No amor humano, uma faísca do infinito amor de Deus

comentários

O salmo 44 proposto hoje mostra que se existe o amor, existe Deus. De fato, ele nos diz que no amor humano se discerne o amor de Deus manifestado por Deus. Assim, o amor humano se projeta ao infinito que nele é implantado. Esse salmo é um hino de um poeta do palácio real que fez pela ocasião do casamento de um rei e da sua princesa de Tiro, rica cidade comercial fenícia. Visto em chave espiritual os judeus, este salmo, interpretam teologicamente o amor místico entre Israel e o seu Deus, e para nós cristãos em foco messiânico.

“Transbordam palavras sublimes do meu coração. Ao rei dedico o meu canto. Minha língua é como o estilo de um ágil escriba. Sois belo, o mais belo dos filhos dos homens. Expande-se a graça em vossos lábios, pelo que Deus vos cumulou de bênçãos eternas. Cingi-vos com vossa espada, ó herói; ela é vosso ornamento e esplendor. Erguei-vos vitorioso em defesa da verdade e da justiça. Que vossa mão se assinale por feitos gloriosos. Aguçadas são as vossas flechas; a vós se submetem os povos; os inimigos do rei perdem o ânimo. Vosso trono, ó Deus, é eterno, de equidade é vosso cetro real. Amais a justiça e detestais o mal, pelo que o Senhor, vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria, preferindo-vos aos vossos iguais. Exalam vossas vestes perfume de mirra, aloés e incenso; do palácio de marfim os sons das liras vos deleitam. Filhas de reis formam vosso cortejo; posta-se à vossa direita a rainha, ornada de ouro de Ofir. Ouve, filha, vê e presta atenção: esquece o teu povo e a casa de teu pai. De tua beleza se encantará o rei; ele é teu senhor, rende-lhe homenagens. Habitantes de Tiro virão com seus presentes, próceres do povo implorarão teu favor. Toda formosa, entra a filha do rei, com vestes bordadas de ouro. Em roupagens multicores apresenta-se ao rei, após ela vos são apresentadas as virgens, suas companheiras. Levadas entre alegrias e júbilos, ingressam no palácio real. Tomarão os vossos filhos o lugar de vossos pais, vós os estabelecereis príncipes sobre toda a terra. Celebrarei vosso nome através das gerações. E os povos vos louvarão eternamente.”

Lendo o salmo, podemos perceber na primeira parte a solenidade da entronização do rei, entregando a espada como símbolo do comandante geral do exército. Logo em seguida, faz a manifestação da sua realeza sobre todo o povo. E aqui entra a cena nupcial, que quer mostrar que o rei envolvido da potência de Deus quer ser parecido ao seu Deus, amando a justiça.

Na segunda parte do salmo, o rei apela à esposa para que: “Esquece o teu povo e a casa de teu pai”. E ela acompanhada de um longo cortejo se apresenta maravilhosa e ornada de vestes reais, porque é também filha de um rei, fazendo uma suave reverência ao marido. A esse ponto o amor humano, essa beleza criada, essa alegria, se tornam no nosso hino um sinal de Deus que é amor e beleza.

É essa experiência que leva a compreender o amor do Senhor. Portanto, é uma ação símbolo do amor divino para conosco e com toda a criação. A aliança de Deus com a humanidade é representada pelo amor nupcial humano. É o amor que salva a humanidade e a sua criação. Assim sendo, para compreender e louvar a Deus precisamos partir da realidade da história da humanidade, isto é, do seu dia a dia. A partir dessa verdade que se pode perceber e constatar que também o amor nupcial se torna uma presença do amor de Deus entre nós. De fato, na tradição, esse hino se tornou a representação do amor nupcial entre Deus e o seu povo Israel. A partir dessas reflexões, podemos entender o casamento cristão. O sacramento do matrimônio para nós católicos é o sinal eficaz da presença de Deus no amor e na história do ser humano. Esse hino enaltece através do casamento a presença de Deus. Constatar que esse amor do esposo pela esposa nos ajuda a discernir a presença do Senhor na nossa história.

A história do amor nupcial é a história do amor de Deus entre nós. E para concluir veja o que diz a respeito o papa Francisco na exortação apostólica pós-sinodal amorislætitia: “A aliança esponsal, inaugurada na criação e revelada na história da salvação, recebe a revelação plena do seu significado em Cristo e na sua Igreja. O matrimónio e a família recebem de Cristo, através da Igreja, a graça necessária para testemunhar o amor de Deus e viver a vida de comunhão. O Evangelho da família atravessa a história do mundo desde a criação do homem à imagem e semelhança de Deus (cf.Gn1, 26-27) até à realização do mistério da Aliança em Cristo no fim dos séculos com as núpcias do Cordeiro (cf. Ap 19, 9)”.


O povo invoca incessantemente o seu Deus

comentários

Este salmo das Sagradas Escrituras é uma súplica do povo oprimido ao seu Deus. Assim como acontece na nossa história, quantas vezes a mesma comunidade se reúne e intercede a Deus para socorrê-la, porque a desgraça e as contingências da vida são totalmente adversas. O povo está numa pior e não tem mais para quem apelar, senão ao seu Deus. O salmo 43 é um exemplo de oração coletiva em que se concentra a esperança na fidelidade a Deus. Veja o que diz o salmo:

“Ó Deus, ouvimos com os nossos próprios ouvidos, nossos pais nos contaram a obra que fizestes em seus dias, nos tempos de antanho.

Para implantá-los, expulsastes com as vossas mãos nações pagãs; para lhes dardes lugar, abatestes povos.

Com efeito, não foi com sua espada que conquistaram essa terra nem foi seu braço que os salvou, mas foi vossa mão, foi vosso braço, foi o resplendor de vossa face, porque os amastes.

Meu Deus, vós sois o meu rei, vós que destes as vitórias a Jacó.

Por vossa graça, repelimos os nossos inimigos; em vosso nome, esmagamos nossos adversários.

Não foi em meu arco que pus minha confiança nem foi minha espada que me salvou, mas fostes vós que nos livrastes de nossos inimigos e confundistes os que nos odiavam.

Era em Deus que em todo o tempo nos gloriávamos, e seu nome sempre celebrávamos. Agora, porém, nos rejeitais e confundis; e já não ides à frente de nossos exércitos. Vós nos fizestes recuar diante do inimigo, e os que nos odiavam pilharam nossos bens.

