Com Deus não existe solidão

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Umas das coisas que estou constatando, cotidianamente, é a manifestação de solidão das pessoas. Nunca tinha entendido o porquê de tanto barulho nas casas, desde manhã cedo, e nos lugares públicos. Alias, é tão intenso o som que não consigo nem escutar direito quando falam. Parece-me que todo esse forte barulho queira substituir algo que a pessoa não tem. Precisa de tudo isso para dar sentido à vida. Eu tenho dificuldade de compreender. Eu me alegro, sim, por estar junto com os outros, mas não consigo entrar nessa balbúrdia. Acho que a sociedade, ou como diz o evangelista João, o mundo falta-lhe uma verdadeira experiência de Deus. Buscando Deus, a pessoa não pode estar só e, portanto, não vai em busca de coisas efêmeras. É invocando Deus que damos maior sentido à vida. O salmo 60 das Sagradas Escrituras nos ajuda nesse sentido:

“Ouvi, ó Deus, o meu clamor, atendei à minha oração. Dos confins da terra clamo a vós, quando me desfalece o coração. Haveis de me elevar sobre um rochedo e me dar descanso, porque vós sois o meu refúgio, uma torre forte contra o inimigo. Habite eu sempre em vosso tabernáculo, e me abrigue à sombra de vossas asas! Pois vós, ó meu Deus, ouvistes os meus votos, destes-me a recompensa dos que temem vosso nome. Acrescentai dias aos dias do rei, que seus anos atinjam muitas gerações. Reine ele na presença de Deus eternamente, dai-lhe por salvaguarda vossa graça e fidelidade. Assim, cantarei sempre o vosso nome e cumprirei todos os dias os meus votos.”

Neste salmo, o fiel, que é um representante da assembleia litúrgica, reza para o rei em guerra possa triunfar e ter longa vida. De fato, a oração nos versículos 4 e 5 assim diz em síntese: “Habite eu sempre em vosso tabernáculo”, isto é, no Templo. O Templo que representa tudo na vida do fiel e, por isso, evoca com nomes diferentes e imagens até militares, enquanto é um refúgio, uma defesa. Todas essas linguagens são tentativas de manifestar a total confiança em Deus protagonista na vida daquele que acredita. Perante as provas da vida, as inseguranças, a instabilidade humana, as crueldades cotidianas, o mal que toma conta o autor desse salmo contrapõe um rochedo que lhe dá descanso. E, assim, que pode discernir a rocha da sua defesa que é o santo Templo.
É típico o uso nas Sagradas Escrituras da simbologia da ‘pedra’, que quer indicar a firmeza e estabilidade do Templo de Jerusalém, referência máxima da manifestação divina. Se você lembra, também Jesus evocava este tipo de linguagem. Por exemplo, quando chamou Cefa de Pedro, ou nas cartas que define ‘as pedras vivas’. A partir dessa experiência que o fiel encontra força e segurança sem fim. Tudo isso descrevendo como se estivesse numa torre forte e que os inimigos não têm como se aproximar ou assaltar. Assim sendo, as imagens militares se tornam ‘intimas’ e ‘pessoais’, bem representadas por essas palavras: “Habite eu sempre em vosso tabernáculo”.

Além do mais, “me abrigue à sombra de vossas asas”, isto é, a proteção do Senhor lhe garante uma demora definitiva onde se torna uma ‘tenda do encontro’ entre Deus e o ser humano. Naturalmente, isto dá muita alegria e, por isso, cantará hinos ao seu Senhor. Conclusão, essa experiência do encontro com o Senhor revela que o ser humano não é só, porque a graça e a fidelidade estão próximas e o protegem.

A respeito disso, o papa Francisco falou na ‘audiência geral’ de 26 de abril o seguinte: “Até quando perdurará a atenção de Deus pelo homem? Até quando o Senhor Jesus, que caminha conosco, até quando cuidará de nós? A resposta do Evangelho não deixa margem a dúvidas: até ao fim do mundo! Passarão os céus, passará a terra, serão anuladas as esperanças humanas, mas a Palavra de Deus é maior do que tudo e não passará. E Ele será o Deus conosco, o Deus Jesus que caminha ao nosso lado. Não haverá um dia da nossa vida em que cessaremos de ser uma solicitude para o Coração de Deus. Contudo, alguém poderia dizer: «Mas o que dizes?». Digo isto: não haverá um dia da nossa vida em que deixaremos de ser uma solicitude para o Coração de Deus. Ele preocupa-se conosco, caminha ao nosso lado. E por que faz isto? Simplesmente porque nos ama. Entendestes isto? Ele ama-nos! E sem dúvida Deus proverá a todas as nossas necessidades, não nos abandonará no tempo da prova e da escuridão. É preciso que esta certeza se aninhe no nosso espírito, para nunca mais se apagar. Há quem lhe dê o nome de «Providência». Ou seja, a proximidade de Deus, o amor de Deus, o caminhar de Deus ao nosso lado chama-se também «Providência de Deus»: Ele provê à nossa vida.”


Com o auxílio de Deus, faremos proezas

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Nossa história é sempre questionadora. Por isso, tem uma infinita gama de respostas. E uma dessas grandes questões é, com certeza, Deus. Nesses dias, um senhor de idade já avançada me disse que com o nome do Senhor se argumenta tudo e se pretende tudo. Prontamente, eu lhe respondi: como posso não falar e acreditar em Deus para quem eu dediquei toda a minha vida? É evidente que não se pode nem pensar em manipular Deus, porque, além do mais, Ele é muito poderoso e não o permite. Se poderá falar Dele, podemos encher a boca do nome Dele, mas isto não quer dizer nada. Deus está acima das nossas maquinações e manipulações. Porque Ele ama infinitamente. Ele é, sim, presente, mas não do nosso jeito. Quem nos ajuda a compreender melhor isso é o salmo 59 do Antigo Testamento da Bíblia.

