Tributai ao senhor, ó filhos de Deus

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O ser humano experimenta sempre a precariedade no transcorrer da sua jornada. E quantas dúvidas e perguntas se faz constantemente! Nem sempre consegue dar respostas, sobretudo o seu relacionamento com a mãe natureza. Quantas questões! Mas, segundo o autor do salmo 28 das Sagradas Escrituras, temos que dar espaço a Deus na vida. É Ele que se manifesta sempre, até na mãe natureza e seus eventos. Saber conviver com ela, por exemplo, pode experimentar a sua presença. Portanto, até a natureza pode revelar essa presença majestosa de Deus. É necessário ler com muita atenção esse hino, e eu diria meditando-o no profundo do silêncio.

“Tributai ao Senhor, ó filhos de Deus, tributai ao Senhor glória e poder! Rendei-lhe a glória devida ao seu nome; adorai o Senhor com ornamentos sagrados. Ouve-se a voz do Senhor sobre as águas! O Deus de grandeza atroou: o Senhor trovejou sobre as águas imensas! A voz do Senhor faz-se ouvir com poder! A voz do Senhor faz-se ouvir com majestade! Fendem-se os cedros à voz do Senhor, quebra o Senhor os cedros do Líbano. Faz saltar o Líbano como um novilho, e o Sarion como um búfalo novo. A voz do Senhor despede relâmpagos, a voz do Senhor abala o deserto. O Senhor faz tremer o deserto de Cades. A voz do Senhor retorce os carvalhos, desnuda as florestas. E em seu templo todos bradam: glória! O Senhor preside ao dilúvio, o Senhor trona como rei para sempre. O Senhor há de dar fortaleza ao seu povo! O Senhor abençoará o seu povo, dando-lhe a paz!”

Depois dessa leitura bem concentrada, agora vamos fazer uma análise do texto para ter um melhor entendimento. É um salmo bem antigo que apresenta estruturas, constelações e termos do mundo indígena pré-israelítico. Este cenário é representado pela cultura Cananeia do seu deus da tempestade, Baal Hadad, que tinha a divindade suprema. Nos versículos de 3-9 do salmo, fala-se de uma tempestade que aterroriza a harmonia dos lugares tão conhecidos do mediterrâneo ao Líbano, de Jerusalém até o deserto. Essa violência da tempestade espanta os animais e a sua natureza. Porém, o fiel confia em Deus que está acima de tudo isso.

Com Deus, nada se teme, porque Ele reina no cosmo e na história. Perante o caos do mal, do aniquilamento e das tempestades da história, o crente confia cegamente na presença criadora e soberana de Yhwè. Ele é o Juiz justo e por isso derruba os adversários e soberbos que eram considerados quais ‘arvores majestosas e seculares’ que dominavam os outros. Com isso, revela-nos esse salmo como Deus está acima de tudo isso com a sua presença e julgando a história com toda a sua iniquidade. O nosso papa Francisco, nesse sentido, nos ajuda a focalizar melhor tudo isso, para os dias de hoje, dizendo que “às vezes, todos nós somos ameaçados quando devagar-devagar nos afastamos do Senhor, quase de leve, sem muitos clamores, vivendo de maneira muito mundana e bem materialista. Assim não percebemos mais a sua presença porque a trocamos com os ídolos da vida que o próprio ser humano constrói.”

Por exemplo, como se chega a isso? Diz o papa: “Quando se frequenta a Igreja, vive a tua vida cristã como se fosse ‘um hábito cultural’, assim se perde a relação filial com Deus”. Essa atitude, esse comportamento não leva a fazer uma verdadeira adoração a Deus. Assim sendo, Deus deixa sozinho esse tipo de fiel. Deus é tão onipotente que respeita até essas atitudes de vida. Porém, continua o papa Francisco: “É a derrota: um povo que se afasta de Deus acaba assim”.

Acrescenta o Pontífice: “E é uma lição válida para todos. Também hoje. Inclusive nós, aparentemente, somos devotos, temos um santuário, temos muitas coisas…” Mas, perguntou Francisco, “está o teu coração com Deus? Sabes adorar a Deus?. E se crês em Deus, mas num deus um pouco nebuloso, distante, que não entra no teu coração, e se tu não obedeces aos seus mandamentos, então significa que estás diante de uma derrota”.

Por isso, disse Francisco concluindo a homilia, “peçamos ao Senhor que a nossa prece tenha sempre aquela raiz de fé. Peçamos a graça da fé. Com efeito, a fé é um dom que não se aprende nos livros. Uma dádiva do Senhor que deve ser pedida. Concedei-me a fé!Portanto, devemos pedir ao Senhor a graça de rezar com fé, de estarmos certos de que tudo o que lhe pedirmos nos será dado, com a segurança que nos dá a fé. Esta é a nossa vitória: a fé”. Desse jeito, faremos a experiência de um Deus presente que fará justiça, abençoando o seu povo, dando-lhe a paz. A paz que tanto é desejada pelo mundo inteiro.


O meu grito a ti, Senhor!

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O salmo 27 das Sagradas Escrituras é o canto que nos dá esperança de vida. Em que consiste isso? É a chegada da Palavra de Deus como resposta verdadeira aos problemas do cotidiano do fiel. É Ela que resolve as vicissitudes da humanidade; é Ela que derrota o sofrimento e abre horizontes de vida até perante a morte. O intercessor, nesse caso, invoca Deus, porque o silêncio Dele é sinônimo de morte e abandono, e, por isso, quer escutá-Lo. E quanto silêncio hoje! Leia atentamente quanto o salmista proclama com toda confiança:

“É para vós, Senhor, que ergo meu clamor. Ó meu apoio, não fiqueis surdo à minha voz; não suceda que, vós não me ouvindo, eu me vá unir aos que desceram para o túmulo. Ouvi a voz de minha súplica quando clamo, quando levanto as mãos para o vosso templo santo. Não me deixeis perecer com os pecadores e com os que praticam a iniquidade, que dizem ao próximo palavras de paz, mas guardam a maldade no coração. Tratai-os de acordo com as suas ações, e conforme a malícia de seus crimes. Retribuí-lhes segundo a obra de suas mãos; dai-lhes o que merecem, pois não atendem às ações do Senhor nem às obras de suas mãos. Que Ele os abata e não os levante. Bendito seja o Senhor, que ouviu a voz de minha súplica; nele confiou meu coração e fui socorrido. O Senhor é a minha força e o meu escudo! Por isso meu coração exulta e o louvo com meu cântico. O Senhor é a força do seu povo, uma fortaleza de salvação para o que lhe é consagrado. Salvai, Senhor, vosso povo e abençoai a vossa herança; sede seu pastor, levai-o nos braços eternamente.”

