Ressurreição: resgate da humanidade


A Páscoa é a Festa das Festas! Nestes dias, vamos continuar a proclamar essa verdade. Assim a Igreja nos convida a viver por 50 dias este maravilhoso e imenso evento da Vida: Jesus Cristo que venceu a morte e, assim, proclamou a VIDA para sempre. Uma leitora quis compartilhar o quanto é importante tudo isso. Vejamos:
“Querido Padre Cláudio. Obrigada por esse texto que traz, de forma tão clara, a profunda sabedoria do evento pascal. Justamente tanta sabedoria que nos falta, individual e coletivamente. Acho que devemos guardar para meditar nos significados da Páscoa que seu texto realça. Eis aqui os significados que o seu texto convida a meditarmos: Magnitude da vida em nossas mãos, superação de nosso horizonte fechado. Deixamo-nos levar pelo tempo que passa e a Páscoa propõe o oposto dessa atitude. O projeto humano acha nela a plenitude de sua busca. A nossa vida deve possuir alguns requisitos contemplativos do mistério pascal, do que deriva a construção de um percurso de existência na experiência cristã. Achei lindo o texto dizer que a Ressurreição nos ajuda a nos encontrar constantemente, compreendendo se deixar viver por este evento único. Paramos no tempo que passa. Disso decorre a maior parte dos nossos problemas! Empobrecemos o projeto humano. Obrigada Padre Cláudio!”

Abramos os nossos olhos e os nossos corações para enxergar e entender aquilo que temos ao nosso alcance. Não podemos acreditar que a morte seja a nossa herança. De jeito nenhum! O nosso demasiado olhar terrestre nos impede de discernir as realidades além da materialidade. A celebração pascal nos alimenta um novo olhar de verdades que todos queremos aspirar. Quantas vezes ouvir dizer: “Onde está Deus? Por que deixou acontecer essa tragédia, por que morreu o meu irmão, por que morreu minha filha?” Estas e outras perguntas são questionadas. Todos estes interrogativos surgem também pela falta de contemplação da realidade da Páscoa.

Assim sendo, é urgente penetrarmos este mistério excelso para compreender melhor a nossa vida. De outro jeito, nunca teremos respostas exaustivas por uma vida além desses nossos dramas humanos. Páscoa é a verdade para ser proclamada e contemplada constantemente. O que seria da nossa vida sem a Páscoa? Com certeza bem relativa, determinada pelos pontos de vista pessoais, intelectuais e sem horizontes amplos e infinitos. Uma vida fechada! E o papa Francisco, por ocasião da Santa Páscoa 2021, disse o seguinte: “No meio das múltiplas dificuldades que estamos a atravessar, nunca esqueçamos que fomos curados pelas chagas de Cristo (cf. 1 Ped 2, 24). À luz do Ressuscitado, os nossos sofrimentos são transfigurados. Onde havia morte, agora há vida; onde havia luto, agora há consolação. Ao abraçar a Cruz, Jesus deu sentido aos nossos sofrimentos. E, agora, rezemos para que os efeitos benéficos daquela cura se espalhem por todo o mundo.”

Concluindo, diria que a nossa vida sem o evento pascal seria muito e muito pobre, onde a morte se tornaria o ponto final da nossa vida. Por isso que aposto a minha vida em Jesus Cristo que ressurgiu, minha vida.


