Senhor, sois o soberano de toda a terra!

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O pecado original é a ruptura do ser humano com Deus, a rejeição de sua aliança e, assim, da amizade com Deus. Embora o pecado seja uma condição universal, que atinge a todos, o pecado não tem origem em Deus. Disso decorrem algumas consequências sobre as quais precisamos refletir:

• Todos têm pecado e precisam da salvação.
• O Antigo Testamento enfatiza a dimensão comunitária do pecado.
• O mal é transmitido entre as gerações (a solidariedade no mal); mas, também, existe a solidariedade no bem, a transmissão do bem entre as gerações.

Quanto à dimensão comunitária do pecado, lembremo-nos que há toda uma estrutura societária que sustenta o pecado. Há toda uma estrutura que reproduz a ruptura com Deus, que induz ao não respeito à sua Palavra e, assim, impede a realização plena dos objetivos da Criação. Por isso, convido-te a ler o salmo 96 das Sagradas Escrituras para ver como Deus se impõe qual soberano da terra, não obstante a existência do pecado.
“O Senhor reina! Que a terra exulte de alegria, que se rejubile a multidão das ilhas. Está envolvido em escura nuvem, seu trono tem por fundamento a justiça e o direito. Ele é precedido por um fogo que devora em redor os inimigos. Seus relâmpagos iluminam o mundo, a terra estremece ao vê-los. Na presença do Senhor, fundem-se as montanhas como a cera, em presença do Senhor de toda a terra. Os céus anunciam a sua justiça e todos os povos contemplam a sua glória. São confundidos os que adoram estátuas e se gloriam em seus ídolos; pois os deuses se prostram diante do Senhor. Ouve e se alegra Sião, exultam as cidades de Judá por causa de vossos juízos, Senhor. Porque vós, Senhor, sois o soberano de toda a terra, vós sois o Altíssimo entre todos os deuses. O Senhor ama os que detestam o mal, ele vela pelas almas de seus servos e os livra das mãos dos ímpios. A luz resplandece para o justo, e a alegria é concedida ao homem de coração reto. Alegrai-vos, ó justo, no Senhor, e dai glória ao seu santo nome.”

Este salmo se supõe que tenha sido redigido do século IV em diante a.C. pelo profeta quando retorna do exílio. O hino inicia com uma proclamação, “O Senhor reina!”, típico dos salmos em que o Senhor é aclamado rei (Salmos 47 e 93), qual poderosa manifestação da soberania de Deus. Aqui se trata de uma grande e majestosa manifestação de Deus através das tempestades da natureza contra qualquer idolatria e, no entanto, toma a defesa dos seus fiéis que o adoram. As aclamações do universo do céu e da terra recepcionam a vinda do grande Rei soberano de tudo, acompanhado das nuvens, pelas trevas, fogo e relâmpagos, e também pela justiça, o direito e a glória.

E o salmista descreve perante essa manifestação de Deus a reação negativa dos idólatras e dos ídolos contraposta àquela dos fiéis que se regozijam e ficam felizes. E a celebração litúrgica dos adoradores de Deus é um reavivar a presença soberana do Senhor que esmaga os adoradores de estátuas e faz triunfar os justos. Os justos são iluminados pelo Senhor rei do cosmo e, assim, compartilham desde já a sua plenitude da esperança de Vida. O autor desse hino define de maneira bem expressiva esses fiéis do Senhor: “Aqueles que amam o Senhor”, “Aqueles que odeiam o mal”, “Fiéis”, “Justos”, “Retos de coração”, “Homens da alegria”, “Alegrai-vos e dai glória ao seu santo nome.”

Inspirados pelo autor desse salmo, podemos reconhecer realmente que Deus é o nosso único soberano e que está acima de todas as nossas misérias e fracassos, conduzindo-nos na vida de plenitude. E o papa Francisco escreveu para o 51° Dia Mundial da Paz: “A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos «a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha». Estas palavras propõem-nos a imagem da nova Jerusalém. O livro do profeta Isaías (cap. 60) e, em seguida, o Apocalipse (cap. 21) descrevem-na como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admira e enche de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.(…)
Precisamos lançar também sobre a cidade onde vivemos este olhar contemplativo, «isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (…), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça», por outras palavras, realizando a promessa da paz.”


Cantai ao senhor, terra inteira!

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O pecado original é a ruptura do ser humano com Deus, a rejeição de sua aliança e, assim, da amizade com Deus. Embora o pecado seja uma condição universal, que atinge a todos, o pecado não tem origem em Deus. Disso decorrem algumas consequências sobre as quais precisamos refletir:

• Todos têm pecado e precisam da salvação.
• O Antigo Testamento enfatiza a dimensão comunitária do pecado.
• O mal é transmitido entre as gerações (a solidariedade no mal); mas, também, existe a solidariedade no bem, a transmissão do bem entre as gerações.

Quanto à dimensão comunitária do pecado, lembremo-nos que há toda uma estrutura societária que sustenta o pecado. Há toda uma estrutura que reproduz a ruptura com Deus, que induz ao não respeito a sua Palavra e, assim, impede a realização plena dos objetivos da criação. Nesse sentido, o salmo 95, das Sagradas Escrituras, nos convida a reconhecer o Deus único e louva-Lo e proclama-Lo às nações a sua glória. A glória que nos resgata do pecado.