O que observamos nesse interessante hino? Nota-se uma evidente simbologia que se opõe àquela da palavra e do silêncio. Aqui o ser humano grita ‘socorro’ com toda a sua força para Deus. No entanto, Deus parece indiferente perante o drama que está vivendo o autor desse salmo. O drama humano que está passando, esse fiel, leva-o a gritar com toda a sua força na invocação, erguendo até as mãos. O corpo todo é contrito na sua oração. De repente, quebrando o silêncio divino, a Palavra do Senhor intervém para salvá-lo. Assim, o fiel, perante essa experiência de ajuda, sente-se fortalecido e a sua boca se enche de palavras de alegria e de júbilo. Esse Deus que parecia calado, insensível ouviu a voz do suplicante. Desse jeito, os ímpios, que o ameaçam porque não respeitam a Aliança, enquanto ofendem a Deus e não respeitam os pobres, são derrotados. Aqueles que se prodigam a fazer o mal se afastam de Deus e assim não pertencem ao povo de Deus. É verdade também que Deus não pode estar indiferente perante a ação injusta dos ímpios. Afastar-se de Deus equivale afastar-se da vida, e desse modo a morte reinará. Isto quer dizer que o ser humano se sente sozinho, perdido nos meandros do cotidiano.

Achei interessante a fala do Papa Francisco sobre o que estamos refletindo: “A oração com a dor e a angústia”, o fiel “confia dor e angústia ao Senhor». E nisto, o Papa nos recorda Cristo: com efeito, “Jesus conheceu esta oração no Horto das Oliveiras, quando a sua angústia era muita e a dor lhe fez suar sangue, e não repreendeu o Pai: “Pai, se quiseres, livra-me disto, mas seja feita a tua vontade”. Acrescentou: “muitas vezes rezamos, pedimos ao Senhor, mas às vezes sabemos chegar precisamente àquela luta com o Senhor, até às lágrimas, para pedir a graça”.

A oração – disse Francisco – faz milagres. Além disso, falou: “A oração dos fiéis muda a Igreja: não somos nós, papas, bispos, sacerdotes, religiosas, quem leva a Igreja em frente, são os santos! Os santos são aqueles que têm a coragem de acreditar que Deus é o Senhor e que pode fazer tudo”. E concluiu insistindo a interceder Deus para que “nos dê a graça da confiança na oração, de rezar com coragem e também de despertar a piedade, quando a perdemos, e ir em frente com o povo de Deus ao encontro com ele”. É nessa dimensão de confiança no Deus da vida que podemos experimentar a maravilha da vida que temos nas mãos. É essa confiança que nos dá o poder de discernir a força irresistível do nosso Senhor entre nós. Encontrei nesses dias, aqui na Itália, uma pessoa que perdeu tudo na vida, até as pessoas mais queridas da família; vive praticamente peregrinando e de ajuda. Porém o que mais me impressionou na sua narração foi como ele confia totalmente em Deus, como ele invoca, reza constantemente Deus. É essa oração que lhe permite sorrir, enxergar além dos graves problemas. Garantiu-me: “A minha vida vai muito além da provisoriedade dessa terra, da minha total pobreza e miséria”.


Eucaristia – fonte da vida (2)

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Em Belém do Pará celebra-se o 17° Congresso Eucarístico Nacional.Gostaria de propor mais essa reflexão para meditar o grande mistério da Eucaristia. Falou o evangelista Lucas: “Sentou-se à mesa com os dois, (discípulos de Emaús), tomou o pão e o abençoou, depois o partiu e deu a eles. Nisso os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. Então um disse ao outro: ‘Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?’ Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém” (Lc 24, 30-33).

Os discípulos desanimados reconheceram Jesus somente depois da sagrada refeição que é a Ceia Eucarística. Portanto, para enxergarmos a presença de um Jesus vivo na nossa vida, além de conhecer a própria realidade e as Sagradas Escrituras, precisamos viver intensamente a Eucaristia. Este Evangelho nos ensina o caminho para descobrirmos Deus na nossa vida. E a prova desse reconhecimento é que os dois famosos discípulos voltaram para Jerusalém, a cidade que num certo sentido representava o fim de tudo para eles. Com esta descoberta reverteram a situação e se reuniram de novo com os outros discípulos para viverem o reencontro com o Ressuscitado. A fé em Jesus ressuscitado se realiza totalmente quando pode se confrontar e se expressar na comum profissão de fé junto a Pedro e aos onze discípulos. Isto significa a Igreja. Essa experiência não os deixou parados, porque tinham que contar aquilo que tinham visto e ouvido. A experiência do Ressuscitado é muito forte e os anima para compartilhar com os outros a alegria do encontro com o Senhor. É esta experiência que o impulsiona a ir ao encontro dos outros, e, por conseguinte, se tornam dinâmicos. Tem que andar.

O encontro na Eucaristia leva-nos a testemunhar ativamente a nossa fé. A Igreja e os fiéis alimentados pela Eucaristia, tornam-se missionários para viver com todo mundo, sem a exclusão de ninguém, a grande verdade que o Senhor está conosco. Tudo isso gera alegria e muita esperança. Assim, uma Igreja missionária é fruto de uma Igreja eucarística. Aliás, as duas dimensões se compenetram. Dizia S. João Paulo II: ““Entrar em comunhão com Cristo no memorial da Páscoa significa ao mesmo tempo experimentar o dever de fazer-se missionário do acontecimento que esse rito atualiza”.

