Como é bom louvar ao senhor

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Deus não precisa do mundo para se tornar perfeito. Ele, fonte do amor, criou tudo livremente, expressando que tudo era bom. Deus compartilha esse amor em sua obra. Ele criou tudo como expressão do amor. Se Ele é perfeito, a obra deve refletir a perfeição divina: somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Devemos, então, manifestar esse desígnio que está em nossa origem, dando glórias ao nosso Pai, manifestando seu amor na partilha.

O mundo decaído precisa de redenção para ser conforme ao projeto original. E a redenção vem com a ressurreição, dom de Deus. Assim, o cristão tem um olhar de esperança, para além do mal do mundo. O ser humano não se detém no mal do mundo. Ele tem a confiança de que o mal não pode derrotar o mundo. O mal é “nada”. Nestes tempos escatológicos, sabemos que o mal é passageiro, não é a essência.

Para compreender tudo isso, precisamos conhecer a Palavra de Deus. Conhecer a Bíblia! E o salmo 91 das Sagradas Escrituras nos convida a meditarmos sobre isso.

“É bom louvar ao Senhor e cantar salmos ao vosso nome, ó Altíssimo; proclamar, de manhã, a vossa misericórdia, e, durante a noite, a vossa fidelidade,com a harpa de dez cordas e com a lira, com cânticos ao som da cítara, pois vós me alegrais, Senhor, com vossos feitos; exulto com as obras de vossas mãos.Senhor, estupendas são as vossas obras! E quão profundos os vossos desígnios! Não compreende estas coisas o insensato nem as percebe o néscio.Ainda que floresçam os ímpios como a relva, e floresçam os que praticam a maldade, eles estão à perda eterna destinados. Vós, porém, Senhor, sois o Altíssimo por toda a eternidade.Eis que vossos inimigos, Senhor, vossos inimigos hão de perecer, serão dispersados todos os artesãos do mal. Exaltastes a minha cabeça como a do búfalo, e com óleo puríssimo me ungistes.Meus olhos veem os inimigos com desprezo, e meus ouvidos ouvem com prazer o que aconteceu aos que praticam o mal. Como a palmeira, florescerão os justos, elevar-se-ão como o cedro do Líbano.Plantados na casa do Senhor, nos átrios de nosso Deus hão de florir. Até na velhice eles darão frutos, continuarão cheios de seiva e verdejantes,para anunciarem quão justo é o Senhor, meu rochedo, e como não há nele injustiça.”

O autor deste salmo mostra como Deus está no centro de tudo e, na medida em que se respeitar e atender isso, o mundo se tornará bem pacífico e tranquilo. É nessa perspectiva que se apresenta a pessoa ‘justa’: “como a palmeira, florescerão os justos, elevar-se-ão como o cedro do Líbano.” O justo direciona a sua vida ao dispor do Criador e segue os seus caminhos. Não se deixa atrair pela lógica do mundo, pelo sucesso no mundo e do mundo. E o salmista aqui justamente salienta que a alegria, o bem-estar e a longa vida são a consequência de uma existência justa.
Assim sendo, o salmo exalta a justiça de Deus que sabe discernir entre o bem e o mal e oferecendo um mundo perfeito. Aqui se demonstra uma visão positiva que nem todo mundo concorda conforme várias redações das Sagradas Escrituras, como nos salmos 49 e 73 e no livro de Jó. Insiste o autor desse hino que o justo é comparado à imagem da palmeira e do cedro do Líbano. As raízes do justo são parecidas a essas esplendidas arvores. O seu alicerce é garantia de uma vida sem fim. No entanto, o ímpio, quem pratica a maldade, é parecido “como a relva que floresce de manhã” e ao entardecer seca.

Esse é o futuro de quem não pratica a justiça. Uma justiça que vai além a dos homens. De fato, diz o salmista: “não compreende estas coisas o insensato e o estulto” e cujo destino é a perda da vida eterna. E o papa Francisco na catequese das quartas feiras, 03.02.2016, disse:

“E este é o coração de Deus, um coração de Pai que ama e quer que os seus filhos vivam no bem e na justiça, e, portanto, vivam em plenitude e sejam felizes. Um coração de Pai que vai além do nosso pequeno conceito de justiça para nos abrir aos horizontes ilimitados da sua misericórdia. Um coração de Pai que não nos trata segundo os nossos pecados e não nos retribui segundo as nossas culpas. E precisamente é um coração de pai que nós queremos encontrar quando vamos ao confessionário. Talvez nos dirá algo para nos fazer entender melhor o mal, mas no confessionário todos vamos encontrar um pai que nos ajude a mudar de vida; um pai que nos dê a força de seguir adiante; um pai que nos perdoe em nome de Deus. E por isso ser confessor é uma responsabilidade tão grande, porque aquele filho, aquela filha que vem a você procura somente encontrar um pai. E você, padre, que está ali no confessionário, você está ali no lugar do Pai que faz justiça com a sua misericórdia.”


Escolheste, por asilo, o altíssimo!

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As realidades terrenas gozam de autonomia. O homem tem liberdade em sua ação. Mas, essa autonomia das realidades terrenas deve sempre ser entendida em relação a Deus. Toda a criação nos leva a Deus. Tudo é obra da criação de Deus. E o ser humano tem a tarefa de continuar a ação de Deus sobre o criado. É preciso, então, superar o vazio cultural em que estamos imersos.
Quando a violência aumenta entre nós, significa que estamos parados, inertes. Nessa condição, o ser humano não se exalta como criatura e não auxilia na criação. O ser humano é jogado para baixo. A Palavra de Deus é necessária para o resgate dessa criatura. O salmo 90 das Sagradas Escrituras nos mostra a importância dessa confiança em Deus para nos resgatar e dar segurança à nossa vida.

“Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo, que moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela, meu Deus, em que eu confio.É ele quem te livrará do laço do caçador, e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com suas plumas, sob suas asas encontrarás refúgio. Sua fidelidade te será um escudo de proteção.Tu não temerás os terrores noturnos, nem a flecha que voa à luz do dia, nem a peste que se propaga nas trevas, nem o mal que grassa ao meio-dia.Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido. Porém verás com teus próprios olhos, contemplarás o castigo dos pecadores,porque o Senhor é teu refúgio. Escolheste, por asilo, o Altíssimo. Nenhum mal te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda,porque aos seus anjos ele mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão. Pois que se uniu a mim, eu o livrarei; e o protegerei, pois conhece o meu nome.Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação estarei com ele. Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória. Será favorecido de longos dias, e mostrar-lhe-ei a minha salvação.”

Esse salmo proclama em voz alta a grande sabedoria em confiar em Deus, autor da vida. É Ele o nosso refúgio, fortaleza, escudo nas lutas do dia a dia. Ele protege e defende o fiel. Com essa convicção, o fiel enfrenta os desafios das trevas, que, segundo a tradição oriental, os espíritos do mal frequentam a noite, não tem medo da super quentura do dia, das doenças que aparecem na população e dos tantos inimigos que se ‘lastram pelo chão’. Deus com os seus anjos a protege e acompanha pelos seus caminhos da vida.

O mal que se insinua na história da humanidade terá o fim, cessará de ser ameaça para os fiéis. Para entender melhor isso, é bom lembrar o que disse Jesus Cristo: “Eis que vos dou o poder de pisar serpentes, escorpiões e todo poder do inimigo, e nada poderá vos causar dano”(Lc 10,19). E a invocação final em que o mesmo Deus confirma que a confiança Nele é que rende mais eficaz a vida do fiel: “O Senhor é teu refúgio. Escolheste, por asilo, o Altíssimo. Nenhum mal te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda”.

É a confiança que garante a vida do fiel! Com a confiança em Deus, a história da humanidade se torna elevação, salvação. Esta oração é bem enraizada na realidade do ser humano, que passa também pela sua dramaticidade da existência. Embora as provas da vida acompanhem as pessoas, a certeza da proteção de Deus é muito superior a elas. O papa Francisco, no ‘Angelus’ de 26.02.2017, falou o seguinte:

“Confiar em Deus não resolve magicamente os problemas, mas permite enfrentá-los com o espírito justo, corajosamente. Sou corajoso porque confio em meu Pai que se ocupa de tudo e me ama muito.É o nosso refúgio, a fonte da nossa serenidade e da nossa paz. É a rocha da nossa salvação, à qual nos podemos agarrar, certos de que não caímos; quem se agarra a Deus nunca cai! É a nossa defesa do mal que está sempre à espreita. Deus é para nós o grande amigo, o aliado, o pai, mas nem sempre nos damos conta disto. Não nos apercebemos de que temos um amigo, um aliado, um pai que nos ama, e preferimos apoiar-nos em bens imediatos que podemos tocar, em bens contingentes, esquecendo, e por vezes rejeitando, o bem supremo, ou seja, o amor paterno de Deus. Senti-lo como Pai, nesta época de orfandade, é tão importante! Neste mundo órfão, senti-lo como Pai. Nós afastamo-nos do amor de Deus quando vamos em busca dos bens terrenos e das riquezas, manifestando assim um amor exagerado a estas realidades.”


Eu vi a presença do Espírito Santo

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Alguns anos atrás, aconteceu um caso de violência gravíssima em Belém, como continuam a acontecer ainda hoje, que me chamou muito a atenção: um jovem assaltou e matou outro jovem. Fiquei triste com a crueldade do crime, e me parecia que aquele dia tão esplendoroso se obscureceu totalmente. A vida imergida nas trevas. Naturalmente, houve a ação da polícia, que conseguiu desvendar o responsável de tanta maldade. O acusado foi preso e processado. Estou relatando de maneira bem sumaria o fato e nem consigo descrever a dor dos pais que perderam o filho tragicamente. Depois de todos os procedimentos legais que competem no caso, chegou o dia do julgamento.

À sala da justiça chegaram também as mães da vítima e do réu. A um certo ponto, as duas se olharam e depois de uma breve hesitação se levantaram e, aproximando-se, desceram lágrimas dos rostos delas. Elas se abraçaram e viveram momentos de grande misericórdia. Uma perdoando e a outra pedindo perdão. Poucas palavras, mas intensos momentos de amor. Tiveram a capacidade de se olhar nos olhos e sentir toda a dramaticidade do evento cruel: uma mãe que perdeu o filho e a outra que teve o filho encarcerado, praticamente perdido também. Duas mães de realidades totalmente diferentes marcadas de grande dor.

No entanto, o perdão e a misericórdia souberam ir além da imensa dor. Aquela cena de duas mães abraçadas foi uma cena inesquecível para mim. Toda vez que lembro, causa-me sempre algo que dá esperança e força de viver. Transforma o dia de trevas em dia de luz resplandecente. Eu me perguntei: o que foi que levou aquela mãe que teve o filho morto a ter tanta força de perdoar, e a outra mãe lhe pedir perdão pelo filho homicida? A razão humana não chega a tanto assim, eventualmente pode confiar a uma justiça retributiva qual a justiça humana com os seus tribunais. Esse abraço de misericórdia, sinceramente, pode ser somente justiça divina.

Por isso, acredito firmemente que o Espírito Santo conduziu aquelas mães e elas se deixaram conduzir por Ele. Eu vi naquele momento a presença do Espírito Santo, como Ele regenera a vida de dor em esperança eterna. É verdade, aquelas mães depois daquele momento misericordioso pareciam outras pessoas, não obstante tanto sofrimento. Algo aconteceu no coração delas que tiveram a capacidade de erguer a cabeça e de não ter medo de enfrentar a própria realidade. Chegaram até a não se interessar mais do processo em curso, talvez porque superaram o processo de Deus, do amor. E eu me pergunto: se fizéssemos da nossa vida uma vida de misericórdia, de amor, como aquelas duas mães, talvez não teríamos uma vida mais fraterna e solidária?