“Cantai ao Senhor um cântico novo. Cantai ao Senhor, terra inteira. Cantai ao Senhor e bendizei o seu nome, anunciai cada dia a salvação que ele nos trouxe.Proclamai às nações a sua glória, a todos os povos as suas maravilhas. Porque o Senhor é grande e digno de todo o louvor, o único temível de todos os deuses.Porque os deuses dos pagãos, sejam quais forem, não passam de ídolos. Mas foi o Senhor quem criou os céus. Em seu semblante, a majestade e a beleza; em seu santuário, o poder e o esplendor. Tributai ao Senhor, famílias dos povos, tributai ao Senhor a glória e a honra, tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome. Trazei oferendas e entrai nos seus átrios. Adorai o Senhor, com ornamentos sagrados. Diante dele estremece a terra inteira. Dizei às nações: O Senhor é rei. E (a terra) não vacila, porque ele a sustém. Governa os povos com justiça. Alegrem-se os céus e exulte a terra, retumbe o oceano e o que ele contém, regozijem-se os campos e tudo o que existe neles. Jubilem todas as árvores das florestas com a presença do Senhor, que vem, pois ele vem para governar a terra: julgará o mundo com justiça, e os povos segundo a sua verdade.”

Segundo o salmo, a natureza é como se fosse uma grande mensagem do seu Criador, em que proclama ‘o Senhor reina!’. É um hino que exalta e louva qual o destino do ser humano e da sua história. Um destino universal em que se terão novos céus e novas terras no reino definitivo e esplendoroso do Reino de Deus. O salmo nos convida a “sonhar” sobre o nosso futuro ligado em Deus. Uma nova realidade se prospecta para nós. Por isso, cantemos ao nosso Deus. Os versículos de 10 a 13 manifestam a grande alegria, porque a ação de Deus que vem para julgar e governar é iminente, está para acontecer.

Assim sendo, o ser humano não pode ficar indiferente e neutro na presença da idolatria, das nações que se prostram para ela. A presença de Deus aniquila tudo isso. Nesse sentido, o autor desse salmo é totalmente confiante que essa presença de Deus, que não tardará, tomará conta da história e ajudará os justos a participarem plenamente da nova vida no Senhor, autor de tudo o que contemplamos. É Ele o Senhor da vida e da nossa vida e, portanto, podemos sonhar com o futuro maravilhoso. A nossa expectativa é imensa, confiante e cheia de esperança.

E o santo padre papa Francisco, durante missa celebrada na Casa Santa Marta, no dia 11.05.2017, Vaticano, nos diz o seguinte: “Deus ficou conhecido na história. A sua salvação tem uma grande e longa história”… “A salvação de Deus está em caminho rumo à plenitude dos tempos”. O Senhor “guia o seu povo, com momentos bons e momentos ruins, com liberdade e escravidão; mas guia o povo rumo à plenitude”…“Existem os santos, os santos que todos conhecemos e os santos escondidos”. A Igreja “está cheia de santos escondidos e esta santidade é que nos leva para frente, rumo à segunda plenitude dos tempos, quando o Senhor virá, no final, para ser tudo em todos”…“Há uma terceira plenitude dos tempos, a terceira. A nossa. Cada um de nós está em caminho rumo à plenitude do próprio tempo. Cada um de nós chegará ao momento do tempo pleno e a vida acabará e deverá encontrar o Senhor. E este é o nosso momento”…“Pedir perdão a Deus não é algo automático. É entender que estou a caminho, em um povo em caminho e que um dia me encontrarei cara a cara com aquele Senhor que jamais nos deixa sós, mas nos acompanha neste caminho”.


A justiça divina supera a humana

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Na revelação transmitida na Bíblia, o Criador cria a criatura. Há, portanto, uma dependência do ser humano perante o Criador. Então, de modo aparentemente paradoxal, a relação mesma com Deus é que permite a liberdade e a responsabilidade que caracteriza o humano. Do contrário, se eu não mantiver essa busca de Deus, eu perco a minha liberdade. Pois, de fato, essa relação do ser humano com Deus é que confere a plenitude ao ser humano, que expressa a sua perfeição original. Sem essa relação, quem somos nós? Seres limitados, tolhidos, presos, vítimas das circunstâncias. Perdemos a dimensão de plenitude que nos caracteriza desde a nossa criação. Assim sendo, compreendemos por que é difícil viver a justiça na sociedade e nas instituições em geral. Mas Deus quer ser protagonista, quer queiramos ou não. Veja o salmo 93 das Sagradas Escrituras que fala justamente desse protagonismo de Deus, Ele não fica no anonimato.

“Senhor, Deus justiceiro, Deus das vinganças, aparecei em vosso esplendor. Levantai-vos, juiz da terra, castigai os soberbos como eles merecem.Até quando, Senhor, triunfarão os ímpios? Até quando se desmandarão em discursos arrogantes, e jactanciosos estarão esses obreiros do mal?Eles esmagam o povo, Senhor, e oprimem vossa herança. Trucidam a viúva e o estrangeiro, tiram a vida aos órfãos.E dizem: O Senhor não vê, o Deus de Jacó não presta atenção nisso! Tratai de compreender, ó gente estulta. Insensatos, quando cobrareis juízo?Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá? Aquele que dá lições aos povos não há de punir, ele que ensina ao homem o saber…O Senhor conhece os pensamentos dos homens, e sabe que são vãos. Feliz o homem a quem ensinais, Senhor, e instruís em vossa lei,para lhe dar a paz no dia do infortúnio, enquanto uma cova se abre para o ímpio, porque o Senhor não rejeitará o seu povo, e não há de abandonar a sua herança.Mas o julgamento com justiça se fará, e a seguirão os retos de coração. Quem se erguerá por mim contra os malfeitores? Quem será meu defensor contra os artesãos do mal?Se o Senhor não me socorresse, em breve a minha alma habitaria a região do silêncio. Quando penso: Vacilam-me os pés, sustenta-me, Senhor, a vossa graça.Quando em meu coração se multiplicam as angústias, vossas consolações alegram a minha alma. Acaso poderá aliar-se a vós um tribunal iníquo, que pratica vexames sob a aparência de lei?Atentam contra a alma do justo, e condenam o sangue inocente. Mas o Senhor certamente será o meu refúgio, e meu Deus o rochedo em que me abrigo.Ele fará recair sobre eles suas próprias maldades, ele os fará perecer por sua própria malícia. O Senhor, nosso Deus, os destruirá.”

