O perigo é pensar que Deus não existe

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Diariamente, eu penso que, se não tivesse a experiência de Deus, minha vida seria vazia e limitada demais. Imagino minha incapacidade de enfrentar a vida com o sentido que vai além do perceptível, do sentimento e da limitação humana. O que teria sido de mim sem essa experiência de Deus, em relação a mim mesmo, aos outros, a mãe natureza? Veja o salmo 52 das Sagradas Escrituras o que nos fala:

“Diz o insensato em seu coração: Não há Deus. Corromperam-se os homens, seu proceder é abominável, não há um só que pratique o bem. O Senhor, do alto do céu, observa os filhos dos homens para ver se, acaso, existe alguém sensato que busque a Deus. Todos eles, porém, se extraviaram e se perverteram; não há mais ninguém que faça o bem, nem um, nem mesmo um só. Não se emendarão esses obreiros do mal? Eles que devoram meu povo como quem come pão, não invocarão o Senhor? Foram tomados de terror, não havendo nada para temer. Porque Deus dispersou os ossos dos que te assediam; foram confundidos porque Deus os rejeitou.

Ah, que venha de Sião a salvação de Israel! Quando Deus tiver mudado a sorte de seu povo, Jacó exultará e Israel se alegrará.”

É um salmo, segundo a linguagem bíblica, do ‘tolo’, do ‘inconsciente’. O ateísmo no antigo oriente é para se entender mais no sentido prático e existencial. Não é como a nossa cultura moderna que focaliza mais no sentido teórico-especulativo. Esse ateu, descrito neste salmo, é convencido de que Deus não está nem aí por aquilo que acontece na história da humanidade, mas fica sossegado no seu mundo do céu, no seu trono celestial. É indiferente para a vida das pessoas. É por isso que a história é marcada e designada pelos mais poderosos, arrogantes que se tornam os dominadores dela.

Nesse sentido, o autor desse hino quer contestar essa concepção de vida e mostrar como Deus intervêm, na verdade, para fazer justiça. Porém, não como nós queremos mas como Ele quer. Os desígnios Dele, presentes na nossa história, não são os nossos: “Deus dispersou os ossos dos que te assediam”. Isto é, Ele derrota sempre os ímpios que assediam o justo. Esse hino, podemos compreendê-lo, com uma primeira parte onde se lamenta a injustiça ateia e uma segunda parte onde se invoca o julgamento divino acompanhado de uma oração de esperança.

Por quanto à lamentação sobre esse ateísmo, de fato, existe uma forte ligação entre injustiça e ateísmo. Não interessa que exteriormente o injusto seja um ‘praticante’, porque com o seu comportamento mal na vida social se torna parecido a um ateu. Hoje em dia é o que nós diríamos: todos esses escândalos de corrupção, de extorsão, de máfia etc. talvez essas pessoas envolvidas se dizem que são praticantes assíduas de igrejas, mas na verdade são ateias. E assim o salmista diz embora que Deus parece ausente, mas na verdade se revela vindo do céu em socorro do justo e combatendo o ímpio.

Por que Deus intervém? Porque vê que a humanidade está repleta de opressores, de corruptos e falsos. O sábio que busca a Deus não encontra a sua vez nessa podridão da sociedade. Ele é marginalizado. Continua o salmista: “Não se emendarão esses obreiros do mal? Eles que devoram meu povo como quem come pão, não invocarão o Senhor?” Explorar e desfrutar os pobres é um ato de sacrilégio, porque significa desafiar o mesmo Deus, que é o advogado que defende eles. E o Deus não reconhecido intervém na história perante essa blasfema provocação.

Assim o julgamento de Deus se torna presente. Aqui é resumido com três símbolos: o terror, o assédio e os ossos dispersos. O ‘terror’ é sinal da manifestação divina que vem julgar. O ‘assédio’ é uma imagem que quer dizer uma situação de perigo e de fim. E os ‘ossos dispersos’ tem conotações de enterro e exalta a grande vitória de Deus sobre os poderosos e sobre os ímpios. Portanto, essa oração é uma proclamação da efetiva presença de Deus na história da humanidade. Ele é o Senhor de tudo e de todos. E o salmo termina testemunhando a grande esperança na justiça que levará a triunfar os justos, os que sofrem, os que são explorados. E essa esperança de Israel, demonstrada aqui, é o retorno do seu povo deportado para Babilônia pelo rei Nabucodonosor. O povo que foi humilhado por essa superpotência ‘ateia’.

Assim sendo o salmo levanta um grito de esperança e de alegria não obstante o escândalo e as trevas da história. Creio que também todos nós temos esse grande desejo, não obstante todas as crueldades e tristezas da vida, que é Deus o nosso refúgio e o nosso defensor.


O fiel justo segue as opções de Deus

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Estamos muito acostumados a ouvir a proclamação do nome de ‘Deus’ por todo lado, sobretudo em discursos oficiais de poder. A palavra ‘Deus’ parece ser usada para dar aquela garantia, certeza ao discurso para se tornar mais crível. É uma maneira de falar, como diz popularmente o nosso povo, da boca pra fora. Na verdade, a menção de Deus nos discursos, mensagens, até pregações, é somente um preenchimento da fala discursiva, preenchimento de vazio.

Este, podemos até dizer, é diabólico, porque quer se projetar, na verdade, os projetos de vida excluindo Deus. Essa maneira de falar, quantas vezes é mais fácil marginalizar eventos, fatos ou pessoas que contradizem uma eventual conduta nossa, que é adversa ao Reino de Deus? No final, não queremos desconfiar de nós mesmos, mas, sim, do nosso Deus. A história se repete, o ser humano acha que tudo pode pela sua fala e a sua conduta.

Como este julgamento é tão duro e, naturalmente, isto nos envolve. A fidelidade de Deus ao seu projeto de Vida é eterna. A justiça de Deus ninguém pode impedi-la. Ele vai fazer de tudo para que aconteça. Com certeza, Ele encontra sempre a sua solução. Neste sentido, temos que rever as nossas concretas teimosias egoísticas, que nos levam a ter uma concepção de vida sem Deus, sermos os donos do Reino Dele. O salmo 51 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender melhor a nossa vida:

“Quando Doeg, o idumeu, veio dizer a Saul: Davi entrou na casa de Aquimelec. Por que te glorias de tua malícia, ó infame prepotente?

