O Senhor é bom conosco!

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Este salmo 84 das Sagradas Escrituras manifesta toda a alegria pelo fim do exílio de Israel na Babilônia e o reinício da sua vida na sua terra. Tanta felicidade! Leia atentamente o que diz o salmo:
“Fostes propício, Senhor, à vossa terra; restabelecestes a sorte de Jacó. A iniquidade de vosso povo perdoastes, foram por vós cobertos seus pecados. Aplacastes toda a vossa cólera, refreastes o furor de vossa ira. Restaurai-nos, ó Deus, nosso salvador, ponde termo à indignação que tínheis contra nós. Acaso será eterna contra nós a vossa cólera? Estendereis vossa ira sobre todas as gerações? Não nos restituireis a vida, para que vosso povo se rejubile em vós? Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia, e dai-nos a vossa salvação. Escutarei o que diz o Senhor Deus, porque ele diz palavras de paz ao seu povo, para seus fiéis, e àqueles cujos corações se voltam para ele. Sim, sua salvação está bem perto dos que o temem, de sorte que sua glória retornará à nossa terra. A bondade e a fidelidade outra vez se irão unir, a justiça e a paz de novo se darão as mãos. A verdade brotará da terra, e a justiça olhará do alto do céu. Enfim, o Senhor nos dará seus benefícios, e nossa terra produzirá seu fruto. A justiça caminhará diante dele, e a felicidade lhe seguirá os passos.”

O salmo reconhece que Israel precisa se converter, mas também que Deus retorna a defender o seu povo e a defendê-lo. Deus está presente na vida dele. Portanto, conversão e presença de Deus constituem a força da vida de Israel. E o povo eleito expressa assim a renovada presença de Deus: “Restabelecestes a sorte de Jacó… àqueles cujos corações se voltam para ele” (vv.2.9). A conversão leva a reconhecer a ação de Deus. Em seguida, o povo proclama: “Aplacastes toda a vossa cólera…” “Restaurai-nos, ó Deus, nosso salvador…” “Não nos restituireis a vida, para que vosso povo se rejubile em vós?” (vv. 4.5.7). É a partir dessa concepção que se define um novo mundo, um mundo onde o amor apaixonado de Deus e a sua própria fidelidade, encarnados nos fiéis, se juntam dando vez a justiça e a paz.

Essa grande verdade floresce dando vida e perfume ao ser humano; esse esplendor infinito vem do alto, vem de Deus para fazer reinar uma paz fundada na justiça e que nos leva à salvação. Segundo grandes padres do passado da Igreja Católica, esse salmo é um hino da paz, vinda com o nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim sendo, podemos dizer com toda certeza que esse salmo é um hino à esperança de um novo mundo onde os sabores das maravilhas tomam conta da vida. Deus assim inicia o seu reino justo que, porém, não pode faltar a colaboração do ser humano através da sua confiança e a sua participação de solidariedade.

Para compreender melhor isso, cito alguns trechos do papa Francisco que fez em uma pregação: “Paciência de Deus, proximidade de Deus, ternura de Deus.” Interessante essa determinação categórica do papa em relação a Deus. Continua ele: “A resposta do cristão não pode ser diferente da que Deus dá à nossa pequenez. A vida deve ser enfrentada com bondade, com mansidão. Quando nos damos conta de que Deus Se enamorou da nossa pequenez, de que Ele mesmo Se faz pequeno para melhor nos encontrar, não podemos deixar de Lhe abrir o nosso coração pedindo-Lhe: «Senhor, ajudai-me a ser como Vós, concedei-me a graça da ternura nas circunstâncias mais duras da vida, dai-me a graça de me aproximar ao ver qualquer necessidade, a graça da mansidão em qualquer conflito».”

Insiste Bergoglio: “O «sinal» é precisamente a humildade de Deus, a humildade de Deus levada ao extremo; é o amor com que Ele, naquela noite, assumiu a nossa fragilidade, o nosso sofrimento, as nossas angústias, os nossos desejos e as nossas limitações. A mensagem que todos esperavam, que todos procuravam nas profundezas da própria alma, mais não era que a ternura de Deus: Deus que nos fixa com olhos cheios de afeto, que aceita a nossa miséria, Deus enamorado da nossa pequenez. (…)O curso dos séculos tem sido marcado por violências, guerras, ódio, prepotência. Mas Deus, que havia posto suas expectativas no homem feito à sua imagem e semelhança, esperava. Deus esperava. O tempo de espera fez-se tão longo que a certo momento, quiçá, deveria renunciar; mas Ele não podia renunciar, não podia negar-Se a Si mesmo (cf. 2 Tm 2, 13). Por isso, continuou a esperar pacientemente face à corrupção de homens e povos. A paciência de Deus… Como é difícil compreender isto: a paciência de Deus para conosco!” Terminando, é essa confiança em Deus que nos leva a ter perspectivas de vida maravilhosas.


São amáveis as vossas moradas, senhor!

