochedos aos arganazes. Fizestes a lua para indicar os tempos; o sol conhece a hora de se pôr. Mal estendeis as trevas e já se faz noite, entram a rondar os animais das selvas. Rugem os leõezinhos por sua presa, e pedem a Deus o seu sustento. Mas se retiram ao raiar do sol, e vão se deitar em seus covis. É então que o homem sai para o trabalho, e moureja até o entardecer. Ó Senhor, quão variadas são as vossas obras! Feitas, todas, com sabedoria, a terra está cheia das coisas que criastes. Eis o mar, imenso e vasto, onde, sem conta, se agitam animais grandes e pequenos. Nele navegam as naus e o Leviatã que criastes para brincar nas ondas. Todos esses seres esperam de vós que lhes deis de comer em seu tempo. Vós lhes dais e eles o recolhem; abris a mão, e se fartam de bens. Se desviais o rosto, eles se perturbam; se lhes retirais o sopro, expiram e voltam ao pó donde saíram.

Se enviais, porém, o vosso sopro, eles revivem e renovais a face da terra. Ao Senhor, glória eterna; alegre-se o Senhor em suas obras! Ele, cujo olhar basta para fazer tremer a terra, e cujo contato inflama as montanhas. Enquanto viver, cantarei à glória do Senhor, salmodiarei ao meu Deus enquanto existir. Possam minhas palavras lhe ser agradáveis! Minha única alegria se encontra no Senhor. Sejam tirados da terra os pecadores e doravante desapareçam os ímpios. Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Aleluia.”

Quais os temas propostos desse maravilhoso salmo? Nos versículos de 1-4, o salmista nos apresenta uma manifestação de Deus bem luminosa em que o Criador se reveste de luz como de um manto e cobre todo o universo. Nos versículos de 5-9, focaliza-se como as águas no caos e como dela sai a estrutura planetária da terra. E nos versículos de 10-18, evidencia-se como é animada a vida da terra, fecundada das doces águas, pelas chuvas que vem do alto das quais os animais se servem. E os versículos de 18-24 descrevem o ritmo do tempo sinalizado da lua e do sol que marca a vida cotidiana.

A seguir, os versículos 25-26 descrevem o imenso mar, onde se agitam grandes e pequenos peixes, navegados pelos navios. Aparece também o monstro Leviatã reduzido por Deus a uma baleia feliz. Os versículos de 27-30 sublinham que todas as criaturas são ligadas ao Criador, que, por sua vez, recebem vida. Os versículos de 31-35 nos revelam uma manifestação gloriosa de Deus em que se confia que o mal e o pecado sejam eliminados da face da terra.

O que podemos observar em tudo isso? O protagonismo de Deus, do ser humano e do universo que são intimamente interligados entre eles. É evidente que Deus está acima de tudo e que Ele mesmo cuida de todos. E o ser humano é aquele que trabalha dentro da criação para dar sustento à sua vida. E, ao mesmo tempo, sabe contemplar e bendizer o Criador, porque consegue discernir a transcendência Dele em todo o universo.


Bendize minha alma, ao Senhor

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O salmo 102, das Sagradas Escrituras, é por excelência um hino de louvor, de agradecimento ao Senhor. O ser humano manifesta toda a sua gratidão a Deus. Leia atentamente esta belíssima oração.

 

“Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que existe em mim bendiga o seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e jamais te esqueças de todos os seus benefícios. É ele que perdoa as tuas faltas, e sara as tuas enfermidades. É ele que salva tua vida da morte, e te coroa de bondade e de misericórdia. É ele que cumula de benefícios a tua vida, e renova a tua juventude como a da águia.

 

O Senhor faz justiça, dá o direito aos oprimidos. Revelou seus caminhos a Moisés, e suas obras aos filhos de Israel. O Senhor é bom e misericordioso, lento para a cólera e cheio de clemência. Ele não está sempre a repreender, nem eterno é o seu ressentimento. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos castiga em proporção de nossas faltas, porque tanto os céus distam da terra quanto sua misericórdia é grande para os que o temem; tanto o oriente dista do ocidente quanto ele afasta de nós nossos pecados. Como um pai tem piedade de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem, porque ele sabe de que é que somos feitos, e não se esquece de que somos pó. Os dias do homem são semelhantes à erva, ele floresce como a flor dos campos.

 

Apenas sopra o vento, já não existe, e nem se conhece mais o seu lugar. É eterna, porém, a misericórdia do Senhor para com os que o temem. E sua justiça se estende aos filhos de seus filhos, sobre os que guardam a sua aliança, e, lembrando, cumprem seus mandamentos. Nos céus estabeleceu o Senhor o seu trono, e o seu império se estende sobre o universo. Bendizei ao Senhor todos os seus anjos, valentes heróis que cumpris suas ordens, sempre dóceis à sua palavra. Bendizei ao Senhor todos os seus exércitos, ministros que executais sua vontade. Bendizei ao Senhor todas as suas obras, em todos os lugares onde ele domina. Bendize, ó minha alma, ao Senhor.”

 

O judaísmo deu um grande destaque a este salmo, tanto que o colocou na liturgia do Kippur, a solenidade da Expiação. Até a tradição cristã e toda a cultura ocidental lhe dão um ‘amplo respiro’, reconhecendo a suma importância deste hino. É um hino de alegria que se canta a Deus. É uma meditação sapiencial sobre a limitação da vida humana que depõe toda a confiança à misericórdia eterna de Deus. O salmo se divide em duas partes.

 

Na primeira parte, exalta-se, justamente, o amor e a misericórdia de Deus. Um Deus que se apresenta com um rosto tenro, de piedade e de compaixão. Seguem uma lista de nomes atribuídos a Deus: Aquele