Celebração do Círio (II)

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Continuando a nossa reflexão sobre a religiosidade testemunhada pelo nosso Círio de Nazaré, qual é o pensamento da Igreja sobre a piedade popular? O objetivo da Igreja é aquele de evangelizar e não de civilizar. Vários pesquisadores questionaram-se a respeito disso, como no caso do Gallini, (Forme di trasmissione orale e scritta nella religione popolare, em “Ricerche di Storia Sociale e Religiosa”, Nuova Serie, 11, Roma 1977, p. 99), que partindo da constatação que cultura e classe social não coincidem necessariamente e afirma: “É uma constatação que toma em consideração alguns fenômenos que são tão evidentes que não podem ser negados: sobretudo o fato que muitos institutos culturais, por tradição indicados como populares porque frequentados pelas massas simples e operárias, são também fruídos por outras camadas sociais, incluindo a mesma burguesia. Podem ver, por exemplo, a uma festa participam todo tipo de classe social, misturando-se cada classe social. Repensar sobre este fenômeno pode contribuir a levantar mais dúvidas sobre os riscos de um populismo demais fácil e atual. Mas como repensar em termos de classe estas evidencias?”

O Sínodo dos Bispos de 1974 tratou em particular desse tema e assim pronunciou-se: “A evangelização acha já um fundo de religiosidade popular enraizado sobre as naturais aspirações à bondade e à justiça e isso devido, sobretudo, à obra evangelizadora das épocas passadas. Entendemos por religiosidade popular a maneira como o cristianismo encarna-se nas diversas culturas e etnias e é profundamente vivida e manifesta-se ao povo. A religiosidade popular constitui o verdadeiro ponto de partida da evangelização, com os seus bons elementos de fé autentica que precisa ser purificada, interiorizada, amadurecida e vivida cotidianamente”.

Os mesmos papas fazem-se promotores à devoção à Maria e a todas as formas marianas. Continuando S. João Paulo II: “não serão nunca esquecidos os ensinamentos do meu predecessor Paulo VI, que nas suas maravilhosas Exortações Apostólicas ‘Signum Magnum’ e ‘Marialis Cultus’, deixou um monumento da sua devoção e do seu amor a Maria e uma síntese estupenda, completa das motivações bíblicas, teológicas e litúrgicas, que devem guiar o Povo de Deus no incentivo contínuo do culto divino pra aquela que é Mãe de Deus, Mãe nossa, Mãe da Igreja”. Em poucas palavras, parece-nos que esse seja o pensamento do magistério eclesiástico. Bem aventurado Paulo VI na sua Encíclica ¨Evangelii Nuntiandi¨ fala desse tema e apresenta brevemente a relação entre evangelização e sacramentos. Beato Paulo VI afirma também que não deve-se opor um ao outro, como, às vezes, pode acontecer, mas na verdade conduzir os cristãos “a viver os Sacramentos como verdadeiros Sacramentos da fé, e não recebê-los passivamente ou a subi-los”.

Portanto, parece indicativa a conclusão e as diretrizes e também o pensamento da Igreja sobre tal aspecto que o papa Paulo VI deu à sua Exortação Apostólica: “Nos confrontos dessa realidade (religiosidade popular) assim rica e no mesmo tempo assim vulnerável, ele acolheu, com grande sensibilidade, os valores inegáveis e deseja que os chefes responsáveis das comunidades eclesiais superem os ’riscos de anomalia’, tomando uma direção tal que a religiosidade popular possa deixar cada vez mais, para as nossas massas, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo”.

Beato papa Paulo VI: “Nos confrontos dessa realidade (religiosidade popular), assim rica e ao mesmo tempo vulnerável, ele acolheu, com grande sensibilidade, os valores inegáveis e deseja que os chefes responsáveis das comunidades eclesiais superem os ‘riscos de anomalia’, tomando uma direção tal que a religiosidade popular possa deixar cada vez mais, para as nossas massas, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo”.

Para chegar a essa reflexão, Beato Paulo VI indica quatro pontos concisos, os limites da religiosidade popular: 1°. É aberta a penetração de muitas deformações; 2°. É exposta ao perigo das superstições; 3°. Fica muitas vezes ao nível das manifestações culturais; 4°. Pode levar às formações de seitas e colocar em perigo a verdadeira comunidade eclesial.

Da mesma forma, enumera os valores positivos para uma pedagogia de evangelização que são: 1°. Manifestação de uma sede de Deus que somente os simples e os pobres podem conhecer; 2°. Capacidade de generosidade e de sacrifício até ao heroísmo; 3°. Comporta um grande sentido dos atributos de Deus, a paternidade, a providência, a presença; 4°. Alimenta atitudes interiores como a sabedoria, o sentido da cruz na vida cotidiana: o despojamento, a abertura aos outros, a devoção.

Em síntese, qual é a interpretação e avaliação do conceito de religiosidade popular? Assim escreve A. Vauchez: “A religião popular é uma noção mal definida para ser interpretada de várias maneiras e isso comporta a contrastes e também a oposições entre teses dificilmente conciliáveis”. (FA. ISAMBERT, Religion populaire, sociolo¬gie, histoire, et folklore, em “Archives des Sciences Sociales des Reli¬gions, 43/2 (Abril-junho 1977), p. 183”).

É comum ver como, às vezes, cruzam-se e misturam-se os sentidos dos termos na vida das pessoas simples e até de pessoas esclarecidas. A consequência disso é a prática religiosa que se torna mais sincretista.

Por conseguinte, não se perca nenhuma ocasião para esclarecer, purificar e robustecer a fé do povo fiel, mesmo quando de cunho nitidamente popular. O fato de essa fé ocupar lugar proeminente em Nossa Senhora, como, aliás, sucede na totalidade da fé cristã, não exclui, nem sequer ofusca a mediação universal e insubstituível de Cristo, o qual permanece sempre o caminho por excelência para o encontro com Deus, como ensina o Concílio Vaticano II.