A grandeza da liberdade cristã


Dando espaço aos meus leitores, quero publicar uma reflexão acerca de alguns artigos meus sobre a temática da comunicação. A admiradora escreveu:
“Querido padre Cláudio, a leitura de seu texto, com gratidão, levanta várias questões. Uma delas é sobre o valor da liberdade de opinião e de imprensa. Esquecemos muitas vezes como essa foi uma grande conquista, não só para a democracia, mas para o crescimento dos valores da ética em uma sociedade. E lembrar que, há dois dias, um jovem jornalista foi morto no Irã, condenado pelo exercício do jornalismo. Esquecemos a preciosidade que é dispor dessa liberdade. Seu texto mostra um aspecto que a maioria de nós desconhece. A constituição da liberdade de imprensa veio junto com um princípio ético, expresso na deontologia, de respeito à verdade dos fatos, o segredo profissional sobre a fonte da notícia. Além disso, o compromisso em respeitar a privacidade – que muitas vezes não é plenamente respeitado. Adorei sua referência ao salmo que fala que o conhecimento integral do outro é atributo de Deus. E, portanto, é um convite não só ao respeito, mas à humildade e ao compromisso com o que seu texto diz: ‘A privacidade, portanto, na comunicação é um momento de respeito, porque na verdade não conhecemos a verdadeira situação’. Quantas e quantas vezes esquecemos disso! A ética cristã tem muito a ensinar à comunicação na nossa sociedade! A comunicação pode chegar a destruir uma pessoa, até pela superficialidade com que podemos comunicar sobre uma pessoa. Seu texto é um convite à reflexão! Assim como construímos instrumentos de comunicação poderosos, avanço civilizacional, podemos nos tornar objetos inertes ou manipuláveis perante os instrumentos. O respeito à ética é um princípio importante tanto para a produção das notícias e sua difusão, quanto para o consumo das notícias. Gostei muito desse texto que nos convida a pensar criticamente comunicação, ética e respeito humano… E reafirma a contribuição cristã nesse processo… Muitas vezes a comunicação via internet, com sua velocidade e variedade, nos faz reproduzir injustiças e condenações. Será que um cristão perante a comunicação tem de ter uma postura crítica, lembrando os valores da ética da comunicação?”

Nunca vou me cansar em dizer que a mensagem cristã traz libertação ao ser humano e não escravidão. Não podemos ser cristãos robôs, mas pessoas que enaltecem a liberdade, que saibam refletir constantemente para contemplar a verdadeira vida que vem de Deus. E uma das características de se manter livres é saber comunicar e recepcionar as mensagens. Ter, portanto, capacidade crítica e não falar por falar. Qualquer crítica, fundada no uso da razão, deve ser bem fundamentada, regulamentada em provas bem concretas e não inventadas. Liberdade é expressão também de tudo isso. Talvez devemos ser mais cristãos de verdade, sem falsas aparências.

Quantas vidas foram destruídas porque não soubemos viver essa liberdade cristã! Eu sou testemunha disso. Liberdade cristã significa que ninguém de nós é dono da verdade, mas que todos juntos a busquemos. E se todos juntos a busquemos não podemos esquecer que o protagonista da nossa vida é Deus, portanto, precisamos saber dar atenção pra Ele. Mas se alguém disser: ‘eu não acredito, não quero saber Dele’, vai favorecendo o subjetivismo que enaltece a parcialidade da verdade. Sozinhos não vamos longe!.


Páscoa é vida sem fim


A Páscoa é o grande evento da humanidade que testemunha a magnitude da vida que temos em nossas mãos. A Pascoa é a valorização da nossa gente. Talvez não sabemos dar o valor que merece esse extraordinário fato. Estamos por demais mergulhados e atraídos pelos eventos passageiros e temporâneos. Somos cegos para as verdades que vão além da temporaneidade. Uma senhora que acompanha atentamente os meus artigos me mandou essas considerações, que as considero um bom testemunho da verdade. Veja o que ela disse:

“Padre Cláudio, muito obrigada pelo texto sobre o pensamento de Deus em contraposição ao do mundo, no qual estamos mergulhados e cada vez mais, pela multiplicidade de tarefas, preocupações, assumindo totalmente as rotinas e objetivos mundanos como se fossem ‘a’ realidade. Duas lições de seu texto merecem a devida atenção: a escuta atenta de Deus, assim como Maria o fez, sendo que é preciso parar para escutar, o que implica também escutar o outro, os outros. Escutar… E a outra lição é aquela que diz que Deus fala a nós ao longo de toda a história, todos os tempos. Ontem como hoje, a voz de Deus se faz presente e requer um diálogo. Mas, o seu texto mostra bem, saber dialogar requer saber escutar. Parece fácil, pois estamos cercados de mensagens o tempo todo. Mas muito disso é ilusão. É escuta do mundanismo. Obrigada, padre Cláudio.”

O acontecimento da Ressurreição permite uma visão que supera o nosso horizonte fechado. Hoje, mais do que nunca, o nosso tempo registra esta situação. A Ressurreição nos testemunha a atualidade de sua mensagem. Páscoa se revela, assim como em todos os tempos e também hoje, a verdadeira leitura que propõe ao ser humano não se deixar levar sob a pressão da lógica do tempo que passa. A Ressurreição é um testemunho de reflexão e contemplação encarnada, a qual é mediadora de vida. Nela, o projeto humano acha a plenitude da sua busca. Por isso, a sua celebração não pertence à retórica das tradicionais festividades.

