Deus julga as pessoas

comentários

Umas das experiências mais tristes do ser humano é quando ele se sente só, porque foi julgado e difamado. Quantas vezes cada um de nós passa por essa experiência terrível de ter sido atacado e consequentemente isolado? Chega ao ponto de não encontrar uma alma viva que te possa socorrer e ajudar. Ao máximo, constatar os balanços de cabeças para confirmar: ‘pobre coitado!’. Uma pessoa denegrida, julgada e abandonada é a destruição da sua humanidade. Mas o que resta a uma pessoa que passa por esses momentos tão cruéis? Onde buscar abrigo, compreensão? Nem os familiares ou colegas de profissão estão próximos. Um deserto tomou conta da pessoa. O que fazer em circunstâncias como essas? Será que há saída? É verdade que tem gente que não consegue enxergar mais nada e se entrega ao ‘vazio’. Porém, eu acredito firmemente que também nesses momentos tão cruciais é possível encontrar uma saída relevante que ajuda a superar tudo. Qual é? Quem nos orienta mais uma vez é a Sagrada Escritura, através do salmo 34. Leia atentamente:

“Lutai, Senhor, contra os que me atacam; combatei meus adversários. Empunhai o broquel e o escudo, e erguei-vos em meu socorro. Brandi a lança e sustai meus perseguidores. Dizei à minha alma: ‘Eu sou a tua salvação’. Sejam confundidos e envergonhados os que odeiam a minha vida, recuem humilhados os que tramam minha desgraça. Sejam como a palha levada pelo vento, quando o anjo do Senhor vier acossá-los. Torne-se tenebroso e escorregadio o seu caminho, quando o anjo do Senhor vier persegui-los, porquanto sem razão, me armaram laços; para me perder, cavaram um fosso sem motivo. Venha sobre eles de improviso a ruína; apanhe-os a rede por eles mesmos preparada, caiam eles próprios na cova que abriram. Então, a minha alma exultará no Senhor, e se alegrará pelo seu auxílio. Todas as minhas potências dirão: ‘Senhor, quem é semelhante a vós? Vós que livrais o desvalido do opressor, o mísero e o pobre de quem os despoja’. Surgiram apaixonadas testemunhas, interrogaram-me sobre faltas que ignoro, pagaram-me o bem com o mal. Oh, desolação para a minha alma! Contudo, quando eles adoeciam, eu me revestia de saco, extenuava-me em jejuns e rezava. Andava triste, como se tivesse perdido um amigo, um irmão; abatido, me vergava como quem chora por sua mãe. Quando tropecei, eles se reuniram para se alegrar; eles me dilaceraram sem parar. Puseram-me à prova, escarneceram de mim, rangeram os dentes contra mim. Senhor, até quando assistireis impassível a este espetáculo? Arrancai desses leões a minha vida, livrai-me a alma de seus rugidos. Vou render-vos graças publicamente, eu vos louvarei na presença da multidão. Não se regozijem de mim meus pérfidos inimigos, nem tramem com os olhos os que me odeiam sem motivo, pois nunca têm palavras de paz: e armam ciladas contra a gente tranquila da terra, escancaram para mim a boca, dizendo: ‘Ah! Ah!’ Com os nossos olhos, nós o vimos! Vós também, Senhor, vistes! Não guardeis silêncio. Senhor, não vos aparteis de mim. Acordai e levantai-vos para me defender, ó meu Deus e Senhor meu, em prol de minha causa! Julgai-me, Senhor, segundo vossa justiça. Ó meu Deus, que não se regozijem à minha custa! Não pensem em seus corações: ‘Ah, tivemos sorte!’ Não digam: ‘Nós o devoramos!’ Sejam confundidos todos juntos e se envergonhem os que se alegram com meus males, cubram-se de pejo e ignomínia os que se levantam orgulhosamente contra mim. Mas exultem e se alegrem os favoráveis à minha causa e digam sem cessar: ‘Glorificado seja o Senhor, que quis a salvação de seu servo!’ E a minha língua proclamará vossa justiça, dando-vos perpétuos louvores.”

O autor desse salmo desabafa, na prática, a traição que recebeu. Foi um complô bem armado para condená-lo. Ele foi conduzido perante à magistratura corrupta baseado sobre falsas acusações: “os que tramam minha desgraça… interrogaram-me sobre faltas que ignoro”. Perante essa triste farsa processual, sobretudo porque os que o acusam são ex-amigos, não lhe resta que buscar o verdadeiro juiz, Deus, para que possa desvendar a injustiça que foi submetido: “Senhor, vistes!… levantai-vos para me defender”. Para isso, o autor proclama palavras de fogo, de total desabafo, pedindo a Deus: “Empunhai o broquel e o escudo” para socorrê-lo e define os inimigos como fossem animais que devoram as suas vítimas quando acusam os inocentes de crimes nunca cometidos.
É uma situação trágica, de grande tensão que somente Deus pode resolver tomando a sua defesa. Assim sendo, Deus não fica indiferente perante a corrupção, a injustiça da humanidade. Recorrer a Deus que é um juiz justo e imparcial. É Ele o supremo juiz. Então, o justo poderá sofrer injustiças entre os homens, mas tem a quem ele apelar para revelar a verdade. Consequência de tudo isso, o justo eleva um hino de alegria pela felicidade de ter encontrado de ser absolvido pela justiça de Deus. Isto é, a humanidade pode confiar em uma justiça transparente, justa que é de Deus. E o papa Francisco acrescenta: “Nós nos colocamos no lugar de Deus”, mas “o nosso julgamento é um julgamento pobre”, nunca “pode ser um verdadeiro julgamento porque em nosso julgamento falta a misericórdia. E quando Deus julga, julga com misericórdia”.


