Viva o Círio!

comentários

Maria, “estrela da evangelização”, ajuda-nos a discernir o verdadeiro poder dos filhos e filhas de Deus que não podem confundi-lo com o dos ‘homens’, porque o poder de Deus é misericórdia, é amor infinito. O Círio 2017 quer testemunhar como a Virgem Nazaré é a verdadeira e grande servidora desse poder de Deus. Essa grande manifestação religiosa paraense testemunha a perfeita sintonia com a Virgem de Nazaré.
E por essa proximidade do povo paraense com Maria leva a contagiar todo o povo amazônico. É uma festividade que congrega e une as pessoas. É uma maneira de expressar sua religiosidade, rica em emoções e gestos heroicos de solidariedade. Nessa prodigiosa manifestação, o paraense se sente povo de Deus que busca adesão ao seu Senhor, e se percebe livre para transbordar tudo aquilo que tem na vida e no seu coração. Mesmo que alguns devotos expressem sua fé de modo estranho ao catolicismo tradicional, essa vontade de se abrir a Deus é considerada rica de valores para serem exploradas. Por meio da devoção à Virgem de Nazaré, vejo nas pessoas uma grande sede de Deus. De fato, cada povo manifesta esse desejo do seu modo e de acordo com sua maneira de ser. Assim sendo, não podemos tentar catalogar a festa religiosa como sendo de classe ‘A’ ou classe ‘B’. Antes, contém, com frequência, um profundo sentido de Deus e dos seus atributos como a paternidade, a providência, a presença amorosa e a misericórdia. O Círio é de todos, também daqueles que, às vezes, nem frequentam a Igreja ou de outras denominações que não pertencem à Igreja Católica Apostólica Romana.

Segundo os “Padres da Igreja”, depois de Jesus, é Maria a pessoa mais importante. Jesus revela o Pai, mas quem ajuda a chegar a Jesus é Maria. Ela é uma pessoa como nós, mas foi preservada do pecado por Deus. Essa grandeza pode explicar a devoção popular a Maria.

E a devoção e o amor à Maria é um incentivo constante do culto divino para fazermos a experiência da nossa condição de filhos e filhas de Deus. Círio é fazer uma experiência de fé. Essa religiosidade tão rica, mas ao mesmo tempo vulnerável, acolhe com grande sensibilidade os valores inegáveis que ajudam a fazer um verdadeiro encontro com Deus, em Jesus Cristo. Círio, isto é, Nossa Senhora de Nazaré, é uma imensa oportunidade de realizar tudo isso. O ser humano precisa de mediações e, sobretudo, daquelas que lhes são mais concernentes com a sua realidade. Maria de Nazaré foi como uma de nós. Por seu exemplo, os devotos recebem incentivos para imita-la em como ser bons cristãos. É verdade também que há pessoas, nessas circunstâncias, qual do Círio, que podem se deixar levar ao perigo das superstições, a se limitar a uma manifestação cultural e nada mais, e a outras deformações. Mas é também verdade que o Círio pode ajudar a uma verdadeira evangelização através do desejo ardente de Deus, capacidade de incentivar a fraternidade com gestos abnegados e alimentar processos de despojamento e abertura aos outros.

Portanto, essa manifestação de fé no Círio de Nazaré não exclui nem sequer ofusca a mediação universal e insubstituível de Cristo, o qual permanece sempre o caminho por excelência para o encontro com Deus, como ensina o Concílio Vaticano II. Celebrar mais um Círio é uma extraordinária oportunidade de resgatar e estimular a nossa condição de filhos e filhas de Deus. Com Maria, “Estrela da Evangelização”, temos mais sensibilidade para abrir-nos ao Deus de Jesus Cristo. Assim sendo, a devoção mariana nos alimenta a sermos uma Igreja cada vez mais viva e corajosa. “Hão de chamar-me bem-aventurada todas as gerações (Lc 1, 48)”, disse Maria, no seu cântico profético. “Bendita sois entre as mulheres, e bendito o fruto do vosso ventre, Jesus”, lhes respondem os cristãos paraenses e do mundo todo.

Concluindo, o papa Francisco nos diz: “A alegria plena se exprime com a voz de Maria na estupenda oração do Magnificat: É o canto de louvor a Deus que opera grandes coisas por meio das pessoas humildes, desconhecidas para o mundo, como é a própria Maria, como é o seu esposo José, e como é também o local onde vivem, Nazaré. As grandes coisas que Deus fez com as pessoas humildes! As grandes coisas que o Senhor faz no mundo com os humildes, porque a humildade é como um vazio, que deixa espaço para Deus. O humilde é poderoso, não porque é forte. E esta é a grandeza do humilde, da humildade”. E acrescentou o Santo Padre: “Gostaria então de perguntar a cada um de vós e também a mim mesmo: Como está a minha humildade?”
Feliz Círio!


Feliz aquele cujo pecado foi perdoado

comentários

Quem realmente acredita e tem fé em Deus reconhece que o maior perigo da vida é o pecado. Infelizmente, a sociedade que parece dar preferência ao puro materialismo, à ganância, ao poder como verdadeiras opções de garantias de vida nem percebe a presença do pecado nem sabe o que é ou não o reconhece. Faz de conta que não existe. Pensamentos como esses refletem uma sociedade concentrada na materialidade. Tudo em função daquilo que se consome. E a felicidade consiste somente em ter cada vez mais para consumir. Uma ótica como essa não permite discernir a vida como um todo, na sua objetividade. É difícil, assim, fazer uma experiência além da matéria, reconhecer a vida como além daquilo que enxergamos. Deus, assim, não tem lugar na ‘nossa mesa’. Mas aquele que busca a sua vida em Deus reconhece o quanto estamos longe Dele ou falhamos com Ele. E aí sente o peso do pecado. Não por acaso, os santos se acham os maiores pecadores do mundo, porque justamente experimentam o quanto é grande a incapacidade de seguir a Deus. A leitura do salmo 31 das Sagradas Escrituras nos ilumina a respeito disso:

“Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido. Feliz o homem a quem o Senhor não argui de falta, e em cujo coração não há dolo. Enquanto me conservei calado, mirraram-se-me os ossos, entre contínuos gemidos. Pois, dia e noite, vossa mão pesava sobre mim; esgotavam-se-me as forças como nos ardores do verão. Então, eu vos confessei o meu pecado, e não mais dissimulei a minha culpa. Disse: Sim, vou confessar ao Senhor a minha iniquidade. E vós perdoastes a pena do meu pecado. Assim também todo fiel recorrerá a vós, no momento da necessidade. Quando transbordarem muitas águas, elas não chegarão até ele. Vós sois meu asilo, das angústias me preservareis e me envolvereis na alegria de minha salvação. Vou te ensinar, dizeis, vou te mostrar o caminho que deves seguir; vou te instruir, fitando em ti os meus olhos: não queiras ser sem inteligência como o cavalo, como o muar, que só ao freio e à rédea submetem seus ímpetos; de outro modo não se chegam a ti. São muitos os sofrimentos do ímpio. Mas quem espera no Senhor, sua misericórdia o envolve. Ó justos, alegrai-vos e regozijai-vos no Senhor. Exultai todos vós, retos de coração.”