Evidencia-se nesse salmo uma reflexão sobre o juízo divino contra as injustiças que existem efetivamente no seio do poder, nos órgãos constituídos para reger a vida de um país e, sobretudo, a injustiça contra os menos favorecidos. Esse hino se divide em duas manifestações de queixa e de testemunho de sabedoria. Tudo isso direcionado a Deus para que faça justiça. É Ele a verdadeira justiça. Os versículos de 3 a 7 e 16 a 21 são um grito de queixa pelos triunfos daqueles que praticam o mal e esbanjam da corrupção e opressão dos indefesos e pessoas humildes e desafiam Deus o Senhor do mundo.

Perante tudo isso, os que são explorados repõem toda a confiança na intervenção divina para que faça justiça. Tudo isso revela o grande escândalo da injustiça que impera na sociedade e, ao mesmo tempo, proclama a felicidade das pessoas que confiam no Senhor, o verdadeiro dono de tudo e de todos. A verdadeira justiça vem de Deus, fundamenta-se Nele. E Deus, que enxerga tudo, fará triunfar aqueles que são maltratados e perseguidos e não têm mais ninguém que os defendam. É Deus o defensor dos pobres. Evidentemente aqui se focaliza uma função jurídica de defesa dos injustiçados.

Portanto, o sentido da vingança que aqui se fala não é uma reação cega, mas é a expressão positiva de defesa dos humilhados da justiça oficial dos ‘homens’. Deus não é ausente e está presente também onde se pratica a iniquidade. Por tudo isso, segundo o salmista, o silêncio aparente de Deus que, segundo os ímpios, é considerado como a inexistência de Deus, para os fieis é prova de mais confiança Nele, embora não seja fácil. O papa Francisco, na audiência geral de 26.04.2017, falou:

“O nosso Deus não é um Deus ausente, sequestrado por um céu longínquo; é, pelo contrario, um Deus “apaixonado” pelo homem, tão ternamente amante ao ponto de ser incapaz de se separar dele. Nós somos hábeis em romper ligações e pontes. Ele não. Se o nosso coração arrefece, o seu permanece sempre incandescente. O nosso Deus nos acompanha sempre, mesmo se, porventura, nós nos esquecêssemos d’Ele.”


O senhor reina!

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Deus chama cada ser humano. E cada ser humano é marcado desde a sua criação. Por isso, a história do ser humano é uma história de “dom da graça”. Ela é, também, uma história de pecado.
É bonita a narrativa de nossa criação, ressaltando o que recebemos do Pai. Somos fruto da graça de Deus. O que a narrativa nos ensina? O que ela nos demanda?
Três dons foram dados ao ser humano:
1) Dons naturais: razão e livre arbítrio
2) Dons preternaturais: dons que complementam a natureza do ser humano: imortalidade, integridade, moral, liberdade da concupiscência, impassibilidade (isenção de todo mal-estar) e ciência infusa.
3) Dons sobrenaturais: a amizade com Deus, a graça, a visão beatífica, as virtudes teologais, os dons do Espírito Santo.

A ciência infusa é um conhecimento que habita em nós, que recebemos como dom. Depois que o pecado original quebrou a aliança, perdemos a ciência infusa. Na condição original, não precisaríamos aprender, pois já traríamos dentro de nós o conhecimento para a vida. Mas, perdemos isso com o pecado. E quando nos afastamos de Deus perdemos esse conhecimento interior, esses dons de Deus, que nos capacitam a conhecer o mundo e quem somos realmente.
Com o Novo Adão, Jesus Cristo, podemos viver novamente também essa ciência infusa, pois a fé nos ilumina para conhecer, de uma maneira diversa do conhecimento do mundo. É fruto da ação do Espírito Santo em nós. Podemos, assim, entender a lógica de Deus, entender os ensinamentos de Jesus e, portanto, ir além do que o mundo nos dá a conhecer. A ciência infusa, como um dom de Deus, nos possibilita compreender o que para o mundo é loucura, como a morte de Jesus. Assim sendo, podemos entender que o nosso Deus não nos abandona; e o salmo 92 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender isso:
“O Senhor é rei e se revestiu de majestade, ele se cingiu com um cinto de poder. A terra, que com firmeza ele estabeleceu, não será abalada. Desde toda a eternidade vosso trono é firme e vós, vós desde sempre existis. Elevam os rios, Senhor, elevam os rios a sua voz, e fazem eclodir o fragor de suas ondas. Porém, mais poderoso que a voz das grandes águas, mais poderoso que os vagalhões do mar, mais poderoso é o Senhor nas alturas do céu. Vossas promessas são sempre dignas de fé, e a vossa casa, Senhor, é santa na duração dos séculos.”
Esse salmo pertence aos tipos de hinos dedicados a Deus rei. Hino usado geralmente nas procissões do Templo. Essas celebrações se caracterizam pela realeza de Deus, da sua presença majestosa sobre universo e a sua história. O autor manifesta aqui, nos primeiros dois versículos, toda a sua alegria ao Senhor porque sente a sua proteção e o seu sopro de vida. É o Senhor que domina tudo e com Ele nada pode ser abalado. O fiel, entusiasta do seu Deus, o exalta qual rei do cosmo e, portanto, que está acima de tudo.
É Nele que está a nossa segurança, porque Ele firme do seu trono espalha a sua luz resplandecente e infinita sinal da sua onipotência do seu amor. Segundo a cosmologia bíblica, o mundo é como uma montanha que se levanta sobre o oceano antigo, qual símbolo de todas as potências malignas que se inseriram na criação. Nos versículos 3 e 4, o salmista diz que não adianta que as aguas façam eclodir o fragor das suas ondas porque Deus não se deixa intimidar, Ele é soberano sobre tudo que existe.