Entregastes-nos como ovelhas para o corte, e nos dispersastes entre os pagãos.

Vendestes vosso povo por um preço vil, e pouco lucrastes com esta venda.

Fizeste-nos o opróbrio de nossos vizinhos, irrisão e ludíbrio daqueles que nos cercam.

Fizestes de nós a sátira das nações pagãs, e os povos nos escarnecem à nossa vista.

Continuamente estou envergonhado, a confusão cobre-me a face, por causa dos insultos e ultrajes de um inimigo cheio de rancor.

E, apesar de todos esses males que nos sobrevieram, não vos esquecemos, não violamos a vossa aliança.

Nosso coração não se desviou de vós nem nossos passos se apartaram de vossos caminhos, para que nos esmagueis no lugar da aflição e nos envolvais de trevas…

Se houvéramos olvidado o nome de nosso Deus e estendido as mãos a um deus estranho, porventura Deus não o teria percebido, ele que conhece os segredos do coração?

Mas por vossa causa somos entregues à morte todos os dias e tratados como ovelhas de matadouro.

Acordai, Senhor! Por que dormis? Despertai! Não nos rejeiteis continuamente!

Por que ocultais a vossa face e esqueceis nossas misérias e opressões? Nossa alma está prostrada até o pó, e colado no solo o nosso corpo. Levantai-vos em nosso socorro e livrai-nos pela vossa misericórdia.”

O povo oprimido pelo inimigo invoca Deus. É Ele que pode resgatá-lo dessa situação tão penosa. Quantas vezes também nós nos encontramos em situações dramáticas e talvez nos esquecemos de invocar o nosso Deus. Este salmo é, portanto, um exemplo de uma oração da comunidade em dificuldade. O que nos testemunha este hino? A oração desses fiéis lembra o passado triunfal da presença do Senhor. Com Ele, conseguiram triunfos e, no entanto, agora o presente se tornou vazio e triste. Um presente derrotado. Parece que Deus tinha abandonado de vez o seu povo e por isso ele recrimina, protesta contra Deus por esse abandono. Inclusive a oração ironiza Deus, dizendo que, permitindo a escravidão do seu povo, não ganhou nada, saiu perdendo.

 

Porém, Israel confia que o seu futuro será diferente, conseguirá reverter essa situação de humilhação, porque o seu Deus vai ‘acordar’ e irá ao seu encontro. Nessa fase da história, o povo sente-se ‘prostrado até o pó do chão’, pisado pelo seu inimigo. Somente Deus pode reabilitá-lo. Reconhece também o povo que o seu pecado é a razão de tudo isso. A partir de agora, sente-se inocente, porque confessou o seu pecado mantendo viva a aliança com o seu Deus. Mas também se pergunta o fiel por que Deus permite o mal, deixando o seu povo Israel que seja entregue à morte? É essa pergunta do justo que sofre. Esse questionamento, desse salmo, é ainda atual.

Quantas vezes ouvi me dizer ‘porque, padre, Deus permite tanto sofrimento, tanta dor?’ Porém, no final do salmo, aparece um pouquinho de esperança, embora de forma leve e provocante. O piedoso fiel levanta a questão da ausência de Deus. E por isso reclama que Deus não pode ser igual aos ídolos que não têm poder nenhum, mas pelo contrário, Ele é aquele que traz a salvação. Assim, o fiel proclama se Deus acordar, se tornar presente, também o fiel imergido no sofrimento, na dor, se reerguerá, voltará a esperar por uma vida melhor. Assim sendo, o autor desse salmo reza o seu Deus para se manter fiel a Ele, sem se preocupar na vingança dos seus inimigos. É essa fidelidade que lhe permite de compreender melhor a sua própria vida, embora ameaçada.


A nossa salvação é deus

comentários

A grande verdade que precisamos sempre lembrar é que somos peregrinos nessa terra. Não somos eternos aqui, nesse pequeno planeta! Justamente pelo fato de nós sermos peregrinos somos limitados e marcados muitas vezes pela dor, incompreensões, solidão, tristeza, depressão, dúvidas… O ser humano chega em certos momentos, inclusive, a viver as trevas da vida, que lhe tiram toda esperança e expectativa de futuro. Sente-se injustiçado, abandonado. Há pessoas que nem mais lágrimas descem pelo seu rosto por ter tanto chorado. Nesses momentos humanos cruéis não se tem nem mais forças para quem apelar, se desconfia de tudo e de todos. Pra quem apelar, então? Será que tem alguém ainda? O salmo 42 das Sagradas Escrituras nos dá um testemunho bem forte. Lembra-nos que Deus é Aquele que nunca nos abandona. Ele está sempre de prontidão para nos socorrer. O nosso Deus não dorme e nem descansa para nos atender. É um salmo bem impregnado de saudade; leia atentamente:

“Fazei-me justiça, ó Deus, e defendei minha causa contra uma nação ímpia. Livrai-me do homem doloso e perverso, pois vós, ó meu Deus, sois a minha fortaleza; por que me repelis? Por que devo andar triste sob a opressão do inimigo?

Lançai sobre mim a vossa luz e fidelidade; que elas me guiem, e me conduzam ao vosso monte santo, aos vossos tabernáculos.

E me aproximarei do altar de Deus, do Deus de minha alegria e exultação. E vos louvarei com a cítara, ó Senhor, meu Deus!

Por que te deprimes, ó minha alma, e te inquietas dentro de mim? Espera em Deus, porque ainda hei de louvá-lo: ele é minha salvação e meu Deus.”

Quem reza aqui o salmo 42, parece ser um homem incriminado por pessoas iníquas, que pede a Deus justiça, defesa pela sua incriminação. Ele, um judeu inocente, sente-se injustiçado. Tudo isso lhe provoca grande dor, abandono. Imagino quanta gente ainda hoje passa por esses momentos tão tenebrosos e humilhantes. Esse sofredor, filho de Deus, longe da sua terra, entre pessoas que não conhece, apela ao seu Deus. Confia que o seu Deus, perante tanta dor, não pode estar mudo, calado. Geralmente, quem é injustiçado vive também a solidão. Sente-se como uma pessoa em exilio, longe de todos, um desconhecido. Que dor! Eis aqui o grande ensino desse salmo, do testemunho desse fiel, a confiança em Deus!