O fiel desse salmo reconhece que o pecado, que ameaça a vida, pesa fortemente na consciência da pessoa e esgota as suas forças. O pecado atinge até o físico. Mas aquilo que o autor dessa oração quer evidenciar é o aspecto positivo do perdão, e por isso aconselha qual é o verdadeiro rumo que o ser humano deve percorrer: “vou te mostrar o caminho que deves seguir”. Assim sendo testemunha o suplicante que é oportuno agradecer constantemente a Deus e convida ao mesmo tempo o ser humano a não se entregar a ação selvagem do pecado: “não queiras ser sem inteligência como o cavalo”. O salmo nos mostra o sentido do pecado por três verbos: absolvido, perdoado e não argui de falta.

O primeiro verbo ‘absolvido’ significa que Deus nos tira um peso que nós carregamos permitindo assim respirar na nossa vida. O segundo verbo ‘perdoado’ quer dizer que o pecado foi cancelado, anulado pela ação eficaz de Deus. E o terceiro ‘não argui de falta’ diz que o pecado não faz mais parte da lista das obras do ser humano. Estamos perante uma remissão plena da culpa. Assim sendo, o ser humano que se converte e é perdoado se torna um verdadeiro fiel, um testemunho para os outros. Por isso todo fiel, nas trevas do pecado, suplica o Senhor para ser liberto. É essa experiência de libertação que leva o perdoado a aclamar com profunda alegria: ‘Alegrai-vos e regozijai-vos no Senhor’.

Os puros de coração poderão se associar aos justos para louvar e agradecer a Deus por ter-lhes perdoados, libertando-os do mal e assim proporcionando-os como umas criaturas novas. Este salmo é um incentivo para todos a confiarmos na invocação constante do Senhor, qual verdadeira nossa esperança de vida. E, para nós cristãos, o santo padre papa Francisco nos orienta: “Jesus nos ensina sobre o perdão. Primeiro: pedir perdão não é um simples pedido de desculpas, é ter consciência do pecado, da idolatria que eu fiz, das tantas idolatrias. Segundo: Deus sempre perdoa, sempre. Mas pede que eu perdoe. Se eu não perdoo, fecho as portas ao perdão de Deus. ‘Perdoai-nos os nossos pecados assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido’”. Portanto, essa libertação do pecado por Deus depende também de nós desejarmos ardentemente tudo isso. É nisso que consiste a nossa alegria.


Salvai-me, ó Deus !

comentários

Porque somos peregrinos estamos sujeitos a tantas provas. Às vezes, são demais pesadas. A leitura do salmo 68, das Sagradas Escrituras, pode ajudar compreender a nossa condição de seres humanos.
“Salvai-me, ó Deus, porque as águas me vão submergir. Estou imerso num abismo de lodo, no qual não há onde firmar o pé. Vim a dar em águas profundas, encobrem-me as ondas. Já cansado de tanto gritar, enrouqueceu-me a garganta. Finaram-se-me os olhos, enquanto espero meu Deus. Mais numerosos que os cabelos de minha cabeça são os que me detestam sem razão. São mais fortes que meus ossos os meus injustos inimigos. Porventura posso restituir o que não roubei? Vós conheceis, ó Deus, a minha insipiência, e minhas faltas não vos são ocultas. Os que esperam em vós, ó Senhor, Senhor dos exércitos, por minha causa não sejam confundidos. Que os que vos procuram, ó Deus de Israel, não tenham de que se envergonhar por minha causa, pois foi por vós que eu sofri afrontas, cobrindo-se-me o rosto de confusão. Tornei-me um estranho para meus irmãos, um desconhecido para os filhos de minha mãe. É que o zelo de vossa casa me consumiu, e os insultos dos que vos ultrajam caíram sobre mim. Por mortificar minha alma com jejuns, só recebi ultrajes. Por trocar minhas roupas por um saco, tornei-me ludíbrio deles. Falam de mim os que se assentam às portas da cidade, escarnecem-me os que bebem vinho. Minha oração, porém, sobe até vós, Senhor, na hora de vossa misericórdia, ó Deus. Na vossa imensa bondade, escutai-me, segundo a fidelidade de vosso socorro. Tirai-me do lodo, para que não me afunde. Livrai-me dos que me detestam, salvai-me das águas profundas. Não me deixeis submergir nas muitas águas, nem me devore o abismo. Nem se feche sobre mim a boca do poço. Ouvi-me, Senhor, pois que vossa bondade é compassiva; em nome de vossa misericórdia, voltai-vos para mim. Não escondais ao vosso servo a vista de vossa face; atendei-me depressa, pois estou muito atormentado. Aproximai-vos de minha alma, livrai-me de meus inimigos. Bem vedes minha vergonha, confusão e ignomínia. Ante vossos olhos estão os que me perseguem: seus ultrajes abateram meu coração e desfaleci. Esperei em vão quem tivesse compaixão de mim, quem me consolasse, e não encontrei. Puseram fel no meu alimento, na minha sede deram-me vinagre para beber. Torne-se a sua mesa um laço para eles, e uma armadilha para os seus amigos. Que seus olhos se escureçam para não mais ver, que seus passos sejam sempre vacilantes. Despejai sobre eles a vossa cólera, e os atinja o fogo de vossa ira. Seja devastada a sua morada, não haja quem habite em suas tendas, porque perseguiram aquele a quem atingistes, e aumentaram a dor daquele a quem feristes. Deixai-os acumular falta sobre falta, e jamais sejam por vós reconhecidos como justos. Sejam riscados do livro dos vivos, e não se inscrevam os seus nomes entre os justos. Eu, porém, miserável e sofredor, seja protegido, ó Deus, pelo vosso auxílio. Cantarei um cântico de louvor ao nome do Senhor, e o glorificarei com um hino de gratidão. E isto a Deus será mais agradável que um touro, do que um novilho com chifres e unhas. Ó vós, humildes, olhai e alegrai-vos; vós que buscais a Deus, reanime-se o vosso coração, porque o Senhor ouve os necessitados, e seu povo cativo não despreza. Louvem-no os céus e a terra, os mares e tudo o que neles se move. Sim, Deus salvará Sião e reconstruirá as cidades de Judá; para aí hão de voltar e a possuirão. A linhagem de seus servos a receberá em herança, e os que amam o seu nome aí fixarão sua morada.”