“A lei é como o lírio. Poema didático de Davi, quando guerreou contra os sírios da Mesopotâmia e os sírios de Soba, e quando Joab, voltando, derrotou doze mil edomitas no vale do Sal. Ó Deus, vós nos rejeitastes, rompestes nossas fileiras, estais irado; restabelecei-nos. Fizestes nossa terra tremer e a fendestes; reparai suas brechas, pois ela vacila. Impusestes duras provas ao vosso povo, fizestes-nos sorver um vinho atordoante. Mas aos que vos temem destes um estandarte, a fim de que das flechas escapassem. Para que vossos amigos fiquem livres, ajudai-nos com vossa destra, ouvi-nos. Deus falou no seu santuário: Triunfarei, repartindo Siquém; medirei com o cordel o vale de Sucot. Minha é a terra de Galaad, minha a de Manassés; Efraim é o elmo de minha cabeça; Judá, o meu cetro; Moab é a bacia em que me lavo. Sobre Edom atirarei minhas sandálias, cantarei vitória sobre a Filistéia. Quem me conduzirá à cidade fortificada? Quem me levará até Edom? Quem, senão vós, ó Deus, que nos repelistes e já não saís à frente de nossas forças? Dai-nos auxílio contra o inimigo, porque é vão qualquer socorro humano. Com o auxílio de Deus, faremos proezas. Ele abaterá nossos inimigos.”

Este hino é uma lamentação nacional de Israel num contexto de emergência. E essa lamentação se desdobra em dois momentos significativos. A primeira parte aparece Deus como se fosse um inimigo do seu povo: “Ó Deus, vós nos rejeitastes”. A desintegração do país, da nação, é porque Deus está irado, segundo o autor do salmo. Deus assim se tornou um terrível inimigo que desenfreia toda a sua força que abala tudo. Parece que Deus combate o seu próprio povo, e lhe faça pagar tudo sem piedade alguma. Porém, o autor depois de ter iniciado de maneira bem catastrófica e furiosa torna-se bem esperançoso, marcando assim uma presença amorosa de Deus: “Deus falou no seu santuário”.

Assim, se em um primeiro momento parecia que Deus tinha-se tornado inimigo, agora revela como Deus auxilia o seu povo. Essa esperança em Deus demonstra como Deus é o único e último juiz da história. Tudo isso é bem marcado através do controle de Deus sobre toda a Palestina e suas etnias. Revigorando-as. Desse jeito, o autor insiste que Deus é o verdadeiro Senhor da história e Israel pode confiar Nele, embora que às vezes não consiga entender. Na segunda parte de lamentação, porém, cheia de esperança, alimenta a possibilidade da salvação através do exercito de Israel que conquiste Edom.

Assim sendo, pela intercessão, Deus torna-se de novo o escudo do seu povo, ajudando-o a fazer grandes prodígios: “Com o auxílio de Deus, faremos proezas. Ele abaterá nossos inimigos.” A encarnação da Palavra de Deus compreende também essas formas de rezar, embora que seja grosseira e nacionalista. Todo o salmo mostra também como uma celebração do Deus da história, a quem se confia nos momentos tristes e trágicos, não seja indiferente às situações humanas. Pelo contrário, Ele leva em frente o seu projeto de salvação.

Veja o que nos diz o papa Francisco: “Caros irmãos e irmãs, nunca coloquemos condições a Deus, mas, ao contrário, deixemos que a esperança vença os nossos receios. Confiar em Deus quer dizer entrar nos seus desígnios sem nada pretender, aceitando inclusive que a sua salvação e o seu auxílio cheguem a nós de modo diverso das nossas expectativas. Pedimos ao Senhor vida, saúde, afetos, felicidade; e é justo fazê-lo, mas com a consciência de que até da morte Deus sabe haurir vida, que é possível experimentar a paz inclusive na doença e que até na solidão pode haver serenidade, e bem-aventurança no pranto. Não somos nós que podemos ensinar a Deus o que Ele deve fazer, aquilo de que temos necessidade. Ele sabe-o melhor do que nós e devemos ter confiança porque os seus caminhos e os seus pensamentos são diferentes dos nossos (Audiência Geral de 25/01/2017).


Meu Deus, liberta-me dos inimigos!

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Às vezes, nossa vida parece ficar mergulhada em uma profunda noite. Não se enxerga mais nada. Uma vida de trevas. Por exemplo, é o caso da escola ‘Papa Francisco’, em Belém. Ela é destinada para jovens pobres e, por isso, é totalmente gratuita. Nós acreditamos que essa escola é uma resposta à violência que aumenta cada vez mais na nossa sociedade. Digo sempre que a escola é uma obra de Deus. Mas, infelizmente, as nossas instituições públicas, além de não ajudarem, tornam-se obstáculos para a sua viabilização. Cobram impostos ou taxas como se nós tivéssemos especulações lucrativas e se esquecem de que a escola se sustenta por meio de doações. Temos sorte que existem pessoas que ainda acreditam na caridade. Mas, se fosse pelos órgãos públicos, a escola já teria acabado há muito tempo. Por isso, tem vezes que me sinto, realmente, como se estivesse numa noite profunda, sem saber mais o que fazer. Nesse sentido, me mergulho na Palavra de Deus para tentar entrever um raio de luz. Rezando o salmo 58, das Sagradas Escrituras, eu pude me identificar e ter um ‘sopro de vida’:

“Livrai-me, ó meu Deus, dos meus inimigos, defendei-me dos meus adversários. Livrai-me dos que praticam o mal, salvai-me dos homens sanguinários. Vede: armam ciladas para me tirar a vida, homens poderosos conspiram contra mim. Senhor, não há em mim crime nem pecado. Sem que eu tenha culpa, eles acorrem e atacam. Despertai-vos, vinde para mim e vede, porque vós, Senhor dos exércitos, sois o Deus de Israel. Erguei-vos para castigar esses pagãos, não tenhais misericórdia desses pérfidos. Eles voltam todas as noites, latindo como cães, e percorrem a cidade toda. Eis que se jactam à boca cheia, tendo nos lábios só injúrias, e dizem: Pois quem é que nos ouve? Mas vós, Senhor, vos rides deles, zombais de todos os pagãos. Ó vós que sois a minha força, é para vós que eu me volto. Porque vós, ó Deus, sois a minha defesa. Ó meu Deus, vós sois todo bondade para mim. Venha Deus em meu auxílio, faça-me deleitar pela perda de meus inimigos. Destruí-os, ó meu Deus, para que não percam o meu povo; conturbai-os, abatei-os com vosso poder, ó Deus, nosso escudo. Cada palavra de seus lábios é um pecado. Que eles, surpreendidos em sua arrogância, sejam as vítimas de suas próprias calúnias e maldições. Destruí-os em vossa cólera, destruí-os para que não subsistam, para que se saiba que Deus reina em Jacó e até os confins da terra. Todas as noites eles voltam, latindo como cães, rondando pela cidade toda. Vagueiam em busca de alimento; não se fartando, eles se põem a uivar. Eu, porém, cantarei vosso poder, e desde o amanhecer celebrarei vossa bondade. Porque vós sois o meu amparo, um refúgio no dia da tribulação. Ó vós, que sois a minha força, a vós, meu Deus, cantarei salmos porque sois minha defesa. Ó meu Deus, vós sois todo bondade para mim.”

