Com deus, nada temo!


Toda vez que leio o jornal, fico triste em ver quantas mortes violentas acontecem todos os dias. É verdade, todos os dias! Descobri também que as reportagens não relatam quantos, de fato, morrem todos os dias. Descobri, jornalisticamente, que aquilo que é noticiado é somente, se posso dizer de maneira bem aproximativa, quase uma amostra de tantas mortes entre nós. Por exemplo, pelos meus conhecimentos através dos contatos com o povo da grande periferia de Belém, descubro quantos jovens foram executados publicamente e os jornais nem chegam a mencionar.

O interessante em tudo isso é ver o povo, diante de cenas macabras, impotente e com medo. Cala-se perante essa crueldade. Por que isso? Porque, talvez, ele desconfia de tudo, não se sente protegido, e a única maneira de sobreviver é ficar calado. Uma resposta a tudo isso pode ser encontrada no salmo 55 das Sagradas Escrituras, em que mostra que esse povo tem alguém de verdade que pode defendê-lo. E quem é? Leia atentamente:

“Tende piedade de mim, ó Deus, porque aos pés me pisam os homens; sem cessar eles me oprimem combatendo. Meus inimigos continuamente me espezinham, são numerosos os que me fazem guerra. Ó Altíssimo, quando o terror me assalta, é em vós que eu ponho a minha confiança. É em Deus, cuja promessa eu proclamo, sim, é em Deus que eu ponho minha esperança; nada temo: que mal me pode fazer um ser de carne? O dia inteiro eles me difamam, seus pensamentos todos são para o meu mal; Reúnem-se, armam ciladas, observam meus passos, e odeiam a minha vida. Tratai-os segundo a sua iniquidade. Ó meu Deus, em vossa cólera, prostrai esses povos. Vós conheceis os caminhos do meu exílio, vós recolhestes minhas lágrimas em vosso odre; não está tudo escrito em vosso livro? Sempre que vos invocar, meus inimigos recuarão: bem sei que Deus está por mim. É em Deus, cuja promessa eu proclamo, é em Deus que eu ponho minha esperança; nada temo: que mal me pode fazer um ser de carne? Os votos que fiz, ó Deus, devo cumpri-los; oferecer-vos-ei um sacrifício de louvor, porque da morte livrastes a minha vida, e da queda preservastes os meus pés, para que eu ande na presença de Deus, na luz dos vivos.”

O salmo inicia, dramaticamente, com a descrição de uma ação militar de perseguição. Os protagonistas dessa agressão são inimigos sem nomes que atacam sem piedade o autor da oração. E faz uma comparação com os caçadores que estudam todas as possibilidades de como acertar e pegar a sua caça: “Armam ciladas, observam meus passos”. Perante uma situação horrível como essa, cheia de medo, erguem-se preces a Deus para que liberte dessa desumana perseguição. Não tem alternativa em confiar no socorro de Deus, porque não tem mais ninguém para apelar.

Esses perseguidores são apresentados como ‘povos’ talvez para exaltar a potência e a multidão. Ou talvez pela tentativa de transferir sobre um plano nacional e comunitário um acontecimento pessoal e individual. O autor desse salmo passa depois da dramaticidade das ameaças e perseguição à tranquilidade de entrega a Deus, seu verdadeiro refúgio. Por isso reza: “Vós recolhestes minhas lágrimas em vosso odre; não está tudo escrito em vosso livro?” Justamente, porque no grande livro da história junta todas as palavras, as ações, as alegrias de toda a humanidade e, sobretudo, escreve as lagrimas que os perseguidores fazem aos pobres.

Deus junta com carinho todas as lágrimas das vítimas e assim não caem no vazio. Assim sendo, demonstra que as lágrimas são aos ‘olhos’ de Deus realidades preciosas como a água, o vinho, o leite, substâncias vitais que o peregrino no deserto guarda no seu odre. Deus grava e conserva como tesouros todos os sofrimentos da humanidade. É a história do ser humano pobre e sofrido resgatado pelo seu Deus. Assim sendo, revela-se o primado da soberania de Deus na história do mundo: é Ele o autor e defensor da vida. Ninguém pode ameaçar a vida, não obstante a aparente força dos poderosos deste mundo que dominam o cotidiano. A Palavra do Senhor liberta e no caminho da luz conduz os seus servos.

O papa Francisco, na audiência geral de 11 de janeiro de 2017, falou o seguinte: “Fé significa confiar em Deus — quem tem fé, confia em Deus — mas chega o momento em que, confrontando-se com as dificuldades da vida, o homem experimenta a fragilidade daquela confiança e sente a necessidade de certezas diversas, de seguranças tangíveis, concretas. Confio em Deus, mas a situação é um pouco crítica e eu preciso de uma certeza um pouco mais concreta. E está ali o perigo! Então somos tentados a procurar consolações até efêmeras, que parecem preencher o vazio da solidão e aliviar a fadiga do crer.”


Ó Deus, escuta a minha oração!


Já ouvi queixas de várias pessoas dizendo que foram traídas por seus ‘melhores amigos’: “Padre Claudio, estou acabado, não tenho mais forças para reagir, porque aquela pessoa que tanto estimava há anos, que confiava totalmente, ajudava em tudo, considerava-o como irmão, essa tal pessoa me traiu, aliás, anda falando mal de mim por aí. Inclusive, padre, éramos frequentadores assíduos da igreja, pessoas que compartilhávamos a santa eucaristia… Me sinto totalmente frustrado por essa traição. Não tenho mais palavras…”. Essa história, como tantas outras, é comum em nosso convívio. Então, a gente se pergunta como enfrentar uma dura realidade como essa: a traição dos amigos. As Sagradas Escrituras, pelo salmo 54, nos ajuda nesse sentido:

“Prestai ouvidos, ó Deus, à minha oração, não vos furteis à minha súplica; Escutai-me e atendei-me. Na minha angústia, agito-me num vaivém, perturbo-me à voz do inimigo, sob os gritos do pecador. Eles lançam o mal contra mim, e me perseguem com furor.

Palpita-me no peito o coração, invade-me um pavor de morte.

