Com Deus somos vitoriosos


É na ótica de Deus que poderemos construir uma convivência mais justa e fraterna. Quem não se lembra da história de Zaqueu? Uma vez que se encontra com Jesus, ele conseguiu se libertar de toda a sua ganância e devolveu tudo aquilo que roubou. E não só, mas também doou parte de seus bens. Jesus, Deus, derrubou o poder dinheiro e libertou o filho de Deus. Quanto hoje precisamos viver essa grande verdade: Que Deus consiga derrotar todo esse poder do dinheiro. Isso pode acontecer, na medida em que consigamos nos encontrar com Ele. O salmo 75 das Sagradas Escrituras nos ajuda melhor nesse sentido.

“Deus se fez conhecer em Judá, seu nome é grande em Israel. Em Jerusalém está seu tabernáculo e em Sião a sua morada. Lá ele quebrou as fulminantes flechas do arco, os escudos, as espadas e todas as armas. O esplendor luminoso de vosso poder manifestou-se do alto das eternas montanhas. Foram despojados os guerreiros ousados, eles dormem tranquilos seu último sono. Os valentes sentiram fraquejar suas mãos. Só com a vossa ameaça, ó Deus de Jacó, ficaram inertes carros e cavalos. Terrível sois, quem vos poderá resistir, diante do furor de vossa cólera? Do alto do céu proclamastes a sentença; calou-se a terra de tanto pavor, quando Deus se levantou para pronunciar a sentença de libertação em favor dos oprimidos da terra. Pois o furor de Edom vos glorificará e os sobreviventes de Emat vos festejarão. Fazei votos ao Senhor vosso Deus e cumpri-os. Todos os que o cercam tragam oferendas ao Deus temível, a ele que abate o orgulho dos grandes e que é temido pelos reis da terra.”

Somente para contextualizar, este salmo é um hino de vitória do Deus de Israel em Sião, pouco depois a conquista da “cidade santa” por parte de Davi e a trasladação da arca a Jerusalém. Deus triunfa contra os poderosos, os valentes para salvar os pobres. Deus aniquila os instrumentos de poder que exaltam as pessoas. O salmo se divide em quatro estrofes. A primeira, dos versículos de 2 a 4, mostra a força vitoriosa de Deus que quebra todas as armas dos inimigos do seu povo. A verdadeira libertação vem pelas “mãos” de Deus. Na segunda estrofe, versículos de 5 a 7, numa cena de guerra, Deus é apresentado qual grande triunfador. Ele com o seu esplendor luminoso despoja os guerreiros ousados. Segue a terceira estrofe, versículos de 8 a 10, onde Deus o “terrível” proclama lá do céu o juízo sobre a humanidade que a deixa apavorada. Assim, o pobre e oprimido logo que assistem esse julgamento que deixa totalmente apavorados os ímpios, pervertidos, sabem que o processo da história vai mudar. Os poderosos serão humilhados e rebaixados.

Por fim, a quarta estrofe, versículos de 11 a 13, mostra que toda a terra é envolvida na adoração desse Deus “terrível” e “justo”. Assim sendo, Deus não é fonte de medo, mas qual raiz de justiça para todos e, sobretudo, em relação aos “reis da terra”. E o papa Francisco nos ajuda a entender melhor pela homilia feita na missa na casa Santa Marta no Vaticano: “Deus permanece com os justos e nunca os abandona”.

“Uma mãe corajosa, com marido, três filhos, menos de 40 anos e um cancro que a obriga permanecer na cama. Por quê? Uma mulher idosa, pessoa com a oração no coração e com um filho assassinado pela máfia. Por quê?” (…) “Os pensamentos de tantas pessoas cuja fé convicta e arraigada é colocada à prova pelos dramas da vida. Por que é que isto acontece? Que proveito temos em guardar os mandamentos de Deus enquanto os soberbos progridem praticando o mal, desafiam a Deus e não são castigados?” (…) “Quantas vezes vemos esta realidade em muitas pessoas más, em pessoas que fazem o mal e parece que na sua vida tudo vai bem: são felizes, têm tudo o que querem, não lhes falta nada. Por quê Senhor? É um dos muitos porquês.”

Continua o papa Francisco: “proclama ‘bem-aventurado’ o homem que não entra no conselho dos ímpios” e que “encontra a sua alegria na lei do Senhor”. “Agora não vemos os frutos desta gente que sofre, desta gente que carrega a cruz, como aquela Sexta-feira Santa e aquele Sábado Santo em que não se viam os frutos do Filho de Deus Crucificado, dos seus sofrimentos. E tudo o que fará, será bem feito. E o que o diz o salmo sobre os ímpios, sobre aqueles que nós pensamos que vai tudo bem? ‘Não são assim os ímpios, mas são como a palha que o vento disperde. Porque o Senhor acompanha o caminho dos justos, enquanto o caminho dos ímpios perece”.

E citando a parábola do rico: “O curioso daquele homem é que não se diz o nome. É somente um adjetivo: é um rico. Dos ímpios, no Livro da Memória de Deus, não há nome: é um ímpio, é um trapaceiro, é um explorador… Não tem nome, somente adjetivos. Ao invés, todos os que buscam caminhar na via do Senhor estarão com seu Filho, que tem o nome, Jesus Salvador. Mas um nome difícil de entender, inclusive inexplicável para a provação da cruz e por tudo aquilo que Ele sofreu por nós”.


Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz (Parte I)


1. Votos de paz
Paz a todas as pessoas e a todas as nações da terra! A paz, que os anjos anunciam aos pastores na noite de Natal, é uma aspiração profunda de todas as pessoas e de todos os povos, sobretudo de quantos padecem mais duramente pela sua falta. Dentre estes, que trago presente nos meus pensamentos e na minha oração, quero recordar de novo os mais de 250 milhões de migrantes no mundo, dos quais 22 milhões e meio são refugiados. Estes últimos, como afirmou o meu amado predecessor Bento XVI, «são homens e mulheres, crianças, jovens e idosos que procuram um lugar onde viver em paz». E, para o encontrar, muitos deles estão prontos a arriscar a vida numa viagem que se revela, em grande parte dos casos, longa e perigosa, a sujeitar-se a fadigas e sofrimentos, a enfrentar arames farpados e muros erguidos para os manter longe da meta.

