Escutai, ó pastor de Israel!

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Cada pessoa tem histórias para contar. São muitas e diversificadas. Mas aquelas que mais marcam são os sofrimentos e o desespero do abandono. Um dia um senhor me encontrou e quis desabafar comigo. O seu casamento não tinha mais sentido, os filhos não se sentiam mais à vontade na família e a esposa tomava rumos que o levaram ao desespero. Então, ele se questionava sobre o porquê de tudo aquilo. Certamente, ele acrescentou, “eu tenho as minhas culpas”. Continuou ele: “Mas por que devemos sofrer assim? Por que não conseguimos nos entender? Por que não conseguimos viver numa boa harmonia?” Onde encontrar uma resposta exaustiva a tudo isso e mais? Leia esse salmo 79 das Sagradas Escrituras para tentar dar uma resposta:

“Escutai, ó pastor de Israel, vós que levais José como um rebanho. Vós que assentais acima dos querubins, mostrai vosso esplendor em presença de Efraim, Benjamim e Manassés. Despertai vosso poder, e vinde salvar-nos. Restaurai-nos, ó Senhor; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos. Ó Deus dos exércitos, até quando vos irritareis contra o vosso povo em oração? Vós o nutristes com o pão das lágrimas, e o fizestes sorver um copioso pranto. Vós nos tornastes uma presa disputada dos vizinhos: os inimigos zombam de nós. Restaurai-nos, ó Deus dos exércitos; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos. Uma vinha do Egito vós arrancastes; expulsastes povos para a replantar. O solo vós lhes preparastes; ela lançou raízes nele e se espalhou na terra. As montanhas se cobriram com sua sombra, seus ramos ensombraram os cedros de Deus. Até o mar ela estendeu sua ramagem, e até o rio os seus rebentos. Por que derrubastes os seus muros, de sorte que os passantes a vindimem, e a devaste o javali do mato, e sirva de pasto aos animais do campo? Voltai, ó Deus dos exércitos; olhai do alto céu, vede e vinde visitar a vinha. Protegei este cepo por vós plantado, este rebento que vossa mão cuidou. Aqueles que a queimaram e cortaram pereçam em vossa presença ameaçadora. Estendei a mão sobre o homem que escolhestes, sobre o homem que haveis fortificado. E não mais de vós nos apartaremos; conservai-nos a vida e então vos louvaremos. Restaurai-nos, Senhor, ó Deus dos exércitos; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos.”

Este salmo é mais uma lamentação de todo o povo de Israel. É neste salmo que se descreve, como símbolo de Israel, a vinha. E mostra como esta vinha foi perseguida por uma tempestade tão violenta que os deixou numa profunda tristeza. Assim o salmo inicia, descrevendo como Deus sempre tinha guiado o seu povo Israel pela arca. Depois, de repente, parece que cochilou e se tornou indiferente à vida do seu povo. Parece que se esqueceu dele. Israel deseja de todo coração ter de novo o controle de Deus, que guia o seu rebanho, o conduz pelas suas pastagens e o farta de seus bens e, assim, dar posse numa vinha privilegiada.

O centro desse hino é caracterizado pelo simbolismo da vinha. Isto significa que, por meio da vinha, quer lembrar as suas próprias raízes, como nasceu sobretudo a partir da grande experiência do êxodo do Egito rumo à terra prometida e a sua própria chegada. A vinha alcançou um crescimento exuberante com Salomão, tanto de descrever que toda Palestina tivesse invadida pela folhagem verde da videira de Israel. Porém, agora esse encanto se quebrou. Parece que Deus, parecido a um invasor, derrubou o muro que defendia essa vinha, deixando assim a ser pisoteada e perder toda aquela floração que tinha no passado.

Perante essa realidade arrasadora surge um forte apelo para Deus: “Voltai, ó Deus dos exércitos”. Assim sendo, Deus não pode ser contra o seu povo Israel, mas ansiosamente espera a sua volta para que a sua vinha volte àquela de antigamente: ser fecunda. É claramente um hino marcado pelo sofrimento, mas, ao mesmo tempo, de uma grande confiança no seu Deus. As tempestades da vida são contrapostas pela confiança em Deus. Enfim, o papa Francisco nos enriquece a respeito através de um trecho da sua homilia feita no dia 19.01.2014:

“Muitas vezes temos confiança num médico: e isto é bom, porque o médico existe para nos curar; temos confiança numa pessoa: os irmãos e as irmãs podem ajudar-nos. É bom nutrir entre nós esta confiança humana. Contudo, nós esquecemos a confiança no Senhor: esta é a chave do sucesso da vida. A confiança no Senhor! Confiemos no Senhor! «Senhor, vê a minha vida: estou na escuridão, tenho que enfrentar esta dificuldade, cometi este pecado…»; tudo o que nós temos: «Olha para isto: eu confio em ti!». E esta é uma aposta que nós devemos fazer: confiar Nele, que nunca desilude. Nunca, jamais! Ouvi bem, vós rapazes e moças, que começais a vida agora: Jesus nunca desilude. Nunca!”


De geração em geração, cantaremos os vossos louvores

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Muitas pessoas me dizem: “Padre, vou todos os dias à igreja, rezo sempre, mas nada está dando certo! Parece que a vida dos não crentes seja mais clemente e vitoriosa. A vida dos bandidos parece ser mais feliz! Por que isso?” O salmo 78 nos fala o seguinte:

“Senhor, povos infiéis invadiram a vossa herança, profanaram o vosso santo templo. De Jerusalém fizeram um montão de ruínas. Os corpos de vossos servos expuseram como pasto às aves, e os de vossos fiéis às feras da terra. Rios de sangue fizeram correr em torno de Jerusalém, e nem sequer havia quem os sepultasse. Tornamo-nos, para nossos vizinhos, objetos de desprezo, de escárnio e zombaria para os povos que nos cercam. Até quando, Senhor?… Será eterna vossa cólera? Será como um braseiro ardente o vosso zelo? Desferi, antes, vossa ira sobre as nações que não vos conhecem, e sobre os reinos que não invocam o vosso nome, pois Jacó foi por eles devorado e devastaram a sua habitação. De nossos antepassados esqueçais as culpas; vossa misericórdia venha logo ao nosso encontro, porque estamos reduzidos a extrema miséria. Ajudai-nos, ó Deus salvador, pela glória de vosso nome; livrai-nos e perdoai-nos os nossos pecados pelo amor de vosso nome. Por que hão de dizer as nações pagãs: Onde está o seu Deus? Mostrai-lhes, a esses pagãos, diante de nossos olhos, que pedireis conta do sangue de vossos fiéis, por eles derramado. Cheguem até vós os gemidos dos cativos: livrai, por vosso braço, os condenados à pena de morte. Sobre as cabeças dos nossos vizinhos recaiam, sete vezes, as injúrias com que vos ultrajaram, Senhor. Quanto a nós, vosso povo e ovelhas de vosso rebanho, glorificaremos a vós perpetuamente; de geração em geração cantaremos os vossos louvores.”