A atmosfera desse salmo é obscura, noturna. Aqui o autor desse hino compara os seus adversários a uns cães brabos que no silêncio da noite latem e correm pelas ruas desertas em busca de alimento. Esses são os inimigos, os malfeitores, pessoas sanguinárias, poderosos, soberbos, perversos e blasfemadores. A cidade está à mercê destas pessoas perigosas. A vida de hoje parece que não mudou. O fiel identifica a ‘noite’ como o destino de Jerusalém cujos chefes são arrogantes e impuros como ‘cães’, filhos das trevas e da injustiça.

Assim, as pessoas corretas são obrigadas a fugir e se esconder para não serem destruídas. Porém, junto aos ‘cães’ aparece outro protagonista que toma conta da cena: Deus. O autor aqui apresenta Deus que age em relação a essas pessoas perigosas e ameaçadoras, eliminando-as de maneira gradativas e progressivas dando um exemplo de purificação que fica na história. Assim sendo, o povo não esquece e reconhece a presença de quem é o verdadeiro dono da história da humanidade. E perante essa justiça de Deus os justos verão a luz do dia e não serão oprimidos pelas trevas, a noite da humanidade.

Efetivamente, nunca os justos são abandonados, embora parecessem que estavam sós, porque os cães da vida os perseguiam. Na hora que menos pensa entra em ação o verdadeiro defensor que tudo sabe: Deus. Ele é o escudo dos ‘justos’. E o salmo ressalta assim que o sol está para surgir e a noite termina com as suas ciladas e os perseguidores são caçados de vez. Esta verdade leva o salmista a cantar e louvar a fidelidade de Deus com os seus justos filhos. Com esta certeza de fidelidade e de paz termina a noite obscura da vida. O sol venceu a noite. A perseguição e a maldade do poderoso são derrotadas. O fiel pode ficar tranquilo que o mal não pode vencer Deus.


O mal é derrotado pelo bem

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Onde se enraíza o mal na nossa sociedade? Podem perceber como cada cidadão, para ser vencedor na vida, deve disputar com outros e, naturalmente, nem todo mundo pode ser vencedor. Consequência disso: quem não consegue, fica para trás. Mas também têm outros que nem conseguiram entrar na disputa, e esses aí estão aguardando outras oportunidades, se ainda tiverem tempo. Assim sendo, essa vida é parecida a uma corrida que vai afunilando a participação das pessoas em uma vida de dignidade. Essa corrida gera poder e exclusão. Certamente, não favorece fraternidade, mas, sim, privilegiados e desfavorecidos. Gera poderosos e humildes. E essa relação se revela bem distante daquilo que nos prega a Palavra de Deus. Aliás, é tão conflitante que pode se chegar até a conflitos de perseguição e morte. A violência prevalece sobre a paz. A leitura do salmo 57, das Sagradas Escrituras, mostra como enfrentar esses antagonismos de opressão e injustiça.

“Será que realmente fazeis justiça, ó poderosos do mundo? Será que julgais pelo direito, ó filhos dos homens? Não, pois em vossos corações cometeis iniquidades, e vossas mãos distribuem injustiças sobre a terra. Desde o seio materno se extraviaram os ímpios, desde o seu nascimento se desgarraram os mentirosos. Semelhante ao das serpentes é o seu veneno, ao veneno da víbora surda que fecha os ouvidos para não ouvir a voz dos fascinadores, do mágico que enfeitiça habilmente. Ó Deus, quebrai-lhes os dentes na própria boca; parti as presas dos leões, ó Senhor. Que eles se dissipem como as águas que correm, e fiquem suas flechas despontadas. Passem como o caracol que deslizando se consome, sejam como o feto abortivo que não verá o sol. Antes que os espinhos cheguem a aquecer vossas panelas, que o turbilhão os arrebate enquanto estão ainda verdes. O justo terá a alegria de ver o castigo dos ímpios, e lavará os pés no sangue deles. E os homens dirão: Sim, há recompensa para o justo; sim, há um Deus para julgar a terra.”

Este salmo precisa ser bem compreendido. Não podemos nos deixar levar por uma leitura superficial. Efetivamente, essa oração tem palavras muito fortes e violentas, mas precisamos compreender a cultura semítica daquele tempo. Essa cultura tinha a característica de personificar o mal em um inimigo bem concreto e também de exacerbar os sentimentos e as expressões verbais. São essas expressões violentas que querem imitar a fala das pessoas do cotidiano. E esse compositor se deixa conduzir pelas manifestações de símbolos e emoções em rezar aquilo que está sentindo e passando. Esse jeito de comunicar violento, encontramos também nos salmos 108 e 136. Eles revelam uma repulsa profética contra o mal que toma conta da história da humanidade.
Uma ansiedade dos profetas para que seja feita a justiça e enfrente a opressão. Naturalmente, tudo isso evidenciando e cadenciando quanto a linguagem humana é exasperadora. Podemos, nesse sentido, entender como oração dos pobres, dos oprimidos e dos abandonados que se dirigem a Deus para que os socorra. E o salmo foca uma questão importante que o ser humano não pode se vingar, mas isto pertence somente a Deus. Dito isto, vejamos os sentidos dos símbolos. A imagem da ‘serpente’ mostra como não se deixa induzir pelo “mágico que enfeitiça habilmente”. Assim, a venenosidade viperina dos ímpios, dos maus, resiste a cada pedido de conversão. Perante este perigo dos malvados, os justos confiam o escândalo da injustiça à ação esperada e implacável de Deus, Senhor da história, que fará a verdadeira justiça.