Com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental.

Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros. Há muito que fazer antes de os nossos irmãos e irmãs poderem voltar a viver em paz numa casa segura. Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e beneficência, uma atenção vigilante e abrangente, a gestão responsável de novas situações complexas que às vezes se vêm juntar a outros problemas já existentes em grande número, bem como recursos que são sempre limitados. Praticando a virtude da prudência, os governantes saberão acolher, promover, proteger e integrar, estabelecendo medidas práticas, «nos limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido, [para] lhes favorecer a integração». Os governantes têm uma responsabilidade precisa para com as próprias comunidades, devendo assegurar os seus justos direitos e desenvolvimento harmónico, para não serem como o construtor insensato que fez mal os cálculos e não conseguiu completar a torre que começara a construir.

2. Porque há tantos refugiados e migrantes?
Na mensagem para idêntica ocorrência no Grande Jubileu pelos 2000 anos do anúncio de paz dos anjos em Belém, São João Paulo II incluiu o número crescente de refugiados entre os efeitos de «uma sequência infinda e horrenda de guerras, conflitos, genocídios, “limpezas étnicas”» que caraterizaram o século XX. E até agora, infelizmente, o novo século não registou uma verdadeira viragem: os conflitos armados e as outras formas de violência organizada continuam a provocar deslocações de populações no interior das fronteiras nacionais e para além delas. Todavia as pessoas migram também por outras razões, sendo a primeira delas «o desejo de uma vida melhor, unido muitas vezes ao intento de deixar para trás o “desespero” de um futuro impossível de construir». As pessoas partem para se juntar à própria família, para encontrar oportunidades de trabalho ou de instrução: quem não pode gozar destes direitos, não vive em paz. Além disso, como sublinhei na Encíclica Laudato si’, «é trágico o aumento de migrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental».
A maioria migra seguindo um percurso legal, mas há quem tome outros caminhos, sobretudo por causa do desespero, quando a pátria não lhes oferece segurança nem oportunidades, e todas as vias legais parecem impraticáveis, bloqueadas ou demasiado lentas.
Em muitos países de destino, generalizou-se largamente uma retórica que enfatiza os riscos para a segurança nacional ou o peso do acolhimento dos recém-chegados, desprezando assim a dignidade humana que se deve reconhecer a todos, enquanto filhos e filhas de Deus. Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.
Todos os elementos à disposição da comunidade internacional indicam que as migrações globais continuarão a marcar o nosso futuro. Alguns consideram-nas uma ameaça. Eu, pelo contrário, convido-vos a vê-las com um olhar repleto de confiança, como oportunidade para construir um futuro de paz.

3. Com olhar contemplativo
A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos «a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha». Estas palavras propõem-nos a imagem da nova Jerusalém. O livro do profeta Isaías (cap. 60) e, em seguida, o Apocalipse (cap. 21) descrevem-na como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admira e enche de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.
Precisamos de lançar, também sobre a cidade onde vivemos, este olhar contemplativo, «isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (…), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça», por outras palavras, realizando a promessa da paz.
Detendo-se sobre os migrantes e os refugiados, este olhar saberá descobrir que eles não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e deste modo enriquecem a vida das nações que os acolhem. Saberá vislumbrar também a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive onde não abundam os recursos. Este olhar contemplativo saberá, enfim, guiar o discernimento dos responsáveis governamentais, de modo a impelir as políticas de acolhimento até ao máximo dos «limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido», isto é, tomando em consideração as exigências de todos os membros da única família humana e o bem de cada um deles.


É Natal


O Santo Natal revela o quanto Deus nos ama. Ele se torna pequeno para ser acolhido por todos nós. Nosso Deus é maravilhoso, sábio em nos ajudar a compartilhar sua divindade. É nisso que consiste nossa dignidade. Somos atraídos para essa verdade. Podemos ver, nesta circunstância, como até as pessoas afastadas da Igreja, ou simplesmente que não se sentem atraídas por uma experiência de fé, conseguem ser absorvidas por este magnífico evento que marcou, de maneira definitiva, a nossa história. Então, é bom focalizarmos alguns elementos constitutivos do Santo Natal, sob o aspecto da comunicação. Vejamos, por exemplo, como os pastores agiram frente a essa extraordinária realidade.

Os pastores se comportaram como verdadeiros jornalistas, porque não faziam outra coisa senão dar uma boa notícia, sem acréscimos de comentários pessoais. Aquilo que viram, transmitiram. Talvez isso pudesse questionar hoje nossa profissão de jornalistas, ou mesmo de comunicadores. Quantas vezes as notícias não são corretas porque queremos manipula-las com nosso ponto de vista ou com interesses de corporação? Em várias ocasiões, nossa ação comunicativa chega a não ter escrúpulos. No entanto, os pastores daquela época foram bem transparentes ao narrar aquilo que viram, e nada mais. Portanto, contando os fatos, precisamos demonstrar total transparência; e todos somos chamados em causa, porque todos comunicamos, de um jeito ou de outro, para sustentar nossas relações sociais, comunitárias e familiares.

Porém, em muitas ocasiões, quanta falta de transparência em tudo isso! Podem ver que as problemáticas, as dificuldades de se entender, os conflitos que surgem em consequência disso, tornam-se quase como uma denúncia da nossa não correta ação comunicativa. Assim sendo, creio que é necessário imitarmos aqueles pastores. É verdade que a objetividade é muito difícil, mas ser transparentes é o nosso dever. Hoje em dia, estamos vivendo um bombardeio de informações, mas tudo isso nos leva a ter um conhecimento real e verdadeiro da realidade, ou cria mais confusão na nossa cabeça, favorecendo mais conflitos pessoais e sociais? E aquela gruta onde nasceu o Menino Jesus? Que comunicação em tudo isso! A humildade e a simplicidade revelam um fato extraordinário de Deus que se rebaixa até nós.