Vamos dar uma pequena explicação sobre esse salmo. É uma grande choradeira de todo o povo de Israel pelo fato de que o Templo de Jerusalém foi praticamente destruído. Esse Templo que representa tudo para eles. Então se questiona o porquê de tudo isso. E a resposta é o pecado de Israel. Esse pecado, de se afastar de Deus, tomou conta de Jerusalém. Assim sendo, a justiça de Deus não podia ficar parada. E a destruição é uma consequência da justiça divina e, ao mesmo tempo, a restauração por meio da expiação; e o perdão é a resposta de Deus em defesa da sua potência e da sua fidelidade.

Os primeiros versículos são uma descrição da devastação e profanação do Templo: um montão de ruínas e muitos corpos no chão ao pasto dos urubus. Sangue derramado por todo lado que brilha ao sol. Uma tristeza absoluta. Perante essa brutalidade feita pelo exército de Babilônia é somente um aspecto da verdade, segundo Israel; e o outro aspecto é de se buscar na profanação que Israel mesmo fez com o seu pecado. Quase uma autoconfissão pelo povo escolhido: afastar-se de Deus pode comportar tudo isso. Então, como reagir a tanta calamidade? Única coisa é o arrependimento.
É perante o arrependimento que Deus volta a defender o seu povo, protegendo-o de tantos ataques dos inimigos. Daqui se incrementa a esperança de uma espera da misericórdia por parte de Deus e, ao mesmo tempo, a certeza de que o Senhor defenderá o seu fiel, o seu povo. Assim sendo, o salmo nos revela a vontade de nunca desistir em combater o mal e de não se deixar levar pelo desânimo. Nunca se acomodar, porque a renúncia leva a ter uma vida apagada, infecunda, incapaz perante os eventos da vida a ter uma posição. É necessário manter essa força para manter vivo o presente e o futuro da vida.

Este é um privilégio de fazer da nossa vida bem viva e não envelhecida. Uma vida de maravilha. E nesse sentido o papa Francisco reforça a importância do perdão de Deus, durante a audiência geral que teve no dia 9 de agosto de 2017: “É bom pensar que Deus não escolheu como primeira massa, para formar a sua Igreja, pessoas que nunca erravam. A Igreja é um povo de pecadores que experimentam a misericórdia e o perdão de Deus. Pedro entendeu mais verdades sobre si mesmo ao canto do galo, do que dos seus impulsos de generosidade, que lhe enchiam o peito, levando-o a sentir-se superior em relação aos outros. Irmãos e irmãs, todos nós somos pobres pecadores, necessitados da misericórdia de Deus, que tem a força de nos transformar e restituir esperança, e isto todos os dias. E fá-lo! E às pessoas que entenderam esta verdade basilar, Deus confia a missão mais bonita do mundo, ou seja, o amor aos irmãos e às irmãs, e o anúncio de uma misericórdia que Ele não nega a ninguém. E esta é a nossa esperança. Vamos em frente com esta confiança no perdão, no amor misericordioso de Jesus.”


Povo meu, siga o meu testemunho!

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O extenso salmo 77 é um grande louvor ao Deus que age na história como o verdadeiro protagonista da nossa salvação.

“Escuta, ó meu povo, minha doutrina; às palavras de minha boca presta atenção. Abrirei os lábios, pronunciarei sentenças, desvendarei os mistérios das origens. O que ouvimos e aprendemos, através de nossos pais, nada ocultaremos a seus filhos, narrando à geração futura os louvores do Senhor, seu poder e suas obras grandiosas. Ele promulgou uma lei para Jacó, instituiu a legislação de Israel, para que aquilo que confiara a nossos pais, eles o transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração o conhecesse, e os filhos que lhes nascessem pudessem também contar aos seus.