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A nossa existência nem sempre é fácil. É marcada pelas alegrias e dores, pelas maravilhas e incertezas, pelas tranquilidades e sofrimentos. A nossa vida é uma peregrinação, marcada pelas provisoriedades da caminhada. Na peregrinação não temos certezas, a não ser o presente que enfrentamos todos os dias. A respeito disso, quero relembrar que o nosso Deus se define na fala com Moisés como “Eu Sou”, verbo presente. É o presente que define Deus e, portanto, também a nossa vida. Essa é a grande certeza. Nesse sentido, leia o salmo 83 das Sagradas Escrituras que te ajuda a compreender a tua vida a partir de Deus:

“Como são amáveis as vossas moradas, Senhor dos exércitos! Minha alma desfalecida se consome suspirando pelos átrios do Senhor. Meu coração e minha carne exultam pelo Deus vivo. Até o pássaro encontra um abrigo, e a andorinha faz um ninho para pôr seus filhos. Ah, vossos altares, Senhor dos exércitos, meu rei e meu Deus! Felizes os que habitam em vossa casa, Senhor: aí eles vos louvam para sempre. Feliz o homem cujo socorro está em vós, e só pensa em vossa santa peregrinação. Quando atravessam o vale árido, eles o transformam em fontes, e a chuva do outono vem cobri-los de bênçãos. Seu vigor aumenta à medida que avançam, porque logo verão o Deus dos deuses em Sião. Senhor dos exércitos, escutai minha oração, prestai-me ouvidos, ó Deus de Jacó. Ó Deus, nosso escudo, olhai; vede a face daquele que vos é consagrado. Verdadeiramente, um dia em vossos átrios vale mais que milhares fora deles. Prefiro deter-me no limiar da casa de meu Deus a morar nas tendas dos pecadores. Porque o Senhor Deus é nosso sol e nosso escudo, o Senhor dá a graça e a glória. Ele não recusa os seus bens àqueles que caminham na inocência. Ó, Senhor dos exércitos, feliz o homem que em vós confia.”

Esse belo salmo é dedicado ao Deus da vida, verdadeira potência do universo que tudo lhe pertence. A definição de “Deus dos exércitos” quer dizer que Ele é Senhor das armadas das estrelas, de todo o cosmo e defensor de Israel, seu povo escolhido. Esse hino se contextualiza, provavelmente, na famosa festa das tendas. Estamos na estação do outono que é o tempo de colheita e também revivendo a peregrinação no deserto da grande libertação da terra de escravidão do Egito. Portanto, é a celebração no Templo onde a peregrinação é destinada; é tudo aí que se centraliza a peregrinação humana.

Assim, o salmo evidencia dois aspectos do famoso Templo: a) De um lado, mostra o Templo sem movimento, onde se contempla como fosse um sinal de uma residência espiritual, isto é, da sintonia com Deus. Quer dizer que somente no Templo tem vida, porque aí te defende de todo mal e protege a mesma vida. Nesse lugar sagrado, o fiel que reza pode contemplar os passarinhos, devido a sua grandeza tem os próprios ninhos, voando liberalmente e dando show de felicidade, simbolizando assim a felicidades dos sacerdotes que tem a sorte de morarem no Templo, demonstrando uma residência definitiva e afastando desse modo a peregrinação símbolo da provisoriedade.

b) Do outro lado, focaliza sobre a peregrinação. De fato, no salmo, vemos a procissão do peregrino que vem do norte, passa pelo Líbano, de aldeia para aldeia, naturalmente enfrentando tempo de sol e de chuva, e esta última representando um futuro cheio de bênçãos, revigorado pelas aguas refrescantes. Na medida em que se aproximar da cidade santa, ele, peregrino, pode avistar no horizonte o Santuário de Deus. É toda uma linguagem simbólica essa peregrinação que representa a dureza da vida, os sofrimentos que, porém, vale a pena tudo isso porque leva ao encontro maravilhoso e alegre com o Deus da vida. Achei interessante o comentário do papa Francisco a respeito disso na audiência- geral de 26 de abril de 2017:

“A nossa existência é uma peregrinação, temos uma alma migrante. Somos um povo de caminhantes, tendo Jesus por companheiro de viagem: «Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos». Assim quis Ele assegurar-nos de que não Se limita a esperar-nos lá no fim da nossa viagem, mas já nos acompanha em cada um dos nossos dias”.

E acrescentou também isso: “Não haverá dia algum da nossa vida em que deixaremos de ser objeto da sua solicitude. E Deus cuidará de todas as nossas necessidades; não nos abandonará nos dias tenebrosos da provação. De fato, a esperança cristã não encontra a sua raiz na sedução radiosa do futuro, mas na certeza daquilo que Deus nos prometeu e realizou em Jesus Cristo”.


Só ele, o altissimo!

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O salmo 82, das Sagradas Escrituras, é uma preocupação e lamento de Israel porque os inimigos estão se organizando para ataca-lo. E essas tramas de inimizades, de guerra, estão se tornando cada vez mais consistentes contra ele. Por isso, invocam ajuda ao próprio Deus, o Altíssimo. Leia atentamente o que diz o salmo das Sagradas Escrituras.

“Senhor, não fiqueis silencioso, não permaneçais surdo, nem insensível, ó Deus. Porque eis que se tumultuam vossos inimigos, levantam a cabeça aqueles que vos odeiam. Urdem tramas para o vosso povo, conspiram contra vossos protegidos. Vinde, dizem eles, exterminemo-lo dentre os povos, desapareça a própria lembrança do nome de Israel. Com efeito, eles conspiram de comum acordo e contra vós fazem coalizão: os nômades de Edom e os ismaelitas, Moab e os agarenos, Gebal, Amon e Amalec, a Filistéia com as gentes de Tiro. Também os assírios a eles se uniram, e aos filhos de Lot ofereceram a sua força. Tratai-os como Madiã e Sísara, e Jabin junto à torrente de Cison! Eles pereceram todos em Endor e serviram de adubo para a terra. Tratai seus chefes como Oreb e Zeb; como Zebéia e Sálmana, seus príncipes, que disseram: Tomemos posse das terras onde Deus reside. Ó meu Deus, fazei deles como folhas que o turbilhão revolve, como a palha carregada pelo vento. Como o fogo que devora a mata, como a labareda que incendeia os montes; Persegui-os com a vossa tempestade, apavorai-os com o vosso furacão. Cobri-lhes a face da ignomínia, para que, vencidos, busquem, Senhor, o vosso nome. Enchei-os de vergonha e de humilhação eternas, que eles pereçam confundidos. E que reconheçam que só vós, cujo nome é Senhor, sois o Altíssimo sobre toda a terra.”