Continuamente maquinas a perdição; tua língua é afiada navalha, tecedora de enganos. Tu preferes o mal ao bem, a mentira à lealdade.Só gostas de palavras perniciosas, ó língua pérfida!
Por isso Deus te destruirá, há de te excluir para sempre; ele te expulsará de tua tenda, e te extirpará da terra dos vivos. Vendo isto, tomados de medo, os justos zombarão de ti, dizendo:Eis o homem que não tomou a Deus por protetor, mas esperou na multidão de suas riquezas e se prevaleceu de seus próprios crimes.

Eu sou, porém, como a virente oliveira na casa de Deus: confio na misericórdia de Deus para sempre. Louvar-vos-ei eternamente pelo que fizestes e cantarei vosso nome, na presença de vossos fiéis, porque é bom.”

A estrutura do salmo pode ser definida por três imagens: do ímpio, do ser justo e da cena de Deus que julga. Os símbolos que representam o ímpio são a língua igual a uma navalha afiada, palavras perniciosas e, no entanto, o justo como uma virente oliveira.

O ímpio é apresentado pelo autor do salmo como: ‘Por que te glorias de tua malícia, ó infame prepotente?’ O ímpio agride o justo falando mal dele, não o respeitando. De fato, quem é o justo aqui, segundo o salmista? É ele mesmo. Ele que reza dizendo: ‘eu confio na misericórdia de Deus para sempre.’ E aqui se contrapõe o malvado, igual a navalha afiada, ao fiel justo que é doce e leve como uma árvore de oliveira plantada nos jardins do templo. Portanto, esse justo, é um ser humano de paz, de tranquilidade, de firmeza, de bênção e de confiança em Deus. Assim sendo, o justo conhece, saboreia o que é eterno, representado simbolicamente pela oliveira. Porém, ao centro do salmo se destaca que o ímpio e o justo são convocados perante Deus para serem julgados. E aqui mostra como Deus age em maneira forte, quase como se fosse uma detonação do ímpio, extirpando-o da terra dos seres humanos.

Perante tudo isso, compreende-se que a verdadeira estabilidade do ser humano não está na habilidade das pessoas, mas em Deus. É Ele a nossa defesa. Esse juízo contra as pessoas ruins é louvado pelos justos. Essa ação de Deus é realmente temida pelos seres viventes, mas ao mesmo tempo gera alegria porque a justiça foi feita. Assim, os arrogantes, os soberbos, desafiadores da justiça, são reduzidos a nada. O ímpio pode ter toda a riqueza que quiser, ilusão de segurança e proteção, mas sem Deus é perdido.

Toda a sua maquinação perversa contra o justo é destruída por Deus, refúgio dele. O salmo se apresenta, não obstante a revelação da força do ímpio, com uma grandeenergia de otimismo. Nos mostra como Deus é e não é indiferente à nossa história, mas se faz presente ativamente. E se faz presente do jeito Dele e não a partir da nossa maneira de pensar e agir. Ele restabelece a justiça para valorizar a obra como um todo da criação. Qual a lição de tudo isso? O fiel, o justo, deve sempre confiar e aguardar para compartilhar as opções de Deus para fazer justiça. Somente assim seremos capazes de louvar e agradecer o nosso Deus entre nós.


Piedade de mim, ó Deus!

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Toda vez que rezo este salmo, eu me apaixono na busca do meu Deus. Sinto-me em sintonia com Ele como um filho com o pai que se sente acolhido e protegido. Este amor que acolhe e protege se revela força e coragem para interpretar corretamente a nossa vivência humana, a nossa condição de fraternidade. Interessante ver como as nossas certezas de vida surgem dessa nossa condição de humildade e não das arrogâncias dos poderes que o mundo nos oferece. Somos sedentos de vida e este salmo 50 das Sagradas Escrituras nos ajuda a encontrá-la.

“Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade. E conforme a imensidade de vossa misericórdia, apagai a minha iniquidade. Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado. Eu reconheço a minha iniquidade, diante de mim está sempre o meu pecado.

Só contra vós pequei, o que é mau fiz diante de vós. Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento. Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado.

Não obstante, amais a sinceridade de coração. Infundi-me, pois, a sabedoria no mais íntimo de mim.

Aspergi-me com um ramo de hissope e ficarei puro. Lavai-me e me tornarei mais branco do que a neve.

Fazei-me ouvir uma palavra de gozo e de alegria, para que exultem os ossos que triturastes.

Dos meus pecados desviai os olhos, e minhas culpas todas apagai. Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza. De vossa face não me rejeiteis, e nem me priveis de vosso Santo Espírito.Restituí-me a alegria da salvação, e sustentai-me com uma vontade generosa. Então aos maus ensinarei vossos caminhos, e voltarão a vós os pecadores.

Deus, ó Deus, meu salvador, livrai-me da pena desse sangue derramado, e a vossa misericórdia a minha língua exaltará. Senhor, abri meus lábios, a fim de que minha boca anuncie vossos louvores.Vós não vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis.

Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar. Senhor, pela vossa bondade, tratai Sião com benevolência, reconstruí os muros de Jerusalém. Então aceitareis os sacrifícios prescritos, as oferendas e os holocaustos; e sobre vosso altar vítimas vos serão oferecidas.”