Apoderam-se de mim o terror e o medo, e o pavor me assalta.

Digo-me, então: tivesse eu asas como a pomba, voaria para um lugar de repouso; ir-me-ia bem longe morar no deserto.

Apressar-me-ia em buscar um abrigo contra o vendaval e a tempestade.

Destruí-os, Senhor, confundi-lhes as línguas, porque só vejo violência e discórdia na cidade.

Dia e noite percorrem suas muralhas, no seu interior só há injustiça e opressão.

Grassa a astúcia no seu meio, a iniqüidade e a fraude não deixam suas praças.

Se o ultraje viesse de um inimigo, eu o teria suportado; se a agressão partisse de quem me odeia, dele me esconderia.

Mas eras tu, meu companheiro, meu íntimo amigo, com quem me entretinha em doces colóquios; com quem, por entre a multidão, íamos à casa de Deus.

Que a morte os colha de improviso, que eles desçam vivos à mansão dos mortos. Porque entre eles, em suas moradas, só há perversidade.

Eu, porém, bradarei a Deus, e o Senhor me livrará.

Pela tarde, de manhã e ao meio-dia lamentarei e gemerei; e ele ouvirá minha voz.

Dar-me-á a paz, livrando minha alma dos que me acossam, pois numerosos são meus inimigos.

O Senhor me ouvirá e os humilhará, ele que reina eternamente, porque não se emendem nem temem a Deus.Cada um deles levanta a mão contra seus amigos. Todos violam suas alianças.
De semblante mais brando do que o creme, trazem, contudo, no coração a hostilidade; suas palavras são mais untuosas do que o óleo, porém, na verdade, espadas afiadas.
Depõe no Senhor os teus cuidados, porque ele será teu sustentáculo; não permitirá jamais que vacile o justo.E vós, ó meu Deus, vós os precipitareis no fundo do abismo da morte. Os homens sanguinários e ardilosos não alcançarão a metade de seus dias! Quanto a mim, é em vós, Senhor, que ponho minha esperança.”

Este salmo, esta oração, é justamente é uma clamação de um senhor que foi traído pelo seu melhor amigo. De fato, encontramos nessa leitura a imagem triste da traição. Por isso, o autor clama por Deus, reza incessantemente para ser ouvido, com a intenção de denunciar a sua cruel situação que está passando. O autor dessa oração lamenta profundamente essa traição do amigo, não consegue suportar. Teria sido mais fácil se tivesse sido um inimigo, mas um amigo? Ficou destruído. Veja bem o que diz o salmo: “Íamos à casa de Deus.” Estavam juntos nessa profissão de fé. Eles iam para o Templo nas festas litúrgicas solenes, cantando com muita fé e na tranquilidade.

Perante esta cena de harmonia e de amor e agora rompida pela traição e desilusão, ele queria que tudo se transformasse em nada. Praticamente esse fiel quis dizer: “Já pensou, estávamos no templo sagrado, na sua pureza divina, e, não obstante isso, esse amigo teve a coragem de me trair, de ser um grande mentiroso”. Diríamos hoje, não respeitou nem a igreja! E para encarar mais ainda essa traição, o autor descreve que “suas palavras são mais untuosas do que o óleo, porém, na verdade, espadas afiadas”. A ‘boca’ aqui é um símbolo das relações humanas que se torna calúnia.

Assim sendo, quanto mal pode fazer a nossa fala quando se torna falsa e enganadora? Ela tem uma força cortadora. Com as palavras se pode até matar. Perante essa realidade, como reagir? Segundo o autor deste salmo, ele confessa a vontade de fugir desse mundo falso e cruel. Não aguenta esta amargura. Porém, ao mesmo tempo, alimenta uma esperança viva, através da oração, que a ação de Deus não tarda a chegar para socorrê-lo. A confiança no Senhor é maior que a tristeza que os inimigos lhes dão. Por isso continua firme no seu caminho.


Deus é a minha verdadeira ajuda


As pessoas não vivem somente momentos de alegria e felicidade, mas também de tristeza e sofrimento. Os desafios da vida são grandes no percurso da história da humanidade. Há pessoas que chegam a um desespero tão grande que não sabem mais o que fazer. Conheço realidades tão comoventes de desespero que me deixam muito triste e preocupado. Tem gente que chega a invocar até a morte como solução da própria vida. Perante tudo isso, eu sempre me refugio na Palavra de Deus. O que Ela me diz, me ilumina. Para mim, é um sol que resplandece no meio das trevas da história das pessoas. Por isso, quero propor esse salmo 53 das Sagradas Escrituras para oferecer luz à humanidade, àqueles que estão no desespero, que não encontram mais uma luz no final do túnel da vida. Leia atentamente o que diz:

“Quando os zifeus vieram dizer a Saul: Davi encontra-se escondido entre nós. Pela honra de vosso nome, salvai-me, meu Deus! Por vosso poder, fazei-me justiça.

Ó meu Deus, escutai minha oração, atendei as minhas palavras, pois homens soberbos insurgiram-se contra mim; homens violentos odeiam a minha vida: não têm Deus em sua presença.

Mas eis que Deus vem em meu auxílio, o Senhor sustenta a minha vida.

Fazei recair o mal em meus adversários e, segundo vossa fidelidade, destruí-os.

De bom grado oferecer-vos-ei um sacrifício, cantarei a glória de vosso nome, Senhor, porque é bom, pois me livrou de todas as tribulações, e pude ver meus inimigos derrotados.”

Esse breve salmo nos mostra como se faz uma intercessão a Deus. Como invoca-Lo. E para isso destaca-se esse modelo em que aparece um “eu” que intercede, reza; um “eles”, que são os inimigos; e o terceiro, o “Deus” que atende a súplica. E assim mostra-nos também como uma oração evoca os momentos da vida: com um passado feliz, um presente bem triste e um futuro esperançoso, bem melhor do presente. Uma oração bem cadenciada pelo nome de Deus. Dito isso, podemos ver nesse salmo como os inimigos ameaçam a vida do justo fiel.