Celebração do cirio

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Mais um Cirio entre nós. Todos estamos envolvidos nesta mega manifestação religiosa paraense. Quais considerações teológicas e comunicativas podemos fazer perante este evento? A partir das Sagradas Escrituras, podemos tentar resgatar como o povo de Deus procede para se aproximar cada vez mais de Deus. Uma dessas realidades é o templo. De fato, ao novo Povo de Deus – diferentemente do Antigo – é estranho o conceito de limitar a presença e a função de Deus unicamente à dimensão do templo. O santuário, no conceito cristão, é o lugar onde mais intensamente experimenta-se a presença e a proximidade de Deus, lugar de graça e centro de fé. A respeito da santidade do lugar, essa é entendida como o resultado da união entre Deus e a comunidade na fé e na oração. Como para as grandes religiões, não é surpresa que também o cristianismo tenha os seus lugares sagrados. Assim, inúmeros templos e santuários surgiram para despertar e satisfazer o sentimento religioso. Bem cedo começaram a tornar-se meta de devoção alguns lugares sagrados da Palestina, ligados à vida terrena de Jesus e à Mãe santíssima.

Depois dos primeiros três séculos de peregrinações à Terra Santa, os fiéis puseram a própria atenção no Ocidente e, em particular, à Cidade Eterna, Roma, que se tornou meta de peregrinações do lugar dos santos mártires.

Documentos atestam que a Igreja Ocidental possui santuários marianos, no verdadeiro sentido da palavra, a partir dos séculos XI-XII. O código de direito canônico define o santuário como “a igreja ou outro lugar sagrado aonde os fiéis, por um motivo peculiar de piedade, vão a peregrinação com a aprovação do ordinário do lugar (can.1230)”.

No ano 1956, uma carta dos estudos da Congregação dos Seminários e das Universidades descrevia os templos como igrejas ou edifícios sagrados destinados ao exercício do culto público e da piedade, que se manifesta por meio de uma imagem venerada, por um milagre que aconteceu, por uma relíquia guardada ou por uma indulgência que se pode adquirir. Nesse sentido, os fiéis fazem as peregrinações nesses locais para pedir graças e fazer promessas. Temos, a partir disso, a piedade popular.

O termo piedade, assim como hoje estamos usando, não reflete o sentido em latim ao qual fazemos referência agora, para tentar buscar uma resposta ao conceito de piedade. Piedade provem do latim pietas que tem uma abrangência de significados muito mais vastos que o nosso e aplica-se a várias categorias e que, por sua vez, podem ser subdivididas em ciclos de deveres a cumprirem-se para Deus e para as criaturas. Além do mais, é bom salientar que também indica um tipo de comportamento de Deus em relação às suas criaturas, particularmente, ao ser humano. Em São Tomás, o termo pietas exprime o dom do Espírito Santo.

Esse termo, em seguida, passou de um comportamento mais amplo para uma atitude bem interior, isto é, uma maneira de relacionar-se com Deus. Hoje, essa devoção foi bem longe e assim, quando se fala de piedade, entende-se o sentido exageradamente pio, pietismo, de piedade hipócrita, de não verdadeiramente pio. Mas, na verdade, o que é a verdadeira piedade cristã?
Visto que o cristão não se limita somente a agir, mas é realmente pio sempre em toda a sua vida, a piedade é a realização espiritual, ou seja, um ato animado pela fé, esperança e caridade ou, como diz São Paulo, “Recapitular em Cristo todas as coisas, aquela do céu como aquela da terra (cf. Ef 1,3-10)”.

A piedade expressa uma virtude de religião que é própria de fazer culto. A nossa vida se manifesta mediante o culto. Os teólogos concordam com a afirmação de S. João Damasceno, o qual define o culto “uma espécie de submissão em reconhecimento da superioridade e excelência de alguém que se presta homenagem e se cultiva para os atos religiosos”.

O culto, por sua vez, divide-se no interior e exterior. Aquele interior é a manifestação da “pietas”, que sai do fundo da alma e toma forma numa linguagem inspirada e direta da vontade e do coração. E a razão exprime a Deus a submissão: a veneração da alma.

E o papa S. João Paulo II nos diz: “A busca de Deus, ligada ao modo de ser e à cultura de cada povo e, não raro, a estados de ânimo emocionais, nem sempre apresentou-se bem apoiada numa adesão de fé. Pode até acontecer de não estar devidamente separada de elementos estranhos à religião. No entanto, essa busca de Deus é algo considerado, por vezes, rico de valores a aproveitar. Embora precisando ser esclarecida, guiada e purificada, a religiosidade popular, ligada como norma à devoção a Nossa Senhora, traduz geralmente ‘uma certa sede de Deus’, sendo como lhe quis chamar o meu predecessor Paulo VI ‘piedade dos pobres e dos simples’”.

Assim, não é necessariamente um sentimento vago ou uma forma inferior de manifestação religiosa. Antes, contém, com frequência, um profundo sentido de Deus e dos seus atributos, como a paternidade, a providência, a presença amorosa e a misericórdia. A par da religião do povo, é corrente também nos centros de culto mariano e nos santuários muito concorridos, verificar-se, por um motivo ou por outro, a presença de pessoas que pertencem ou não ao grêmio da Igreja, ou nem sempre permaneceram fiéis aos compromissos e à prática da vida cristã, ou ainda, tais pessoas vêm guiadas por uma visão incompleta da fé que professam.
Sábado próximo continuaremos com a segunda parte dessa reflexão.


Deus cria e conduz a história

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Nossa história não é uma história qualquer. Nós que acreditamos em Deus reconhecemos que essa nossa história lhe pertence. Tendo essa confiança, podemos enxergar a nossa realidade de maneira diferente. Podemos acreditar além daquilo que raciocinamos. Os nossos horizontes são infinitos como é infinito o nosso Deus. Por tudo isso, tornamo-nos pessoas de esperança e de alegria. Esse salmo 32, das Sagradas Escrituras, permite-nos aprofundar a verdade da nossa vida e nos alegrar com ela. Leia atentamente a profundeza dessas palavras.