A nossa sociedade não pode ser satisfeita somente com as coisas materiais e racionais. A alegria vem dessa prática do amor, da proximidade com o outro, da promoção do outro. Não por acaso Jesus nos recomendou tanto de amarmos uns aos outros como Ele nos amou. O segredo da alegria está em colocar em prática o que Jesus nos recomendou. Aquelas duas mães souberam fazer, porque se deixaram conduzir pelo Espírito Santo. O grande desafio de amar, perdoar é sustentado pela ação do Espírito Santo. De fato, Ele é Deus presente em nós, um Deus que nos ajuda a relembrar o que Jesus nos ensinou e testemunhou, que desperta a nossa memória.

E para reconhecer essa verdade é só reler o que Jesus falou aos apóstolos antes da Pentecostes: “O Espírito que Deus vos conferirá em meu nome, vos lembrará tudo aquilo que vos falei”. Portanto, amar como Jesus nos amou é possível, mas precisamos reconhecer o protagonismo do Espírito Santo na nossa vida. Sem Ele, tudo é mais complicado. Eu creio que dificilmente aquelas duas mães teriam agido daquele jeito sem ajuda do Espírito Santo. Sendo assim, temos que apelar à ajuda do Espírito Santo para poder incentivar uma sociedade de misericórdia e de amor. Uma sociedade fraterna e justa como Deus quer. É o Espírito Santo que nos ajuda a libertar de tantas e tantas escravidões que nós acumulamos no nosso dia-dia.

É urgente a nossa libertação para vivermos a alegria, não obstante as nossas pobrezas e fraquezas. É o que nos falta hoje: a verdadeira alegria. Fiquei alegre ao ver as duas mães se perdoando, assim senti a presença do Espírito Santo, isto é, Deus. Portanto, vinde Espírito Santo e inflamai os nossos corações do teu amor!


Educação, educação!!!

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Tenho a impressão, pelo contato com diferentes pessoas, que existe um ‘vazio cultural’ na sociedade. O que entendo por ‘vazio cultural’? A incapacidade das pessoas em discernir a realidade verdadeira em que vivemos. Uma falta de capacidade de pensar e, consequentemente, de compreender aquilo que está ao redor. As falas e os comportamentos do ser humano hoje me levam a fazer essa dedução: ‘vazio cultural’! Creio firmemente que as pessoas estejam longe da realidade e conhecem situações e casos mediados por terceiros e, portanto, irreais.

Essa é uma realidade interpretada por alguém que tem como objetivo manipular a situação em seu favor. Hoje em dia se torna fácil a manipulação dos fatos pela tecnologia que temos. Praticamente, hoje o irreal é mais real que o real. Estamos mergulhados em uma realidade ilusória e, consequentemente, com muita dificuldade para termos os ‘pés no chão’. Assim sendo, como ter um relacionamento real com aqueles que convivemos e com os outros em geral? Um fato distorcido constrói relacionamentos distorcidos, e aí você pode imaginar o resultado de tudo isso.

Exatamente o problema sério dos nossos tempos: vivemos fora da realidade! Uma realidade manipulada, mentirosa. A mídia é uma ferramenta que se adapta a isso. Por essa razão, precisamos nos libertar dessa escravidão que nos mantêm nas trevas. Como nos libertar? Quando o cardeal Maria Martini ainda era bispo da arquidiocese de Milão, lembro-me, perfeitamente, quando tive que marcar, com certa antecedência, a entrevista e, em seguida, enviar as perguntas a realizar.

O encontro no seu escritório em Milão foi tão receptivo que me senti à vontade até para improvisar mais perguntas, o que ele aceitou de bom grado. Quando questionei sobre a dificuldade na nossa Igreja sobre a comunicação como um todo, ele não teve dúvidas em reconhecer essa lacuna e, não só, acrescentou que o único caminho para superar essa deficiência era o estudo. Ele insistiu por três vezes ‘ESTUDAR, ESTUDAR E ESTUDAR!’

Estudar os novos caminhos da comunicação e adentrar-se neles. Hoje em dia, esse fenômeno toma conta da nossa vida. Ele desejava que, sobretudo, os padres fossem mais preparados para isso. A recomendação do cardeal Martini se torna ainda mais persistente em não confundir a comunicação em si com os meios de comunicação.  Quando terminei a entrevista, ele me perguntou onde eu tinha estudado. Ao ouvir a resposta, ele me disse que ia mandar logo dois padres da sua arquidiocese para a mesma escola, eacrescentou a urgência dessa formação para a igreja de Milão.

Até hoje me comovem as suas palavras, porque comprovaram toda a minha dedicação de sacerdote para a questão da comunicação na evangelização. Uma evangelização sem comunicação se torna estéril. As pessoas são demais iludidas por uma realidade manipulada. Precisamos liberta-las, porque são preciosas aos olhos de Deus. A evangelização é também isso: saber discernir o que é de Deus ou que é do maligno. Uma comunicação que abrange toda a vida dos filhos e filhas de Deus exalta a mesma VIDA. Rende alegres as pessoas.

Infelizmente, parece que essa preocupação esteja longe de nós. Estamos em um ‘vazio cultural’! Como podemos ajudar as pessoas a serem livres se a gente não educa a discernir a realidade? A saber recepcionar as mensagens num mundo da mentira? Por exemplo, quando falo do alfabeto das imagens a total maioria das pessoas não compreende. Por quê? Porque nunca foram educadas para isso. E a Igreja tem o dever de suprir essa lacuna se não se torna incapaz de ter uma efetiva evangelização.

Vejo em meu próprio Instituto, o PIME, quanto ‘vazio cultural’ nesse sentido. E o pior parece que não tem jeito para reverter essa situação. E aí eu me pergunto: Como ser missionários sem dominar a comunicação? Como ser evangelizadores sem saber comunicar? Muitas confusões e divisões entre nós são devidas a essa não comunicação. A nossa Igreja, em particular, deve saber explorar melhor a comunicação como um grande processo. No entanto, parece que está parada somente nos meios em si. Eu fico cada vez mais triste vendo os nossos fiéis marcados por esse ‘vazio cultural’.