Nesse sentido, o intercessor diz: “Salvai-me, meu Deus! Por vosso poder, fazei-me justiça…” Ele sente o real perigo da perseguição do poderoso e arrogante que ameaça a sua vida. Nessa oração se mescla dor e esperança. Nesse sentido, o justo fiel focaliza a pressão e ameaça do poderoso mau e arrogante. Por isso, o suplicante acredita cegamente que Deus, Senhor da história, vai intervir para defender o pequeno humilde pobre. Assim sendo, esse humilde pobre confia na ação de Deus e, portanto, o medo desaparece. O baluarte Deus é garantia de vida, é segurança: “De quem eu terei medo!”.

Com essa confiança, mostra-nos que o verdadeiro protagonista da história da vida é Deus e não os poderosos desse mundo. Deus é quem socorre as vítimas da injustiça. A Ele se abandona o justo sofredor e perseguido. O sofrimento é tão grande que o Senhor não consegue “fechar os olhos e seus ouvidos”, garantindo-lhe o seu amparo. E esse justo é tão convencido dessa presença de Deus que: “Fazei recair o mal sobre os meus inimigos”. Por que chega a tanta certeza? Porque essa intervenção divina deve ser reconduzida à Sagrada Aliança que Deus fez com o seu povo escolhido. Portanto, Deus não pode abandonar esse vínculo com as suas criaturas que Ele mesmo escolheu e que é muito precioso. E, enfim, o fiel que faz a sua oração antecipa o seu futuro fundado na sua fé em Deus: “Cantarei a glória de vosso nome, Senhor, porque é bom.”

O passado tão triste e cruel se reverterá em um futuro de glória e triunfo, porque é sustentado pelo Deus, Senhor da história. A oração conclui repleta de esperança e de coragem. Nas trevas da humilhação e opressão resplandece a luz da fé em um Deus que liberta o fiel oprimido e sofredor. Essa oração se torna a oração de todos os que sofrem e são oprimidos. Para finalizar tudo isso, quero reportar aqui as palavras do Papa Francisco pela ocasião do ‘Angelus’ do dia 26.02.2017: “Existe um Pai amoroso que não se esquece nunca de seus filhos. Entregar-se a Ele não resolve magicamente os problemas, mas permite enfrentá-los com o espírito correto, corajosamente.” E continua o santo Padre: “Deus não é um ser distante e anônimo: é o nosso refúgio, a fonte de nossa serenidade e de nossa paz. É a rocha da nossa salvação, a quem podemos agarrar-nos na certeza de não cair. Quem se agarra a Deus não cai, quem se agarra a Deus, não cai nunca! É a nossa defesa do mal, sempre à espreita. Deus é para nós o grande amigo, o aliado, o pai, mas nem sempre nos damos conta disto”. E o Bergoglio termina na ótica cristã:

“A esperança cristã é voltada ao cumprimento futuro da promessa de Deus e não se rende diante de alguma dificuldade, porque é fundada na fidelidade de Deus, que nunca falta. É fiel, é um pai fiel, é um amigo fiel, é um aliado fiel”.


O perigo é pensar que Deus não existe


Diariamente, eu penso que, se não tivesse a experiência de Deus, minha vida seria vazia e limitada demais. Imagino minha incapacidade de enfrentar a vida com o sentido que vai além do perceptível, do sentimento e da limitação humana. O que teria sido de mim sem essa experiência de Deus, em relação a mim mesmo, aos outros, a mãe natureza? Veja o salmo 52 das Sagradas Escrituras o que nos fala:

“Diz o insensato em seu coração: Não há Deus. Corromperam-se os homens, seu proceder é abominável, não há um só que pratique o bem. O Senhor, do alto do céu, observa os filhos dos homens para ver se, acaso, existe alguém sensato que busque a Deus. Todos eles, porém, se extraviaram e se perverteram; não há mais ninguém que faça o bem, nem um, nem mesmo um só. Não se emendarão esses obreiros do mal? Eles que devoram meu povo como quem come pão, não invocarão o Senhor? Foram tomados de terror, não havendo nada para temer. Porque Deus dispersou os ossos dos que te assediam; foram confundidos porque Deus os rejeitou.

Ah, que venha de Sião a salvação de Israel! Quando Deus tiver mudado a sorte de seu povo, Jacó exultará e Israel se alegrará.”

É um salmo, segundo a linguagem bíblica, do ‘tolo’, do ‘inconsciente’. O ateísmo no antigo oriente é para se entender mais no sentido prático e existencial. Não é como a nossa cultura moderna que focaliza mais no sentido teórico-especulativo. Esse ateu, descrito neste salmo, é convencido de que Deus não está nem aí por aquilo que acontece na história da humanidade, mas fica sossegado no seu mundo do céu, no seu trono celestial. É indiferente para a vida das pessoas. É por isso que a história é marcada e designada pelos mais poderosos, arrogantes que se tornam os dominadores dela.

Nesse sentido, o autor desse hino quer contestar essa concepção de vida e mostrar como Deus intervêm, na verdade, para fazer justiça. Porém, não como nós queremos mas como Ele quer. Os desígnios Dele, presentes na nossa história, não são os nossos: “Deus dispersou os ossos dos que te assediam”. Isto é, Ele derrota sempre os ímpios que assediam o justo. Esse hino, podemos compreendê-lo, com uma primeira parte onde se lamenta a injustiça ateia e uma segunda parte onde se invoca o julgamento divino acompanhado de uma oração de esperança.

Por quanto à lamentação sobre esse ateísmo, de fato, existe uma forte ligação entre injustiça e ateísmo. Não interessa que exteriormente o injusto seja um ‘praticante’, porque com o seu comportamento mal na vida social se torna parecido a um ateu. Hoje em dia é o que nós diríamos: todos esses escândalos de corrupção, de extorsão, de máfia etc. talvez essas pessoas envolvidas se dizem que são praticantes assíduas de igrejas, mas na verdade são ateias. E assim o salmista diz embora que Deus parece ausente, mas na verdade se revela vindo do céu em socorro do justo e combatendo o ímpio.