Bendirei o senhor em todo tempo!

comentários

A experiência da vida humana nos leva a refletir bastante sobre a precariedade e instabilidade da nossa vida nesse pequeno planeta. Somos, ao final, pobres. Não somos os donos da nossa vida, por quanto possamos nos desdobrar e nos comprometer com ela. Toda a labuta cotidiana nos revela a nossa finitude. A limitação da nossa vida nos leva a nos questionar com toda a nossa profundidade e seriedade: quem nos pode ajudar a superar essa limitada vida humana? De onde pode nos vir uma esperança que supere essa nossa caducidade, contrariedades? Essa vida, que acreditamos nela, não pode se limitar a fugacidade, aos nossos sofrimentos, dores e angústias. Não pode se reduzir a um simples tempo cronológico que é determinado pela morte. O salmo 33 das Sagradas Escrituras pode nos iluminar a respeito. Leia atentamente:

“Quando simulou alienação na presença de Abimelec e, despedido por ele, partiu. Bendirei continuamente ao Senhor, seu louvor não deixará meus lábios. Glorie-se a minha alma no Senhor; ouçam-me os humildes, e se alegrem. Glorificai comigo ao Senhor, juntos exaltemos o seu nome. Procurei o Senhor e ele me atendeu, livrou-me de todos os temores. Olhai para ele a fim de vos alegrardes, e não se cobrir de vergonha o vosso rosto. Vede, este miserável clamou e o Senhor o ouviu, de todas as angústias o livrou. O anjo do Senhor acampa em redor dos que o temem, e os salva. Provai e vede como o Senhor é bom, feliz o homem que se refugia junto dele. Reverenciai o Senhor, vós, seus fiéis, porque nada falta àqueles que o temem. Os poderosos empobrecem e passam fome, mas aos que buscam o Senhor nada lhes falta. Vinde, meus filhos, ouvi-me: eu vos ensinarei o temor do Senhor. Qual é o homem que ama a vida, e deseja longos dias para gozar de felicidade? Guarda tua língua do mal, e teus lábios das palavras enganosas. Aparta-te do mal e faze o bem, busca a paz e vai ao seu encalço. Os olhos do Senhor estão voltados para os justos, e seus ouvidos atentos aos seus clamores. O Senhor volta a sua face irritada contra os que fazem o mal, para apagar da terra a lembrança deles. Apenas clamaram os justos, o Senhor os atendeu e os livrou de todas as suas angústias. O Senhor está perto dos contritos de coração, e salva os que têm o espírito abatido. São numerosas as tribulações do justo, mas de todas o livra o Senhor. Ele protege cada um de seus ossos, nem um só deles será quebrado. A malícia do ímpio o leva à morte, e os que odeiam o justo serão castigados. O Senhor livra a alma de seus servos; não será punido quem a ele se acolhe.”

A narração do salmo sobre a experiência próxima de Deus é vivida por aqueles que temem a Deus. Esses que temem a Deus confiam totalmente a Ele, colocam a própria vida nas mãos de Deus, sem precisar buscar estratégias de violências ou de astúcias. Efetivamente, o anjo do Senhor, biblicamente, quer dizer a presença de Deus mesmo, acampa ao redor do seu fiel e o salva. Porém, a parte mais forte da confissão do autor desse salmo encontra-se nessas palavras resumidas: “Este pobre grita e o Senhor o escuta”. Essa confiança permite-lhe de encarar a vida de maneira esperançosa e corajosa.

E o justo aqui é representado como uma cidade que está por ser atacada por um exército poderoso. Porém, Deus envia em sua ajuda uma milícia celeste que garante a sua segurança, a sua proteção. Essa ajuda de Deus, diz o salmo que “Os poderosos empobrecem e passam fome, mas aos que buscam o Senhor nada lhes falta”. Perante a ação de Deus, o mal não consegue prevalecer, é derrotado. A ação de Deus na vida do ‘justo’ é um triunfo, garantia de defesa de todos os ataques dos inimigos. Livra-o de toda angústia. A justiça divina está acima de qualquer projeto humano ou estratégias humanas de poder.

A segunda parte do salmo é exaltação da sabedoria. É um pai que recomenda ao filho uma aula de vida com valores universais: “Vinde, meus filhos, ouvi-me: eu vos ensinarei o temor do Senhor”. O temor bíblico aqui tem uma série de sentimentos, inclusive o amor. Interessante o apelo que segue: ‘buscar a paz e persegui-la’. Este é o desejo fundamental de Deus e que faz parte da sua natureza. O Senhor tem ternura para as pessoas da paz. Perante a violência iníqua dos poderosos, Deus intervém e se torna próximo e salva os humilhados e os que temem o Senhor.
E concluindo o papa Francisco afirmou: “Muitas vezes, o Senhor deve fazer o mesmo conosco, através das provações, muitas provações. Ele obriga aquele coração, aquela alma a crer que existe gratuidade nele, que o seu dom é grátis, que a salvação não se compra: é um grande presente. Com efeito, o amor de Deus é ‘o maior dom’”.


As novidades estimulam as crianças

comentários

Desde muito cedo, as crianças têm uma própria representação do mundo, um jeito de perceber e entender a realidade existente. Os pequenos são capazes de notar quando um objeto se comporta de maneira natural ou completamente imprevista. Isto nos confirma pesquisas e estudos sobre o mundo infantil. Portanto, bebês com menos de um ano são capazes de fazer previsões do mundo que os circundam. E quando essas previsões não correspondem às perspectivas deles, ficam surpreendidos. Como? Os olhos se arregalam, fixam o objeto e depois mudam de expressão. E como reagem as crianças quando são atordoadas por esses conhecimentos?

Quando isso ocorre, elas aproveitam para apreender mais sobre o objeto em questão e também explorar mais o mundo que está ao redor delas. Praticamente, comportam-se como minis pesquisadores, tentando confirmar suas expectativas. No final das contas, poderíamos dizer: as hipóteses que se formularam no próprio mundo intelectual buscam próprias confirmações. As crianças escondem nos cérebros segredos que são instrumentos de aprendizagem. Um estudo feito por duas pesquisadoras americanas, Aimee E. Stahl e Lisa Feigenson, e publicado na prestigiada revista científica ‘Science’, confirma tudo isso.

Ligadas à Universidade Johns Hopkins, elas observaram o processo do conhecimento das crianças, que têm uma pequena bagagem de experiência, mas que ainda não aprenderam a falar. De fato, essa curiosidade existe em todos nós adultos em saber até que ponto a criança compreende ou quer compreender. Até que ponto entende as coisas. Em suma, todos nós queremos nos colocar no mundo da compreensão da criança para ter uma interatividade mais completa. Assim declarou a pesquisadora Lisa Feigenson: “Para as crianças, o mundo é um lugar incrivelmente complexo e cheio de estímulos dinâmicos. Como eles sabem o que focar e o que mais aprender e, no entanto, o que ignorar?”