O salmo inicia pedindo a Deus para não ficar surdo nem silencioso e insensível, porque os inimigos do povo, por Ele escolhido, estão conspirando contra ele. Querem acabar com ele, povo de Deus. Assim sendo, esses inimigos, no final, são também inimigos de Deus, querem cancelar o nome Dele da face da terra. Eles, os inimigos, são tão ousados em pretender se opor a Deus e elimina-Lo. Israel, então, apela fortemente a Deus para se fazer presente e destruí-los.

O povo de Israel não tem suficiente força para combatê-los. Quem são esses inimigos? São Edome os ismaelitas, Moab e os agarenos, Gebal, Amon e Amalec, a Filistéia com as gentes de Tiro e também os assírios a eles se uniram, e aos filhos de Lot. Perante todo esse poderoso bloco dos inimigos, Israel se opõe confiando na ação poderosa de seu Deus, como já tinha agido no passado dele.

Por isso, relembra as vitórias do passado que esmagou os seus inimigos. Por exemplo, o salmista recorda os povos que tentaram conquistar Israel: “Madiã e Sísara, e Jabin junto à torrente de Cison!”. O destino deles que foram mortos e serviram como adubo para a terra. Uma maldição, além do mais, porque não tiveram sepultura e reduzidos a pó pisado por todo mundo.
Assim se manifesta a poesia da invocação oriental e da guerra santa. Com tudo, Deus é o juiz supremo da história e todos os povos; no final, O buscarão como única verdade e salvação. Nos versículos 14-16, revela o juízo universal, representado pelas teofanias, isto é manifestação de Deus, que tem como símbolos “as folhas que o turbilhão revolve, como a palha carregada pelo vento. Como o fogo que devora a mata, como a labareda que incendeia os montes. Persegui-os com a vossa tempestade!”

Assim, Deus humilha os inimigos do seu povo, dos seus eleitos. Ninguém escapa de Deus. Assim sendo, o salmo 82 reflete que, através das provas da vida, fortalece-se a esperança em Deus, o Altíssimo, grande Mistério da vida, que vai além da nossa capacidade intelectual. E o papa Francisco falou a respeito no Angelus, oração dominical do meio-dia no Vaticano, no dia 20.08.2017:
“Aquela humilde mulher é indicada por Jesus como um exemplo de fé inquebrantável. Sua insistência em invocar a ação de Cristo é para nós um estímulo a não nos desencorajarmos, a não nos desesperarmos quando formos oprimidos pelas duras provas da vida. O Senhor não vira para o outro lado quando vê as nossas necessidades e, se por vezes pode parecer insensível aos nossos pedidos de ajuda, é para nos colocar à prova e fortalecer a nossa fé”.

Continuou o papa Bergoglio: “Ele pode nos ajudar a encontrar a direção quando perdemos a bússola de nosso caminho; quando a estrada diante de nós não é mais tão plana, mas áspera e árdua; quando é cansativo ser fiel aos nossos compromissos. É importante alimentar todos os dias a nossa fé, com a escuta atenta da Palavra de Deus, com a celebração dos Sacramentos, com a oração pessoal como um ‘grito’ para Ele, e com atos concretos de caridade com o próximo.”


Deus, liberta-nos!

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Na medida em que a gente se afasta de Deus, o egoísmo se aproxima. A pessoa se sente o centro de tudo e tudo deve rodar em torno o seu ‘ego’. Assim sendo, fica muito mais complicado, por exemplo, saber escutar, reconhecer o valor dos outros e entender que o outro é mais importante do que o próprio eu. Conheci um senhor que trabalhou a vida toda pensando somente em como faturar cada vez mais, enchendo a sua conta no banco. No entanto, até a esposa ele não respeitava, porque o dinheiro era mais importante. Por sinal, ele nem teve filhos. Chegou o momento que faleceu a esposa e homem ficou sozinho, mas ele se consolava e se sentia seguro com a fortuna do dinheiro que tinha. Passaram uns anos e a sua saúde não aguentou e teve que ser internado num asilo, porque ficou sozinho, sem ninguém. Aliás, com o dinheiro. Foi nesta fase da vida que começou a despertar o que é a vida dele. Então, tomou consciência da sua pequenez e de que o dinheiro era nada. Por isso, passa dia chorando o tempo todo. A única coisa que lhe sobrou foram o lamento e as lágrimas. Quem pode nos libertar dessa escravidão da materialidade do dinheiro? O salmo 81 das Sagradas Escrituras nos ajuda a refletir sobre isso.

“Levanta-se Deus na assembleia divina, entre os deuses profere o seu julgamento. Até quando julgareis iniquamente, favorecendo a causa dos ímpios? Defendei o oprimido e o órfão, fazei justiça ao humilde e ao pobre, livrai o oprimido e o necessitado, tirai-o das garras dos ímpios. Eles não querem saber nem compreender, andam nas trevas, vacilam os fundamentos da terra. Eu disse: Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo. Contudo, morrereis como simples homens e, como qualquer príncipe, caireis. Levantai-vos, Senhor, para julgar a terra, porque são vossas todas as nações.”

