O senhor reina, tremem os povos!

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Da Antropologia Teológica, reafirmamos nossa fé no ser humano, como fruto do “sopro de Deus” que lhe dá vida. Aprendemos que para descobrir Deus temos de passar pelo ser humano. Muitas vezes, presos na lógica do mundo, pensamos apenas no homem decaído, que não presta, que não tem jeito. Mas, esse humano não se esgota em sua trajetória histórica e sua escolha pelo pecado. Nós não vemos Deus. Então, o que estamos vendo? A obra dele! Esse conhecimento é “uma porta aberta ao infinito”. E no fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo.

O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado. A consciência é o centro mais secreto e o santuário do homem, no qual se encontra a sós com Deus, cuja voz se faz ouvir na intimidade do seu ser. Pela fidelidade à voz da consciência, os cristãos estão unidos aos demais homens, no dever de buscar a verdade e de nela resolver tantos problemas morais que surgem na vida individual e social. E o salmo 98 das Sagradas Escrituras nos convida a reconhecer a grandeza de Deus através do ser humano.

“O Senhor reina, tremem os povos; seu trono está sobre os querubins: vacila a terra. Grande é o Senhor em Sião, elevado acima de todos os povos. Seja celebrado vosso grande e temível nome, porque ele é Santo. Reina o Rei poderoso que ama a justiça; sois vós que estabeleceis o que é reto, sois vos que exerceis em Jacó o direito e a justiça. Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos ante o escabelo de seus pés, porque ele é Santo. Entre seus sacerdotes estavam Moisés e Aarão, e Samuel um dos que invocaram o seu nome: clamavam ao Senhor, que os atendia. Falava-lhes na coluna de nuvem, eles guardavam os seus preceitos e a lei que lhes havia dado. Senhor, nosso Deus, vós os ouvistes, fostes para eles um Deus propício, ainda quando puníeis as suas injustiças. Exaltai ao Senhor, nosso Deus, e prostrai-vos ante sua montanha santa, porque santo é o Senhor, nosso Deus.”

Este salmo celebra a santidade transcendente de Deus e, ao mesmo tempo, os compromissos dos seres humanos com Ele. É nessa reciprocidade que se vive o Deus que aposta tudo na vida. O hino aqui nos descreve a contemplação da potência de Deus com esses nomes: rei, grande, temível, excelso, santo, poderoso e justo. Para reforçar isso, focaliza uma reflexão moral sobre a Aliança como ajuda a viver mais intensamente a obra do Senhor. E por assinalar melhor isso são citados os grandes mediadores da aliança, quais: Moisés, Arão e Samuel. Moisés qual legislador, Arão o sacerdote e Samuel o profeta. Personagens destacadas na observância da Aliança.

De fato, foram fiéis em guardar os decretos e as leis de Deus, o qual os ouvia e perdoava nas suas falhas, exaltando-os na sua santidade. O ‘escabelo de seus pés’ de Deus, que quer dizer o trono Dele, Israel o tinha identificado na arca de puro ouro. E o Deus invisível se torna presente ao seu povo descendo nessa arca. E daqui Ele governa, julga e se pronuncia; pune e perdoa, manifestando assim a sua vontade. Desse trono da arca, espaço sagrado do templo, Deus todo poderoso se manifesta ao ser humano, deixando-o firme ou espantado, fiel ou perplexo.

E assim se perpetua a confiança em Deus, contrastando as propostas dos poderosos dessa terra que no fim são sempre ilusórias. A ação de Deus tão complexa e decidida será sempre a favor dos seus filhos e filhas. Um Deus, o nosso, que não é indiferente à nossa realidade, mas se compromete dia a dia conosco. Um Deus que garante a sua justiça, amando-nos até o fim. Assim sendo, qual é o deus tão próximo como o nosso Deus? E o papa Francisco, na homilia de 06.05.2018, falou o seguinte:

“Não fomos nós a amar Deus, mas Ele amou-nos em primeiro lugar. “Oh…eu amo a Deus. Faço cinco novenas por mês. Faço isso e aquilo…”. Sim, mas… como é a tua língua? Como vai a tua língua? É exatamente esta a pedra de comparação para ver o amor. Amo os outros? Pergunta-te: como vai a minha língua? Dir-te-á se é amor verdadeiro. Deus amou-nos em primeiro lugar. Espera-nos sempre com o amor. Mas o termómetro para saber a temperatura do meu amor é a língua. Se falou mal dos outros, não amei.”


Cantai ao senhor um cântico novo!

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É só na liberdade que o homem e mulher se podem converter ao bem e reconhecer as maravilhas do Senhor na vida deles. Os homens e as mulheres de hoje apreciam grandemente e procuram com ardor esta liberdade; e com toda a razão. Muitas vezes, porém, fomentam-na em um modo condenável, como se ela consistisse na licença para fazer seja o que for, mesmo o mal, contanto que agrade. A liberdade verdadeira é um sinal privilegiado da imagem divina no ser humano. Pois Deus quis «deixar o ser humano entregue à sua própria decisão» para que busque por si mesmo o seu Criador e livremente chegue à total e beatífica perfeição, aderindo a Ele. Exige, portanto, a dignidade do ser humano que ele proceda segundo a própria consciência e por livre adesão, ou seja, movido e induzido pessoalmente desde dentro e não levado por cegos impulsos interiores ou por mera coação externa.

Não é só a dor e a progressiva dissolução do corpo que atormentam o ser humano, mas também, e ainda mais, o temor de que tudo acabe para sempre. Mas a intuição do próprio coração fá-lo acertar, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da sua pessoa. O germe de eternidade que nele existe, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte. Todas as tentativas da técnica, por muito úteis que sejam, não conseguem acalmar a ansiedade do ser humano: o prolongamento da longevidade biológica não pode satisfazer aquele desejo de uma vida ulterior, invencivelmente radicado no seu coração. Assim sendo, o salmo 97, das Sagradas Escrituras, nos convida a reconhecer e cantar a presença prodigiosa de Deus na vida das pessoas como glorificação também do próprio ser humano.

“Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele operou maravilhas. Sua mão e seu santo braço lhe deram a vitória. 2.O Senhor fez conhecer a sua salvação. Manifestou sua justiça à face dos povos. 3.Lembrou-se de sua bondade e de sua fidelidade em favor da casa de Israel. Os confins da terra puderam ver a salvação de nosso Deus. 4.Aclamai o Senhor, povos todos da terra; regozijai-vos, alegrai-vos e cantai. 5.Salmodiai ao Senhor com a cítara, ao som do saltério e com a lira. 6.Com a tuba e a trombeta elevai aclamações na presença do Senhor rei. 7.Estruja o mar e tudo o que contém, o globo inteiro e os que nele habitam. 8.Que os rios aplaudam, que as montanhas exultem em brados de alegria 9.diante do Senhor que chega, porque ele vem para governar a terra. Ele governará a terra com justiça, e os povos com equidade.”

Este hino, cheio de alegria, de entusiasmo e confiança, é dedicado à realeza de Deus. O autor desse salmo nos convida a reconhecer as maravilhas que o Senhor opera entre nós. É um canto que permite ter uma ligação da ação presente de Deus na história da humanidade e a ação perfeita dos chamados ‘últimos tempos’. Justamente, esse salmo faz uma ligação do presente com o futuro em que o Senhor governará o mundo com justiça. É essa certeza de Deus, Senhor de todo o tempo, que sustenta e anima a comunidade. Uma comunidade que louva e se une à própria natureza em que o mar com o seu fragor faz ouvir o seu som ameaçador, e, ao mesmo tempo, eleva hinos ao Deus Senhor de toda a criação.

Além do mar, juntam-se os rios que com os seus percursos sinuosos parecem que elevam ao Senhor todo poderoso palmas, aplaudindo dando formas de dança jubilosa. E, enfim, as montanhas que se erguem para o céu parecem dançar perante o Senhor, dando força e vigor a toda a criação. Tudo isso revela que nem fosse como um imenso coro que exalta Deus o grande juiz. E o santo padre, papa Francisco, no dia 03 de fevereiro se 2016 falou a respeito: “A Sagrada Escritura nos apresenta Deus como misericórdia infinita, mas também como justiça perfeita. Como conciliar as duas coisas? Como se articula a realidade da misericórdia com as exigências da justiça? Poderia parecer que são duas realidades que se contradizem; na realidade não é assim, porque é justamente a misericórdia de Deus que leva a cumprimento a verdadeira justiça. Mas de qual justiça se trata?Se pensamos na administração legal da justiça, vemos que quem se considera vítima de uma injustiça se dirige ao juiz no tribunal e pede que seja feita justiça. Trata-se de uma justiça retributiva, que inflige uma pena ao culpado, segundo o princípio de que a cada um deve ser dado aquilo que lhe é devido. Como diz o livro dos Provérbios: “Quem pratica a justiça é destinado à vida, mas quem persegue o mal é destinado à morte” (11, 19).” Seguindo o nosso Deus podemos viver a verdadeira justiça.


Senhor, sois o soberano de toda a terra!

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O pecado original é a ruptura do ser humano com Deus, a rejeição de sua aliança e, assim, da amizade com Deus. Embora o pecado seja uma condição universal, que atinge a todos, o pecado não tem origem em Deus. Disso decorrem algumas consequências sobre as quais precisamos refletir:

• Todos têm pecado e precisam da salvação.
• O Antigo Testamento enfatiza a dimensão comunitária do pecado.
• O mal é transmitido entre as gerações (a solidariedade no mal); mas, também, existe a solidariedade no bem, a transmissão do bem entre as gerações.

Quanto à dimensão comunitária do pecado, lembremo-nos que há toda uma estrutura societária que sustenta o pecado. Há toda uma estrutura que reproduz a ruptura com Deus, que induz ao não respeito à sua Palavra e, assim, impede a realização plena dos objetivos da Criação. Por isso, convido-te a ler o salmo 96 das Sagradas Escrituras para ver como Deus se impõe qual soberano da terra, não obstante a existência do pecado.
“O Senhor reina! Que a terra exulte de alegria, que se rejubile a multidão das ilhas. Está envolvido em escura nuvem, seu trono tem por fundamento a justiça e o direito. Ele é precedido por um fogo que devora em redor os inimigos. Seus relâmpagos iluminam o mundo, a terra estremece ao vê-los. Na presença do Senhor, fundem-se as montanhas como a cera, em presença do Senhor de toda a terra. Os céus anunciam a sua justiça e todos os povos contemplam a sua glória. São confundidos os que adoram estátuas e se gloriam em seus ídolos; pois os deuses se prostram diante do Senhor. Ouve e se alegra Sião, exultam as cidades de Judá por causa de vossos juízos, Senhor. Porque vós, Senhor, sois o soberano de toda a terra, vós sois o Altíssimo entre todos os deuses. O Senhor ama os que detestam o mal, ele vela pelas almas de seus servos e os livra das mãos dos ímpios. A luz resplandece para o justo, e a alegria é concedida ao homem de coração reto. Alegrai-vos, ó justo, no Senhor, e dai glória ao seu santo nome.”

Este salmo se supõe que tenha sido redigido do século IV em diante a.C. pelo profeta quando retorna do exílio. O hino inicia com uma proclamação, “O Senhor reina!”, típico dos salmos em que o Senhor é aclamado rei (Salmos 47 e 93), qual poderosa manifestação da soberania de Deus. Aqui se trata de uma grande e majestosa manifestação de Deus através das tempestades da natureza contra qualquer idolatria e, no entanto, toma a defesa dos seus fiéis que o adoram. As aclamações do universo do céu e da terra recepcionam a vinda do grande Rei soberano de tudo, acompanhado das nuvens, pelas trevas, fogo e relâmpagos, e também pela justiça, o direito e a glória.