Mais adiante, a pesquisadora diz: “A nossa pesquisa nos sugere que as crianças usam o que já sabem do mundo para elaborar as previsões. Quando estas previsões se demonstram erradas, as crianças usam esta surpresa como uma especial oportunidade de aprendizagem.” Ela esclarece se as crianças têm dificuldades de descrever o mundo, o que as circundam, porém, têm um modo próprio delas comunicarem aquilo que conhecem e aquilo que não conhecem, através do olhar. É o olhar delas que revela o conhecimento. De fato, os cientistas, há muito tempo, sabem que as crianças olham por mais tempo e com mais insistência algo que os adultos julgam surpreendente e que se comporta de maneira inesperada.

Uma surpresa, nesse sentido, é ser tudo isso que contradiz as expectativas, como por exemplo, dizem os cientistas, uma bola que cai numa descida de um morro e que, no entanto, no lugar de ser bloqueada por um muro parece atravessa-lo. A partir dessa imagem, Stahl e Feigenson tentaram entender o que ia acontecer ao nível de conhecimento depois de um evento surpreendente no cérebro das crianças de apenas 11 meses. Resposta: algumas crianças mostraram uma sequencia esperada, isto é, que a bola que desce se bloqueia quando alcança um muro; porém, outras, o evento inesperado, isto é a bola que parecia atravessar o muro.

Depois disso, as pesquisadoras ensinaram às crianças que a bola emitia também um som se sacudida, observando que as crianças que foram surpreendidas aprenderam mais que as outras. Quando as pesquisadoras no lugar de ensinar deixavam livres as crianças de brincar com a mesma bola e foram surpreendidas pelo evento (atravessar, por exemplo, o muro) se entretinham mais com a bola quase a querer perscrutar os tais secretos, o fenômeno. No entanto, as crianças que tinham visto o evento típico da bola bloqueada pelo muro não mostravam preferência pela bola, não davam muita atenção a ela, contrariamente daquelas ficaram surpreendidas.

O que quer dizer tudo isso? As pesquisadoras Stahl e Feigenson chegaram à conclusão que os eventos que contradizem as previsões, as surpresas, são uma oportunidade para as crianças apreenderem, e não em maneira reflexiva, mas com comportamentos que buscam de compreender os aspectos que estão em desacordo com as expectativas. Doutora Feigenson afirma: “Quando as crianças são surpreendidas aprendem muito melhor, como se quisessem compreender algo melhor.” Creio que isto nos ajude como melhor nos relacionar com as crianças em relação à educação como um todo.


Celebração do Círio (II)

comentários

Continuando a nossa reflexão sobre a religiosidade testemunhada pelo nosso Círio de Nazaré, qual é o pensamento da Igreja sobre a piedade popular? O objetivo da Igreja é aquele de evangelizar e não de civilizar. Vários pesquisadores questionaram-se a respeito disso, como no caso do Gallini, (Forme di trasmissione orale e scritta nella religione popolare, em “Ricerche di Storia Sociale e Religiosa”, Nuova Serie, 11, Roma 1977, p. 99), que partindo da constatação que cultura e classe social não coincidem necessariamente e afirma: “É uma constatação que toma em consideração alguns fenômenos que são tão evidentes que não podem ser negados: sobretudo o fato que muitos institutos culturais, por tradição indicados como populares porque frequentados pelas massas simples e operárias, são também fruídos por outras camadas sociais, incluindo a mesma burguesia. Podem ver, por exemplo, a uma festa participam todo tipo de classe social, misturando-se cada classe social. Repensar sobre este fenômeno pode contribuir a levantar mais dúvidas sobre os riscos de um populismo demais fácil e atual. Mas como repensar em termos de classe estas evidencias?”

O Sínodo dos Bispos de 1974 tratou em particular desse tema e assim pronunciou-se: “A evangelização acha já um fundo de religiosidade popular enraizado sobre as naturais aspirações à bondade e à justiça e isso devido, sobretudo, à obra evangelizadora das épocas passadas. Entendemos por religiosidade popular a maneira como o cristianismo encarna-se nas diversas culturas e etnias e é profundamente vivida e manifesta-se ao povo. A religiosidade popular constitui o verdadeiro ponto de partida da evangelização, com os seus bons elementos de fé autentica que precisa ser purificada, interiorizada, amadurecida e vivida cotidianamente”.

Os mesmos papas fazem-se promotores à devoção à Maria e a todas as formas marianas. Continuando S. João Paulo II: “não serão nunca esquecidos os ensinamentos do meu predecessor Paulo VI, que nas suas maravilhosas Exortações Apostólicas ‘Signum Magnum’ e ‘Marialis Cultus’, deixou um monumento da sua devoção e do seu amor a Maria e uma síntese estupenda, completa das motivações bíblicas, teológicas e litúrgicas, que devem guiar o Povo de Deus no incentivo contínuo do culto divino pra aquela que é Mãe de Deus, Mãe nossa, Mãe da Igreja”. Em poucas palavras, parece-nos que esse seja o pensamento do magistério eclesiástico. Bem aventurado Paulo VI na sua Encíclica ¨Evangelii Nuntiandi¨ fala desse tema e apresenta brevemente a relação entre evangelização e sacramentos. Beato Paulo VI afirma também que não deve-se opor um ao outro, como, às vezes, pode acontecer, mas na verdade conduzir os cristãos “a viver os Sacramentos como verdadeiros Sacramentos da fé, e não recebê-los passivamente ou a subi-los”.

Portanto, parece indicativa a conclusão e as diretrizes e também o pensamento da Igreja sobre tal aspecto que o papa Paulo VI deu à sua Exortação Apostólica: “Nos confrontos dessa realidade (religiosidade popular) assim rica e no mesmo tempo assim vulnerável, ele acolheu, com grande sensibilidade, os valores inegáveis e deseja que os chefes responsáveis das comunidades eclesiais superem os ’riscos de anomalia’, tomando uma direção tal que a religiosidade popular possa deixar cada vez mais, para as nossas massas, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo”.

Beato papa Paulo VI: “Nos confrontos dessa realidade (religiosidade popular), assim rica e ao mesmo tempo vulnerável, ele acolheu, com grande sensibilidade, os valores inegáveis e deseja que os chefes responsáveis das comunidades eclesiais superem os ‘riscos de anomalia’, tomando uma direção tal que a religiosidade popular possa deixar cada vez mais, para as nossas massas, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo”.