“Exultai no Senhor, ó justos, pois aos retos convém o louvor. Celebrai o Senhor com a cítara, entoai-lhe hinos na harpa de dez cordas. Cantai-lhe um cântico novo, acompanhado de instrumentos de música, porque a Palavra do Senhor é reta, em todas as suas obras resplandece a fidelidade: ele ama a justiça e o direito, da bondade do Senhor está cheia a terra. Pela Palavra do Senhor foram feitos os céus, e pelo sopro de sua boca todo o seu exército. Ele junta as águas do mar como num odre, e em reservatórios encerra as ondas. Tema ao Senhor toda a terra; reverenciem-no todos os habitantes do globo. Porque ele disse e tudo foi feito, ele ordenou e tudo existiu. O Senhor desfaz os planos das nações pagãs, reduz a nada os projetos dos povos. Só os desígnios do Senhor permanecem eternamente e os pensamentos de seu coração por todas as gerações. Feliz a nação que tem o Senhor por seu Deus, e o povo que ele escolheu para sua herança. O Senhor olha dos céus, vê todos os filhos dos homens. Do alto de sua morada observa todos os habitantes da terra, ele que formou o coração de cada um e está atento a cada uma de suas ações. Não vence o rei pelo numeroso exército nem se livra o guerreiro pela grande força. O cavalo não é penhor de vitória nem salva pela sua resistência. Eis os olhos do Senhor pousados sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua bondade, a fim de livrar-lhes a alma da morte e nutri-los no tempo da fome. Nossa alma espera no Senhor, porque ele é nosso amparo e nosso escudo. Nele, pois, se alegra o nosso coração, em seu santo nome confiamos. Seja-nos manifestada, Senhor, a vossa misericórdia, como a esperamos de vós.”

Esse hino, como você percebeu, é dirigido ao nosso Deus, que é o Senhor da história e o Criador do universo. É Ele que guia a história e, sobretudo, nesse caso, de Israel. É um canto que exalta o projeto de Deus, o seu Reino. O autor o proclama como um cântico novo. O que significa isso? Porque a sua declamação está cheia de fé, cheia de esperança. As palavras que pronuncia se revestem de alegria e de maneira inédita. Tornou-se com esse fervor como fosse original, pronunciado pela primeira vez, no entanto, é antigo. Parecido com a gente, quantas vezes temos rezado uma oração rotineira, mas aquele dia rezou tão intensamente como se nunca tivesse rezado. Parecia de ter rezado pela primeira vez. Além do mais, ‘novo’ é também o canto quando percebe Deus como salvador na história dos seres humanos, pelo seu amor. Enfim ‘novo’ é o canto que se torna glorificação da salvação que vem pelo Reino de Deus.

Em resumo, os primeiros versículos são um convite ao louvor; e a parte central do salmo é dedicada à celebração da palavra criadora de Deus, a exaltação da palavra providente na história e a palavra que age tanto na história quanto no universo. O autor proclama a palavra de Deus como a razão de ser e de estar acima de todos os eventos da vida. E como antítese disso, o fiel antepõe os projetos dos poderosos do mundo que com as suas manobras sibilinas querem determinar a história da humanidade. Essas ilusões do poder humano se dissolvem ao longo da história. Porém, o desígnio divino vai confirmando a sua eficácia e justiça.

Esse projeto de Deus, que não pode ser confundido com o dos homens, é um projeto sem fim que subsiste desde sempre. É também um projeto histórico que põe ao centro a eleição de Israel. É um projeto dinâmico o de Deus, que abraça o cosmo todo, toda a humanidade. E o salmo continua dizendo que Deus, que reside no céu, do alto enxerga todos os planos dos homens, enxerga todas as suas loucuras e discerne todos os seus segredos. E termina o hino com uma antífona de louvor e agradecimento ao Senhor da vida. É Ele a verdadeira história da humanidade.

E o papa Francisco nos convida através da sua homilia de 14.04.2013 a “adorar o Senhor quer dizer que diante Dele nós estamos convencidos que Ele é o único Deus, o Deus da nossa vida, da nossa história… Isto tem uma consequência na nossa vida, isto supõe se despojar de muitos ídolos pequenos e grandes que nós temos e que nos impedem de adorar o Senhor.”


Feliz aquele cujo pecado foi perdoado

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Quem realmente acredita e tem fé em Deus reconhece que o maior perigo da vida é o pecado. Infelizmente, a sociedade que parece dar preferência ao puro materialismo, à ganância, ao poder como verdadeiras opções de garantias de vida nem percebe a presença do pecado nem sabe o que é ou não o reconhece. Faz de conta que não existe. Pensamentos como esses refletem uma sociedade concentrada na materialidade. Tudo em função daquilo que se consome. E a felicidade consiste somente em ter cada vez mais para consumir. Uma ótica como essa não permite discernir a vida como um todo, na sua objetividade. É difícil, assim, fazer uma experiência além da matéria, reconhecer a vida como além daquilo que enxergamos. Deus, assim, não tem lugar na ‘nossa mesa’. Mas aquele que busca a sua vida em Deus reconhece o quanto estamos longe Dele ou falhamos com Ele. E aí sente o peso do pecado. Não por acaso, os santos se acham os maiores pecadores do mundo, porque justamente experimentam o quanto é grande a incapacidade de seguir a Deus. A leitura do salmo 31 das Sagradas Escrituras nos ilumina a respeito disso:

“Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido. Feliz o homem a quem o Senhor não argui de falta, e em cujo coração não há dolo. Enquanto me conservei calado, mirraram-se-me os ossos, entre contínuos gemidos. Pois, dia e noite, vossa mão pesava sobre mim; esgotavam-se-me as forças como nos ardores do verão. Então, eu vos confessei o meu pecado, e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniquidade. E vós perdoastes a pena do meu pecado. Assim também todo fiel recorrerá a vós, no momento da necessidade. Quando transbordarem muitas águas, elas não chegarão até ele. Vós sois meu asilo, das angústias me preservareis e me envolvereis na alegria de minha salvação. Vou te ensinar, dizeis, vou te mostrar o caminho que deves seguir; vou te instruir, fitando em ti os meus olhos: não queiras ser sem inteligência como o cavalo, como o muar, que só ao freio e à rédea submetem seus ímpetos; de outro modo não se chegam a ti. São muitos os sofrimentos do ímpio. Mas quem espera no Senhor, sua misericórdia o envolve. Ó justos, alegrai-vos e regozijai-vos no Senhor. Exultai todos vós, retos de coração.”

O fiel desse salmo reconhece que o pecado, que ameaça a vida, pesa fortemente na consciência da pessoa e esgota as suas forças. O pecado atinge até o físico. Mas aquilo que o autor dessa oração quer evidenciar é o aspecto positivo do perdão, e por isso aconselha qual é o verdadeiro rumo que o ser humano deve percorrer: “vou te mostrar o caminho que deves seguir”. Assim sendo testemunha o suplicante que é oportuno agradecer constantemente a Deus e convida ao mesmo tempo o ser humano a não se entregar a ação selvagem do pecado: “não queiras ser sem inteligência como o cavalo”. O salmo nos mostra o sentido do pecado por três verbos: absolvido, perdoado e não argui de falta.