A respeito das ‘presas dos leões’, significa que os ‘maus’ moem tudo com os próprios dentes ferozes. E Deus irá quebrar-lhes os seus dentes, tirando-lhes as vítimas das suas bocas. Não só, intervém através uma ação de total purificação do mal que deve ser ‘dissipado como as águas que correm’. O autor dessa oração imagina ainda que os injustos, os poderosos, opressores, serão pisados e parecidos ao ‘caracol que deslizando se consome, e o feto abortivo’, isto é, impotentes e nojentos com um destino macabro. Insistindo, o salmista, com uma poderosa declaração judiciária, visto que acabaram com muita gente, teria sido melhor que não tivessem nunca nascido.

Por fim, termina o autor com o resgate do oprimido, através de uma cena bem cruel, onde a justiça feita derrotando o opressor: “O justo terá a alegria de ver o castigo dos ímpios, e lavará os pés no sangue deles.” É Deus que liberta, porque Ele está acima de tudo e de todos e, portanto, pode cumprir a justiça. Assim sendo, o justo pode esperar confiante que um dia vai ser libertado pelo seu Senhor. Para compreender melhor isso, basta ler essas palavras de Paulo que escreveu aos Romanos: “Não pagueis a ninguém o mal com o mal, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: A mim a vingança; a mim exercer a justiça, diz o Senhor. Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber. Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem.”(12,17a.19b-20a.21).


Tende piedade de mim, ó meu Deus!

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Parece que o mal toma conta da nossa vida. Há dias insuportáveis pela tamanha dor que os perseguidores infligem aos seus perseguidos. Certa vez, vi uma pobre senhora tentando ser atendida em um órgão público, mas infelizmente não conseguia obter o que pretendia. Era uma senhora curvada, de uma idade bem avançada e com uma roupa modesta, bem pobre. Estava ao seu lado, segurando-lhe a mão, um garoto. Depois soube que, sem saúde, queria ver se tinha chance de poder ter uma ajuda beneficio para a sua vida. Depois de tanto insistir e nada conseguiu, de maneira bem desanimada, foi-se embora dizendo: “Por que esse tal de ‘pode e não pode’? Mas eu estou doente e por que não entendem?” E o garoto do seu lado: “Vovó, vamos para casa, estou com fome e cansado”. E a avó, arrastando as pernas, clamou em voz alta: “Ó meu Deus!” Como essa senhora, quantas pessoas enfrentam a vida de maneira bem sofrida e incompreendida. E essas pessoas ficam esquecidas nos seus direitos. Como, portanto, reverter uma vida esquecida, não reconhecida? O salmo 56, das Sagradas Escrituras, nos ilumina a respeito:

“Tende piedade de mim, ó Deus, tende piedade de mim, porque a minha alma em vós procura o seu refúgio. Abrigo-me à sombra de vossas asas, até que a tormenta passe. Clamo ao Deus Altíssimo, ao Deus que me cumula de benefícios. Mande ele, do céu, auxílio que me salve, cubra de confusão meus perseguidores; envie-me, Deus, a sua graça e fidelidade. Estou no meio de leões, que devoram os homens com avidez. Seus dentes são como lanças e flechas, suas línguas como espadas afiadas. Elevai-vos, ó Deus, no mais alto dos céus, e sobre toda a terra brilhe a vossa glória. Ante meus pés armaram rede; fizeram-me perder a coragem. Cavaram uma fossa diante de mim; caiam nela eles mesmos. Meu coração está firme, ó Deus, meu coração está firme; vou cantar e salmodiar. Desperta-te, ó minha alma; despertai, harpa e cítara! Quero acordar a aurora. Entre os povos, Senhor, vos louvarei; salmodiarei a vós entre as nações, porque aos céus se eleva a vossa misericórdia, e até as nuvens a vossa fidelidade. Elevai-vos, ó Deus, nas alturas dos céus, e brilhe a vossa glória sobre a terra inteira.”

O salmo inicia invocando a presença do Senhor que se manifesta com a proteção simbólica das asas do Altíssimo. Em contrapartida, o mal é representado pelos “leões, que devoram os homens com avidez”. Essa simbologia do animal feroz, que representa a ruindade dos perseguidores, é uma ameaça constante na vida das pessoas. Perante essa ameaça, o fiel contrapõe a confiança total em Deus e por isso consegue dormir tranquilo. Esses malfeitores, perseguidores dos ‘justos’, são tão fortes que se parecem como um bando de caçadores no mato que encurralam a própria caça.
Não tem como escapar da cilada dessas pessoas opressoras que pensam somente para si. Tudo parece que o mal é o vencedor. No entanto, aqui está a grande novidade: o mal é derrotado. Isto é, os perseguidores dos justos que “cavaram uma fossa diante de mim; caiam nela eles mesmos”. E o autor deste salmo manifesta esta confiança através da alegria do seu coração em viver o início do dia cheio de vida. Sente-se tão forte e animado que invoca com toda a força o despertar do dia, expressão de vitalidade e de alegria. O fiel experimenta essa profunda alegria na sua libertação das ameaças do seu perseguidor.

Assim, ainda hoje, a pessoa que se sente livre de toda ameaça manifesta a sua tranquilidade e serenidade, que vem do profundo do seu ‘coração’. E o salmo conclui com um hino de louvor às duas virtudes fundamentais da aliança, o amor e a fidelidade, que Deus consagrou com o seu povo. E o papa Francisco nos ilumina mais ainda com essas palavras pronunciadas na audiência geral de 29 de março de 2017: “A profunda esperança radica-se na fé e, precisamente por isso, é capaz de ir além de toda a esperança. Sim, porque não se fundamenta na nossa palavra, mas na Palavra de Deus. Então, inclusive neste sentido somos chamados a seguir o exemplo de Abraão que, não obstante a evidência de uma realidade que parece destinada à morte, confia em Deus e «estava plenamente convencido de que Deus era poderoso e podia cumprir o que prometera» (Rm 4, 21). Gostaria de vos fazer uma pergunta: nós, todos nós, estamos persuadidos disto? Estamos convictos de que Deus nos ama e que está disposto a cumprir tudo aquilo que nos prometeu? Mas, padre, quanto temos que pagar por isto? Só há um preço: «abrir o coração». Abri os vossos corações e esta força de Deus levar-vos-á em frente, fará milagres e ensinar-vos-á o que é a esperança. Eis o único preço: abri o coração à fé e Ele fará o resto.”