Esta cumprida oração foi muita usada na tradição cristã. Por exemplo, Santo Hilário de Poitiers (IV séc. França) discernia nessa oração toda a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta oração se pode subdividir em duas protestas: a Deus e aos inimigos. A Deus pelo mal pessoal que é descrito através da tradicional interação entre o campo biológico e o campo ético. Uma pessoa destruída pela dor, pelo sofrimento, manifesta também uma profunda solidão e, ao mesmo tempo, uma grande humilhação. A ícone de tudo isso é o dilúvio. O mal é como se fosse aguas profundas que tudo submergem e levam para o abismo. No entanto, o mal que vem de fora é representado pelos inimigos, aos quais o autor desse salmo lhes dirige uma violenta imprecação e maldição.

De fato, desde os primeiros versículos aparecem tramando acusações contra o fiel em oração. Como se comportar perante tanta maldade? O fiel aposta no julgamento de Deus. É Ele que o vingará e o protegerá. Interessante notar que a maldição que mais se destaca é: “Puseram fel no meu alimento, na minha sede deram-me vinagre para beber”. Os inimigos tinham tentado envenenar o alimento do fiel e dar-lhe vinagre por bebida. Este salmo termina com um agradecimento comunitário, porque embora o presente seja marcado pela dor e sofrimento, o futuro será glorioso e libertador. Realmente, na oração bíblica, a confiança em Deus que liberta e socorre tem sempre a última palavra. Assim sendo, a nossa vida por quanto seja oprimida e sofredora é sempre cheia de esperança de um Deus que não nos abandona.


Os justos se rejubilam pela presença de deus

comentários

O salmo 67 das Sagradas Escrituras (Antigo Testamento) tem origem no começo da poesia hebraica, isto é, no século X antes de Cristo. Ele pode ser considerado o hino ‘A vós, ó Deus, louvamos’ qual o Senhor do universo e da história. Leia atentamente:

“Levanta-se Deus; eis que se dispersam seus inimigos, e fogem diante dele os que o odeiam. Eles se dissipam como a fumaça, como a cera que se derrete ao fogo. Assim perecem os maus diante de Deus. Os justos, porém, exultam e se rejubilam em sua presença, e transbordam de alegria. Cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao seu nome, abri caminho para o que em seu carro avança pelo deserto. Senhor é o seu nome, exultai em sua presença. É o pai dos órfãos e o protetor das viúvas, esse Deus que habita num templo santo. Aos abandonados, Deus preparou uma casa, conduz os cativos à liberdade e ao bem-estar; só os rebeldes ficam num deserto ardente. Ó Deus, quando saíeis à frente de vosso povo, quando avançáveis pelo deserto, a terra tremia, os próprios céus rorejavam diante de vós, o monte Sinai estremecia na presença do Deus de Israel. Sobre vossa herança fizestes cair generosa chuva, e restaurastes suas forças fatigadas. Vosso rebanho fixou habitação numa terra que vossa bondade, ó Deus, lhe havia preparado. Apenas o Senhor profere uma palavra, tornam-se numerosas as mulheres que anunciam a boa nova: Fogem, fogem os reis dos exércitos; os habitantes partilham os despojos. Enquanto entre os rebanhos repousáveis, as asas da pomba refulgiam como prata, e de ouro era o brilho de suas penas. Quando o Todo-poderoso dispersava os reis, caía a neve sobre o Salmon. Os montes de Basã são elevados, alcantilados são os montes de Basã. Montes escarpados, por que invejais a montanha que Deus escolheu para morar, para nela estabelecer uma habitação eterna? São milhares e milhares os carros de Deus: do Sinai vem o Senhor ao seu santuário. Subindo nas alturas levastes os cativos; recebestes homens como tributos, aqueles que recusaram habitar com o Senhor Deus. Bendito seja o Senhor todos os dias; Deus, nossa salvação, leva nossos fardos: nosso Deus é um Deus que salva, da morte nos livra o Senhor Deus. Sim, Deus parte a cabeça de seus inimigos, o crânio hirsuto do que persiste em seus pecados. Dissera o Senhor: Ainda que seja de Basã, eu os farei voltar, eu os trarei presos das profundezas do mar, para que banhes no sangue os teus pés, e a língua de teus cães receba dos inimigos seu quinhão. Contemplam a vossa chegada, ó Deus, a entrada do meu Deus, do meu rei, no santuário; Vêm na frente os cantores, atrás os tocadores de cítara; no meio, as jovens tocando tamborins. Bendizei a Deus nas vossas assembleias, bendizei ao Senhor, filhos de Israel! Eis Benjamim, o mais jovem, que vai na frente; depois os príncipes de Judá, com seus esquadrões; os príncipes de Zabulon, os príncipes de Neftali. Mostrai, ó Deus, o vosso poder, esse poder com que atuastes em nosso favor. Pelo vosso templo em Jerusalém, ofereçam-vos presentes os reis! Reprimi a fera dos canaviais, a manada dos touros com os novilhos das nações pagãs. Que eles se prosternem com barras de prata. Dispersai as nações que se comprazem na guerra. Aproximem-se os grandes do Egito, estenda a Etiópia suas mãos para Deus. Reinos da terra, cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao Senhor, que é levado pelos céus, pelos céus eternos; eis que ele fala, sua voz é potente: Reconhecei o poder de Deus! Sua majestade se estende sobre Israel, sua potência aparece nas nuvens. De seu santuário, temível é o Deus de Israel; é ele que dá ao seu povo a força e o poder. Bendito seja Deus!”