Aprenderiam, assim, a pôr em Deus sua esperança, a não esquecer as divinas obras, a observar as suas leis; e a não se tornar como seus pais, geração rebelde e contumaz, de coração desviado, de espírito infiel a Deus. Os filhos de Efraim, hábeis no arco, voltaram as costas no dia do combate. Não guardaram a divina aliança, recusaram observar a sua lei. Eles esqueceram suas obras, e as maravilhas operadas ante seus olhos. Em presença de seus pais, ainda em terras do Egito, ele fez grandes prodígios nas planícies de Tanis. O mar foi dividido para lhes dar passagem, represando as águas, verticais como um dique; De dia ele os conduziu por trás de uma nuvem, e à noite ao clarão de uma flama. Rochedos foram fendidos por ele no deserto, com torrentes de água os dessedentara. Da pedra fizera jorrar regatos, e manar água como rios. Entretanto, continuaram a pecar contra ele, e a se revoltar contra o Altíssimo no deserto. Provocaram o Senhor em seus corações, reclamando iguarias de suas preferências. E falaram contra Deus: Deus será capaz de nos servir uma mesa no deserto? Eis que feriu a rocha para fazer jorrar dela água em torrentes. Mas poderia ele nos dar pão e preparar carne para seu povo? O Senhor ouviu e se irritou: sua cólera se acendeu contra Jacó, e sua ira se desencadeou contra Israel, porque não tiveram fé em Deus nem confiaram em seu auxílio. Contudo, ele ordenou às nuvens do alto, e abriu as portas do céu. Fez chover o maná para saciá-los, deu-lhes o trigo do céu. Pôde o homem comer o pão dos fortes, e lhes mandou víveres em abundância, depois fez soprar no céu o vento leste, e seu poder levantou o vento sul. Fez chover carnes, então, como poeira, numerosas aves como as areias do mar, as quais caíram em seus acampamentos, ao redor de suas tendas. Delas comeram até se fartarem, e satisfazerem os seus desejos. Mas apenas o apetite saciaram, estando-lhes na boca ainda o alimento, desencadeia-se contra eles a cólera divina, fazendo perecer a sua elite, e prostrando a juventude de Israel. Malgrado tudo isso, persistiram em pecar, não se deixaram persuadir por seus prodígios. Então, Deus pôs súbito termo a seus dias, e seus anos tiveram repentino fim. Quando os feria, eles o procuravam, e de novo se voltavam para Deus. E se lembravam que Deus era o seu rochedo, e que o Altíssimo lhes era o salvador. Mas suas palavras enganavam, e lhe mentiam com a sua língua. Seus corações não falavam com franqueza, não eram fiéis à sua aliança. Mas ele, por compaixão, perdoava-lhes a falta e não os exterminava. Muitas vezes reteve sua cólera, não se entregando a todo o seu furor. Sabendo que eles eram simples carne, um sopro só, que passa sem voltar. Quantas vezes no deserto o provocaram, e na solidão o afligiram! Recomeçaram a tentar a Deus, a exasperar o Santo de Israel. Esqueceram a obra de suas mãos, no dia em que os livrou do adversário, quando operou seus prodígios no Egito e maravilhas nas planícies de Tânis. (…) Conduziu-o com firmeza sem nada ter que temer, enquanto aos inimigos os submergiu no mar. Ele os levou para uma terra santa, até os montes que sua destra conquistou. Ele expulsou nações diante deles, distribuiu-lhes as terras como herança, fez habitar em suas tendas as tribos de Israel. (…)”
Este salmo proclama o ‘Credo histórico’ transmitido pela geração antiga àquela mais jovem sobre a obra de salvação que Deus fez ao longo da história. E para transmitir tudo isso se evidencia o uso dos verbos ‘escutar – conhecer – narrar’; os sujeitos são os pais, filhos e gerações e o objeto da fé são as ações gloriosas e poderosas, os prodígios, as obras, as leis, os comandos, o testemunho e aliança. Assim mostra que a história é o lugar especial da revelação divina. Isto é, o Senhor ama manifestar-se dentro do tempo em que o ser humano se acha a vontade. Deus entra nas ações do homem e da mulher para botar as raízes da salvação. Esse Deus, portanto, é sempre protagonista nas vidas das criaturas. Ele, parece, não cansa em conduzir-nos.


Minha voz clama pelo meu Deus

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Um casal bem novo teve um filho. Tudo corre bem, inicialmente, mas depois de um ano e pouco de vida a criança adoece. Foi internada no hospital com risco de vida. Os pais, abalados, não sabiam mais o que fazer. O desespero tomou conta. A solidariedade dos amigos se intensificou, mas o quadro de saúde do filho estava piorando. Então, os pais intensificaram suas orações, apelando a Deus, autor da vida, que pudesse reverter o quadro de saúde do único filho. Com essa confiança, quiseram acompanhar o filho doente, clamando pelo Deus. O salmo 76 do Antigo Testamento das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender por que essa confiança.

“Minha voz se eleva para Deus e clamo. Elevo minha voz a Deus para que ele me atenda; No dia de angústia procuro o Senhor. De noite minhas mãos se levantam para ele sem descanso; e, contudo, minha alma recusa toda consolação. Faz-me gemer a lembrança de Deus; na minha meditação, sinto o espírito desfalecer. Vós me conservais os olhos abertos, estou perturbado, falta-me a palavra. Penso nos dias passados, lembro-me dos anos idos. De noite reflito no fundo do coração e, meditando, indaga meu espírito: Porventura, Deus nos rejeitará para sempre? Não mais há de nos ser propício? Estancou-se sua misericórdia para o bom? Estará sua promessa desfeita para sempre? Deus se terá esquecido de ter piedade? Ou sua cólera anulou sua clemência? E concluo então: O que me faz sofrer é que a destra do Altíssimo não é mais a mesma… Das ações do Senhor eu me recordo, lembro-me de suas maravilhas de outrora. Reflito em todas vossas obras, e em vossos prodígios eu medito. Ó Deus, santo é o vosso proceder. Que deus há tão grande quanto o nosso Deus? Vós sois o Deus dos prodígios, vosso poder manifestastes entre os povos. Com o poder de vosso braço resgatastes vosso povo, os filhos de Jacó e de José. As águas vos viram, Senhor, as águas vos viram; elas tremeram e as vagas se puseram em movimento. Em torrentes de água as nuvens se tornaram, elas fizeram ouvir a sua voz, de todos os lados fuzilaram vossas flechas. Na procela ribombaram os vossos trovões, os relâmpagos iluminaram o globo; abalou-se com o choque e tremeu a terra toda. Vós vos abristes um caminho pelo mar, uma senda no meio das muitas águas, permanecendo invisíveis vossos passos. Como um rebanho conduzistes vosso povo, pelas mãos de Moisés e de Aarão.”

Este salmo mostra como o fiel, perante os problemas do cotidiano que ameaçam a vida, apela ao auxilio de Deus, único verdadeiro socorredor. Perante as ameaças da vida, que não são poucas, se confia na intervenção de Deus. Enfrentar tudo isso, sobretudo os momentos mais tenebrosos, chega-se até em desconfiar em Deus: por que tudo isso? Por que comigo nada dá certo? Somente dor e sofrimento se questiona o fiel. O conflito que se gera neste orante está entre um passado melhor e vencedor e um presente marcado pela derrota e o drama.

Nesse contraste violento da pessoa e da comunidade, se questionam se Deus na sua ação mudou. Ele não nos ama mais? Cansou-se da humanidade? Ele nos abandonou? O salmo inicia, dos versículos de 2 a 11, com uma angústia e súplica a respeito do presente triste e sobre o silêncio de Deus. Tudo isso é representado por uma noite de lágrimas, de oração e meditação. O salmista vive um drama assim chamado espiritual: esse Deus que fez tantos prodígios no passado, ajudou Israel a sair da escravidão do Egito e conquistar a terra prometida, agora ficou mudo, não é mais operante. Por que isso? Questiona-se o fiel.