E o salmista descreve perante essa manifestação de Deus a reação negativa dos idólatras e dos ídolos contraposta àquela dos fiéis que se regozijam e ficam felizes. E a celebração litúrgica dos adoradores de Deus é um reavivar a presença soberana do Senhor que esmaga os adoradores de estátuas e faz triunfar os justos. Os justos são iluminados pelo Senhor rei do cosmo e, assim, compartilham desde já a sua plenitude da esperança de Vida. O autor desse hino define de maneira bem expressiva esses fiéis do Senhor: “Aqueles que amam o Senhor”, “Aqueles que odeiam o mal”, “Fiéis”, “Justos”, “Retos de coração”, “Homens da alegria”, “Alegrai-vos e dai glória ao seu santo nome.”

Inspirados pelo autor desse salmo, podemos reconhecer realmente que Deus é o nosso único soberano e que está acima de todas as nossas misérias e fracassos, conduzindo-nos na vida de plenitude. E o papa Francisco escreveu para o 51° Dia Mundial da Paz: “A sabedoria da fé nutre este olhar, capaz de intuir que todos pertencemos «a uma só família, migrantes e populações locais que os recebem, e todos têm o mesmo direito de usufruir dos bens da terra, cujo destino é universal, como ensina a doutrina social da Igreja. Aqui encontram fundamento a solidariedade e a partilha». Estas palavras propõem-nos a imagem da nova Jerusalém. O livro do profeta Isaías (cap. 60) e, em seguida, o Apocalipse (cap. 21) descrevem-na como uma cidade com as portas sempre abertas, para deixar entrar gente de todas as nações, que a admira e enche de riquezas. A paz é o soberano que a guia, e a justiça o princípio que governa a convivência dentro dela.(…)
Precisamos lançar também sobre a cidade onde vivemos este olhar contemplativo, «isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças (…), promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justiça», por outras palavras, realizando a promessa da paz.”


Cantai ao senhor, terra inteira!

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O pecado original é a ruptura do ser humano com Deus, a rejeição de sua aliança e, assim, da amizade com Deus. Embora o pecado seja uma condição universal, que atinge a todos, o pecado não tem origem em Deus. Disso decorrem algumas consequências sobre as quais precisamos refletir:

• Todos têm pecado e precisam da salvação.
• O Antigo Testamento enfatiza a dimensão comunitária do pecado.
• O mal é transmitido entre as gerações (a solidariedade no mal); mas, também, existe a solidariedade no bem, a transmissão do bem entre as gerações.

Quanto à dimensão comunitária do pecado, lembremo-nos que há toda uma estrutura societária que sustenta o pecado. Há toda uma estrutura que reproduz a ruptura com Deus, que induz ao não respeito a sua Palavra e, assim, impede a realização plena dos objetivos da criação. Nesse sentido, o salmo 95, das Sagradas Escrituras, nos convida a reconhecer o Deus único e louva-Lo e proclama-Lo às nações a sua glória. A glória que nos resgata do pecado.

“Cantai ao Senhor um cântico novo. Cantai ao Senhor, terra inteira. Cantai ao Senhor e bendizei o seu nome, anunciai cada dia a salvação que ele nos trouxe.Proclamai às nações a sua glória, a todos os povos as suas maravilhas. Porque o Senhor é grande e digno de todo o louvor, o único temível de todos os deuses.Porque os deuses dos pagãos, sejam quais forem, não passam de ídolos. Mas foi o Senhor quem criou os céus. Em seu semblante, a majestade e a beleza; em seu santuário, o poder e o esplendor. Tributai ao Senhor, famílias dos povos, tributai ao Senhor a glória e a honra, tributai ao Senhor a glória devida ao seu nome. Trazei oferendas e entrai nos seus átrios. Adorai o Senhor, com ornamentos sagrados. Diante dele estremece a terra inteira. Dizei às nações: O Senhor é rei. E (a terra) não vacila, porque ele a sustém. Governa os povos com justiça. Alegrem-se os céus e exulte a terra, retumbe o oceano e o que ele contém, regozijem-se os campos e tudo o que existe neles. Jubilem todas as árvores das florestas com a presença do Senhor, que vem, pois ele vem para governar a terra: julgará o mundo com justiça, e os povos segundo a sua verdade.”

Segundo o salmo, a natureza é como se fosse uma grande mensagem do seu Criador, em que proclama ‘o Senhor reina!’. É um hino que exalta e louva qual o destino do ser humano e da sua história. Um destino universal em que se terão novos céus e novas terras no reino definitivo e esplendoroso do Reino de Deus. O salmo nos convida a “sonhar” sobre o nosso futuro ligado em Deus. Uma nova realidade se prospecta para nós. Por isso, cantemos ao nosso Deus. Os versículos de 10 a 13 manifestam a grande alegria, porque a ação de Deus que vem para julgar e governar é iminente, está para acontecer.

Assim sendo, o ser humano não pode ficar indiferente e neutro na presença da idolatria, das nações que se prostram para ela. A presença de Deus aniquila tudo isso. Nesse sentido, o autor desse salmo é totalmente confiante que essa presença de Deus, que não tardará, tomará conta da história e ajudará os justos a participarem plenamente da nova vida no Senhor, autor de tudo o que contemplamos. É Ele o Senhor da vida e da nossa vida e, portanto, podemos sonhar com o futuro maravilhoso. A nossa expectativa é imensa, confiante e cheia de esperança.