Este salmo é uma oração do rei Davi que se arrependeu pela sua conduta adúltera e homicida. Isto aconteceu quando o profeta Natã denunciou Davi por ter conspirado a morte de Urias para ficar com a mulher dele (2 Samuel 11-12). Isto desagradou seriamente Deus e como resposta Davi pediu perdão. Esse perdão revela a ameaça e tristeza do pecado. É interessante ver também como a confissão do pecado abre para a justiça de Deus que purifica o ser humano, resgata a criatura para não ser escrava do seu pecado.Esse testemunho de Davi nos ajuda a compreender o quanto é importante reconhecermos os nossos pecados e invocar o perdão de Deus. Continuando com a leitura do salmo, se vê por essa declaração, ‘eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado’, o famoso texto do pecado original em que se reconhece os limites radicais da criatura humana. E a confissão das culpas se reconhece como Deus é o autor da nossa vida. O ser humano depende Dele para poder resgatar constantemente a verdadeira vida da corrupção que lhe está na sua frente.Nesse sentindo, Davi pede a Deus que recri um coração novo, isto é, uma vida nova, para vivificar a sua vida. De modo que oSenhor não só perdoa, mas plasma de novo o pecador, dando-lhe uma nova consciência e uma fé pura para praticar o verdadeiro culto. A Bíblia toda marca a forte presença do pecado que é contrastada pela esperança do perdão. Se tem pecado também existe a graça do perdão. O Papa Francisco assim se expressou a respeito, na missa em Santa Marta no dia 23.01.2015: “O Deus que perdoa: o nosso Deus perdoa, reconcilia, renova a aliança e perdoa. Mas ‘como perdoa Deus? Antes de tudo, Deus perdoa sempre! Nunca se cansa de perdoar. Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. Mas ele nunca se cansa de perdoar’. A ponto que ‘quando Pedro pergunta a Jesus: quantas vezes devo perdoar, sete vezes?’, a resposta que recebe é eloquente: ‘Não sete vezes mas setenta vezes sete’. Ou seja, ‘sempre’, porque é precisamente assim que Deus perdoa: sempre. Por conseguinte, se viveste uma vida com tantos pecados, tantas coisas más, mas no fim, um pouco arrependido, pedes perdão, ele perdoa-te imediatamente. Ele perdoa sempre. É preciso apenas arrepender-se e pedir perdão: nada mais! Não se deve pagar nada! Cristo pagou por nós e perdoa sempre, e não há pecado que ele não perdoe”.


Não se esqueçam de deus

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Um dia desses uma pessoa me confiou: “Não é fácil fazer uma experiência de Deus na vida hoje, mas é muito fácil fazer uma experiência de vida sem Deus!” Que verdade! Hoje parece que uma opção de vida segura é se preocupar exclusivamente no visível, no que aparece, sem se preocupar com o que vai além disso. O imediatismo material não deixa lugar para transcender a nossa realidade. Poderíamos dizer que é uma pobreza ‘horizontal’. E essa pobreza exalta as limitações humanas e reduz as perspectivas de aspirações infinitas. Para melhor compreendermos isso, eu proponho a leitura do salmo 49, das Sagradas Escrituras:

“Falou o Senhor Deus e convocou toda a terra, desde o levante até o poente.

Do alto de Sião, ideal de beleza, Deus refulgiu: nosso Deus vem vindo e não se calará. Um fogo abrasador o precede; ao seu redor, furiosa tempestade.

Do alto ele convoca os céus e a terra para julgar seu povo: Reuni os meus fiéis, que selaram comigo aliança pelo sacrifício.

E os céus proclamam sua justiça, porque é o próprio Deus quem vai julgar.

Escutai, ó meu povo, que eu vou falar: Israel, vou testemunhar contra ti. Deus, o teu Deus, sou eu.

Não te repreendo pelos teus sacrifícios, pois teus holocaustos estão sempre diante de mim.

Não preciso do novilho do teu estábulo nem dos cabritos de teus apriscos, pois minhas são todas as feras das matas; há milhares de animais nos meus montes.

Conheço todos os pássaros do céu, e tudo o que se move nos campos.

Se tivesse fome, não precisava dizer-te, porque minha é a terra e tudo o que ela contém.

Porventura preciso comer carne de touros, ou beber sangue de cabrito?…

Oferece, antes, a Deus um sacrifício de louvor e cumpre teus votos para com o Altíssimo.

Invoca-me nos dias de tribulação, e eu te livrarei e me darás glória.

Ao pecador, porém, Deus diz: Por que recitas os meus mandamentos, e tens na boca as palavras da minha aliança? Tu que aborreces meus ensinamentos e rejeitas minhas palavras?

Se vês um ladrão, te ajuntas a ele, e com adúlteros te associas.

Dás plena licença à tua boca para o mal e tua língua trama fraudes.

Tu te assentas para falar contra teu irmão, cobres de calúnias o filho de tua própria mãe.

Eis o que fazes, e eu hei de me calar? Pensas que eu sou igual a ti? Não, mas vou te repreender e te lançar em rosto os teus pecados.

Compreendei bem isto, vós que vos esqueceis de Deus: não suceda que eu vos arrebate e não haja quem vos salve.

Honra-me quem oferece um sacrifício de louvor; ao que procede retamente, a este eu mostrarei a salvação de Deus.”

O que o salmo focaliza, em síntese, fazer o culto, uma liturgia sem um compromisso sério na vida cotidiana, encarnada na realidade do dia-dia torna-se uma magia ou uma farsa. Mais ainda, a religião ritual sem a fé autêntica vivida é hipocrisia, falsa. Diz o salmo que o único culto que Deus gosta é o puro louvor que nasce da consciência e da vida das pessoas e se manifestam pelas próprias condutas. Portanto, não somente culto, mas culto e vida honesta e justa. Deus opõe sete tipos de delitos, furto, adultério, língua, boca, julgamentos, calúnia, que a hipocrisia acredita eliminar simplesmente com as ofertas rituais e não com grande compromisso com a justiça.

Assim nós podemos dizer hoje: uma liturgia desencarnada, que não se compromete com uma vida de justiça, não pode louvar a Deus. Sem o sinal vivo da vida, da fidelidade, da justiça a liturgia não é mais expressão de uma salvação superior, mas fica um simples ato cultual, burocrático sagrado, um belo rito teatral. Assim sendo, o autor desse salmo contesta, em um certo sentido, essa alienação religiosa e faz uma veemente declaração em favor da fé enraizada na vida.