Para chegar a essa reflexão, Beato Paulo VI indica quatro pontos concisos, os limites da religiosidade popular: 1°. É aberta a penetração de muitas deformações; 2°. É exposta ao perigo das superstições; 3°. Fica muitas vezes ao nível das manifestações culturais; 4°. Pode levar às formações de seitas e colocar em perigo a verdadeira comunidade eclesial.

Da mesma forma, enumera os valores positivos para uma pedagogia de evangelização que são: 1°. Manifestação de uma sede de Deus que somente os simples e os pobres podem conhecer; 2°. Capacidade de generosidade e de sacrifício até ao heroísmo; 3°. Comporta um grande sentido dos atributos de Deus, a paternidade, a providência, a presença; 4°. Alimenta atitudes interiores como a sabedoria, o sentido da cruz na vida cotidiana: o despojamento, a abertura aos outros, a devoção.

Em síntese, qual é a interpretação e avaliação do conceito de religiosidade popular? Assim escreve A. Vauchez: “A religião popular é uma noção mal definida para ser interpretada de várias maneiras e isso comporta a contrastes e também a oposições entre teses dificilmente conciliáveis”. (FA. ISAMBERT, Religion populaire, sociolo¬gie, histoire, et folklore, em “Archives des Sciences Sociales des Reli¬gions, 43/2 (Abril-junho 1977), p. 183”).

É comum ver como, às vezes, cruzam-se e misturam-se os sentidos dos termos na vida das pessoas simples e até de pessoas esclarecidas. A consequência disso é a prática religiosa que se torna mais sincretista.

Por conseguinte, não se perca nenhuma ocasião para esclarecer, purificar e robustecer a fé do povo fiel, mesmo quando de cunho nitidamente popular. O fato de essa fé ocupar lugar proeminente em Nossa Senhora, como, aliás, sucede na totalidade da fé cristã, não exclui, nem sequer ofusca a mediação universal e insubstituível de Cristo, o qual permanece sempre o caminho por excelência para o encontro com Deus, como ensina o Concílio Vaticano II.


Celebração do cirio

comentários

Mais um Cirio entre nós. Todos estamos envolvidos nesta mega manifestação religiosa paraense. Quais considerações teológicas e comunicativas podemos fazer perante este evento? A partir das Sagradas Escrituras, podemos tentar resgatar como o povo de Deus procede para se aproximar cada vez mais de Deus. Uma dessas realidades é o templo. De fato, ao novo Povo de Deus – diferentemente do Antigo – é estranho o conceito de limitar a presença e a função de Deus unicamente à dimensão do templo. O santuário, no conceito cristão, é o lugar onde mais intensamente experimenta-se a presença e a proximidade de Deus, lugar de graça e centro de fé. A respeito da santidade do lugar, essa é entendida como o resultado da união entre Deus e a comunidade na fé e na oração. Como para as grandes religiões, não é surpresa que também o cristianismo tenha os seus lugares sagrados. Assim, inúmeros templos e santuários surgiram para despertar e satisfazer o sentimento religioso. Bem cedo começaram a tornar-se meta de devoção alguns lugares sagrados da Palestina, ligados à vida terrena de Jesus e à Mãe santíssima.

Depois dos primeiros três séculos de peregrinações à Terra Santa, os fiéis puseram a própria atenção no Ocidente e, em particular, à Cidade Eterna, Roma, que se tornou meta de peregrinações do lugar dos santos mártires.

Documentos atestam que a Igreja Ocidental possui santuários marianos, no verdadeiro sentido da palavra, a partir dos séculos XI-XII. O código de direito canônico define o santuário como “a igreja ou outro lugar sagrado aonde os fiéis, por um motivo peculiar de piedade, vão a peregrinação com a aprovação do ordinário do lugar (can.1230)”.

No ano 1956, uma carta dos estudos da Congregação dos Seminários e das Universidades descrevia os templos como igrejas ou edifícios sagrados destinados ao exercício do culto público e da piedade, que se manifesta por meio de uma imagem venerada, por um milagre que aconteceu, por uma relíquia guardada ou por uma indulgência que se pode adquirir. Nesse sentido, os fiéis fazem as peregrinações nesses locais para pedir graças e fazer promessas. Temos, a partir disso, a piedade popular.

O termo piedade, assim como hoje estamos usando, não reflete o sentido em latim ao qual fazemos referência agora, para tentar buscar uma resposta ao conceito de piedade. Piedade provem do latim pietas que tem uma abrangência de significados muito mais vastos que o nosso e aplica-se a várias categorias e que, por sua vez, podem ser subdivididas em ciclos de deveres a cumprirem-se para Deus e para as criaturas. Além do mais, é bom salientar que também indica um tipo de comportamento de Deus em relação às suas criaturas, particularmente, ao ser humano. Em São Tomás, o termo pietas exprime o dom do Espírito Santo.

Esse termo, em seguida, passou de um comportamento mais amplo para uma atitude bem interior, isto é, uma maneira de relacionar-se com Deus. Hoje, essa devoção foi bem longe e assim, quando se fala de piedade, entende-se o sentido exageradamente pio, pietismo, de piedade hipócrita, de não verdadeiramente pio. Mas, na verdade, o que é a verdadeira piedade cristã?
Visto que o cristão não se limita somente a agir, mas é realmente pio sempre em toda a sua vida, a piedade é a realização espiritual, ou seja, um ato animado pela fé, esperança e caridade ou, como diz São Paulo, “Recapitular em Cristo todas as coisas, aquela do céu como aquela da terra (cf. Ef 1,3-10)”.

A piedade expressa uma virtude de religião que é própria de fazer culto. A nossa vida se manifesta mediante o culto. Os teólogos concordam com a afirmação de S. João Damasceno, o qual define o culto “uma espécie de submissão em reconhecimento da superioridade e excelência de alguém que se presta homenagem e se cultiva para os atos religiosos”.

O culto, por sua vez, divide-se no interior e exterior. Aquele interior é a manifestação da “pietas”, que sai do fundo da alma e toma forma numa linguagem inspirada e direta da vontade e do coração. E a razão exprime a Deus a submissão: a veneração da alma.