Esse fiel levita tem a certeza que Deus vai intervir. O Senhor se torna para ele a ‘verdade’ e a ‘luz’ que o conduzirão à liberdade. A prova da vida é somente um tempo passageiro, um tempo relativo, porque invocando ‘luz e verdade’ para uma verdadeira peregrinação de libertação o fiel do salmo diz: ‘me conduzam ao vosso monte santo, aos vossos tabernáculos.’ Para nós cristãos o ‘monte santo e tabernáculos’ são as igrejas onde se celebra a santa Eucaristia. Chegando ao ‘altar de Deus’ diz o orante: ‘vos louvarei com a cítara, ó Senhor, meu Deus!’ Com essa alegria que o invade pode se tornar firme e não se deixar levar pelo desanimo e tristeza, porque o seu Deus virá ao seu encontro. A sua salvação, então, se tornará uma verdadeira realidade. Ainda hoje quantas pessoas por causa de tanto sofrimento e abandono perdem a própria identidade, parecem estar em perene exílio. Porém, a vontade de sorrir aparece quando descobrem Deus. Uma alegria que vem do Senhor se torna a força de erguer a cabeça e ir em frente. E aqui se resgata a identidade. É nessa identidade que se recompõe a vida da pessoa. O sofrimento, a dor, o abandono perdem o próprio poder na identidade do ser humano com Deus. Veja o que nos diz papa Francisco a respeito: “Se nós – um exemplo – estamos cheios de comida, não temos fome. Se estamos confortáveis, tranquilos onde estamos, nós não precisamos ir para outro lugar. E eu me pergunto, e seria bom que todos nós nos perguntássemos hoje: “Eu estou tranquilo, feliz, e não preciso de nada – espiritualmente falando – no meu coração? A minha saudade se apagou? Um coração que não tem saudade, não conhece a alegria. E a alegria, precisamente, é a nossa força: a alegria de Deus. Um coração que não sabe o que é a saudade, não pode fazer festa..”

Encontrado Deus a pessoa se transforma, se alegra. E daí o papa Francisco continua questionando: “Vamos nos perguntar como é a nossa saudade de Deus: estamos contentes, estamos felizes assim, ou todos os dias temos esse desejo de seguir em frente? Que o Senhor nos conceda esta graça: que nunca, nunca, nunca se apague em nosso coração a saudade de Deus”.

Essa saudade pode nos conduzir à verdadeira justiça que tanto almejamos e que os seres humanos não sabem dar.


O ser humano é sedento de Deus

comentários

As pessoas têm o direito de pensar e enxergar a vida além daquilo que enxergam e entendem. De fato, como compreender a preciosidade da nossa vida se não tivermos esperança de futuro infinito e belo? E quem nos pode proporcionar essa esperança da maravilha da nossa vida? Um belo dia, um senhor famoso, um grande intelectual, me disse: “Padre Claudio, eu tenho inveja do senhor!” Mas eu repliquei: “Como? O senhor tem tudo, não lhe falta nada e além do mais é reconhecido internacionalmente pela sua grande arte e pensamento!” Porém, ele retrucou: “Sim, eu tenho tanta fama, mas não tenho fé. No entanto, você, padre Claudio, tem fé”. Percebi que essa pessoa tão rica em todos os sentidos humanos reclamava da falta da experiência de Deus na sua vida. Não conseguia viver essa dimensão de fé em Deus. Quantas pessoas todos os dias manifestam esse desejo, mas não conseguem viver a experiência de Deus? É verdade também que muitas outras pessoas dão um grande testemunho de fé, e aqui quero lembrar a filha de Deus, Paula Novellino, que faleceu quarta feira, 04.01.2017. Uma mulher de muita fé. Eu agradeço a Deus pela sua vida que nunca se acaba. Dito isso, podemos dizer claramente que a nossa vida tem cada vez mais sentido e importância, na medida em que fizermos a experiência de Deus na nossa história. O salmo 41 das Sagradas Escrituras nos convida a colocar no centro da nossa vida essa experiência de fé no Senhor. Leia atentamente:
“Como a corça anseia pelas águas vivas, assim minha alma suspira por vós, ó meu Deus.
Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei contemplar a face de Deus?
Minhas lágrimas se converteram em alimento dia e noite, enquanto me repetem sem cessar: Teu Deus, onde está?
Lembro-me, e esta recordação me parte a alma, como ia entre a turba, e os conduzia à casa de Deus, entre gritos de júbilo e louvor de uma multidão em festa.
Por que te deprimes, ó minha alma, e te inquietas dentro de mim? Espera em Deus, porque ainda hei de louvá-lo: ele é minha salvação e meu Deus. Desfalece-me a alma dentro de mim; por isso penso em vós do longínquo país do Jordão, perto do Hermon e do monte Misar.
Uma vaga traz outra no fragor das águas revoltas, todos os vagalhões de vossas torrentes passaram sobre mim.
Conceda-me o Senhor de dia a sua graça; e de noite eu cantarei, louvarei ao Deus de minha vida.
Digo a Deus: Ó meu rochedo, por que me esqueceis? Por que ando eu triste, sob a opressão do inimigo?
Sinto quebrarem-se-me os ossos, quando, em seus insultos, meus adversários me repetem todos os dias: Teu Deus, onde está ele?
Por que te deprimes, ó minha alma, e te inquietas dentro de mim? Espera em Deus, porque ainda hei de louvá-lo: ele é minha salvação e meu Deus.”
O salmo nos revela aqui a saudade do fiel do Templo e de Deus. Sim, porque o autor declara como foi bom estar em Sião no passado e agora lamenta estar longe de tudo isso, em exilio. Exilado numa terra estrangeira. Como nós hoje quando estamos longe da própria terra natal, dos familiares, perdemos o entusiasmo e espontaneidade da vida. Sentimo-nos isolados e sós. E o salmista nos paragona a uma corça que anseia pelas águas vivas que refletem o drama de estar longe de Deus, do seu Templo. Longe da sua identificação religiosa e vivência natal. O suplicante vive cheio de saudade, que torna o seu presente bastante sofrido e, ao mesmo tempo, alimenta a esperança de um retorno às suas origens. As lembranças do passado, das suas manifestações religiosas, o tornam inquieto e triste. E as aguas que se revoltam e passam por cima da pessoa, biblicamente falando, significam que gera caos, isto é, produz morte. Para compreender melhor tudo isso, quero acrescentar umas palavras do papa Francisco:
“Não podemos ficar encerrados na paróquia, nas nossas comunidades, quando há tanta gente esperando o evangelho! Não se trata simplesmente de abrir a porta para acolher, mas de sair pela porta fora para procurar e encontrar. Decididamente, pensemos a pastoral a partir da periferia, daqueles que estão mais afastados, daqueles que habitualmente não frequentam a paróquia. Também eles são convidados para a Mesa do Senhor.” A respeito disso, o papa nos propõe um propósito para alimentar tudo isso. “Difundir, sustentar e valorizar os Exercícios Espirituais, pois os homens e as mulheres de hoje têm sede de encontrar Deus e conhecê-lo e não só de ouvir falar”. Portanto, Deus não é simplesmente uma proposta de vida, mas é a nossa vida. É Ele a nossa fonte de vida. Por isso, somos sedentos Dele, nunca cansaremos de atingir da sua fonte.


