Feliz a pessoa que ajuda o pobre

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Os pobres são um desafio para toda a sociedade. A pobreza é o grito de uma realidade que não deveria existir. Por que isso? É difícil dar uma resposta exaustiva, mas uma coisa é certa: Deus não criou isso! Isto é obra do ser humano. Na realidade, porém, o Salmo 40 do Antigo Testamento, das Sagradas Escrituras, propõe mais uma vez a teoria da retribuição em que delito e doença estão intimamente ligados: “Senhor; sarai-me, porque pequei contra vós”. Portanto, é o Salmo de um doente que está afetado também de uma doença espiritual, aquela da traição e da ironia dos falsos amigos. Mas o Salmo também penitencial é marcado por uma viva esperança no perdão de Deus. Leia atentamente o que diz:
“Feliz quem se lembra do necessitado e do pobre, porque no dia da desgraça o Senhor o salvará. O Senhor há de guardá-lo e o conservará vivo, há de torná-lo feliz na terra e não o abandonará à mercê de seus inimigos. O Senhor o assistirá no leito de dores, e na sua doença o reconfortará. Quanto a mim, eu vos digo: Piedade para mim, Senhor; sarai-me, porque pequei contra vós. Meus inimigos falam de mim maldizendo: Quando há de morrer e se extinguir o seu nome? Se alguém me vem visitar, fala hipocritamente. Seu coração recolhe calúnias e, saindo fora, se apressa em divulgá-las. Todos os que me odeiam murmuram contra mim, e só procuram fazer-me mal. Um mal mortal, dizem eles, o atingiu; ei-lo deitado, para não mais se levantar. Até o próprio amigo em que eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar. Ao menos vós, Senhor, tende piedade de mim; erguei-me, para eu lhes dar a paga que merecem. Nisto verei que me sois favorável, se meu inimigo não triunfar de mim. Vós, porém, me conservareis incólume, e na vossa presença me poreis para sempre. Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, de eternidade em eternidade! Assim seja! Assim seja!”
Esse hino proclama de um lado a tristeza e o medo que afligem o doente, e de outro lado, exprime a confiança da presença de Deus na sua vida atormentada, dando-lhe força, segurança, experimentando o seu perdão. Isto é uma alegria imensa. E na parte central do hino aparecem os inimigos do fiel em oração. Esses opositores amaldiçoam e desejam para ele, fiel, não somente a morte física, mas também a espiritual com a eliminação do nome, isto é, da lembrança; sem o nome desaparece na história.
Também a metáfora do ‘calcanhar’ sugere a ação brutal de quem esmaga o seu concorrente. Revela assim o autor do salmo que o amigo de total confiança se transforma traidor e, ao mesmo tempo, agressor indomável. O sofrimento se dobra. Parece o fim. Mas a oração se inflama mais ainda nessa realidade tão triste e amarga. Deus ama tanto que não quer vingança, mas perdão. O triunfo de Deus se manifesta no perdão. É o amor de Deus que salva e não a vingança das pessoas. A experiência do fiel em oração experimenta essa verdade: Deus é superior a todas essas traições e o fiel se sente confortado em seguir esse ensino do seu Senhor Onipotente. Sente-se preenchido na sua plenitude da vida em viver o amor de Deus e rejeitando a vingança humana.
Aqui cabe muito bem o ensino do papa  Francisco com a carta Apostólica “Misericórdia e mísera” em que nos indica a realizar uma ‘revolução cultural’ dos pequenos gestos, de total simplicidade, para fazer prevalecer na nossa vida ‘o tempo da misericórdia’. É essa experiência que nos leva a fazer grandes mudanças na vida humana, porque isto revela a presença do nosso Deus. E para concretizar esse maravilhoso salmo, sempre o papa Bergoglio instituiu o “Dia Mundial dos Pobres”, que será celebrado no penúltimo domingo do ano litúrgico da nossa Igreja.
O próprio santo padre disse o seguinte: “Intuí que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordinário da Misericórdia, deve-se celebrar em toda a Igreja, na ocasião do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres”. O papa Francisco afirma ainda que este ‘Dia Mundial dos Pobres’ é uma “digna preparação para bem viver a Solenidade de Cristo Rei do Universo”, que encerra o ano litúrgico. Uma forma para promover a identificação da Igreja com os “menores e os pobres”. Justamente o santo Padre quis salientar que a justiça social, a paz na sociedade, será marcada somente quando se terá uma efetiva promoção em todos os sentidos dos menores e pobres. E essa jornada pretende impulsionar as comunidades e os cristãos a “refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho”.
Assim sendo, não podemos fazer vista grossa  perante os pobres, mas sim nos comprometer com eles. Somos testemunhas da misericórdia, e como tal não podemos arredar ‘os pés’. Portanto, qual são os sinais que podemos dar para viver esse comprometimento? Sempre Francisco nos recorda que devemos ser autores de uma cultura da misericórdia que possa se opor firmemente à indiferença e à desconfiança entre as pessoas. É nisso que consiste também a nossa felicidade.


O mal será derrotado

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Quantos desesperos e gritos de dor se elevam todos os dias na vida das pessoas! O mal circunda o ser humano e o deixa ainda mais fragilizado na sua existência. Por que a maldade domina a vida? O salmo 38, das Sagradas Escrituras, fala-nos a respeito:

“Disse comigo mesmo: Velarei sobre os meus atos, para não mais pecar com a língua. Porei um freio em meus lábios, enquanto o ímpio estiver diante de mim. Fiquei mudo, mas sem resultado, porque minha dor recrudesceu.Meu coração se abrasava dentro de mim, meu pensamento se acendia como um fogo, então eu me pus a falar: Fazei-me conhecer, Senhor, o meu fim, e o número de meus dias, para que eu veja como sou efêmero.A largura da mão: eis a medida de meus dias, diante de vós minha vida é como um nada; todo homem não é mais que um sopro. De fato, o homem passa como uma sombra, é em vão que ele se agita; amontoa, sem saber quem recolherá.E agora, Senhor, que posso esperar? Minha confiança está em vós. Livrai-me de todas as faltas, não me abandoneis ao riso dos insensatos.Calei-me, já não abro a boca, porque sois vós que operais. Afastai de mim esse flagelo, pois sucumbo ao rigor de vossa mão.Quando punis o homem, fazendo-lhe sentir a sua culpa, consumis, como o faria a traça, o que ele tem de mais caro. Verdadeiramente, apenas um sopro é o homem. Ouvi, Senhor, a minha oração, escutai os meus clamores, não fiqueis insensível às minhas lágrimas. Diante de vós não sou mais que um viajor, um peregrino, como foram os meus pais.Afastai de mim a vossa ira para que eu tome alento, antes que me vá para não mais voltar.”