E o papa S. João Paulo II nos diz: “A busca de Deus, ligada ao modo de ser e à cultura de cada povo e, não raro, a estados de ânimo emocionais, nem sempre apresentou-se bem apoiada numa adesão de fé. Pode até acontecer de não estar devidamente separada de elementos estranhos à religião. No entanto, essa busca de Deus é algo considerado, por vezes, rico de valores a aproveitar. Embora precisando ser esclarecida, guiada e purificada, a religiosidade popular, ligada como norma à devoção a Nossa Senhora, traduz geralmente ‘uma certa sede de Deus’, sendo como lhe quis chamar o meu predecessor Paulo VI ‘piedade dos pobres e dos simples’”.

Assim, não é necessariamente um sentimento vago ou uma forma inferior de manifestação religiosa. Antes, contém, com frequência, um profundo sentido de Deus e dos seus atributos, como a paternidade, a providência, a presença amorosa e a misericórdia. A par da religião do povo, é corrente também nos centros de culto mariano e nos santuários muito concorridos, verificar-se, por um motivo ou por outro, a presença de pessoas que pertencem ou não ao grêmio da Igreja, ou nem sempre permaneceram fiéis aos compromissos e à prática da vida cristã, ou ainda, tais pessoas vêm guiadas por uma visão incompleta da fé que professam.
Sábado próximo continuaremos com a segunda parte dessa reflexão.


Deus cria e conduz a história

comentários

Nossa história não é uma história qualquer. Nós que acreditamos em Deus reconhecemos que essa nossa história lhe pertence. Tendo essa confiança, podemos enxergar a nossa realidade de maneira diferente. Podemos acreditar além daquilo que raciocinamos. Os nossos horizontes são infinitos como é infinito o nosso Deus. Por tudo isso, tornamo-nos pessoas de esperança e de alegria. Esse salmo 32, das Sagradas Escrituras, permite-nos aprofundar a verdade da nossa vida e nos alegrar com ela. Leia atentamente a profundeza dessas palavras.

“Exultai no Senhor, ó justos, pois aos retos convém o louvor. Celebrai o Senhor com a cítara, entoai-lhe hinos na harpa de dez cordas. Cantai-lhe um cântico novo, acompanhado de instrumentos de música, porque a Palavra do Senhor é reta, em todas as suas obras resplandece a fidelidade: ele ama a justiça e o direito, da bondade do Senhor está cheia a terra. Pela Palavra do Senhor foram feitos os céus, e pelo sopro de sua boca todo o seu exército. Ele junta as águas do mar como num odre, e em reservatórios encerra as ondas. Tema ao Senhor toda a terra; reverenciem-no todos os habitantes do globo. Porque ele disse e tudo foi feito, ele ordenou e tudo existiu. O Senhor desfaz os planos das nações pagãs, reduz a nada os projetos dos povos. Só os desígnios do Senhor permanecem eternamente e os pensamentos de seu coração por todas as gerações. Feliz a nação que tem o Senhor por seu Deus, e o povo que ele escolheu para sua herança. O Senhor olha dos céus, vê todos os filhos dos homens. Do alto de sua morada observa todos os habitantes da terra, ele que formou o coração de cada um e está atento a cada uma de suas ações. Não vence o rei pelo numeroso exército nem se livra o guerreiro pela grande força. O cavalo não é penhor de vitória nem salva pela sua resistência. Eis os olhos do Senhor pousados sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua bondade, a fim de livrar-lhes a alma da morte e nutri-los no tempo da fome. Nossa alma espera no Senhor, porque ele é nosso amparo e nosso escudo. Nele, pois, se alegra o nosso coração, em seu santo nome confiamos. Seja-nos manifestada, Senhor, a vossa misericórdia, como a esperamos de vós.”

Esse hino, como você percebeu, é dirigido ao nosso Deus, que é o Senhor da história e o Criador do universo. É Ele que guia a história e, sobretudo, nesse caso, de Israel. É um canto que exalta o projeto de Deus, o seu Reino. O autor o proclama como um cântico novo. O que significa isso? Porque a sua declamação está cheia de fé, cheia de esperança. As palavras que pronuncia se revestem de alegria e de maneira inédita. Tornou-se com esse fervor como fosse original, pronunciado pela primeira vez, no entanto, é antigo. Parecido com a gente, quantas vezes temos rezado uma oração rotineira, mas aquele dia rezou tão intensamente como se nunca tivesse rezado. Parecia de ter rezado pela primeira vez. Além do mais, ‘novo’ é também o canto quando percebe Deus como salvador na história dos seres humanos, pelo seu amor. Enfim ‘novo’ é o canto que se torna glorificação da salvação que vem pelo Reino de Deus.

Em resumo, os primeiros versículos são um convite ao louvor; e a parte central do salmo é dedicada à celebração da palavra criadora de Deus, a exaltação da palavra providente na história e a palavra que age tanto na história quanto no universo. O autor proclama a palavra de Deus como a razão de ser e de estar acima de todos os eventos da vida. E como antítese disso, o fiel antepõe os projetos dos poderosos do mundo que com as suas manobras sibilinas querem determinar a história da humanidade. Essas ilusões do poder humano se dissolvem ao longo da história. Porém, o desígnio divino vai confirmando a sua eficácia e justiça.

Esse projeto de Deus, que não pode ser confundido com o dos homens, é um projeto sem fim que subsiste desde sempre. É também um projeto histórico que põe ao centro a eleição de Israel. É um projeto dinâmico o de Deus, que abraça o cosmo todo, toda a humanidade. E o salmo continua dizendo que Deus, que reside no céu, do alto enxerga todos os planos dos homens, enxerga todas as suas loucuras e discerne todos os seus segredos. E termina o hino com uma antífona de louvor e agradecimento ao Senhor da vida. É Ele a verdadeira história da humanidade.

E o papa Francisco nos convida através da sua homilia de 14.04.2013 a “adorar o Senhor quer dizer que diante Dele nós estamos convencidos que Ele é o único Deus, o Deus da nossa vida, da nossa história… Isto tem uma consequência na nossa vida, isto supõe se despojar de muitos ídolos pequenos e grandes que nós temos e que nos impedem de adorar o Senhor.”