No começo do hino, há a invocação litúrgica que usa o canto oficial para a marcha da arca (onde se guardava os dez mandamentos e outros objetos sagrados). Ao som das trombetas, os inimigos se dissipam como a fumaça e se derretem como a cera ao fogo. Na primeira parte, exalta-se o êxodo do Egito e a entrada na terra prometida de Canãa, tendo Deus o guia de Israel. É Ele o pai e defensor dos órfãos e das viúvas. A segunda parte tem o domínio da figura Guerreiro Divino que guia os exércitos nas batalhas e garante as vitórias de Israel. E esse guerreiro é descrito com o seu brasão nacional que representa as asas da pomba que ‘refulgiam como prata, e de ouro era o brilho de suas penas’. No entanto, Deus estabelece a sua morada sobre os montes de Sião e do Sinai garantindo, assim, a sua presença constante. A terceira parte descreve a procissão de Israel até o Templo, Sião, para celebrar Deus. Depois da resposta vitoriosa de Deus, ordena-se a procissão com os cantos e aclamações para comemorar o triunfo contra os poderosos inimigos. As potências do mal são derrotadas pelo Senhor Deus. E por isso é dedicada uma aclamação gloriosa ao Deus: Ele é o verdadeiro vitorioso e poderoso. Creio que também nós precisamos ensaiar essa verdade: não apostar na vida daquilo que passa, por quanto atraente possa ser, mas naquilo que não passa: Deus!


Deus é o nosso libertador

comentários

“Por favor, padre, me ajude! Padre, estou numa pior!” Essas e outras invocações, eu recebo todos os dias nas minhas andanças pela cidade. As pessoas elevam o grito delas pelo desespero da vida. A vida muitas vezes é cruel e o ser humano se sente em total perigo. É ardente o desejo das pessoas por ajuda e apoio. No entanto, muitas vezes elas se sentem decepcionadas, abandonadas. Quantas vezes eu ouço alguns dizerem: “Há pessoas que têm um coração duro, insensível!” ou “o meu pedido foi em vão; parece estar em frente de tanta gente, mas é como se não existissem!”
Mas, o ser humano tem alguém para apelar que vai além do povo. Pelo menos é aquilo que aprendi e vivo como filho de Deus. Pela minha experiência de criatura de Deus não hesito a invoca-Lo. Dele tenho grande apoio e respostas de vida. É Ele o meu refúgio. O salmo 29 das Sagradas Escrituras nos ajuda a respeito disso. Leia atentamente:

“Eu vos exaltarei, Senhor, porque me livrastes, não permitistes que exultassem sobre mim meus inimigos. Senhor, meu Deus, clamei a vós e fui curado. Senhor, minha alma foi tirada por vós da habitação dos mortos; dentre os que descem para o túmulo, vós me salvastes. Ó vós, fiéis do Senhor, cantai sua glória, dai graças ao seu santo nome. Porque a sua indignação dura apenas um momento, enquanto sua benevolência é para toda a vida. Pela tarde, vem o pranto, mas, de manhã, volta a alegria. Eu, porém, disse seguro de mim: Não serei jamais abalado. Senhor, foi por favor que me destes honra e poder, mas quando escondestes vossa face fiquei aterrado. A vós, Senhor, eu clamo, e imploro a misericórdia de meu Deus. Que proveito vos resultará de retomar-me a vida, de minha descida ao túmulo? Porventura vos louvará o meu pó? Apregoará ele a vossa fidelidade? Ouvi-me, Senhor, e tende piedade de mim; Senhor, vinde em minha ajuda. Vós convertestes o meu pranto em prazer, tirastes minhas vestes de penitência e me cingistes de alegria. Assim, minha alma vos louvará sem calar jamais. Senhor, meu Deus, eu vos bendirei eternamente.”

Esse salmo tem numa sequencia alternada entre descer e subir do túmulo, entre indignação e benevolência, entre pranto e alegria, entre jamais abalado e ficar aterrado, entre a penitência e alegria e que tudo isso, na linguagem semítica, quer dizer a vida como um todo. A abrangência total do viver. E o suplicante desse salmo já experimentou o sabor terrível da morte – o Scheol, a tumba, o pó –, mas Deus o tirou da habitação dos mortos. Na história do ser humano sempre se assiste a ilusão da mesma que parte da: ‘Seguro de mim: não serei jamais abalado’. É a convicção das conquistas dos bens materiais que possam garantir seguranças de vida para sempre. Que pura ilusão! É uma ilusão falsa de vida, vinda do pecado original de conduzir a própria vida sem Deus e assim alimentar uma total desconfiança em Deus, fonte de segurança e de tranquilidade.

No entanto, o salmista acrescenta na sua oração, a sua reconciliação com Deus que lhe dá força e segurança parecida a uma rocha, forte como as mais sólidas montanhas. E o salmo termina elevando o louvor ao Deus que soube lhe dar paz e alegria ao seu coração. Por tudo isso o suplicante festeja. Assim sendo, não pode mais se revestir de luto ou de roupa de saco típicas que acompanhavam as cerimônias de expiação e de dor. Tudo aquilo que caracterizava tristeza e dor deixa lugar para os enfeites de festas, porque uma nova vida surgiu por mérito do Senhor.

E o nosso querido papa Francisco nos lembra do apóstolo Paulo para compreender o salmo na ótica cristã: “Suportar é ter paciência, é carregar nas costas, é levar o peso das adversidades. A vida dos cristãos também tem momentos assim, mas Jesus nos diz: ‘Tenham coragem nestes momentos. Eu venci, vocês também serão vencedores’. Esta primeira palavra nos ilumina para superarmos os momentos mais difíceis da vida, aqueles momentos que nos fazem sofrer’”. E continua Francisco: “Entregar-se ao Senhor nos momentos mais difíceis… Um cristão pode levar avante as tribulações e também as perseguições, entregando-se ao Senhor. Somente Ele, é capaz de nos dar a força, de nos dar a perseverança na fé, de nos dar a esperança.”

“Confiar algo ao Senhor, confiar este momento difícil ao Senhor, confiar eu mesmo ao Senhor, confiar ao Senhor os nossos fiéis, nós sacerdotes, bispos, confiar ao Senhor as nossas famílias, os nossos amigos e dizer ao Senhor: ‘Cuida deles, eles são teus”. Termina o papa: “Na vida, temos que percorrer caminhos tortuosos, é a lei da vida. Mas nestes momentos, ao entregar-se ao Senhor, Ele nos responde com a paz. Este Senhor que é Pai e nos ama tanto e não desaponta jamais.”