Pergunto-me: se Deus se torna presente na nossa vida com total humildade, por que nós não podemos estar juntos despojados de qualquer arrogância, soberba, altivez? O Altíssimo se faz presentíssimo, não desprezando a nossa realidade, mas, ao contrário, compartilhando conosco o seu grande poder porque é preocupado com a nossa vida. Então, como queremos caminhar com os outros para compartilharmos aquilo que somos? Temos a coragem de nos rebaixar para favorecer os outros? A onipotência do nosso Deus, por incrível que pareça, se manifesta nessa capacidade de entrar na nossa vida. Uma verdadeira e transparente comunicação é totalmente humilde porque quer favorecer a vida e, sobretudo, de quem mais necessita. É solidária e fraterna. Não é uma elucubração de palavras e pensamentos, mas de testemunho de vida.

Aquele silêncio recolhido daquela gruta emana uma magnífica e poderosa comunicação: a vida não tem limite. Quantas vezes não sabemos priorizar o silêncio, porque achamos que isto prejudica a nossa fala para comunicar. No entanto, no nascimento, Deus não fez manifestações de praça, barulhos de palavras, não tocaram tambores, ao contrário de nós, quando queremos mostrar algo de importante usamos todos os possíveis meios que estão ao nosso dispor para contar o evento da nossa vida.

Deus prefere comunicar no silêncio, porém, nós preferimos comunicar com barulhos. Que diferença! Creio que esta grande solenidade do Santo Natal possa se tornar, para todos, um momento de reflexão sobre como podemos aperfeiçoar a comunicação entre nós.

Por fim, aquela estrela que indicou a santa gruta nos revela quantas estrelas existem também na nossa vida, para nos ajudar na nossa peregrinação terrestre? E às vezes pela pouca sensibilidade ao “novo”, determinado pelo excessivo materialismo, nos impede de fazer a experiência do verdadeiro Natal. Feliz e Santo Natal.


Nós vos louvamos, senhor!


A grandeza da humanidade está na sua transcendência, na sua capacidade de ir além da sua percepção. É esta capacidade que dá razão para valorizar os outros e não pensar somente em si. Na medida em que temos uma consciência das nossas limitações humanas, das nossas precariedades, talvez tenhamos mais capacidade de sentirmos mais fraternos e mais humildes. O Salmo 74 das Sagradas Escrituras nos ajuda nesse sentido:

“Nós vos louvamos, Senhor, nós vos louvamos; glorificamos vosso nome e anunciamos vossas maravilhas. No tempo que fixei, julgarei o justo juízo. Vacile, embora, a terra com todos os seus habitantes, fui eu quem deu firmeza às suas colunas. Digo aos arrogantes: Não sejais insolentes; aos ímpios: Não levanteis vossa fronte, Não ergais contra o Altíssimo a vossa cabeça, deixai de falar a Deus com tanta insolência. Não é do Oriente, nem do Ocidente, nem do deserto, nem das montanhas que vem a salvação. Mas Deus é o juiz; a um ele abate, a outro exalta. Há na mão do Senhor uma taça de vinho espumante e aromático. Dela dá de beber. E até as fezes hão de esgotá-la; hão de sorvê-la os ímpios todos da terra. Eu, porém, exultarei para sempre, salmodiarei ao Deus de Jacó. Abaterei todas as potências dos ímpios, enquanto o poder dos justos será exaltado”.

Esse Salmo foca a questão do juízo universal de Deus. Começa com a resposta divina perante a intercessão do fiel, do justo, e logo em seguida tem o comentário (7-9). Qual é esse oráculo? É o Juízo de Deus. Com isso, quer relembrar ao ímpio que a sua constante arrogância está desafiando Deus. O ímpio se acha dono de tudo e de todos. E os versículos de 3 a 6 mostram a intervenção de Deus que julga os arrogantes e os ímpios, porque se acham poderosos. No entanto, é Ele o Senhor da justiça e da moral. É Ele o Criador e revela todo o seu poder sacudindo a terra, cuja estrutura é dominada por Ele.

Aqui fala que a terra é fundada sobre as colunas, porque é segundo a cosmologia oriental daquele tempo. Naturalmente, hoje, devido todo o conhecimento cientifico alcançado, sabemos a verdade sobre a terra e o cosmo. De qualquer forma, o Deus, que tudo criou, levanta a sua voz contra os ímpios que, na ousadia deles, O desafiam. A verdadeira justiça vem do único juiz, que é Deus, e não na busca de modelos e pessoas humanas. O verdadeiro juiz, Deus, pode realmente exaltar ou rebaixar segundo direito e verdade. Ele sabe discernir perfeitamente o poder dos ímpios que são hipnotizados pela avidez do dinheiro e pelo ser servidos nos seus tronos.

Assim sendo, esse Deus, conforme o salmista, não é indiferente à história da humanidade, mas acompanha o drama dela e, sobretudo, sabe fazer justiça perante os arrogantes e poderosos deste mundo. Nesse sentido, o fiel desse Salmo invoca a Deus para que faça justiça e liberte os justos. Os fiéis confiam exclusivamente na justiça de Deus, porque na dos homens não a encontram. E o Papa Francisco nos esclarece mais ainda essa presença de Deus, em um discurso pronunciado na “Jornada Mundial da Juventude” do dia 28.07.2016: “… «Onde está Deus?» Onde está Deus, se no mundo existe o mal, se há pessoas famintas, sedentas, sem abrigo, deslocadas, refugiadas? Onde está Deus, quando morrem pessoas inocentes por causa da violência, do terrorismo, das guerras? Onde está Deus, quando doenças cruéis rompem laços de vida e de afeto? Ou quando as crianças são exploradas, humilhadas e sofrem – elas também – por causa de graves patologias? Onde está Deus, quando vemos a inquietação dos duvidosos e dos aflitos na alma? Há perguntas para as quais não existem respostas humanas. Podemos apenas olhar para Jesus e perguntar-lhe. E a sua resposta é esta: «Deus está neles», Jesus está neles, sofre neles, profundamente identificado com cada um. Está tão unido a eles, que quase formam «um só corpo». (…) Foi o próprio Jesus que escolheu identificar-se com estes nossos irmãos e irmãs provados pelo sofrimento e a angústia, aceitando percorrer o caminho doloroso para o calvário. Ao morrer na cruz, entrega-se nas mãos do Pai e leva consigo e em si mesmo, com amor de doação, as chagas físicas, morais e espirituais da humanidade inteira. Abraçando o madeiro da cruz, Jesus abraça a nudez e a fome, a sede e a solidão, a dor e a morte dos homens e mulheres de todos os tempos.(…) Somos chamados a servir Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada, a tocar a sua carne bendita em quem é excluído, tem fome, tem sede, está nu, preso, doente, desempregado, é perseguido, refugiado, migrante. Naquela carne bendita, encontramos o nosso Deus; naquela carne bendita, tocamos o Senhor.(…) O Caminho da Cruz é o caminho da vida e do estilo de Deus, que Jesus nos leva a percorrer mesmo através das sendas duma sociedade por vezes dividida, injusta e corrupta”.