E o santo padre papa Francisco, durante missa celebrada na Casa Santa Marta, no dia 11.05.2017, Vaticano, nos diz o seguinte: “Deus ficou conhecido na história. A sua salvação tem uma grande e longa história”… “A salvação de Deus está em caminho rumo à plenitude dos tempos”. O Senhor “guia o seu povo, com momentos bons e momentos ruins, com liberdade e escravidão; mas guia o povo rumo à plenitude”…“Existem os santos, os santos que todos conhecemos e os santos escondidos”. A Igreja “está cheia de santos escondidos e esta santidade é que nos leva para frente, rumo à segunda plenitude dos tempos, quando o Senhor virá, no final, para ser tudo em todos”…“Há uma terceira plenitude dos tempos, a terceira. A nossa. Cada um de nós está em caminho rumo à plenitude do próprio tempo. Cada um de nós chegará ao momento do tempo pleno e a vida acabará e deverá encontrar o Senhor. E este é o nosso momento”…“Pedir perdão a Deus não é algo automático. É entender que estou a caminho, em um povo em caminho e que um dia me encontrarei cara a cara com aquele Senhor que jamais nos deixa sós, mas nos acompanha neste caminho”.


A justiça divina supera a humana

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Na revelação transmitida na Bíblia, o Criador cria a criatura. Há, portanto, uma dependência do ser humano perante o Criador. Então, de modo aparentemente paradoxal, a relação mesma com Deus é que permite a liberdade e a responsabilidade que caracteriza o humano. Do contrário, se eu não mantiver essa busca de Deus, eu perco a minha liberdade. Pois, de fato, essa relação do ser humano com Deus é que confere a plenitude ao ser humano, que expressa a sua perfeição original. Sem essa relação, quem somos nós? Seres limitados, tolhidos, presos, vítimas das circunstâncias. Perdemos a dimensão de plenitude que nos caracteriza desde a nossa criação. Assim sendo, compreendemos por que é difícil viver a justiça na sociedade e nas instituições em geral. Mas Deus quer ser protagonista, quer queiramos ou não. Veja o salmo 93 das Sagradas Escrituras que fala justamente desse protagonismo de Deus, Ele não fica no anonimato.

“Senhor, Deus justiceiro, Deus das vinganças, aparecei em vosso esplendor. Levantai-vos, juiz da terra, castigai os soberbos como eles merecem.Até quando, Senhor, triunfarão os ímpios? Até quando se desmandarão em discursos arrogantes, e jactanciosos estarão esses obreiros do mal?Eles esmagam o povo, Senhor, e oprimem vossa herança. Trucidam a viúva e o estrangeiro, tiram a vida aos órfãos.E dizem: O Senhor não vê, o Deus de Jacó não presta atenção nisso! Tratai de compreender, ó gente estulta. Insensatos, quando cobrareis juízo?Pois não ouvirá quem fez o ouvido? O que formou o olho não verá? Aquele que dá lições aos povos não há de punir, ele que ensina ao homem o saber…O Senhor conhece os pensamentos dos homens, e sabe que são vãos. Feliz o homem a quem ensinais, Senhor, e instruís em vossa lei,para lhe dar a paz no dia do infortúnio, enquanto uma cova se abre para o ímpio, porque o Senhor não rejeitará o seu povo, e não há de abandonar a sua herança.Mas o julgamento com justiça se fará, e a seguirão os retos de coração. Quem se erguerá por mim contra os malfeitores? Quem será meu defensor contra os artesãos do mal?Se o Senhor não me socorresse, em breve a minha alma habitaria a região do silêncio. Quando penso: Vacilam-me os pés, sustenta-me, Senhor, a vossa graça.Quando em meu coração se multiplicam as angústias, vossas consolações alegram a minha alma. Acaso poderá aliar-se a vós um tribunal iníquo, que pratica vexames sob a aparência de lei?Atentam contra a alma do justo, e condenam o sangue inocente. Mas o Senhor certamente será o meu refúgio, e meu Deus o rochedo em que me abrigo.Ele fará recair sobre eles suas próprias maldades, ele os fará perecer por sua própria malícia. O Senhor, nosso Deus, os destruirá.”

Evidencia-se nesse salmo uma reflexão sobre o juízo divino contra as injustiças que existem efetivamente no seio do poder, nos órgãos constituídos para reger a vida de um país e, sobretudo, a injustiça contra os menos favorecidos. Esse hino se divide em duas manifestações de queixa e de testemunho de sabedoria. Tudo isso direcionado a Deus para que faça justiça. É Ele a verdadeira justiça. Os versículos de 3 a 7 e 16 a 21 são um grito de queixa pelos triunfos daqueles que praticam o mal e esbanjam da corrupção e opressão dos indefesos e pessoas humildes e desafiam Deus o Senhor do mundo.

Perante tudo isso, os que são explorados repõem toda a confiança na intervenção divina para que faça justiça. Tudo isso revela o grande escândalo da injustiça que impera na sociedade e, ao mesmo tempo, proclama a felicidade das pessoas que confiam no Senhor, o verdadeiro dono de tudo e de todos. A verdadeira justiça vem de Deus, fundamenta-se Nele. E Deus, que enxerga tudo, fará triunfar aqueles que são maltratados e perseguidos e não têm mais ninguém que os defendam. É Deus o defensor dos pobres. Evidentemente aqui se focaliza uma função jurídica de defesa dos injustiçados.

Portanto, o sentido da vingança que aqui se fala não é uma reação cega, mas é a expressão positiva de defesa dos humilhados da justiça oficial dos ‘homens’. Deus não é ausente e está presente também onde se pratica a iniquidade. Por tudo isso, segundo o salmista, o silêncio aparente de Deus que, segundo os ímpios, é considerado como a inexistência de Deus, para os fieis é prova de mais confiança Nele, embora não seja fácil. O papa Francisco, na audiência geral de 26.04.2017, falou:

“O nosso Deus não é um Deus ausente, sequestrado por um céu longínquo; é, pelo contrario, um Deus “apaixonado” pelo homem, tão ternamente amante ao ponto de ser incapaz de se separar dele. Nós somos hábeis em romper ligações e pontes. Ele não. Se o nosso coração arrefece, o seu permanece sempre incandescente. O nosso Deus nos acompanha sempre, mesmo se, porventura, nós nos esquecêssemos d’Ele.”


O senhor reina!