Não pode ser uma simples ilusão de Deus naquilo que operou no passado. É Ele o Deus de ontem e hoje. Assim sendo, o fiel reconhece nesta segunda parte do salmo que Deus salvou Israel no passado e que foi o Senhor da história e do universo e o presente, portanto, iluminado pela experiência salvadora passada, torna-se a sua efetiva esperança. Aquele passado, antes ou depois, se manifestará com toda a sua força também no presente.

A salvação passada é penhor daquela que se espera. E o salmista relembrando os prodígios do passado quer afirmar as razões da esperança. Sim, Deus no passado guiou o seu povo pelo deserto para conduzi-lo à terra prometida. A sua ‘mão poderosa’ e invisível era representada pela mão visível de Moisés e Arão. Portanto, aquela salvação do passado é hipoteca de um novo êxodo, uma nova salvação definitiva do novo povo de Deus. Assim sendo, o salmo iniciou com uma profunda lamentação e termina com um hino de fé e de esperança ao nosso verdadeiro pastor de todos. Este é um salmo de encorajamento perante as dificuldades da vida.


Com Deus somos vitoriosos

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É na ótica de Deus que poderemos construir uma convivência mais justa e fraterna. Quem não se lembra da história de Zaqueu? Uma vez que se encontra com Jesus, ele conseguiu se libertar de toda a sua ganância e devolveu tudo aquilo que roubou. E não só, mas também doou parte de seus bens. Jesus, Deus, derrubou o poder dinheiro e libertou o filho de Deus. Quanto hoje precisamos viver essa grande verdade: Que Deus consiga derrotar todo esse poder do dinheiro. Isso pode acontecer, na medida em que consigamos nos encontrar com Ele. O salmo 75 das Sagradas Escrituras nos ajuda melhor nesse sentido.

“Deus se fez conhecer em Judá, seu nome é grande em Israel. Em Jerusalém está seu tabernáculo e em Sião a sua morada. Lá ele quebrou as fulminantes flechas do arco, os escudos, as espadas e todas as armas. O esplendor luminoso de vosso poder manifestou-se do alto das eternas montanhas. Foram despojados os guerreiros ousados, eles dormem tranquilos seu último sono. Os valentes sentiram fraquejar suas mãos. Só com a vossa ameaça, ó Deus de Jacó, ficaram inertes carros e cavalos. Terrível sois, quem vos poderá resistir, diante do furor de vossa cólera? Do alto do céu proclamastes a sentença; calou-se a terra de tanto pavor, quando Deus se levantou para pronunciar a sentença de libertação em favor dos oprimidos da terra. Pois o furor de Edom vos glorificará e os sobreviventes de Emat vos festejarão. Fazei votos ao Senhor vosso Deus e cumpri-os. Todos os que o cercam tragam oferendas ao Deus temível, a ele que abate o orgulho dos grandes e que é temido pelos reis da terra.”

Somente para contextualizar, este salmo é um hino de vitória do Deus de Israel em Sião, pouco depois a conquista da “cidade santa” por parte de Davi e a trasladação da arca a Jerusalém. Deus triunfa contra os poderosos, os valentes para salvar os pobres. Deus aniquila os instrumentos de poder que exaltam as pessoas. O salmo se divide em quatro estrofes. A primeira, dos versículos de 2 a 4, mostra a força vitoriosa de Deus que quebra todas as armas dos inimigos do seu povo. A verdadeira libertação vem pelas “mãos” de Deus. Na segunda estrofe, versículos de 5 a 7, numa cena de guerra, Deus é apresentado qual grande triunfador. Ele com o seu esplendor luminoso despoja os guerreiros ousados. Segue a terceira estrofe, versículos de 8 a 10, onde Deus o “terrível” proclama lá do céu o juízo sobre a humanidade que a deixa apavorada. Assim, o pobre e oprimido logo que assistem esse julgamento que deixa totalmente apavorados os ímpios, pervertidos, sabem que o processo da história vai mudar. Os poderosos serão humilhados e rebaixados.

Por fim, a quarta estrofe, versículos de 11 a 13, mostra que toda a terra é envolvida na adoração desse Deus “terrível” e “justo”. Assim sendo, Deus não é fonte de medo, mas qual raiz de justiça para todos e, sobretudo, em relação aos “reis da terra”. E o papa Francisco nos ajuda a entender melhor pela homilia feita na missa na casa Santa Marta no Vaticano: “Deus permanece com os justos e nunca os abandona”.

“Uma mãe corajosa, com marido, três filhos, menos de 40 anos e um cancro que a obriga permanecer na cama. Por quê? Uma mulher idosa, pessoa com a oração no coração e com um filho assassinado pela máfia. Por quê?” (…) “Os pensamentos de tantas pessoas cuja fé convicta e arraigada é colocada à prova pelos dramas da vida. Por que é que isto acontece? Que proveito temos em guardar os mandamentos de Deus enquanto os soberbos progridem praticando o mal, desafiam a Deus e não são castigados?” (…) “Quantas vezes vemos esta realidade em muitas pessoas más, em pessoas que fazem o mal e parece que na sua vida tudo vai bem: são felizes, têm tudo o que querem, não lhes falta nada. Por quê Senhor? É um dos muitos porquês.”

Continua o papa Francisco: “proclama ‘bem-aventurado’ o homem que não entra no conselho dos ímpios” e que “encontra a sua alegria na lei do Senhor”. “Agora não vemos os frutos desta gente que sofre, desta gente que carrega a cruz, como aquela Sexta-feira Santa e aquele Sábado Santo em que não se viam os frutos do Filho de Deus Crucificado, dos seus sofrimentos. E tudo o que fará, será bem feito. E o que o diz o salmo sobre os ímpios, sobre aqueles que nós pensamos que vai tudo bem? ‘Não são assim os ímpios, mas são como a palha que o vento disperde. Porque o Senhor acompanha o caminho dos justos, enquanto o caminho dos ímpios perece”.