Surge inevitável a questão de querermos compreender de onde vem todo o mal, sofrimento e dor que fazem parte da vida da humanidade. Se tudo o que Deus fez é bom, como então? Para isso, remontamos à Bíblia. Seus vários livros se preocupam com o mal. Neles se encontra uma multiplicidade de imagens para falar do tema. Não se encontra neles uma resposta simples, racional, mas uma resposta de fé. Razão e fé (confiança) estão presentes nesse salmo. Por isso a Bíblia é diferente de outros livros. E esse salmo nos ajuda a fazer essa profissão de fé.

Deus não criou o mal. Ele se preocupa em libertar os seres humanos do mal. Para combater o mal, é preciso confiar em Deus. Resgatar nossa ligação direta com Deus, pela qual fomos criados, e que desfrutávamos no Jardim do Éden. Lembremos o prólogo do Evangelho de João, que nos chama filhas e filhos de Deus, para acentuar nossa dependência a Deus. E a dependência a Deus, a confiança em Deus, é uma liberdade total, para os seres humanos, pois também significa sua liberdade perante os esquemas do mundo, com sua lógica limitada, opressora, que reproduz muitas vezes o mal, que afasta Deus. Significa viver mirando as “coisas do alto”, o que tem consequências muito profundas em nosso mundo, em nosso modo de viver e conviver com os demais filhos e filhas.

Nós, seres humanos, não somos geradores do mal, mas aderimos a ele. Porém, procuramos dar uma razão a toda essa desgraça que vivemos no dia a dia, no mundo todo, com violências, guerras, fomes, injustiças, desigualdades brutais. Muitos se fazem a pergunta ou justificam sua falta de fé assim: por que Deus permite tudo isso? Quem tem de responder a essa questão somos nós. O problema não é Deus. Ele não criou o mal!

A Bíblia trata do problema do mal. Tenta compreender a relação entre Deus e o mal. Qual é a ligação entre Deus e o mal? A fonte do conhecimento é conhecer Deus. Já na origem, havia a preocupação sobre o mal. O ser humano, por si só não era capaz. Ele se apega a Javé, que vai lhe explicar, como nos mostra o fiel desse salmo. Deus é o ator principal. Não é a humanidade. A fonte do conhecimento é, portanto, Deus. Se não queremos fazer a experiência de Deus, ficamos com nossos conhecimentos limitados, pois restritos ao conhecimento da criatura.

Sabemos que os seres humanos são vítimas do mal e, também, aderem ao mal. Mas, temos a certeza de que Deus reverte essa situação. Na medida em que nos deixamos conduzir por Deus, conseguimos vencer o mal. Deus respeita sua criatura, seu livre arbítrio, mas não a abandona. Então, a realidade que o profeta Isaías descreve é a que vai triunfar.

Onde há intimidade com Deus, tudo é possível, o mal não prolifera. Temos uma relação com a terra que, de hostil e penosa, torna-se na nova criação, uma relação de reconciliação: “… serão plantadas vinhas cujos frutos comerão” (Is 65, 21). O trabalho se torna resposta à graça de Deus e instrumento para uma vida feliz: “não trabalharão mais em vão, não darão mais à luz filhos voltados a uma morte repentina” (Is 65, 23). Quantas promessas! Que destino de plenitude nos é reservado na aposta no nosso Deus! E o último mal a ser derrotado é a morte.


O senhor não te abandona

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O sofrimento é a dor que mais penaliza as pessoas, sobretudo, aquela que atinge o corpo. Naturalmente, sempre estamos expostos às fragilidades, porque o nosso corpo tem limitações. O salmo 37, do Antigo Testamento das Sagradas Escrituras, nos proporciona uma reflexão sobre isso. Veja o que diz:

“Senhor, em vossa cólera, não me repreendais, em vosso furor, não me castigueis, porque as vossas flechas me atingiram, e desceu sobre mim a vossa mão.Vossa cólera nada poupou em minha carne, por causa de meu pecado nada há de intacto nos meus ossos. Porque minhas culpas se elevaram acima de minha cabeça, como pesado fardo me oprimem em demasia.São fétidas e purulentas as chagas que a minha loucura me causou. Estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza.Inteiramente inflamados os meus rins; não há parte sã em minha carne. Ao extremo enfraquecido e alquebrado, agitado o coração, lanço gritos lancinantes.Senhor, diante de vós estão todos os meus desejos, e meu gemido não vos é oculto. Palpita-me o coração, abandonam-me as forças, e me falta a própria luz dos olhos.Amigos e companheiros fogem de minha chaga, e meus parentes permanecem longe. Os que odeiam a minha vida, armam-me ciladas; os que me procuram perder, ameaçam-me de morte; não cessam de planejar traições.Eu, porém, sou como um surdo: não ouço; sou como um mudo que não abre os lábios. Fiz-me como um homem que não ouve, e que não tem na boca réplicas a dar.Porque é em vós, Senhor, que eu espero; vós me atendereis, Senhor, ó meu Deus. Eis meu desejo: Não se alegrem com minha perda; não se ensoberbeçam contra mim, quando meu pé resvala; pois estou prestes a cair, e minha dor é permanente. Sim, minha culpa eu a confesso, meu pecado me atormenta.Entretanto, são vigorosos e fortes os meus inimigos, e muitos os que me odeiam sem razão. Retribuem-me o mal pelo bem, hostilizam-me porque quero fazer o bem.Não me abandoneis, Senhor. Ó meu Deus, não fiqueis longe de mim. Depressa, vinde em meu auxílio, Senhor, minha salvação!”

Para melhor entender esse salmo quero focar umas questões. O salmista diz que são “fétidas e purulentas as minhas chagas”. O vocabulário hebraico usado para indicar ‘chagas’ é a ‘lepra’. E nesse sentido que esse salmo se considera como a oração de um leproso. É bom lembrar que a lepra em Oriente daquele tempo era uma doença que carregava também um afastamento da comunidade, um total isolamento das outras pessoas. Também os evangelhos nos atestam a marginalização dos leprosos. Portanto, essa doença é a representação trágica da solidão, da expulsão da comunidade e, ao mesmo tempo, revela a impureza, o pecado do doente.