Feliz a pessoa que ajuda o pobre

comentários

Os pobres são um desafio para toda a sociedade. A pobreza é o grito de uma realidade que não deveria existir. Por que isso? É difícil dar uma resposta exaustiva, mas uma coisa é certa: Deus não criou isso! Isto é obra do ser humano. Na realidade, porém, o Salmo 40 do Antigo Testamento, das Sagradas Escrituras, propõe mais uma vez a teoria da retribuição em que delito e doença estão intimamente ligados: “Senhor; sarai-me, porque pequei contra vós”. Portanto, é o Salmo de um doente que está afetado também de uma doença espiritual, aquela da traição e da ironia dos falsos amigos. Mas o Salmo também penitencial é marcado por uma viva esperança no perdão de Deus. Leia atentamente o que diz:
“Feliz quem se lembra do necessitado e do pobre, porque no dia da desgraça o Senhor o salvará. O Senhor há de guardá-lo e o conservará vivo, há de torná-lo feliz na terra e não o abandonará à mercê de seus inimigos. O Senhor o assistirá no leito de dores, e na sua doença o reconfortará. Quanto a mim, eu vos digo: Piedade para mim, Senhor; sarai-me, porque pequei contra vós. Meus inimigos falam de mim maldizendo: Quando há de morrer e se extinguir o seu nome? Se alguém me vem visitar, fala hipocritamente. Seu coração recolhe calúnias e, saindo fora, se apressa em divulgá-las. Todos os que me odeiam murmuram contra mim, e só procuram fazer-me mal. Um mal mortal, dizem eles, o atingiu; ei-lo deitado, para não mais se levantar. Até o próprio amigo em que eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar. Ao menos vós, Senhor, tende piedade de mim; erguei-me, para eu lhes dar a paga que merecem. Nisto verei que me sois favorável, se meu inimigo não triunfar de mim. Vós, porém, me conservareis incólume, e na vossa presença me poreis para sempre. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, de eternidade em eternidade! Assim seja! Assim seja!”
Esse hino proclama de um lado a tristeza e o medo que afligem o doente, e de outro lado, exprime a confiança da presença de Deus na sua vida atormentada, dando-lhe força, segurança, experimentando o seu perdão. Isto é uma alegria imensa. E na parte central do hino aparecem os inimigos do fiel em oração. Esses opositores amaldiçoam e desejam para ele, fiel, não somente a morte física, mas também a espiritual com a eliminação do nome, isto é, da lembrança; sem o nome desaparece na história.
Também a metáfora do ‘calcanhar’ sugere a ação brutal de quem esmaga o seu concorrente. Revela assim o autor do salmo que o amigo de total confiança se transforma traidor e, ao mesmo tempo, agressor indomável. O sofrimento se dobra. Parece o fim. Mas a oração se inflama mais ainda nessa realidade tão triste e amarga. Deus ama tanto que não quer vingança, mas perdão. O triunfo de Deus se manifesta no perdão. É o amor de Deus que salva e não a vingança das pessoas. A experiência do fiel em oração experimenta essa verdade: Deus é superior a todas essas traições e o fiel se sente confortado em seguir esse ensino do seu Senhor Onipotente. Sente-se preenchido na sua plenitude da vida em viver o amor de Deus e rejeitando a vingança humana.
Aqui cabe muito bem o ensino do papa  Francisco com a carta Apostólica “Misericórdia e mísera” em que nos indica a realizar uma ‘revolução cultural’ dos pequenos gestos, de total simplicidade, para fazer prevalecer na nossa vida ‘o tempo da misericórdia’. É essa experiência que nos leva a fazer grandes mudanças na vida humana, porque isto revela a presença do nosso Deus. E para concretizar esse maravilhoso salmo, sempre o papa Bergoglio instituiu o “Dia Mundial dos Pobres”, que será celebrado no penúltimo domingo do ano litúrgico da nossa Igreja.
O próprio santo padre disse o seguinte: “Intuí que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário da Misericórdia, deve-se celebrar em toda a Igreja, na ocasião do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres”. O papa Francisco afirma ainda que este ‘Dia Mundial dos Pobres’ é uma “digna preparação para bem viver a Solenidade de Cristo Rei do Universo”, que encerra o ano litúrgico. Uma forma para promover a identificação da Igreja com os “menores e os pobres”. Justamente o santo Padre quis salientar que a justiça social, a paz na sociedade, será marcada somente quando se terá uma efetiva promoção em todos os sentidos dos menores e pobres. E essa jornada pretende impulsionar as comunidades e os cristãos a “refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho”.
Assim sendo, não podemos fazer vista grossa  perante os pobres, mas sim nos comprometer com eles. Somos testemunhas da misericórdia, e como tal não podemos arredar ‘os pés’. Portanto, qual são os sinais que podemos dar para viver esse comprometimento? Sempre Francisco nos recorda que devemos ser autores de uma cultura da misericórdia que possa se opor firmemente à indiferença e à desconfiança entre as pessoas. É nisso que consiste também a nossa felicidade.