É bom também lembrar que a Eucaristia não dá somente uma força emotiva para testemunhar essa alegria da presença do Senhor, mas, sobretudo, conteúdo, alimento que sustenta a vida humana. Cuidado em pensar que a minha alegria seja separada da vida do dia a dia.

Não podemos reduzir as nossas Eucaristias em solenes festas e barulhos de alegrias, esquecendo-nos depois da nossa realidade cotidiana dos desafios. De tal modo, a participação feita na celebração da Eucaristia continua nos eventos da vida cotidiana, partilhando as alegrias e as tristezas, agradecendo e servindo quem mais necessita.

O que aconteceu ao longo da nossa história? A começar do IX e X século apareceram as primeiras dúvidas sobre a real presença de Cristo na Eucaristia. Como reação a tudo isso surgiram inúmeras discussões teológicas comprovando a sua real presença: a Eucaristia como corpo verdadeiro do Senhor. E de outro lado, se falará da Igreja como “corpo místico”.

E, além do mais, para uma maior compreensãoda Eucaristia não podemos partir do pão e do vinho, mas de Jesus Cristo que é o princípio da Eucaristia. Isto é, não é o pão e o vinho a determinar Jesus Cristo e assim dar-lhe o sentido sacramental; mas é ao contrário, é Jesus Cristo a definir o pão e o vinho e, portanto, dando-lhe o sentido sacramental. E isto todos sabemos, quando na última Ceia com os seus, antes da sua Paixão, Morte e Ressurreição, Ele explica o evento e quis que se tornasse presente no meio de nós pela Eucaristia para sempre.

Interessante notar que os discípulos entenderam tudo isso somente depois que fizeram a experiência do encontro com o Jesus vivo: o Senhor. E daí compreenderam efetivamente a instituição da Eucaristia. Não se pode entrar na lógica da Eucaristia a partir da nossa maneira de pensar, mas de Jesus o Cristo: “Eu estou com vocês até o fim do mundo”. E Paulo VI afirma: “Por isso, tanto recomendaram os Santos Padres que os fiéis, ao considerarem este augustíssimo Sacramento, não se fiassem nos sentidos, que testemunham as propriedades do pão e do vinho, mas sim nas palavras de Cristo, que têm poder de mudar, transformar e “transubstanciar” o pão e o vinho no seu Corpo e Sangue; na verdade, como repetem os mesmos Padres, a força que opera este prodígio é a própria força de Deus Onipotente, que no princípio do tempo criou do nada todo o universo”.(Essa reflexão foi tirada do meu livro: “Eucaristia – fonte da vida”)


O senhor é o meu amparo

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A pior coisa que o ser humano pode experimentar na vida é quando perde a confiança, a esperança. É nesse vazio humano que se sente sem futuro, sem horizontes. Em uma palavra: ‘perdido’. Mas será que tem uma saída pra isso? Têm muitas reflexões sobre isso, muitos conselhos, muitas elucidações até científicas. No entanto, eu ainda insisto, talvez porque sou apaixonado pela Palavra de Deus, que a melhor resposta pra esse ‘vazio humano’ vem mesmo das Sagradas Escrituras. Olhe, por exemplo, esse salmo 26, do Antigo Testamento, com que clareza nos orienta para enfrentar essa pobreza humana:

“O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei? O Senhor é o protetor de minha vida, de quem terei medo? Quando os malvados me atacam para me devorar vivo, são eles, meus adversários e inimigos, que resvalam e caem. Se todo um exército se acampar contra mim, não temerá meu coração. Se se travar contra mim uma batalha, mesmo assim terei confiança. Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário. Assim, no dia mau ele me esconderá na sua tenda, ocultar-me-á no recôndito de seu tabernáculo, sobre um rochedo me erguerá. Mas desde agora ele levanta a minha cabeça acima dos inimigos que me cercam; e oferecerei no tabernáculo sacrifícios de regozijo, com cantos e louvores ao Senhor. Escutai, Senhor, a voz de minha oração, tende piedade de mim e ouvi-me. Fala-vos meu coração, minha face vos busca; a vossa face, ó Senhor, eu a procuro. Não escondais de mim vosso semblante, não afasteis com ira o vosso servo. Vós sois o meu amparo, não me rejeiteis. Nem me abandoneis, ó Deus, meu Salvador. Se meu pai e minha mãe me abandonarem, o Senhor me acolherá. Ensinai-me, Senhor, vosso caminho; por causa dos adversários, guiai-me pela senda reta. Não me abandoneis à mercê dos inimigos, contra mim se ergueram violentos e falsos testemunhos. Sei que verei os benefícios do Senhor na terra dos vivos! Espera no Senhor e sê forte! Fortifique-se o teu coração e espera no Senhor!”

Somente para contextualizar esse salmo: manifesta-se uma apaixonada busca do Templo e da sua liturgia. É a partir daí que o suplicante encontra conforto e luz. Como é a sua composição? Desenvolve-se em duas partes. A primeira é marcada pela alegria com dois símbolos que revelam a fisionomia divina. Um é representado pela luz: Deus é luz, isto é, princípio de vida e de criação; e o segundo é Deus defesa e proteção, porque é fortaleza para o fiel. Assim, aparece aqui o templo como lugar de segurança. É no templo que se revela o Senhor, qual ‘rochedo’ estável onde se pode edificar a morada tranquila e segura da vida do ser humano. De fato, o fiel deseja ‘morar na casa do Senhor’ para ‘contemplar a sua beleza’ no templo.

A respeito disso, nos fala o papa Francisco: “Quando nós, hoje, olhamos para os muitos vales obscuros, tantas desgraças, tanta gente que morre de fome, de guerra, crianças com problemas, tantas…. você pergunta aos pais: ‘Mas que doença ele tem?’ – ‘Ninguém sabe: se chama doença rara’. Quando você vê tudo isso, pergunta: ‘onde está o Senhor? O Senhor caminha comigo?’” É a vida que nos interpela, e nós aonde vamos encontrar as respostas? O salmista nos orienta: encontrando Ele, o nosso Deus. Fazer a experiência da confiança Nele.