Quem poderia ser uns dos inimigos que oprimem as pessoas nos dia de hoje? Eu creio que o desejo de ter cada vez mais, de concentrar a própria vida no dinheiro, é uma verdadeira ameaça à vida humana. Este salmo se concentra na palavra ‘deuses’. E esses ‘deuses’ tiveram uma dupla interpretação. No começo, quando foi redigido, teve a interpretação contra a idolatria. O Deus verdadeiro revela a nulidade desses deuses. Não são capazes de nada. Esses ídolos não sabem libertar o oprimido e defender a justiça. Esses deuses desaparecem. No entanto, o Deus verdadeiro é um Deus libertador, que vai além do tempo e do espaço e não tem limites.

Este salmo no período da profecia, no Antigo Testamento, sobre a questão da justiça, foi muito usado contra a corrupção das magistraturas. E também, insiste o hino, como Deus combate os poderosos deste mundo, porque são os culpados da opressão e exploração do pobre. Sempre segundo o salmo, esses poderosos se iludem de ser onipotentes e imortais, mas são como todo mundo votados à morte. Único justo e imparcial é Deus. É Ele o Senhor da história. E sua realeza nos garante de sermos deuses, enquanto suas obras. E esta obra é marcada pela sua graça, porque fomos resgatados pela sua Salvação, e porque adotados como filhos e filhas Dele.

Nesse sentido, podemos erguer a nossa cabeça e contemplar a maravilha da nossa vida. E o nosso papa Francisco nos ajuda a compreender melhor essa nossa preciosidade de filhos e filhas de Deus, por meio da homilia feita em Santa Marta, no dia 4 de julho de 2013: “Reconciliando o mundo em Cristo em nome do Pai: “esta é a missão de Jesus. Todas as outras, as curas, o ensinamento, as repreensões são apenas sinais desse milagre mais profundo que é a recriação do mundo. Uma bela oração da Igreja diz: “Ó Senhor, você que criou o mundo maravilhosamente, mais maravilhosamente você o redimiu, você o recriou”». A reconciliação é, portanto, a recriação do mundo e a missão mais profunda de Jesus é a redenção de todos nós pecadores. E “Jesus – acrescentou o Papa – isso não acontece com palavras, não com gestos, não andando na estrada, não! Ele faz isso com sua carne. É ele, Deus, que se torna um de nós, homem, para nos curar de dentro “. Mas, o Pontífice se perguntou: “pode-se dizer que Jesus se tornou um pecador? Não é assim, porque ele não podia pecar. São Paulo diz a palavra certa: ele não se fez pecador se fez pecado (ver 2 Coríntios 5, 21). Ele tomou todo o pecado sobre si mesmo. E isso é lindo, esta é a nova criação”, é “Jesus que desce da glória e se abaixa até a morte e a morte na cruz. Essa é a sua glória e esta é a nossa salvação. E a cruz no final, se faz pecado (veja 2 Coríntios 5:21) “.


Mensagem do papa francisco, para a quaresma e campanha da fraternidade 2018

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Queridos irmãos e irmãs do Brasil!
Neste tempo quaresmal, de bom grado me uno à Igreja no Brasil para celebrar a Campanha “Fraternidade e a superação da violência”, cujo objetivo é construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência. Desse modo, a Campanha da Fraternidade de 2018 nos convida a reconhecer a violência em tantos âmbitos e manifestações e, com confiança, fé e esperança, superá-la pelo caminho do amor visibilizado em Jesus Crucificado.

Jesus veio para nos dar a vida plena (cf. Jo 10, 10). Na medida em que Ele está no meio de nós, a vida se converte num espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos (cf. Exort. Apost. Evangelii gaudium, 180). Este tempo penitencial, onde somos chamados a viver a prática do jejum, da oração e da esmola nos faz perceber que somos irmãos. Deixemos que o amor de Deus se torne visível entre nós, nas nossas famílias, nas comunidades, na sociedade.

“É agora o momento favorável, é agora o dia da salvação” (2 Co 6,2; cf. Is 49,8), que nos traz a graça do perdão recebido e oferecido. O perdão das ofensas é a expressão mais eloquente do amor misericordioso e, para nós cristãos, é um imperativo de que não podemos prescindir. Às vezes, como é difícil perdoar! E, no entanto, o perdão é o instrumento colocado nas nossas frágeis mãos para alcançar a serenidade do coração, a paz. Deixar de lado o ressentimento, a raiva, a violência e a vingança são condições necessárias para se viver como irmãos e irmãs e superar a violência. Acolhamos, pois, a exortação do Apóstolo: “Que o sol não se ponha sobre o vosso ressentimento” (Ef 4, 26).

Sejamos protagonistas da superação da violência fazendo-nos arautos e construtores da paz. Uma paz que é fruto do desenvolvimento integral de todos, uma paz que nasce de uma nova relação também com todas as criaturas. A paz é tecida no dia-a-dia com paciência e misericórdia, no seio da família, na dinâmica da comunidade, nas relações de trabalho, na relação com a natureza. São pequenos gestos de respeito, de escuta, de diálogo, de silêncio, de afeto, de acolhida, de integração, que criam espaços onde se respira a fraternidade: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8), como destaca o lema da Campanha da Fraternidade deste ano. Em Cristo somos da mesma família, nascidos do sangue da cruz, nossa salvação. As comunidades da Igreja no Brasil anunciem a conversão, o dia da salvação para conviverem sem violência.