O primeiro verbo ‘absolvido’ significa que Deus nos tira um peso que nós carregamos permitindo assim respirar na nossa vida. O segundo verbo ‘perdoado’ quer dizer que o pecado foi cancelado, anulado pela ação eficaz de Deus. E o terceiro ‘não argui de falta’ diz que o pecado não faz mais parte da lista das obras do ser humano. Estamos perante uma remissão plena da culpa. Assim sendo, o ser humano que se converte e é perdoado se torna um verdadeiro fiel, um testemunho para os outros. Por isso todo fiel, nas trevas do pecado, suplica o Senhor para ser liberto. É essa experiência de libertação que leva o perdoado a aclamar com profunda alegria: ‘Alegrai-vos e regozijai-vos no Senhor’.

Os puros de coração poderão se associar aos justos para louvar e agradecer a Deus por ter-lhes perdoados, libertando-os do mal e assim proporcionando-os como umas criaturas novas. Este salmo é um incentivo para todos a confiarmos na invocação constante do Senhor, qual verdadeira nossa esperança de vida. E, para nós cristãos, o santo padre papa Francisco nos orienta: “Jesus nos ensina sobre o perdão. Primeiro: pedir perdão não é um simples pedido de desculpas, é ter consciência do pecado, da idolatria que eu fiz, das tantas idolatrias. Segundo: Deus sempre perdoa, sempre. Mas pede que eu perdoe. Se eu não perdoo, fecho as portas ao perdão de Deus. ‘Perdoai-nos os nossos pecados assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’”. Portanto, essa libertação do pecado por Deus depende também de nós desejarmos ardentemente tudo isso. É nisso que consiste a nossa alegria.


Deus é minha fortaleza

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O ser humano precisa sentir segurança na vida, ter certezas. É aquilo que conheci ao longo dos meus anos como pessoa e como sacerdote. Creio ter encontrado uma resposta ‘exemplo’ para você, lendo o salmo 30 das Sagradas Escrituras. É Ele, Deus, a minha rocha, a minha fortaleza no meu andar cotidiano.

“Junto de vós, Senhor, me refugio. Não seja eu confundido para sempre; por vossa justiça, livrai-me! Inclinai para mim vossos ouvidos, apressai-vos em me libertar. Sede para mim uma rocha de refúgio, uma fortaleza bem armada para me salvar. Pois só vós sois minha rocha e fortaleza: haveis de me guiar e dirigir, por amor de vosso nome. Vós me livrareis das ciladas que me armaram, porque sois minha defesa. Em vossas mãos entrego meu espírito; livrai-me, ó Senhor, Deus fiel. Detestais os que adoram ídolos vãos. Eu, porém, confio no Senhor. Exultarei e me alegrarei pela vossa compaixão, porque olhastes para minha miséria e ajudastes minha alma angustiada. Não me entregastes às mãos do inimigo, mas alargastes o caminho sob meus pés. Tende piedade de mim, Senhor, porque vivo atribulado, de tristeza definham meus olhos, minha alma e minhas entranhas. Realmente, minha vida se consome em amargura, e meus anos em gemidos. Minhas forças se esgotaram na aflição, mirraram-se os meus ossos. Tornei-me objeto de opróbrio para todos os inimigos, ludíbrio dos vizinhos e pavor dos conhecidos. Fogem de mim os que me veem na rua. Fui esquecido dos corações como um morto, fiquei rejeitado como um vaso partido. Sim, eu ouvi o vozerio da multidão; em toda parte, o terror! Conspirando contra mim, tramam como me tirar a vida. Mas eu, Senhor, em vós confio. Digo: Sois vós o meu Deus. Meu destino está nas vossas mãos. Livrai-me do poder de meus inimigos e perseguidores. Mostrai semblante sereno ao vosso servo, salvai-me pela vossa misericórdia. Senhor, não fique eu envergonhado, porque vos invoquei: confundidos sejam os ímpios e, mudos, lançados na região dos mortos. Fazei calar os lábios mentirosos que falam contra o justo com insolência, desprezo e arrogância. Quão grande é, Senhor, vossa bondade, que reservastes para os que vos temem e com que tratais aos que se refugiam em vós, aos olhos de todos. Sob a proteção de vossa face os defendeis contra as conspirações dos homens. Vós os ocultais em vossa tenda contra as línguas maldizentes. Bendito seja o Senhor, que usou de maravilhosa bondade, abrigando-me em cidade fortificada. Eu, porém, tinha dito no meu temor: fui rejeitado de vossa presença. Mas ouvistes antes o brado de minhas súplicas, quando clamava a vós. Amai o Senhor todos os seus servos! Ele protege os que lhe são fiéis. Sabe, porém, retribuir, castigando com rigor aos que procedem com soberba. Animai-vos e sede fortes de coração todos vós, que esperais no Senhor.”

Este salmo apresenta substancialmente três aspectos essenciais da vida: a confiança, a dor e a alegria. A respeito da confiança é representada nos primeiros versículos pela simbologia da “rocha”, do “refúgio” da “fortaleza”. Porém, é nessa frase que encontramos a resposta mais importante: “Em vossas mãos entrego meu espírito; livrai-me, ó Senhor, Deus fiel.” Você se lembra de quem disse as mesmas palavras? Exatamente Jesus e também o mártir Estevão no momento da morte. É uma declaração de total confiança a Deus para por em suas mãos a sua vida. Uma vida que não nos pertence, mas que administramos com todas as dificuldades, com as alegrias e tristezas, com ilusões e realismos. Em todo esse marasmo da vida se pode fazer o ensaio de confiança no Criador de tudo e de todos.

O segundo aspecto do salmo é a lamentação sobre os males, sobre a morte física e também moral. O autor aqui focaliza todos os males físicos e interiores da pessoa. Esses são a incapacidade de prender a vida, ela foge das mãos; o passar dos anos ‘num vale de lagrimas’, o corpo que se enfraquece ao longo dos anos, os ossos que dão estabilidade orgânica se dissolvem e a lamentação que se levanta além das paredes levam a fazer uma profissão de confiança: “Tu és o meu Deus!”