O silêncio do abandono


A vida é um meandro, cheia de curvas, que reserva muitasvezes surpresas e abandonos. Quantos sofrimentos, incompreensões, lágrimas na vida do ser humano! Parece em certas ocasiões que até Deus o tenha abandonado. Mas a gente se pergunta: “Será que Deus abandona a sua melhor obra, que é o ser humano?”, ou “será que Deus é tão insensível em relação às provas da vida do ser humano?”. O salmo 73 das Sagradas Escrituras nos dá uma resposta a tudo isso:

“Por que, Senhor, persistis em nos rejeitar? Por que se inflama vossa ira contra as ovelhas de vosso rebanho? Recordai-vos de vosso povo que elegestes outrora, da tribo que resgatastes para vossa possessão, da montanha de Sião onde fizestes vossa morada. Dirigi vossos passos a estes lugares definitivamente devastados; o inimigo tudo destruiu no santuário. Os adversários rugiam no local de vossas assembleias, como troféus hastearam suas bandeiras. Pareciam homens a vibrar o machado na floresta espessa. Rebentaram os portais do templo com malhos e martelos, atearam fogo ao vosso santuário, profanaram, arrasaram a morada do vosso nome. Disseram em seus corações: Destruamo-los todos juntos; incendiai todos os lugares santos da terra. Não vemos mais nossos emblemas, já não há nenhum profeta e ninguém entre nós que saiba até quando… Ó Deus, até quando nos insultará o inimigo? O adversário blasfemará vosso nome para sempre? Por que retirais a vossa mão? Por que guardais vossa destra em vosso seio? Entretanto, Deus é meu rei desde os tempos antigos, ele que opera a salvação por toda a terra. Vosso poder abriu o mar, esmagastes nas águas as cabeças de dragões. Quebrastes as cabeças do Leviatã, e as destes como pasto aos monstros do mar. Fizestes jorrar fontes e torrentes, secastes rios caudalosos. Vosso é o dia, a noite vos pertence: vós criastes a lua e o sol, vós marcastes à terra seus confins, estabelecestes o inverno e o verão. Lembrai-vos: o inimigo vos insultou, Senhor, e um povo insensato ultrajou o vosso nome. Não abandoneis ao abutre a vida de vossa pomba, não esqueçais para sempre a vida de vossos pobres. Olhai para a vossa aliança, porque todos os recantos da terra são antros de violência. Que os oprimidos não voltem confundidos, que o pobre e o indigente possam louvar o vosso nome. Levantai-vos, ó Deus, defendei a vossa causa. Lembrai-vos das blasfêmias que continuamente vos dirige o insensato. Não olvideis os insultos de vossos adversários, e o tumulto crescente dos que se insurgem contra vós.”

Este salmo é marcado pela tristeza do abandono e do poder esmagador dos que perseguem os que acreditam em Deus. Ele é dividido em duas situações: o silêncio de Deus de uma parte e da outra o silêncio da morte e da destruição do Templo de Deus. A partir dos versículos de 1 a 9, focaliza-se a lamentação sobre a destruição do Templo. O inimigo com a sua arrogância destruidora parecia ser superior à presença de Deus no seu Templo. Os inimigos não tinham piedade de nada e de ninguém: tudo destruíam. E o pior, é que ninguém sabe até quando vai todo esse esmagamento.
Depois disso, o salmo se concentra nos versículos de 10 a 23 em uma oração incessante a Deus para que possa intervir a favor do justo. E o fiel salmista relembra a ação universal de Deus na criação quando esmagou a prepotência dos dragões, do Leviatã, símbolos horríveis do ‘nada’. E a partir dessa potência de Deus Israel aguarda a sua intervenção em favor do seu povo. Porém, vive ansioso porque parece que Deus ainda não tomou a iniciativa. Os poderosos infiéis triunfam sobre os fieis. Mas os fieis confiam na fidelidade de Deus. É questão de tempo.

Portanto, se de um lado tem o medo porque Deus ainda está ausente de outro lado existe a confiança que Deus pode tardar, mas não deixará de agir para salvar os seus fieis. O ‘coração’ dessa oração é aquele do silêncio de Deus na prova, no sofrimento que estão vivendo os justos. E isso poderia levar os inimigos a argumentarem, confutarem a própria existência de Deus. Ainda hoje tem aqueles que dizem, perante a tanta violência e dor, que Deus é simplesmente uma invenção dos que acreditam. Assim reage o fiel insistindo com Deus de não se deixar blasfemar, mas de intervir para comprovar que Ele é realmente Deus, Senhor da história.

Assim sendo, a oração é para romper o silêncio de Deus. Revelando que Deus é o verdadeiro dono da história humana. Está nas mãos Dele o destino da humanidade, e não dos poderosos desse mundo. A história da humanidade, por quanto possa ser abalada pelas crueldades e atrocidades, ela não é jogada no caos. É preciosa aos olhos amorosos de Deus.