O mal será derrotado

comentários

Quantos desesperos e gritos de dor se elevam todos os dias na vida das pessoas! O mal circunda o ser humano e o deixa ainda mais fragilizado na sua existência. Por que a maldade domina a vida? O salmo 38, das Sagradas Escrituras, fala-nos a respeito:

“Disse comigo mesmo: Velarei sobre os meus atos, para não mais pecar com a língua. Porei um freio em meus lábios, enquanto o ímpio estiver diante de mim. Fiquei mudo, mas sem resultado, porque minha dor recrudesceu.Meu coração se abrasava dentro de mim, meu pensamento se acendia como um fogo, então eu me pus a falar: Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim, e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero.A largura da mão: eis a medida de meus dias, diante de vós minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro. De fato, o homem passa como uma sombra, é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá.E agora, Senhor, que posso esperar? Minha confiança está em vós. Livrai-me de todas as faltas, não me abandoneis ao riso dos insensatos.Calei-me, já não abro a boca, porque sois vós que operais. Afastai de mim esse flagelo, pois sucumbo ao rigor de vossa mão.Quando punis o homem, fazendo-lhe sentir a sua culpa, consumis, como o faria a traça, o que ele tem de mais caro. Verdadeiramente, apenas um sopro é o homem. Ouvi, Senhor, a minha oração, escutai os meus clamores, não fiqueis insensível às minhas lágrimas. Diante de vós não sou mais que um viajor, um peregrino, como foram os meus pais.Afastai de mim a vossa ira para que eu tome alento, antes que me vá para não mais voltar.”

Surge inevitável a questão de querermos compreender de onde vem todo o mal, sofrimento e dor que fazem parte da vida da humanidade. Se tudo o que Deus fez é bom, como então? Para isso, remontamos à Bíblia. Seus vários livros se preocupam com o mal. Neles se encontra uma multiplicidade de imagens para falar do tema. Não se encontra neles uma resposta simples, racional, mas uma resposta de fé. Razão e fé (confiança) estão presentes nesse salmo. Por isso a Bíblia é diferente de outros livros. E esse salmo nos ajuda a fazer essa profissão de fé.

Deus não criou o mal. Ele se preocupa em libertar os seres humanos do mal. Para combater o mal, é preciso confiar em Deus. Resgatar nossa ligação direta com Deus, pela qual fomos criados, e que desfrutávamos no Jardim do Éden. Lembremos o prólogo do Evangelho de João, que nos chama filhas e filhos de Deus, para acentuar nossa dependência a Deus. E a dependência a Deus, a confiança em Deus, é uma liberdade total, para os seres humanos, pois também significa sua liberdade perante os esquemas do mundo, com sua lógica limitada, opressora, que reproduz muitas vezes o mal, que afasta Deus. Significa viver mirando as “coisas do alto”, o que tem consequências muito profundas em nosso mundo, em nosso modo de viver e conviver com os demais filhos e filhas.

Nós, seres humanos, não somos geradores do mal, mas aderimos a ele. Porém, procuramos dar uma razão a toda essa desgraça que vivemos no dia a dia, no mundo todo, com violências, guerras, fomes, injustiças, desigualdades brutais. Muitos se fazem a pergunta ou justificam sua falta de fé assim: por que Deus permite tudo isso? Quem tem de responder a essa questão somos nós. O problema não é Deus. Ele não criou o mal!

A Bíblia trata do problema do mal. Tenta compreender a relação entre Deus e o mal. Qual é a ligação entre Deus e o mal? A fonte do conhecimento é conhecer Deus. Já na origem, havia a preocupação sobre o mal. O ser humano, por si só não era capaz. Ele se apega a Javé, que vai lhe explicar, como nos mostra o fiel desse salmo. Deus é o ator principal. Não é a humanidade. A fonte do conhecimento é, portanto, Deus. Se não queremos fazer a experiência de Deus, ficamos com nossos conhecimentos limitados, pois restritos ao conhecimento da criatura.

Sabemos que os seres humanos são vítimas do mal e, também, aderem ao mal. Mas, temos a certeza de que Deus reverte essa situação. Na medida em que nos deixamos conduzir por Deus, conseguimos vencer o mal. Deus respeita sua criatura, seu livre arbítrio, mas não a abandona. Então, a realidade que o profeta Isaías descreve é a que vai triunfar.

Onde há intimidade com Deus, tudo é possível, o mal não prolifera. Temos uma relação com a terra que, de hostil e penosa, torna-se na nova criação, uma relação de reconciliação: “… serão plantadas vinhas cujos frutos comerão” (Is 65, 21). O trabalho se torna resposta à graça de Deus e instrumento para uma vida feliz: “não trabalharão mais em vão, não darão mais à luz filhos voltados a uma morte repentina” (Is 65, 23). Quantas promessas! Que destino de plenitude nos é reservado na aposta no nosso Deus! E o último mal a ser derrotado é a morte.


O senhor não te abandona

comentários

O sofrimento é a dor que mais penaliza as pessoas, sobretudo, aquela que atinge o corpo. Naturalmente, sempre estamos expostos às fragilidades, porque o nosso corpo tem limitações. O salmo 37, do Antigo Testamento das Sagradas Escrituras, nos proporciona uma reflexão sobre isso. Veja o que diz:

“Senhor, em vossa cólera, não me repreendais, em vosso furor, não me castigueis, porque as vossas flechas me atingiram, e desceu sobre mim a vossa mão.Vossa cólera nada poupou em minha carne, por causa de meu pecado nada há de intacto nos meus ossos. Porque minhas culpas se elevaram acima de minha cabeça, como pesado fardo me oprimem em demasia.São fétidas e purulentas as chagas que a minha loucura me causou. Estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza.Inteiramente inflamados os meus rins; não há parte sã em minha carne. Ao extremo enfraquecido e alquebrado, agitado o coração, lanço gritos lancinantes.Senhor, diante de vós estão todos os meus desejos, e meu gemido não vos é oculto. Palpita-me o coração, abandonam-me as forças, e me falta a própria luz dos olhos.Amigos e companheiros fogem de minha chaga, e meus parentes permanecem longe. Os que odeiam a minha vida, armam-me ciladas; os que me procuram perder, ameaçam-me de morte; não cessam de planejar traições.Eu, porém, sou como um surdo: não ouço; sou como um mudo que não abre os lábios. Fiz-me como um homem que não ouve, e que não tem na boca réplicas a dar.Porque é em vós, Senhor, que eu espero; vós me atendereis, Senhor, ó meu Deus. Eis meu desejo: Não se alegrem com minha perda; não se ensoberbeçam contra mim, quando meu pé resvala; pois estou prestes a cair, e minha dor é permanente. Sim, minha culpa eu a confesso, meu pecado me atormenta.Entretanto, são vigorosos e fortes os meus inimigos, e muitos os que me odeiam sem razão. Retribuem-me o mal pelo bem, hostilizam-me porque quero fazer o bem.Não me abandoneis, Senhor. Ó meu Deus, não fiqueis longe de mim. Depressa, vinde em meu auxílio, Senhor, minha salvação!”