Uma fé compromissada e bem concreta, uma fé também que se estende ao social que, porém, é contemplativa. O Santo Padre papa Francisco, em um seu pronunciamento feito pela ocasião dos 50 anos da missa celebrada em língua italiana (07.03.2015), falou a respeito do culto litúrgico: “É um chamamento ao culto autêntico, à correspondência entre liturgia e vida; um apelo que vale para todas as épocas e até mesmo hoje para nós. Aquela correspondência entre liturgia e vida. A liturgia não é uma coisa estranha, lá muito longe, distante, e enquanto se celebra eu penso em muitas outras coisas, ou rezo o Terço. Não, não. Existe uma correspondência entre a celebração litúrgica que depois eu levo na minha vida, e sobre isto deve-se ir ainda mais longe, deve-se fazer ainda um longo caminho”.


Não de se deixem iludir

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As vezes, as pessoas são tão atraídas pelos bens materiais que não conseguem enxergar mais nada além disso. Então, a pessoa constrói toda a sua trajetória de vida pensando e agindo exclusivamente concentrado nos seus bens materiais. No dinheiro! A vida para alguns é impulsionada pelo poder de ‘ter’ cada vez mais. A sua maneira de raciocinar e enxergar a realidade é somente isso. A sua felicidade é só isso. Conforme a conta que possui no banco é medida a sua alegria. A riqueza manda no ser humano. A inteligência é escrava dos bens materiais. Mas isto não acontece somente com as pessoas em si, mas também com os governos. Parece-me que os governos sejam mais servidores do dinheiro que dos povos. O salmo 48 das Sagradas Escrituras nos ajuda a discernir os verdadeiros valores da vida que nos permitem acessar à verdadeira alegria. E, assim, ele nos convida a discernir:

“Escutai, povos todos; atendei, todos vós que habitais a terra, humildes e poderosos, tanto ricos como pobres.

Dirão os meus lábios palavras de sabedoria, e o meu coração meditará pensamentos profundos.

Ouvirei, atento, as sentenças inspiradas por Deus; depois, ao som da lira, explicarei meu oráculo.

Por que ter medo nos dias de infortúnio, quando me cerca a malícia dos meus inimigos?

Eles confiam em seus bens, e se vangloriam das grandes riquezas.

Mas nenhum homem a si mesmo pode salvar-se, nem pagar a Deus o seu resgate.

Caríssimo é o preço da sua alma, jamais conseguirá prolongar indefinidamente a vida e escapar da morte,porque ele verá morrer o sábio, assim como o néscio e o insensato, deixando a outrem os seus bens.

O túmulo será sua eterna morada, sua perpétua habitação, ainda que tenha dado a regiões inteiras o seu nome, pois não permanecerá o homem que vive na opulência: ele é semelhante ao gado que se abate.

Este é o destino dos que estultamente em si confiam, tal é o fim dos que só vivem em delícias.

Como um rebanho serão postos no lugar dos mortos; a morte é seu pastor e os justos dominarão sobre eles. Depressa desaparecerão suas figuras, a região dos mortos será sua morada.

Deus, porém, livrará minha alma da habitação dos mortos, tomando-me consigo.

Não temas quando alguém se torna rico, quando aumenta o luxo de sua casa.

Em morrendo, nada levará consigo, nem sua fortuna descerá com ele aos infernos.

Ainda que em vida a si se felicitasse: Hão de te aplaudir pelos bens que granjeaste.

Ele irá para a companhia de seus pais, que nunca mais verão a luz.

O homem que vive na opulência e não reflete é semelhante ao gado que se abate.”

O salmo nos mostra uma meditação sábia dos verdadeiros valores da vida. A vida está na nossa frente, mas precisa discerni-la, fazer opções, escolhas para compreendê-la e vivê-la. Aquela da riqueza de fato é uma ilusão, porque não ajuda a viver o sentido da vida e o seu destino final. É como um animal que se deixa levar pelos instintos e não consegue mais enxergar nada. É um hino sobre a riqueza e a morte introduzido por um solene prelúdio sapiencial. Na primeira parte é a descrição do rico que busca comprar a morte, tentando corrompê-la com a sua grande riqueza. Ele, o rico, não tem poder de resgatar, comprar a vida: “pagar a Deus o seu resgate … jamais conseguirá prolongar indefinidamente a vida e escapar da morte.”

O tolo, cego pela sua riqueza, é demais convencido de pagar um ‘seguro extraordinário de vida’ que lhe garante combater a morte, afasta-la da sua vida. Mas, por qualquer quantia, até a mais infinita possível, não pode evitar essa realidade que todo mundo tem que enfrentar. Lembra-se de quando Jesus falou “Não há nada que poderá pagar para ter de volta essa vida” (Mt 16,26). Com isso, confirma-se que o ser humano não é dono de nada. Infelizmente, assistimos essa idolatria econômica que toma conta da nossa sociedade como um todo, criando um profundo vazio humanitário. Em seguida, o salmo insiste nessa morte que ninguém pode se opor; os ricos são representados como um rebanho que tem por pastor a morte, e os ínferos hebraicos, Sheol, os acolherá.

Os justos, no entanto, pobres humilhados da história, chegam de mãos vazias à fronteiras da morte. Eles não têm nada para dar como ‘resgate’ pela morte deles. Mas aqui está a grande verdade: Deus mesmo paga o resgate da morte porque é Ele o único que tem poder sobre ela. Assim sendo, não se preocupe se vê alguém enriquecer, ter mais que você porque nada pode fazer com essa sua riqueza; ela chega a um fim e não é garantia de domínio. Importante é enriquecer e abastecer no ‘banco de Deus’.