O mal será derrotado


Quantos desesperos e gritos de dor se elevam todos os dias na vida das pessoas! O mal circunda o ser humano e o deixa ainda mais fragilizado na sua existência. Por que a maldade domina a vida? O salmo 38, das Sagradas Escrituras, fala-nos a respeito:

“Disse comigo mesmo: Velarei sobre os meus atos, para não mais pecar com a língua. Porei um freio em meus lábios, enquanto o ímpio estiver diante de mim. Fiquei mudo, mas sem resultado, porque minha dor recrudesceu.Meu coração se abrasava dentro de mim, meu pensamento se acendia como um fogo, então eu me pus a falar: Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim, e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero.A largura da mão: eis a medida de meus dias, diante de vós minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro. De fato, o homem passa como uma sombra, é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá.E agora, Senhor, que posso esperar? Minha confiança está em vós. Livrai-me de todas as faltas, não me abandoneis ao riso dos insensatos.Calei-me, já não abro a boca, porque sois vós que operais. Afastai de mim esse flagelo, pois sucumbo ao rigor de vossa mão.Quando punis o homem, fazendo-lhe sentir a sua culpa, consumis, como o faria a traça, o que ele tem de mais caro. Verdadeiramente, apenas um sopro é o homem. Ouvi, Senhor, a minha oração, escutai os meus clamores, não fiqueis insensível às minhas lágrimas. Diante de vós não sou mais que um viajor, um peregrino, como foram os meus pais.Afastai de mim a vossa ira para que eu tome alento, antes que me vá para não mais voltar.”

Surge inevitável a questão de querermos compreender de onde vem todo o mal, sofrimento e dor que fazem parte da vida da humanidade. Se tudo o que Deus fez é bom, como então? Para isso, remontamos à Bíblia. Seus vários livros se preocupam com o mal. Neles se encontra uma multiplicidade de imagens para falar do tema. Não se encontra neles uma resposta simples, racional, mas uma resposta de fé. Razão e fé (confiança) estão presentes nesse salmo. Por isso a Bíblia é diferente de outros livros. E esse salmo nos ajuda a fazer essa profissão de fé.

Deus não criou o mal. Ele se preocupa em libertar os seres humanos do mal. Para combater o mal, é preciso confiar em Deus. Resgatar nossa ligação direta com Deus, pela qual fomos criados, e que desfrutávamos no Jardim do Éden. Lembremos o prólogo do Evangelho de João, que nos chama filhas e filhos de Deus, para acentuar nossa dependência a Deus. E a dependência a Deus, a confiança em Deus, é uma liberdade total, para os seres humanos, pois também significa sua liberdade perante os esquemas do mundo, com sua lógica limitada, opressora, que reproduz muitas vezes o mal, que afasta Deus. Significa viver mirando as “coisas do alto”, o que tem consequências muito profundas em nosso mundo, em nosso modo de viver e conviver com os demais filhos e filhas.

Nós, seres humanos, não somos geradores do mal, mas aderimos a ele. Porém, procuramos dar uma razão a toda essa desgraça que vivemos no dia a dia, no mundo todo, com violências, guerras, fomes, injustiças, desigualdades brutais. Muitos se fazem a pergunta ou justificam sua falta de fé assim: por que Deus permite tudo isso? Quem tem de responder a essa questão somos nós. O problema não é Deus. Ele não criou o mal!

A Bíblia trata do problema do mal. Tenta compreender a relação entre Deus e o mal. Qual é a ligação entre Deus e o mal? A fonte do conhecimento é conhecer Deus. Já na origem, havia a preocupação sobre o mal. O ser humano, por si só não era capaz. Ele se apega a Javé, que vai lhe explicar, como nos mostra o fiel desse salmo. Deus é o ator principal. Não é a humanidade. A fonte do conhecimento é, portanto, Deus. Se não queremos fazer a experiência de Deus, ficamos com nossos conhecimentos limitados, pois restritos ao conhecimento da criatura.

Sabemos que os seres humanos são vítimas do mal e, também, aderem ao mal. Mas, temos a certeza de que Deus reverte essa situação. Na medida em que nos deixamos conduzir por Deus, conseguimos vencer o mal. Deus respeita sua criatura, seu livre arbítrio, mas não a abandona. Então, a realidade que o profeta Isaías descreve é a que vai triunfar.

Onde há intimidade com Deus, tudo é possível, o mal não prolifera. Temos uma relação com a terra que, de hostil e penosa, torna-se na nova criação, uma relação de reconciliação: “… serão plantadas vinhas cujos frutos comerão” (Is 65, 21). O trabalho se torna resposta à graça de Deus e instrumento para uma vida feliz: “não trabalharão mais em vão, não darão mais à luz filhos voltados a uma morte repentina” (Is 65, 23). Quantas promessas! Que destino de plenitude nos é reservado na aposta no nosso Deus! E o último mal a ser derrotado é a morte.


Entrar no santuário do senhor


Uma questão que ouço constantemente na vida das pessoas é esse tipo de queixa: “Deus, por que permite essa violência, essas atrocidades no meio de nós? Morte de crianças, sequestros, homicídios, imoralidades, deturpação da realidade, corrupção…” As pessoas querem entender a difícil convivência da humanidade. Mas parece que não conseguem dar uma razão. Lendo o salmo 72, das Sagradas Escrituras, pode-se tentar dar uma resposta.