Nesse sentido, a oração se entrelaça com doença e pecado, porque a doença é vivida como um sinal do juízo de Deus. De fato, o salmo inicia com a lamentação de um doente e depois se transforma em uma confissão do pecado. O pecador-doente sente efetivamente o peso insuportável de uma terrível responsabilidade moral e a precipitação da ira de Deus. E para derrubar essa teoria da retribuição, tão fria e simplista, são necessários o testemunho de Jó, a nova perspectiva inaugurada pelos hinos do servo de Yhwè e de Jesus o Cristo. O fiel, nesse salmo, se desanima perante a tanta dor física e se sente só.

É a partir dessa lamentação que inicia a reflexão teológica sobre o pecado segundo a teoria da retribuição. Na Bíblia aparece Yhwè que castiga os pecadores. Por exemplo, no segundo livro dos Macabeus, Judas e o seu exército travaram uma guerra com Górgias, comandante da Iduméia, e o seu poderoso exército. Nesse confronto vitorioso, porém, “morreram alguns judeus, que depois descobriram porque morreram: debaixo das túnicas de cada um encontraram objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, cujo uso a Lei vedava aos judeus.” Assim, esses soldados morreram porque se entregaram aos ídolos e Deus os puniu.

Por isso, esse salmista sente a ira de Deus e assim, para poder sarar, ele pede primeiro o perdão dos pecados. Segundo esse devoto em oração é demais crente que o arrependimento dos seus pecados lhe abrirá caminhos de salvação, na experiência do amor de Deus. E do encontro entre a criatura doente e pecadora e o Criador pode somente resultar o perdão e, portanto, segundo a famosa retribuição, também a cura. Para nós, cristãos, o amor de Deus está acima de qualquer situação, e o seu amor é doado sempre sem mérito nosso.
Assim sendo, deve-se evitar cair na armadilha de “culpar” Deus pelos males que afligem a existência humana. A única origem dos males é a responsabilidade humana. Como acreditar que Deus vai fazer guerras? Vai provocar doenças? Vai degradar a natureza, a nossa “casa comum”? A natureza, a saúde, o meio ambiente, são dádivas de Deus, frutos da Criação.


Confia no senhor e segue seus caminhos

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“Os justos têm vez ainda na nossa sociedade?” Ou ainda “Parece que o desonesto, o iníquo, o perverso e malvado se dão bem na nossa sociedade!”. Essas e outras palavras me são confiadas quase diariamente pelas pessoas que encontro. Eu costumo responder para não desanimar diante da aparente vitória do mal, porque Deus não abandona os seus fiéis, os justos, os que se preocupam em seguir os caminhos do Senhor. E para reforçar isso, nos vem ao encontro essas palavras sábias do salmo 36 das Sagradas Escrituras. São Palavras de Deus e, portanto, incontestáveis. Veja o que nos diz:

“Não te irrites por causa dos que agem mal nem invejes os que praticam a iniquidade, pois logo eles serão ceifados como a erva dos campos, e, como a erva verde, eles murcharão. Espera no Senhor e faze o bem; habitarás a terra em plena segurança. Põe tuas delícias no Senhor, e os desejos do teu coração ele atenderá. Confia ao Senhor a tua sorte, espera nele, e ele agirá. Como a luz, fará brilhar a tua justiça; e como o sol do meio-dia, o teu direito. Em silêncio, abandona-te ao Senhor, põe tua esperança nele. Não invejes o que prospera em suas empresas, e leva a bom termo seus maus desígnios. Guarda-te da ira, depõe o furor, não te exasperes, que será um mal, porque os maus serão exterminados, mas os que esperam no Senhor possuirão a terra. Mais um pouco e não existirá o ímpio; se olhares o seu lugar, não o acharás. Quanto aos mansos, possuirão a terra, e nela gozarão de imensa paz. O ímpio conspira contra o justo, e para ele range os seus dentes. Mas o Senhor se ri dele, porque vê o destino que o espera. Os maus empunham a espada e retesam o arco, para abater o pobre e miserável e liquidar os que vão no caminho reto. Sua espada, porém, lhes traspassará o coração, e seus arcos serão partidos. O pouco que o justo possui vale mais que a opulência dos ímpios; porque os braços dos ímpios serão quebrados, mas os justos o Senhor sustenta. O Senhor vela pela vida dos íntegros, e a herança deles será eterna. Não serão confundidos no tempo da desgraça e nos dias de fome serão saciados. Porém, os ímpios perecerão e os inimigos do Senhor fenecerão como o verde dos prados; desaparecerão como a fumaça. O ímpio pede emprestado e não paga, enquanto o justo se compadece e dá, porque aqueles que o Senhor abençoa possuirão a terra, mas os que ele amaldiçoa serão destruídos. O Senhor torna firmes os passos do homem e aprova os seus caminhos. Ainda que caia, não ficará prostrado, porque o Senhor o sustenta pela mão. Fui jovem e já sou velho, mas jamais vi o justo abandonado, nem seus filhos a mendigar o pão. Todos os dias empresta misericordiosamente, e abençoada é a sua posteridade. Aparta-te do mal e faze o bem, para que permaneças para sempre, porque o Senhor ama a justiça e não abandona os seus fiéis. Os ímpios serão destruídos, e a raça dos ímpios exterminada. Os justos possuirão a terra, e a habitarão eternamente.(…)”

É evidente, nessa oração, que o mal não tem vez, embora possa ter uma aparente vitória. De fato, o triunfo dos perversos será derrotado pela intervenção de Deus e, por isso, diz o salmo, precisa confiar e esperar em Deus. É Ele a nossa vitória. Na parte central do salmo, evidencia-se a ação de Deus que julga tanto o ímpio e quanto o justo, dando a cada um o que merece, destinando, assim, o fim do ímpio e a salvação do justo. Terminando, o salmo proclama que o justo deve sempre esperar pelo Senhor, é Ele a sua vitória. No entanto, o ímpio vai se perder. O salmista exalta o triunfo do justo, embora que possa passar por provações cruéis da vida. Ele vai herdar a terra, na Bíblia a terra é considerada quase uma criatura vivente, portanto, uma herança para aqueles que seguem os caminhos de Deus.

Isto representa o símbolo efetivo do dom de Deus na história humana. E a partir desse dom que vai ao tempo se aperfeiçoando, tornando-se manifestação do reino de Deus, em que os seres humanos poderão viver uma perfeita comunhão com Deus, em que não se terá mais nem luto e nem dor, nem choro e nem opressão. Assim sendo, o mal será derrotado e não terá mais vez na vida dos fieis.