Enfim, o terceiro aspecto, que caracteriza o final do salmo, é a alegria do agradecimento. Perante os meandros da vida, a viva experiência de confiar em Deus leva o fiel a gritar de júbilo, de alegria, porque sente a sua proximidade. Este salmo impregnado de aflição e de esperança inspira o modelo dos seguidores de Jesus Cristo. E o papa Francisco, a respeito disso, nos diz: “O cristão é um homem ou uma mulher de esperança, porque sabe que o Senhor virá. E quando isto acontecer, mesmo se não sabemos a hora, já não virá para nos encontrar isolados, inimigos, mas como ele nos transformou, graças ao seu serviço, amigos, próximos, em paz”.


Tributai ao senhor, ó filhos de Deus

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O ser humano experimenta sempre a precariedade no transcorrer da sua jornada. E quantas dúvidas e perguntas se faz constantemente! Nem sempre consegue dar respostas, sobretudo o seu relacionamento com a mãe natureza. Quantas questões! Mas, segundo o autor do salmo 28 das Sagradas Escrituras, temos que dar espaço a Deus na vida. É Ele que se manifesta sempre, até na mãe natureza e seus eventos. Saber conviver com ela, por exemplo, pode experimentar a sua presença. Portanto, até a natureza pode revelar essa presença majestosa de Deus. É necessário ler com muita atenção esse hino, e eu diria meditando-o no profundo do silêncio.

“Tributai ao Senhor, ó filhos de Deus, tributai ao Senhor glória e poder! Rendei-lhe a glória devida ao seu nome; adorai o Senhor com ornamentos sagrados. Ouve-se a voz do Senhor sobre as águas! O Deus de grandeza atroou: o Senhor trovejou sobre as águas imensas! A voz do Senhor faz-se ouvir com poder! A voz do Senhor faz-se ouvir com majestade! Fendem-se os cedros à voz do Senhor, quebra o Senhor os cedros do Líbano. Faz saltar o Líbano como um novilho, e o Sarion como um búfalo novo. A voz do Senhor despede relâmpagos, a voz do Senhor abala o deserto. O Senhor faz tremer o deserto de Cades. A voz do Senhor retorce os carvalhos, desnuda as florestas. E em seu templo todos bradam: glória! O Senhor preside ao dilúvio, o Senhor trona como rei para sempre. O Senhor há de dar fortaleza ao seu povo! O Senhor abençoará o seu povo, dando-lhe a paz!”

Depois dessa leitura bem concentrada, agora vamos fazer uma análise do texto para ter um melhor entendimento. É um salmo bem antigo que apresenta estruturas, constelações e termos do mundo indígena pré-israelítico. Este cenário é representado pela cultura Cananeia do seu deus da tempestade, Baal Hadad, que tinha a divindade suprema. Nos versículos de 3-9 do salmo, fala-se de uma tempestade que aterroriza a harmonia dos lugares tão conhecidos do mediterrâneo ao Líbano, de Jerusalém até o deserto. Essa violência da tempestade espanta os animais e a sua natureza. Porém, o fiel confia em Deus que está acima de tudo isso.

Com Deus, nada se teme, porque Ele reina no cosmo e na história. Perante o caos do mal, do aniquilamento e das tempestades da história, o crente confia cegamente na presença criadora e soberana de Yhwè. Ele é o Juiz justo e por isso derruba os adversários e soberbos que eram considerados quais ‘arvores majestosas e seculares’ que dominavam os outros. Com isso, revela-nos esse salmo como Deus está acima de tudo isso com a sua presença e julgando a história com toda a sua iniquidade. O nosso papa Francisco, nesse sentido, nos ajuda a focalizar melhor tudo isso, para os dias de hoje, dizendo que “às vezes, todos nós somos ameaçados quando devagar-devagar nos afastamos do Senhor, quase de leve, sem muitos clamores, vivendo de maneira muito mundana e bem materialista. Assim não percebemos mais a sua presença porque a trocamos com os ídolos da vida que o próprio ser humano constrói.”

Por exemplo, como se chega a isso? Diz o papa: “Quando se frequenta a Igreja, vive a tua vida cristã como se fosse ‘um hábito cultural’, assim se perde a relação filial com Deus”. Essa atitude, esse comportamento não leva a fazer uma verdadeira adoração a Deus. Assim sendo, Deus deixa sozinho esse tipo de fiel. Deus é tão onipotente que respeita até essas atitudes de vida. Porém, continua o papa Francisco: “É a derrota: um povo que se afasta de Deus acaba assim”.

Acrescenta o Pontífice: “E é uma lição válida para todos. Também hoje. Inclusive nós, aparentemente, somos devotos, temos um santuário, temos muitas coisas…” Mas, perguntou Francisco, “está o teu coração com Deus? Sabes adorar a Deus?. E se crês em Deus, mas num deus um pouco nebuloso, distante, que não entra no teu coração, e se tu não obedeces aos seus mandamentos, então significa que estás diante de uma derrota”.

Por isso, disse Francisco concluindo a homilia, “peçamos ao Senhor que a nossa prece tenha sempre aquela raiz de fé. Peçamos a graça da fé. Com efeito, a fé é um dom que não se aprende nos livros. Uma dádiva do Senhor que deve ser pedida. Concedei-me a fé!Portanto, devemos pedir ao Senhor a graça de rezar com fé, de estarmos certos de que tudo o que lhe pedirmos nos será dado, com a segurança que nos dá a fé. Esta é a nossa vitória: a fé”. Desse jeito, faremos a experiência de um Deus presente que fará justiça, abençoando o seu povo, dando-lhe a paz. A paz que tanto é desejada pelo mundo inteiro.


O meu grito a ti, Senhor!