Por que Deus intervém? Porque vê que a humanidade está repleta de opressores, de corruptos e falsos. O sábio que busca a Deus não encontra a sua vez nessa podridão da sociedade. Ele é marginalizado. Continua o salmista: “Não se emendarão esses obreiros do mal? Eles que devoram meu povo como quem come pão, não invocarão o Senhor?” Explorar e desfrutar os pobres é um ato de sacrilégio, porque significa desafiar o mesmo Deus, que é o advogado que defende eles. E o Deus não reconhecido intervém na história perante essa blasfema provocação.

Assim o julgamento de Deus se torna presente. Aqui é resumido com três símbolos: o terror, o assédio e os ossos dispersos. O ‘terror’ é sinal da manifestação divina que vem julgar. O ‘assédio’ é uma imagem que quer dizer uma situação de perigo e de fim. E os ‘ossos dispersos’ tem conotações de enterro e exalta a grande vitória de Deus sobre os poderosos e sobre os ímpios. Portanto, essa oração é uma proclamação da efetiva presença de Deus na história da humanidade. Ele é o Senhor de tudo e de todos. E o salmo termina testemunhando a grande esperança na justiça que levará a triunfar os justos, os que sofrem, os que são explorados. E essa esperança de Israel, demonstrada aqui, é o retorno do seu povo deportado para Babilônia pelo rei Nabucodonosor. O povo que foi humilhado por essa superpotência ‘ateia’.

Assim sendo o salmo levanta um grito de esperança e de alegria não obstante o escândalo e as trevas da história. Creio que também todos nós temos esse grande desejo, não obstante todas as crueldades e tristezas da vida, que é Deus o nosso refúgio e o nosso defensor.


O fiel justo segue as opções de Deus


Estamos muito acostumados a ouvir a proclamação do nome de ‘Deus’ por todo lado, sobretudo em discursos oficiais de poder. A palavra ‘Deus’ parece ser usada para dar aquela garantia, certeza ao discurso para se tornar mais crível. É uma maneira de falar, como diz popularmente o nosso povo, da boca pra fora. Na verdade, a menção de Deus nos discursos, mensagens, até pregações, é somente um preenchimento da fala discursiva, preenchimento de vazio.

Este, podemos até dizer, é diabólico, porque quer se projetar, na verdade, os projetos de vida excluindo Deus. Essa maneira de falar, quantas vezes é mais fácil marginalizar eventos, fatos ou pessoas que contradizem uma eventual conduta nossa, que é adversa ao Reino de Deus? No final, não queremos desconfiar de nós mesmos, mas, sim, do nosso Deus. A história se repete, o ser humano acha que tudo pode pela sua fala e a sua conduta.

Como este julgamento é tão duro e, naturalmente, isto nos envolve. A fidelidade de Deus ao seu projeto de Vida é eterna. A justiça de Deus ninguém pode impedi-la. Ele vai fazer de tudo para que aconteça. Com certeza, Ele encontra sempre a sua solução. Neste sentido, temos que rever as nossas concretas teimosias egoísticas, que nos levam a ter uma concepção de vida sem Deus, sermos os donos do Reino Dele. O salmo 51 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender melhor a nossa vida:

“Quando Doeg, o idumeu, veio dizer a Saul: Davi entrou na casa de Aquimelec. Por que te glorias de tua malícia, ó infame prepotente?

Continuamente maquinas a perdição; tua língua é afiada navalha, tecedora de enganos. Tu preferes o mal ao bem, a mentira à lealdade.Só gostas de palavras perniciosas, ó língua pérfida!
Por isso Deus te destruirá, há de te excluir para sempre; ele te expulsará de tua tenda, e te extirpará da terra dos vivos. Vendo isto, tomados de medo, os justos zombarão de ti, dizendo:Eis o homem que não tomou a Deus por protetor, mas esperou na multidão de suas riquezas e se prevaleceu de seus próprios crimes.

Eu sou, porém, como a virente oliveira na casa de Deus: confio na misericórdia de Deus para sempre. Louvar-vos-ei eternamente pelo que fizestes e cantarei vosso nome, na presença de vossos fiéis, porque é bom.”

A estrutura do salmo pode ser definida por três imagens: do ímpio, do ser justo e da cena de Deus que julga. Os símbolos que representam o ímpio são a língua igual a uma navalha afiada, palavras perniciosas e, no entanto, o justo como uma virente oliveira.

O ímpio é apresentado pelo autor do salmo como: ‘Por que te glorias de tua malícia, ó infame prepotente?’ O ímpio agride o justo falando mal dele, não o respeitando. De fato, quem é o justo aqui, segundo o salmista? É ele mesmo. Ele que reza dizendo: ‘eu confio na misericórdia de Deus para sempre.’ E aqui se contrapõe o malvado, igual a navalha afiada, ao fiel justo que é doce e leve como uma árvore de oliveira plantada nos jardins do templo. Portanto, esse justo, é um ser humano de paz, de tranquilidade, de firmeza, de bênção e de confiança em Deus. Assim sendo, o justo conhece, saboreia o que é eterno, representado simbolicamente pela oliveira. Porém, ao centro do salmo se destaca que o ímpio e o justo são convocados perante Deus para serem julgados. E aqui mostra como Deus age em maneira forte, quase como se fosse uma detonação do ímpio, extirpando-o da terra dos seres humanos.

Perante tudo isso, compreende-se que a verdadeira estabilidade do ser humano não está na habilidade das pessoas, mas em Deus. É Ele a nossa defesa. Esse juízo contra as pessoas ruins é louvado pelos justos. Essa ação de Deus é realmente temida pelos seres viventes, mas ao mesmo tempo gera alegria porque a justiça foi feita. Assim, os arrogantes, os soberbos, desafiadores da justiça, são reduzidos a nada. O ímpio pode ter toda a riqueza que quiser, ilusão de segurança e proteção, mas sem Deus é perdido.

Toda a sua maquinação perversa contra o justo é destruída por Deus, refúgio dele. O salmo se apresenta, não obstante a revelação da força do ímpio, com uma grandeenergia de otimismo. Nos mostra como Deus é e não é indiferente à nossa história, mas se faz presente ativamente. E se faz presente do jeito Dele e não a partir da nossa maneira de pensar e agir. Ele restabelece a justiça para valorizar a obra como um todo da criação. Qual a lição de tudo isso? O fiel, o justo, deve sempre confiar e aguardar para compartilhar as opções de Deus para fazer justiça. Somente assim seremos capazes de louvar e agradecer o nosso Deus entre nós.