“Oh, como Deus é bom para os corações retos, e o Senhor para com aqueles que têm o coração puro! Contudo, meus pés iam resvalar, por pouco não escorreguei, porque me indignava contra os ímpios, vendo o bem-estar dos maus: não existe sofrimento para eles, seus corpos são robustos e sadios. Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens. Eles se adornam com um colar de orgulho, e se cobrem com um manto de arrogância. Da gordura que os incha sai a iniquidade, e transborda a temeridade. Zombam e falam com malícia, discursam, altivamente, em tom ameaçador. Com seus propósitos afrontam o céu e suas línguas ferem toda a terra. Por isso se volta para eles o meu povo, e bebe com avidez das suas águas. E dizem então: Porventura Deus o sabe? Tem o Altíssimo conhecimento disto? Assim são os pecadores que, tranquilamente, aumentam suas riquezas. Então foi em vão que conservei o coração puro e na inocência lavei as minhas mãos? Pois tenho sofrido muito e sido castigado cada dia. Se eu pensasse: Também vou falar como eles, seria infiel à raça de vossos filhos. Reflito para compreender este problema, mui penosa me pareceu esta tarefa, até o momento em que entrei no vosso santuário e em que me dei conta da sorte que os espera. Sim, vós os colocais num terreno escorregadio, à ruína vós os conduzis. Eis que subitamente se arruinaram, sumiram, destruídos por catástrofe medonha. Como de um sonho ao se despertar, Senhor, levantando-vos, desprezais a sombra deles. Quando eu me exasperava e se me atormentava o coração, eu ignorava, não entendia, como um animal qualquer. Mas estarei sempre convosco, porque vós me tomastes pela mão. Vossos desígnios me conduzirão, e, por fim, na glória me acolhereis. Afora vós, o que há para mim no céu? Se vos possuo, nada mais me atrai na terra. Meu coração e minha carne podem já desfalecer, a rocha de meu coração e minha herança eterna é Deus. Sim, perecem aqueles que de vós se apartam, destruís os que procuram satisfação fora de vós. Mas, para mim, a felicidade é me aproximar de Deus, é pôr minha confiança no Senhor Deus, a fim de narrar as vossas maravilhas diante das portas da filha de Sião.”

Esse hino inicia louvando o Senhor porque Ele é bom com aqueles que são transparentes na vida. Não são duplos, isto é, que se comportam dizendo uma coisa e fazendo outra. Porém, o fiel fica irritado e amargurado vendo esses ímpios malvados tendo uma existência esbanjando riqueza e felicidade e, no entanto, ele lutando para sobreviver. Ele rezando manifesta toda essa preocupação, porque o ímpio se enche de orgulho, estufa o peito e pratica a violência.

O coração do malvado é um vaso cheio de loucuras e a sua boca desafia céu e terra: “dizem então: Porventura Deus o sabe? Tem o Altíssimo conhecimento disto?” No entanto, o justo é colocado à prova e sofre todos os dias a diferença do sucesso do malvado. A segunda parte dos versículos 17 a 20 marca a mudança do salmo. O fiel desse salmo muda de opinião: aquela posição fatalista do infiel que é mais feliz do justo se inverte. Por que? É entrando no santuário que lhe permite de fazer uma experiência mística em que descobre o destino último dos ímpios e dos justos.
Nessa experiência de oração, consegue discernir a verdadeira realidade da humanidade: o malvado não tem futuro e será destruído. Aquela felicidade inicial foi só uma ilusão, um sonho que termina o quanto antes. O justo, no entanto, vive a grande esperança da imortalidade pela comunhão com Deus, Senhor de tudo e de todos. Portanto, é a proximidade com Deus que ajuda compreender a preciosidade da vida dos justos.

E o papa Francisco nos convida a entrar nessa lógica da contemplação no templo com a oração persistente: “Jesus exorta a rezar sem jamais se cansar. Todos experimentamos momentos de cansaço e desânimo, principalmente quando nossa oração parece ineficaz. Mas Jesus nos garante que Deus ouve prontamente seus filhos, mesmo que isso não signifique que o faça nos tempos e nas maneiras que nós queremos. A oração não é uma varinha mágica! Ela ajuda a conservar a fé em Deus e a confiar n’Ele mesmo quando não compreendemos a Sua vontade.”


Bendito seja o senhor! Só ele faz maravilhas!


Todos somos sedentos de justiça, desde o menor deste país até o maior. Encontro a toda hora gente que reclama de uma convivência entre as pessoas marcada pela desconfiança, corrupção e, sobretudo, queixando-se dos governantes e políticos. Aqueles que conduzem o país são continuamente alvo de críticas e queixas que não têm fim. Mas, eu me pergunto: por que chegamos a essa perturbada realidade? Não será essa situação que gera cada vez mais violência? A vida do povo está ameaçada! Será que há solução para isso? As Sagradas Escrituras, como sempre, nos iluminam. O Salmo 71 nos mostra que a justiça é construída com uma relação entre Deus e governante. É essa ligação que nos permite discernir e viver uma realidade de paz. Leia atentamente esse Salmo.

“Ó Deus, confiai ao rei os vossos juízos. Entregai a justiça nas mãos do filho real, para que ele governe com justiça vosso povo, e reine sobre vossos humildes servos com equidade. Produzirão as montanhas frutos de paz ao vosso povo; e as colinas, frutos de justiça. Ele protegerá os humildes do povo, salvará os filhos dos pobres e abaterá o opressor. Ele viverá tão longamente como dura o sol, tanto quanto ilumina a lua, através das gerações. Descerá como a chuva sobre a relva, como os aguaceiros que embebem a terra. Florescerá em seus dias a justiça, e a abundância da paz até que cesse a lua de brilhar. Ele dominará de um ao outro mar, desde o grande rio até os confins da terra. Diante dele se prosternarão seus inimigos, e seus adversários lamberão o pó. Os reis de Társis e das ilhas lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-lhe-ão seus dons. Todos os reis hão de adorá-lo, hão de servi-lo todas as nações. Porque ele livrará o infeliz que o invoca, e o miserável que não tem amparo. Ele se apiedará do pobre e do indigente, e salvará a vida dos necessitados. Ele o livrará da injustiça e da opressão, e preciosa será a sua vida ante seus olhos. Assim ele viverá e o ouro da Arábia lhe será ofertado; por ele hão de rezar sempre e o bendirão perpetuamente. Haverá na terra fartura de trigo, suas espigas ondularão no cume das colinas como as ramagens do Líbano; e o povo das cidades florescerá como as ervas dos campos. Seu nome será eternamente bendito, e durará tanto quanto a luz do sol. Nele serão abençoadas todas as tribos da terra, bem-aventurado o proclamarão todas as nações. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, que, só ele, faz maravilhas. Bendito seja eternamente seu nome glorioso, e que toda a terra se encha de sua glória. Amém! Amém! Aqui terminam as preces de Davi, filho de Jessé.”