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O salmo 27 das Sagradas Escrituras é o canto que nos dá esperança de vida. Em que consiste isso? É a chegada da Palavra de Deus como resposta verdadeira aos problemas do cotidiano do fiel. É Ela que resolve as vicissitudes da humanidade; é Ela que derrota o sofrimento e abre horizontes de vida até perante a morte. O intercessor, nesse caso, invoca Deus, porque o silêncio Dele é sinônimo de morte e abandono, e, por isso, quer escutá-Lo. E quanto silêncio hoje! Leia atentamente quanto o salmista proclama com toda confiança:

“É para vós, Senhor, que ergo meu clamor. Ó meu apoio, não fiqueis surdo à minha voz; não suceda que, vós não me ouvindo, eu me vá unir aos que desceram para o túmulo. Ouvi a voz de minha súplica quando clamo, quando levanto as mãos para o vosso templo santo. Não me deixeis perecer com os pecadores e com os que praticam a iniquidade, que dizem ao próximo palavras de paz, mas guardam a maldade no coração. Tratai-os de acordo com as suas ações, e conforme a malícia de seus crimes. Retribuí-lhes segundo a obra de suas mãos; dai-lhes o que merecem, pois não atendem às ações do Senhor nem às obras de suas mãos. Que Ele os abata e não os levante. Bendito seja o Senhor, que ouviu a voz de minha súplica; nele confiou meu coração e fui socorrido. O Senhor é a minha força e o meu escudo! Por isso meu coração exulta e o louvo com meu cântico. O Senhor é a força do seu povo, uma fortaleza de salvação para o que lhe é consagrado. Salvai, Senhor, vosso povo e abençoai a vossa herança; sede seu pastor, levai-o nos braços eternamente.”

O que observamos nesse interessante hino? Nota-se uma evidente simbologia que se opõe àquela da palavra e do silêncio. Aqui o ser humano grita ‘socorro’ com toda a sua força para Deus. No entanto, Deus parece indiferente perante o drama que está vivendo o autor desse salmo. O drama humano que está passando, esse fiel, leva-o a gritar com toda a sua força na invocação, erguendo até as mãos. O corpo todo é contrito na sua oração. De repente, quebrando o silêncio divino, a Palavra do Senhor intervém para salvá-lo. Assim, o fiel, perante essa experiência de ajuda, sente-se fortalecido e a sua boca se enche de palavras de alegria e de júbilo. Esse Deus que parecia calado, insensível ouviu a voz do suplicante. Desse jeito, os ímpios, que o ameaçam porque não respeitam a Aliança, enquanto ofendem a Deus e não respeitam os pobres, são derrotados. Aqueles que se prodigam a fazer o mal se afastam de Deus e assim não pertencem ao povo de Deus. É verdade também que Deus não pode estar indiferente perante a ação injusta dos ímpios. Afastar-se de Deus equivale afastar-se da vida, e desse modo a morte reinará. Isto quer dizer que o ser humano se sente sozinho, perdido nos meandros do cotidiano.

Achei interessante a fala do Papa Francisco sobre o que estamos refletindo: “A oração com a dor e a angústia”, o fiel “confia dor e angústia ao Senhor». E nisto, o Papa nos recorda Cristo: com efeito, “Jesus conheceu esta oração no Horto das Oliveiras, quando a sua angústia era muita e a dor lhe fez suar sangue, e não repreendeu o Pai: “Pai, se quiseres, livra-me disto, mas seja feita a tua vontade”. Acrescentou: “muitas vezes rezamos, pedimos ao Senhor, mas às vezes sabemos chegar precisamente àquela luta com o Senhor, até às lágrimas, para pedir a graça”.

A oração – disse Francisco – faz milagres. Além disso, falou: “A oração dos fiéis muda a Igreja: não somos nós, papas, bispos, sacerdotes, religiosas, quem leva a Igreja em frente, são os santos! Os santos são aqueles que têm a coragem de acreditar que Deus é o Senhor e que pode fazer tudo”. E concluiu insistindo a interceder Deus para que “nos dê a graça da confiança na oração, de rezar com coragem e também de despertar a piedade, quando a perdemos, e ir em frente com o povo de Deus ao encontro com ele”. É nessa dimensão de confiança no Deus da vida que podemos experimentar a maravilha da vida que temos nas mãos. É essa confiança que nos dá o poder de discernir a força irresistível do nosso Senhor entre nós. Encontrei nesses dias, aqui na Itália, uma pessoa que perdeu tudo na vida, até as pessoas mais queridas da família; vive praticamente peregrinando e de ajuda. Porém o que mais me impressionou na sua narração foi como ele confia totalmente em Deus, como ele invoca, reza constantemente Deus. É essa oração que lhe permite sorrir, enxergar além dos graves problemas. Garantiu-me: “A minha vida vai muito além da provisoriedade dessa terra, da minha total pobreza e miséria”.


Eucaristia – fonte da vida (2)

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Em Belém do Pará celebra-se o 17° Congresso Eucarístico Nacional.Gostaria de propor mais essa reflexão para meditar o grande mistério da Eucaristia. Falou o evangelista Lucas: “Sentou-se à mesa com os dois, (discípulos de Emaús), tomou o pão e o abençoou, depois o partiu e deu a eles. Nisso os olhos dos discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. Então um disse ao outro: ‘Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?’ Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém” (Lc 24, 30-33).

Os discípulos desanimados reconheceram Jesus somente depois da sagrada refeição que é a Ceia Eucarística. Portanto, para enxergarmos a presença de um Jesus vivo na nossa vida, além de conhecer a própria realidade e as Sagradas Escrituras, precisamos viver intensamente a Eucaristia. Este Evangelho nos ensina o caminho para descobrirmos Deus na nossa vida. E a prova desse reconhecimento é que os dois famosos discípulos voltaram para Jerusalém, a cidade que num certo sentido representava o fim de tudo para eles. Com esta descoberta reverteram a situação e se reuniram de novo com os outros discípulos para viverem o reencontro com o Ressuscitado. A fé em Jesus ressuscitado se realiza totalmente quando pode se confrontar e se expressar na comum profissão de fé junto a Pedro e aos onze discípulos. Isto significa a Igreja. Essa experiência não os deixou parados, porque tinham que contar aquilo que tinham visto e ouvido. A experiência do Ressuscitado é muito forte e os anima para compartilhar com os outros a alegria do encontro com o Senhor. É esta experiência que o impulsiona a ir ao encontro dos outros, e, por conseguinte, se tornam dinâmicos. Tem que andar.

O encontro na Eucaristia leva-nos a testemunhar ativamente a nossa fé. A Igreja e os fiéis alimentados pela Eucaristia, tornam-se missionários para viver com todo mundo, sem a exclusão de ninguém, a grande verdade que o Senhor está conosco. Tudo isso gera alegria e muita esperança. Assim, uma Igreja missionária é fruto de uma Igreja eucarística. Aliás, as duas dimensões se compenetram. Dizia S. João Paulo II: ““Entrar em comunhão com Cristo no memorial da Páscoa significa ao mesmo tempo experimentar o dever de fazer-se missionário do acontecimento que esse rito atualiza”.