Páscoa é a oferta viva e permanente em um tempo de presunção e de confusão. É evidente que nesta perspectiva a nossa vida, para ser vital, deve possuir alguns requisitos contemplativos do mistério pascal. Neste sentido, constrói-se um verdadeiro percurso de existência, a partir do evento da experiência cristã, mais do que o tecnológico-materialístico. Páscoa vai além da técnica, daquilo que enxergamos.

A Ressurreição nos ajuda a nos encontrar constantemente. Portanto, uma verdadeira vida tem de passar por esta experiência, que nos revela que vamos além de uma simples história humana. Como o Cristo ressurgido conseguiu dar tanta coragem aos apóstolos trancados no cenáculo por medo e que não hesitaram depois em sair para testemunhá-Lo, assim nós podemos fazer da nossa vida que seja mais objetiva e verdadeira, na medida em que nos deixamos viver por este evento único na história.

Infelizmente, deve se notar que a busca por esta resposta fundamental, que a humanidade tanto persegue, não passa através dos mecanismos do fruto da inteligência humana.


O valor da caridade num mundo em pandemias


A caridade salva o mundo. A humanidade terá um rumo de vida e não de morte, se tiver caridade. Neste período de pandemia, vemos como é difícil ter uma vida de normalidade e de convivência. E creio que tudo isso despertou em cada um de nós a percepção de que a nossa vida está impregnada de ameaças de sobrevivência. Nos sentimos ameaçados e frágeis. O planeta todo está abalado. E isto nos faz refletir sobre como conduzimos a nossa VIDA.

No entanto, não é somente a pandemia da covid-19 que nos ameaça. Experimentem pensar todo o ódio que paira na nossa realidade, quanto está pandêmica! Pense bem: quantas mentiras espalhadas no nosso meio? Quantas injustiças? Quantas falsidades? Quantos enganos e destruições? Verdadeiras pandemias que nos ameaçam constantemente. Somos cercados de muitas pandemias.

Existe, então, uma verdadeira vacina para outras tantas pandemias? Eu, fiel a Sagrada Escritura, proclamo: o que nos protege dessas múltiplas ameaças é a caridade. Ser caridoso é ter coragem de reconhecer o outro que necessita da minha ajuda. Diz o livro do Eclesiástico 3,33: “A água extingue o fogo e a esmola apaga os pecados”. Uns dos aspectos da caridade é justamente a esmola. Quantas oportunidades de esmola podemos fazer na nossa vida!

Renunciar um pouco de si para doar a quem necessita nos dá mais alegria e paz que tantos bens que podemos possuir. Olhe o que diz o Eclesiástico: “Encerra a esmola no coração do pobre, e ela rogará por ti a fim de te preservar de todo mal. Para combater o teu inimigo, ela será uma arma mais poderosa do que o escudo e a lança de um homem valente” (Eclo 29,15-16). Além do mais, diz São Pedro: “Caridade encobre uma multidão de pecados” (1 Pe 4,8).

Naturalmente, um coração possuído por esse espírito transforma a vida da pessoa, a rende mais transparente e mais feliz. Porém, quem se recusa a fazer isso se esconde atrás de tantos raciocínios e justificativas que negam o outro e faz da própria vida uma ilusão. E São João acrescenta: “Se alguém tiver recursos materiais e vendo seu irmão em necessidade não se compadecer dele, como pode permanecer nele o amor de Deus (1 João 3:17)?

Quando alguém não se apega nos próprios bens materiais, aceita facilmente um convite como esse que provem sempre da Sagrada Escritura: “Dá esmola de teus bens, e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, Deus tampouco se desviará de ti” (Tob 4,7). Fazer esmola significa apostar numa vida que não seja egoística mas altruística, e como sempre eu digo: “investir no Banco de Deus”. Uma vida que vai além daquilo que enxergamos.

O livro dos Provérbios, das Sagradas Escrituras, diz: “Quem se apieda do pobre, empresta ao Senhor, que lhe restituirá o benefício” (19,17). Continua no livro de Tobias: “Porque a esmola livra do pecado e da morte e preserva a alma de cair nas trevas. A esmola será para todos os que a praticam um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo” (Tob 4,11-12).

Creio que devemos meditar tudo isso para poder entender melhor o que Deus quer da gente, e somente assim colaboraremos com uma vida projetada para o infinito. É uma vacina como esta que nos preserva das pandemias de todo mal. Quem não entrar nessa lógica de Deus, isto parece absurdo, desconfiará de tudo e de todos. E quero enfim agradecer os múltiplos testemunhos de esmola-caridade que encontro na grande Belém.