Com deus, nada temo!

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Toda vez que leio o jornal, fico triste em ver quantas mortes violentas acontecem todos os dias. É verdade, todos os dias! Descobri também que as reportagens não relatam quantos, de fato, morrem todos os dias. Descobri, jornalisticamente, que aquilo que é noticiado é somente, se posso dizer de maneira bem aproximativa, quase uma amostra de tantas mortes entre nós. Por exemplo, pelos meus conhecimentos através dos contatos com o povo da grande periferia de Belém, descubro quantos jovens foram executados publicamente e os jornais nem chegam a mencionar.

O interessante em tudo isso é ver o povo, diante de cenas macabras, impotente e com medo. Cala-se perante essa crueldade. Por que isso? Porque, talvez, ele desconfia de tudo, não se sente protegido, e a única maneira de sobreviver é ficar calado. Uma resposta a tudo isso pode ser encontrada no salmo 55 das Sagradas Escrituras, em que mostra que esse povo tem alguém de verdade que pode defendê-lo. E quem é? Leia atentamente:

“Tende piedade de mim, ó Deus, porque aos pés me pisam os homens; sem cessar eles me oprimem combatendo. Meus inimigos continuamente me espezinham, são numerosos os que me fazem guerra. Ó Altíssimo, quando o terror me assalta, é em vós que eu ponho a minha confiança. É em Deus, cuja promessa eu proclamo, sim, é em Deus que eu ponho minha esperança; nada temo: que mal me pode fazer um ser de carne? O dia inteiro eles me difamam, seus pensamentos todos são para o meu mal; Reúnem-se, armam ciladas, observam meus passos, e odeiam a minha vida. Tratai-os segundo a sua iniquidade. Ó meu Deus, em vossa cólera, prostrai esses povos. Vós conheceis os caminhos do meu exílio, vós recolhestes minhas lágrimas em vosso odre; não está tudo escrito em vosso livro? Sempre que vos invocar, meus inimigos recuarão: bem sei que Deus está por mim. É em Deus, cuja promessa eu proclamo, é em Deus que eu ponho minha esperança; nada temo: que mal me pode fazer um ser de carne? Os votos que fiz, ó Deus, devo cumpri-los; oferecer-vos-ei um sacrifício de louvor, porque da morte livrastes a minha vida, e da queda preservastes os meus pés, para que eu ande na presença de Deus, na luz dos vivos.”

O salmo inicia, dramaticamente, com a descrição de uma ação militar de perseguição. Os protagonistas dessa agressão são inimigos sem nomes que atacam sem piedade o autor da oração. E faz uma comparação com os caçadores que estudam todas as possibilidades de como acertar e pegar a sua caça: “Armam ciladas, observam meus passos”. Perante uma situação horrível como essa, cheia de medo, erguem-se preces a Deus para que liberte dessa desumana perseguição. Não tem alternativa em confiar no socorro de Deus, porque não tem mais ninguém para apelar.

Esses perseguidores são apresentados como ‘povos’ talvez para exaltar a potência e a multidão. Ou talvez pela tentativa de transferir sobre um plano nacional e comunitário um acontecimento pessoal e individual. O autor desse salmo passa depois da dramaticidade das ameaças e perseguição à tranquilidade de entrega a Deus, seu verdadeiro refúgio. Por isso reza: “Vós recolhestes minhas lágrimas em vosso odre; não está tudo escrito em vosso livro?” Justamente, porque no grande livro da história junta todas as palavras, as ações, as alegrias de toda a humanidade e, sobretudo, escreve as lagrimas que os perseguidores fazem aos pobres.

Deus junta com carinho todas as lágrimas das vítimas e assim não caem no vazio. Assim sendo, demonstra que as lágrimas são aos ‘olhos’ de Deus realidades preciosas como a água, o vinho, o leite, substâncias vitais que o peregrino no deserto guarda no seu odre. Deus grava e conserva como tesouros todos os sofrimentos da humanidade. É a história do ser humano pobre e sofrido resgatado pelo seu Deus. Assim sendo, revela-se o primado da soberania de Deus na história do mundo: é Ele o autor e defensor da vida. Ninguém pode ameaçar a vida, não obstante a aparente força dos poderosos deste mundo que dominam o cotidiano. A Palavra do Senhor liberta e no caminho da luz conduz os seus servos.

O papa Francisco, na audiência geral de 11 de janeiro de 2017, falou o seguinte: “Fé significa confiar em Deus — quem tem fé, confia em Deus — mas chega o momento em que, confrontando-se com as dificuldades da vida, o homem experimenta a fragilidade daquela confiança e sente a necessidade de certezas diversas, de seguranças tangíveis, concretas. Confio em Deus, mas a situação é um pouco crítica e eu preciso de uma certeza um pouco mais concreta. E está ali o perigo! Então somos tentados a procurar consolações até efêmeras, que parecem preencher o vazio da solidão e aliviar a fadiga do crer.”


Ó Deus, escuta a minha oração!

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Já ouvi queixas de várias pessoas dizendo que foram traídas por seus ‘melhores amigos’: “Padre Claudio, estou acabado, não tenho mais forças para reagir, porque aquela pessoa que tanto estimava há anos, que confiava totalmente, ajudava em tudo, considerava-o como irmão, essa tal pessoa me traiu, aliás, anda falando mal de mim por aí. Inclusive, padre, éramos frequentadores assíduos da igreja, pessoas que compartilhávamos a santa eucaristia… Me sinto totalmente frustrado por essa traição. Não tenho mais palavras…”. Essa história, como tantas outras, é comum em nosso convívio. Então, a gente se pergunta como enfrentar uma dura realidade como essa: a traição dos amigos. As Sagradas Escrituras, pelo salmo 54, nos ajuda nesse sentido:

“Prestai ouvidos, ó Deus, à minha oração, não vos furteis à minha súplica; Escutai-me e atendei-me. Na minha angústia, agito-me num vaivém, perturbo-me à voz do inimigo, sob os gritos do pecador. Eles lançam o mal contra mim, e me perseguem com furor.