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Deus chama cada ser humano. E cada ser humano é marcado desde a sua criação. Por isso, a história do ser humano é uma história de “dom da graça”. Ela é, também, uma história de pecado.
É bonita a narrativa de nossa criação, ressaltando o que recebemos do Pai. Somos fruto da graça de Deus. O que a narrativa nos ensina? O que ela nos demanda?
Três dons foram dados ao ser humano:
1) Dons naturais: razão e livre arbítrio
2) Dons preternaturais: dons que complementam a natureza do ser humano: imortalidade, integridade, moral, liberdade da concupiscência, impassibilidade (isenção de todo mal-estar) e ciência infusa.
3) Dons sobrenaturais: a amizade com Deus, a graça, a visão beatífica, as virtudes teologais, os dons do Espírito Santo.

A ciência infusa é um conhecimento que habita em nós, que recebemos como dom. Depois que o pecado original quebrou a aliança, perdemos a ciência infusa. Na condição original, não precisaríamos aprender, pois já traríamos dentro de nós o conhecimento para a vida. Mas, perdemos isso com o pecado. E quando nos afastamos de Deus perdemos esse conhecimento interior, esses dons de Deus, que nos capacitam a conhecer o mundo e quem somos realmente.
Com o Novo Adão, Jesus Cristo, podemos viver novamente também essa ciência infusa, pois a fé nos ilumina para conhecer, de uma maneira diversa do conhecimento do mundo. É fruto da ação do Espírito Santo em nós. Podemos, assim, entender a lógica de Deus, entender os ensinamentos de Jesus e, portanto, ir além do que o mundo nos dá a conhecer. A ciência infusa, como um dom de Deus, nos possibilita compreender o que para o mundo é loucura, como a morte de Jesus. Assim sendo, podemos entender que o nosso Deus não nos abandona; e o salmo 92 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender isso:
“O Senhor é rei e se revestiu de majestade, ele se cingiu com um cinto de poder. A terra, que com firmeza ele estabeleceu, não será abalada. Desde toda a eternidade vosso trono é firme e vós, vós desde sempre existis. Elevam os rios, Senhor, elevam os rios a sua voz, e fazem eclodir o fragor de suas ondas. Porém, mais poderoso que a voz das grandes águas, mais poderoso que os vagalhões do mar, mais poderoso é o Senhor nas alturas do céu. Vossas promessas são sempre dignas de fé, e a vossa casa, Senhor, é santa na duração dos séculos.”
Esse salmo pertence aos tipos de hinos dedicados a Deus rei. Hino usado geralmente nas procissões do Templo. Essas celebrações se caracterizam pela realeza de Deus, da sua presença majestosa sobre universo e a sua história. O autor manifesta aqui, nos primeiros dois versículos, toda a sua alegria ao Senhor porque sente a sua proteção e o seu sopro de vida. É o Senhor que domina tudo e com Ele nada pode ser abalado. O fiel, entusiasta do seu Deus, o exalta qual rei do cosmo e, portanto, que está acima de tudo.
É Nele que está a nossa segurança, porque Ele firme do seu trono espalha a sua luz resplandecente e infinita sinal da sua onipotência do seu amor. Segundo a cosmologia bíblica, o mundo é como uma montanha que se levanta sobre o oceano antigo, qual símbolo de todas as potências malignas que se inseriram na criação. Nos versículos 3 e 4, o salmista diz que não adianta que as aguas façam eclodir o fragor das suas ondas porque Deus não se deixa intimidar, Ele é soberano sobre tudo que existe.

Esse Deus onipotente que tudo domina está perto de Israel, essa sua proximidade encontra-se na arca do Templo de Jerusalém, na palavra infalível da Torá, a Palavra de Deus da Bíblia. Enfim, esse hino exalta o Senhor, o Criador, que gera confiança e esperança nos fiéis que se sentem ameaçados pelas tribulações da vida, pelas forças do mal. E o papa Francisco na homilia matutina feita na capela da casa Santa Marta, no Vaticano, nos diz o seguinte a respeito: “Peçamos hoje ao Senhor que nos dê a maravilha diante dele, perante as muitas riquezas espirituais que nos concedeu; e juntamente com esta maravilha nos dê a alegria, a alegria da nossa vida e de viver com o coração em paz as numerosas dificuldades; e nos proteja da tentação de procurar a felicidade em muitas coisas que afinal acabam por nos entristecer: prometem tanto, mas nada nos darão!… E conclui: “lembrai-vos bem: um cristão é um homem e uma mulher de alegria, de alegria no Senhor; um homem e uma mulher maravilhados”. Por tudo isso repetimos com o salmo: “Vossas promessas são sempre dignas de fé”. E é essa nossa fé que nos sustenta todos os dias.


Como é bom louvar ao senhor

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Deus não precisa do mundo para se tornar perfeito. Ele, fonte do amor, criou tudo livremente, expressando que tudo era bom. Deus compartilha esse amor em sua obra. Ele criou tudo como expressão do amor. Se Ele é perfeito, a obra deve refletir a perfeição divina: somos feitos à imagem e semelhança de Deus. Devemos, então, manifestar esse desígnio que está em nossa origem, dando glórias ao nosso Pai, manifestando seu amor na partilha.

O mundo decaído precisa de redenção para ser conforme ao projeto original. E a redenção vem com a ressurreição, dom de Deus. Assim, o cristão tem um olhar de esperança, para além do mal do mundo. O ser humano não se detém no mal do mundo. Ele tem a confiança de que o mal não pode derrotar o mundo. O mal é “nada”. Nestes tempos escatológicos, sabemos que o mal é passageiro, não é a essência.

Para compreender tudo isso, precisamos conhecer a Palavra de Deus. Conhecer a Bíblia! E o salmo 91 das Sagradas Escrituras nos convida a meditarmos sobre isso.