Louvemos o nosso Deus

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Quem confia em Deus e experimenta sua presença, louva-O com todo o coração e inteligência. Viver a confiança em Deus enche de esperança e alegria o fiel. Quantos testemunhos eu já conheci ao longo dos meus anos de sacerdote! Teve uma pessoa, inclusive, que me disse: “Eu perdi tudo, padre, eu sou um derrotado pela sociedade, mas a minha vida não perdeu sentido porque eu confio em Deus. Nele está a minha vida, eu lhe pertenço. Por isso, me sinto forte e creio em um futuro diferente que estou passando! Estou cheio de esperança.” Isto me mostra que Deus faz parte, sim, da nossa vida. E com isso nos leva a louva-Lo, incessantemente, a cantar o seu louvor. A reconhecer a sua grandeza que supera toda a nossa pequenez, e limitações. Com esses olhos, a nossa vida se enche de novos horizontes que exaltam a nossa humanidade. Lendo o salmo 47 das Sagradas Escrituras se compreende perfeitamente porque o nosso Deus é digno de louvor. Preste bem atenção ao que ele nos diz:

“Grande é o Senhor e digno de todo louvor, na cidade de nosso Deus. O seu monte santo,colina magnífica, é uma alegria para toda a terra. O lado norte do Monte Sião é a cidade do grande rei.
Deus se mostrou em seus palácios um baluarte seguro.

Eis que se unem os reis para atacar juntamente.

Apenas a veem, atônitos de medo e estupor, fogem.

Aí o terror se apodera deles, uma angústia como a de mulher em parto, ou como quando o vento do oriente despedaça as naus de Társis.

Como nos contaram, assim o vimos na cidade do Senhor dos exércitos, na cidade de nosso Deus; Deus a sustenta eternamente! Ó Deus, relembremos a vossa misericórdia no interior de vosso templo.

Como o vosso nome, ó Deus, assim vosso louvor chega até os confins do mundo. Vossa mão direita está cheia de justiça.

Que o Monte Sião se alegre. Que as cidades de Judá exultem, à vista de vossos juízos! Relanceai o olhar sobre Sião, dai-lhe a volta, contai suas torres, considerai suas fortificações, examinai seus palácios para narrardes às gerações futuras: como Deus é grande, nosso Deus dos séculos eternos; é ele o nosso guia.”

O salmo descreve que aos pés dos muros de Sião se encontra um baluarte seguro onde os inimigos são derrotados, qualquer adversidade é vencida. É dentre esses muros a segurança do seu povo. Nós poderíamos dizer hoje: é estar com Deus que não tememos os inimigos e seremos sempre invencíveis. É nisso que consiste a alegria das pessoas: viver essa segurança de Deus e que nenhuma potência do mundo pode oferecer. E este salmo se torna quase um canto litúrgico eterno e sempre presente na vida. Podemos dividir esse salmo em duas partes.

A primeira parte é uma celebração da Sião vitoriosa: “cidade do nosso Deus”. Manifesta o salmo o esplendor da cidade santa, divina e humana, visível e misteriosa, presente na história e, ao mesmo tempo, com projeções além da história. Mas aquilo que o autor aqui quer realçar é o que acontece fora da cidade santa. As tropas do inimigo estão assediando-a. Porém, os reis que aí estão comandando são logo rejeitados e colocados em fuga, e diz o salmista: “Fogem, aí o terror se apodera deles, uma angústia como a de mulher em parto”.

Os poderosos são reduzidos às fragilidades humanas! Uma imagem, igual aquela das naus de Tarsis, que perante Deus nenhuma força humana, por quanto poderosa possa ser, será vitoriosa. Uma visão de grande otimismo pelo triunfo de Deus contra as potências do mal. Na segunda parte, o salmista se concentra no interior da cidade de Deus. Aqui focaliza o louvor a Deus no Templo. É um louvor pela misericórdia de Deus pelo seu povo por tudo o que faz para protegê-lo. Logo depois, é descrito uma procissão fora do Templo ao redor do muro onde se confere as torres, sinal da proteção de Deus.

Contemplar essa muralha é contemplar a solidez da cidade de Deus, Sião.Todas essas realidades terrenas querem demonstrar o quanto o amor de Deus está presente e protege o ser humano. Também nós podemos fazer essa experiência, contemplando a ação de Deus na nossa vida através dos eventos históricos. Portanto, através de manifestações bem concretas se protagoniza o nosso Deus. Sião é o coração de uma série de ações salvadoras de Deus professadas no Credo de Israel e na liturgia. E o salmo termina clamando por Deus o seu guia, o seu pastor. O Deus que liberta o seu povo e garante que sua peregrinação o levará pelos prados infinitos de paz e de vida. É essa experiência de fé que nos leva a fazer da nossa vida uma vida de esperança eterna, porque o nosso Deus está conosco.


Deus é o senhor de toda a humanidade

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O nosso Deus não é exclusividade de ninguém, mas é para todo mundo. Nesse sentido, todas as pessoas, todos os povos, todas as raças pertencem a Deus e, assim, todos podem fazer a experiência Dele: um Deus conosco! Há pessoas que se acham excluídas, que não têm essa capacidade ou se reputam indignas. E há até pessoas que dizem que isto não existe, que é uma invenção humana. Quem nos ajuda a responder a todas essas realidades é sempre o livro da Sagrada Escritura. Precisamos conhecê-las mais, aprofunda-las mais para abrirmos as nossas mentes e corações. A verdadeira sabedoria da nossa vida se atinge nas páginas sagradas da Palavra de Deus. E hoje queremos conhecer melhor o salmo 46 do Antigo Testamento para descobrirmos a importância da nossa vida através da experiência do nosso Deus.

“Povos, aplaudi com as mãos, aclamai a Deus com vozes alegres, porque o Senhor é o Altíssimo, o temível, o grande Rei do universo.
Ele submeteu a nós as nações, colocou os povos sob nossos pés, escolheu uma terra para nossa herança, a glória de Jacó, seu amado.
Subiu Deus por entre aclamações, o Senhor, ao som das trombetas.

Cantai à glória de Deus, cantai; cantai à glória de nosso rei, cantai.

Porque Deus é o rei do universo; entoai-lhe, pois, um hino!

Deus reina sobre as nações, Deus está em seu trono sagrado.

Reuniram-se os príncipes dos povos ao povo do Deus de Abraão, pois a Deus pertencem os grandes da terra, a ele, o soberanamente grande.”