Palpita-me no peito o coração, invade-me um pavor de morte.

Apoderam-se de mim o terror e o medo, e o pavor me assalta.

Digo-me, então: tivesse eu asas como a pomba, voaria para um lugar de repouso; ir-me-ia bem longe morar no deserto.

Apressar-me-ia em buscar um abrigo contra o vendaval e a tempestade.

Destruí-os, Senhor, confundi-lhes as línguas, porque só vejo violência e discórdia na cidade.

Dia e noite percorrem suas muralhas, no seu interior só há injustiça e opressão.

Grassa a astúcia no seu meio, a iniqüidade e a fraude não deixam suas praças.

Se o ultraje viesse de um inimigo, eu o teria suportado; se a agressão partisse de quem me odeia, dele me esconderia.

Mas eras tu, meu companheiro, meu íntimo amigo, com quem me entretinha em doces colóquios; com quem, por entre a multidão, íamos à casa de Deus.

Que a morte os colha de improviso, que eles desçam vivos à mansão dos mortos. Porque entre eles, em suas moradas, só há perversidade.

Eu, porém, bradarei a Deus, e o Senhor me livrará.

Pela tarde, de manhã e ao meio-dia lamentarei e gemerei; e ele ouvirá minha voz.

Dar-me-á a paz, livrando minha alma dos que me acossam, pois numerosos são meus inimigos.

O Senhor me ouvirá e os humilhará, ele que reina eternamente, porque não se emendem nem temem a Deus.Cada um deles levanta a mão contra seus amigos. Todos violam suas alianças.
De semblante mais brando do que o creme, trazem, contudo, no coração a hostilidade; suas palavras são mais untuosas do que o óleo, porém, na verdade, espadas afiadas.
Depõe no Senhor os teus cuidados, porque ele será teu sustentáculo; não permitirá jamais que vacile o justo.E vós, ó meu Deus, vós os precipitareis no fundo do abismo da morte. Os homens sanguinários e ardilosos não alcançarão a metade de seus dias! Quanto a mim, é em vós, Senhor, que ponho minha esperança.”

Este salmo, esta oração, é justamente é uma clamação de um senhor que foi traído pelo seu melhor amigo. De fato, encontramos nessa leitura a imagem triste da traição. Por isso, o autor clama por Deus, reza incessantemente para ser ouvido, com a intenção de denunciar a sua cruel situação que está passando. O autor dessa oração lamenta profundamente essa traição do amigo, não consegue suportar. Teria sido mais fácil se tivesse sido um inimigo, mas um amigo? Ficou destruído. Veja bem o que diz o salmo: “Íamos à casa de Deus.” Estavam juntos nessa profissão de fé. Eles iam para o Templo nas festas litúrgicas solenes, cantando com muita fé e na tranquilidade.

Perante esta cena de harmonia e de amor e agora rompida pela traição e desilusão, ele queria que tudo se transformasse em nada. Praticamente esse fiel quis dizer: “Já pensou, estávamos no templo sagrado, na sua pureza divina, e, não obstante isso, esse amigo teve a coragem de me trair, de ser um grande mentiroso”. Diríamos hoje, não respeitou nem a igreja! E para encarar mais ainda essa traição, o autor descreve que “suas palavras são mais untuosas do que o óleo, porém, na verdade, espadas afiadas”. A ‘boca’ aqui é um símbolo das relações humanas que se torna calúnia.

Assim sendo, quanto mal pode fazer a nossa fala quando se torna falsa e enganadora? Ela tem uma força cortadora. Com as palavras se pode até matar. Perante essa realidade, como reagir? Segundo o autor deste salmo, ele confessa a vontade de fugir desse mundo falso e cruel. Não aguenta esta amargura. Porém, ao mesmo tempo, alimenta uma esperança viva, através da oração, que a ação de Deus não tarda a chegar para socorrê-lo. A confiança no Senhor é maior que a tristeza que os inimigos lhes dão. Por isso continua firme no seu caminho.


Deus é a minha verdadeira ajuda

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As pessoas não vivem somente momentos de alegria e felicidade, mas também de tristeza e sofrimento. Os desafios da vida são grandes no percurso da história da humanidade. Há pessoas que chegam a um desespero tão grande que não sabem mais o que fazer. Conheço realidades tão comoventes de desespero que me deixam muito triste e preocupado. Tem gente que chega a invocar até a morte como solução da própria vida. Perante tudo isso, eu sempre me refugio na Palavra de Deus. O que Ela me diz, me ilumina. Para mim, é um sol que resplandece no meio das trevas da história das pessoas. Por isso, quero propor esse salmo 53 das Sagradas Escrituras para oferecer luz à humanidade, àqueles que estão no desespero, que não encontram mais uma luz no final do túnel da vida. Leia atentamente o que diz:

“Quando os zifeus vieram dizer a Saul: Davi encontra-se escondido entre nós. Pela honra de vosso nome, salvai-me, meu Deus! Por vosso poder, fazei-me justiça.

Ó meu Deus, escutai minha oração, atendei as minhas palavras, pois homens soberbos insurgiram-se contra mim; homens violentos odeiam a minha vida: não têm Deus em sua presença.

Mas eis que Deus vem em meu auxílio, o Senhor sustenta a minha vida.

Fazei recair o mal em meus adversários e, segundo vossa fidelidade, destruí-os.

De bom grado oferecer-vos-ei um sacrifício, cantarei a glória de vosso nome, Senhor, porque é bom, pois me livrou de todas as tribulações, e pude ver meus inimigos derrotados.”

Esse breve salmo nos mostra como se faz uma intercessão a Deus. Como invoca-Lo. E para isso destaca-se esse modelo em que aparece um “eu” que intercede, reza; um “eles”, que são os inimigos; e o terceiro, o “Deus” que atende a súplica. E assim mostra-nos também como uma oração evoca os momentos da vida: com um passado feliz, um presente bem triste e um futuro esperançoso, bem melhor do presente. Uma oração bem cadenciada pelo nome de Deus. Dito isso, podemos ver nesse salmo como os inimigos ameaçam a vida do justo fiel.