Peço a Deus que a Campanha da Fraternidade deste ano anime a todos para encontrar caminhos de superação da violência, convivendo mais como irmãos e irmãs em Cristo. Invoco a proteção de Nossa Senhora da Conceição Aparecida sobre o povo brasileiro, concedendo a Bênção Apostólica. Peço que todos rezem por mim.
Vaticano, 2018.

FRANCISCUS PP.


Quaresma: tempo de conversão

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Logo depois do carnaval, na ‘quarta feira de cinzas’, iniciamos a quaresma. Quaresma, ‘sinal sacramental da nossa conversão’! E o santo padre Francisco, nos envia uma profunda mensagem para esse tempo tão importante. Eu não vou transcrever a mensagem na íntegra, devido ao pouco espaço que tenho nessa coluna, mas reportarei algumas passagens que mais marcam o texto. Papa Francisco inicia com a frase do evangelho de Mateus (24,12):«Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos». Por que o santo padre cita essas palavras? Ele diz: “Esta frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá início a paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenómenos espaventosos, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.” E quem são os falsos profetas? E sempre o papa: “Uns assemelham-se a «encantadores de serpentes», ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!” Continua Francisco: “Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido! Estes impostores, ao mesmo tempo que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; e, do ridículo, não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demónio, que é «mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verificar se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas. É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rasto bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente o nosso bem.” Ainda o papa:“Como se resfria o amor em nós? (…) O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, «raiz de todos os males»: depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n’Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos.[3] (…)E o amor resfria-se também nas nossas comunidades. São eles a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se em contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário.” O que fazer, se pergunta o papa: “A Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum.Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos, para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida.A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão que vivemos na Igreja. (…)

Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.” E insiste o papa: “Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender com ardor o caminho da Quaresma, apoiados na esmola, no jejum e na oração.” (papa Francisco)


Escutai, ó pastor de Israel!

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Cada pessoa tem histórias para contar. São muitas e diversificadas. Mas aquelas que mais marcam são os sofrimentos e o desespero do abandono. Um dia um senhor me encontrou e quis desabafar comigo. O seu casamento não tinha mais sentido, os filhos não se sentiam mais à vontade na família e a esposa tomava rumos que o levaram ao desespero. Então, ele se questionava sobre o porquê de tudo aquilo. Certamente, ele acrescentou, “eu tenho as minhas culpas”. Continuou ele: “Mas por que devemos sofrer assim? Por que não conseguimos nos entender? Por que não conseguimos viver numa boa harmonia?” Onde encontrar uma resposta exaustiva a tudo isso e mais? Leia esse salmo 79 das Sagradas Escrituras para tentar dar uma resposta:

“Escutai, ó pastor de Israel, vós que levais José como um rebanho. Vós que assentais acima dos querubins, mostrai vosso esplendor em presença de Efraim, Benjamim e Manassés. Despertai vosso poder, e vinde salvar-nos. Restaurai-nos, ó Senhor; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos. Ó Deus dos exércitos, até quando vos irritareis contra o vosso povo em oração? Vós o nutristes com o pão das lágrimas, e o fizestes sorver um copioso pranto. Vós nos tornastes uma presa disputada dos vizinhos: os inimigos zombam de nós. Restaurai-nos, ó Deus dos exércitos; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos. Uma vinha do Egito vós arrancastes; expulsastes povos para a replantar. O solo vós lhes preparastes; ela lançou raízes nele e se espalhou na terra. As montanhas se cobriram com sua sombra, seus ramos ensombraram os cedros de Deus. Até o mar ela estendeu sua ramagem, e até o rio os seus rebentos. Por que derrubastes os seus muros, de sorte que os passantes a vindimem, e a devaste o javali do mato, e sirva de pasto aos animais do campo? Voltai, ó Deus dos exércitos; olhai do alto céu, vede e vinde visitar a vinha. Protegei este cepo por vós plantado, este rebento que vossa mão cuidou. Aqueles que a queimaram e cortaram pereçam em vossa presença ameaçadora. Estendei a mão sobre o homem que escolhestes, sobre o homem que haveis fortificado. E não mais de vós nos apartaremos; conservai-nos a vida e então vos louvaremos. Restaurai-nos, Senhor, ó Deus dos exércitos; mostrai-nos serena a vossa face e seremos salvos.”

Este salmo é mais uma lamentação de todo o povo de Israel. É neste salmo que se descreve, como símbolo de Israel, a vinha. E mostra como esta vinha foi perseguida por uma tempestade tão violenta que os deixou numa profunda tristeza. Assim o salmo inicia, descrevendo como Deus sempre tinha guiado o seu povo Israel pela arca. Depois, de repente, parece que cochilou e se tornou indiferente à vida do seu povo. Parece que se esqueceu dele. Israel deseja de todo coração ter de novo o controle de Deus, que guia o seu rebanho, o conduz pelas suas pastagens e o farta de seus bens e, assim, dar posse numa vinha privilegiada.

O centro desse hino é caracterizado pelo simbolismo da vinha. Isto significa que, por meio da vinha, quer lembrar as suas próprias raízes, como nasceu sobretudo a partir da grande experiência do êxodo do Egito rumo à terra prometida e a sua própria chegada. A vinha alcançou um crescimento exuberante com Salomão, tanto de descrever que toda Palestina tivesse invadida pela folhagem verde da videira de Israel. Porém, agora esse encanto se quebrou. Parece que Deus, parecido a um invasor, derrubou o muro que defendia essa vinha, deixando assim a ser pisoteada e perder toda aquela floração que tinha no passado.