Tributai ao senhor, ó filhos de Deus

comentários

O ser humano experimenta sempre a precariedade no transcorrer da sua jornada. E quantas dúvidas e perguntas se faz constantemente! Nem sempre consegue dar respostas, sobretudo o seu relacionamento com a mãe natureza. Quantas questões! Mas, segundo o autor do salmo 28 das Sagradas Escrituras, temos que dar espaço a Deus na vida. É Ele que se manifesta sempre, até na mãe natureza e seus eventos. Saber conviver com ela, por exemplo, pode experimentar a sua presença. Portanto, até a natureza pode revelar essa presença majestosa de Deus. É necessário ler com muita atenção esse hino, e eu diria meditando-o no profundo do silêncio.

“Tributai ao Senhor, ó filhos de Deus, tributai ao Senhor glória e poder! Rendei-lhe a glória devida ao seu nome; adorai o Senhor com ornamentos sagrados. Ouve-se a voz do Senhor sobre as águas! O Deus de grandeza atroou: o Senhor trovejou sobre as águas imensas! A voz do Senhor faz-se ouvir com poder! A voz do Senhor faz-se ouvir com majestade! Fendem-se os cedros à voz do Senhor, quebra o Senhor os cedros do Líbano. Faz saltar o Líbano como um novilho, e o Sarion como um búfalo novo. A voz do Senhor despede relâmpagos, a voz do Senhor abala o deserto. O Senhor faz tremer o deserto de Cades. A voz do Senhor retorce os carvalhos, desnuda as florestas. E em seu templo todos bradam: glória! O Senhor preside ao dilúvio, o Senhor trona como rei para sempre. O Senhor há de dar fortaleza ao seu povo! O Senhor abençoará o seu povo, dando-lhe a paz!”

Depois dessa leitura bem concentrada, agora vamos fazer uma análise do texto para ter um melhor entendimento. É um salmo bem antigo que apresenta estruturas, constelações e termos do mundo indígena pré-israelítico. Este cenário é representado pela cultura Cananeia do seu deus da tempestade, Baal Hadad, que tinha a divindade suprema. Nos versículos de 3-9 do salmo, fala-se de uma tempestade que aterroriza a harmonia dos lugares tão conhecidos do mediterrâneo ao Líbano, de Jerusalém até o deserto. Essa violência da tempestade espanta os animais e a sua natureza. Porém, o fiel confia em Deus que está acima de tudo isso.

Com Deus, nada se teme, porque Ele reina no cosmo e na história. Perante o caos do mal, do aniquilamento e das tempestades da história, o crente confia cegamente na presença criadora e soberana de Yhwè. Ele é o Juiz justo e por isso derruba os adversários e soberbos que eram considerados quais ‘arvores majestosas e seculares’ que dominavam os outros. Com isso, revela-nos esse salmo como Deus está acima de tudo isso com a sua presença e julgando a história com toda a sua iniquidade. O nosso papa Francisco, nesse sentido, nos ajuda a focalizar melhor tudo isso, para os dias de hoje, dizendo que “às vezes, todos nós somos ameaçados quando devagar-devagar nos afastamos do Senhor, quase de leve, sem muitos clamores, vivendo de maneira muito mundana e bem materialista. Assim não percebemos mais a sua presença porque a trocamos com os ídolos da vida que o próprio ser humano constrói.”

Por exemplo, como se chega a isso? Diz o papa: “Quando se frequenta a Igreja, vive a tua vida cristã como se fosse ‘um hábito cultural’, assim se perde a relação filial com Deus”. Essa atitude, esse comportamento não leva a fazer uma verdadeira adoração a Deus. Assim sendo, Deus deixa sozinho esse tipo de fiel. Deus é tão onipotente que respeita até essas atitudes de vida. Porém, continua o papa Francisco: “É a derrota: um povo que se afasta de Deus acaba assim”.

Acrescenta o Pontífice: “E é uma lição válida para todos. Também hoje. Inclusive nós, aparentemente, somos devotos, temos um santuário, temos muitas coisas…” Mas, perguntou Francisco, “está o teu coração com Deus? Sabes adorar a Deus?. E se crês em Deus, mas num deus um pouco nebuloso, distante, que não entra no teu coração, e se tu não obedeces aos seus mandamentos, então significa que estás diante de uma derrota”.

Por isso, disse Francisco concluindo a homilia, “peçamos ao Senhor que a nossa prece tenha sempre aquela raiz de fé. Peçamos a graça da fé. Com efeito, a fé é um dom que não se aprende nos livros. Uma dádiva do Senhor que deve ser pedida. Concedei-me a fé!Portanto, devemos pedir ao Senhor a graça de rezar com fé, de estarmos certos de que tudo o que lhe pedirmos nos será dado, com a segurança que nos dá a fé. Esta é a nossa vitória: a fé”. Desse jeito, faremos a experiência de um Deus presente que fará justiça, abençoando o seu povo, dando-lhe a paz. A paz que tanto é desejada pelo mundo inteiro.


Os justos se rejubilam pela presença de Deus

comentários

Este salmo 67 das Sagradas Escrituras tem origem no começo da poesia hebraica, isto é, no século X antes de Cristo. Ele pode ser considerado o hino ‘A vós, ó Deus, louvamos’ qual o Senhor do universo e da história. Leia atentamente:

“Levanta-se Deus; eis que se dispersam seus inimigos, e fogem diante dele os que o odeiam. Eles se dissipam como a fumaça, como a cera que se derrete ao fogo. Assim perecem os maus diante de Deus. Os justos, porém, exultam e se rejubilam em sua presença, e transbordam de alegria. Cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao seu nome, abri caminho para o que em seu carro avança pelo deserto. Senhor é o seu nome, exultai em sua presença. É o pai dos órfãos e o protetor das viúvas, esse Deus que habita num templo santo. Aos abandonados, Deus preparou uma casa, conduz os cativos à liberdade e ao bem-estar; só os rebeldes ficam num deserto ardente. Ó Deus, quando saíeis à frente de vosso povo, quando avançáveis pelo deserto, a terra tremia, os próprios céus rorejavam diante de vós, o monte Sinai estremecia na presença do Deus de Israel. Sobre vossa herança fizestes cair generosa chuva, e restaurastes suas forças fatigadas. Vosso rebanho fixou habitação numa terra que vossa bondade, ó Deus, lhe havia preparado. Apenas o Senhor profere uma palavra, tornam-se numerosas as mulheres que anunciam a boa nova: Fogem, fogem os reis dos exércitos; os habitantes partilham os despojos. Enquanto entre os rebanhos repousáveis, as asas da pomba refulgiam como prata, e de ouro era o brilho de suas penas. Quando o Todo-poderoso dispersava os reis, caía a neve sobre o Salmon. Os montes de Basã são elevados, alcantilados são os montes de Basã. Montes escarpados, por que invejais a montanha que Deus escolheu para morar, para nela estabelecer uma habitação eterna? São milhares e milhares os carros de Deus: do Sinai vem o Senhor ao seu santuário. Subindo nas alturas levastes os cativos; recebestes homens como tributos, aqueles que recusaram habitar com o Senhor Deus. Bendito seja o Senhor todos os dias; Deus, nossa salvação, leva nossos fardos: nosso Deus é um Deus que salva, da morte nos livra o Senhor Deus. Sim, Deus parte a cabeça de seus inimigos, o crânio hirsuto do que persiste em seus pecados. Dissera o Senhor: Ainda que seja de Basã, eu os farei voltar, eu os trarei presos das profundezas do mar, para que banhes no sangue os teus pés, e a língua de teus cães receba dos inimigos seu quinhão. Contemplam a vossa chegada, ó Deus, a entrada do meu Deus, do meu rei, no santuário; Vêm na frente os cantores, atrás os tocadores de cítara; no meio, as jovens tocando tamborins. Bendizei a Deus nas vossas assembleias, bendizei ao Senhor, filhos de Israel! Eis Benjamim, o mais jovem, que vai na frente; depois os príncipes de Judá, com seus esquadrões; os príncipes de Zabulon, os príncipes de Neftali. Mostrai, ó Deus, o vosso poder, esse poder com que atuastes em nosso favor. Pelo vosso templo em Jerusalém, ofereçam-vos presentes os reis! Reprimi a fera dos canaviais, a manada dos touros com os novilhos das nações pagãs. Que eles se prosternem com barras de prata. Dispersai as nações que se comprazem na guerra. Aproximem-se os grandes do Egito, estenda a Etiópia suas mãos para Deus. Reinos da terra, cantai à glória de Deus, cantai um cântico ao Senhor, que é levado pelos céus, pelos céus eternos; eis que ele fala, sua voz é potente: Reconhecei o poder de Deus! Sua majestade se estende sobre Israel, sua potência aparece nas nuvens. De seu santuário, temível é o Deus de Israel; é ele que dá ao seu povo a força e o poder. Bendito seja Deus!”

No começo do hino, há a invocação litúrgica que usa o canto oficial para a marcha da arca (onde se guardava os dez mandamentos e outros objetos sagrados). Ao som das trombetas, os inimigos se dissipam como a fumaça e se derretem como a cera ao fogo. Na primeira parte, exalta-se o êxodo do Egito e a entrada na terra prometida de Canãa, tendo Deus o guia de Israel. É Ele o pai e defensor dos órfãos e das viúvas. A segunda parte tem o domínio da figura Guerreiro Divino que guia os exércitos nas batalhas e garante as vitórias de Israel. E esse guerreiro é descrito com o seu brasão nacional que representa as asas da pomba que ‘refulgiam como prata, e de ouro era o brilho de suas penas’. No entanto, Deus estabelece a sua morada sobre os montes de Sião e do Sinai garantindo, assim, a sua presença constante. A terceira parte descreve a procissão de Israel até o Templo, Sião, para celebrar Deus. Depois da resposta vitoriosa de Deus, ordena-se a procissão com os cantos e aclamações para comemorar o triunfo contra os poderosos inimigos. As potências do mal são derrotadas pelo Senhor Deus. E por isso é dedicada uma aclamação gloriosa ao Deus: Ele é o verdadeiro vitorioso e poderoso. Creio que também nós precisamos ensaiar essa verdade: não apostar na vida daquilo que passa, por quanto atraente possa ser, mas naquilo que não passa: Deus!


Deus nos abençoa

comentários

Entro em um pequeno comércio de manhã cedo e a dona logo me interpelou, dizendo-me: “Reverendo, o senhor se lembra quando abençoou o meu comércio no ano passado?” Eu respondi que foi antes do Natal. E ela retrucou: “Muito bem, a partir daí tudo melhorou nos meus negócios; pela primeira vez, depois de vários anos, não estou no ‘vermelho’. Agradeço a Deus pelo meu sucesso! Ah, mais uma coisa padre, eu estou dizendo pra todo mundo. Fui abençoada!” Perante os sucessos da vida, como dessa senhora, se reconhece a presença divina. Como Deus faz parte da nossa vida. E o salmo 66 das Sagradas Escrituras nos ajuda a compreender a manifestação divina no cotidiano do nosso trabalho.

“Tenha Deus piedade de nós e nos abençoe, faça resplandecer sobre nós a luz da sua face, para que se conheçam na terra os seus caminhos e em todas as nações a sua salvação. Que os povos vos louvem, ó Deus, que todos os povos vos glorifiquem. Alegrem-se e exultem as nações, porquanto com equidade regeis os povos e dirigis as nações sobre a terra. Que os povos vos louvem, ó Deus, que todos os povos vos glorifiquem. A terra deu o seu fruto, abençoou-nos o Senhor, nosso Deus. Sim, que Deus nos abençoe, e que o reverenciem até os confins da terra.”

Este salmo é um agradecimento pelo bom êxito da colheita agrícola, expressa no versículo 7: “A terra deu o seu fruto, abençoou-nos o Senhor, nosso Deus.” Perante essa aclamação, o autor quer que isto fique bem conhecido para todos. Todos devem saber como Deus abençoa o percurso histórico do ser humano, favorecendo-o com o alimento para o seu sustento. Não é suficiente o trabalho humano, mas precisa a benevolência divina.