Piedade de mim, ó Deus!


Toda vez que rezo este salmo, eu me apaixono na busca do meu Deus. Sinto-me em sintonia com Ele como um filho com o pai que se sente acolhido e protegido. Este amor que acolhe e protege se revela força e coragem para interpretar corretamente a nossa vivência humana, a nossa condição de fraternidade. Interessante ver como as nossas certezas de vida surgem dessa nossa condição de humildade e não das arrogâncias dos poderes que o mundo nos oferece. Somos sedentos de vida e este salmo 50 das Sagradas Escrituras nos ajuda a encontrá-la.

“Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade. E conforme a imensidade de vossa misericórdia, apagai a minha iniquidade. Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado. Eu reconheço a minha iniquidade, diante de mim está sempre o meu pecado.

Só contra vós pequei, o que é mau fiz diante de vós. Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento. Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado.

Não obstante, amais a sinceridade de coração. Infundi-me, pois, a sabedoria no mais íntimo de mim.

Aspergi-me com um ramo de hissope e ficarei puro. Lavai-me e me tornarei mais branco do que a neve.

Fazei-me ouvir uma palavra de gozo e de alegria, para que exultem os ossos que triturastes.

Dos meus pecados desviai os olhos, e minhas culpas todas apagai. Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza. De vossa face não me rejeiteis, e nem me priveis de vosso Santo Espírito.Restituí-me a alegria da salvação, e sustentai-me com uma vontade generosa. Então aos maus ensinarei vossos caminhos, e voltarão a vós os pecadores.

Deus, ó Deus, meu salvador, livrai-me da pena desse sangue derramado, e a vossa misericórdia a minha língua exaltará. Senhor, abri meus lábios, a fim de que minha boca anuncie vossos louvores.Vós não vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis.

Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar. Senhor, pela vossa bondade, tratai Sião com benevolência, reconstruí os muros de Jerusalém. Então aceitareis os sacrifícios prescritos, as oferendas e os holocaustos; e sobre vosso altar vítimas vos serão oferecidas.”

Este salmo é uma oração do rei Davi que se arrependeu pela sua conduta adúltera e homicida. Isto aconteceu quando o profeta Natã denunciou Davi por ter conspirado a morte de Urias para ficar com a mulher dele (2 Samuel 11-12). Isto desagradou seriamente Deus e como resposta Davi pediu perdão. Esse perdão revela a ameaça e tristeza do pecado. É interessante ver também como a confissão do pecado abre para a justiça de Deus que purifica o ser humano, resgata a criatura para não ser escrava do seu pecado.Esse testemunho de Davi nos ajuda a compreender o quanto é importante reconhecermos os nossos pecados e invocar o perdão de Deus. Continuando com a leitura do salmo, se vê por essa declaração, ‘eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado’, o famoso texto do pecado original em que se reconhece os limites radicais da criatura humana. E a confissão das culpas se reconhece como Deus é o autor da nossa vida. O ser humano depende Dele para poder resgatar constantemente a verdadeira vida da corrupção que lhe está na sua frente.Nesse sentindo, Davi pede a Deus que recri um coração novo, isto é, uma vida nova, para vivificar a sua vida. De modo que oSenhor não só perdoa, mas plasma de novo o pecador, dando-lhe uma nova consciência e uma fé pura para praticar o verdadeiro culto. A Bíblia toda marca a forte presença do pecado que é contrastada pela esperança do perdão. Se tem pecado também existe a graça do perdão. O Papa Francisco assim se expressou a respeito, na missa em Santa Marta no dia 23.01.2015: “O Deus que perdoa: o nosso Deus perdoa, reconcilia, renova a aliança e perdoa. Mas ‘como perdoa Deus? Antes de tudo, Deus perdoa sempre! Nunca se cansa de perdoar. Somos nós que nos cansamos de pedir perdão. Mas ele nunca se cansa de perdoar’. A ponto que ‘quando Pedro pergunta a Jesus: quantas vezes devo perdoar, sete vezes?’, a resposta que recebe é eloquente: ‘Não sete vezes mas setenta vezes sete’. Ou seja, ‘sempre’, porque é precisamente assim que Deus perdoa: sempre. Por conseguinte, se viveste uma vida com tantos pecados, tantas coisas más, mas no fim, um pouco arrependido, pedes perdão, ele perdoa-te imediatamente. Ele perdoa sempre. É preciso apenas arrepender-se e pedir perdão: nada mais! Não se deve pagar nada! Cristo pagou por nós e perdoa sempre, e não há pecado que ele não perdoe”.


Não se esqueçam de deus


Um dia desses uma pessoa me confiou: “Não é fácil fazer uma experiência de Deus na vida hoje, mas é muito fácil fazer uma experiência de vida sem Deus!” Que verdade! Hoje parece que uma opção de vida segura é se preocupar exclusivamente no visível, no que aparece, sem se preocupar com o que vai além disso. O imediatismo material não deixa lugar para transcender a nossa realidade. Poderíamos dizer que é uma pobreza ‘horizontal’. E essa pobreza exalta as limitações humanas e reduz as perspectivas de aspirações infinitas. Para melhor compreendermos isso, eu proponho a leitura do salmo 49, das Sagradas Escrituras:

“Falou o Senhor Deus e convocou toda a terra, desde o levante até o poente.

Do alto de Sião, ideal de beleza, Deus refulgiu: nosso Deus vem vindo e não se calará. Um fogo abrasador o precede; ao seu redor, furiosa tempestade.

Do alto ele convoca os céus e a terra para julgar seu povo: Reuni os meus fiéis, que selaram comigo aliança pelo sacrifício.

E os céus proclamam sua justiça, porque é o próprio Deus quem vai julgar.

Escutai, ó meu povo, que eu vou falar: Israel, vou testemunhar contra ti. Deus, o teu Deus, sou eu.