Esse Deus onipotente que tudo domina está perto de Israel, essa sua proximidade encontra-se na arca do Templo de Jerusalém, na palavra infalível da Torá, a Palavra de Deus da Bíblia. Enfim, esse hino exalta o Senhor, o Criador, que gera confiança e esperança nos fiéis que se sentem ameaçados pelas tribulações da vida, pelas forças do mal. E o papa Francisco na homilia matutina feita na capela da casa Santa Marta, no Vaticano, nos diz o seguinte a respeito: “Peçamos hoje ao Senhor que nos dê a maravilha diante dele, perante as muitas riquezas espirituais que nos concedeu; e juntamente com esta maravilha nos dê a alegria, a alegria da nossa vida e de viver com o coração em paz as numerosas dificuldades; e nos proteja da tentação de procurar a felicidade em muitas coisas que afinal acabam por nos entristecer: prometem tanto, mas nada nos darão!… E conclui: “lembrai-vos bem: um cristão é um homem e uma mulher de alegria, de alegria no Senhor; um homem e uma mulher maravilhados”. Por tudo isso repetimos com o salmo: “Vossas promessas são sempre dignas de fé”. E é essa nossa fé que nos sustenta todos os dias.


Como é bom louvar ao senhor

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Deus não precisa do mundo para se tornar perfeito. Ele, fonte do amor, criou tudo livremente, expressando que tudo era bom. Deus compartilha esse amor em sua obra. Ele criou tudo como expressão do amor. Se Ele é perfeito, a obra deve refletir a perfeição divina: somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Devemos, então, manifestar esse desígnio que está em nossa origem, dando glórias ao nosso Pai, manifestando seu amor na partilha.

O mundo decaído precisa de redenção para ser conforme ao projeto original. E a redenção vem com a ressurreição, dom de Deus. Assim, o cristão tem um olhar de esperança, para além do mal do mundo. O ser humano não se detém no mal do mundo. Ele tem a confiança de que o mal não pode derrotar o mundo. O mal é “nada”. Nestes tempos escatológicos, sabemos que o mal é passageiro, não é a essência.

Para compreender tudo isso, precisamos conhecer a Palavra de Deus. Conhecer a Bíblia! E o salmo 91 das Sagradas Escrituras nos convida a meditarmos sobre isso.

“É bom louvar ao Senhor e cantar salmos ao vosso nome, ó Altíssimo; proclamar, de manhã, a vossa misericórdia, e, durante a noite, a vossa fidelidade,com a harpa de dez cordas e com a lira, com cânticos ao som da cítara, pois vós me alegrais, Senhor, com vossos feitos; exulto com as obras de vossas mãos.Senhor, estupendas são as vossas obras! E quão profundos os vossos desígnios! Não compreende estas coisas o insensato nem as percebe o néscio.Ainda que floresçam os ímpios como a relva, e floresçam os que praticam a maldade, eles estão à perda eterna destinados. Vós, porém, Senhor, sois o Altíssimo por toda a eternidade.Eis que vossos inimigos, Senhor, vossos inimigos hão de perecer, serão dispersados todos os artesãos do mal. Exaltastes a minha cabeça como a do búfalo, e com óleo puríssimo me ungistes.Meus olhos veem os inimigos com desprezo, e meus ouvidos ouvem com prazer o que aconteceu aos que praticam o mal. Como a palmeira, florescerão os justos, elevar-se-ão como o cedro do Líbano.Plantados na casa do Senhor, nos átrios de nosso Deus hão de florir. Até na velhice eles darão frutos, continuarão cheios de seiva e verdejantes,para anunciarem quão justo é o Senhor, meu rochedo, e como não há nele injustiça.”

O autor deste salmo mostra como Deus está no centro de tudo e, na medida em que se respeitar e atender isso, o mundo se tornará bem pacífico e tranquilo. É nessa perspectiva que se apresenta a pessoa ‘justa’: “como a palmeira, florescerão os justos, elevar-se-ão como o cedro do Líbano.” O justo direciona a sua vida ao dispor do Criador e segue os seus caminhos. Não se deixa atrair pela lógica do mundo, pelo sucesso no mundo e do mundo. E o salmista aqui justamente salienta que a alegria, o bem-estar e a longa vida são a consequência de uma existência justa.
Assim sendo, o salmo exalta a justiça de Deus que sabe discernir entre o bem e o mal e oferecendo um mundo perfeito. Aqui se demonstra uma visão positiva que nem todo mundo concorda conforme várias redações das Sagradas Escrituras, como nos salmos 49 e 73 e no livro de Jó. Insiste o autor desse hino que o justo é comparado à imagem da palmeira e do cedro do Líbano. As raízes do justo são parecidas a essas esplendidas arvores. O seu alicerce é garantia de uma vida sem fim. No entanto, o ímpio, quem pratica a maldade, é parecido “como a relva que floresce de manhã” e ao entardecer seca.

Esse é o futuro de quem não pratica a justiça. Uma justiça que vai além a dos homens. De fato, diz o salmista: “não compreende estas coisas o insensato e o estulto” e cujo destino é a perda da vida eterna. E o papa Francisco na catequese das quartas feiras, 03.02.2016, disse:

“E este é o coração de Deus, um coração de Pai que ama e quer que os seus filhos vivam no bem e na justiça, e, portanto, vivam em plenitude e sejam felizes. Um coração de Pai que vai além do nosso pequeno conceito de justiça para nos abrir aos horizontes ilimitados da sua misericórdia. Um coração de Pai que não nos trata segundo os nossos pecados e não nos retribui segundo as nossas culpas. E precisamente é um coração de pai que nós queremos encontrar quando vamos ao confessionário. Talvez nos dirá algo para nos fazer entender melhor o mal, mas no confessionário todos vamos encontrar um pai que nos ajude a mudar de vida; um pai que nos dê a força de seguir adiante; um pai que nos perdoe em nome de Deus. E por isso ser confessor é uma responsabilidade tão grande, porque aquele filho, aquela filha que vem a você procura somente encontrar um pai. E você, padre, que está ali no confessionário, você está ali no lugar do Pai que faz justiça com a sua misericórdia.”


Escolheste, por asilo, o altíssimo!