Perante essa realidade arrasadora surge um forte apelo para Deus: “Voltai, ó Deus dos exércitos”. Assim sendo, Deus não pode ser contra o seu povo Israel, mas ansiosamente espera a sua volta para que a sua vinha volte àquela de antigamente: ser fecunda. É claramente um hino marcado pelo sofrimento, mas, ao mesmo tempo, de uma grande confiança no seu Deus. As tempestades da vida são contrapostas pela confiança em Deus. Enfim, o papa Francisco nos enriquece a respeito através de um trecho da sua homilia feita no dia 19.01.2014:

“Muitas vezes temos confiança num médico: e isto é bom, porque o médico existe para nos curar; temos confiança numa pessoa: os irmãos e as irmãs podem ajudar-nos. É bom nutrir entre nós esta confiança humana. Contudo, nós esquecemos a confiança no Senhor: esta é a chave do sucesso da vida. A confiança no Senhor! Confiemos no Senhor! «Senhor, vê a minha vida: estou na escuridão, tenho que enfrentar esta dificuldade, cometi este pecado…»; tudo o que nós temos: «Olha para isto: eu confio em ti!». E esta é uma aposta que nós devemos fazer: confiar Nele, que nunca desilude. Nunca, jamais! Ouvi bem, vós rapazes e moças, que começais a vida agora: Jesus nunca desilude. Nunca!”


De geração em geração, cantaremos os vossos louvores

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Muitas pessoas me dizem: “Padre, vou todos os dias à igreja, rezo sempre, mas nada está dando certo! Parece que a vida dos não crentes seja mais clemente e vitoriosa. A vida dos bandidos parece ser mais feliz! Por que isso?” O salmo 78 nos fala o seguinte:

“Senhor, povos infiéis invadiram a vossa herança, profanaram o vosso santo templo. De Jerusalém fizeram um montão de ruínas. Os corpos de vossos servos expuseram como pasto às aves, e os de vossos fiéis às feras da terra. Rios de sangue fizeram correr em torno de Jerusalém, e nem sequer havia quem os sepultasse. Tornamo-nos, para nossos vizinhos, objetos de desprezo, de escárnio e zombaria para os povos que nos cercam. Até quando, Senhor?… Será eterna vossa cólera? Será como um braseiro ardente o vosso zelo? Desferi, antes, vossa ira sobre as nações que não vos conhecem, e sobre os reinos que não invocam o vosso nome, pois Jacó foi por eles devorado e devastaram a sua habitação. De nossos antepassados esqueçais as culpas; vossa misericórdia venha logo ao nosso encontro, porque estamos reduzidos a extrema miséria. Ajudai-nos, ó Deus salvador, pela glória de vosso nome; livrai-nos e perdoai-nos os nossos pecados pelo amor de vosso nome. Por que hão de dizer as nações pagãs: Onde está o seu Deus? Mostrai-lhes, a esses pagãos, diante de nossos olhos, que pedireis conta do sangue de vossos fiéis, por eles derramado. Cheguem até vós os gemidos dos cativos: livrai, por vosso braço, os condenados à pena de morte. Sobre as cabeças dos nossos vizinhos recaiam, sete vezes, as injúrias com que vos ultrajaram, Senhor. Quanto a nós, vosso povo e ovelhas de vosso rebanho, glorificaremos a vós perpetuamente; de geração em geração cantaremos os vossos louvores.”

Vamos dar uma pequena explicação sobre esse salmo. É uma grande choradeira de todo o povo de Israel pelo fato de que o Templo de Jerusalém foi praticamente destruído. Esse Templo que representa tudo para eles. Então se questiona o porquê de tudo isso. E a resposta é o pecado de Israel. Esse pecado, de se afastar de Deus, tomou conta de Jerusalém. Assim sendo, a justiça de Deus não podia ficar parada. E a destruição é uma consequência da justiça divina e, ao mesmo tempo, a restauração por meio da expiação; e o perdão é a resposta de Deus em defesa da sua potência e da sua fidelidade.

Os primeiros versículos são uma descrição da devastação e profanação do Templo: um montão de ruínas e muitos corpos no chão ao pasto dos urubus. Sangue derramado por todo lado que brilha ao sol. Uma tristeza absoluta. Perante essa brutalidade feita pelo exército de Babilônia é somente um aspecto da verdade, segundo Israel; e o outro aspecto é de se buscar na profanação que Israel mesmo fez com o seu pecado. Quase uma autoconfissão pelo povo escolhido: afastar-se de Deus pode comportar tudo isso. Então, como reagir a tanta calamidade? Única coisa é o arrependimento.
É perante o arrependimento que Deus volta a defender o seu povo, protegendo-o de tantos ataques dos inimigos. Daqui se incrementa a esperança de uma espera da misericórdia por parte de Deus e, ao mesmo tempo, a certeza de que o Senhor defenderá o seu fiel, o seu povo. Assim sendo, o salmo nos revela a vontade de nunca desistir em combater o mal e de não se deixar levar pelo desânimo. Nunca se acomodar, porque a renúncia leva a ter uma vida apagada, infecunda, incapaz perante os eventos da vida a ter uma posição. É necessário manter essa força para manter vivo o presente e o futuro da vida.