Não te repreendo pelos teus sacrifícios, pois teus holocaustos estão sempre diante de mim.

Não preciso do novilho do teu estábulo nem dos cabritos de teus apriscos, pois minhas são todas as feras das matas; há milhares de animais nos meus montes.

Conheço todos os pássaros do céu, e tudo o que se move nos campos.

Se tivesse fome, não precisava dizer-te, porque minha é a terra e tudo o que ela contém.

Porventura preciso comer carne de touros, ou beber sangue de cabrito?…

Oferece, antes, a Deus um sacrifício de louvor e cumpre teus votos para com o Altíssimo.

Invoca-me nos dias de tribulação, e eu te livrarei e me darás glória.

Ao pecador, porém, Deus diz: Por que recitas os meus mandamentos, e tens na boca as palavras da minha aliança? Tu que aborreces meus ensinamentos e rejeitas minhas palavras?

Se vês um ladrão, te ajuntas a ele, e com adúlteros te associas.

Dás plena licença à tua boca para o mal e tua língua trama fraudes.

Tu te assentas para falar contra teu irmão, cobres de calúnias o filho de tua própria mãe.

Eis o que fazes, e eu hei de me calar? Pensas que eu sou igual a ti? Não, mas vou te repreender e te lançar em rosto os teus pecados.

Compreendei bem isto, vós que vos esqueceis de Deus: não suceda que eu vos arrebate e não haja quem vos salve.

Honra-me quem oferece um sacrifício de louvor; ao que procede retamente, a este eu mostrarei a salvação de Deus.”

O que o salmo focaliza, em síntese, fazer o culto, uma liturgia sem um compromisso sério na vida cotidiana, encarnada na realidade do dia-dia torna-se uma magia ou uma farsa. Mais ainda, a religião ritual sem a fé autêntica vivida é hipocrisia, falsa. Diz o salmo que o único culto que Deus gosta é o puro louvor que nasce da consciência e da vida das pessoas e se manifestam pelas próprias condutas. Portanto, não somente culto, mas culto e vida honesta e justa. Deus opõe sete tipos de delitos, furto, adultério, língua, boca, julgamentos, calúnia, que a hipocrisia acredita eliminar simplesmente com as ofertas rituais e não com grande compromisso com a justiça.

Assim nós podemos dizer hoje: uma liturgia desencarnada, que não se compromete com uma vida de justiça, não pode louvar a Deus. Sem o sinal vivo da vida, da fidelidade, da justiça a liturgia não é mais expressão de uma salvação superior, mas fica um simples ato cultual, burocrático sagrado, um belo rito teatral. Assim sendo, o autor desse salmo contesta, em um certo sentido, essa alienação religiosa e faz uma veemente declaração em favor da fé enraizada na vida.

Uma fé compromissada e bem concreta, uma fé também que se estende ao social que, porém, é contemplativa. O Santo Padre papa Francisco, em um seu pronunciamento feito pela ocasião dos 50 anos da missa celebrada em língua italiana (07.03.2015), falou a respeito do culto litúrgico: “É um chamamento ao culto autêntico, à correspondência entre liturgia e vida; um apelo que vale para todas as épocas e até mesmo hoje para nós. Aquela correspondência entre liturgia e vida. A liturgia não é uma coisa estranha, lá muito longe, distante, e enquanto se celebra eu penso em muitas outras coisas, ou rezo o Terço. Não, não. Existe uma correspondência entre a celebração litúrgica que depois eu levo na minha vida, e sobre isto deve-se ir ainda mais longe, deve-se fazer ainda um longo caminho”.


Não de se deixem iludir


As vezes, as pessoas são tão atraídas pelos bens materiais que não conseguem enxergar mais nada além disso. Então, a pessoa constrói toda a sua trajetória de vida pensando e agindo exclusivamente concentrado nos seus bens materiais. No dinheiro! A vida para alguns é impulsionada pelo poder de ‘ter’ cada vez mais. A sua maneira de raciocinar e enxergar a realidade é somente isso. A sua felicidade é só isso. Conforme a conta que possui no banco é medida a sua alegria. A riqueza manda no ser humano. A inteligência é escrava dos bens materiais. Mas isto não acontece somente com as pessoas em si, mas também com os governos. Parece-me que os governos sejam mais servidores do dinheiro que dos povos. O salmo 48 das Sagradas Escrituras nos ajuda a discernir os verdadeiros valores da vida que nos permitem acessar à verdadeira alegria. E, assim, ele nos convida a discernir:

“Escutai, povos todos; atendei, todos vós que habitais a terra, humildes e poderosos, tanto ricos como pobres.

Dirão os meus lábios palavras de sabedoria, e o meu coração meditará pensamentos profundos.

Ouvirei, atento, as sentenças inspiradas por Deus; depois, ao som da lira, explicarei meu oráculo.

Por que ter medo nos dias de infortúnio, quando me cerca a malícia dos meus inimigos?

Eles confiam em seus bens, e se vangloriam das grandes riquezas.

Mas nenhum homem a si mesmo pode salvar-se, nem pagar a Deus o seu resgate.

Caríssimo é o preço da sua alma, jamais conseguirá prolongar indefinidamente a vida e escapar da morte,porque ele verá morrer o sábio, assim como o néscio e o insensato, deixando a outrem os seus bens.

O túmulo será sua eterna morada, sua perpétua habitação, ainda que tenha dado a regiões inteiras o seu nome, pois não permanecerá o homem que vive na opulência: ele é semelhante ao gado que se abate.

Este é o destino dos que estultamente em si confiam, tal é o fim dos que só vivem em delícias.

Como um rebanho serão postos no lugar dos mortos; a morte é seu pastor e os justos dominarão sobre eles. Depressa desaparecerão suas figuras, a região dos mortos será sua morada.

Deus, porém, livrará minha alma da habitação dos mortos, tomando-me consigo.

Não temas quando alguém se torna rico, quando aumenta o luxo de sua casa.

Em morrendo, nada levará consigo, nem sua fortuna descerá com ele aos infernos.

Ainda que em vida a si se felicitasse: Hão de te aplaudir pelos bens que granjeaste.