Lembro-me de que uns vinte anos atrás quando ministrei um curso de análise de uma telenovela em Macapá. Na conclusão dele uma jovem professora pronunciou essa frase: “Parece que caíram dos meus olhos as escamas que me impediam de enxergar. Agora compreendo aquilo que estou vendo, antes me deixava atrair pelas imagens e falas, mas não sabia ir além disso. Caíram as minhas escamas, estou enxergando!” Hoje é urgente liberar a vista das pessoas, porque a cegueira é perigosa e nos rende totalmente dependentes. E isto se faz com a educação à comunicação. Enfim quero parabenizar todas as mães e, sobretudo aquelas que enfrentam doenças e abandono.


Senhor, refúgio de geração em geração

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O mal que hoje nos domina se chama ignorância. É uma ignorância generalizada na humanidade. Assim sendo, é muito difícil se defender do mal e, ao mesmo tempo, fazer uma verdadeira experiência de Deus vivo entre nós. Vejo na nossa Igreja o quanto é difícil fazer uma profunda experiência de comunicação. Dá a impressão de que as instituições que fizeram a opção dos meios de comunicação social e se esqueceram de que comunicação é muito mais que isso. A comunicação não pode se reduzir aos meios porque ela é um processo bem amplo, que envolve relação e respeito ao outro.

Por causa dessa ignorância, não sabemos viver a verdadeira comunicação, que é vida. Uma verdadeira comunicação que liberta o ser humano e lhe permite adquirir uma melhor e objetiva contemplação da vida na perspectiva de Deus. Vivendo sem comunicação, imergimos no mal e vivemos a mentira, assim, nos afastamos de Deus. O salmo 89 das Sagradas Escrituras nos ajuda a resgatar a verdadeira comunicação entre as pessoas e Deus.

“Senhor, fostes nosso refúgio de geração em geração.Antes que se formassem as montanhas, a terra e o universo, desde toda a eternidade vós sois Deus.Reduzis o homem à poeira, e dizeis: Filhos dos homens, retornai ao pó,porque mil anos, diante de vós, são como o dia de ontem que já passou, como uma só vigília da noite.Vós os arrebatais: eles são como um sonho da manhã, como a erva virente,que viceja e floresce de manhã, mas que à tarde é cortada e seca.Sim, somos consumidos pela vossa severidade, e acabrunhados pela vossa cólera.Colocastes diante de vós as nossas culpas, e nossos pecados ocultos à vista de vossos olhos.Ante a vossa ira, passaram todos os nossos dias. Nossos anos se dissiparam como um sopro.Setenta anos é o total de nossa vida, os mais fortes chegam aos oitenta. A maior parte deles, sofrimento e vaidade, porque o tempo passa depressa e desaparecemos.Quem avalia a força de vossa cólera, e mede a vossa ira com o temor que vos é devido?Ensinai-nos a bem contar os nossos dias, para alcançarmos o saber do coração.Voltai-vos, Senhor – quanto tempo tardareis? E sede propício a vossos servos.Cumulai-vos desde a manhã com as vossas misericórdias, para exultarmos alegres em toda a nossa vida.Consolai-nos tantos dias quantos nos afligistes, tantos anos quantos nós sofremos.Manifestai vossa obra aos vossos servidores, e a vossa glória aos seus filhos.Que o beneplácito do Senhor, nosso Deus, repouse sobre nós. Favorecei as obras de nossas mãos. Sim, fazei prosperar o trabalho de nossas mãos.”
Esse salmo demonstra que o mal há como grande referência o tempo, a história da humanidade. É nessa história humana que o mal vai dominando. Para compreender isso, tem que entrar na eternidade de Deus: “Mil anos, diante de vós, são como o dia de ontem que já passou”. O salmista diz que o ser humano é tão dependente de Deus que sua ordem o torna pó. Revelando, assim, a transitoriedade humana. A vida das pessoas é como se fosse um sonho que é interrompido pela morte.

Assim sendo, a existência muito frágil e pobre, o autor a compara como a erva que de manhã floresce e a tarde é cortada e seca. Isto mostra como a morte se impõe na nossa vida. Perante tudo isso se levanta um canto fúnebre de todas as pessoas: o que vale a vida, a existência com todas as suas preocupações se o nosso tempo passa depressa e desaparecemos? O autor do salmo insiste que precisamos confiar em Deus porque somente Ele nos pode dar alegria nesses poucos anos de vida que temos a disposição.

Anos relativos, onde tudo passa e o tempo marca de maneira implacável a sua corrida. Nós totalmente imergidos nesse tempo, que não faz descontos para ninguém, nos deixamos iludir pela eternidade terrena. Portanto, somos convidados a confiar plenamente em Deus para nos dar sentido a esta existência tão frágil e fugaz. O papa Francisco, na mensagem para o 52º Dia Mundial das Comunicações Sociais, nos fala:

“No projeto de Deus, a comunicação humana é uma modalidade essencial para viver a comunhão.” E advertiu o papa: “Mas, se orgulhosamente seguir o seu egoísmo, o homem pode usar de modo distorcido a própria faculdade de comunicar.”

“Sintoma típico de tal distorção é a alteração da verdade, tanto no plano individual como no coletivo. Se, pelo contrário, se mantiver fiel ao projeto de Deus, a comunicação torna-se lugar para exprimir a própria responsabilidade na busca da verdade e na construção do bem”. Acrescentou papa Francisco: “Educar para a verdade significa ensinar a discernir, a avaliar e ponderar os desejos e as inclinações que se movem dentro de nós, para não nos encontrarmos despojados do bem ‘mordendo a isca’ em cada tentação”. Isto também nos ajuda a não aderirmos ao mal, ao poder da mentira que tanto nos aflige e nos escraviza.


Cantarei, eternamente, as bondades do Senhor!

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“Como é bom fizermos a experiência de um Deus que nos ama!” Foi assim que me falou um amigo monge. Realmente, quando se passa por essa realidade, a gente fica sem palavras e a tranquilidade toma conta da vida. Por isso, convido-lhe a ler e refletir o salmo 88 das Sagradas Escrituras.