O salmo inicia proclamando que o nosso Deus é rei do universo. Por isso devemos aclama-Lo e aplaudi-Lo. O contexto desse hino, provavelmente, deve-se enquadra-lo em uma grande celebração no templo de Jerusalém, onde teve uma solene entronização da famosa Arca da Aliança. O que é a Arca da Aliança? No livro sagrado do Êxodo encontramos que o profeta Moisés orientou a construção da mesma iluminado por Deus. Nessa Arca, foram guardadas as tábuas da Lei, a vara de Arão e um vaso do maná. De fato, essas três representavam a aliança de Deus com o povo de Israel. Para os judeus, a Arca não era somente representação, mas a própria presença de Deus.

Por exemplo, também para nós católicos, a Eucaristia não é uma representação de Jesus, mas a sua presença real. Dito isso, o salmo põe o Senhor no centro de tudo, ergueu acima de tudo, configurando-lhe títulos gloriosos como ‘Altíssimo, Terrível e Grande’. Com isto, exprime a onipotência divina, o seu poder sobre toda a criação. Nesse sentido, privilegia-se a eleição de Israel como seu povo para viver o amor Dele. E essa consciência que o Deus transcendente, altíssimo e grande escolheu um povo e uma terra prometida para que todos os povos e todas as terras sejam santificadas.

A segunda parte do hino é um convite a louvar esse Deus Altíssimo, rei de toda a terra. É uma aclamação destinada à realeza divina e, em particular, à arca da aliança. E esse louvor deve-se estender a todos os povos e os seus chefes, porque Deus é também soberano de todos eles, embora tenha escolhido Israel. Assim sendo, mostra o universalismo da missão que Deus entrega para o seu povo escolhido. O povo ‘do Deus de Abrão’ com a sua eleição recebe a missão de pregar a Palavra de Deus para que todas as nações, todas as raças e culturas se salvem. Deus é Senhor de toda a humanidade. E para nós cristãos, quem não lembra aquela passagem de Jesus onde declarava que ‘o tempo chegou e o reino de Deus está próximo’? (Mc 1,15).

A grande esperança de toda a humanidade é ter essa consciência que Deus é o Senhor dela e que Ele não a abandona. A respeito disso, leia esse texto de uma homilia do papa Francisco na sua capela de Santa Marta: “Deus é apaixonado pela nossa pequenez, e a sua misericórdia não tem fim”. “Este amor” de Deus que é “um amor tenro, um amor como o de um pai ou de uma mãe quando conversa com o filho que acordou assustado com um sonho” e conforta-o com um “fica tranquilo, não tenhas medo”.

“Todos nós conhecemos as carícias dos pais e das mães quando as crianças ficam inquietas por causa de um susto: ‘Não tenhas medo, eu estou aqui; Eu sou apaixonado pela tua pequenez’. E também: ‘Não temas os teus pecados, Eu quero-te bem; Eu estou aqui para perdoar-te’. Esta é a misericórdia de Deus”.

Para o Santo Padre, “o Senhor tem vontade de tomar sobre si as nossas fraquezas, os nossos pecados, os nossos cansaços. Jesus quantas vezes demonstrava isso e depois: ‘Venham a mim, todos vocês que estão cansados e eu dar-lhes-ei repouso. Eu sou o Senhor, Vosso Deus, te tomarei pela direita e Te direi ‘não tenhas medo, pequenino, não tenhas medo. Eu te darei força. Dá-me tudo e Eu perdoar-te-ei, te darei a paz’”. Por tudo isso, louvemos o nosso Senhor.


Deus é nosso refúgio

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Recentemente, vi pelas redes sociais algumas cenas da novela DancinDays exibida pela Rede Globo entre os anos de 1978 e 1979. O que me deixou pasmo foi ver que, já naquele tempo, era levantada a questão da corrupção, desonestidade, o suborno, a falência do país, com o sistema penitenciário horrível, tudo isso em pleno regime militar. O princípio de dignidade e honra não é palavra abstrata, mas real, dizia-se nesta telenovela. A minha rápida conclusão foi de fazer a ligação daquele tempo com o nosso. Parece que os dois tempos estão em perfeita sintonia.

Portanto, regimes diferentes no poder, mas a realidade não muda! Então, como resgatar essa almejada sociedade honesta e digna? Creio que o famoso ditado popular que diz que o povo merece o governo que ele tem é uma denúncia de que precisamos mudar em primeiro lugar o próprio povo na sua maneira de pensar e agir para obter uma realidade mais honesta e digna. Aqui que está a questão: como o povo pode fazer essa mudança? Eu acho que são a educação e o ensaio verdadeiro da experiência de Deus na história de cada um. Essa experiência leva o ser humano a ser menos egoísta e mais altruísta.

Creio que a raiz dos males que nos assolam se centraliza principalmente no egoísmo humano, e por isso o salmo 45 da Bíblia nos ajuda a depor a nossa confiança em Deus e não no nosso ego. É esse ensaio que pode favorecer valores como a honradez, honestidade, dignidade e assim por diante. Leia o que diz o salmo:

“Deus é nosso refúgio e nossa força, mostrou-se nosso amparo nas tribulações.Por isso a terra pode tremer, nada tememos; as próprias montanhas podem se afundar nos mares.Ainda que as águas tumultuem e estuem e venham abalar os montes, está conosco o Senhor dos exércitos, nosso protetor é o Deus de Jacó.Os braços de um rio alegram a cidade de Deus, o santuário do Altíssimo.

Deus está no seu centro, ela é inabalável; desde o amanhecer, já Deus lhe vem em socorro.Agitaram-se as nações, vacilaram os reinos; apenas ressoou sua voz, tremeu a terra.Está conosco o Senhor dos exércitos, nosso protetor é o Deus de Jacó.Vinde admirar as obras do Senhor, os prodígios que ele fez sobre a terra.Reprimiu as guerras em toda a extensão da terra; partiu os arcos, quebrou as lanças, queimou os escudos.Parai, disse ele, e reconhecei que sou Deus; que domino sobre as nações e sobre toda a terra.Está conosco o Senhor dos exércitos, nosso protetor é o Deus de Jacó.”