Para melhor entender esse salmo quero focar umas questões. O salmista diz que são “fétidas e purulentas as minhas chagas”. O vocabulário hebraico usado para indicar ‘chagas’ é a ‘lepra’. E nesse sentido que esse salmo se considera como a oração de um leproso. É bom lembrar que a lepra em Oriente daquele tempo era uma doença que carregava também um afastamento da comunidade, um total isolamento das outras pessoas. Também os evangelhos nos atestam a marginalização dos leprosos. Portanto, essa doença é a representação trágica da solidão, da expulsão da comunidade e, ao mesmo tempo, revela a impureza, o pecado do doente.

Nesse sentido, a oração se entrelaça com doença e pecado, porque a doença é vivida como um sinal do juízo de Deus. De fato, o salmo inicia com a lamentação de um doente e depois se transforma em uma confissão do pecado. O pecador-doente sente efetivamente o peso insuportável de uma terrível responsabilidade moral e a precipitação da ira de Deus. E para derrubar essa teoria da retribuição, tão fria e simplista, são necessários o testemunho de Jó, a nova perspectiva inaugurada pelos hinos do servo de Yhwè e de Jesus o Cristo. O fiel, nesse salmo, se desanima perante a tanta dor física e se sente só.

É a partir dessa lamentação que inicia a reflexão teológica sobre o pecado segundo a teoria da retribuição. Na Bíblia aparece Yhwè que castiga os pecadores. Por exemplo, no segundo livro dos Macabeus, Judas e o seu exército travaram uma guerra com Górgias, comandante da Iduméia, e o seu poderoso exército. Nesse confronto vitorioso, porém, “morreram alguns judeus, que depois descobriram porque morreram: debaixo das túnicas de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, cujo uso a Lei vedava aos judeus.” Assim, esses soldados morreram porque se entregaram aos ídolos e Deus os puniu.

Por isso, esse salmista sente a ira de Deus e assim, para poder sarar, ele pede primeiro o perdão dos pecados. Segundo esse devoto em oração é demais crente que o arrependimento dos seus pecados lhe abrirá caminhos de salvação, na experiência do amor de Deus. E do encontro entre a criatura doente e pecadora e o Criador pode somente resultar o perdão e, portanto, segundo a famosa retribuição, também a cura. Para nós, cristãos, o amor de Deus está acima de qualquer situação, e o seu amor é doado sempre sem mérito nosso.
Assim sendo, deve-se evitar cair na armadilha de “culpar” Deus pelos males que afligem a existência humana. A única origem dos males é a responsabilidade humana. Como acreditar que Deus vai fazer guerras? Vai provocar doenças? Vai degradar a natureza, a nossa “casa comum”? A natureza, a saúde, o meio ambiente, são dádivas de Deus, frutos da Criação.


Confia no senhor e segue seus caminhos

comentários

“Os justos têm vez ainda na nossa sociedade?” Ou ainda “Parece que o desonesto, o iníquo, o perverso e malvado se dão bem na nossa sociedade!”. Essas e outras palavras me são confiadas quase diariamente pelas pessoas que encontro. Eu costumo responder para não desanimar diante da aparente vitória do mal, porque Deus não abandona os seus fiéis, os justos, os que se preocupam em seguir os caminhos do Senhor. E para reforçar isso, nos vem ao encontro essas palavras sábias do salmo 36 das Sagradas Escrituras. São Palavras de Deus e, portanto, incontestáveis. Veja o que nos diz:

“Não te irrites por causa dos que agem mal nem invejes os que praticam a iniquidade, pois logo eles serão ceifados como a erva dos campos, e, como a erva verde, eles murcharão. Espera no Senhor e faze o bem; habitarás a terra em plena segurança. Põe tuas delícias no Senhor, e os desejos do teu coração ele atenderá. Confia ao Senhor a tua sorte, espera nele, e ele agirá. Como a luz, fará brilhar a tua justiça; e como o sol do meio-dia, o teu direito. Em silêncio, abandona-te ao Senhor, põe tua esperança nele. Não invejes o que prospera em suas empresas, e leva a bom termo seus maus desígnios. Guarda-te da ira, depõe o furor, não te exasperes, que será um mal, porque os maus serão exterminados, mas os que esperam no Senhor possuirão a terra. Mais um pouco e não existirá o ímpio; se olhares o seu lugar, não o acharás. Quanto aos mansos, possuirão a terra, e nela gozarão de imensa paz. O ímpio conspira contra o justo, e para ele range os seus dentes. Mas o Senhor se ri dele, porque vê o destino que o espera. Os maus empunham a espada e retesam o arco, para abater o pobre e miserável e liquidar os que vão no caminho reto. Sua espada, porém, lhes traspassará o coração, e seus arcos serão partidos. O pouco que o justo possui vale mais que a opulência dos ímpios; porque os braços dos ímpios serão quebrados, mas os justos o Senhor sustenta. O Senhor vela pela vida dos íntegros, e a herança deles será eterna. Não serão confundidos no tempo da desgraça e nos dias de fome serão saciados. Porém, os ímpios perecerão e os inimigos do Senhor fenecerão como o verde dos prados; desaparecerão como a fumaça. O ímpio pede emprestado e não paga, enquanto o justo se compadece e dá, porque aqueles que o Senhor abençoa possuirão a terra, mas os que ele amaldiçoa serão destruídos. O Senhor torna firmes os passos do homem e aprova os seus caminhos. Ainda que caia, não ficará prostrado, porque o Senhor o sustenta pela mão. Fui jovem e já sou velho, mas jamais vi o justo abandonado, nem seus filhos a mendigar o pão. Todos os dias empresta misericordiosamente, e abençoada é a sua posteridade. Aparta-te do mal e faze o bem, para que permaneças para sempre, porque o Senhor ama a justiça e não abandona os seus fiéis. Os ímpios serão destruídos, e a raça dos ímpios exterminada. Os justos possuirão a terra, e a habitarão eternamente.(…)”

É evidente, nessa oração, que o mal não tem vez, embora possa ter uma aparente vitória. De fato, o triunfo dos perversos será derrotado pela intervenção de Deus e, por isso, diz o salmo, precisa confiar e esperar em Deus. É Ele a nossa vitória. Na parte central do salmo, evidencia-se a ação de Deus que julga tanto o ímpio e quanto o justo, dando a cada um o que merece, destinando, assim, o fim do ímpio e a salvação do justo. Terminando, o salmo proclama que o justo deve sempre esperar pelo Senhor, é Ele a sua vitória. No entanto, o ímpio vai se perder. O salmista exalta o triunfo do justo, embora que possa passar por provações cruéis da vida. Ele vai herdar a terra, na Bíblia a terra é considerada quase uma criatura vivente, portanto, uma herança para aqueles que seguem os caminhos de Deus.