“Cantarei, eternamente, as bondades do Senhor; minha boca publicará sua fidelidade de geração em geração. Com efeito, vós dissestes: A bondade é um edifício eterno. Vossa fidelidade firmastes no céu.Concluí, dizeis vós, uma aliança com o meu eleito; liguei-me por juramento a Davi, meu servo. Conservarei tua linhagem para sempre, manterei teu trono em todas as gerações.Senhor, os céus celebram as vossas maravilhosas obras, e na assembleia dos anjos a vossa fidelidade. Quem poderá, nas nuvens, igualar-se a Deus? Quem é semelhante ao Senhor entre os filhos de Deus?Terrível é Deus na assembleia dos santos, maior e mais tremendo que todos os que o cercam. Quem se compara a vós, Senhor, Deus dos exércitos? Sois forte, Senhor, e cheio de fidelidade.Dominais o orgulho do mar, amainais suas ondas revoltas. Calcastes Raab e o transportastes; com poderoso braço, dispersastes vossos inimigos.Vossos são os céus e também a terra, vós que criastes o globo e tudo o que ele contém. O norte e o sul vós os fizestes; Tabor e Hermon em vosso nome exultam.Tendes o poder em vosso braço, a firmeza na mão, a autoridade em vossa destra. A justiça e o direito são o fundamento de vosso trono, a bondade e a fidelidade vos precedem.Feliz o povo que vos sabe louvar: caminha na luz de vossa face, Senhor. Vosso nome lhe é causa de contínua alegria, pela vossa justiça ele se glorifica,porque sois o esplendor de sua força, e é vosso favor que nos faz erguer a cabeça, pois no Senhor está o nosso escudo, e nosso rei no Santo de Israel.Outrora, em visão, falastes aos vossos santos e dissestes-lhes: Impus a coroa a um herói, escolhi meu eleito dentre o povo. Encontrei Davi, meu servidor, e o sagrei com a minha santa unção.Assistir-lhe-á sempre a minha mão, e meu braço o fortalecerá. Não o há de surpreender o inimigo, nem ousará oprimi-lo o malvado.Sob seus olhos esmagarei os seus contrários, serão feridos aqueles que o odeiam. Com ele ficarão minha fidelidade e bondade, pelo meu nome crescerá o seu poder.Estenderei a sua mão por sobre o mar, e a sua destra acima dos rios. Ele me invocará: Vós sois meu Pai, vós sois meu Deus e meu rochedo protetor.Por isso, eu o constituirei meu primogênito, o mais excelso dentre todos os reis da terra. Assegurado lhe estará o favor eterno, e indissolúvel será meu pacto com ele.Dar-lhe-ei uma perpétua descendência, seu trono terá a duração dos céus. Se, porém, seus filhos abandonarem minha lei, se não observarem os meus preceitos,se violarem as minhas prescrições e não obedecerem às minhas ordens, eu punirei com vara a sua transgressão, e a sua falta castigarei com açoite.Mas não lhe retirarei o meu favor e não trairei minha promessa. Não violarei minha aliança, não mudarei minha palavra dada.Jurei uma vez por todas pela minha santidade: a Davi não faltarei jamais. (…)”

O salmo dá grande ênfase central à promessa de Deus a Davi, seu escolhido. A mediação dessa grande promessa foi do famoso profeta Natã. O salmo inicia com a exaltação da fidelidade à promessa de Deus, em seguida aparece um canto do universo. Aqui parece que o fundamento dessa aliança histórica com Davi encontra-se na aliança cósmica, do universo. Isto significa que o autor do salmo quer mostrar que Deus é o Senhor da criação, o autor da vida. Por isso, descreve nesse hino triunfal o Deus do universo que controla o caos e abala as poderosas montanhas do Hermon e do Tabor.

Nos versículos de 20 a 38 tem o oráculo davídico. Ele se divide em duas partes: a primeira (vv.20-29) é sobre a sua eleição e consagração, a proteção e a paternidade divina; a segunda (vv.30-38) se refere à descendência de Davi. A partir dessa descendência que acontece o drama da infidelidade, porque transgrediram a lei e não seguiram mais os mandamentos de Deus. Porém, Deus é misericordioso e no final ele os perdoa, não rompe a sua aliança. E o salmo termina (vv.39-52) com uma inquietação e preocupação se Deus abandonou o fiel. O salmo não encontra uma resposta para esse drama, mas nasce uma pequena esperança que a aliança de Deus pode se consagrar com alguém que se chama o Messias. Sim, porque Deus é fiel à sua aliança, não obstante as suas criaturas não a respeitem. É esse Messias que gera a esperança do fiel do Senhor e que mantém a promessa divina da salvação.


Senhor, deus da minha salvação

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O salmo 87 das Sagradas Escrituras é um grito de tristeza, pessimismo e lamentação. Perante todo esse desespero, não há nenhuma resposta. Leia atentamente.

“Senhor, meu Deus, de dia clamo a vós, e de noite vos dirijo o meu lamento.Chegue até vós a minha prece, inclinai vossos ouvidos à minha súplica.

Minha alma está saturada de males, e próxima da região dos mortos a minha vida.

Já sou contado entre os que descem à tumba, tal qual um homem inválido e sem forças.

Meu leito se encontra entre os cadáveres, como o dos mortos que jazem no sepulcro, dos quais vós já não vos lembrais, e não vos causam mais cuidados.
Vós me lançastes em profunda fossa, nas trevas de um abismo.

Sobre mim pesa a vossa indignação, vós me oprimis com o peso das vossas ondas.

Afastastes de mim os meus amigos, objeto de horror me tornastes para eles; estou aprisionado sem poder sair, meus olhos se consomem de aflição. Todos os dias eu clamo para vós, Senhor; estendo para vós as minhas mãos.

Será que fareis milagres pelos mortos? Ressurgirão eles para vos louvar?

Acaso vossa bondade é exaltada no sepulcro, ou vossa fidelidade na região dos mortos?

Serão nas trevas manifestadas as vossas maravilhas, e vossa bondade na terra do esquecimento?

Eu, porém, Senhor, vos rogo, desde a aurora a vós se eleva a minha prece.

Por que, Senhor, repelis a minha alma? Por que me ocultais a vossa face?Sou miserável e desde jovem agonizo, o peso de vossos castigos me abateu.Sobre mim tombaram vossas iras, vossos temores me aniquilaram.