E citando a parábola do rico: “O curioso daquele homem é que não se diz o nome. É somente um adjetivo: é um rico. Dos ímpios, no Livro da Memória de Deus, não há nome: é um ímpio, é um trapaceiro, é um explorador… Não tem nome, somente adjetivos. Ao invés, todos os que buscam caminhar na via do Senhor estarão com seu Filho, que tem o nome, Jesus Salvador. Mas um nome difícil de entender, inclusive inexplicável para a provação da cruz e por tudo aquilo que Ele sofreu por nós”.


Migrantes e refugiados: homens e mulheres em busca de paz (Parte I)

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1. Votos de paz
Paz a todas as pessoas e a todas as nações da terra! A paz, que os anjos anunciam aos pastores na noite de Natal, é uma aspiração profunda de todas as pessoas e de todos os povos, sobretudo de quantos padecem mais duramente pela sua falta. Dentre estes, que trago presente nos meus pensamentos e na minha oração, quero recordar de novo os mais de 250 milhões de migrantes no mundo, dos quais 22 milhões e meio são refugiados. Estes últimos, como afirmou o meu amado predecessor Bento XVI, «são homens e mulheres, crianças, jovens e idosos que procuram um lugar onde viver em paz». E, para o encontrar, muitos deles estão prontos a arriscar a vida numa viagem que se revela, em grande parte dos casos, longa e perigosa, a sujeitar-se a fadigas e sofrimentos, a enfrentar arames farpados e muros erguidos para os manter longe da meta.

Com espírito de misericórdia, abraçamos todos aqueles que fogem da guerra e da fome ou se veem constrangidos a deixar a própria terra por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental.

Estamos cientes de que não basta abrir os nossos corações ao sofrimento dos outros. Há muito que fazer antes de os nossos irmãos e irmãs poderem voltar a viver em paz numa casa segura. Acolher o outro requer um compromisso concreto, uma corrente de apoios e beneficência, uma atenção vigilante e abrangente, a gestão responsável de novas situações complexas que às vezes se vêm juntar a outros problemas já existentes em grande número, bem como recursos que são sempre limitados. Praticando a virtude da prudência, os governantes saberão acolher, promover, proteger e integrar, estabelecendo medidas práticas, «nos limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido, [para] lhes favorecer a integração». Os governantes têm uma responsabilidade precisa para com as próprias comunidades, devendo assegurar os seus justos direitos e desenvolvimento harmónico, para não serem como o construtor insensato que fez mal os cálculos e não conseguiu completar a torre que começara a construir.

2. Porque há tantos refugiados e migrantes?
Na mensagem para idêntica ocorrência no Grande Jubileu pelos 2000 anos do anúncio de paz dos anjos em Belém, São João Paulo II incluiu o número crescente de refugiados entre os efeitos de «uma sequência infinda e horrenda de guerras, conflitos, genocídios, “limpezas étnicas”» que caraterizaram o século XX. E até agora, infelizmente, o novo século não registou uma verdadeira viragem: os conflitos armados e as outras formas de violência organizada continuam a provocar deslocações de populações no interior das fronteiras nacionais e para além delas. Todavia as pessoas migram também por outras razões, sendo a primeira delas «o desejo de uma vida melhor, unido muitas vezes ao intento de deixar para trás o “desespero” de um futuro impossível de construir». As pessoas partem para se juntar à própria família, para encontrar oportunidades de trabalho ou de instrução: quem não pode gozar destes direitos, não vive em paz. Além disso, como sublinhei na Encíclica Laudato si’, «é trágico o aumento de migrantes em fuga da miséria agravada pela degradação ambiental».
A maioria migra seguindo um percurso legal, mas há quem tome outros caminhos, sobretudo por causa do desespero, quando a pátria não lhes oferece segurança nem oportunidades, e todas as vias legais parecem impraticáveis, bloqueadas ou demasiado lentas.
Em muitos países de destino, generalizou-se largamente uma retórica que enfatiza os riscos para a segurança nacional ou o peso do acolhimento dos recém-chegados, desprezando assim a dignidade humana que se deve reconhecer a todos, enquanto filhos e filhas de Deus. Quem fomenta o medo contra os migrantes, talvez com fins políticos, em vez de construir a paz, semeia violência, discriminação racial e xenofobia, que são fonte de grande preocupação para quantos têm a peito a tutela de todos os seres humanos.
Todos os elementos à disposição da comunidade internacional indicam que as migrações globais continuarão a marcar o nosso futuro. Alguns consideram-nas uma ameaça. Eu, pelo contrário, convido-vos a vê-las com um olhar repleto de confiança, como oportunidade para construir um futuro de paz.

3. Com olhar contemplativo
A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos «a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha». Estas palavras propõem-nos a imagem da nova Jerusalém. O livro do profeta Isaías (cap. 60) e, em seguida, o Apocalipse (cap. 21) descrevem-na como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admira e enche de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.
Precisamos de lançar, também sobre a cidade onde vivemos, este olhar contemplativo, «isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (…), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça», por outras palavras, realizando a promessa da paz.
Detendo-se sobre os migrantes e os refugiados, este olhar saberá descobrir que eles não chegam de mãos vazias: trazem uma bagagem feita de coragem, capacidades, energias e aspirações, para além dos tesouros das suas culturas nativas, e deste modo enriquecem a vida das nações que os acolhem. Saberá vislumbrar também a criatividade, a tenacidade e o espírito de sacrifício de inúmeras pessoas, famílias e comunidades que, em todas as partes do mundo, abrem a porta e o coração a migrantes e refugiados, inclusive onde não abundam os recursos. Este olhar contemplativo saberá, enfim, guiar o discernimento dos responsáveis governamentais, de modo a impelir as políticas de acolhimento até ao máximo dos «limites consentidos pelo bem da própria comunidade retamente entendido», isto é, tomando em consideração as exigências de todos os membros da única família humana e o bem de cada um deles.


É Natal

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O Santo Natal revela o quanto Deus nos ama. Ele se torna pequeno para ser acolhido por todos nós. Nosso Deus é maravilhoso, sábio em nos ajudar a compartilhar sua divindade. É nisso que consiste nossa dignidade. Somos atraídos para essa verdade. Podemos ver, nesta circunstância, como até as pessoas afastadas da Igreja, ou simplesmente que não se sentem atraídas por uma experiência de fé, conseguem ser absorvidas por este magnífico evento que marcou, de maneira definitiva, a nossa história. Então, é bom focalizarmos alguns elementos constitutivos do Santo Natal, sob o aspecto da comunicação. Vejamos, por exemplo, como os pastores agiram frente a essa extraordinária realidade.