Isto representa o símbolo efetivo do dom de Deus na história humana. E a partir desse dom que vai ao tempo se aperfeiçoando, tornando-se manifestação do reino de Deus, em que os seres humanos poderão viver uma perfeita comunhão com Deus, em que não se terá mais nem luto e nem dor, nem choro e nem opressão. Assim sendo, o mal será derrotado e não terá mais vez na vida dos fieis.

É a esperança em Deus que dá aos filhos de Deus de apostar na vida para sempre. Deste modo, o justo, embora veja a vida dos malvados favorecida-bonita ao contrário dele, não desanime porque tudo isso passa rapidamente, e é somente uma pura ilusão de uma vida sem futuro. No entanto, a vida dos justos está nas mãos de Deus. É isto que vale! Assim sendo, afastar-se de Deus, decidir de fazer sem ele, é causa de sofrimento e de “morte”. Nesta rejeição, o que é mais importante para a vida, o que dá riqueza de sentido, é marcado negativamente perdendo aquela bondade do qual ele era o portador: o amor é tingido de ambiguidade, o trabalho de fadiga, a maternidade de dor, e em seguida, a relação fraterna de ódio (Gn4) e aquela social de soberbia (Gn 6-7).


Deus é maior que a violência

comentários

A violência que assistimos no cotidiano não é fruto do acaso, mas é consequência de ação iniqua da humanidade. Uma sociedade não transparente é algo que esconde ações que deturpam a convivência. O grande mal que existe entre nós é o fato de que ninguém se acha responsável de nada e ninguém revela a verdade das coisas. Eu poderia dizer que a nossa sociedade dá preferência à mentira e se esconde por trás dela. E o fato mais relevante é que nós não sabemos enxergar tudo isso, pelo contrário, sabemos, sim, transformar a mentira em verdade. Com tudo isso, é difícil a nossa convivência. É difícil confiar um no outro e assim se gera uma situação de instabilidade que produz por sua vez frutos de violência. Como reverter uma situação como essa? As Sagradas Escrituras, com o salmo 35, nos propõem uma grande reflexão e pistas de solução. O que o salmo nos diz efetivamente?

“A iniquidade fala ao ímpio no seu coração; não existe o temor a Deus ante os seus olhos, porque ele se gloria de que sua culpa não será descoberta nem detestada por ninguém.Suas palavras são más e enganosas; renunciou a proceder sabiamente e a fazer o bem. Em seu leito, ele medita o crime, anda pelo mau caminho, não detesta o mal.Senhor, vossa bondade chega até os céus, vossa fidelidade se eleva até as nuvens. Vossa justiça é semelhante às montanhas de Deus, vossos juízos são profundos como o mar. Vós protegeis, Senhor, os homens como os animais.Como é preciosa a vossa bondade, ó Deus! À sombra de vossas asas se refugiam os filhos dos homens. Eles se saciam da abundância de vossa casa, e lhes dais de beber das torrentes de vossas delícias,porque em vós está a fonte da vida, e é na vossa luz que vemos a luz. Continuai a dar vossa bondade aos que vos honram, e a vossa justiça aos retos de coração.Não me calque o pé do orgulhoso, não me faça fugir a mão do pecador. Eis que caíram os fautores da iniquidade, foram prostrados para não mais se erguer.”

Esse salmo ressalta a lógica do iníquo que faz o mal e se sente seguro porque ninguém pode descobri-lo. A sua habilidade é de enganar, porque ninguém, segundo ele, pode saber. Somente ele. Realmente, quem pode sondar o coração do ser humano? É aqui que está a resposta da Palavra de Deus. Verdadeiramente, nenhum ser humano tem capacidade para isso, mas Deus sim. O iníquo acha que pode enganar todo mundo e que não tem ninguém além disso. Para o iníquo Deus não existe e, portanto, pode fazer o que bem querer. Mas o autor desse salmo diz que Deus enxerga tudo, nada escapa aos seus olhos. Ele, Deus, está acima de tudo, e de também dos nossos pensamentos. Deus enxerga até as nossas intenções.

O salmista assim nos apresenta a humanidade: um resultado de iniquidade e de inocência, de ódio e de amor, de blasfêmia e de oração. À crueldade da violência das pessoas iníquas se opõe a potência da bondade do Senhor Deus, luz que apaga as trevas do mal. Para apresentar tudo isso, o salmista articula o hino em duas partes. A primeira parte é onde o ímpio promove estratégia de pecado, de mal. De fato, diz o salmista que “a iniquidade fala ao ímpio no seu coração”. Existe a palavra de Deus e a palavra diabólica. A malvadez faz uma só coisa com o maldoso que se alimenta somente de coisas ruins e adora a si mesmo.