Ele irá para a companhia de seus pais, que nunca mais verão a luz.

O homem que vive na opulência e não reflete é semelhante ao gado que se abate.”

O salmo nos mostra uma meditação sábia dos verdadeiros valores da vida. A vida está na nossa frente, mas precisa discerni-la, fazer opções, escolhas para compreendê-la e vivê-la. Aquela da riqueza de fato é uma ilusão, porque não ajuda a viver o sentido da vida e o seu destino final. É como um animal que se deixa levar pelos instintos e não consegue mais enxergar nada. É um hino sobre a riqueza e a morte introduzido por um solene prelúdio sapiencial. Na primeira parte é a descrição do rico que busca comprar a morte, tentando corrompê-la com a sua grande riqueza. Ele, o rico, não tem poder de resgatar, comprar a vida: “pagar a Deus o seu resgate … jamais conseguirá prolongar indefinidamente a vida e escapar da morte.”

O tolo, cego pela sua riqueza, é demais convencido de pagar um ‘seguro extraordinário de vida’ que lhe garante combater a morte, afasta-la da sua vida. Mas, por qualquer quantia, até a mais infinita possível, não pode evitar essa realidade que todo mundo tem que enfrentar. Lembra-se de quando Jesus falou “Não há nada que poderá pagar para ter de volta essa vida” (Mt 16,26). Com isso, confirma-se que o ser humano não é dono de nada. Infelizmente, assistimos essa idolatria econômica que toma conta da nossa sociedade como um todo, criando um profundo vazio humanitário. Em seguida, o salmo insiste nessa morte que ninguém pode se opor; os ricos são representados como um rebanho que tem por pastor a morte, e os ínferos hebraicos, Sheol, os acolherá.

Os justos, no entanto, pobres humilhados da história, chegam de mãos vazias à fronteiras da morte. Eles não têm nada para dar como ‘resgate’ pela morte deles. Mas aqui está a grande verdade: Deus mesmo paga o resgate da morte porque é Ele o único que tem poder sobre ela. Assim sendo, não se preocupe se vê alguém enriquecer, ter mais que você porque nada pode fazer com essa sua riqueza; ela chega a um fim e não é garantia de domínio. Importante é enriquecer e abastecer no ‘banco de Deus’.


Louvemos o nosso Deus


Quem confia em Deus e experimenta sua presença, louva-O com todo o coração e inteligência. Viver a confiança em Deus enche de esperança e alegria o fiel. Quantos testemunhos eu já conheci ao longo dos meus anos de sacerdote! Teve uma pessoa, inclusive, que me disse: “Eu perdi tudo, padre, eu sou um derrotado pela sociedade, mas a minha vida não perdeu sentido porque eu confio em Deus. Nele está a minha vida, eu lhe pertenço. Por isso, me sinto forte e creio em um futuro diferente que estou passando! Estou cheio de esperança.” Isto me mostra que Deus faz parte, sim, da nossa vida. E com isso nos leva a louva-Lo, incessantemente, a cantar o seu louvor. A reconhecer a sua grandeza que supera toda a nossa pequenez, e limitações. Com esses olhos, a nossa vida se enche de novos horizontes que exaltam a nossa humanidade. Lendo o salmo 47 das Sagradas Escrituras se compreende perfeitamente porque o nosso Deus é digno de louvor. Preste bem atenção ao que ele nos diz:

“Grande é o Senhor e digno de todo louvor, na cidade de nosso Deus. O seu monte santo,colina magnífica, é uma alegria para toda a terra. O lado norte do Monte Sião é a cidade do grande rei.
Deus se mostrou em seus palácios um baluarte seguro.

Eis que se unem os reis para atacar juntamente.

Apenas a veem, atônitos de medo e estupor, fogem.

Aí o terror se apodera deles, uma angústia como a de mulher em parto, ou como quando o vento do oriente despedaça as naus de Társis.

Como nos contaram, assim o vimos na cidade do Senhor dos exércitos, na cidade de nosso Deus; Deus a sustenta eternamente! Ó Deus, relembremos a vossa misericórdia no interior de vosso templo.

Como o vosso nome, ó Deus, assim vosso louvor chega até os confins do mundo. Vossa mão direita está cheia de justiça.

Que o Monte Sião se alegre. Que as cidades de Judá exultem, à vista de vossos juízos! Relanceai o olhar sobre Sião, dai-lhe a volta, contai suas torres, considerai suas fortificações, examinai seus palácios para narrardes às gerações futuras: como Deus é grande, nosso Deus dos séculos eternos; é ele o nosso guia.”

O salmo descreve que aos pés dos muros de Sião se encontra um baluarte seguro onde os inimigos são derrotados, qualquer adversidade é vencida. É dentre esses muros a segurança do seu povo. Nós poderíamos dizer hoje: é estar com Deus que não tememos os inimigos e seremos sempre invencíveis. É nisso que consiste a alegria das pessoas: viver essa segurança de Deus e que nenhuma potência do mundo pode oferecer. E este salmo se torna quase um canto litúrgico eterno e sempre presente na vida. Podemos dividir esse salmo em duas partes.

A primeira parte é uma celebração da Sião vitoriosa: “cidade do nosso Deus”. Manifesta o salmo o esplendor da cidade santa, divina e humana, visível e misteriosa, presente na história e, ao mesmo tempo, com projeções além da história. Mas aquilo que o autor aqui quer realçar é o que acontece fora da cidade santa. As tropas do inimigo estão assediando-a. Porém, os reis que aí estão comandando são logo rejeitados e colocados em fuga, e diz o salmista: “Fogem, aí o terror se apodera deles, uma angústia como a de mulher em parto”.

Os poderosos são reduzidos às fragilidades humanas! Uma imagem, igual aquela das naus de Tarsis, que perante Deus nenhuma força humana, por quanto poderosa possa ser, será vitoriosa. Uma visão de grande otimismo pelo triunfo de Deus contra as potências do mal. Na segunda parte, o salmista se concentra no interior da cidade de Deus. Aqui focaliza o louvor a Deus no Templo. É um louvor pela misericórdia de Deus pelo seu povo por tudo o que faz para protegê-lo. Logo depois, é descrito uma procissão fora do Templo ao redor do muro onde se confere as torres, sinal da proteção de Deus.