Na segunda parte, o salmista no templo suplica com o coração. O que quer dizer isso? É a intimidade mais profunda da vida humana que se abre a Deus. É nessa ação de colocar toda a pessoa na escuta do Senhor que lhe permite compreender a sua condição de servo de Deus. Essa condição de servo não significa ser humilhante, mas exprime a maior dignidade de ser o chamado por Deus e seja ao mesmo tempo o seu colaborador para realizar o projeto de redenção. E o salmo conclui com palavras pronunciadas pelo fiel de total confiança e esperança: “Espera no Senhor!” Para melhor entender essa súplica vejamos o que nos diz sempre papa Francisco:

“Como posso confiar no Senhor se vejo essas ameaças? E quando as coisas acontecem comigo, cada um de nós pode dizer: ‘mas como me entrego ao Senhor?’ A esta pergunta há uma resposta: Não se pode explicar, eu não sou capaz: este é um ato de fé. Eu me entrego. Não sei: não sei porque isso acontece, mas eu confio. Você saberá porquê”. Como o salmista, o papa insiste: “Senhor, ensinai-me a entregar-me nas Tuas mãos, a confiar em sua guia, mesmo nos maus momentos, nos momentos tenebrosos, no momento da morte.” E termina o papa: “Senhor, não Te entendo. Esta é uma bela oração. Mesmo sem entender, me entrego nas Tuas mãos”.


A tua justiça, senhor, livra-nos dos subornos!

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Quanto é difícil nos dias de hoje vivermos transparentes, sem nos contagiar pelo mal! A sociedade, na medida em que se fundamenta sempre mais no deus-dinheiro, no deus-proveito, nos deuses-negócios, torna-se cada vez mais vulnerável no sentido da transparência e da honestidade. Quando falo ‘deus’, com o “d” minúsculo, quero dizer, nesse caso, que essas coisas estão acima de tudo e todos, são as mais importantes na vida. Então, constatando como a nossa sociedade está se apoiando nesses deuses, creio que seja bem difícil vivermos a verdadeira justiça. No final, poderia dizer como é complicado não se deixar contagiar por uma sociedade com esses valores relativos. Portanto, para vivermos com justiça, não nos deixar contagiar pela corrupção, talvez precisaremos rever a impostação de toda a nossa sociedade, como um todo. Nesse sentido, quem nos dá umas dicas para fazer uma ponderada avaliação do nosso ser e ter, é a Sagrada Escritura, através do salmo 25. Veja o que nos diz:

“Fazei-me justiça, Senhor, pois tenho andado retamente e, confiando em vós, não vacilei. Sondai-me, Senhor, e provai-me; perscrutai meus rins e meu coração. Tenho sempre diante dos olhos vossa bondade, e caminho na vossa verdade. Entre os homens iníquos não me assento nem me associo aos trapaceiros. Detesto a companhia dos malfeitores, com os ímpios não me junto. Na inocência lavo as minhas mãos, e conservo-me junto de vosso altar, Senhor, para publicamente anunciar vossos louvores, e proclamar todas as vossas maravilhas. Senhor, amo a habitação de vossa casa, e o tabernáculo onde reside a vossa glória. Não leveis a minha alma com a dos pecadores nem me tireis a vida com a dos sanguinários, cujas mãos são criminosas, e cuja destra está cheia de subornos. Eu, porém, procedo com retidão. Livrai-me e sede-me propício. Meu pé está firme no caminho reto; nas assembleias, bendirei ao Senhor.”

Para melhor compreendermos esse texto literário, precisamos fazer umas considerações da redação do mesmo. Esse salmo se divide em duas partes, onde se evidenciam duas proclamações de inocência. Na primeira parte, que vai até o versículo cinco, o suplicante manifesta a sua convicção de que Deus peneire a moralidade dos seres humanos com grande rigor. Aquilo que vivemos ainda nos dias de hoje, o grande desejo de muitas pessoas é que Deus possa reverter esses comportamentos humanos que não tem moral nenhuma. As pessoas não se entendem mais, cada um age conforme o que achar melhor. Cada um faz a sua moral. Por isso, o ser humano invoca Deus, que sonda no mais profundo o coração, e, assim, lhe revela a capacidade de rejeição do mal. É a rejeição do mal, que o intercessor jura ter cumprido em todos os momentos da sua vida com a maior firmeza: “Entre os homens iníquos não me assento nem me associo aos trapaceiros”. Na segunda parte em que tem a outra reclamação da inocência, “Na inocência lavo as minhas mãos”, revela-se de maneira mais transparente a personalidade daquele que reza. Que sentido tem aqui ‘lavar-se as mãos’? A simbologia desse gesto pertence a todas as culturas como sinal de inocência e pureza. Porém, nesse caso, o suplicante procede de uma maneira diferente, em que não se lava as mãos na água lustral, mas na sua mesma inocência, certificando desse jeito a sua radical pureza interior. Assim sendo, moralmente íntegro, ele pode participar efetivamente ao culto litúrgico, à solene assembleia litúrgica no templo. No entanto, aqueles que não participam do templo, segundo o salmista, são homens iníquos e por isso acrescenta: “com os ímpios não me junto”.

O templo, sendo um ‘lugar’ santo por excelência, é a casa onde Deus se faz presente na história, é a residência terrena de Deus do infinito, é a sede da glória da manifestação do Senhor aos seus. Insistindo, o salmo com a vida do justo é como se fosse o verdadeiro culto grato a Deus, e no espírito da teologia profética é inimigo de todo ritualismo mágico e exterior. E Jesus, fiel ao ensino profético, contesta também Ele em fazer uma liturgia desencarnada. Quantas vezes cristãos, ainda hoje, fazem da liturgia mais teatro, e os corações deles estão longe de Deus? Quantas vezes as celebrações são esvaziadas por não deixar questionar a própria conduta de vida pessoal, comunitária e sociopolítica? É difícil, tendo um comportamento iníquo, louvar e proclamar as maravilhas de Deus! Outro dia, uma pessoa me confidenciou a dificuldade de viver honestamente na sociedade hoje: “Parece que não se consegue fazer nada, nenhum negócio se não aceitar acordos ilícitos!” Creio firmemente que se pode se livrar das injustiças, desonestidades e corrupções, mas precisamos estar do lado de Deus, se comprometer concretamente com Ele, evitando as infinitas palavras.