“É bom louvar ao Senhor e cantar salmos ao vosso nome, ó Altíssimo; proclamar, de manhã, a vossa misericórdia, e, durante a noite, a vossa fidelidade,com a harpa de dez cordas e com a lira, com cânticos ao som da cítara, pois vós me alegrais, Senhor, com vossos feitos; exulto com as obras de vossas mãos.Senhor, estupendas são as vossas obras! E quão profundos os vossos desígnios! Não compreende estas coisas o insensato nem as percebe o néscio.Ainda que floresçam os ímpios como a relva, e floresçam os que praticam a maldade, eles estão à perda eterna destinados. Vós, porém, Senhor, sois o Altíssimo por toda a eternidade.Eis que vossos inimigos, Senhor, vossos inimigos hão de perecer, serão dispersados todos os artesãos do mal. Exaltastes a minha cabeça como a do búfalo, e com óleo puríssimo me ungistes.Meus olhos veem os inimigos com desprezo, e meus ouvidos ouvem com prazer o que aconteceu aos que praticam o mal. Como a palmeira, florescerão os justos, elevar-se-ão como o cedro do Líbano.Plantados na casa do Senhor, nos átrios de nosso Deus hão de florir. Até na velhice eles darão frutos, continuarão cheios de seiva e verdejantes,para anunciarem quão justo é o Senhor, meu rochedo, e como não há nele injustiça.”

O autor deste salmo mostra como Deus está no centro de tudo e, na medida em que se respeitar e atender isso, o mundo se tornará bem pacífico e tranquilo. É nessa perspectiva que se apresenta a pessoa ‘justa’: “como a palmeira, florescerão os justos, elevar-se-ão como o cedro do Líbano.” O justo direciona a sua vida ao dispor do Criador e segue os seus caminhos. Não se deixa atrair pela lógica do mundo, pelo sucesso no mundo e do mundo. E o salmista aqui justamente salienta que a alegria, o bem-estar e a longa vida são a consequência de uma existência justa.
Assim sendo, o salmo exalta a justiça de Deus que sabe discernir entre o bem e o mal e oferecendo um mundo perfeito. Aqui se demonstra uma visão positiva que nem todo mundo concorda conforme várias redações das Sagradas Escrituras, como nos salmos 49 e 73 e no livro de Jó. Insiste o autor desse hino que o justo é comparado à imagem da palmeira e do cedro do Líbano. As raízes do justo são parecidas a essas esplendidas arvores. O seu alicerce é garantia de uma vida sem fim. No entanto, o ímpio, quem pratica a maldade, é parecido “como a relva que floresce de manhã” e ao entardecer seca.

Esse é o futuro de quem não pratica a justiça. Uma justiça que vai além a dos homens. De fato, diz o salmista: “não compreende estas coisas o insensato e o estulto” e cujo destino é a perda da vida eterna. E o papa Francisco na catequese das quartas feiras, 03.02.2016, disse:

“E este é o coração de Deus, um coração de Pai que ama e quer que os seus filhos vivam no bem e na justiça, e, portanto, vivam em plenitude e sejam felizes. Um coração de Pai que vai além do nosso pequeno conceito de justiça para nos abrir aos horizontes ilimitados da sua misericórdia. Um coração de Pai que não nos trata segundo os nossos pecados e não nos retribui segundo as nossas culpas. E precisamente é um coração de pai que nós queremos encontrar quando vamos ao confessionário. Talvez nos dirá algo para nos fazer entender melhor o mal, mas no confessionário todos vamos encontrar um pai que nos ajude a mudar de vida; um pai que nos dê a força de seguir adiante; um pai que nos perdoe em nome de Deus. E por isso ser confessor é uma responsabilidade tão grande, porque aquele filho, aquela filha que vem a você procura somente encontrar um pai. E você, padre, que está ali no confessionário, você está ali no lugar do Pai que faz justiça com a sua misericórdia.”


Escolheste, por asilo, o altíssimo!

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As realidades terrenas gozam de autonomia. O homem tem liberdade em sua ação. Mas, essa autonomia das realidades terrenas deve sempre ser entendida em relação a Deus. Toda a criação nos leva a Deus. Tudo é obra da criação de Deus. E o ser humano tem a tarefa de continuar a ação de Deus sobre o criado. É preciso, então, superar o vazio cultural em que estamos imersos.
Quando a violência aumenta entre nós, significa que estamos parados, inertes. Nessa condição, o ser humano não se exalta como criatura e não auxilia na criação. O ser humano é jogado para baixo. A Palavra de Deus é necessária para o resgate dessa criatura. O salmo 90 das Sagradas Escrituras nos mostra a importância dessa confiança em Deus para nos resgatar e dar segurança à nossa vida.

“Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo, que moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela, meu Deus, em que eu confio.É ele quem te livrará do laço do caçador, e da peste perniciosa. Ele te cobrirá com suas plumas, sob suas asas encontrarás refúgio. Sua fidelidade te será um escudo de proteção.Tu não temerás os terrores noturnos, nem a flecha que voa à luz do dia, nem a peste que se propaga nas trevas, nem o mal que grassa ao meio-dia.Caiam mil homens à tua esquerda e dez mil à tua direita, tu não serás atingido. Porém verás com teus próprios olhos, contemplarás o castigo dos pecadores,porque o Senhor é teu refúgio. Escolheste, por asilo, o Altíssimo. Nenhum mal te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda,porque aos seus anjos ele mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra.Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão. Pois que se uniu a mim, eu o livrarei; e o protegerei, pois conhece o meu nome.Quando me invocar, eu o atenderei; na tribulação estarei com ele. Hei de livrá-lo e o cobrirei de glória. Será favorecido de longos dias, e mostrar-lhe-ei a minha salvação.”

Esse salmo proclama em voz alta a grande sabedoria em confiar em Deus, autor da vida. É Ele o nosso refúgio, fortaleza, escudo nas lutas do dia a dia. Ele protege e defende o fiel. Com essa convicção, o fiel enfrenta os desafios das trevas, que, segundo a tradição oriental, os espíritos do mal frequentam a noite, não tem medo da super quentura do dia, das doenças que aparecem na população e dos tantos inimigos que se ‘lastram pelo chão’. Deus com os seus anjos a protege e acompanha pelos seus caminhos da vida.