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As realidades terrenas gozam de autonomia. O homem tem liberdade em sua ação. Mas, essa autonomia das realidades terrenas deve sempre ser entendida em relação a Deus. Toda a criação nos leva a Deus. Tudo é obra da criação de Deus. E o ser humano tem a tarefa de continuar a ação de Deus sobre o criado. É preciso, então, superar o vazio cultural em que estamos imersos.
Quando a violência aumenta entre nós, significa que estamos parados, inertes. Nessa condição, o ser humano não se exalta como criatura e não auxilia na criação. O ser humano é jogado para baixo. A Palavra de Deus é necessária para o resgate dessa criatura. O salmo 90 das Sagradas Escrituras nos mostra a importância dessa confiança em Deus para nos resgatar e dar segurança à nossa vida.

“Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo, que moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela, meu Deus, em que eu confio.É ele quem te livrará do laço do caçador, e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com suas plumas, sob suas asas encontrarás refúgio. Sua fidelidade te será um escudo de proteção.Tu não temerás os terrores noturnos, nem a flecha que voa à luz do dia, nem a peste que se propaga nas trevas, nem o mal que grassa ao meio-dia.Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido. Porém verás com teus próprios olhos, contemplarás o castigo dos pecadores,porque o Senhor é teu refúgio. Escolheste, por asilo, o Altíssimo. Nenhum mal te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda,porque aos seus anjos ele mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão. Pois que se uniu a mim, eu o livrarei; e o protegerei, pois conhece o meu nome.Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação estarei com ele. Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória. Será favorecido de longos dias, e mostrar-lhe-ei a minha salvação.”

Esse salmo proclama em voz alta a grande sabedoria em confiar em Deus, autor da vida. É Ele o nosso refúgio, fortaleza, escudo nas lutas do dia a dia. Ele protege e defende o fiel. Com essa convicção, o fiel enfrenta os desafios das trevas, que, segundo a tradição oriental, os espíritos do mal frequentam a noite, não tem medo da super quentura do dia, das doenças que aparecem na população e dos tantos inimigos que se ‘lastram pelo chão’. Deus com os seus anjos a protege e acompanha pelos seus caminhos da vida.

O mal que se insinua na história da humanidade terá o fim, cessará de ser ameaça para os fiéis. Para entender melhor isso, é bom lembrar o que disse Jesus Cristo: “Eis que vos dou o poder de pisar serpentes, escorpiões e todo poder do inimigo, e nada poderá vos causar dano”(Lc 10,19). E a invocação final em que o mesmo Deus confirma que a confiança Nele é que rende mais eficaz a vida do fiel: “O Senhor é teu refúgio. Escolheste, por asilo, o Altíssimo. Nenhum mal te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda”.

É a confiança que garante a vida do fiel! Com a confiança em Deus, a história da humanidade se torna elevação, salvação. Esta oração é bem enraizada na realidade do ser humano, que passa também pela sua dramaticidade da existência. Embora as provas da vida acompanhem as pessoas, a certeza da proteção de Deus é muito superior a elas. O papa Francisco, no ‘Angelus’ de 26.02.2017, falou o seguinte:

“Confiar em Deus não resolve magicamente os problemas, mas permite enfrentá-los com o espírito justo, corajosamente. Sou corajoso porque confio em meu Pai que se ocupa de tudo e me ama muito.É o nosso refúgio, a fonte da nossa serenidade e da nossa paz. É a rocha da nossa salvação, à qual nos podemos agarrar, certos de que não caímos; quem se agarra a Deus nunca cai! É a nossa defesa do mal que está sempre à espreita. Deus é para nós o grande amigo, o aliado, o pai, mas nem sempre nos damos conta disto. Não nos apercebemos de que temos um amigo, um aliado, um pai que nos ama, e preferimos apoiar-nos em bens imediatos que podemos tocar, em bens contingentes, esquecendo, e por vezes rejeitando, o bem supremo, ou seja, o amor paterno de Deus. Senti-lo como Pai, nesta época de orfandade, é tão importante! Neste mundo órfão, senti-lo como Pai. Nós afastamo-nos do amor de Deus quando vamos em busca dos bens terrenos e das riquezas, manifestando assim um amor exagerado a estas realidades.”


Eu vi a presença do Espírito Santo

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Alguns anos atrás, aconteceu um caso de violência gravíssima em Belém, como continuam a acontecer ainda hoje, que me chamou muito a atenção: um jovem assaltou e matou outro jovem. Fiquei triste com a crueldade do crime, e me parecia que aquele dia tão esplendoroso se obscureceu totalmente. A vida imergida nas trevas. Naturalmente, houve a ação da polícia, que conseguiu desvendar o responsável de tanta maldade. O acusado foi preso e processado. Estou relatando de maneira bem sumaria o fato e nem consigo descrever a dor dos pais que perderam o filho tragicamente. Depois de todos os procedimentos legais que competem no caso, chegou o dia do julgamento.

À sala da justiça chegaram também as mães da vítima e do réu. A um certo ponto, as duas se olharam e depois de uma breve hesitação se levantaram e, aproximando-se, desceram lágrimas dos rostos delas. Elas se abraçaram e viveram momentos de grande misericórdia. Uma perdoando e a outra pedindo perdão. Poucas palavras, mas intensos momentos de amor. Tiveram a capacidade de se olhar nos olhos e sentir toda a dramaticidade do evento cruel: uma mãe que perdeu o filho e a outra que teve o filho encarcerado, praticamente perdido também. Duas mães de realidades totalmente diferentes marcadas de grande dor.

No entanto, o perdão e a misericórdia souberam ir além da imensa dor. Aquela cena de duas mães abraçadas foi uma cena inesquecível para mim. Toda vez que lembro, causa-me sempre algo que dá esperança e força de viver. Transforma o dia de trevas em dia de luz resplandecente. Eu me perguntei: o que foi que levou aquela mãe que teve o filho morto a ter tanta força de perdoar, e a outra mãe lhe pedir perdão pelo filho homicida? A razão humana não chega a tanto assim, eventualmente pode confiar a uma justiça retributiva qual a justiça humana com os seus tribunais. Esse abraço de misericórdia, sinceramente, pode ser somente justiça divina.