Contemplar essa muralha é contemplar a solidez da cidade de Deus, Sião.Todas essas realidades terrenas querem demonstrar o quanto o amor de Deus está presente e protege o ser humano. Também nós podemos fazer essa experiência, contemplando a ação de Deus na nossa vida através dos eventos históricos. Portanto, através de manifestações bem concretas se protagoniza o nosso Deus. Sião é o coração de uma série de ações salvadoras de Deus professadas no Credo de Israel e na liturgia. E o salmo termina clamando por Deus o seu guia, o seu pastor. O Deus que liberta o seu povo e garante que sua peregrinação o levará pelos prados infinitos de paz e de vida. É essa experiência de fé que nos leva a fazer da nossa vida uma vida de esperança eterna, porque o nosso Deus está conosco.


Deus é o senhor de toda a humanidade


O nosso Deus não é exclusividade de ninguém, mas é para todo mundo. Nesse sentido, todas as pessoas, todos os povos, todas as raças pertencem a Deus e, assim, todos podem fazer a experiência Dele: um Deus conosco! Há pessoas que se acham excluídas, que não têm essa capacidade ou se reputam indignas. E há até pessoas que dizem que isto não existe, que é uma invenção humana. Quem nos ajuda a responder a todas essas realidades é sempre o livro da Sagrada Escritura. Precisamos conhecê-las mais, aprofunda-las mais para abrirmos as nossas mentes e corações. A verdadeira sabedoria da nossa vida se atinge nas páginas sagradas da Palavra de Deus. E hoje queremos conhecer melhor o salmo 46 do Antigo Testamento para descobrirmos a importância da nossa vida através da experiência do nosso Deus.

“Povos, aplaudi com as mãos, aclamai a Deus com vozes alegres, porque o Senhor é o Altíssimo, o temível, o grande Rei do universo.
Ele submeteu a nós as nações, colocou os povos sob nossos pés, escolheu uma terra para nossa herança, a glória de Jacó, seu amado.
Subiu Deus por entre aclamações, o Senhor, ao som das trombetas.

Cantai à glória de Deus, cantai; cantai à glória de nosso rei, cantai.

Porque Deus é o rei do universo; entoai-lhe, pois, um hino!

Deus reina sobre as nações, Deus está em seu trono sagrado.

Reuniram-se os príncipes dos povos ao povo do Deus de Abraão, pois a Deus pertencem os grandes da terra, a ele, o soberanamente grande.”

O salmo inicia proclamando que o nosso Deus é rei do universo. Por isso devemos aclama-Lo e aplaudi-Lo. O contexto desse hino, provavelmente, deve-se enquadra-lo em uma grande celebração no templo de Jerusalém, onde teve uma solene entronização da famosa Arca da Aliança. O que é a Arca da Aliança? No livro sagrado do Êxodo encontramos que o profeta Moisés orientou a construção da mesma iluminado por Deus. Nessa Arca, foram guardadas as tábuas da Lei, a vara de Arão e um vaso do maná. De fato, essas três representavam a aliança de Deus com o povo de Israel. Para os judeus, a Arca não era somente representação, mas a própria presença de Deus.

Por exemplo, também para nós católicos, a Eucaristia não é uma representação de Jesus, mas a sua presença real. Dito isso, o salmo põe o Senhor no centro de tudo, ergueu acima de tudo, configurando-lhe títulos gloriosos como ‘Altíssimo, Terrível e Grande’. Com isto, exprime a onipotência divina, o seu poder sobre toda a criação. Nesse sentido, privilegia-se a eleição de Israel como seu povo para viver o amor Dele. E essa consciência que o Deus transcendente, altíssimo e grande escolheu um povo e uma terra prometida para que todos os povos e todas as terras sejam santificadas.

A segunda parte do hino é um convite a louvar esse Deus Altíssimo, rei de toda a terra. É uma aclamação destinada à realeza divina e, em particular, à arca da aliança. E esse louvor deve-se estender a todos os povos e os seus chefes, porque Deus é também soberano de todos eles, embora tenha escolhido Israel. Assim sendo, mostra o universalismo da missão que Deus entrega para o seu povo escolhido. O povo ‘do Deus de Abrão’ com a sua eleição recebe a missão de pregar a Palavra de Deus para que todas as nações, todas as raças e culturas se salvem. Deus é Senhor de toda a humanidade. E para nós cristãos, quem não lembra aquela passagem de Jesus onde declarava que ‘o tempo chegou e o reino de Deus está próximo’? (Mc 1,15).

A grande esperança de toda a humanidade é ter essa consciência que Deus é o Senhor dela e que Ele não a abandona. A respeito disso, leia esse texto de uma homilia do papa Francisco na sua capela de Santa Marta: “Deus é apaixonado pela nossa pequenez, e a sua misericórdia não tem fim”. “Este amor” de Deus que é “um amor tenro, um amor como o de um pai ou de uma mãe quando conversa com o filho que acordou assustado com um sonho” e conforta-o com um “fica tranquilo, não tenhas medo”.

“Todos nós conhecemos as carícias dos pais e das mães quando as crianças ficam inquietas por causa de um susto: ‘Não tenhas medo, eu estou aqui; Eu sou apaixonado pela tua pequenez’. E também: ‘Não temas os teus pecados, Eu quero-te bem; Eu estou aqui para perdoar-te’. Esta é a misericórdia de Deus”.

Para o Santo Padre, “o Senhor tem vontade de tomar sobre si as nossas fraquezas, os nossos pecados, os nossos cansaços. Jesus quantas vezes demonstrava isso e depois: ‘Venham a mim, todos vocês que estão cansados e eu dar-lhes-ei repouso. Eu sou o Senhor, Vosso Deus, te tomarei pela direita e Te direi ‘não tenhas medo, pequenino, não tenhas medo. Eu te darei força. Dá-me tudo e Eu perdoar-te-ei, te darei a paz’”. Por tudo isso, louvemos o nosso Senhor.