Deus também chora nossas dores


Logo que cheguei a Belém, ouvi várias histórias de dor que o covid-19 provocou e está provocando na vida de muita gente. Gostaria de narrar somente um testemunho que quer representar a situação de toda a humanidade, não somente das pessoas que moram em Belém do Pará. Encontrei na missa a dona Alice, uma senhora de grande fé e fiel praticante da Igreja. Como sempre, estava na primeira fila. Ela tem pouco mais de 80 anos. Seus olhos brilham de fé. Ela me contou seu drama: “Padre Claudio, por que tudo isso? Por que Deus quis o marido, dois filhos… Por que morreram? Padre, é muita dor, não sei até quando vou aguentar! Meus filhos estavam com saúde e de repente foram para hospital e não voltaram mais. Por que isso, meu Deus?”

A dor de uma mãe perante a morte inesperada e repentina dos filhos é difícil de compreender. Mas o nosso Deus responde dizendo: “Alice, não sou eu que tiro as vidas, não fui eu que criei a morte, aliás, eu estou muito preocupado com isso. Também eu sofro, choro perante essa realidade de não vida. E por isso que mandei o meu Filho Jesus, o Cristo, para resgatar essa realidade de morte. Você se lembra, minha filha Alice, que eu tinha feito tudo certo e bom, mas, improvisadamente, Adão, a humanidade, achou que não precisava me obedecer mais; e que devia continuar a vida como se fosse ela a dona de tudo, que tinha a capacidade de fazer tudo sem mim. Mas eu que conheço tudo, que amo aquilo que criei, não quero perder a minha obra de criação. Então, Alice, mandei o meu Filho Jesus Cristo para resgatar o que eu fiz. Mandei Ele para substituir aquele Adão desobediente, e Ele, Jesus, foi obediente até o fim. Porém, para entender melhor isso, Alice, te lembras quando Maria, a mãe de Jesus, estava de baixo da cruz, assistindo aquele imenso sacrifício do Filho e se perguntava também o porquê de tudo isso? Mas depois se lembrou de umas palavras de Jesus, o novo Adão obediente, que disse: ‘Se um grão de trigo que cai no chão não morre não pode nascer e produzir frutos’.Aí Maria renovou a confiança em Deus, embora que humanamente fosse difícil. Alice, tem que fazer como Maria, que ficou contemplando Jesus na cruz, revivendo toda a suavida e testemunho. Aí nasce a esperança que a morte é como um grão que cai na terra e depois grelará. Querida filha Alice, continue crendo em Jesus Cristo, o meu Filho amado. É somente assim que se vai destruir o ódio, a violência, a morte, as guerras, as desigualdades, os preconceitos, a ganância, o egoísmo, as mentiras, as cobiças, entre outras. Somente assim viveremos.”

As doenças, as tragédias podem até aumentar e ameaçar mais ainda se nós não formos obedientes ao Deus

que tudo gerou. A verdadeira vida é fruto de fraternidade, de justiça e perfeita convivência entre o ser humano, a natureza e o cosmo. Se nós não perseguirmos isso, poderemos somente ser desobedientes a Deus e geradores de ameaças e de perspectivas de não vidas. Então a dor, o sofrimento, nos toma conta. A dor e o sofrimento são fruto do conjunto da humanidade e não de Deus. É a humanidade toda responsável. Assim sendo, vamos resgatar a nossa obediência a Deus, que é não submissão, mas colaboração com Deus, reconhecendo-O verdadeiro protagonista de toda a criação. Vivendo assim, teremos mais esperança e confiança Nele, encararemos a nossa vida bem diferente, embora possamos passar pelas cruzes da vida. Como Nossa Senhora de baixo da cruz teremos forças para crer em uma vida sem fim.


A pandemia ajoelhou a humanidade


A tragédia planetária da pandemia covid-19 nos questiona em todas as nossas perspectivas de vida. Para eu voltar ao Brasil, consegui ser vacinado. No entanto, para viajar, tive que me submeter a dois testes: um molecular – PCR – dentro de 72 horas antes da viagem, e um teste rápido no aeroporto de partida. A segurança estava acima de qualquer exigência pessoal, porque não se pode colocar em risco ninguém se, por acaso, tiver o contágio. Na Itália, pude experimentar o rigor para tentar evitar esse contágio do vírus. Agora que cheguei ao meu Brasil, pude ver também o quanto esse vírus o desestabilizou.