Por isso, acredito firmemente que o Espírito Santo conduziu aquelas mães e elas se deixaram conduzir por Ele. Eu vi naquele momento a presença do Espírito Santo, como Ele regenera a vida de dor em esperança eterna. É verdade, aquelas mães depois daquele momento misericordioso pareciam outras pessoas, não obstante tanto sofrimento. Algo aconteceu no coração delas que tiveram a capacidade de erguer a cabeça e de não ter medo de enfrentar a própria realidade. Chegaram até a não se interessar mais do processo em curso, talvez porque superaram o processo de Deus, do amor. E eu me pergunto: se fizéssemos da nossa vida uma vida de misericórdia, de amor, como aquelas duas mães, talvez não teríamos uma vida mais fraterna e solidária?

A nossa sociedade não pode ser satisfeita somente com as coisas materiais e racionais. A alegria vem dessa prática do amor, da proximidade com o outro, da promoção do outro. Não por acaso Jesus nos recomendou tanto de amarmos uns aos outros como Ele nos amou. O segredo da alegria está em colocar em prática o que Jesus nos recomendou. Aquelas duas mães souberam fazer, porque se deixaram conduzir pelo Espírito Santo. O grande desafio de amar, perdoar é sustentado pela ação do Espírito Santo. De fato, Ele é Deus presente em nós, um Deus que nos ajuda a relembrar o que Jesus nos ensinou e testemunhou, que desperta a nossa memória.

E para reconhecer essa verdade é só reler o que Jesus falou aos apóstolos antes da Pentecostes: “O Espírito que Deus vos conferirá em meu nome, vos lembrará tudo aquilo que vos falei”. Portanto, amar como Jesus nos amou é possível, mas precisamos reconhecer o protagonismo do Espírito Santo na nossa vida. Sem Ele, tudo é mais complicado. Eu creio que dificilmente aquelas duas mães teriam agido daquele jeito sem ajuda do Espírito Santo. Sendo assim, temos que apelar à ajuda do Espírito Santo para poder incentivar uma sociedade de misericórdia e de amor. Uma sociedade fraterna e justa como Deus quer. É o Espírito Santo que nos ajuda a libertar de tantas e tantas escravidões que nós acumulamos no nosso dia-dia.

É urgente a nossa libertação para vivermos a alegria, não obstante as nossas pobrezas e fraquezas. É o que nos falta hoje: a verdadeira alegria. Fiquei alegre ao ver as duas mães se perdoando, assim senti a presença do Espírito Santo, isto é, Deus. Portanto, vinde Espírito Santo e inflamai os nossos corações do teu amor!


Educação, educação!!!

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Tenho a impressão, pelo contato com diferentes pessoas, que existe um ‘vazio cultural’ na sociedade. O que entendo por ‘vazio cultural’? A incapacidade das pessoas em discernir a realidade verdadeira em que vivemos. Uma falta de capacidade de pensar e, consequentemente, de compreender aquilo que está ao redor. As falas e os comportamentos do ser humano hoje me levam a fazer essa dedução: ‘vazio cultural’! Creio firmemente que as pessoas estejam longe da realidade e conhecem situações e casos mediados por terceiros e, portanto, irreais.

Essa é uma realidade interpretada por alguém que tem como objetivo manipular a situação em seu favor. Hoje em dia se torna fácil a manipulação dos fatos pela tecnologia que temos. Praticamente, hoje o irreal é mais real que o real. Estamos mergulhados em uma realidade ilusória e, consequentemente, com muita dificuldade para termos os ‘pés no chão’. Assim sendo, como ter um relacionamento real com aqueles que convivemos e com os outros em geral? Um fato distorcido constrói relacionamentos distorcidos, e aí você pode imaginar o resultado de tudo isso.

Exatamente o problema sério dos nossos tempos: vivemos fora da realidade! Uma realidade manipulada, mentirosa. A mídia é uma ferramenta que se adapta a isso. Por essa razão, precisamos nos libertar dessa escravidão que nos mantêm nas trevas. Como nos libertar? Quando o cardeal Maria Martini ainda era bispo da arquidiocese de Milão, lembro-me, perfeitamente, quando tive que marcar, com certa antecedência, a entrevista e, em seguida, enviar as perguntas a realizar.

O encontro no seu escritório em Milão foi tão receptivo que me senti à vontade até para improvisar mais perguntas, o que ele aceitou de bom grado. Quando questionei sobre a dificuldade na nossa Igreja sobre a comunicação como um todo, ele não teve dúvidas em reconhecer essa lacuna e, não só, acrescentou que o único caminho para superar essa deficiência era o estudo. Ele insistiu por três vezes ‘ESTUDAR, ESTUDAR E ESTUDAR!’

Estudar os novos caminhos da comunicação e adentrar-se neles. Hoje em dia, esse fenômeno toma conta da nossa vida. Ele desejava que, sobretudo, os padres fossem mais preparados para isso. A recomendação do cardeal Martini se torna ainda mais persistente em não confundir a comunicação em si com os meios de comunicação.  Quando terminei a entrevista, ele me perguntou onde eu tinha estudado. Ao ouvir a resposta, ele me disse que ia mandar logo dois padres da sua arquidiocese para a mesma escola, eacrescentou a urgência dessa formação para a igreja de Milão.

Até hoje me comovem as suas palavras, porque comprovaram toda a minha dedicação de sacerdote para a questão da comunicação na evangelização. Uma evangelização sem comunicação se torna estéril. As pessoas são demais iludidas por uma realidade manipulada. Precisamos liberta-las, porque são preciosas aos olhos de Deus. A evangelização é também isso: saber discernir o que é de Deus ou que é do maligno. Uma comunicação que abrange toda a vida dos filhos e filhas de Deus exalta a mesma VIDA. Rende alegres as pessoas.