Feliz aquele cujo pecado foi perdoado

comentários

Quem realmente acredita e tem fé em Deus reconhece que o maior perigo da vida é o pecado. Infelizmente, a sociedade que parece dar preferência ao puro materialismo, à ganância, ao poder como verdadeiras opções de garantias de vida nem percebe a presença do pecado nem sabe o que é ou não o reconhece. Faz de conta que não existe. Pensamentos como esses refletem uma sociedade concentrada na materialidade. Tudo em função daquilo que se consome. E a felicidade consiste somente em ter cada vez mais para consumir. Uma ótica como essa não permite discernir a vida como um todo, na sua objetividade. É difícil, assim, fazer uma experiência além da matéria, reconhecer a vida como além daquilo que enxergamos. Deus, assim, não tem lugar na ‘nossa mesa’. Mas aquele que busca a sua vida em Deus reconhece o quanto estamos longe Dele ou falhamos com Ele. E aí sente o peso do pecado. Não por acaso, os santos se acham os maiores pecadores do mundo, porque justamente experimentam o quanto é grande a incapacidade de seguir a Deus. A leitura do salmo 31 das Sagradas Escrituras nos ilumina a respeito disso:

“Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido. Feliz o homem a quem o Senhor não argui de falta, e em cujo coração não há dolo. Enquanto me conservei calado, mirraram-se-me os ossos, entre contínuos gemidos. Pois, dia e noite, vossa mão pesava sobre mim; esgotavam-se-me as forças como nos ardores do verão. Então, eu vos confessei o meu pecado, e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniquidade. E vós perdoastes a pena do meu pecado. Assim também todo fiel recorrerá a vós, no momento da necessidade. Quando transbordarem muitas águas, elas não chegarão até ele. Vós sois meu asilo, das angústias me preservareis e me envolvereis na alegria de minha salvação. Vou te ensinar, dizeis, vou te mostrar o caminho que deves seguir; vou te instruir, fitando em ti os meus olhos: não queiras ser sem inteligência como o cavalo, como o muar, que só ao freio e à rédea submetem seus ímpetos; de outro modo não se chegam a ti. São muitos os sofrimentos do ímpio. Mas quem espera no Senhor, sua misericórdia o envolve. Ó justos, alegrai-vos e regozijai-vos no Senhor. Exultai todos vós, retos de coração.”

O fiel desse salmo reconhece que o pecado, que ameaça a vida, pesa fortemente na consciência da pessoa e esgota as suas forças. O pecado atinge até o físico. Mas aquilo que o autor dessa oração quer evidenciar é o aspecto positivo do perdão, e por isso aconselha qual é o verdadeiro rumo que o ser humano deve percorrer: “vou te mostrar o caminho que deves seguir”. Assim sendo testemunha o suplicante que é oportuno agradecer constantemente a Deus e convida ao mesmo tempo o ser humano a não se entregar a ação selvagem do pecado: “não queiras ser sem inteligência como o cavalo”. O salmo nos mostra o sentido do pecado por três verbos: absolvido, perdoado e não argui de falta.

O primeiro verbo ‘absolvido’ significa que Deus nos tira um peso que nós carregamos permitindo assim respirar na nossa vida. O segundo verbo ‘perdoado’ quer dizer que o pecado foi cancelado, anulado pela ação eficaz de Deus. E o terceiro ‘não argui de falta’ diz que o pecado não faz mais parte da lista das obras do ser humano. Estamos perante uma remissão plena da culpa. Assim sendo, o ser humano que se converte e é perdoado se torna um verdadeiro fiel, um testemunho para os outros. Por isso todo fiel, nas trevas do pecado, suplica o Senhor para ser liberto. É essa experiência de libertação que leva o perdoado a aclamar com profunda alegria: ‘Alegrai-vos e regozijai-vos no Senhor’.

Os puros de coração poderão se associar aos justos para louvar e agradecer a Deus por ter-lhes perdoados, libertando-os do mal e assim proporcionando-os como umas criaturas novas. Este salmo é um incentivo para todos a confiarmos na invocação constante do Senhor, qual verdadeira nossa esperança de vida. E, para nós cristãos, o santo padre papa Francisco nos orienta: “Jesus nos ensina sobre o perdão. Primeiro: pedir perdão não é um simples pedido de desculpas, é ter consciência do pecado, da idolatria que eu fiz, das tantas idolatrias. Segundo: Deus sempre perdoa, sempre. Mas pede que eu perdoe. Se eu não perdoo, fecho as portas ao perdão de Deus. ‘Perdoai-nos os nossos pecados assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’”. Portanto, essa libertação do pecado por Deus depende também de nós desejarmos ardentemente tudo isso. É nisso que consiste a nossa alegria.


Deus é minha fortaleza

comentários

O ser humano precisa sentir segurança na vida, ter certezas. É aquilo que conheci ao longo dos meus anos como pessoa e como sacerdote. Creio ter encontrado uma resposta ‘exemplo’ para você, lendo o salmo 30 das Sagradas Escrituras. É Ele, Deus, a minha rocha, a minha fortaleza no meu andar cotidiano.

“Junto de vós, Senhor, me refugio. Não seja eu confundido para sempre; por vossa justiça, livrai-me! Inclinai para mim vossos ouvidos, apressai-vos em me libertar. Sede para mim uma rocha de refúgio, uma fortaleza bem armada para me salvar. Pois só vós sois minha rocha e fortaleza: haveis de me guiar e dirigir, por amor de vosso nome. Vós me livrareis das ciladas que me armaram, porque sois minha defesa. Em vossas mãos entrego meu espírito; livrai-me, ó Senhor, Deus fiel. Detestais os que adoram ídolos vãos. Eu, porém, confio no Senhor. Exultarei e me alegrarei pela vossa compaixão, porque olhastes para minha miséria e ajudastes minha alma angustiada. Não me entregastes às mãos do inimigo, mas alargastes o caminho sob meus pés. Tende piedade de mim, Senhor, porque vivo atribulado, de tristeza definham meus olhos, minha alma e minhas entranhas. Realmente, minha vida se consome em amargura, e meus anos em gemidos. Minhas forças se esgotaram na aflição, mirraram-se os meus ossos. Tornei-me objeto de opróbrio para todos os inimigos, ludíbrio dos vizinhos e pavor dos conhecidos. Fogem de mim os que me veem na rua. Fui esquecido dos corações como um morto, fiquei rejeitado como um vaso partido. Sim, eu ouvi o vozerio da multidão; em toda parte, o terror! Conspirando contra mim, tramam como me tirar a vida. Mas eu, Senhor, em vós confio. Digo: Sois vós o meu Deus. Meu destino está nas vossas mãos. Livrai-me do poder de meus inimigos e perseguidores. Mostrai semblante sereno ao vosso servo, salvai-me pela vossa misericórdia. Senhor, não fique eu envergonhado, porque vos invoquei: confundidos sejam os ímpios e, mudos, lançados na região dos mortos. Fazei calar os lábios mentirosos que falam contra o justo com insolência, desprezo e arrogância. Quão grande é, Senhor, vossa bondade, que reservastes para os que vos temem e com que tratais aos que se refugiam em vós, aos olhos de todos. Sob a proteção de vossa face os defendeis contra as conspirações dos homens. Vós os ocultais em vossa tenda contra as línguas maldizentes. Bendito seja o Senhor, que usou de maravilhosa bondade, abrigando-me em cidade fortificada. Eu, porém, tinha dito no meu temor: fui rejeitado de vossa presença. Mas ouvistes antes o brado de minhas súplicas, quando clamava a vós. Amai o Senhor todos os seus servos! Ele protege os que lhe são fiéis. Sabe, porém, retribuir, castigando com rigor aos que procedem com soberba. Animai-vos e sede fortes de coração todos vós, que esperais no Senhor.”