Confio em deus

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A violência parece aumentar a cada dia. Essa é a reclamação das pessoas, que ganha repercussão na imprensa e também nas redes sociais. Todos os dias, ouço lamentos de gente que está apavorada e se sente mais vulnerável. A nossa convivência está ameaçada a partir dos lares e se estende até nas instituições e vida social. Eu me pergunto: por que tudo isso? Por que as pessoas vivem dramaticamente a vida do dia a dia? Eu tenho certeza absoluta que tudo isso é fruto da mesma humanidade e a mesma humanidade pode reverter esse cenário dramático. Como fazer isso? Quem nos pode ajudar a abrir horizontes de paz é esse salmo, 24, do Antigo Testamento. Leia atentamente:

“Para vós, Senhor, elevo a minha alma. Meu Deus, em vós confio: não seja eu decepcionado! Não escarneçam de mim meus inimigos! Não, nenhum daqueles que esperam em vós será confundido, mas os pérfidos serão cobertos de vergonha. Senhor, mostrai-me os vossos caminhos, e ensinai-me as vossas veredas. Dirigi-me na vossa verdade e ensinai-me, porque sois o Deus de minha salvação e em vós eu espero sempre. Lembrai-vos, Senhor, de vossas misericórdias e de vossas bondades, que são eternas. Não vos lembreis dos pecados de minha juventude e dos meus delitos; em nome de vossa misericórdia, lembrai-vos de mim, por causa de vossa bondade, Senhor. O Senhor é bom e reto, por isso reconduz os extraviados ao caminho reto. Dirige os humildes na justiça, e lhes ensina a sua via. Todos os caminhos do Senhor são graça e fidelidade, para aqueles que guardam sua aliança e seus preceitos. Por amor de vosso nome, Senhor, perdoai meu pecado, por maior que seja. Que advém ao homem que teme o Senhor? Deus lhe ensina o caminho que deve escolher. Viverá na felicidade, e sua posteridade possuirá a terra. O Senhor se torna íntimo dos que o temem, e lhes manifesta a sua aliança. Meus olhos estão sempre fixos no Senhor, porque ele livrará do laço os meus pés. Olhai-me e tende piedade de mim, porque estou só e na miséria. Aliviai as angústias do meu coração, e livrai-me das aflições. Vede minha miséria e meu sofrimento, e perdoai-me todas as faltas. Vede meus inimigos, são muitos, e com ódio sem fim me perseguem. Defendei minha alma e livrai-me; não seja confundido eu que em vós me acolhi. Protejam-me a inocência e a integridade, porque confio em ti! Ó Deus, livrai Israel de todas as suas dificuldades.”

É esse Deus quem nos liberta e nos dá perspectivas de vida que ninguém neste mundo é capaz de dar. Portanto, temos uma saída dos males que nos afligem e perseguem, ou pelo menos uma maneira nova de encarar a nossa realidade. Vamos compreender melhor esse salmo. Essa oração nos revela uma espiritualidade em que os pobres se apoiam e confiam totalmente em Deus, porque é Ele a justiça deles. É o Senhor que conduz os pobres pelos seus caminhos. Podemos observar nesse hino três personagens protagonistas: Deus, aquele que o invoca e o inimigo perseguidor. Quem é Deus? É o protagonista da Aliança, da Criação. É a garantia da vida. No entanto aqui o inimigo é descrito como alguém que ameaça, mas também aquele que está dentro do suplicante, que é o pecado. É esse pecado que gera sofrimento e separa o ser humano de Deus. O mantém a distância, longe. Nesse caso o autor dessa oração cita dos “pecados da juventude”. Porém, esses pecados, não podem impedir a misericórdia de Deus que “reconduz os extraviados ao caminho reto”.

Assim sendo, esse hino está entrelaçado entre o arrependimento e alegria do perdão. A centralização do salmo pode ser sintetizado em apelos, às vezes corajosos, feitos a Deus por um pecador, que não obstante a sua miséria e pobreza, sente-se intimamente em sintonia com o seu Deus. De fato, o suplicante pede duas vezes perdão, onde se revela a angústia da pessoa e, ao mesmo tempo, a compreensão do Deus invocado. Esse diálogo insistente e confiante expressa a certeza que Deus o socorrerá, lhe dará a força de não ser esmagado. É o caso de um fiel perante os fracassos econômicos que lhes foram impostos por manter uma vida íntegra, como os ‘seus pais lhes ensinaram’ ele me confiou. “Rejeitei de aceitar subornos e propinas pelos órgãos públicos e acabei ficando sem nada” ele acrescentou.

A partir daí, ele não consegue mais nada para se afirmar em negócios, porque não quis compartilhar transações ilícitas. “Parece, dizendo ele, que tivesse sido marcado como pessoa não grata”. Esse senhor continua acreditando que um dia tudo isso vai se reverter, vai conseguir fazer negócios para manter a própria família honestamente, porque Deus está acima de qualquer estratégia humana. Não pode, por exemplo, o suborno ser triunfante, porque prejudica a convivência dos filhos e filhas de Deus.


As famílias acolhem as famílias

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Nessa minha estadia na Itália, para uma missão pastoral, tenho percebido um grande problema no país: o fenômeno do racismo. Ele parece aumentar e já é grande ameaça à sociedade. A imprensa italiana divulga amplamente essa praga quase que diariamente. Diante de tantos fatos, o que mais me chama a atenção é ver como muitos cristãos reagem ao crescente racismo. Naturalmente, além de ficar atraído pelas palavras sempre sábias do nosso papa Francisco, eu pude ver de perto os projetos promovidos pela Caritas italiana, que têm o objetivo c0ncreto de combater o ódio racial.