É bom também lembrar que a Eucaristia não dá somente uma força emotiva para testemunhar essa alegria da presença do Senhor, mas, sobretudo, conteúdo, alimento que sustenta a vida humana. Cuidado em pensar que a minha alegria seja separada da vida do dia a dia.

Não podemos reduzir as nossas Eucaristias em solenes festas e barulhos de alegrias, esquecendo-nos depois da nossa realidade cotidiana dos desafios. De tal modo, a participação feita na celebração da Eucaristia continua nos eventos da vida cotidiana, partilhando as alegrias e as tristezas, agradecendo e servindo quem mais necessita.

O que aconteceu ao longo da nossa história? A começar do IX e X século apareceram as primeiras dúvidas sobre a real presença de Cristo na Eucaristia. Como reação a tudo isso surgiram inúmeras discussões teológicas comprovando a sua real presença: a Eucaristia como corpo verdadeiro do Senhor. E de outro lado, se falará da Igreja como “corpo místico”.

E, além do mais, para uma maior compreensãoda Eucaristia não podemos partir do pão e do vinho, mas de Jesus Cristo que é o princípio da Eucaristia. Isto é, não é o pão e o vinho a determinar Jesus Cristo e assim dar-lhe o sentido sacramental; mas é ao contrário, é Jesus Cristo a definir o pão e o vinho e, portanto, dando-lhe o sentido sacramental. E isto todos sabemos, quando na última Ceia com os seus, antes da sua Paixão, Morte e Ressurreição, Ele explica o evento e quis que se tornasse presente no meio de nós pela Eucaristia para sempre.

Interessante notar que os discípulos entenderam tudo isso somente depois que fizeram a experiência do encontro com o Jesus vivo: o Senhor. E daí compreenderam efetivamente a instituição da Eucaristia. Não se pode entrar na lógica da Eucaristia a partir da nossa maneira de pensar, mas de Jesus o Cristo: “Eu estou com vocês até o fim do mundo”. E Paulo VI afirma: “Por isso, tanto recomendaram os Santos Padres que os fiéis, ao considerarem este augustíssimo Sacramento, não se fiassem nos sentidos, que testemunham as propriedades do pão e do vinho, mas sim nas palavras de Cristo, que têm poder de mudar, transformar e “transubstanciar” o pão e o vinho no seu Corpo e Sangue; na verdade, como repetem os mesmos Padres, a força que opera este prodígio é a própria força de Deus Onipotente, que no princípio do tempo criou do nada todo o universo”.(Essa reflexão foi tirada do meu livro: “Eucaristia – fonte da vida”)


O senhor é o meu amparo

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A pior coisa que o ser humano pode experimentar na vida é quando perde a confiança, a esperança. É nesse vazio humano que se sente sem futuro, sem horizontes. Em uma palavra: ‘perdido’. Mas será que tem uma saída pra isso? Têm muitas reflexões sobre isso, muitos conselhos, muitas elucidações até científicas. No entanto, eu ainda insisto, talvez porque sou apaixonado pela Palavra de Deus, que a melhor resposta pra esse ‘vazio humano’ vem mesmo das Sagradas Escrituras. Olhe, por exemplo, esse salmo 26, do Antigo Testamento, com que clareza nos orienta para enfrentar essa pobreza humana:

“O Senhor é minha luz e minha salvação, a quem temerei? O Senhor é o protetor de minha vida, de quem terei medo? Quando os malvados me atacam para me devorar vivo, são eles, meus adversários e inimigos, que resvalam e caem. Se todo um exército se acampar contra mim, não temerá meu coração. Se se travar contra mim uma batalha, mesmo assim terei confiança. Uma só coisa peço ao Senhor e a peço incessantemente: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para admirar aí a beleza do Senhor e contemplar o seu santuário. Assim, no dia mau ele me esconderá na sua tenda, ocultar-me-á no recôndito de seu tabernáculo, sobre um rochedo me erguerá. Mas desde agora ele levanta a minha cabeça acima dos inimigos que me cercam; e oferecerei no tabernáculo sacrifícios de regozijo, com cantos e louvores ao Senhor. Escutai, Senhor, a voz de minha oração, tende piedade de mim e ouvi-me. Fala-vos meu coração, minha face vos busca; a vossa face, ó Senhor, eu a procuro. Não escondais de mim vosso semblante, não afasteis com ira o vosso servo. Vós sois o meu amparo, não me rejeiteis. Nem me abandoneis, ó Deus, meu Salvador. Se meu pai e minha mãe me abandonarem, o Senhor me acolherá. Ensinai-me, Senhor, vosso caminho; por causa dos adversários, guiai-me pela senda reta. Não me abandoneis à mercê dos inimigos, contra mim se ergueram violentos e falsos testemunhos. Sei que verei os benefícios do Senhor na terra dos vivos! Espera no Senhor e sê forte! Fortifique-se o teu coração e espera no Senhor!”

Somente para contextualizar esse salmo: manifesta-se uma apaixonada busca do Templo e da sua liturgia. É a partir daí que o suplicante encontra conforto e luz. Como é a sua composição? Desenvolve-se em duas partes. A primeira é marcada pela alegria com dois símbolos que revelam a fisionomia divina. Um é representado pela luz: Deus é luz, isto é, princípio de vida e de criação; e o segundo é Deus defesa e proteção, porque é fortaleza para o fiel. Assim, aparece aqui o templo como lugar de segurança. É no templo que se revela o Senhor, qual ‘rochedo’ estável onde se pode edificar a morada tranquila e segura da vida do ser humano. De fato, o fiel deseja ‘morar na casa do Senhor’ para ‘contemplar a sua beleza’ no templo.

A respeito disso, nos fala o papa Francisco: “Quando nós, hoje, olhamos para os muitos vales obscuros, tantas desgraças, tanta gente que morre de fome, de guerra, crianças com problemas, tantas…. você pergunta aos pais: ‘Mas que doença ele tem?’ – ‘Ninguém sabe: se chama doença rara’. Quando você vê tudo isso, pergunta: ‘onde está o Senhor? O Senhor caminha comigo?’” É a vida que nos interpela, e nós aonde vamos encontrar as respostas? O salmista nos orienta: encontrando Ele, o nosso Deus. Fazer a experiência da confiança Nele.