Os pastores se comportaram como verdadeiros jornalistas, porque não faziam outra coisa senão dar uma boa notícia, sem acréscimos de comentários pessoais. Aquilo que viram, transmitiram. Talvez isso pudesse questionar hoje nossa profissão de jornalistas, ou mesmo de comunicadores. Quantas vezes as notícias não são corretas porque queremos manipula-las com nosso ponto de vista ou com interesses de corporação? Em várias ocasiões, nossa ação comunicativa chega a não ter escrúpulos. No entanto, os pastores daquela época foram bem transparentes ao narrar aquilo que viram, e nada mais. Portanto, contando os fatos, precisamos demonstrar total transparência; e todos somos chamados em causa, porque todos comunicamos, de um jeito ou de outro, para sustentar nossas relações sociais, comunitárias e familiares.

Porém, em muitas ocasiões, quanta falta de transparência em tudo isso! Podem ver que as problemáticas, as dificuldades de se entender, os conflitos que surgem em consequência disso, tornam-se quase como uma denúncia da nossa não correta ação comunicativa. Assim sendo, creio que é necessário imitarmos aqueles pastores. É verdade que a objetividade é muito difícil, mas ser transparentes é o nosso dever. Hoje em dia, estamos vivendo um bombardeio de informações, mas tudo isso nos leva a ter um conhecimento real e verdadeiro da realidade, ou cria mais confusão na nossa cabeça, favorecendo mais conflitos pessoais e sociais? E aquela gruta onde nasceu o Menino Jesus? Que comunicação em tudo isso! A humildade e a simplicidade revelam um fato extraordinário de Deus que se rebaixa até nós.

Pergunto-me: se Deus se torna presente na nossa vida com total humildade, por que nós não podemos estar juntos despojados de qualquer arrogância, soberba, altivez? O Altíssimo se faz presentíssimo, não desprezando a nossa realidade, mas, ao contrário, compartilhando conosco o seu grande poder porque é preocupado com a nossa vida. Então, como queremos caminhar com os outros para compartilharmos aquilo que somos? Temos a coragem de nos rebaixar para favorecer os outros? A onipotência do nosso Deus, por incrível que pareça, se manifesta nessa capacidade de entrar na nossa vida. Uma verdadeira e transparente comunicação é totalmente humilde porque quer favorecer a vida e, sobretudo, de quem mais necessita. É solidária e fraterna. Não é uma elucubração de palavras e pensamentos, mas de testemunho de vida.

Aquele silêncio recolhido daquela gruta emana uma magnífica e poderosa comunicação: a vida não tem limite. Quantas vezes não sabemos priorizar o silêncio, porque achamos que isto prejudica a nossa fala para comunicar. No entanto, no nascimento, Deus não fez manifestações de praça, barulhos de palavras, não tocaram tambores, ao contrário de nós, quando queremos mostrar algo de importante usamos todos os possíveis meios que estão ao nosso dispor para contar o evento da nossa vida.

Deus prefere comunicar no silêncio, porém, nós preferimos comunicar com barulhos. Que diferença! Creio que esta grande solenidade do Santo Natal possa se tornar, para todos, um momento de reflexão sobre como podemos aperfeiçoar a comunicação entre nós.

Por fim, aquela estrela que indicou a santa gruta nos revela quantas estrelas existem também na nossa vida, para nos ajudar na nossa peregrinação terrestre? E às vezes pela pouca sensibilidade ao “novo”, determinado pelo excessivo materialismo, nos impede de fazer a experiência do verdadeiro Natal. Feliz e Santo Natal.


Nós vos louvamos, senhor!

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A grandeza da humanidade está na sua transcendência, na sua capacidade de ir além da sua percepção. É esta capacidade que dá razão para valorizar os outros e não pensar somente em si. Na medida em que temos uma consciência das nossas limitações humanas, das nossas precariedades, talvez tenhamos mais capacidade de sentirmos mais fraternos e mais humildes. O Salmo 74 das Sagradas Escrituras nos ajuda nesse sentido:

“Nós vos louvamos, Senhor, nós vos louvamos; glorificamos vosso nome e anunciamos vossas maravilhas. No tempo que fixei, julgarei o justo juízo. Vacile, embora, a terra com todos os seus habitantes, fui eu quem deu firmeza às suas colunas. Digo aos arrogantes: Não sejais insolentes; aos ímpios: Não levanteis vossa fronte, Não ergais contra o Altíssimo a vossa cabeça, deixai de falar a Deus com tanta insolência. Não é do Oriente, nem do Ocidente, nem do deserto, nem das montanhas que vem a salvação. Mas Deus é o juiz; a um ele abate, a outro exalta. Há na mão do Senhor uma taça de vinho espumante e aromático. Dela dá de beber. E até as fezes hão de esgotá-la; hão de sorvê-la os ímpios todos da terra. Eu, porém, exultarei para sempre, salmodiarei ao Deus de Jacó. Abaterei todas as potências dos ímpios, enquanto o poder dos justos será exaltado”.

Esse Salmo foca a questão do juízo universal de Deus. Começa com a resposta divina perante a intercessão do fiel, do justo, e logo em seguida tem o comentário (7-9). Qual é esse oráculo? É o Juízo de Deus. Com isso, quer relembrar ao ímpio que a sua constante arrogância está desafiando Deus. O ímpio se acha dono de tudo e de todos. E os versículos de 3 a 6 mostram a intervenção de Deus que julga os arrogantes e os ímpios, porque se acham poderosos. No entanto, é Ele o Senhor da justiça e da moral. É Ele o Criador e revela todo o seu poder sacudindo a terra, cuja estrutura é dominada por Ele.

Aqui fala que a terra é fundada sobre as colunas, porque é segundo a cosmologia oriental daquele tempo. Naturalmente, hoje, devido todo o conhecimento cientifico alcançado, sabemos a verdade sobre a terra e o cosmo. De qualquer forma, o Deus, que tudo criou, levanta a sua voz contra os ímpios que, na ousadia deles, O desafiam. A verdadeira justiça vem do único juiz, que é Deus, e não na busca de modelos e pessoas humanas. O verdadeiro juiz, Deus, pode realmente exaltar ou rebaixar segundo direito e verdade. Ele sabe discernir perfeitamente o poder dos ímpios que são hipnotizados pela avidez do dinheiro e pelo ser servidos nos seus tronos.