É a esperança em Deus que dá aos filhos de Deus de apostar na vida para sempre. Deste modo, o justo, embora veja a vida dos malvados favorecida-bonita ao contrário dele, não desanime porque tudo isso passa rapidamente, e é somente uma pura ilusão de uma vida sem futuro. No entanto, a vida dos justos está nas mãos de Deus. É isto que vale! Assim sendo, afastar-se de Deus, decidir de fazer sem ele, é causa de sofrimento e de “morte”. Nesta rejeição, o que é mais importante para a vida, o que dá riqueza de sentido, é marcado negativamente perdendo aquela bondade do qual ele era o portador: o amor é tingido de ambiguidade, o trabalho de fadiga, a maternidade de dor, e em seguida, a relação fraterna de ódio (Gn4) e aquela social de soberbia (Gn 6-7).


Deus é maior que a violência

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A violência que assistimos no cotidiano não é fruto do acaso, mas é consequência de ação iniqua da humanidade. Uma sociedade não transparente é algo que esconde ações que deturpam a convivência. O grande mal que existe entre nós é o fato de que ninguém se acha responsável de nada e ninguém revela a verdade das coisas. Eu poderia dizer que a nossa sociedade dá preferência à mentira e se esconde por trás dela. E o fato mais relevante é que nós não sabemos enxergar tudo isso, pelo contrário, sabemos, sim, transformar a mentira em verdade. Com tudo isso, é difícil a nossa convivência. É difícil confiar um no outro e assim se gera uma situação de instabilidade que produz por sua vez frutos de violência. Como reverter uma situação como essa? As Sagradas Escrituras, com o salmo 35, nos propõem uma grande reflexão e pistas de solução. O que o salmo nos diz efetivamente?

“A iniquidade fala ao ímpio no seu coração; não existe o temor a Deus ante os seus olhos, porque ele se gloria de que sua culpa não será descoberta nem detestada por ninguém.Suas palavras são más e enganosas; renunciou a proceder sabiamente e a fazer o bem. Em seu leito, ele medita o crime, anda pelo mau caminho, não detesta o mal.Senhor, vossa bondade chega até os céus, vossa fidelidade se eleva até as nuvens. Vossa justiça é semelhante às montanhas de Deus, vossos juízos são profundos como o mar. Vós protegeis, Senhor, os homens como os animais.Como é preciosa a vossa bondade, ó Deus! À sombra de vossas asas se refugiam os filhos dos homens. Eles se saciam da abundância de vossa casa, e lhes dais de beber das torrentes de vossas delícias,porque em vós está a fonte da vida, e é na vossa luz que vemos a luz. Continuai a dar vossa bondade aos que vos honram, e a vossa justiça aos retos de coração.Não me calque o pé do orgulhoso, não me faça fugir a mão do pecador. Eis que caíram os fautores da iniquidade, foram prostrados para não mais se erguer.”

Esse salmo ressalta a lógica do iníquo que faz o mal e se sente seguro porque ninguém pode descobri-lo. A sua habilidade é de enganar, porque ninguém, segundo ele, pode saber. Somente ele. Realmente, quem pode sondar o coração do ser humano? É aqui que está a resposta da Palavra de Deus. Verdadeiramente, nenhum ser humano tem capacidade para isso, mas Deus sim. O iníquo acha que pode enganar todo mundo e que não tem ninguém além disso. Para o iníquo Deus não existe e, portanto, pode fazer o que bem querer. Mas o autor desse salmo diz que Deus enxerga tudo, nada escapa aos seus olhos. Ele, Deus, está acima de tudo, e de também dos nossos pensamentos. Deus enxerga até as nossas intenções.

O salmista assim nos apresenta a humanidade: um resultado de iniquidade e de inocência, de ódio e de amor, de blasfêmia e de oração. À crueldade da violência das pessoas iníquas se opõe a potência da bondade do Senhor Deus, luz que apaga as trevas do mal. Para apresentar tudo isso, o salmista articula o hino em duas partes. A primeira parte é onde o ímpio promove estratégia de pecado, de mal. De fato, diz o salmista que “a iniquidade fala ao ímpio no seu coração”. Existe a palavra de Deus e a palavra diabólica. A malvadez faz uma só coisa com o maldoso que se alimenta somente de coisas ruins e adora a si mesmo.

Esse hino pretende exaltar assim a bondade divina que se opõe a maldade. O fiel que segue Deus, se deixa atrair por Ele, suplica de poupa-lo do poder do orgulhoso e do pecador. Essa oração desse fiel manifesta o grande amor de Deus que é fonte de vida e salvação. A experiência de Deus enriquece abundantemente a vida humana e que se traduz em olhar a luz que resplandece de Deus na oração, na escuta das Sagradas Escrituras. O papa Francisco nos convida também a fizermos esse discernimento: “A indiferença para com Deus supera a esfera íntima e espiritual da pessoa individual e investe a esfera pública e social. Com efeito, «sem uma abertura ao transcendente, o homem cai como presa fácil do relativismo e, consequentemente, torna-se-lhe difícil agir de acordo com a justiça e comprometer-se pela paz». O esquecimento e a negação de Deus, que induzem o homem a não reconhecer qualquer norma acima de si próprio e a tomar como norma apenas a si mesmo, produziram crueldade e violência sem medida. Em nível individual e comunitário, a indiferença para com o próximo – filha da indiferença para com Deus – assume as feições da inércia e da apatia, que alimentam a persistência de situações de injustiça e grave desequilíbrio social, as quais podem, por sua vez, levar a conflitos ou de qualquer modo gerar um clima de descontentamento que ameaça desembocar, mais cedo ou mais tarde, em violências e insegurança.” (Mensagem do Papa Francisco para o XLVIX Dia Mundial da Paz)


Deus julga as pessoas

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Umas das experiências mais tristes do ser humano é quando ele se sente só, porque foi julgado e difamado. Quantas vezes cada um de nós passa por essa experiência terrível de ter sido atacado e consequentemente isolado? Chega ao ponto de não encontrar uma alma viva que te possa socorrer e ajudar. Ao máximo, constatar os balanços de cabeças para confirmar: ‘pobre coitado!’. Uma pessoa denegrida, julgada e abandonada é a destruição da sua humanidade. Mas o que resta a uma pessoa que passa por esses momentos tão cruéis? Onde buscar abrigo, compreensão? Nem os familiares ou colegas de profissão estão próximos. Um deserto tomou conta da pessoa. O que fazer em circunstâncias como essas? Será que há saída? É verdade que tem gente que não consegue enxergar mais nada e se entrega ao ‘vazio’. Porém, eu acredito firmemente que também nesses momentos tão cruciais é possível encontrar uma saída relevante que ajuda a superar tudo. Qual é? Quem nos orienta mais uma vez é a Sagrada Escritura, através do salmo 34. Leia atentamente:

“Lutai, Senhor, contra os que me atacam; combatei meus adversários. Empunhai o broquel e o escudo, e erguei-vos em meu socorro. Brandi a lança e sustai meus perseguidores. Dizei à minha alma: ‘Eu sou a tua salvação’. Sejam confundidos e envergonhados os que odeiam a minha vida, recuem humilhados os que tramam minha desgraça. Sejam como a palha levada pelo vento, quando o anjo do Senhor vier acossá-los. Torne-se tenebroso e escorregadio o seu caminho, quando o anjo do Senhor vier persegui-los, porquanto sem razão, me armaram laços; para me perder, cavaram um fosso sem motivo. Venha sobre eles de improviso a ruína; apanhe-os a rede por eles mesmos preparada, caiam eles próprios na cova que abriram. Então, a minha alma exultará no Senhor, e se alegrará pelo seu auxílio. Todas as minhas potências dirão: ‘Senhor, quem é semelhante a vós? Vós que livrais o desvalido do opressor, o mísero e o pobre de quem os despoja’. Surgiram apaixonadas testemunhas, interrogaram-me sobre faltas que ignoro, pagaram-me o bem com o mal. Oh, desolação para a minha alma! Contudo, quando eles adoeciam, eu me revestia de saco, extenuava-me em jejuns e rezava. Andava triste, como se tivesse perdido um amigo, um irmão; abatido, me vergava como quem chora por sua mãe. Quando tropecei, eles se reuniram para se alegrar; eles me dilaceraram sem parar. Puseram-me à prova, escarneceram de mim, rangeram os dentes contra mim. Senhor, até quando assistireis impassível a este espetáculo? Arrancai desses leões a minha vida, livrai-me a alma de seus rugidos. Vou render-vos graças publicamente, eu vos louvarei na presença da multidão. Não se regozijem de mim meus pérfidos inimigos, nem tramem com os olhos os que me odeiam sem motivo, pois nunca têm palavras de paz: e armam ciladas contra a gente tranquila da terra, escancaram para mim a boca, dizendo: ‘Ah! Ah!’ Com os nossos olhos, nós o vimos! Vós também, Senhor, vistes! Não guardeis silêncio. Senhor, não vos aparteis de mim. Acordai e levantai-vos para me defender, ó meu Deus e Senhor meu, em prol de minha causa! Julgai-me, Senhor, segundo vossa justiça. Ó meu Deus, que não se regozijem à minha custa! Não pensem em seus corações: ‘Ah, tivemos sorte!’ Não digam: ‘Nós o devoramos!’ Sejam confundidos todos juntos e se envergonhem os que se alegram com meus males, cubram-se de pejo e ignomínia os que se levantam orgulhosamente contra mim. Mas exultem e se alegrem os favoráveis à minha causa e digam sem cessar: ‘Glorificado seja o Senhor, que quis a salvação de seu servo!’ E a minha língua proclamará vossa justiça, dando-vos perpétuos louvores.”

O autor desse salmo desabafa, na prática, a traição que recebeu. Foi um complô bem armado para condená-lo. Ele foi conduzido perante à magistratura corrupta baseado sobre falsas acusações: “os que tramam minha desgraça… interrogaram-me sobre faltas que ignoro”. Perante essa triste farsa processual, sobretudo porque os que o acusam são ex-amigos, não lhe resta que buscar o verdadeiro juiz, Deus, para que possa desvendar a injustiça que foi submetido: “Senhor, vistes!… levantai-vos para me defender”. Para isso, o autor proclama palavras de fogo, de total desabafo, pedindo a Deus: “Empunhai o broquel e o escudo” para socorrê-lo e define os inimigos como fossem animais que devoram as suas vítimas quando acusam os inocentes de crimes nunca cometidos.
É uma situação trágica, de grande tensão que somente Deus pode resolver tomando a sua defesa. Assim sendo, Deus não fica indiferente perante a corrupção, a injustiça da humanidade. Recorrer a Deus que é um juiz justo e imparcial. É Ele o supremo juiz. Então, o justo poderá sofrer injustiças entre os homens, mas tem a quem ele apelar para revelar a verdade. Consequência de tudo isso, o justo eleva um hino de alegria pela felicidade de ter encontrado de ser absolvido pela justiça de Deus. Isto é, a humanidade pode confiar em uma justiça transparente, justa que é de Deus. E o papa Francisco acrescenta: “Nós nos colocamos no lugar de Deus”, mas “o nosso julgamento é um julgamento pobre”, nunca “pode ser um verdadeiro julgamento porque em nosso julgamento falta a misericórdia. E quando Deus julga, julga com misericórdia”.


Bendirei o senhor em todo tempo!

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A experiência da vida humana nos leva a refletir bastante sobre a precariedade e instabilidade da nossa vida nesse pequeno planeta. Somos, ao final, pobres. Não somos os donos da nossa vida, por quanto possamos nos desdobrar e nos comprometer com ela. Toda a labuta cotidiana nos revela a nossa finitude. A limitação da nossa vida nos leva a nos questionar com toda a nossa profundidade e seriedade: quem nos pode ajudar a superar essa limitada vida humana? De onde pode nos vir uma esperança que supere essa nossa caducidade, contrariedades? Essa vida, que acreditamos nela, não pode se limitar a fugacidade, aos nossos sofrimentos, dores e angústias. Não pode se reduzir a um simples tempo cronológico que é determinado pela morte. O salmo 33 das Sagradas Escrituras pode nos iluminar a respeito. Leia atentamente:

“Quando simulou alienação na presença de Abimelec e, despedido por ele, partiu. Bendirei continuamente ao Senhor, seu louvor não deixará meus lábios. Glorie-se a minha alma no Senhor; ouçam-me os humildes, e se alegrem. Glorificai comigo ao Senhor, juntos exaltemos o seu nome. Procurei o Senhor e ele me atendeu, livrou-me de todos os temores. Olhai para ele a fim de vos alegrardes, e não se cobrir de vergonha o vosso rosto. Vede, este miserável clamou e o Senhor o ouviu, de todas as angústias o livrou. O anjo do Senhor acampa em redor dos que o temem, e os salva. Provai e vede como o Senhor é bom, feliz o homem que se refugia junto dele. Reverenciai o Senhor, vós, seus fiéis, porque nada falta àqueles que o temem. Os poderosos empobrecem e passam fome, mas aos que buscam o Senhor nada lhes falta. Vinde, meus filhos, ouvi-me: eu vos ensinarei o temor do Senhor. Qual é o homem que ama a vida, e deseja longos dias para gozar de felicidade? Guarda tua língua do mal, e teus lábios das palavras enganosas. Aparta-te do mal e faze o bem, busca a paz e vai ao seu encalço. Os olhos do Senhor estão voltados para os justos, e seus ouvidos atentos aos seus clamores. O Senhor volta a sua face irritada contra os que fazem o mal, para apagar da terra a lembrança deles. Apenas clamaram os justos, o Senhor os atendeu e os livrou de todas as suas angústias. O Senhor está perto dos contritos de coração, e salva os que têm o espírito abatido. São numerosas as tribulações do justo, mas de todas o livra o Senhor. Ele protege cada um de seus ossos, nem um só deles será quebrado. A malícia do ímpio o leva à morte, e os que odeiam o justo serão castigados. O Senhor livra a alma de seus servos; não será punido quem a ele se acolhe.”

A narração do salmo sobre a experiência próxima de Deus é vivida por aqueles que temem a Deus. Esses que temem a Deus confiam totalmente a Ele, colocam a própria vida nas mãos de Deus, sem precisar buscar estratégias de violências ou de astúcias. Efetivamente, o anjo do Senhor, biblicamente, quer dizer a presença de Deus mesmo, acampa ao redor do seu fiel e o salva. Porém, a parte mais forte da confissão do autor desse salmo encontra-se nessas palavras resumidas: “Este pobre grita e o Senhor o escuta”. Essa confiança permite-lhe de encarar a vida de maneira esperançosa e corajosa.

E o justo aqui é representado como uma cidade que está por ser atacada por um exército poderoso. Porém, Deus envia em sua ajuda uma milícia celeste que garante a sua segurança, a sua proteção. Essa ajuda de Deus, diz o salmo que “Os poderosos empobrecem e passam fome, mas aos que buscam o Senhor nada lhes falta”. Perante a ação de Deus, o mal não consegue prevalecer, é derrotado. A ação de Deus na vida do ‘justo’ é um triunfo, garantia de defesa de todos os ataques dos inimigos. Livra-o de toda angústia. A justiça divina está acima de qualquer projeto humano ou estratégias humanas de poder.

A segunda parte do salmo é exaltação da sabedoria. É um pai que recomenda ao filho uma aula de vida com valores universais: “Vinde, meus filhos, ouvi-me: eu vos ensinarei o temor do Senhor”. O temor bíblico aqui tem uma série de sentimentos, inclusive o amor. Interessante o apelo que segue: ‘buscar a paz e persegui-la’. Este é o desejo fundamental de Deus e que faz parte da sua natureza. O Senhor tem ternura para as pessoas da paz. Perante a violência iníqua dos poderosos, Deus intervém e se torna próximo e salva os humilhados e os que temem o Senhor.
E concluindo o papa Francisco afirmou: “Muitas vezes, o Senhor deve fazer o mesmo conosco, através das provações, muitas provações. Ele obriga aquele coração, aquela alma a crer que existe gratuidade nele, que o seu dom é grátis, que a salvação não se compra: é um grande presente. Com efeito, o amor de Deus é ‘o maior dom’”.


As novidades estimulam as crianças

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Desde muito cedo, as crianças têm uma própria representação do mundo, um jeito de perceber e entender a realidade existente. Os pequenos são capazes de notar quando um objeto se comporta de maneira natural ou completamente imprevista. Isto nos confirma pesquisas e estudos sobre o mundo infantil. Portanto, bebês com menos de um ano são capazes de fazer previsões do mundo que os circundam. E quando essas previsões não correspondem às perspectivas deles, ficam surpreendidos. Como? Os olhos se arregalam, fixam o objeto e depois mudam de expressão. E como reagem as crianças quando são atordoadas por esses conhecimentos?

Quando isso ocorre, elas aproveitam para apreender mais sobre o objeto em questão e também explorar mais o mundo que está ao redor delas. Praticamente, comportam-se como minis pesquisadores, tentando confirmar suas expectativas. No final das contas, poderíamos dizer: as hipóteses que se formularam no próprio mundo intelectual buscam próprias confirmações. As crianças escondem nos cérebros segredos que são instrumentos de aprendizagem. Um estudo feito por duas pesquisadoras americanas, Aimee E. Stahl e Lisa Feigenson, e publicado na prestigiada revista científica ‘Science’, confirma tudo isso.

Ligadas à Universidade Johns Hopkins, elas observaram o processo do conhecimento das crianças, que têm uma pequena bagagem de experiência, mas que ainda não aprenderam a falar. De fato, essa curiosidade existe em todos nós adultos em saber até que ponto a criança compreende ou quer compreender. Até que ponto entende as coisas. Em suma, todos nós queremos nos colocar no mundo da compreensão da criança para ter uma interatividade mais completa. Assim declarou a pesquisadora Lisa Feigenson: “Para as crianças, o mundo é um lugar incrivelmente complexo e cheio de estímulos dinâmicos. Como eles sabem o que focar e o que mais aprender e, no entanto, o que ignorar?”

Mais adiante, a pesquisadora diz: “A nossa pesquisa nos sugere que as crianças usam o que já sabem do mundo para elaborar as previsões. Quando estas previsões se demonstram erradas, as crianças usam esta surpresa como uma especial oportunidade de aprendizagem.” Ela esclarece se as crianças têm dificuldades de descrever o mundo, o que as circundam, porém, têm um modo próprio delas comunicarem aquilo que conhecem e aquilo que não conhecem, através do olhar. É o olhar delas que revela o conhecimento. De fato, os cientistas, há muito tempo, sabem que as crianças olham por mais tempo e com mais insistência algo que os adultos julgam surpreendente e que se comporta de maneira inesperada.