Este salmo apresenta substancialmente três aspectos essenciais da vida: a confiança, a dor e a alegria. A respeito da confiança é representada nos primeiros versículos pela simbologia da “rocha”, do “refúgio” da “fortaleza”. Porém, é nessa frase que encontramos a resposta mais importante: “Em vossas mãos entrego meu espírito; livrai-me, ó Senhor, Deus fiel.” Você se lembra de quem disse as mesmas palavras? Exatamente Jesus e também o mártir Estevão no momento da morte. É uma declaração de total confiança a Deus para por em suas mãos a sua vida. Uma vida que não nos pertence, mas que administramos com todas as dificuldades, com as alegrias e tristezas, com ilusões e realismos. Em todo esse marasmo da vida se pode fazer o ensaio de confiança no Criador de tudo e de todos.

O segundo aspecto do salmo é a lamentação sobre os males, sobre a morte física e também moral. O autor aqui focaliza todos os males físicos e interiores da pessoa. Esses são a incapacidade de prender a vida, ela foge das mãos; o passar dos anos ‘num vale de lagrimas’, o corpo que se enfraquece ao longo dos anos, os ossos que dão estabilidade orgânica se dissolvem e a lamentação que se levanta além das paredes levam a fazer uma profissão de confiança: “Tu és o meu Deus!”

Enfim, o terceiro aspecto, que caracteriza o final do salmo, é a alegria do agradecimento. Perante os meandros da vida, a viva experiência de confiar em Deus leva o fiel a gritar de júbilo, de alegria, porque sente a sua proximidade. Este salmo impregnado de aflição e de esperança inspira o modelo dos seguidores de Jesus Cristo. E o papa Francisco, a respeito disso, nos diz: “O cristão é um homem ou uma mulher de esperança, porque sabe que o Senhor virá. E quando isto acontecer, mesmo se não sabemos a hora, já não virá para nos encontrar isolados, inimigos, mas como ele nos transformou, graças ao seu serviço, amigos, próximos, em paz”.


Tributai ao senhor, ó filhos de Deus

comentários

O ser humano experimenta sempre a precariedade no transcorrer da sua jornada. E quantas dúvidas e perguntas se faz constantemente! Nem sempre consegue dar respostas, sobretudo o seu relacionamento com a mãe natureza. Quantas questões! Mas, segundo o autor do salmo 28 das Sagradas Escrituras, temos que dar espaço a Deus na vida. É Ele que se manifesta sempre, até na mãe natureza e seus eventos. Saber conviver com ela, por exemplo, pode experimentar a sua presença. Portanto, até a natureza pode revelar essa presença majestosa de Deus. É necessário ler com muita atenção esse hino, e eu diria meditando-o no profundo do silêncio.

“Tributai ao Senhor, ó filhos de Deus, tributai ao Senhor glória e poder! Rendei-lhe a glória devida ao seu nome; adorai o Senhor com ornamentos sagrados. Ouve-se a voz do Senhor sobre as águas! O Deus de grandeza atroou: o Senhor trovejou sobre as águas imensas! A voz do Senhor faz-se ouvir com poder! A voz do Senhor faz-se ouvir com majestade! Fendem-se os cedros à voz do Senhor, quebra o Senhor os cedros do Líbano. Faz saltar o Líbano como um novilho, e o Sarion como um búfalo novo. A voz do Senhor despede relâmpagos, a voz do Senhor abala o deserto. O Senhor faz tremer o deserto de Cades. A voz do Senhor retorce os carvalhos, desnuda as florestas. E em seu templo todos bradam: glória! O Senhor preside ao dilúvio, o Senhor trona como rei para sempre. O Senhor há de dar fortaleza ao seu povo! O Senhor abençoará o seu povo, dando-lhe a paz!”

Depois dessa leitura bem concentrada, agora vamos fazer uma análise do texto para ter um melhor entendimento. É um salmo bem antigo que apresenta estruturas, constelações e termos do mundo indígena pré-israelítico. Este cenário é representado pela cultura Cananeia do seu deus da tempestade, Baal Hadad, que tinha a divindade suprema. Nos versículos de 3-9 do salmo, fala-se de uma tempestade que aterroriza a harmonia dos lugares tão conhecidos do mediterrâneo ao Líbano, de Jerusalém até o deserto. Essa violência da tempestade espanta os animais e a sua natureza. Porém, o fiel confia em Deus que está acima de tudo isso.

Com Deus, nada se teme, porque Ele reina no cosmo e na história. Perante o caos do mal, do aniquilamento e das tempestades da história, o crente confia cegamente na presença criadora e soberana de Yhwè. Ele é o Juiz justo e por isso derruba os adversários e soberbos que eram considerados quais ‘arvores majestosas e seculares’ que dominavam os outros. Com isso, revela-nos esse salmo como Deus está acima de tudo isso com a sua presença e julgando a história com toda a sua iniquidade. O nosso papa Francisco, nesse sentido, nos ajuda a focalizar melhor tudo isso, para os dias de hoje, dizendo que “às vezes, todos nós somos ameaçados quando devagar-devagar nos afastamos do Senhor, quase de leve, sem muitos clamores, vivendo de maneira muito mundana e bem materialista. Assim não percebemos mais a sua presença porque a trocamos com os ídolos da vida que o próprio ser humano constrói.”