Diante dessa verdade, o ser humano exulta de alegria, porque se sente protegido e seguro. Assim sendo, a criatura humana quer partilhar essa verdade com todo mundo: testemunhar como Deus é protagonista na sua vida. No final, isto demonstrou também aquela senhora do comércio, reconhecendo a intervenção de Deus para reverter a sua situação da negativa pra positiva. De fato, o salmista diz no versículo 8 que todos ‘O reverenciem’, fundamento da profissão de fé em Ywhè (Deus).

É também com essa graça de Deus que se torna sinal de sua presença e do seu amor com a criatura humana. E essa obra divina universalista é descrita em todo o salmo. Nota-se uma intensa reciprocidade de reconhecimento entre o ser humano, cosmo e Deus. Por isso, todos os povos são convidados a se unir ao povo de Israel para cantar ao seu Deus. Deste modo, significa que ninguém é excluído para conhecer o ‘caminho’ de Deus, isto é, o seu projeto de salvação.

Também a essas nações, longe de Deus, é revelado o Reino Dele que julga e governa toda a humanidade e a conduz à paz e a vida sem fim. A bênção de Israel é vista como uma semente jogada no terreno da história, pronta a nascer e crescer, tornando-se uma imensa arvore que abriga todo mundo. Essa nova realidade faz germinar o novo povo onde todos os seres humanos participam. Sendo assim, todos podem esperar que a esperança de um Deus que perdoa e ama demais faz parte da vida deles. E o papa Francisco nos ajuda com essa reflexão tirada da carta apostólica ‘Misericordiaet misera’: “Antes de mais nada, sentimos necessidade de agradecer ao Senhor, dizendo-Lhe: «Vós abençoastes a vossa terra (…). Perdoastes as culpas do vosso povo» (Sal 85/84, 2.3). Foi mesmo assim: Deus esmagou as nossas culpas e lançou ao fundo do mar os nossos pecados (cf. Miq 7, 19); já não Se lembra deles, lançou-os para trás de Si (cf. Is 38, 17); como o Oriente está afastado do Ocidente, assim os nossos pecados estão longe d’Ele (cf. Sal 103/102, 12).(…) A misericórdia renova e redime, porque é o encontro de dois corações: o de Deus que vem ao encontro do coração do homem. Este inflama-se e o primeiro cura-o: o coração de pedra fica transformado em coração de carne (cf. Ez 36, 26), capaz de amar, não obstante o seu pecado. Nisto se nota que somos verdadeiramente uma «nova criação» (Gal 6, 15): sou amado, logo existo; estou perdoado, por conseguinte renasço para uma vida nova; fui «misericordiado» e, consequentemente, feito instrumento da misericórdia. (…) Cada dia da nossa caminhada é marcado pela presença de Deus, que guia os nossos passos com a força da graça que o Espírito infunde no coração para o plasmar e torná-lo capaz de amar. É o tempo da misericórdia para todos e cada um, para que ninguém possa pensar que é alheio à proximidade de Deus e à força da sua ternura.”


Aclamai a deus por toda a terra

comentários

Certa vez em uma procissão religiosa, lembro-me de ter encontrado uma senhora que segurava nas mãos um terço e, emocionada, me falava que Deus era tudo pra ela: “Agradeço porque, sem Ele, não seria mais nada.” E, soluçando, dizia: “Tudo lhe devo! Tudo!” Aquela firmeza e convicção da mulher me confirmaram o quanto nós devemos ser agradecidos ao nosso Deus. A gratidão nos permite estreitar o nosso relacionamento com Deus. E, para isso, leia atentamente o salmo 65 das Sagradas Escrituras:

“Aclamai a Deus, toda a terra, Cantai a glória de seu nome, rendei-lhe glorioso louvor. Dizei a Deus: Vossas obras são estupendas! Tal é o vosso poder que os próprios inimigos vos glorificam. Diante de vós se prosterne toda a terra, e cante em vossa honra a glória de vosso nome. Vinde contemplar as obras de Deus: ele fez maravilhas entre os filhos dos homens. Mudou o mar em terra firme; atravessaram o rio a pé enxuto; eis o motivo de nossa alegria. Domina pelo seu poder para sempre, seus olhos observam as nações pagãs; que os rebeldes não levantem a cabeça. Bendizei, ó povos, ao nosso Deus, publicai seus louvores. Foi ele quem conservou a vida de nossa alma, e não permitiu resvalassem nossos pés. Pois vós nos provastes, ó Deus, acrisolastes-nos como se faz com a prata. Deixastes-nos cair no laço, carga pesada pusestes em nossas costas. Submetestes-nos ao jugo dos homens, passamos pelo fogo e pela água; mas, por fim, nos destes alívio. É, pois, com holocaustos que entrarei em vossa casa, pagarei os votos que fiz para convosco, votos proferidos pelos meus lábios, quando me encontrava na tribulação. Oferecerei em holocausto as mais belas ovelhas, com os mais gordos carneiros; imolarei touros e cabritos. Vinde, ouvi vós todos que temeis ao Senhor. Eu vos narrarei quão grandes coisas Deus fez à minha alma. Meus lábios o invocaram, com minha língua o louvei. Se eu intentasse no coração o mal, não me teria ouvido o Senhor. Mas Deus me ouviu; atendeu a voz da minha súplica. Bendito seja Deus que não rejeitou a minha oração, nem retirou de mim a sua misericórdia.”

Este salmo se contextualiza na celebração litúrgica no Templo, onde o fiel agradece a Deus pela sua obra salvadora. De fato, o louvor é pelas tantas manifestações históricas de Deus na vida do seu povo. A celebração é uma resposta efetiva à presença de Deus, e todo mundo proclama o seu esplendor. Uma presença prodigiosa que se concretiza com a libertação do povo da escravidão do Egito e que vai até a conquista da terra prometida. É esse grande prodígio que define como seu povo Israel, povo escolhido por Deus. E as imagens que o salmista escolhe para representar esta opção de Deus pelo seu povo são: ‘nos provastes, ó Deus, acrisolastes-nos como se faz com a prata’, ‘carga pesada pusestes em nossas costas’, ‘submetestes-nos ao jugo dos homens’.
É uma simbologia que mostra a prova que deve passar o seu povo pelo seu Senhor. Isto significa que nada é fácil, mas que as provações fazem parte dessa caminhada de fé. Perante as superações das provas se elevam hinos de alegria. Nesse caso, um da assembleia, talvez um sacerdote, agradece Deus em nome de todos pelo dom da liberdade. A liberdade que tiveram não é fruto deles, mas do Senhor Deus. Foi a aproximação de Deus que garantiu a libertação da escravidão. Sem Deus nunca teriam se libertado. Por tudo isso eles entram no Templo e oferecem holocaustos para agradecer a Deus pela sua ação poderosa no meio do seu povo. Aquele Deus que libertou o seu povo da escravidão continua presente fazendo prodígios. Um Deus que não abandona o seu povo não obstante os seus pecados.