Uma surpresa, nesse sentido, é ser tudo isso que contradiz as expectativas, como por exemplo, dizem os cientistas, uma bola que cai numa descida de um morro e que, no entanto, no lugar de ser bloqueada por um muro parece atravessa-lo. A partir dessa imagem, Stahl e Feigenson tentaram entender o que ia acontecer ao nível de conhecimento depois de um evento surpreendente no cérebro das crianças de apenas 11 meses. Resposta: algumas crianças mostraram uma sequencia esperada, isto é, que a bola que desce se bloqueia quando alcança um muro; porém, outras, o evento inesperado, isto é a bola que parecia atravessar o muro.

Depois disso, as pesquisadoras ensinaram às crianças que a bola emitia também um som se sacudida, observando que as crianças que foram surpreendidas aprenderam mais que as outras. Quando as pesquisadoras no lugar de ensinar deixavam livres as crianças de brincar com a mesma bola e foram surpreendidas pelo evento (atravessar, por exemplo, o muro) se entretinham mais com a bola quase a querer perscrutar os tais secretos, o fenômeno. No entanto, as crianças que tinham visto o evento típico da bola bloqueada pelo muro não mostravam preferência pela bola, não davam muita atenção a ela, contrariamente daquelas ficaram surpreendidas.

O que quer dizer tudo isso? As pesquisadoras Stahl e Feigenson chegaram à conclusão que os eventos que contradizem as previsões, as surpresas, são uma oportunidade para as crianças apreenderem, e não em maneira reflexiva, mas com comportamentos que buscam de compreender os aspectos que estão em desacordo com as expectativas. Doutora Feigenson afirma: “Quando as crianças são surpreendidas aprendem muito melhor, como se quisessem compreender algo melhor.” Creio que isto nos ajude como melhor nos relacionar com as crianças em relação à educação como um todo.


Celebração do Círio (II)

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Continuando a nossa reflexão sobre a religiosidade testemunhada pelo nosso Círio de Nazaré, qual é o pensamento da Igreja sobre a piedade popular? O objetivo da Igreja é aquele de evangelizar e não de civilizar. Vários pesquisadores questionaram-se a respeito disso, como no caso do Gallini, (Forme di trasmissione orale e scritta nella religione popolare, em “Ricerche di Storia Sociale e Religiosa”, Nuova Serie, 11, Roma 1977, p. 99), que partindo da constatação que cultura e classe social não coincidem necessariamente e afirma: “É uma constatação que toma em consideração alguns fenômenos que são tão evidentes que não podem ser negados: sobretudo o fato que muitos institutos culturais, por tradição indicados como populares porque frequentados pelas massas simples e operárias, são também fruídos por outras camadas sociais, incluindo a mesma burguesia. Podem ver, por exemplo, a uma festa participam todo tipo de classe social, misturando-se cada classe social. Repensar sobre este fenômeno pode contribuir a levantar mais dúvidas sobre os riscos de um populismo demais fácil e atual. Mas como repensar em termos de classe estas evidencias?”

O Sínodo dos Bispos de 1974 tratou em particular desse tema e assim pronunciou-se: “A evangelização acha já um fundo de religiosidade popular enraizado sobre as naturais aspirações à bondade e à justiça e isso devido, sobretudo, à obra evangelizadora das épocas passadas. Entendemos por religiosidade popular a maneira como o cristianismo encarna-se nas diversas culturas e etnias e é profundamente vivida e manifesta-se ao povo. A religiosidade popular constitui o verdadeiro ponto de partida da evangelização, com os seus bons elementos de fé autentica que precisa ser purificada, interiorizada, amadurecida e vivida cotidianamente”.

Os mesmos papas fazem-se promotores à devoção à Maria e a todas as formas marianas. Continuando S. João Paulo II: “não serão nunca esquecidos os ensinamentos do meu predecessor Paulo VI, que nas suas maravilhosas Exortações Apostólicas ‘Signum Magnum’ e ‘Marialis Cultus’, deixou um monumento da sua devoção e do seu amor a Maria e uma síntese estupenda, completa das motivações bíblicas, teológicas e litúrgicas, que devem guiar o Povo de Deus no incentivo contínuo do culto divino pra aquela que é Mãe de Deus, Mãe nossa, Mãe da Igreja”. Em poucas palavras, parece-nos que esse seja o pensamento do magistério eclesiástico. Bem aventurado Paulo VI na sua Encíclica ¨Evangelii Nuntiandi¨ fala desse tema e apresenta brevemente a relação entre evangelização e sacramentos. Beato Paulo VI afirma também que não deve-se opor um ao outro, como, às vezes, pode acontecer, mas na verdade conduzir os cristãos “a viver os Sacramentos como verdadeiros Sacramentos da fé, e não recebê-los passivamente ou a subi-los”.

Portanto, parece indicativa a conclusão e as diretrizes e também o pensamento da Igreja sobre tal aspecto que o papa Paulo VI deu à sua Exortação Apostólica: “Nos confrontos dessa realidade (religiosidade popular) assim rica e no mesmo tempo assim vulnerável, ele acolheu, com grande sensibilidade, os valores inegáveis e deseja que os chefes responsáveis das comunidades eclesiais superem os ’riscos de anomalia’, tomando uma direção tal que a religiosidade popular possa deixar cada vez mais, para as nossas massas, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo”.

Beato papa Paulo VI: “Nos confrontos dessa realidade (religiosidade popular), assim rica e ao mesmo tempo vulnerável, ele acolheu, com grande sensibilidade, os valores inegáveis e deseja que os chefes responsáveis das comunidades eclesiais superem os ‘riscos de anomalia’, tomando uma direção tal que a religiosidade popular possa deixar cada vez mais, para as nossas massas, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo”.

Para chegar a essa reflexão, Beato Paulo VI indica quatro pontos concisos, os limites da religiosidade popular: 1°. É aberta a penetração de muitas deformações; 2°. É exposta ao perigo das superstições; 3°. Fica muitas vezes ao nível das manifestações culturais; 4°. Pode levar às formações de seitas e colocar em perigo a verdadeira comunidade eclesial.

Da mesma forma, enumera os valores positivos para uma pedagogia de evangelização que são: 1°. Manifestação de uma sede de Deus que somente os simples e os pobres podem conhecer; 2°. Capacidade de generosidade e de sacrifício até ao heroísmo; 3°. Comporta um grande sentido dos atributos de Deus, a paternidade, a providência, a presença; 4°. Alimenta atitudes interiores como a sabedoria, o sentido da cruz na vida cotidiana: o despojamento, a abertura aos outros, a devoção.