Circundam-me como vagas que se renovam sempre, e todas, juntas, me assaltam.Afastastes de mim amigo e companheiro; só as trevas me fazem companhia…”

O hino manifesta uma voz de abandono e aflição. O que está por traz de tudo isso? É uma pessoa que se queixa fortemente pelos sofrimentos físicos, que experimenta o silêncio de Deus, a solidão, de não ter nenhuma resposta sobre a vida que está passando e, sobretudo, sentir a morte de perto. Poderíamos dizer que é o grande desespero do ser humano, porque não consegue enxergar mais nada de bom na sua vida. Parece que as trevas da vida são tão espessas que se sente sem respiro e sem forças para reagir.

Assim o autor desse salmo manifesta a dor, o mal como um sepulcro e uma solidão total. Uma realidade como essa ainda hoje não é desconhecida aos nossos olhos e corações. Os eventos cruéis da vida, às vezes, esmagam o ser humano e ele não tem como se erguer. O drama toma conta da vida. A solidão se torna uma treva que impede qualquer visão. Tudo desaparece ao seu redor. Uma condenação essa que tortura e terroriza a pessoa. O sol sumiu e a noite tomou conta. O que lhe resta ao ser humano, nessa altura? Gritar o tempo todo para ver se, por acaso, alguém lhe vem em socorro.

O mistério da dor é um peso insuportável para a pessoa. Aqui o autor do salmo apresenta uma simples espera que é de Deus. Porque é Ele o dono de tudo, é Ele que pode liberta-lo desse abismo humano, da desgraça que caiu em cima dele. Deus, no final, quando tudo parece que está perdido, Ele o socorre. O Deus da vida está acima da morte. É isto que anima o fiel. Assim sendo, o salmo nos convida a confiar em Deus sempre, embora pareça, às vezes, que o mal tome conta da vida humana, que nos esmague.

Quando menos espera Ele entra em ação. O salmista também denuncia entre as linhas aqueles que enfrentam a vida de maneira superficial, não reconhecendo o que a vida é realmente. Nesse salmo, reconhece-se o mistério da presença de Deus e do outro lado a presença da crueldade da dor, do sofrimento. Entretanto, aparece em tudo isso uma leve esperança que Deus está acima de tudo. Um Deus que ouve o clamor do seu fiel. Releva-se assim que a fé do fiel é que sustenta a sua vida, a sua esperança. Delineia-se no horizonte do intercessor a sua salvação.

E o papa Francisco, durante a homilia na Missa em Santa Marta (Vaticano 06.05.16), disse: “Isto é o que fazem a alegria e a esperança juntas em nossa vida quando estamos em tribulação, em meio a problemas, quando sofremos. Não é uma anestesia. A dor é dor, mas vivida com alegria e esperança abre as portas à alegria de um fruto novo”… “Esta imagem do Senhor nos deve ajudar nas dificuldades; dificuldades por vezes árduas, que nos levam até a duvidar de nossa fé… Mas com a alegria e a esperança vamos adiante, porque depois da tempestade chega um homem novo, como a mulher quando dá à luz. E Jesus diz que esta alegria e esperança são duradouras, não passam”.


O Senhor ama a cidade que fundou

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Achei interessantes as palavras do papa Francisco quando da visita recente que ele fez à Amazônia continental. “Deixai-me dizer mais uma vez: Louvado sejais, Senhor, por esta obra maravilhosa dos povos amazônicos e por toda a biodiversidade que estas terras contêm! Este cântico de louvor esboroa-se quando ouvimos e vemos as feridas profundas que carregam consigo a Amazónia e os seus povos. Quis vir visitar-vos e escutar-vos, para estarmos juntos no coração da Igreja, solidarizarmo-nos com os vossos desafios e, convosco, reafirmarmos uma opção sincera em prol da defesa da vida, defesa da terra e defesa das culturas”, disse o santo Padre. Para tentar compreender a importância das palavras de Francisco é bom ler o salmo 86 das Sagradas Escrituras, que nos leva a contemplar a presença de Deus na vida Amazônica por Ele fundada.

“O Senhor ama a cidade que fundou nos montes santos; ele prefere as portas de Sião às tendas de Jacó. De ti se anuncia um glorioso destino, ó cidade de Deus. Ajuntarei Raab e Babilônia aos que me honram; eis a Filistéia e Tiro com a Etiópia, lá todos nasceram. Dir-se-á de Sião: Um por um, todos esses homens nela nasceram; foi o próprio Altíssimo quem a fundou. O Senhor inscreverá então no registro dos povos: Aquele também nasceu em Sião. E cantarão entre danças: Todas as minhas fontes se acham em ti.”

Esse salmo, poderíamos dizer, é universal. Tem uma abertura para todo mundo. Portanto, um Senhor que se preocupa não somente com uns, mas se direciona para todos. A primeira estrofe proclama Sião como a cidade escolhida porque é ‘cidade de Deus’, superior às moradas de Jacó, isto é, aos lugares e santuários de Israel. A segunda estrofe é dedicada sempre a Sião como mãe de todos os povos. Aqui encontramos por três vezes o verbo ‘nascer’: “Nasceram”. As partes mais importantes do planeta convergem para Sião.
Quem são elas? Segundo o salmo são as grandes potências do Egito, a grande Babilônia, Tiro, a potência comercial do Norte, a Etiópia potência do Sul e a Palestina (Filisteia) potência central. Os povos listados, estrangeiros e opressores, são adotados como cidadãos de Jerusalém e o nascimentos deles ‘impura’ e sarada na raiz, assim que eles se tornam os ‘familiares’ de Deus. É um hino firme de ecumenismo. Para a nossa Igreja se tornou o seu canto, que representa simbolicamente como a ‘Jerusalém celeste que é livre e é a nossa mãe’ ( Gl 4, 26). E, a respeito disso, nós encontramos no Concílio Vaticano II, na Lumen Gentium n. 2, em que se diz que somos reunidos na Igreja Universal: “Todos os justos a partir de Adão até o último eleito…” E continua o papa Francisco, falando à Amazônia em perspectiva deste resgate universal: “Provavelmente, nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios como o estão agora. A Amazônia é uma terra disputada em várias frentes: por um lado, a nova ideologia extrativa e a forte pressão de grandes interesses econômicos cuja avidez se centra no petróleo, gás, madeira, ouro e monoculturas agroindustriais; por outro, a ameaça contra os vossos territórios vem da perversão de certas políticas que promovem a “conservação” da natureza sem ter em conta o ser humano, nomeadamente vós irmãos amazônicos que a habitais.