Este é um privilégio de fazer da nossa vida bem viva e não envelhecida. Uma vida de maravilha. E nesse sentido o papa Francisco reforça a importância do perdão de Deus, durante a audiência geral que teve no dia 9 de agosto de 2017: “É bom pensar que Deus não escolheu como primeira massa, para formar a sua Igreja, pessoas que nunca erravam. A Igreja é um povo de pecadores que experimentam a misericórdia e o perdão de Deus. Pedro entendeu mais verdades sobre si mesmo ao canto do galo, do que dos seus impulsos de generosidade, que lhe enchiam o peito, levando-o a sentir-se superior em relação aos outros. Irmãos e irmãs, todos nós somos pobres pecadores, necessitados da misericórdia de Deus, que tem a força de nos transformar e restituir esperança, e isto todos os dias. E fá-lo! E às pessoas que entenderam esta verdade basilar, Deus confia a missão mais bonita do mundo, ou seja, o amor aos irmãos e às irmãs, e o anúncio de uma misericórdia que Ele não nega a ninguém. E esta é a nossa esperança. Vamos em frente com esta confiança no perdão, no amor misericordioso de Jesus.”


Povo meu, siga o meu testemunho!

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O extenso salmo 77 é um grande louvor ao Deus que age na história como o verdadeiro protagonista da nossa salvação.

“Escuta, ó meu povo, minha doutrina; às palavras de minha boca presta atenção. Abrirei os lábios, pronunciarei sentenças, desvendarei os mistérios das origens. O que ouvimos e aprendemos, através de nossos pais, nada ocultaremos a seus filhos, narrando à geração futura os louvores do Senhor, seu poder e suas obras grandiosas. Ele promulgou uma lei para Jacó, instituiu a legislação de Israel, para que aquilo que confiara a nossos pais, eles o transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração o conhecesse, e os filhos que lhes nascessem pudessem também contar aos seus.

Aprenderiam, assim, a pôr em Deus sua esperança, a não esquecer as divinas obras, a observar as suas leis; e a não se tornar como seus pais, geração rebelde e contumaz, de coração desviado, de espírito infiel a Deus. Os filhos de Efraim, hábeis no arco, voltaram as costas no dia do combate. Não guardaram a divina aliança, recusaram observar a sua lei. Eles esqueceram suas obras, e as maravilhas operadas ante seus olhos. Em presença de seus pais, ainda em terras do Egito, ele fez grandes prodígios nas planícies de Tanis. O mar foi dividido para lhes dar passagem, represando as águas, verticais como um dique; De dia ele os conduziu por trás de uma nuvem, e à noite ao clarão de uma flama. Rochedos foram fendidos por ele no deserto, com torrentes de água os dessedentara. Da pedra fizera jorrar regatos, e manar água como rios. Entretanto, continuaram a pecar contra ele, e a se revoltar contra o Altíssimo no deserto. Provocaram o Senhor em seus corações, reclamando iguarias de suas preferências. E falaram contra Deus: Deus será capaz de nos servir uma mesa no deserto? Eis que feriu a rocha para fazer jorrar dela água em torrentes. Mas poderia ele nos dar pão e preparar carne para seu povo? O Senhor ouviu e se irritou: sua cólera se acendeu contra Jacó, e sua ira se desencadeou contra Israel, porque não tiveram fé em Deus nem confiaram em seu auxílio. Contudo, ele ordenou às nuvens do alto, e abriu as portas do céu. Fez chover o maná para saciá-los, deu-lhes o trigo do céu. Pôde o homem comer o pão dos fortes, e lhes mandou víveres em abundância, depois fez soprar no céu o vento leste, e seu poder levantou o vento sul. Fez chover carnes, então, como poeira, numerosas aves como as areias do mar, as quais caíram em seus acampamentos, ao redor de suas tendas. Delas comeram até se fartarem, e satisfazerem os seus desejos. Mas apenas o apetite saciaram, estando-lhes na boca ainda o alimento, desencadeia-se contra eles a cólera divina, fazendo perecer a sua elite, e prostrando a juventude de Israel. Malgrado tudo isso, persistiram em pecar, não se deixaram persuadir por seus prodígios. Então, Deus pôs súbito termo a seus dias, e seus anos tiveram repentino fim. Quando os feria, eles o procuravam, e de novo se voltavam para Deus. E se lembravam que Deus era o seu rochedo, e que o Altíssimo lhes era o salvador. Mas suas palavras enganavam, e lhe mentiam com a sua língua. Seus corações não falavam com franqueza, não eram fiéis à sua aliança. Mas ele, por compaixão, perdoava-lhes a falta e não os exterminava. Muitas vezes reteve sua cólera, não se entregando a todo o seu furor. Sabendo que eles eram simples carne, um sopro só, que passa sem voltar. Quantas vezes no deserto o provocaram, e na solidão o afligiram! Recomeçaram a tentar a Deus, a exasperar o Santo de Israel. Esqueceram a obra de suas mãos, no dia em que os livrou do adversário, quando operou seus prodígios no Egito e maravilhas nas planícies de Tânis. (…) Conduziu-o com firmeza sem nada ter que temer, enquanto aos inimigos os submergiu no mar. Ele os levou para uma terra santa, até os montes que sua destra conquistou. Ele expulsou nações diante deles, distribuiu-lhes as terras como herança, fez habitar em suas tendas as tribos de Israel. (…)”
Este salmo proclama o ‘Credo histórico’ transmitido pela geração antiga àquela mais jovem sobre a obra de salvação que Deus fez ao longo da história. E para transmitir tudo isso se evidencia o uso dos verbos ‘escutar – conhecer – narrar’; os sujeitos são os pais, filhos e gerações e o objeto da fé são as ações gloriosas e poderosas, os prodígios, as obras, as leis, os comandos, o testemunho e aliança. Assim mostra que a história é o lugar especial da revelação divina. Isto é, o Senhor ama manifestar-se dentro do tempo em que o ser humano se acha a vontade. Deus entra nas ações do homem e da mulher para botar as raízes da salvação. Esse Deus, portanto, é sempre protagonista nas vidas das criaturas. Ele, parece, não cansa em conduzir-nos.