Entre tantos projetos, chamou minha atenção, em particular, o testemunho da Caritas Ambrosiana da arquidiocese de Milão, em que famílias acolhem outras famílias. Esse projeto tem o título “Refugiado na minha casa”, que visa ao acolhimento de pessoas que veem, sobretudo, do continente africano. Desse jeito, o projeto permite dar uma proteção internacional aos refugiados e também viver a fraternidade com culturas diferentes. Os escolhidos, por meio do projeto, têm a garantia de um acolhimento seguro, com vistas à promoção da autonomia dos refugiados.

Assim sendo, esse acolhimento permite aos italianos conviver com pessoas que chegam de outros países e experimentar a solidariedade e a partilha, que por sua vez é compartilhada com o resto da comunidade. Assistindo à televisão italiana, pude constatar, através de um documentário, esses momentos fraternos de várias famílias reunidas para comemorar um evento especial de um refugiado. As pessoas de raças e cores diferentes unidas e com o sorriso estampado nos rostos deles compartilhavam a refeição. Todos felizes. De imediato, conclui: que pontapé ao ódio e ao racismo!

Eu penso também como o Brasil repete essa experiência de compartilha, alimentado pelo ideal cristão. Conheço muitas pessoas que praticam essa caridade. Quero dar um destaque, nesse momento, ao grupo “Madre Teresa de Calcutá”, que conheço muito bem, em que várias senhoras se preocupam com o acolhimento e, na medida do possível, tentam viver essa verdade de comunhão com os mais desamparados. Acho que os brasileiros têm de ter mais coragem de viver o testemunho cristão para acolher e compartilhar situações de emergências de pessoas que estão confinadas na sociedade.

Para os cristãos, a única maneira de combater a desigualdade, o racismo, a homofobia, os preconceitos, é praticar a lei do amor de Jesus: fazer-se próximo desses irmãos abandonados ou excluídos. A lei do cristão, portanto, mais que palavras, é ação. O testemunho do ‘bom samaritano’ é o exemplo para cada um de nós. E creio que esteja ao alcance de todos e todas. O papa Francisco disse às claras nesses dias que os excluídos e marginalizados, não reconhecidos, antes de tudo, são pessoas e não ameaças. São dons. O santo padre sempre nos surpreende com as palavras.

É verdade que, às vezes, todos sentimos preocupação, desconfiança, um mal-estar diante dos excluídos, mas precisamos nos deixar levar pela Palavra de Deus para vencer tudo isso. Necessitamos nos deixar invadir pela presença de Deus para vivermos a verdadeira justiça entre as pessoas. Por exemplo, a onda de violência que parece aumentar a cada dia no Brasil, principalmente nos grandes centros urbanos, não é a falta de uma maior vivência da lei do amor que Jesus nos prega? Será que toda essa onda de violência não seja um grito de desespero das pessoas em ficar longe de Deus?

As famílias que aqui na Itália estão experimentando a caridade cristã demonstraram ser muitos felizes e minimamente preocupadas com os perigos do mundo. Quem vive reconhecendo o outro, compartilhando com o outro ameaçado, tem mais possibilidades de ter uma visão objetiva da realidade e, portanto, viver a maravilha da vida. Veja o que diz o santo padre papa Francisco: “A misericórdia promove a vida. Ela não faz rodeios para salvar o ser humano. A vida está em primeiro lugar. Salvaguardar a vida, seja de quem for, é a Lei Máxima! E quando se fala em vida não se restringe à vida física, mas se compreende também a moral, a psíquica, a espiritual. Fala-se da vida do Homem. Tudo deve estar subordinado a esse valor, porque Deus é vida e Ele assim determinou que fosse. Ao se solidarizar com o marginalizado, o samaritano encontrou Deus e a verdadeira religião.”

Quando a gente assiste a testemunhos de amor entre as pessoas, podemos alimentar a esperança de uma vida que ninguém pode ameaça-la. A nossa vida se encara diferentemente. Não ponhamos limites a nossa capacidade de ajudar as pessoas que precisam de nós. É a nossa caridade que salva a nossa sociedade, tanto da Itália quanto do Brasil e de todos os países do mundo. Este é o segredo da vida eterna.


Terrorismo: uma ameaça planetária

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Cheguei às terras italianas no começo deste mês para realizar um trabalho pastoral na diocese de Concordia-Pordenone, região entre Veneza e Udine, Norte do país, próspera e bela. Minha tarefa nos próximos dias é animar, missionariamente, a Igreja daqui, com a experiência adquirida ao longo de minha vida sacerdotal, a maior parte dela vivida no Brasil. Essa missão me entusiasma e, ao mesmo tempo, desafia-me. Por aqui um dos assuntos que dominam o cotidiano das pessoas é a repercussão sobre os últimos atentados terroristas praticados pelo Estado Islâmico (EI). Os italianos andam preocupados.

Já conversei com algumas pessoas e constato a sensação de medo. Há poucos passos de onde resido, havia duas vítimas de Dacca, capital de Bangladesh. As pessoas que encontro conheciam muito bem essas vítimas que foram executadas pelos terroristas do EI em um restaurante daquele longínquo país. A lembrança é de que as vítimas eram pessoas queridas e trabalhadoras. Aí, surgem mil questões: por que tamanha violência contra pessoas inocentes? Por que os terroristas agiram daquela maneira cruel? Por que os terroristas estão agindo também longe dos países do oriente médio? Qual a finalidade de tudo isso?

Conforme informações preliminares, esses jovens terroristas eram de uma extração social rica. A imprensa internacional divulga a toda hora a ação do Estado Islâmico por meio de um exército praticamente invisível. A gente se pergunta: quando nasceu? Nasceu em 2013 e antes de ser Estado Islâmico levava o nome de Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS). A partir dos anos 2000, era um grupo militar iraquiano de Al Quaeda. O fundador foi Abu Musab al-Zarqawi que queria criar um califado, provocando uma guerra civil no Iraque. Depois, esse Estado Islâmico, em 2013, começou a combater na Síria, grande adversário de Assad.