Infelizmente, parece que essa preocupação esteja longe de nós. Estamos em um ‘vazio cultural’! Como podemos ajudar as pessoas a serem livres se a gente não educa a discernir a realidade? A saber recepcionar as mensagens num mundo da mentira? Por exemplo, quando falo do alfabeto das imagens a total maioria das pessoas não compreende. Por quê? Porque nunca foram educadas para isso. E a Igreja tem o dever de suprir essa lacuna se não se torna incapaz de ter uma efetiva evangelização.

Vejo em meu próprio Instituto, o PIME, quanto ‘vazio cultural’ nesse sentido. E o pior parece que não tem jeito para reverter essa situação. E aí eu me pergunto: Como ser missionários sem dominar a comunicação? Como ser evangelizadores sem saber comunicar? Muitas confusões e divisões entre nós são devidas a essa não comunicação. A nossa Igreja, em particular, deve saber explorar melhor a comunicação como um grande processo. No entanto, parece que está parada somente nos meios em si. Eu fico cada vez mais triste vendo os nossos fiéis marcados por esse ‘vazio cultural’.

Lembro-me de que uns vinte anos atrás quando ministrei um curso de análise de uma telenovela em Macapá. Na conclusão dele uma jovem professora pronunciou essa frase: “Parece que caíram dos meus olhos as escamas que me impediam de enxergar. Agora compreendo aquilo que estou vendo, antes me deixava atrair pelas imagens e falas, mas não sabia ir além disso. Caíram as minhas escamas, estou enxergando!” Hoje é urgente liberar a vista das pessoas, porque a cegueira é perigosa e nos rende totalmente dependentes. E isto se faz com a educação à comunicação. Enfim quero parabenizar todas as mães e, sobretudo aquelas que enfrentam doenças e abandono.


Senhor, refúgio de geração em geração

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O mal que hoje nos domina se chama ignorância. É uma ignorância generalizada na humanidade. Assim sendo, é muito difícil se defender do mal e, ao mesmo tempo, fazer uma verdadeira experiência de Deus vivo entre nós. Vejo na nossa Igreja o quanto é difícil fazer uma profunda experiência de comunicação. Dá a impressão de que as instituições que fizeram a opção dos meios de comunicação social e se esqueceram de que comunicação é muito mais que isso. A comunicação não pode se reduzir aos meios porque ela é um processo bem amplo, que envolve relação e respeito ao outro.

Por causa dessa ignorância, não sabemos viver a verdadeira comunicação, que é vida. Uma verdadeira comunicação que liberta o ser humano e lhe permite adquirir uma melhor e objetiva contemplação da vida na perspectiva de Deus. Vivendo sem comunicação, imergimos no mal e vivemos a mentira, assim, nos afastamos de Deus. O salmo 89 das Sagradas Escrituras nos ajuda a resgatar a verdadeira comunicação entre as pessoas e Deus.

“Senhor, fostes nosso refúgio de geração em geração.Antes que se formassem as montanhas, a terra e o universo, desde toda a eternidade vós sois Deus.Reduzis o homem à poeira, e dizeis: Filhos dos homens, retornai ao pó,porque mil anos, diante de vós, são como o dia de ontem que já passou, como uma só vigília da noite.Vós os arrebatais: eles são como um sonho da manhã, como a erva virente,que viceja e floresce de manhã, mas que à tarde é cortada e seca.Sim, somos consumidos pela vossa severidade, e acabrunhados pela vossa cólera.Colocastes diante de vós as nossas culpas, e nossos pecados ocultos à vista de vossos olhos.Ante a vossa ira, passaram todos os nossos dias. Nossos anos se dissiparam como um sopro.Setenta anos é o total de nossa vida, os mais fortes chegam aos oitenta. A maior parte deles, sofrimento e vaidade, porque o tempo passa depressa e desaparecemos.Quem avalia a força de vossa cólera, e mede a vossa ira com o temor que vos é devido?Ensinai-nos a bem contar os nossos dias, para alcançarmos o saber do coração.Voltai-vos, Senhor – quanto tempo tardareis? E sede propício a vossos servos.Cumulai-vos desde a manhã com as vossas misericórdias, para exultarmos alegres em toda a nossa vida.Consolai-nos tantos dias quantos nos afligistes, tantos anos quantos nós sofremos.Manifestai vossa obra aos vossos servidores, e a vossa glória aos seus filhos.Que o beneplácito do Senhor, nosso Deus, repouse sobre nós. Favorecei as obras de nossas mãos. Sim, fazei prosperar o trabalho de nossas mãos.”
Esse salmo demonstra que o mal há como grande referência o tempo, a história da humanidade. É nessa história humana que o mal vai dominando. Para compreender isso, tem que entrar na eternidade de Deus: “Mil anos, diante de vós, são como o dia de ontem que já passou”. O salmista diz que o ser humano é tão dependente de Deus que sua ordem o torna pó. Revelando, assim, a transitoriedade humana. A vida das pessoas é como se fosse um sonho que é interrompido pela morte.

Assim sendo, a existência muito frágil e pobre, o autor a compara como a erva que de manhã floresce e a tarde é cortada e seca. Isto mostra como a morte se impõe na nossa vida. Perante tudo isso se levanta um canto fúnebre de todas as pessoas: o que vale a vida, a existência com todas as suas preocupações se o nosso tempo passa depressa e desaparecemos? O autor do salmo insiste que precisamos confiar em Deus porque somente Ele nos pode dar alegria nesses poucos anos de vida que temos a disposição.