Recorda-nos o Papa Francisco na Missa de quinta-feira, 6 de abril de 2017:

“Deus é sempre fiel à sua aliança: foi fiel à promessa com Abraão e à salvação prometida em seu Filho, Jesus” (…) “Eu convido vocês a tirarem, hoje, cinco minutos, dez minutos, sentados, sem rádio, sem televisão; sentados, e pensar sobre a própria história: as bênçãos e dificuldades, tudo. As graças e os pecados: tudo. E olhar ali a fidelidade daquele Deus que permaneceu fiel à sua aliança, e se manteve fiel à promessa que fizera a Abraão, permaneceu fiel à salvação que prometera em Seu Filho Jesus. Estou certo de que entre as coisas talvez ruins – porque todos nós temos tantas coisas ruins, na vida – se hoje fizermos isso, vamos descobrir a beleza do amor de Deus, a beleza de Sua misericórdia, a beleza da esperança. E tenho certeza que todos nós estaremos cheios de alegria”. Concluindo, a nossa alegria se torna repleta na medida em que nós experimentamos o quanto Deus está próximo da gente.


A busca de Deus

comentários

“Quem não tiver pecado atire a primeira pedra!”, falou Jesus para aqueles que queriam condenar a mulher que pegaram em flagrante pecado de adultério. E diz o evangelista que ninguém teve coragem de fazê-lo. Isto significa que todos tinham pecado. E nós também, depois de mais de 2000 anos daquele evento, reconhecemos que somos pecadores. E é a partir dessa consciência que precisamos do nosso Deus. Precisamos do amor Dele para preencher o vazio que provoca o pecado à nossa humanidade. Por isso, na medida em que reconhecemos a nossa fragilidade, a nossa condição de pecadores, buscaremos cada vez Deus.

De fato, não por acaso os santos se diziam sempre que eram os maiores pecadores, porque ardentemente buscavam, dia e noite Deus. O papa Francisco fala a respeito: “Deus perdoa sempre! Não se cansa de perdoar. (…) ‘Mas, padre, eu não me confesso porque fiz tantas, tantas coisas, que não receberei o perdão…’ Não. Não é verdade. Ele perdoa tudo.” A leitura desse salmo 64, das Sagradas Escrituras, nos ajuda a entender tudo isso.

“A vós, ó Deus, convém o louvor em Sião, é a vós que todos vêm cumprir os seus votos, vós que atendeis as preces. Todo homem acorre a vós, por causa de seus pecados. Oprime-nos o peso de nossas faltas: vós no-las perdoais. Feliz aquele que vós escolheis, e chamais para habitar em vossos átrios. Possamos nós ser saciados dos bens de vossa casa, da santidade de vosso templo. Vós nos atendeis com os estupendos prodígios de vossa justiça, ó Deus, nosso salvador. Vós sois a esperança dos confins da terra, e dos mais longínquos mares. Vós que, com a vossa força, sustentais montanhas, cingido de vosso poder. Vós que aplacais os vagalhões do mar, o bramir de suas vagas e o tumultuar das nações pagãs. À vista de vossos prodígios, temem-vos os habitantes dos confins da terra; saciais de alegria os extremos do oriente e do ocidente. Visitastes a terra e a regastes, cumulando-a de fertilidade. De água encheu-se a divina fonte e fizestes germinar o trigo. Assim, pois, fertilizastes a terra: irrigastes os seus sulcos, nivelastes e as sua glebas; amolecendo-as com as chuvas, abençoastes a sua sementeira. Coroaste o ano com os vossos benefícios; onde passastes ficou a fartura. Umedecidas as pastagens do deserto, revestem-se de alegria as colinas. Os prados são cobertos de rebanhos, e os vales se enchem de trigais. Só há júbilo e cantos de alegria.”

É um hino de louvor pela maravilha da criação. Um canto de festa. Porém, na primeira parte, é um testemunho do perdão dos pecados. E esse perdão é concebido como uma recriação da vida. Vivendo essa realidade renovada pela misericórdia de Deus, permite encarar a realidade de maneira mais viva e colorida. Por que isso? A experiência do perdão e de uma natureza verdejante e cheia de fecundidade permite uma maior proximidade com o Senhor da Vida. O perdão e a viva natureza nos ajudam a viver a beleza da nossa criação. De fato, pela visão bíblica, história humana e natureza são muito unidos, se compenetram.

A versão das Sagradas Escrituras nos mostra que a criação é a moradia do ser humano e o pecado é uma ameaça a essa harmonia do universo, do mundo. Por isso que a conversão e perdão proporcionam integridade e harmonia ao cosmo, à vida. Assim sendo, esse salmo é dividido em duas partes: a parte histórica do ser humano e a parte do universo que está em plena ligação entre eles. Em Sião, Deus é o salvador que tem misericórdia e perdoa. Todo ‘mortal’ invoca o Senhor para libertá-lo do mal. E uma vez que consegue essa remissão do pecado, essa libertação, o ser humano consegue entrar em comunhão com Deus.

Ele participa da intimidade divina. Portanto, à vida espiritual se une aquela da natureza. E com uma imagem bem agrícola apresenta o Senhor que cuida e faz crescer a vida do fiel como o agricultor que semeia nos campos para ter o fruto que alimenta e sustenta a vida. Deus prepara o terreno, molha-o para que possa frutificar. E assim a terra, parecida a uma rainha, celebra o seu rei e Senhor porque está resplandecendo com a sua maravilhosa fertilidade. Uma natureza majestosa e cheia de vida revestindo a humanidade eleva hinos de glória ao seu Senhor. E isto dá alegria a todo o cosmo. Por conseguinte, todas as criaturas humanas, se dirigem ao seu Criador rezando e dançando, louvando e cantando porque a vida reina entre eles. Uma vida coroada por uma perfeita harmonia entre o ser humano e a própria natureza confirma a ação salvadora da presença de Deus.
Claudio Pighin, sacerdote e jornalista.
E-mail: clpighin@claudio-pighin.net