Temos conhecimento de movimentos que, em nome da conservação da floresta, se apropriam de grandes extensões da mesma e negoceiam com elas gerando situações de opressão sobre os povos nativos, para quem, assim, o território e os recursos naturais que há nele se tornam inacessíveis. Este problema sufoca os vossos povos, e causa a migração das novas gerações devido à falta de alternativas locais. (…)

Paralelamente, há outra devastação da vida que está associada com esta poluição ambiental causada pela extração ilegal. Refiro-me ao tráfico de pessoas: o trabalho escravo e o abuso sexual. A violência contra os adolescentes e contra as mulheres é um grito que chega ao céu. (…)

O reconhecimento destes povos – que não podem jamais ser considerados uma minoria, mas autênticos interlocutores –, bem como de todos os povos indígenas, lembra-nos que não somos os donos absolutos da criação. É urgente acolher o contributo essencial que oferecem à sociedade inteira, não fazer das suas culturas uma idealização dum estado natural nem uma espécie de museu dum estilo de vida de outrora. (…)

A cultura dos nossos povos é um sinal de vida. (…)

Queridos irmãos da Amazónia, quantos missionários e missionárias se comprometeram com os vossos povos e defenderam as vossas culturas! Fizeram-no, inspirados no Evangelho. Cristo também se encarnou numa cultura, a hebraica, e a partir dela ofereceu-Se-nos como novidade a todos os povos, para que cada um, a partir da respectiva identidade, se sinta autoafirmadon’Ele. Não sucumbais às tentativas em ato para desarraigar a fé católica dos vossos povos. Cada cultura e cada cosmovisão que recebe o Evangelho enriquecem a Igreja com a visão duma nova faceta do rosto de Cristo. A Igreja não é alheia aos vossos problemas e à vossa vida, não quer ser estranha ao vosso modo de viver e de vos organizardes…”


Senhor, atendei-me, porque sou pobre!

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Visitei um dia desse uma senhora de 86 anos que me confiou o drama de sua vida. Ela tinha uma ajuda mensal que garantia sua sobrevivência, mas de repente perdeu tudo. Cortaram a ajuda. A sua geladeira tinha somente uma garrafa de plástico com água. Era tudo que tinha para a sua alimentação. Não sabia mais o que fazer e a quem pedir auxílio. Todo mundo sumiu do seu redor, até o seu cachorro porque não tinha o que comer. Aquilo, porém, que me chamou atenção, perante essa dramaticidade de não ter nada e esquecida por todo mundo, foi essa sua firme declaração em confiar em Deus: “Eu creio que Deus não me abandona, aliás vai me tirar dessa situação de falta de tudo.” A transparente confiança dessa senhora de idade me ajudou a entender a coragem dela em saber lutar na vida não obstante toda a sua pobreza. Essa coragem de não se deixar levar pelo desânimo e tristeza, mas acreditar que tudo vai reverter com a ajuda Deus. O salmo 85 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender essa confiança dessa pobre senhora.

“Inclinai, Senhor, vossos ouvidos e atendei-me, porque sou pobre e miserável. Protegei minha alma, pois vos sou fiel; salvai o servidor que em vós confia. Vós sois meu Deus; tende compaixão de mim, Senhor, pois a vós eu clamo sem cessar. Consolai o coração de vosso servo, porque é para vós, Senhor, que eu elevo minha alma. Porquanto vós sois, Senhor, clemente e bom, cheio de misericórdia para quantos vos invocam. Escutai, Senhor, a minha oração; atendei à minha suplicante voz. Neste dia de angústia é para vós que eu clamo, porque vós me atendereis. Não há entre os deuses um que se vos compare, Senhor; não existe obra semelhante à vossa. Todas as nações que criastes virão adorar-vos, e glorificar o vosso nome, ó Senhor. Porque vós sois grande e operais maravilhas, só vós sois Deus. Ensinai-me vosso caminho, Senhor, para que eu ande na vossa verdade. Dirigi meu coração para que eu tema o vosso nome. De todo o coração eu vos louvarei, ó Senhor, meu Deus, e glorificarei o vosso nome eternamente. Porque vossa misericórdia foi grande para comigo, arrancastes minha alma das profundezas da região dos mortos. Ó Deus, os soberbos se levantaram contra mim, uma turba de prepotentes odeia a minha vida, eles que nem vos têm presente antes os olhos. Mas vós, Senhor, sois um Deus bondoso e compassivo; lento para a ira, cheio de clemência e fidelidade. Olhai-me e tende piedade de mim, dai ao vosso servo a vossa força, salvai o filho de vossa escrava. Dai-me uma prova de vosso favor, a fim de que verifiquem meus inimigos, para sua confusão, que sois vós, Senhor, meu sustento e meu consolo.”

Esse salmo nos mostra como o fiel pobre confia no Senhor. É Ele a única segurança, como bem demonstrou àquela senhora, bem velhinha. Deus é a única e verdadeira certeza que não abandona o necessitado. Temos nesse hino um agradecimento e a própria manifestação de fé pelas obras divinas presente na humanidade e no universo. Além do mais, um canto maravilhoso, sem confins, de contemplação da ação de “Adonaj”, isto é, do Senhor. Por que aqui se usa esse nome “Adonaj”? Esse termo usado pelos judeus permitia de evitar a pronúncia do nome santíssimo de Ywhé. Segundo eles, o ser humano não tem essa capacidade de pronuncia-Lo. É demais para ele.