O mal que se insinua na história da humanidade terá o fim, cessará de ser ameaça para os fiéis. Para entender melhor isso, é bom lembrar o que disse Jesus Cristo: “Eis que vos dou o poder de pisar serpentes, escorpiões e todo poder do inimigo, e nada poderá vos causar dano”(Lc 10,19). E a invocação final em que o mesmo Deus confirma que a confiança Nele é que rende mais eficaz a vida do fiel: “O Senhor é teu refúgio. Escolheste, por asilo, o Altíssimo. Nenhum mal te atingirá, nenhum flagelo chegará à tua tenda”.

É a confiança que garante a vida do fiel! Com a confiança em Deus, a história da humanidade se torna elevação, salvação. Esta oração é bem enraizada na realidade do ser humano, que passa também pela sua dramaticidade da existência. Embora as provas da vida acompanhem as pessoas, a certeza da proteção de Deus é muito superior a elas. O papa Francisco, no ‘Angelus’ de 26.02.2017, falou o seguinte:

“Confiar em Deus não resolve magicamente os problemas, mas permite enfrentá-los com o espírito justo, corajosamente. Sou corajoso porque confio em meu Pai que se ocupa de tudo e me ama muito.É o nosso refúgio, a fonte da nossa serenidade e da nossa paz. É a rocha da nossa salvação, à qual nos podemos agarrar, certos de que não caímos; quem se agarra a Deus nunca cai! É a nossa defesa do mal que está sempre à espreita. Deus é para nós o grande amigo, o aliado, o pai, mas nem sempre nos damos conta disto. Não nos apercebemos de que temos um amigo, um aliado, um pai que nos ama, e preferimos apoiar-nos em bens imediatos que podemos tocar, em bens contingentes, esquecendo, e por vezes rejeitando, o bem supremo, ou seja, o amor paterno de Deus. Senti-lo como Pai, nesta época de orfandade, é tão importante! Neste mundo órfão, senti-lo como Pai. Nós afastamo-nos do amor de Deus quando vamos em busca dos bens terrenos e das riquezas, manifestando assim um amor exagerado a estas realidades.”


Eu vi a presença do Espírito Santo

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Alguns anos atrás, aconteceu um caso de violência gravíssima em Belém, como continuam a acontecer ainda hoje, que me chamou muito a atenção: um jovem assaltou e matou outro jovem. Fiquei triste com a crueldade do crime, e me parecia que aquele dia tão esplendoroso se obscureceu totalmente. A vida imergida nas trevas. Naturalmente, houve a ação da polícia, que conseguiu desvendar o responsável de tanta maldade. O acusado foi preso e processado. Estou relatando de maneira bem sumaria o fato e nem consigo descrever a dor dos pais que perderam o filho tragicamente. Depois de todos os procedimentos legais que competem no caso, chegou o dia do julgamento.

À sala da justiça chegaram também as mães da vítima e do réu. A um certo ponto, as duas se olharam e depois de uma breve hesitação se levantaram e, aproximando-se, desceram lágrimas dos rostos delas. Elas se abraçaram e viveram momentos de grande misericórdia. Uma perdoando e a outra pedindo perdão. Poucas palavras, mas intensos momentos de amor. Tiveram a capacidade de se olhar nos olhos e sentir toda a dramaticidade do evento cruel: uma mãe que perdeu o filho e a outra que teve o filho encarcerado, praticamente perdido também. Duas mães de realidades totalmente diferentes marcadas de grande dor.

No entanto, o perdão e a misericórdia souberam ir além da imensa dor. Aquela cena de duas mães abraçadas foi uma cena inesquecível para mim. Toda vez que lembro, causa-me sempre algo que dá esperança e força de viver. Transforma o dia de trevas em dia de luz resplandecente. Eu me perguntei: o que foi que levou aquela mãe que teve o filho morto a ter tanta força de perdoar, e a outra mãe lhe pedir perdão pelo filho homicida? A razão humana não chega a tanto assim, eventualmente pode confiar a uma justiça retributiva qual a justiça humana com os seus tribunais. Esse abraço de misericórdia, sinceramente, pode ser somente justiça divina.

Por isso, acredito firmemente que o Espírito Santo conduziu aquelas mães e elas se deixaram conduzir por Ele. Eu vi naquele momento a presença do Espírito Santo, como Ele regenera a vida de dor em esperança eterna. É verdade, aquelas mães depois daquele momento misericordioso pareciam outras pessoas, não obstante tanto sofrimento. Algo aconteceu no coração delas que tiveram a capacidade de erguer a cabeça e de não ter medo de enfrentar a própria realidade. Chegaram até a não se interessar mais do processo em curso, talvez porque superaram o processo de Deus, do amor. E eu me pergunto: se fizéssemos da nossa vida uma vida de misericórdia, de amor, como aquelas duas mães, talvez não teríamos uma vida mais fraterna e solidária?

A nossa sociedade não pode ser satisfeita somente com as coisas materiais e racionais. A alegria vem dessa prática do amor, da proximidade com o outro, da promoção do outro. Não por acaso Jesus nos recomendou tanto de amarmos uns aos outros como Ele nos amou. O segredo da alegria está em colocar em prática o que Jesus nos recomendou. Aquelas duas mães souberam fazer, porque se deixaram conduzir pelo Espírito Santo. O grande desafio de amar, perdoar é sustentado pela ação do Espírito Santo. De fato, Ele é Deus presente em nós, um Deus que nos ajuda a relembrar o que Jesus nos ensinou e testemunhou, que desperta a nossa memória.