Na segunda parte, o salmista no templo suplica com o coração. O que quer dizer isso? É a intimidade mais profunda da vida humana que se abre a Deus. É nessa ação de colocar toda a pessoa na escuta do Senhor que lhe permite compreender a sua condição de servo de Deus. Essa condição de servo não significa ser humilhante, mas exprime a maior dignidade de ser o chamado por Deus e seja ao mesmo tempo o seu colaborador para realizar o projeto de redenção. E o salmo conclui com palavras pronunciadas pelo fiel de total confiança e esperança: “Espera no Senhor!” Para melhor entender essa súplica vejamos o que nos diz sempre papa Francisco:

“Como posso confiar no Senhor se vejo essas ameaças? E quando as coisas acontecem comigo, cada um de nós pode dizer: ‘mas como me entrego ao Senhor?’ A esta pergunta há uma resposta: Não se pode explicar, eu não sou capaz: este é um ato de fé. Eu me entrego. Não sei: não sei porque isso acontece, mas eu confio. Você saberá porquê”. Como o salmista, o papa insiste: “Senhor, ensinai-me a entregar-me nas Tuas mãos, a confiar em sua guia, mesmo nos maus momentos, nos momentos tenebrosos, no momento da morte.” E termina o papa: “Senhor, não Te entendo. Esta é uma bela oração. Mesmo sem entender, me entrego nas Tuas mãos”.


A tua justiça, senhor, livra-nos dos subornos!

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Quanto é difícil nos dias de hoje vivermos transparentes, sem nos contagiar pelo mal! A sociedade, na medida em que se fundamenta sempre mais no deus-dinheiro, no deus-proveito, nos deuses-negócios, torna-se cada vez mais vulnerável no sentido da transparência e da honestidade. Quando falo ‘deus’, com o “d” minúsculo, quero dizer, nesse caso, que essas coisas estão acima de tudo e todos, são as mais importantes na vida. Então, constatando como a nossa sociedade está se apoiando nesses deuses, creio que seja bem difícil vivermos a verdadeira justiça. No final, poderia dizer como é complicado não se deixar contagiar por uma sociedade com esses valores relativos. Portanto, para vivermos com justiça, não nos deixar contagiar pela corrupção, talvez precisaremos rever a impostação de toda a nossa sociedade, como um todo. Nesse sentido, quem nos dá umas dicas para fazer uma ponderada avaliação do nosso ser e ter, é a Sagrada Escritura, através do salmo 25. Veja o que nos diz:

“Fazei-me justiça, Senhor, pois tenho andado retamente e, confiando em vós, não vacilei. Sondai-me, Senhor, e provai-me; perscrutai meus rins e meu coração. Tenho sempre diante dos olhos vossa bondade, e caminho na vossa verdade. Entre os homens iníquos não me assento nem me associo aos trapaceiros. Detesto a companhia dos malfeitores, com os ímpios não me junto. Na inocência lavo as minhas mãos, e conservo-me junto de vosso altar, Senhor, para publicamente anunciar vossos louvores, e proclamar todas as vossas maravilhas. Senhor, amo a habitação de vossa casa, e o tabernáculo onde reside a vossa glória. Não leveis a minha alma com a dos pecadores nem me tireis a vida com a dos sanguinários, cujas mãos são criminosas, e cuja destra está cheia de subornos. Eu, porém, procedo com retidão. Livrai-me e sede-me propício. Meu pé está firme no caminho reto; nas assembleias, bendirei ao Senhor.”

Para melhor compreendermos esse texto literário, precisamos fazer umas considerações da redação do mesmo. Esse salmo se divide em duas partes, onde se evidenciam duas proclamações de inocência. Na primeira parte, que vai até o versículo cinco, o suplicante manifesta a sua convicção de que Deus peneire a moralidade dos seres humanos com grande rigor. Aquilo que vivemos ainda nos dias de hoje, o grande desejo de muitas pessoas é que Deus possa reverter esses comportamentos humanos que não tem moral nenhuma. As pessoas não se entendem mais, cada um age conforme o que achar melhor. Cada um faz a sua moral. Por isso, o ser humano invoca Deus, que sonda no mais profundo o coração, e, assim, lhe revela a capacidade de rejeição do mal. É a rejeição do mal, que o intercessor jura ter cumprido em todos os momentos da sua vida com a maior firmeza: “Entre os homens iníquos não me assento nem me associo aos trapaceiros”. Na segunda parte em que tem a outra reclamação da inocência, “Na inocência lavo as minhas mãos”, revela-se de maneira mais transparente a personalidade daquele que reza. Que sentido tem aqui ‘lavar-se as mãos’? A simbologia desse gesto pertence a todas as culturas como sinal de inocência e pureza. Porém, nesse caso, o suplicante procede de uma maneira diferente, em que não se lava as mãos na água lustral, mas na sua mesma inocência, certificando desse jeito a sua radical pureza interior. Assim sendo, moralmente íntegro, ele pode participar efetivamente ao culto litúrgico, à solene assembleia litúrgica no templo. No entanto, aqueles que não participam do templo, segundo o salmista, são homens iníquos e por isso acrescenta: “com os ímpios não me junto”.

O templo, sendo um ‘lugar’ santo por excelência, é a casa onde Deus se faz presente na história, é a residência terrena de Deus do infinito, é a sede da glória da manifestação do Senhor aos seus. Insistindo, o salmo com a vida do justo é como se fosse o verdadeiro culto grato a Deus, e no espírito da teologia profética é inimigo de todo ritualismo mágico e exterior. E Jesus, fiel ao ensino profético, contesta também Ele em fazer uma liturgia desencarnada. Quantas vezes cristãos, ainda hoje, fazem da liturgia mais teatro, e os corações deles estão longe de Deus? Quantas vezes as celebrações são esvaziadas por não deixar questionar a própria conduta de vida pessoal, comunitária e sociopolítica? É difícil, tendo um comportamento iníquo, louvar e proclamar as maravilhas de Deus! Outro dia, uma pessoa me confidenciou a dificuldade de viver honestamente na sociedade hoje: “Parece que não se consegue fazer nada, nenhum negócio se não aceitar acordos ilícitos!” Creio firmemente que se pode se livrar das injustiças, desonestidades e corrupções, mas precisamos estar do lado de Deus, se comprometer concretamente com Ele, evitando as infinitas palavras.