Nesse sentido, o intercessor diz: “Salvai-me, meu Deus! Por vosso poder, fazei-me justiça…” Ele sente o real perigo da perseguição do poderoso e arrogante que ameaça a sua vida. Nessa oração se mescla dor e esperança. Nesse sentido, o justo fiel focaliza a pressão e ameaça do poderoso mau e arrogante. Por isso, o suplicante acredita cegamente que Deus, Senhor da história, vai intervir para defender o pequeno humilde pobre. Assim sendo, esse humilde pobre confia na ação de Deus e, portanto, o medo desaparece. O baluarte Deus é garantia de vida, é segurança: “De quem eu terei medo!”.

Com essa confiança, mostra-nos que o verdadeiro protagonista da história da vida é Deus e não os poderosos desse mundo. Deus é quem socorre as vítimas da injustiça. A Ele se abandona o justo sofredor e perseguido. O sofrimento é tão grande que o Senhor não consegue “fechar os olhos e seus ouvidos”, garantindo-lhe o seu amparo. E esse justo é tão convencido dessa presença de Deus que: “Fazei recair o mal sobre os meus inimigos”. Por que chega a tanta certeza? Porque essa intervenção divina deve ser reconduzida à Sagrada Aliança que Deus fez com o seu povo escolhido. Portanto, Deus não pode abandonar esse vínculo com as suas criaturas que Ele mesmo escolheu e que é muito precioso. E, enfim, o fiel que faz a sua oração antecipa o seu futuro fundado na sua fé em Deus: “Cantarei a glória de vosso nome, Senhor, porque é bom.”

O passado tão triste e cruel se reverterá em um futuro de glória e triunfo, porque é sustentado pelo Deus, Senhor da história. A oração conclui repleta de esperança e de coragem. Nas trevas da humilhação e opressão resplandece a luz da fé em um Deus que liberta o fiel oprimido e sofredor. Essa oração se torna a oração de todos os que sofrem e são oprimidos. Para finalizar tudo isso, quero reportar aqui as palavras do Papa Francisco pela ocasião do ‘Angelus’ do dia 26.02.2017: “Existe um Pai amoroso que não se esquece nunca de seus filhos. Entregar-se a Ele não resolve magicamente os problemas, mas permite enfrentá-los com o espírito correto, corajosamente.” E continua o santo Padre: “Deus não é um ser distante e anônimo: é o nosso refúgio, a fonte de nossa serenidade e de nossa paz. É a rocha da nossa salvação, a quem podemos agarrar-nos na certeza de não cair. Quem se agarra a Deus não cai, quem se agarra a Deus, não cai nunca! É a nossa defesa do mal, sempre à espreita. Deus é para nós o grande amigo, o aliado, o pai, mas nem sempre nos damos conta disto”. E o Bergoglio termina na ótica cristã:

“A esperança cristã é voltada ao cumprimento futuro da promessa de Deus e não se rende diante de alguma dificuldade, porque é fundada na fidelidade de Deus, que nunca falta. É fiel, é um pai fiel, é um amigo fiel, é um aliado fiel”.


O perigo é pensar que Deus não existe

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Diariamente, eu penso que, se não tivesse a experiência de Deus, minha vida seria vazia e limitada demais. Imagino minha incapacidade de enfrentar a vida com o sentido que vai além do perceptível, do sentimento e da limitação humana. O que teria sido de mim sem essa experiência de Deus, em relação a mim mesmo, aos outros, a mãe natureza? Veja o salmo 52 das Sagradas Escrituras o que nos fala:

“Diz o insensato em seu coração: Não há Deus. Corromperam-se os homens, seu proceder é abominável, não há um só que pratique o bem. O Senhor, do alto do céu, observa os filhos dos homens para ver se, acaso, existe alguém sensato que busque a Deus. Todos eles, porém, se extraviaram e se perverteram; não há mais ninguém que faça o bem, nem um, nem mesmo um só. Não se emendarão esses obreiros do mal? Eles que devoram meu povo como quem come pão, não invocarão o Senhor? Foram tomados de terror, não havendo nada para temer. Porque Deus dispersou os ossos dos que te assediam; foram confundidos porque Deus os rejeitou.

Ah, que venha de Sião a salvação de Israel! Quando Deus tiver mudado a sorte de seu povo, Jacó exultará e Israel se alegrará.”

É um salmo, segundo a linguagem bíblica, do ‘tolo’, do ‘inconsciente’. O ateísmo no antigo oriente é para se entender mais no sentido prático e existencial. Não é como a nossa cultura moderna que focaliza mais no sentido teórico-especulativo. Esse ateu, descrito neste salmo, é convencido de que Deus não está nem aí por aquilo que acontece na história da humanidade, mas fica sossegado no seu mundo do céu, no seu trono celestial. É indiferente para a vida das pessoas. É por isso que a história é marcada e designada pelos mais poderosos, arrogantes que se tornam os dominadores dela.

Nesse sentido, o autor desse hino quer contestar essa concepção de vida e mostrar como Deus intervêm, na verdade, para fazer justiça. Porém, não como nós queremos mas como Ele quer. Os desígnios Dele, presentes na nossa história, não são os nossos: “Deus dispersou os ossos dos que te assediam”. Isto é, Ele derrota sempre os ímpios que assediam o justo. Esse hino, podemos compreendê-lo, com uma primeira parte onde se lamenta a injustiça ateia e uma segunda parte onde se invoca o julgamento divino acompanhado de uma oração de esperança.

Por quanto à lamentação sobre esse ateísmo, de fato, existe uma forte ligação entre injustiça e ateísmo. Não interessa que exteriormente o injusto seja um ‘praticante’, porque com o seu comportamento mal na vida social se torna parecido a um ateu. Hoje em dia é o que nós diríamos: todos esses escândalos de corrupção, de extorsão, de máfia etc. talvez essas pessoas envolvidas se dizem que são praticantes assíduas de igrejas, mas na verdade são ateias. E assim o salmista diz embora que Deus parece ausente, mas na verdade se revela vindo do céu em socorro do justo e combatendo o ímpio.

Por que Deus intervém? Porque vê que a humanidade está repleta de opressores, de corruptos e falsos. O sábio que busca a Deus não encontra a sua vez nessa podridão da sociedade. Ele é marginalizado. Continua o salmista: “Não se emendarão esses obreiros do mal? Eles que devoram meu povo como quem come pão, não invocarão o Senhor?” Explorar e desfrutar os pobres é um ato de sacrilégio, porque significa desafiar o mesmo Deus, que é o advogado que defende eles. E o Deus não reconhecido intervém na história perante essa blasfema provocação.