Precisamos resgatar essa consciência do fiel que fez nessa oração. É Deus a nossa segurança, a nossa força. Não são as nossas estratégias de poder e de riqueza. Isso, segundo a Palavra de Deus, é pura ilusão.

Diz o salmo que dentro de Sião, cidade do Altíssimo, tem segurança. A paz reina entre os seus muros. Os horizontes se iluminam de imenso. É em Jerusalém que cada fiel experimenta o refúgio e a força de Deus. Fora dela a tempestade toma conta, tudo se agita: as águas destroem e os fundamentos da terra se abalam, o nada e o mal atentam a beleza da criação. Somente com Deus se encontra a paz. Quanto é verdade esse testemunho do salmista: não podemos buscar a paz fora do nosso Deus. A nossa vida tem sentido na medida em que estivermos ligados a Ele, no seu Templo.

Significa que temos que dar prioridade absoluta ao ensino da Palavra de Deus, das Sagradas Escrituras, e interpreta-las retamente. Sendo assim, não podemos nunca dar a última palavra, mas sermos fiéis discípulos do nosso Deus. É a nossa fé que nos dá mais plenitude de vida. Vivendo a nossa fé Nele nos despojamos do nosso egoísmo para estar em perfeita harmonia com Ele. E assim tudo pode acontecer, as turbulências da vida, abalos emocionais, incompreensões, traições, abandonos, mas a nossa confiança Nele é indestrutível. As forças malignas não poderão de jeito nenhum derrubar essa fonte da vida que é a fé em Deus. É essa vivência da fé que amplia o horizonte da esperança, que destrói a corrupção e a desonestidade. E para celebrar um país melhor precisamos nos deixar educar pelo nosso Deus. Precisamos ser somente bons alunos e não rebeldes, de cabeça dura. Evitar de sermos faladores de Deus, mas viver Dele. É nessa base que construiremos uma realidade de dignidade e honradez. Portanto, é a partir do povo fiel a Deus que construiremos também governos transparentes e honestos. Nada é impossível, mas somente sermos pessoas, um povo que tem sede da Palavra de Deus e se deixa conduzir por Ela.


No amor humano, uma faísca do infinito amor de Deus

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O salmo 44 proposto hoje mostra que se existe o amor, existe Deus. De fato, ele nos diz que no amor humano se discerne o amor de Deus manifestado por Deus. Assim, o amor humano se projeta ao infinito que nele é implantado. Esse salmo é um hino de um poeta do palácio real que fez pela ocasião do casamento de um rei e da sua princesa de Tiro, rica cidade comercial fenícia. Visto em chave espiritual os judeus, este salmo, interpretam teologicamente o amor místico entre Israel e o seu Deus, e para nós cristãos em foco messiânico.

“Transbordam palavras sublimes do meu coração. Ao rei dedico o meu canto. Minha língua é como o estilo de um ágil escriba. Sois belo, o mais belo dos filhos dos homens. Expande-se a graça em vossos lábios, pelo que Deus vos cumulou de bênçãos eternas. Cingi-vos com vossa espada, ó herói; ela é vosso ornamento e esplendor. Erguei-vos vitorioso em defesa da verdade e da justiça. Que vossa mão se assinale por feitos gloriosos. Aguçadas são as vossas flechas; a vós se submetem os povos; os inimigos do rei perdem o ânimo. Vosso trono, ó Deus, é eterno, de equidade é vosso cetro real. Amais a justiça e detestais o mal, pelo que o Senhor, vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria, preferindo-vos aos vossos iguais. Exalam vossas vestes perfume de mirra, aloés e incenso; do palácio de marfim os sons das liras vos deleitam. Filhas de reis formam vosso cortejo; posta-se à vossa direita a rainha, ornada de ouro de Ofir. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece o teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza se encantará o rei; ele é teu senhor, rende-lhe homenagens. Habitantes de Tiro virão com seus presentes, próceres do povo implorarão teu favor. Toda formosa, entra a filha do rei, com vestes bordadas de ouro. Em roupagens multicores apresenta-se ao rei, após ela vos são apresentadas as virgens, suas companheiras. Levadas entre alegrias e júbilos, ingressam no palácio real. Tomarão os vossos filhos o lugar de vossos pais, vós os estabelecereis príncipes sobre toda a terra. Celebrarei vosso nome através das gerações. E os povos vos louvarão eternamente.”

Lendo o salmo, podemos perceber na primeira parte a solenidade da entronização do rei, entregando a espada como símbolo do comandante geral do exército. Logo em seguida, faz a manifestação da sua realeza sobre todo o povo. E aqui entra a cena nupcial, que quer mostrar que o rei envolvido da potência de Deus quer ser parecido ao seu Deus, amando a justiça.

Na segunda parte do salmo, o rei apela à esposa para que: “Esquece o teu povo e a casa de teu pai”. E ela acompanhada de um longo cortejo se apresenta maravilhosa e ornada de vestes reais, porque é também filha de um rei, fazendo uma suave reverência ao marido. A esse ponto o amor humano, essa beleza criada, essa alegria, se tornam no nosso hino um sinal de Deus que é amor e beleza.

É essa experiência que leva a compreender o amor do Senhor. Portanto, é uma ação símbolo do amor divino para conosco e com toda a criação. A aliança de Deus com a humanidade é representada pelo amor nupcial humano. É o amor que salva a humanidade e a sua criação. Assim sendo, para compreender e louvar a Deus precisamos partir da realidade da história da humanidade, isto é, do seu dia a dia. A partir dessa verdade que se pode perceber e constatar que também o amor nupcial se torna uma presença do amor de Deus entre nós. De fato, na tradição, esse hino se tornou a representação do amor nupcial entre Deus e o seu povo Israel. A partir dessas reflexões, podemos entender o casamento cristão. O sacramento do matrimônio para nós católicos é o sinal eficaz da presença de Deus no amor e na história do ser humano. Esse hino enaltece através do casamento a presença de Deus. Constatar que esse amor do esposo pela esposa nos ajuda a discernir a presença do Senhor na nossa história.