Anos relativos, onde tudo passa e o tempo marca de maneira implacável a sua corrida. Nós totalmente imergidos nesse tempo, que não faz descontos para ninguém, nos deixamos iludir pela eternidade terrena. Portanto, somos convidados a confiar plenamente em Deus para nos dar sentido a esta existência tão frágil e fugaz. O papa Francisco, na mensagem para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, nos fala:

“No projeto de Deus, a comunicação humana é uma modalidade essencial para viver a comunhão.” E advertiu o papa: “Mas, se orgulhosamente seguir o seu egoísmo, o homem pode usar de modo distorcido a própria faculdade de comunicar.”

“Sintoma típico de tal distorção é a alteração da verdade, tanto no plano individual como no coletivo. Se, pelo contrário, se mantiver fiel ao projeto de Deus, a comunicação torna-se lugar para exprimir a própria responsabilidade na busca da verdade e na construção do bem”. Acrescentou papa Francisco: “Educar para a verdade significa ensinar a discernir, a avaliar e ponderar os desejos e as inclinações que se movem dentro de nós, para não nos encontrarmos despojados do bem ‘mordendo a isca’ em cada tentação”. Isto também nos ajuda a não aderirmos ao mal, ao poder da mentira que tanto nos aflige e nos escraviza.


Cantarei, eternamente, as bondades do Senhor!

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“Como é bom fizermos a experiência de um Deus que nos ama!” Foi assim que me falou um amigo monge. Realmente, quando se passa por essa realidade, a gente fica sem palavras e a tranquilidade toma conta da vida. Por isso, convido-lhe a ler e refletir o salmo 88 das Sagradas Escrituras.

“Cantarei, eternamente, as bondades do Senhor; minha boca publicará sua fidelidade de geração em geração. Com efeito, vós dissestes: A bondade é um edifício eterno. Vossa fidelidade firmastes no céu.Concluí, dizeis vós, uma aliança com o meu eleito; liguei-me por juramento a Davi, meu servo. Conservarei tua linhagem para sempre, manterei teu trono em todas as gerações.Senhor, os céus celebram as vossas maravilhosas obras, e na assembleia dos anjos a vossa fidelidade. Quem poderá, nas nuvens, igualar-se a Deus? Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos de Deus?Terrível é Deus na assembleia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam. Quem se compara a vós, Senhor, Deus dos exércitos? Sois forte, Senhor, e cheio de fidelidade.Dominais o orgulho do mar, amainais suas ondas revoltas. Calcastes Raab e o transportastes; com poderoso braço, dispersastes vossos inimigos.Vossos são os céus e também a terra, vós que criastes o globo e tudo o que ele contém. O norte e o sul vós os fizestes; Tabor e Hermon em vosso nome exultam.Tendes o poder em vosso braço, a firmeza na mão, a autoridade em vossa destra. A justiça e o direito são o fundamento de vosso trono, a bondade e a fidelidade vos precedem.Feliz o povo que vos sabe louvar: caminha na luz de vossa face, Senhor. Vosso nome lhe é causa de contínua alegria, pela vossa justiça ele se glorifica,porque sois o esplendor de sua força, e é vosso favor que nos faz erguer a cabeça, pois no Senhor está o nosso escudo, e nosso rei no Santo de Israel.Outrora, em visão, falastes aos vossos santos e dissestes-lhes: Impus a coroa a um herói, escolhi meu eleito dentre o povo. Encontrei Davi, meu servidor, e o sagrei com a minha santa unção.Assistir-lhe-á sempre a minha mão, e meu braço o fortalecerá. Não o há de surpreender o inimigo, nem ousará oprimi-lo o malvado.Sob seus olhos esmagarei os seus contrários, serão feridos aqueles que o odeiam. Com ele ficarão minha fidelidade e bondade, pelo meu nome crescerá o seu poder.Estenderei a sua mão por sobre o mar, e a sua destra acima dos rios. Ele me invocará: Vós sois meu Pai, vós sois meu Deus e meu rochedo protetor.Por isso, eu o constituirei meu primogênito, o mais excelso dentre todos os reis da terra. Assegurado lhe estará o favor eterno, e indissolúvel será meu pacto com ele.Dar-lhe-ei uma perpétua descendência, seu trono terá a duração dos céus. Se, porém, seus filhos abandonarem minha lei, se não observarem os meus preceitos,se violarem as minhas prescrições e não obedecerem às minhas ordens, eu punirei com vara a sua transgressão, e a sua falta castigarei com açoite.Mas não lhe retirarei o meu favor e não trairei minha promessa. Não violarei minha aliança, não mudarei minha palavra dada.Jurei uma vez por todas pela minha santidade: a Davi não faltarei jamais. (…)”

O salmo dá grande ênfase central à promessa de Deus a Davi, seu escolhido. A mediação dessa grande promessa foi do famoso profeta Natã. O salmo inicia com a exaltação da fidelidade à promessa de Deus, em seguida aparece um canto do universo. Aqui parece que o fundamento dessa aliança histórica com Davi encontra-se na aliança cósmica, do universo. Isto significa que o autor do salmo quer mostrar que Deus é o Senhor da criação, o autor da vida. Por isso, descreve nesse hino triunfal o Deus do universo que controla o caos e abala as poderosas montanhas do Hermon e do Tabor.

Nos versículos de 20 a 38 tem o oráculo davídico. Ele se divide em duas partes: a primeira (vv.20-29) é sobre a sua eleição e consagração, a proteção e a paternidade divina; a segunda (vv.30-38) se refere à descendência de Davi. A partir dessa descendência que acontece o drama da infidelidade, porque transgrediram a lei e não seguiram mais os mandamentos de Deus. Porém, Deus é misericordioso e no final ele os perdoa, não rompe a sua aliança. E o salmo termina (vv.39-52) com uma inquietação e preocupação se Deus abandonou o fiel. O salmo não encontra uma resposta para esse drama, mas nasce uma pequena esperança que a aliança de Deus pode se consagrar com alguém que se chama o Messias. Sim, porque Deus é fiel à sua aliança, não obstante as suas criaturas não a respeitem. É esse Messias que gera a esperança do fiel do Senhor e que mantém a promessa divina da salvação.