E para reconhecer essa verdade é só reler o que Jesus falou aos apóstolos antes da Pentecostes: “O Espírito que Deus vos conferirá em meu nome, vos lembrará tudo aquilo que vos falei”. Portanto, amar como Jesus nos amou é possível, mas precisamos reconhecer o protagonismo do Espírito Santo na nossa vida. Sem Ele, tudo é mais complicado. Eu creio que dificilmente aquelas duas mães teriam agido daquele jeito sem ajuda do Espírito Santo. Sendo assim, temos que apelar à ajuda do Espírito Santo para poder incentivar uma sociedade de misericórdia e de amor. Uma sociedade fraterna e justa como Deus quer. É o Espírito Santo que nos ajuda a libertar de tantas e tantas escravidões que nós acumulamos no nosso dia-dia.

É urgente a nossa libertação para vivermos a alegria, não obstante as nossas pobrezas e fraquezas. É o que nos falta hoje: a verdadeira alegria. Fiquei alegre ao ver as duas mães se perdoando, assim senti a presença do Espírito Santo, isto é, Deus. Portanto, vinde Espírito Santo e inflamai os nossos corações do teu amor!


Educação, educação!!!

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Tenho a impressão, pelo contato com diferentes pessoas, que existe um ‘vazio cultural’ na sociedade. O que entendo por ‘vazio cultural’? A incapacidade das pessoas em discernir a realidade verdadeira em que vivemos. Uma falta de capacidade de pensar e, consequentemente, de compreender aquilo que está ao redor. As falas e os comportamentos do ser humano hoje me levam a fazer essa dedução: ‘vazio cultural’! Creio firmemente que as pessoas estejam longe da realidade e conhecem situações e casos mediados por terceiros e, portanto, irreais.

Essa é uma realidade interpretada por alguém que tem como objetivo manipular a situação em seu favor. Hoje em dia se torna fácil a manipulação dos fatos pela tecnologia que temos. Praticamente, hoje o irreal é mais real que o real. Estamos mergulhados em uma realidade ilusória e, consequentemente, com muita dificuldade para termos os ‘pés no chão’. Assim sendo, como ter um relacionamento real com aqueles que convivemos e com os outros em geral? Um fato distorcido constrói relacionamentos distorcidos, e aí você pode imaginar o resultado de tudo isso.

Exatamente o problema sério dos nossos tempos: vivemos fora da realidade! Uma realidade manipulada, mentirosa. A mídia é uma ferramenta que se adapta a isso. Por essa razão, precisamos nos libertar dessa escravidão que nos mantêm nas trevas. Como nos libertar? Quando o cardeal Maria Martini ainda era bispo da arquidiocese de Milão, lembro-me, perfeitamente, quando tive que marcar, com certa antecedência, a entrevista e, em seguida, enviar as perguntas a realizar.

O encontro no seu escritório em Milão foi tão receptivo que me senti à vontade até para improvisar mais perguntas, o que ele aceitou de bom grado. Quando questionei sobre a dificuldade na nossa Igreja sobre a comunicação como um todo, ele não teve dúvidas em reconhecer essa lacuna e, não só, acrescentou que o único caminho para superar essa deficiência era o estudo. Ele insistiu por três vezes ‘ESTUDAR, ESTUDAR E ESTUDAR!’

Estudar os novos caminhos da comunicação e adentrar-se neles. Hoje em dia, esse fenômeno toma conta da nossa vida. Ele desejava que, sobretudo, os padres fossem mais preparados para isso. A recomendação do cardeal Martini se torna ainda mais persistente em não confundir a comunicação em si com os meios de comunicação.  Quando terminei a entrevista, ele me perguntou onde eu tinha estudado. Ao ouvir a resposta, ele me disse que ia mandar logo dois padres da sua arquidiocese para a mesma escola, eacrescentou a urgência dessa formação para a igreja de Milão.

Até hoje me comovem as suas palavras, porque comprovaram toda a minha dedicação de sacerdote para a questão da comunicação na evangelização. Uma evangelização sem comunicação se torna estéril. As pessoas são demais iludidas por uma realidade manipulada. Precisamos liberta-las, porque são preciosas aos olhos de Deus. A evangelização é também isso: saber discernir o que é de Deus ou que é do maligno. Uma comunicação que abrange toda a vida dos filhos e filhas de Deus exalta a mesma VIDA. Rende alegres as pessoas.

Infelizmente, parece que essa preocupação esteja longe de nós. Estamos em um ‘vazio cultural’! Como podemos ajudar as pessoas a serem livres se a gente não educa a discernir a realidade? A saber recepcionar as mensagens num mundo da mentira? Por exemplo, quando falo do alfabeto das imagens a total maioria das pessoas não compreende. Por quê? Porque nunca foram educadas para isso. E a Igreja tem o dever de suprir essa lacuna se não se torna incapaz de ter uma efetiva evangelização.

Vejo em meu próprio Instituto, o PIME, quanto ‘vazio cultural’ nesse sentido. E o pior parece que não tem jeito para reverter essa situação. E aí eu me pergunto: Como ser missionários sem dominar a comunicação? Como ser evangelizadores sem saber comunicar? Muitas confusões e divisões entre nós são devidas a essa não comunicação. A nossa Igreja, em particular, deve saber explorar melhor a comunicação como um grande processo. No entanto, parece que está parada somente nos meios em si. Eu fico cada vez mais triste vendo os nossos fiéis marcados por esse ‘vazio cultural’.

Lembro-me de que uns vinte anos atrás quando ministrei um curso de análise de uma telenovela em Macapá. Na conclusão dele uma jovem professora pronunciou essa frase: “Parece que caíram dos meus olhos as escamas que me impediam de enxergar. Agora compreendo aquilo que estou vendo, antes me deixava atrair pelas imagens e falas, mas não sabia ir além disso. Caíram as minhas escamas, estou enxergando!” Hoje é urgente liberar a vista das pessoas, porque a cegueira é perigosa e nos rende totalmente dependentes. E isto se faz com a educação à comunicação. Enfim quero parabenizar todas as mães e, sobretudo aquelas que enfrentam doenças e abandono.