Esse salmo foi interpretado na figura do grande rei Salomão, qual exemplo de rei sábio, perfeito e ideal para a condução do povo. É com Salomão que se faz a verdadeira justiça. Quanto seria interessante que os governantes se espelhassem nesse grande rei. Assim sendo, o salmo focaliza, em primeiro lugar, a questão social qual a justiça e a defesa dos pobres. A defesa do pobre é um lugar comum no elogio monárquico oriental, mas em Israel a motivação é de natureza teológica: Deus protege o pobre, qual seu advogado defensor e o rei, como representante de Deus, deve ser garantia dessa proteção.

O rei também é mostrado conforme as estratégias de guerra, o grande triunfador, isto é, o triunfo do rei-messias, o consagrado, que, segundo a lógica do monarquismo, adquiria elementos cósmicos. Todas as nações se dobram ao rei de Israel e no mundo se abre uma nova realidade ascensional de riqueza: “Haverá na terra fartura de trigo, suas espigas ondularão no cume das colinas”. Imagino nos nossos tempos em que os governos buscam praticamente fazer o contrário, isto é, a riqueza está na exploração dos pobres e indefesos. Exatamente ao contrário do que o salmo nos prega.

Por isso, queremos afirmar com o salmo que o reino do rei ideal não tem nenhuma autonomia, mas se funda em Deus. O rei depende de Deus. O rei deve ser assim servidor tanto do Senhor quanto do povo. E a partir dessa realidade que podemos esperar novos rumos dos países e dos governos. Os novos ‘reis’ da terra, portanto, não podem fazer “uma economia idolátrica que precisa sacrificar vidas humanas no altar do dinheiro e da rentabilidade”, disse o papa Francisco. De fato, a idolatria nos afasta de Deus e, assim, não se consegue compreender e viver a maravilha da nossa vida.


I° dia mundial dos pobres


A Igreja católica apostólica romana celebra no dia 19.11.2017 o ‘1° dia mundial dos pobres’. Portanto, todas as igrejas devem celebra-la. O objetivo é motivar, estimular os cristãos a “amar não em palavras, mas com obras e com verdade”. Assim sendo, não podemos viver a nossa vocação cristã com palavras vazias, isto é de boca pra fora. Aqui segue parte do texto de sua Santidade papa Francisco a respeito: “«Quando um pobre invoca o Senhor, Ele atende-o» (Sl 34/33, 7). A Igreja compreendeu, desde sempre, a importância de tal invocação. Possuímos um grande testemunho já nas primeiras páginas do Atos dos Apóstolos, quando Pedro pede para se escolher sete homens «cheios do Espírito e de sabedoria» (6, 3), que assumam o serviço de assistência aos pobres. Este é, sem dúvida, um dos primeiros sinais com que a comunidade cristã se apresentou no palco do mundo: o serviço aos mais pobres. Tudo isto foi possível, por ela ter compreendido que a vida dos discípulos de Jesus se devia exprimir numa fraternidade e numa solidariedade tais, que correspondesse ao ensinamento principal do Mestre que tinha proclamado os pobres bem-aventurados e herdeiros do Reino dos céus (cf. Mt 5, 3).(…)

Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 45). Esta frase mostra, com clareza, como estava viva nos primeiros cristãos tal preocupação. O evangelista Lucas – o autor sagrado que deu mais espaço à misericórdia do que qualquer outro – não está a fazer retórica, quando descreve a prática da partilha na primeira comunidade. Antes pelo contrário, com a sua narração, pretende falar aos fiéis de todas as gerações (e, por conseguinte, também à nossa), procurando sustentá-los no seu testemunho e incentivá-los à ação concreta a favor dos mais necessitados. E o mesmo ensinamento é dado, com igual convicção, pelo apóstolo Tiago, usando expressões fortes e incisivas na sua Carta: «Ouvi, meus amados irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres segundo o mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu aos que O amam? Mas vós desonrais o pobre. Porventura não são os ricos que vos oprimem e vos arrastam aos tribunais? (…) De que aproveita, irmãos, que alguém diga que tem fé, se não tiver obras de fé? Acaso essa fé poderá salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: “Ide em paz, tratai de vos aquecer e matar a fome”, mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará? Assim também a fé: se ela não tiver obras, está completamente morta» (2, 5-6.14-17).(…)

Contudo, houve momentos em que os cristãos não escutaram profundamente este apelo, deixando-se contagiar pela mentalidade mundana. Mas o Espírito Santo não deixou de os chamar a manterem o olhar fixo no essencial. (…)

Não pensemos nos pobres apenas como destinatários duma boa obra de voluntariado, que se pratica uma vez por semana, ou, menos ainda, de gestos improvisados de boa vontade para pôr a consciência em paz. Estas experiências, embora válidas e úteis a fim de sensibilizar para as necessidades de tantos irmãos e para as injustiças que frequentemente são a sua causa, deveriam abrir a um verdadeiro encontro com os pobres e dar lugar a uma partilha que se torne estilo de vida. Na verdade, a oração, o caminho do discipulado e a conversão encontram, na caridade que se torna partilha, a prova da sua autenticidade evangélica. E deste modo de viver derivam alegria e serenidade de espírito, porque se toca com as mãos a carne de Cristo. Se realmente queremos encontrar Cristo, é preciso que toquemos o seu corpo no corpo chagado dos pobres, como resposta à comunhão sacramental recebida na Eucaristia. O Corpo de Cristo, partido na sagrada liturgia, deixa-se encontrar pela caridade partilhada no rosto e na pessoa dos irmãos e irmãs mais frágeis. Continuam a ressoar de grande atualidade estas palavras do santo bispo Crisóstomo: «Queres honrar o corpo de Cristo?Não permitas que seja desprezado nos seus membros, isto é, nos pobres que não têm que vestir, nem O honres aqui no tempo com vestes de seda, enquanto lá fora O abandonas ao frio e à nudez» (Hom. in Matthaeum, 50, 3: PG 58).(…)

Portanto somos chamados a estender a mão aos pobres, a encontrá-los, fixá-los nos olhos, abraçá-los, para lhes fazer sentir o calor do amor que rompe o círculo da solidão. A sua mão estendida para nós é também um convite a sairmos das nossas certezas e comodidades e a reconhecermos o valor que a pobreza encerra em si mesma.(…)

Convido a Igreja inteira e os homens e mulheres de boa vontade a fixar o olhar, neste dia, em todos aqueles que estendem as suas mãos invocando ajuda e pedindo a nossa solidariedade.(…)

Aos irmãos bispos, aos sacerdotes, aos diáconos – que, por vocação, têm a missão de apoiar os pobres –, às pessoas consagradas, às associações, aos movimentos e ao vasto mundo do voluntariado, peço que se comprometam para que, com este Dia Mundial dos Pobres, se instaure uma tradição que seja contribuição concreta para a evangelização no mundo contemporâneo.