O fiel aqui demonstra uma total segurança na vinda de Deus que vai derrotar o mal na história. O bem triunfa sobre o mal. Assim sendo, testemunha-se o otimismo da fé, não obstante as dramaticidades que a vida comporta. E nessa oração, desse salmo, podes perceber aquilo que Jesus tinha falado de pedir incessantemente para que Deus possa conceder-nos. E o papa Francisco, por ocasião da conclusão do ano da fé, na praça S. Pedro dia 24.11.2013, falou o seguinte: “Cristo é o centro da história da humanidade e também o centro da história de cada homem. A Ele podemos referir as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias de que está tecida a nossa vida. Quando Jesus está no centro, até os momentos mais sombrios da nossa existência se iluminam: Ele dá-nos esperança, como fez com o bom ladrão. (…) Enquanto todos os outros se dirigem a Jesus com desprezo – «Se és o Cristo, o Rei Messias, salva-Te a Ti mesmo, descendo do patíbulo!» –, aquele homem, que errou na vida, no fim agarra-se arrependido a Jesus crucificado suplicando: «Lembra-Te de mim, quando entrares no teu Reino» (Lc 23, 42). E Jesus promete-lhe: «Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso» (23, 43): o seu Reino. Jesus pronuncia apenas a palavra do perdão, não a da condenação; e quando o homem encontra a coragem de pedir este perdão, o Senhor nunca deixa sem resposta um tal pedido.”


Páscoa, resposta à cultura midiática

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Hoje, mais do que nunca, as pessoas são invadidas por “rios de palavras”, frutos de uma tecnologia perfeccionista e, ao mesmo tempo, exibicionista. Essa emergente onda comunicativa é fruto de uma civilização concentrada sobre a cotidiana experiência dos meios de comunicação social. Eles constituem a alma de cada ação humana. Portanto, aquilo que acontece na complexa e difícil atividade do nosso mundo é ligada à incidência da sequência de mensagens que invadem a vida de cada um, na presunção de oferecer àquela resposta que o ser humano de todos os tempos buscou e ainda busca: vale dizer, meios que favoreçam o enfrentamento da complexa vida contemporânea.

Infelizmente, deve se notar que a busca pela resposta fundamental, que a humanidade tanto persegue, não passa através dos mecanismos do fruto da inteligência humana, que é aquela que nós hoje comumente chamamos de mídia. De fato, a opinião atual acha que esta mídia possa resolver o problema das conturbadas cotidianidades do ser humano moderno, o qual, porém, fica traído por esta sua aposta, porque suas principais perguntas ficam sem respostas. As propostas da cultura midiática se revelam insuficientes porque são ligadas à materialidade do ter. É uma comunicação que caracteriza o nosso tempo e que não consegue levantar, motivar as pessoas a ir além dos seus limitados e apertados horizontes.

A pessoa, sabemos, é algo muito mais que isto, vai bem além pela sua vocação que tem. O acontecimento da ressurreição entra neste contexto, permitindo uma visão que supera este nosso horizonte fechado. Hoje, mais que nunca, o nosso tempo registra esta situação. A Ressurreição nos testemunha a atualidade de sua mensagem. Páscoa se revela, assim como em todos os tempos e também hoje, a verdadeira leitura que propõe ao ser humano não se deixar levar sob a pressão da lógica do tempo que passa. A Ressurreição é uma proposta de comunicação encarnada, a qual é mediadora de vida. Nela, o projeto humano acha a plenitude da sua busca. Por isso, a sua celebração não pertence à retórica das tradicionais festividades.

Páscoa é a oferta viva e permanente em um tempo de presunção e de confusão. É evidente que nesta perspectiva a nossa comunicação, para ser vital, deve possuir alguns requisitos contemplativos do mistério pascal. Neste sentido, constrói-se um verdadeiro percurso comunicativo, a partir do evento da experiência cristã, mais do que o tecnológico. Veja o que nos diz o papa Francisco: “Ontem telefonei a um jovem que sofre de uma doença grave, um rapaz culto, engenheiro, e falando, para dar um sinal de fé, disse-lhe: «Não há explicações para o que te acontece. Olha para Jesus na Cruz, Deus fez isto com o seu Filho, e não há outra explicação». E ele respondeu-me: «Sim, mas Ele perguntou ao Filho, o qual disse sim. A mim não perguntou se eu queria». Isto comove-nos, não pergunta a nenhum de nós: «Mas estás contente com o que acontece no mundo? Estás disposto a carregar esta cruz?». E a cruz vai em frente, e a fé em Jesus diminui. Hoje a Igreja continua a dizer: «Para, Jesus ressuscitou». Isto não é imaginação, a Ressurreição de Cristo não é uma festa com muitas flores. É bonito, mas não é só isto, é mais: é o mistério da pedra descartada que acaba por ser o fundamento da nossa existência. Cristo ressuscitou, eis o que significa.

Nesta cultura do descartável na qual o que não serve é usado e deitado fora, o que não serve é descartado, aquela pedra — Jesus — foi descartada e é fonte de vida. E também nós, pedrinhas pelo chão, nesta terra de dor, de tragédias, com a fé no Cristo Ressuscitado ganhamos um sentido no meio de tanta calamidade. O sentido de olhar para além, o sentido de dizer: «Olha não há muros mas horizontes, há vida, alegria, a cruz com esta ambivalência. Olha para a frente, não te feches. Tu pedrinha, tens um sentido na vida porque és uma pedrinha junto daquela pedra, a pedra que a malvadez do pecado descartou». Que nos diz a Igreja hoje diante de tantas tragédias? Isto, simplesmente. A pedra descartada não resulta deveras descartada. As pedrinhas que acreditam e se apegam àquela pedra não são descartadas, ganham um sentido e com este sentimento a Igreja repete do fundo do coração: «Cristo ressuscitou».” (domingo de Páscoa 2017)

A Ressurreição nos ajuda a nos encontrar constantemente. Portanto, uma comunicação verdadeira tem de passar por esta experiência, que nos revela que vamos além de uma simples história humana. Como o Cristo ressurgido conseguiu dar tanta coragem aos apóstolos trancados no cenáculo por medo e que não hesitaram depois em sair para testemunha-Lo, assim nós podemos fazer da nossa comunicação que seja mais objetiva e verdadeira, na medida em que nos deixamos viver por este evento único na história.
Páscoa é tudo para nós. A Páscoa nos ajuda a enxergar aquilo que nós humanos não sabemos ver. FELIZ PÁSCOA.