Assim sendo, esse Deus, conforme o salmista, não é indiferente à história da humanidade, mas acompanha o drama dela e, sobretudo, sabe fazer justiça perante os arrogantes e poderosos deste mundo. Nesse sentido, o fiel desse Salmo invoca a Deus para que faça justiça e liberte os justos. Os fiéis confiam exclusivamente na justiça de Deus, porque na dos homens não a encontram. E o Papa Francisco nos esclarece mais ainda essa presença de Deus, em um discurso pronunciado na “Jornada Mundial da Juventude” do dia 28.07.2016: “… «Onde está Deus?» Onde está Deus, se no mundo existe o mal, se há pessoas famintas, sedentas, sem abrigo, deslocadas, refugiadas? Onde está Deus, quando morrem pessoas inocentes por causa da violência, do terrorismo, das guerras? Onde está Deus, quando doenças cruéis rompem laços de vida e de afeto? Ou quando as crianças são exploradas, humilhadas e sofrem – elas também – por causa de graves patologias? Onde está Deus, quando vemos a inquietação dos duvidosos e dos aflitos na alma? Há perguntas para as quais não existem respostas humanas. Podemos apenas olhar para Jesus e perguntar-lhe. E a sua resposta é esta: «Deus está neles», Jesus está neles, sofre neles, profundamente identificado com cada um. Está tão unido a eles, que quase formam «um só corpo». (…) Foi o próprio Jesus que escolheu identificar-se com estes nossos irmãos e irmãs provados pelo sofrimento e a angústia, aceitando percorrer o caminho doloroso para o calvário. Ao morrer na cruz, entrega-se nas mãos do Pai e leva consigo e em si mesmo, com amor de doação, as chagas físicas, morais e espirituais da humanidade inteira. Abraçando o madeiro da cruz, Jesus abraça a nudez e a fome, a sede e a solidão, a dor e a morte dos homens e mulheres de todos os tempos.(…) Somos chamados a servir Jesus crucificado em cada pessoa marginalizada, a tocar a sua carne bendita em quem é excluído, tem fome, tem sede, está nu, preso, doente, desempregado, é perseguido, refugiado, migrante. Naquela carne bendita, encontramos o nosso Deus; naquela carne bendita, tocamos o Senhor.(…) O Caminho da Cruz é o caminho da vida e do estilo de Deus, que Jesus nos leva a percorrer mesmo através das sendas duma sociedade por vezes dividida, injusta e corrupta”.


O silêncio do abandono

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A vida é um meandro, cheia de curvas, que reserva muitasvezes surpresas e abandonos. Quantos sofrimentos, incompreensões, lágrimas na vida do ser humano! Parece em certas ocasiões que até Deus o tenha abandonado. Mas a gente se pergunta: “Será que Deus abandona a sua melhor obra, que é o ser humano?”, ou “será que Deus é tão insensível em relação às provas da vida do ser humano?”. O salmo 73 das Sagradas Escrituras nos dá uma resposta a tudo isso:

“Por que, Senhor, persistis em nos rejeitar? Por que se inflama vossa ira contra as ovelhas de vosso rebanho? Recordai-vos de vosso povo que elegestes outrora, da tribo que resgatastes para vossa possessão, da montanha de Sião onde fizestes vossa morada. Dirigi vossos passos a estes lugares definitivamente devastados; o inimigo tudo destruiu no santuário. Os adversários rugiam no local de vossas assembleias, como troféus hastearam suas bandeiras. Pareciam homens a vibrar o machado na floresta espessa. Rebentaram os portais do templo com malhos e martelos, atearam fogo ao vosso santuário, profanaram, arrasaram a morada do vosso nome. Disseram em seus corações: Destruamo-los todos juntos; incendiai todos os lugares santos da terra. Não vemos mais nossos emblemas, já não há nenhum profeta e ninguém entre nós que saiba até quando… Ó Deus, até quando nos insultará o inimigo? O adversário blasfemará vosso nome para sempre? Por que retirais a vossa mão? Por que guardais vossa destra em vosso seio? Entretanto, Deus é meu rei desde os tempos antigos, ele que opera a salvação por toda a terra. Vosso poder abriu o mar, esmagastes nas águas as cabeças de dragões. Quebrastes as cabeças do Leviatã, e as destes como pasto aos monstros do mar. Fizestes jorrar fontes e torrentes, secastes rios caudalosos. Vosso é o dia, a noite vos pertence: vós criastes a lua e o sol, vós marcastes à terra seus confins, estabelecestes o inverno e o verão. Lembrai-vos: o inimigo vos insultou, Senhor, e um povo insensato ultrajou o vosso nome. Não abandoneis ao abutre a vida de vossa pomba, não esqueçais para sempre a vida de vossos pobres. Olhai para a vossa aliança, porque todos os recantos da terra são antros de violência. Que os oprimidos não voltem confundidos, que o pobre e o indigente possam louvar o vosso nome. Levantai-vos, ó Deus, defendei a vossa causa. Lembrai-vos das blasfêmias que continuamente vos dirige o insensato. Não olvideis os insultos de vossos adversários, e o tumulto crescente dos que se insurgem contra vós.”

Este salmo é marcado pela tristeza do abandono e do poder esmagador dos que perseguem os que acreditam em Deus. Ele é dividido em duas situações: o silêncio de Deus de uma parte e da outra o silêncio da morte e da destruição do Templo de Deus. A partir dos versículos de 1 a 9, focaliza-se a lamentação sobre a destruição do Templo. O inimigo com a sua arrogância destruidora parecia ser superior à presença de Deus no seu Templo. Os inimigos não tinham piedade de nada e de ninguém: tudo destruíam. E o pior, é que ninguém sabe até quando vai todo esse esmagamento.
Depois disso, o salmo se concentra nos versículos de 10 a 23 em uma oração incessante a Deus para que possa intervir a favor do justo. E o fiel salmista relembra a ação universal de Deus na criação quando esmagou a prepotência dos dragões, do Leviatã, símbolos horríveis do ‘nada’. E a partir dessa potência de Deus Israel aguarda a sua intervenção em favor do seu povo. Porém, vive ansioso porque parece que Deus ainda não tomou a iniciativa. Os poderosos infiéis triunfam sobre os fieis. Mas os fieis confiam na fidelidade de Deus. É questão de tempo.