Que este novo Dia Mundial se torne, pois, um forte apelo à nossa consciência crente, para ficarmos cada vez mais convictos de que partilhar com os pobres permite-nos compreender o Evangelho na sua verdade mais profunda.”Franciscus

 


Ó meu deus, vós sois o meu auxilio pra toda hora


“Doutor, a minha vida acabou!” Era de manhã cedo quando um senhor procurou a residência de seu médico, todo desesperado. Estava sujo e mal vestido. Chorando, fala para o medico, entregando-lhe uma carta do laboratório: eis aqui a minha condenação! O doutor abre o envelope e vai folheando o resultado das análises do laboratório. Conclusão: detectado um câncer. Então, o paciente, com voz aflita e desesperada, quis entregar mais uma carta das suas últimas vontades. Porém, o sábio médico começou a lhe dizer que tudo isso não era o fim, mas sim que se podia combater com os recursos que a medicina sabia lhe propor. Tentou acalma-lo e devagar conseguiu lhe fazer entender que hoje em dia é possível vencer tudo isso. Imagino quantas pessoas se encontram nessas situações de vida e entram no desespero total. O que fazer perante uma situação como essa? A Palavra de Deus nos ajuda a respeito. O salmo 70 das Sagradas Escrituras nos diz:

“É em vós, Senhor, que procuro meu refúgio; que minha esperança não seja para sempre confundida. Por vossa justiça, livrai-me, libertai-me; inclinai para mim vossos ouvidos e salvai-me. Sede-me uma rocha protetora, uma cidadela forte para me abrigar: e vós me salvareis, porque sois meu rochedo e minha fortaleza. Meu Deus, livrai-me das mãos do iníquo, das garras do inimigo e do opressor, porque vós sois, ó meu Deus, minha esperança. Senhor, desde a juventude vós sois minha confiança. Em vós eu me apoiei desde que nasci, desde o seio materno sois meu protetor; em vós eu sempre esperei. Tornei-me para a turba um objeto de admiração, mas vós tendes sido meu poderoso apoio. Minha boca andava cheia de vossos louvores, cantando continuamente vossa glória. Na minha velhice não me rejeiteis, ao declinar de minhas forças não me abandoneis. Porque falam de mim meus inimigos e os que me observam conspiram contra mim, dizendo: Deus o abandonou; persegui-o e prendei-o, porque não há ninguém para o livrá-lo. Ó Deus, não vos afasteis de mim. Meu Deus, apressai-vos em me socorrer. Sejam confundidos e pereçam os que atentam contra minha vida, sejam cobertos de vergonha e confusão os que procuram minha desgraça. Eu, porém, hei de esperar sempre, e, dia após dia, vos louvarei mais. Minha boca proclamará vossa justiça e vossos auxílios de todos os dias, sem poder enumerá-los todos. Os portentos de Deus eu narrarei, só a vossa justiça hei de proclamar, Senhor. Vós me tendes instruído, ó Deus, desde minha juventude, e até hoje publico as vossas maravilhas. Na velhice e até os cabelos brancos, ó Deus, não me abandoneis, a fim de que eu anuncie à geração presente a força de vosso braço, e vosso poder à geração vindoura, e vossa justiça, ó Deus, que se eleva à altura dos céus, pela qual vós fizestes coisas grandiosas. Senhor, quem vos é comparável? Vós me fizestes passar por numerosas e amargas tribulações para, de novo, me fazer viver e dos abismos da terra novamente me tirar. Aumentai minha grandeza, e de novo consolai-me. Celebrarei então vossa fidelidade nas cordas da lira, eu vos cantarei na harpa, ó Santo de Israel. Meus lábios e minha alma que resgatastes exultarão de alegria quando eu cantar a vossa glória. E, dia após dia, também minha língua exaltará vossa justiça, porque ficaram cobertos de vergonha e confusão aqueles que buscavam minha perdição.”

O fiel que aqui faz a sua oração manifesta toda a sua tristeza e amargura das provas da vida presente e revela, ao mesmo tempo, sua saudade ao passado de paz e tranquilidade. A situação que ele está passando parece uma catástrofe total, mas tem um único fio de esperança que lhe resta: a confiança em Deus. Por isso, não se cansará nunca de louva-Lo. Esse poder ninguém pode lhe tirar. Nenhum opressor ou perseguidor da sua vida. Portanto, a confiança em Deus é o seu refúgio que lhe resta, para sempre. O fiel aqui nos dá um testemunho da espiritualidade da velhice, uma velhice, porém, não tanto cronológica, mas quanto uma fase existencial.

O que é importante em tudo isso é a descoberta de valores que marcam a vida pessoal. E quais são os valores a serem perseguidos? Como nos testemunha esse hino, o primeiro valor é a confiança em Deus, nosso verdadeiro refúgio. Tudo dependemos Dele. O segundo valor é ter essa capacidade de mantermos fiéis a Ele não obstante as provas da vida, por quanto duras sejam. O terceiro valor é a esperança em que se deposita toda a certeza que Deus não abandona as suas criaturas. E por último tem o valor da música, do louvor, da beleza que resplandece a vida. E a velhice nos ensina muita coisa a respeito, pela sua experiência de vida. E o papa Francisco nos garante que “A velhice é a sede do conhecimento.”