Assim o julgamento de Deus se torna presente. Aqui é resumido com três símbolos: o terror, o assédio e os ossos dispersos. O ‘terror’ é sinal da manifestação divina que vem julgar. O ‘assédio’ é uma imagem que quer dizer uma situação de perigo e de fim. E os ‘ossos dispersos’ tem conotações de enterro e exalta a grande vitória de Deus sobre os poderosos e sobre os ímpios. Portanto, essa oração é uma proclamação da efetiva presença de Deus na história da humanidade. Ele é o Senhor de tudo e de todos. E o salmo termina testemunhando a grande esperança na justiça que levará a triunfar os justos, os que sofrem, os que são explorados. E essa esperança de Israel, demonstrada aqui, é o retorno do seu povo deportado para Babilônia pelo rei Nabucodonosor. O povo que foi humilhado por essa superpotência ‘ateia’.

Assim sendo o salmo levanta um grito de esperança e de alegria não obstante o escândalo e as trevas da história. Creio que também todos nós temos esse grande desejo, não obstante todas as crueldades e tristezas da vida, que é Deus o nosso refúgio e o nosso defensor.


O fiel justo segue as opções de Deus

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Estamos muito acostumados a ouvir a proclamação do nome de ‘Deus’ por todo lado, sobretudo em discursos oficiais de poder. A palavra ‘Deus’ parece ser usada para dar aquela garantia, certeza ao discurso para se tornar mais crível. É uma maneira de falar, como diz popularmente o nosso povo, da boca pra fora. Na verdade, a menção de Deus nos discursos, mensagens, até pregações, é somente um preenchimento da fala discursiva, preenchimento de vazio.

Este, podemos até dizer, é diabólico, porque quer se projetar, na verdade, os projetos de vida excluindo Deus. Essa maneira de falar, quantas vezes é mais fácil marginalizar eventos, fatos ou pessoas que contradizem uma eventual conduta nossa, que é adversa ao Reino de Deus? No final, não queremos desconfiar de nós mesmos, mas, sim, do nosso Deus. A história se repete, o ser humano acha que tudo pode pela sua fala e a sua conduta.

Como este julgamento é tão duro e, naturalmente, isto nos envolve. A fidelidade de Deus ao seu projeto de Vida é eterna. A justiça de Deus ninguém pode impedi-la. Ele vai fazer de tudo para que aconteça. Com certeza, Ele encontra sempre a sua solução. Neste sentido, temos que rever as nossas concretas teimosias egoísticas, que nos levam a ter uma concepção de vida sem Deus, sermos os donos do Reino Dele. O salmo 51 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender melhor a nossa vida:

“Quando Doeg, o idumeu, veio dizer a Saul: Davi entrou na casa de Aquimelec. Por que te glorias de tua malícia, ó infame prepotente?

Continuamente maquinas a perdição; tua língua é afiada navalha, tecedora de enganos. Tu preferes o mal ao bem, a mentira à lealdade.Só gostas de palavras perniciosas, ó língua pérfida!
Por isso Deus te destruirá, há de te excluir para sempre; ele te expulsará de tua tenda, e te extirpará da terra dos vivos. Vendo isto, tomados de medo, os justos zombarão de ti, dizendo:Eis o homem que não tomou a Deus por protetor, mas esperou na multidão de suas riquezas e se prevaleceu de seus próprios crimes.

Eu sou, porém, como a virente oliveira na casa de Deus: confio na misericórdia de Deus para sempre. Louvar-vos-ei eternamente pelo que fizestes e cantarei vosso nome, na presença de vossos fiéis, porque é bom.”

A estrutura do salmo pode ser definida por três imagens: do ímpio, do ser justo e da cena de Deus que julga. Os símbolos que representam o ímpio são a língua igual a uma navalha afiada, palavras perniciosas e, no entanto, o justo como uma virente oliveira.

O ímpio é apresentado pelo autor do salmo como: ‘Por que te glorias de tua malícia, ó infame prepotente?’ O ímpio agride o justo falando mal dele, não o respeitando. De fato, quem é o justo aqui, segundo o salmista? É ele mesmo. Ele que reza dizendo: ‘eu confio na misericórdia de Deus para sempre.’ E aqui se contrapõe o malvado, igual a navalha afiada, ao fiel justo que é doce e leve como uma árvore de oliveira plantada nos jardins do templo. Portanto, esse justo, é um ser humano de paz, de tranquilidade, de firmeza, de bênção e de confiança em Deus. Assim sendo, o justo conhece, saboreia o que é eterno, representado simbolicamente pela oliveira. Porém, ao centro do salmo se destaca que o ímpio e o justo são convocados perante Deus para serem julgados. E aqui mostra como Deus age em maneira forte, quase como se fosse uma detonação do ímpio, extirpando-o da terra dos seres humanos.

Perante tudo isso, compreende-se que a verdadeira estabilidade do ser humano não está na habilidade das pessoas, mas em Deus. É Ele a nossa defesa. Esse juízo contra as pessoas ruins é louvado pelos justos. Essa ação de Deus é realmente temida pelos seres viventes, mas ao mesmo tempo gera alegria porque a justiça foi feita. Assim, os arrogantes, os soberbos, desafiadores da justiça, são reduzidos a nada. O ímpio pode ter toda a riqueza que quiser, ilusão de segurança e proteção, mas sem Deus é perdido.

Toda a sua maquinação perversa contra o justo é destruída por Deus, refúgio dele. O salmo se apresenta, não obstante a revelação da força do ímpio, com uma grandeenergia de otimismo. Nos mostra como Deus é e não é indiferente à nossa história, mas se faz presente ativamente. E se faz presente do jeito Dele e não a partir da nossa maneira de pensar e agir. Ele restabelece a justiça para valorizar a obra como um todo da criação. Qual a lição de tudo isso? O fiel, o justo, deve sempre confiar e aguardar para compartilhar as opções de Deus para fazer justiça. Somente assim seremos capazes de louvar e agradecer o nosso Deus entre nós.