Fiquei impressionado, em várias oportunidades, ao ver aglomeração de pessoas, gente que não usa máscaras ou usa de modo errado ou não respeita as regras de distanciamento. Fiquei triste em saber das muitas pessoas conhecidas que vieram a falecer. Essa pandemia vitimou vários padres no Brasil, e, conforme informações dadas pela CNBB, 69 sacerdotes já morreram até agora. Pude constatar também como as pessoas se fragilizaram e, às vezes, se sentiram ‘perdidas’. Aí, surgiu, espontaneamente em mim, essa pergunta: Oh, meu Deus, por que tudo isso?

Com certeza, essa pandemia nos coloca perante uma necessidade de perspectiva de vida que o ser humano possa reconstruir e redefinir os modos fundamentais de viver. Precisamos rever a interdependência entre a natureza e a cultura, porque elas são estritamente interligadas. Quando pensamos em percorrer um caminho cultural, sem nos questionar até que ponto é ligado à natureza, podemos entrar em choques de convivência. E isto não ajuda a nossa vida, pode até prejudicá-la. Pense bem: a humanidade está cheias de histórias de pandemias. Contudo, essa de Covid-19 me parece que é o primeiro caso que envolve uma imensa parte da humanidade.

E, por isso, tudo isso nos chama em questão por causa das nossas opções sociais, políticas e econômicas. De fato, a interdependência em não respeitar o meio ambiente e os modos de avanço de vida produzem infecções que podem até gerar epidemias. Nesse sentido, podemos classificar que o desmatamento selvagem, a mudança climática e a constante exploração do solo para a intensificação e concentração urbana das grandes cidades no planeta são exemplos dessa interdependência de conflitos de convivência. Essa pandemia de covid-19, repito, nos mostrou quantos somos vulneráveis, frágeis.

Portanto, precisamos refletir bastante sobre o ser humano, sobre os nossos desafios e os imprevistos que poderiam surgir. É bom que fique evidente que nós somos corpos, que a terra não nos pertence, mas nós pertencemos a ela. Nós não somos donos de nada, mas, sim, colaboradores. Essa pandemia põe em questionamento a nossa maneira de pensar e agir. Efetivamente, nós acumulamos toda uma evolução cultural e da natureza. Assim sendo, não podemos agir como fossemos os patrões do cosmo, do mundo e tanto menos da criação. É necessário resgatar o quanto antes uma humanidade que seja irmã do nosso pequeno planeta. O papa Francisco nos recomenda evitar: “a tentação de cuidar apenas dos próprios interesses, de se concentrar apenas no perfil econômico, de viver hedonisticamente, ou seja, buscando apenas satisfazer o próprio prazer”.


Mensagemdo papa Francisco ao brasilpara a Quaresma


Queridos irmãos e irmãs do Brasil!

 

Com o início da Quaresma, somos convidados a um tempo de intensa reflexão e revisão de nossas vidas. O Senhor Jesus, que nos convida a caminhar com Ele pelo deserto rumo à vitória pascal sobre o pecado e a morte, faz-se peregrino conosco também nestes tempos de pandemia. Ele nos convoca e convida a orar pelos que morreram, a bendizer pelo serviço abnegado de tantos profissionais da saúde e a estimular a solidariedade entre as pessoas de boa vontade. Convoca-nos a cuidarmos de nós mesmos, de nossa saúde, e a nos preocuparmos uns pelos outros, como nos ensina na parábola do Bom Samaritano (Lc 10, 25-37). Precisamos vencer a pandemia e nós o faremos na medida em que formos capazes de superar as divisões e nos unirmos em torno da vida. Como indiquei na recente Encíclica Fratelli tutti, «passada a crise sanitária, a pior reação seria cair ainda mais num consumismo febril e em novas formas de autoproteção egoísta» (n. 35). Para que isso não ocorra, a Quaresma nos é de grande auxílio, pois nos chama à conversão através da oração, do jejum e da esmola.

Como é tradição há várias décadas, a Igreja no Brasil promove a Campanha da Fraternidade, como um auxílio concreto para a vivência deste tempo de preparação para a Páscoa. Neste ano de 2021, com o tema “Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor”, os fiéis são convidados a «sentar-se a escutar o outro» e, assim, superar os obstáculos de um mundo que é muitas vezes «um mundo surdo». De fato, quando nos dispomos ao diálogo, estabelecemos «um paradigma de atitude receptiva, de quem supera o narcisismo e acolhe o outro» (Ibidem, n. 48). E, na base desta renovada cultura do diálogo está Jesus que, como ensina o lema da Campanha deste ano, «é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade» (Ef 2,14).