O chefe atual se chama Abu BakralBaghdadi. Ele nasceu em 1971 na cidade Iraquiana de Samarra. Quantos milicianos compõem o EI? Dizem que poderia ter de 15 a 30 mil. Entre eles, teria uns 4 mil estrangeiros, inclusive brasileiros. O último ato terrorista fora do Oriente Médio foi Dacca, na Ásia. Como comentei no início, executaram 20 pessoas em um restaurante da capital de Bangladesh. Com esse ataque mortal, os extremistas islâmicos vão colecionando morte por todo lugar do planeta. E a repercussão dos ataques chama atenção do mundo todo. Essa estratégia, no entanto, talvez tenha sua explicação.

De fato, o Estado Islâmico sofreu derrotas não pequenas nesses últimos tempos. O EI perdeu territórios tantos na Síria como no Iraque, e, assim, os terroristas agem além dos próprios territórios para confirmarem a sua existência e a sua defesa. É interessante notar como fazem esses ataques terroristas no mundo, as escolhas dos alvos a serem executados. Agora foi em Bangladesh, e depois onde será? Creio que eles tenham estratégias muito sutis. O objetivo é chamar atenção e desestabilizar a opinião pública mundial. O califado islâmico quer se mostrar uma grande potência. Uma potência mediada pelo terror.

Vejo que os italianos estão preocupados como se estivessem vivendo em pleno período de guerra. Diante desse cenário, a gente se pergunta: onde será o próximo atentado que possa chamar atenção do mundo? Estamos no mês de julho; e, em agosto, por exemplo, teremos os jogos olímpicos no Brasil. O que falta para que o próximo alvo seja a olimpíada? Nos jogos do Rio estarão presentes quase o mundo todo; e, nesse sentido, seria um alvo de grande prestígio para os terroristas. Soubemos também que entre os 4 mil estrangeiros que fazem parte das milícias do EI há brasileiros. Será que serão esses os possíveis sujeitos de um ataque, se houver nas olimpíadas?

Esse exército invisível do EI, se decidir atacar as olimpíadas, como vai superar o grande esquema de segurança que o Brasil vai dispor? Certamente, as estratégias do terrorismo estudam tudo isso e até mais. Eu me pergunto, também: será que a presença de brasileiros entre as fileiras do EI pode facilitar uma ação terrorista neste evento mundial? A essa altura tudo podemos pensar. O mundo todo é chamado a ponderar todos esses eventos terroristas que não pertencem somente a lugares bem distantes da gente, mas todos podemos ser diretamente envolvidos. É a desestabilização do mundo para fazer prevalecer ideologias de conquistas, custe o que custar.

Vejo que, aqui na Itália, se fala muito disso e creio que também no Brasil aconteça a mesma coisa. Essa globalização realmente é um acontecimento que nos acomuna em tudo: tanto no bem quanto no mal, e sobretudo no mal. Lembro-me nesse momento de Sartre, um dos pais do existencialismo, que dizia o seguinte: “É suficiente que um homem odeie o outro para que o ódio vá correndo pela humanidade inteira”. Terrorismo, guerras, violências são a confirmação do ódio nesse pequeno planeta terra. E isto me preocupa muito.


Ao senhor tudo lhe pertence

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Como compreender a minha dignidade e a tua dignidade? De onde ela vem? É uma conquista minha e tua? Eu tenho já cabelos brancos, isto é, sou de idade não mais jovem, e entendi que essa minha vida se torna preciosa na medida em que faço a experiência do encontro com o Senhor. É a presença do Senhor Altíssimo que nos reveste da verdadeira dignidade! É o acesso a Ele que nos abre portas para o infinito, a grandeza da nossa humanidade. Quem nos ajuda a compreender isso é o salmo 23 da Bíblia. Ele nos ajuda como abrir as nossas portas para que o nosso Deus, autor da nossa vida, possa entrar e fazer parte da nossa convivência. Leiamos atentamente o hino que diz:

“Do Senhor é a terra e tudo o que ela contém, a órbita terrestre e todos os que nela habitam, pois ele mesmo a assentou sobre as águas do mar e sobre as águas dos rios a consolidou. Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer no seu lugar santo? O que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, seu Salvador. Tal é a geração dos que o procuram, dos que buscam a face do Deus de Jacó. Levantai, ó portas, os vossos dintéis! Levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o Rei da glória! Quem é este Rei da glória? É o Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha. Levantai, ó portas, os vossos dintéis! Levantai-vos, ó pórticos antigos, para que entre o Rei da glória! Quem é este Rei da glória? É o Senhor dos exércitos! É ele o Rei da glória.”

Esse canto para o uso litúrgico no Templo de Jerusalém manifesta a potência de Deus. Depois os cristãos dos primeiros séculos o adaptaram para celebrar o ingresso glorioso de Jesus Cristo nas portas dos ínferos como vencedor da morte. Justamente, como manifestar essa vitória sobre a morte de Jesus, senão com essas palavras desse inspirado salmo? Grande hino apropriado para isso!
Os primeiros dois versículos são um louvor ao Senhor Deus, que sintetiza, na verdade, a uma profissão de fé ao Criador único e poderoso.

Observando aqui como é apresentada a criação, vemos a terra como uma plataforma jogada sobre o abismo das aguas caóticas. O equilíbrio muito exile que sustenta a terra sobre o nada é aqui o sinal para a humanidade da Sagrada Escritura qual obra criadora e providente de Deus. As palavras iniciais também indicam quais as condições morais para poder ter acesso ao Templo de Jerusalém. Os fiéis entrando perguntam aos sacerdotes para serem admitidos, e eles respondem com uma lição que focaliza três exigências morais da Aliança. A primeira “mãos e coração” resume toda a ação do ser humano que deve ser voltado radicalmente a Deus e a sua Lei.