Esse hino pretende exaltar assim a bondade divina que se opõe a maldade. O fiel que segue Deus, se deixa atrair por Ele, suplica de poupa-lo do poder do orgulhoso e do pecador. Essa oração desse fiel manifesta o grande amor de Deus que é fonte de vida e salvação. A experiência de Deus enriquece abundantemente a vida humana e que se traduz em olhar a luz que resplandece de Deus na oração, na escuta das Sagradas Escrituras. O papa Francisco nos convida também a fizermos esse discernimento: “A indiferença para com Deus supera a esfera íntima e espiritual da pessoa individual e investe a esfera pública e social. Com efeito, «sem uma abertura ao transcendente, o homem cai como presa fácil do relativismo e, consequentemente, torna-se-lhe difícil agir de acordo com a justiça e comprometer-se pela paz». O esquecimento e a negação de Deus, que induzem o homem a não reconhecer qualquer norma acima de si próprio e a tomar como norma apenas a si mesmo, produziram crueldade e violência sem medida. Em nível individual e comunitário, a indiferença para com o próximo – filha da indiferença para com Deus – assume as feições da inércia e da apatia, que alimentam a persistência de situações de injustiça e grave desequilíbrio social, as quais podem, por sua vez, levar a conflitos ou de qualquer modo gerar um clima de descontentamento que ameaça desembocar, mais cedo ou mais tarde, em violências e insegurança.” (Mensagem do Papa Francisco para o XLVIX Dia Mundial da Paz)


Deus julga as pessoas

comentários

Umas das experiências mais tristes do ser humano é quando ele se sente só, porque foi julgado e difamado. Quantas vezes cada um de nós passa por essa experiência terrível de ter sido atacado e consequentemente isolado? Chega ao ponto de não encontrar uma alma viva que te possa socorrer e ajudar. Ao máximo, constatar os balanços de cabeças para confirmar: ‘pobre coitado!’. Uma pessoa denegrida, julgada e abandonada é a destruição da sua humanidade. Mas o que resta a uma pessoa que passa por esses momentos tão cruéis? Onde buscar abrigo, compreensão? Nem os familiares ou colegas de profissão estão próximos. Um deserto tomou conta da pessoa. O que fazer em circunstâncias como essas? Será que há saída? É verdade que tem gente que não consegue enxergar mais nada e se entrega ao ‘vazio’. Porém, eu acredito firmemente que também nesses momentos tão cruciais é possível encontrar uma saída relevante que ajuda a superar tudo. Qual é? Quem nos orienta mais uma vez é a Sagrada Escritura, através do salmo 34. Leia atentamente:

“Lutai, Senhor, contra os que me atacam; combatei meus adversários. Empunhai o broquel e o escudo, e erguei-vos em meu socorro. Brandi a lança e sustai meus perseguidores. Dizei à minha alma: ‘Eu sou a tua salvação’. Sejam confundidos e envergonhados os que odeiam a minha vida, recuem humilhados os que tramam minha desgraça. Sejam como a palha levada pelo vento, quando o anjo do Senhor vier acossá-los. Torne-se tenebroso e escorregadio o seu caminho, quando o anjo do Senhor vier persegui-los, porquanto sem razão, me armaram laços; para me perder, cavaram um fosso sem motivo. Venha sobre eles de improviso a ruína; apanhe-os a rede por eles mesmos preparada, caiam eles próprios na cova que abriram. Então, a minha alma exultará no Senhor, e se alegrará pelo seu auxílio. Todas as minhas potências dirão: ‘Senhor, quem é semelhante a vós? Vós que livrais o desvalido do opressor, o mísero e o pobre de quem os despoja’. Surgiram apaixonadas testemunhas, interrogaram-me sobre faltas que ignoro, pagaram-me o bem com o mal. Oh, desolação para a minha alma! Contudo, quando eles adoeciam, eu me revestia de saco, extenuava-me em jejuns e rezava. Andava triste, como se tivesse perdido um amigo, um irmão; abatido, me vergava como quem chora por sua mãe. Quando tropecei, eles se reuniram para se alegrar; eles me dilaceraram sem parar. Puseram-me à prova, escarneceram de mim, rangeram os dentes contra mim. Senhor, até quando assistireis impassível a este espetáculo? Arrancai desses leões a minha vida, livrai-me a alma de seus rugidos. Vou render-vos graças publicamente, eu vos louvarei na presença da multidão. Não se regozijem de mim meus pérfidos inimigos, nem tramem com os olhos os que me odeiam sem motivo, pois nunca têm palavras de paz: e armam ciladas contra a gente tranquila da terra, escancaram para mim a boca, dizendo: ‘Ah! Ah!’ Com os nossos olhos, nós o vimos! Vós também, Senhor, vistes! Não guardeis silêncio. Senhor, não vos aparteis de mim. Acordai e levantai-vos para me defender, ó meu Deus e Senhor meu, em prol de minha causa! Julgai-me, Senhor, segundo vossa justiça. Ó meu Deus, que não se regozijem à minha custa! Não pensem em seus corações: ‘Ah, tivemos sorte!’ Não digam: ‘Nós o devoramos!’ Sejam confundidos todos juntos e se envergonhem os que se alegram com meus males, cubram-se de pejo e ignomínia os que se levantam orgulhosamente contra mim. Mas exultem e se alegrem os favoráveis à minha causa e digam sem cessar: ‘Glorificado seja o Senhor, que quis a salvação de seu servo!’ E a minha língua proclamará vossa justiça, dando-vos perpétuos louvores.”

O autor desse salmo desabafa, na prática, a traição que recebeu. Foi um complô bem armado para condená-lo. Ele foi conduzido perante à magistratura corrupta baseado sobre falsas acusações: “os que tramam minha desgraça… interrogaram-me sobre faltas que ignoro”. Perante essa triste farsa processual, sobretudo porque os que o acusam são ex-amigos, não lhe resta que buscar o verdadeiro juiz, Deus, para que possa desvendar a injustiça que foi submetido: “Senhor, vistes!… levantai-vos para me defender”. Para isso, o autor proclama palavras de fogo, de total desabafo, pedindo a Deus: “Empunhai o broquel e o escudo” para socorrê-lo e define os inimigos como fossem animais que devoram as suas vítimas quando acusam os inocentes de crimes nunca cometidos.
É uma situação trágica, de grande tensão que somente Deus pode resolver tomando a sua defesa. Assim sendo, Deus não fica indiferente perante a corrupção, a injustiça da humanidade. Recorrer a Deus que é um juiz justo e imparcial. É Ele o supremo juiz. Então, o justo poderá sofrer injustiças entre os homens, mas tem a quem ele apelar para revelar a verdade. Consequência de tudo isso, o justo eleva um hino de alegria pela felicidade de ter encontrado de ser absolvido pela justiça de Deus. Isto é, a humanidade pode confiar em uma justiça transparente, justa que é de Deus. E o papa Francisco acrescenta: “Nós nos colocamos no lugar de Deus”, mas “o nosso julgamento é um julgamento pobre”, nunca “pode ser um verdadeiro julgamento porque em nosso julgamento falta a misericórdia. E quando Deus julga, julga com misericórdia”.