Minha voz clama pelo meu Deus

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Um casal bem novo teve um filho. Tudo corre bem, inicialmente, mas depois de um ano e pouco de vida a criança adoece. Foi internada no hospital com risco de vida. Os pais, abalados, não sabiam mais o que fazer. O desespero tomou conta. A solidariedade dos amigos se intensificou, mas o quadro de saúde do filho estava piorando. Então, os pais intensificaram suas orações, apelando a Deus, autor da vida, que pudesse reverter o quadro de saúde do único filho. Com essa confiança, quiseram acompanhar o filho doente, clamando pelo Deus. O salmo 76 do Antigo Testamento das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender por que essa confiança.

“Minha voz se eleva para Deus e clamo. Elevo minha voz a Deus para que ele me atenda; No dia de angústia procuro o Senhor. De noite minhas mãos se levantam para ele sem descanso; e, contudo, minha alma recusa toda consolação. Faz-me gemer a lembrança de Deus; na minha meditação, sinto o espírito desfalecer. Vós me conservais os olhos abertos, estou perturbado, falta-me a palavra. Penso nos dias passados, lembro-me dos anos idos. De noite reflito no fundo do coração e, meditando, indaga meu espírito: Porventura, Deus nos rejeitará para sempre? Não mais há de nos ser propício? Estancou-se sua misericórdia para o bom? Estará sua promessa desfeita para sempre? Deus se terá esquecido de ter piedade? Ou sua cólera anulou sua clemência? E concluo então: O que me faz sofrer é que a destra do Altíssimo não é mais a mesma… Das ações do Senhor eu me recordo, lembro-me de suas maravilhas de outrora. Reflito em todas vossas obras, e em vossos prodígios eu medito. Ó Deus, santo é o vosso proceder. Que deus há tão grande quanto o nosso Deus? Vós sois o Deus dos prodígios, vosso poder manifestastes entre os povos. Com o poder de vosso braço resgatastes vosso povo, os filhos de Jacó e de José. As águas vos viram, Senhor, as águas vos viram; elas tremeram e as vagas se puseram em movimento. Em torrentes de água as nuvens se tornaram, elas fizeram ouvir a sua voz, de todos os lados fuzilaram vossas flechas. Na procela ribombaram os vossos trovões, os relâmpagos iluminaram o globo; abalou-se com o choque e tremeu a terra toda. Vós vos abristes um caminho pelo mar, uma senda no meio das muitas águas, permanecendo invisíveis vossos passos. Como um rebanho conduzistes vosso povo, pelas mãos de Moisés e de Aarão.”

Este salmo mostra como o fiel, perante os problemas do cotidiano que ameaçam a vida, apela ao auxilio de Deus, único verdadeiro socorredor. Perante as ameaças da vida, que não são poucas, se confia na intervenção de Deus. Enfrentar tudo isso, sobretudo os momentos mais tenebrosos, chega-se até em desconfiar em Deus: por que tudo isso? Por que comigo nada dá certo? Somente dor e sofrimento se questiona o fiel. O conflito que se gera neste orante está entre um passado melhor e vencedor e um presente marcado pela derrota e o drama.

Nesse contraste violento da pessoa e da comunidade, se questionam se Deus na sua ação mudou. Ele não nos ama mais? Cansou-se da humanidade? Ele nos abandonou? O salmo inicia, dos versículos de 2 a 11, com uma angústia e súplica a respeito do presente triste e sobre o silêncio de Deus. Tudo isso é representado por uma noite de lágrimas, de oração e meditação. O salmista vive um drama assim chamado espiritual: esse Deus que fez tantos prodígios no passado, ajudou Israel a sair da escravidão do Egito e conquistar a terra prometida, agora ficou mudo, não é mais operante. Por que isso? Questiona-se o fiel.

Não pode ser uma simples ilusão de Deus naquilo que operou no passado. É Ele o Deus de ontem e hoje. Assim sendo, o fiel reconhece nesta segunda parte do salmo que Deus salvou Israel no passado e que foi o Senhor da história e do universo e o presente, portanto, iluminado pela experiência salvadora passada, torna-se a sua efetiva esperança. Aquele passado, antes ou depois, se manifestará com toda a sua força também no presente.

A salvação passada é penhor daquela que se espera. E o salmista relembrando os prodígios do passado quer afirmar as razões da esperança. Sim, Deus no passado guiou o seu povo pelo deserto para conduzi-lo à terra prometida. A sua ‘mão poderosa’ e invisível era representada pela mão visível de Moisés e Arão. Portanto, aquela salvação do passado é hipoteca de um novo êxodo, uma nova salvação definitiva do novo povo de Deus. Assim sendo, o salmo iniciou com uma profunda lamentação e termina com um hino de fé e de esperança ao nosso verdadeiro pastor de todos. Este é um salmo de encorajamento perante as dificuldades da vida.