Em seguida, tendo essa atitude, consequentemente “busca a face do Deus de Jacó”. Para melhor compreender essa linguagem bíblica, “buscar a face”, quer dizer “ir ao Templo” com verdade e sinceridade. Desse jeito, as portas se “levantam” para os seres humanos que têm a consciência pura. Sendo assim, nos últimos versículos, narram que tendo esse espírito, esse comportamento puro dos fiéis, podem celebrar a entrada no Templo cantando, porque Deus se manifesta. Aliás, aqui, diz o salmo, que esse Deus é o “Senhor dos exércitos”, enquanto defende os seus fiéis.
Nas minhas visitas aos doentes, uma certa vez, fiquei surpreendido pelo testemunho de uma senhora que tinha câncer. Ela tinha acabado de fazer uma quimioterapia e me dizia a satisfação de me acolher na sua casa. Com o rosto iluminado de alegria, agradecia a Deus por lhe ter enviado um sacerdote e receber as suas bênçãos. Demonstrou naquele momento esse seu total louvor ao Senhor sem se importunar com a gravidade da sua doença e tratamento. Sim, considerava que Deus é o seu verdadeiro médico e confiava plenamente Nele.

Com essa fé, vivia a sua vida não de maneira dramática, mas com o sorriso na sua face. Demonstrou que não se preocupava com o amanhã, mas ela vivia o momento presente com grande alegria, porque Deus estava com ela e era muito maior que a fragilidade da sua vida física. É essa experiência de um Deus que defende os seus filhos que a vida se transforma. Não é mais temerosa, mas de confiança. Essa filha de Deus me deu esse testemunho: ‘Se Deus está comigo quem me poderá derrotar?’ Nada! E nem a pior doença desse mundo me pode abalar. Esse Deus que caminha com a gente consolida a nossa verdadeira vida que vai além do corpo que enxergamos. Tudo lhe pertencemos!


O Senhor é o meu pastor

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assados os anos e com a rotina mais pesada, quais peregrinos sedentos de vida, sente-se a necessidade de invocar o próprio Criador no profundo do coração: ‘Senhor, me conduz pelos teus caminhos!’ A vida do ser humano é cheia de ameaças e perigos, e chega um certo ponto que se deseja, ardentemente, alguém para nos conduzir, que nos acolha e nos dê segurança no caminho. O salmo 22 nos mostra quem é esse alguém. É o Senhor! Leia atentamente o que nos diz:
“O Senhor é meu pastor, nada me faltará. Em verdes prados, ele me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes, restaura as forças de minha alma. Pelos caminhos retos, ele me leva, por amor do seu nome. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo. Preparais para mim a mesa à vista de meus inimigos. Derramais o perfume sobre minha cabeça, e transborda minha taça. A vossa bondade e misericórdia hão de seguir-me por todos os dias de minha vida. E habitarei na casa do Senhor por longos dias.”
É um hino de confiança destinado aos fieis. O salmo se ergue com duas colunas, uma é a do pastor e a outra é a dos hóspedes. E tudo isso tem como tema central, como referência a proclamação: “Tu estás comigo”. Esta confiança no ‘pastor’ quis demonstrar que não é simplesmente um guia ou um condutor que dá garantia de repouso em verdes prados. Mas é muito mais que isso. O pastor é, sim, alguém que caminha com o rebanho, experimenta a dureza da viagem, os riscos e as ameaças do percurso. O pastor compartilha passo a passo a vida do seu rebanho. Pega o mesmo sol e a mesma tempestade. Assim sendo, a Sagrada Escritura faz da simbologia do pastor uma maneira mais adequada por falar de Deus. Isto contrapondo, às vezes, aos reis e aos poderosos daquele tempo que se diziam também pastores. Mas, na verdade, não se comportavam com tal. Esses pastores dos seus povos, reis e poderosos, os desfrutavam, se enriqueciam às custas deles, até maltratando-os. Parece que isso tem alguma coisa a dizer também aos nossos dias. No entanto, esse Pastor, que é Deus, é justo e anda passo a passo com a gente. Compartilha e não explora a vida do seu povo. Deus é um pastor que faz de tudo para defender e promover o seu povo, e esta é a sua riqueza: que todos estejam bem e se sintam ‘seguros em suas mãos’. Não tenham medo! O nosso Deus, portanto, com seu bordão e o seu báculo, símbolos do poder da justiça e do pastoreio, garante-nos a verdadeira justiça e a segurança. O autor dessa oração demonstra serenidade em enfrentar as tempestades da vida, porque confia totalmente no seu pastor Deus que o acompanha pelos caminhos terrenos: “Pois estais comigo”. Podemos afirmar, nesse caso, que, para a Bíblia, a fé é confiança em Deus que conduz o fiel pelos seus caminhos. Mariazinha, assim a chamavam carinhosamente no seu bairro, o Guamá, foi uma mulher solteira que dedicou toda a sua vida a servir os mais pobres que ela. De fato, Mariazinha era muito pobre, mas ela conseguia enxergar que a sua vida era muito melhor que de tantos irmãos. Ela era também uma fiel servidora da Igreja. Todos os dias estava na igreja. Quando fui pároco na Santa Maria Goretti, ela me ajudava como ministra extraordinária da Eucaristia e cuidava e zelava da igreja. Era uma mulher muita magra e tinha a percepção de que não se alimentava direito, tanto é verdade que quis ajuda-la para que não lhe faltasse comida no prato todos os dias.
Um belo dia, vi que a Mariazinha faltava há uns três dias na igreja e então decidi ir a sua casa para saber o que ia acontecendo. Encontrei-a no fundo de uma rede, doente. As duas irmãs que estavam com ela me falaram que ela comia muito pouco e o resto da sua comida levava para umas famílias próximas, porque estavam sem nada. Eu chamei atenção a Mariazinha dizendo que ela é muito preciosa para igreja e, portanto, tinha que se alimentar direito, de outro jeito ficava doente. E ela me respondeu com uma voz bem fininha, mas com muita confiança: “Como posso pensar em mim quando tem irmãos que não tem nada? Tenho certeza que Deus não me abandona em ajudar os outros que tanto sofrem!”
Mariazinha me deu uma lição que a minha vida é conduzida por Deus e de não ter medo de arrisca-la pelos que mais precisam. Esta fé de um Deus ‘meu pastor’ me ajuda a enxergar as necessidades dos outros e não as minhas. Acreditar que a minha segurança não é resultado final das minhas estratégias, mas dessa fé em Deus. Assim posso proclamar: “O Senhor é o meu pastor!”