A história do amor nupcial é a história do amor de Deus entre nós. E para concluir veja o que diz a respeito o papa Francisco na exortação apostólica pós-sinodal amorislætitia: “A aliança esponsal, inaugurada na criação e revelada na história da salvação, recebe a revelação plena do seu significado em Cristo e na sua Igreja. O matrimónio e a família recebem de Cristo, através da Igreja, a graça necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão. O Evangelho da família atravessa a história do mundo desde a criação do homem à imagem e semelhança de Deus (cf.Gn1, 26-27) até à realização do mistério da Aliança em Cristo no fim dos séculos com as núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19, 9)”.


O povo invoca incessantemente o seu Deus

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Este salmo das Sagradas Escrituras é uma súplica do povo oprimido ao seu Deus. Assim como acontece na nossa história, quantas vezes a mesma comunidade se reúne e intercede a Deus para socorrê-la, porque a desgraça e as contingências da vida são totalmente adversas. O povo está numa pior e não tem mais para quem apelar, senão ao seu Deus. O salmo 43 é um exemplo de oração coletiva em que se concentra a esperança na fidelidade a Deus. Veja o que diz o salmo:

“Ó Deus, ouvimos com os nossos próprios ouvidos, nossos pais nos contaram a obra que fizestes em seus dias, nos tempos de antanho.

Para implantá-los, expulsastes com as vossas mãos nações pagãs; para lhes dardes lugar, abatestes povos.

Com efeito, não foi com sua espada que conquistaram essa terra nem foi seu braço que os salvou, mas foi vossa mão, foi vosso braço, foi o resplendor de vossa face, porque os amastes.

Meu Deus, vós sois o meu rei, vós que destes as vitórias a Jacó.

Por vossa graça, repelimos os nossos inimigos; em vosso nome, esmagamos nossos adversários.

Não foi em meu arco que pus minha confiança nem foi minha espada que me salvou, mas fostes vós que nos livrastes de nossos inimigos e confundistes os que nos odiavam.

Era em Deus que em todo o tempo nos gloriávamos, e seu nome sempre celebrávamos. Agora, porém, nos rejeitais e confundis; e já não ides à frente de nossos exércitos. Vós nos fizestes recuar diante do inimigo, e os que nos odiavam pilharam nossos bens.

Entregastes-nos como ovelhas para o corte, e nos dispersastes entre os pagãos.

Vendestes vosso povo por um preço vil, e pouco lucrastes com esta venda.

Fizeste-nos o opróbrio de nossos vizinhos, irrisão e ludíbrio daqueles que nos cercam.

Fizestes de nós a sátira das nações pagãs, e os povos nos escarnecem à nossa vista.

Continuamente estou envergonhado, a confusão cobre-me a face, por causa dos insultos e ultrajes de um inimigo cheio de rancor.

E, apesar de todos esses males que nos sobrevieram, não vos esquecemos, não violamos a vossa aliança.

Nosso coração não se desviou de vós nem nossos passos se apartaram de vossos caminhos, para que nos esmagueis no lugar da aflição e nos envolvais de trevas…

Se houvéramos olvidado o nome de nosso Deus e estendido as mãos a um deus estranho, porventura Deus não o teria percebido, ele que conhece os segredos do coração?

Mas por vossa causa somos entregues à morte todos os dias e tratados como ovelhas de matadouro.

Acordai, Senhor! Por que dormis? Despertai! Não nos rejeiteis continuamente!

Por que ocultais a vossa face e esqueceis nossas misérias e opressões? Nossa alma está prostrada até o pó, e colado no solo o nosso corpo. Levantai-vos em nosso socorro e livrai-nos pela vossa misericórdia.”

O povo oprimido pelo inimigo invoca Deus. É Ele que pode resgatá-lo dessa situação tão penosa. Quantas vezes também nós nos encontramos em situações dramáticas e talvez nos esquecemos de invocar o nosso Deus. Este salmo é, portanto, um exemplo de uma oração da comunidade em dificuldade. O que nos testemunha este hino? A oração desses fiéis lembra o passado triunfal da presença do Senhor. Com Ele, conseguiram triunfos e, no entanto, agora o presente se tornou vazio e triste. Um presente derrotado. Parece que Deus tinha abandonado de vez o seu povo e por isso ele recrimina, protesta contra Deus por esse abandono. Inclusive a oração ironiza Deus, dizendo que, permitindo a escravidão do seu povo, não ganhou nada, saiu perdendo.

 

Porém, Israel confia que o seu futuro será diferente, conseguirá reverter essa situação de humilhação, porque o seu Deus vai ‘acordar’ e irá ao seu encontro. Nessa fase da história, o povo sente-se ‘prostrado até o pó do chão’, pisado pelo seu inimigo. Somente Deus pode reabilitá-lo. Reconhece também o povo que o seu pecado é a razão de tudo isso. A partir de agora, sente-se inocente, porque confessou o seu pecado mantendo viva a aliança com o seu Deus. Mas também se pergunta o fiel por que Deus permite o mal, deixando o seu povo Israel que seja entregue à morte? É essa pergunta do justo que sofre. Esse questionamento, desse salmo, é ainda atual.

Quantas vezes ouvi me dizer ‘porque, padre, Deus permite tanto sofrimento, tanta dor?’ Porém, no final do salmo, aparece um pouquinho de esperança, embora de forma leve e provocante. O piedoso fiel levanta a questão da ausência de Deus. E por isso reclama que Deus não pode ser igual aos ídolos que não têm poder nenhum, mas pelo contrário, Ele é aquele que traz a salvação. Assim, o fiel proclama se Deus acordar, se tornar presente, também o fiel imergido no sofrimento, na dor, se reerguerá, voltará a esperar por uma vida melhor. Assim sendo, o autor desse salmo reza o seu Deus para se manter fiel a Ele, sem se preocupar na vingança dos seus inimigos. É essa fidelidade que lhe permite de compreender melhor a sua própria vida, embora ameaçada.