Por exemplo, como se chega a isso? Diz o papa: “Quando se frequenta a Igreja, vive a tua vida cristã como se fosse ‘um hábito cultural’, assim se perde a relação filial com Deus”. Essa atitude, esse comportamento não leva a fazer uma verdadeira adoração a Deus. Assim sendo, Deus deixa sozinho esse tipo de fiel. Deus é tão onipotente que respeita até essas atitudes de vida. Porém, continua o papa Francisco: “É a derrota: um povo que se afasta de Deus acaba assim”.

Acrescenta o Pontífice: “E é uma lição válida para todos. Também hoje. Inclusive nós, aparentemente, somos devotos, temos um santuário, temos muitas coisas…” Mas, perguntou Francisco, “está o teu coração com Deus? Sabes adorar a Deus?. E se crês em Deus, mas num deus um pouco nebuloso, distante, que não entra no teu coração, e se tu não obedeces aos seus mandamentos, então significa que estás diante de uma derrota”.

Por isso, disse Francisco concluindo a homilia, “peçamos ao Senhor que a nossa prece tenha sempre aquela raiz de fé. Peçamos a graça da fé. Com efeito, a fé é um dom que não se aprende nos livros. Uma dádiva do Senhor que deve ser pedida. Concedei-me a fé!Portanto, devemos pedir ao Senhor a graça de rezar com fé, de estarmos certos de que tudo o que lhe pedirmos nos será dado, com a segurança que nos dá a fé. Esta é a nossa vitória: a fé”. Desse jeito, faremos a experiência de um Deus presente que fará justiça, abençoando o seu povo, dando-lhe a paz. A paz que tanto é desejada pelo mundo inteiro.


O meu grito a ti, Senhor!

comentários

O salmo 27 das Sagradas Escrituras é o canto que nos dá esperança de vida. Em que consiste isso? É a chegada da Palavra de Deus como resposta verdadeira aos problemas do cotidiano do fiel. É Ela que resolve as vicissitudes da humanidade; é Ela que derrota o sofrimento e abre horizontes de vida até perante a morte. O intercessor, nesse caso, invoca Deus, porque o silêncio Dele é sinônimo de morte e abandono, e, por isso, quer escutá-Lo. E quanto silêncio hoje! Leia atentamente quanto o salmista proclama com toda confiança:

“É para vós, Senhor, que ergo meu clamor. Ó meu apoio, não fiqueis surdo à minha voz; não suceda que, vós não me ouvindo, eu me vá unir aos que desceram para o túmulo. Ouvi a voz de minha súplica quando clamo, quando levanto as mãos para o vosso templo santo. Não me deixeis perecer com os pecadores e com os que praticam a iniquidade, que dizem ao próximo palavras de paz, mas guardam a maldade no coração. Tratai-os de acordo com as suas ações, e conforme a malícia de seus crimes. Retribuí-lhes segundo a obra de suas mãos; dai-lhes o que merecem, pois não atendem às ações do Senhor nem às obras de suas mãos. Que Ele os abata e não os levante. Bendito seja o Senhor, que ouviu a voz de minha súplica; nele confiou meu coração e fui socorrido. O Senhor é a minha força e o meu escudo! Por isso meu coração exulta e o louvo com meu cântico. O Senhor é a força do seu povo, uma fortaleza de salvação para o que lhe é consagrado. Salvai, Senhor, vosso povo e abençoai a vossa herança; sede seu pastor, levai-o nos braços eternamente.”

O que observamos nesse interessante hino? Nota-se uma evidente simbologia que se opõe àquela da palavra e do silêncio. Aqui o ser humano grita ‘socorro’ com toda a sua força para Deus. No entanto, Deus parece indiferente perante o drama que está vivendo o autor desse salmo. O drama humano que está passando, esse fiel, leva-o a gritar com toda a sua força na invocação, erguendo até as mãos. O corpo todo é contrito na sua oração. De repente, quebrando o silêncio divino, a Palavra do Senhor intervém para salvá-lo. Assim, o fiel, perante essa experiência de ajuda, sente-se fortalecido e a sua boca se enche de palavras de alegria e de júbilo. Esse Deus que parecia calado, insensível ouviu a voz do suplicante. Desse jeito, os ímpios, que o ameaçam porque não respeitam a Aliança, enquanto ofendem a Deus e não respeitam os pobres, são derrotados. Aqueles que se prodigam a fazer o mal se afastam de Deus e assim não pertencem ao povo de Deus. É verdade também que Deus não pode estar indiferente perante a ação injusta dos ímpios. Afastar-se de Deus equivale afastar-se da vida, e desse modo a morte reinará. Isto quer dizer que o ser humano se sente sozinho, perdido nos meandros do cotidiano.

Achei interessante a fala do Papa Francisco sobre o que estamos refletindo: “A oração com a dor e a angústia”, o fiel “confia dor e angústia ao Senhor». E nisto, o Papa nos recorda Cristo: com efeito, “Jesus conheceu esta oração no Horto das Oliveiras, quando a sua angústia era muita e a dor lhe fez suar sangue, e não repreendeu o Pai: “Pai, se quiseres, livra-me disto, mas seja feita a tua vontade”. Acrescentou: “muitas vezes rezamos, pedimos ao Senhor, mas às vezes sabemos chegar precisamente àquela luta com o Senhor, até às lágrimas, para pedir a graça”.

A oração – disse Francisco – faz milagres. Além disso, falou: “A oração dos fiéis muda a Igreja: não somos nós, papas, bispos, sacerdotes, religiosas, quem leva a Igreja em frente, são os santos! Os santos são aqueles que têm a coragem de acreditar que Deus é o Senhor e que pode fazer tudo”. E concluiu insistindo a interceder Deus para que “nos dê a graça da confiança na oração, de rezar com coragem e também de despertar a piedade, quando a perdemos, e ir em frente com o povo de Deus ao encontro com ele”. É nessa dimensão de confiança no Deus da vida que podemos experimentar a maravilha da vida que temos nas mãos. É essa confiança que nos dá o poder de discernir a força irresistível do nosso Senhor entre nós. Encontrei nesses dias, aqui na Itália, uma pessoa que perdeu tudo na vida, até as pessoas mais queridas da família; vive praticamente peregrinando e de ajuda. Porém o que mais me impressionou na sua narração foi como ele confia totalmente em Deus, como ele invoca, reza constantemente Deus. É essa oração que lhe permite sorrir, enxergar além dos graves problemas. Garantiu-me: “A minha vida vai muito além da provisoriedade dessa terra, da minha total pobreza e miséria”.