Em síntese, qual é a interpretação e avaliação do conceito de religiosidade popular? Assim escreve A. Vauchez: “A religião popular é uma noção mal definida para ser interpretada de várias maneiras e isso comporta a contrastes e também a oposições entre teses dificilmente conciliáveis”. (FA. ISAMBERT, Religion populaire, sociolo¬gie, histoire, et folklore, em “Archives des Sciences Sociales des Reli¬gions, 43/2 (Abril-junho 1977), p. 183”).

É comum ver como, às vezes, cruzam-se e misturam-se os sentidos dos termos na vida das pessoas simples e até de pessoas esclarecidas. A consequência disso é a prática religiosa que se torna mais sincretista.

Por conseguinte, não se perca nenhuma ocasião para esclarecer, purificar e robustecer a fé do povo fiel, mesmo quando de cunho nitidamente popular. O fato de essa fé ocupar lugar proeminente em Nossa Senhora, como, aliás, sucede na totalidade da fé cristã, não exclui, nem sequer ofusca a mediação universal e insubstituível de Cristo, o qual permanece sempre o caminho por excelência para o encontro com Deus, como ensina o Concílio Vaticano II.


Celebração do cirio

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Mais um Cirio entre nós. Todos estamos envolvidos nesta mega manifestação religiosa paraense. Quais considerações teológicas e comunicativas podemos fazer perante este evento? A partir das Sagradas Escrituras, podemos tentar resgatar como o povo de Deus procede para se aproximar cada vez mais de Deus. Uma dessas realidades é o templo. De fato, ao novo Povo de Deus – diferentemente do Antigo – é estranho o conceito de limitar a presença e a função de Deus unicamente à dimensão do templo. O santuário, no conceito cristão, é o lugar onde mais intensamente experimenta-se a presença e a proximidade de Deus, lugar de graça e centro de fé. A respeito da santidade do lugar, essa é entendida como o resultado da união entre Deus e a comunidade na fé e na oração. Como para as grandes religiões, não é surpresa que também o cristianismo tenha os seus lugares sagrados. Assim, inúmeros templos e santuários surgiram para despertar e satisfazer o sentimento religioso. Bem cedo começaram a tornar-se meta de devoção alguns lugares sagrados da Palestina, ligados à vida terrena de Jesus e à Mãe santíssima.

Depois dos primeiros três séculos de peregrinações à Terra Santa, os fiéis puseram a própria atenção no Ocidente e, em particular, à Cidade Eterna, Roma, que se tornou meta de peregrinações do lugar dos santos mártires.

Documentos atestam que a Igreja Ocidental possui santuários marianos, no verdadeiro sentido da palavra, a partir dos séculos XI-XII. O código de direito canônico define o santuário como “a igreja ou outro lugar sagrado aonde os fiéis, por um motivo peculiar de piedade, vão a peregrinação com a aprovação do ordinário do lugar (can.1230)”.

No ano 1956, uma carta dos estudos da Congregação dos Seminários e das Universidades descrevia os templos como igrejas ou edifícios sagrados destinados ao exercício do culto público e da piedade, que se manifesta por meio de uma imagem venerada, por um milagre que aconteceu, por uma relíquia guardada ou por uma indulgência que se pode adquirir. Nesse sentido, os fiéis fazem as peregrinações nesses locais para pedir graças e fazer promessas. Temos, a partir disso, a piedade popular.

O termo piedade, assim como hoje estamos usando, não reflete o sentido em latim ao qual fazemos referência agora, para tentar buscar uma resposta ao conceito de piedade. Piedade provem do latim pietas que tem uma abrangência de significados muito mais vastos que o nosso e aplica-se a várias categorias e que, por sua vez, podem ser subdivididas em ciclos de deveres a cumprirem-se para Deus e para as criaturas. Além do mais, é bom salientar que também indica um tipo de comportamento de Deus em relação às suas criaturas, particularmente, ao ser humano. Em São Tomás, o termo pietas exprime o dom do Espírito Santo.

Esse termo, em seguida, passou de um comportamento mais amplo para uma atitude bem interior, isto é, uma maneira de relacionar-se com Deus. Hoje, essa devoção foi bem longe e assim, quando se fala de piedade, entende-se o sentido exageradamente pio, pietismo, de piedade hipócrita, de não verdadeiramente pio. Mas, na verdade, o que é a verdadeira piedade cristã?
Visto que o cristão não se limita somente a agir, mas é realmente pio sempre em toda a sua vida, a piedade é a realização espiritual, ou seja, um ato animado pela fé, esperança e caridade ou, como diz São Paulo, “Recapitular em Cristo todas as coisas, aquela do céu como aquela da terra (cf. Ef 1,3-10)”.

A piedade expressa uma virtude de religião que é própria de fazer culto. A nossa vida se manifesta mediante o culto. Os teólogos concordam com a afirmação de S. João Damasceno, o qual define o culto “uma espécie de submissão em reconhecimento da superioridade e excelência de alguém que se presta homenagem e se cultiva para os atos religiosos”.

O culto, por sua vez, divide-se no interior e exterior. Aquele interior é a manifestação da “pietas”, que sai do fundo da alma e toma forma numa linguagem inspirada e direta da vontade e do coração. E a razão exprime a Deus a submissão: a veneração da alma.

E o papa S. João Paulo II nos diz: “A busca de Deus, ligada ao modo de ser e à cultura de cada povo e, não raro, a estados de ânimo emocionais, nem sempre apresentou-se bem apoiada numa adesão de fé. Pode até acontecer de não estar devidamente separada de elementos estranhos à religião. No entanto, essa busca de Deus é algo considerado, por vezes, rico de valores a aproveitar. Embora precisando ser esclarecida, guiada e purificada, a religiosidade popular, ligada como norma à devoção a Nossa Senhora, traduz geralmente ‘uma certa sede de Deus’, sendo como lhe quis chamar o meu predecessor Paulo VI ‘piedade dos pobres e dos simples’”.

Assim, não é necessariamente um sentimento vago ou uma forma inferior de manifestação religiosa. Antes, contém, com frequência, um profundo sentido de Deus e dos seus atributos, como a paternidade, a providência, a presença amorosa e a misericórdia. A par da religião do povo, é corrente também nos centros de culto mariano e nos santuários muito concorridos, verificar-se, por um motivo ou por outro, a presença de pessoas que pertencem ou não ao grêmio da Igreja, ou nem sempre permaneceram fiéis aos compromissos e à prática da vida cristã, ou ainda, tais pessoas vêm guiadas por uma visão incompleta da fé que professam.
Sábado próximo continuaremos com a segunda parte dessa reflexão.