Wellington Silva

Sua benção, Tia Zefa


 

Sempre que via Tia Zefa, rodeada de familiares, sentada no pátio de sua residência, frente ao Sebrae Amapá, me sentia na obrigação de lhe dar um grande abraço e tomar sua benção, pois, afinal de contas, eu estava diante de mais de um século de muita experiência e sabedoria popular. Ao seu lado sempre via o saudoso amigo camarada de labutas na Seplan, Pedro Ramos, o “Pedrinho” ou “Pedroca”, para os colegas da Seplan, a Raimunda Lina Ramos e o Neck.

Filhos notáveis, notáveis filhos, de uma rara safra que hoje se vê!

Pedro Ramos, além de excelente contabilista, e grande carnavalesco, tinha uma biblioteca e um acervo musical simplesmente invejável. Raimunda Lina Ramos fora Diretora de Orçamento da Seplan, durante muitos anos, e o Neck, bom, quem não conhece o Neck, poeta, cantor, compositor e um dos grandes comandantes da Escola de Samba Boêmios do Laguinho!

Mas, vou parar por aqui, porque a lista é grande!

Inegavelmente, como Mãe Tia Zefa honrosamente cumpriu o seu papel temporal. Ela é a mais lídima expressão cultural da nação tucuju, amada e venerada por todos que a conheciam bem!

Tia Zefa é um símbolo, uma imagem física, a expressão de uma cultura de resistência que hoje, mais que nunca, deve se perpetuar no tempo, através de gerações…

A Marabaixeira, a Grande Matriarca, que anos atrás víamos na UNA, nas “rodadas” de Marabaixo, durante o Encontro dos Tambores, não mais veremos…

Mas, passará tempo, passarão os anos, ela e eles, todos eles, sempre lá estarão, na UNA, no tradicional Encontro dos Tambores, derramando suas bençãos aos queridos e ao seu amado povo, pois, afinal de contas, tudo é como canta e expressa Sivuca na belíssima canção Mãe África, letra de Paulo César Pinheiro e de Sivuca:

“Filho, tu tem sangue Nagô, como tem, todo esse Brasil!

Pelo bastão de Xangô, e o caxangá de Oxalá, Filho Brasil, pede a benção a Mãe África”.

Josefa Lina da Silva Ramos, Tia Zefa, a nossa decana do Marabaixo, era devota de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro e do Divino Espírito Santo. Seu vigor, firmeza e lucidez conseguiam suplantar mais de um século de vida! Versava os famosos versos “ladrões” de Marabaixo com uma voz firme, cadenciada, ritmada.

Tia Zefa nasceu no dia 26 de fevereiro 1.916 e faleceu no dia 23 de julho de 2024.

Hoje, aos 60 anos, não estou mais a fim de despedidas!

Tia Zefa agora é imortal! Mora nas estrelas, no Astral Superior! De vez em quando descerá para bater um “papo” com os encantados para velar pelos seus mais queridos, aqui, neste plano temporal terreno de vida!

Sua benção, Tia Zefa!

De muito, já és Candeia, já és Luz!

Com amor, ternura e eterna admiração, do “branco” mais preto do Amapá, Wellington Silva.