Portanto, se de um lado tem o medo porque Deus ainda está ausente de outro lado existe a confiança que Deus pode tardar, mas não deixará de agir para salvar os seus fieis. O ‘coração’ dessa oração é aquele do silêncio de Deus na prova, no sofrimento que estão vivendo os justos. E isso poderia levar os inimigos a argumentarem, confutarem a própria existência de Deus. Ainda hoje tem aqueles que dizem, perante a tanta violência e dor, que Deus é simplesmente uma invenção dos que acreditam. Assim reage o fiel insistindo com Deus de não se deixar blasfemar, mas de intervir para comprovar que Ele é realmente Deus, Senhor da história.

Assim sendo, a oração é para romper o silêncio de Deus. Revelando que Deus é o verdadeiro dono da história humana. Está nas mãos Dele o destino da humanidade, e não dos poderosos desse mundo. A história da humanidade, por quanto possa ser abalada pelas crueldades e atrocidades, ela não é jogada no caos. É preciosa aos olhos amorosos de Deus.


O mal será derrotado

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Quantos desesperos e gritos de dor se elevam todos os dias na vida das pessoas! O mal circunda o ser humano e o deixa ainda mais fragilizado na sua existência. Por que a maldade domina a vida? O salmo 38, das Sagradas Escrituras, fala-nos a respeito:

“Disse comigo mesmo: Velarei sobre os meus atos, para não mais pecar com a língua. Porei um freio em meus lábios, enquanto o ímpio estiver diante de mim. Fiquei mudo, mas sem resultado, porque minha dor recrudesceu.Meu coração se abrasava dentro de mim, meu pensamento se acendia como um fogo, então eu me pus a falar: Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim, e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero.A largura da mão: eis a medida de meus dias, diante de vós minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro. De fato, o homem passa como uma sombra, é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá.E agora, Senhor, que posso esperar? Minha confiança está em vós. Livrai-me de todas as faltas, não me abandoneis ao riso dos insensatos.Calei-me, já não abro a boca, porque sois vós que operais. Afastai de mim esse flagelo, pois sucumbo ao rigor de vossa mão.Quando punis o homem, fazendo-lhe sentir a sua culpa, consumis, como o faria a traça, o que ele tem de mais caro. Verdadeiramente, apenas um sopro é o homem. Ouvi, Senhor, a minha oração, escutai os meus clamores, não fiqueis insensível às minhas lágrimas. Diante de vós não sou mais que um viajor, um peregrino, como foram os meus pais.Afastai de mim a vossa ira para que eu tome alento, antes que me vá para não mais voltar.”

Surge inevitável a questão de querermos compreender de onde vem todo o mal, sofrimento e dor que fazem parte da vida da humanidade. Se tudo o que Deus fez é bom, como então? Para isso, remontamos à Bíblia. Seus vários livros se preocupam com o mal. Neles se encontra uma multiplicidade de imagens para falar do tema. Não se encontra neles uma resposta simples, racional, mas uma resposta de fé. Razão e fé (confiança) estão presentes nesse salmo. Por isso a Bíblia é diferente de outros livros. E esse salmo nos ajuda a fazer essa profissão de fé.

Deus não criou o mal. Ele se preocupa em libertar os seres humanos do mal. Para combater o mal, é preciso confiar em Deus. Resgatar nossa ligação direta com Deus, pela qual fomos criados, e que desfrutávamos no Jardim do Éden. Lembremos o prólogo do Evangelho de João, que nos chama filhas e filhos de Deus, para acentuar nossa dependência a Deus. E a dependência a Deus, a confiança em Deus, é uma liberdade total, para os seres humanos, pois também significa sua liberdade perante os esquemas do mundo, com sua lógica limitada, opressora, que reproduz muitas vezes o mal, que afasta Deus. Significa viver mirando as “coisas do alto”, o que tem consequências muito profundas em nosso mundo, em nosso modo de viver e conviver com os demais filhos e filhas.

Nós, seres humanos, não somos geradores do mal, mas aderimos a ele. Porém, procuramos dar uma razão a toda essa desgraça que vivemos no dia a dia, no mundo todo, com violências, guerras, fomes, injustiças, desigualdades brutais. Muitos se fazem a pergunta ou justificam sua falta de fé assim: por que Deus permite tudo isso? Quem tem de responder a essa questão somos nós. O problema não é Deus. Ele não criou o mal!

A Bíblia trata do problema do mal. Tenta compreender a relação entre Deus e o mal. Qual é a ligação entre Deus e o mal? A fonte do conhecimento é conhecer Deus. Já na origem, havia a preocupação sobre o mal. O ser humano, por si só não era capaz. Ele se apega a Javé, que vai lhe explicar, como nos mostra o fiel desse salmo. Deus é o ator principal. Não é a humanidade. A fonte do conhecimento é, portanto, Deus. Se não queremos fazer a experiência de Deus, ficamos com nossos conhecimentos limitados, pois restritos ao conhecimento da criatura.

Sabemos que os seres humanos são vítimas do mal e, também, aderem ao mal. Mas, temos a certeza de que Deus reverte essa situação. Na medida em que nos deixamos conduzir por Deus, conseguimos vencer o mal. Deus respeita sua criatura, seu livre arbítrio, mas não a abandona. Então, a realidade que o profeta Isaías descreve é a que vai triunfar.

Onde há intimidade com Deus, tudo é possível, o mal não prolifera. Temos uma relação com a terra que, de hostil e penosa, torna-se na nova criação, uma relação de reconciliação: “… serão plantadas vinhas cujos frutos comerão” (Is 65, 21). O trabalho se torna resposta à graça de Deus e instrumento para uma vida feliz: “não trabalharão mais em vão, não darão mais à luz filhos voltados a uma morte repentina” (Is 65, 23). Quantas promessas! Que destino de plenitude nos é reservado na aposta no nosso Deus! E o último mal a ser derrotado é a morte.