Por outro lado, ao promover o diálogo como compromisso de amor, a Campanha da Fraternidade lembra que são os cristãos os primeiros a ter que dar exemplo, começando pela prática do diálogo ecumênico. Certos de que «devemos sempre lembrar-nos de que somos peregrinos, e peregrinamos juntos», no diálogo ecumênico podemos verdadeiramente «abrir o coração ao companheiro de estrada sem medos nem desconfianças, e olhar primariamente para o que procuramos: a paz no rosto do único Deus» (Exort. Apost. Evangelii gaudium, n. 244). É, pois, motivo de esperança, o fato de que este ano, pela quinta vez, a Campanha da Fraternidade seja realizada com as Igrejas que fazem parte do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC).

Desse modo, os cristãos brasileiros, na fidelidade ao único Senhor Jesus que nos deixou o mandamento de nos amarmos uns aos outros como Ele nos amou (Jo 13,34) e partindo «do reconhecimento do valor de cada pessoa humana como criatura chamada a ser filho ou filha de Deus, oferecem uma preciosa contribuição para a construção da fraternidade e a defesa da justiça na sociedade» (Carta Enc. Fratelli tutti, n. 271). A fecundidade do nosso testemunho dependerá também de nossa capacidade de dialogar, encontrar pontos de união e os traduzir em ações em favor da vida, de modo especial, a vida dos mais vulneráveis.

Desejando a graça de uma frutuosa Campanha da Fraternidade Ecumênica, envio a todos e cada um a Bênção Apostólica, pedindo que nunca deixem de rezar por mim.

Roma, São João de Latrão, 17 de fevereiro de 2021.

Franciscus PP.


Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são (Última parte)


Na comunicação, nada pode jamais substituir, de todo, o ver pessoalmente. Algumas coisas só se podem aprender, experimentando-as. Na verdade, não se comunica só com as palavras, mas também com os olhos, o tom da voz, os gestos. O intenso fascínio de Jesus sobre quem O encontrava dependia da verdade da sua pregação, mas a eficácia daquilo que dizia era inseparável do seu olhar, das suas atitudes e até dos seus silêncios. Os discípulos não só ouviam as suas palavras, mas viam-No falar. Com efeito, n’Ele – Logos encarnado – a Palavra ganhou Rosto, o Deus invisível deixou-Se ver, ouvir e tocar, como escreve o próprio João (1 Jo 1, 1-3). A palavra só é eficaz, se se «vê», se te envolve numa experiência, num diálogo. Por esta razão, o «vem e verás» era e continua a ser essencial.

Pensemos na quantidade de eloquência vazia que abunda no nosso tempo, em todas as esferas da vida pública, tanto no comércio como na política. «Fala muito, diz uma infinidade de nadas. As suas razões são dois grãos de trigo perdidos em dois feixes de palha. Têm-se de procurar o dia todo para os achar, e, quando se encontram, não valem a procura». Estas palavras ríspidas do dramaturgo inglês aplicam-se também a nós, comunicadores cristãos. A boa nova do Evangelho difundiu-se pelo mundo, graças a encontros pessoa a pessoa, coração a coração: homens e mulheres que aceitaram o mesmo convite – «vem e verás –, conquistados por um «extra» de humanidade que transparecia brilhou no olhar, na palavra e nos gestos de pessoas que testemunhavam Jesus Cristo. Todos os instrumentos são importantes, e aquele grande comunicador que se chamava Paulo de Tarso ter-se-ia certamente servido do e-mail e das mensagens eletrónicas; mas foram a sua fé, esperança e caridade que impressionaram os contemporâneos que o ouviram pregar e tiveram a sorte de passar algum tempo com ele, de o ver durante uma assembleia ou numa conversa pessoal. Ao vê-lo agir nos lugares onde se encontrava, verificavam como era verdadeiro e frutuoso para a vida aquele anúncio da salvação de que ele era portador por graça de Deus. E mesmo onde não se podia encontrar pessoalmente este colaborador de Deus, o seu modo de viver em Cristo era testemunhado pelos discípulos que enviava (1 Cor 4, 17).

«Nas nossas mãos, temos os livros; nos nossos olhos, os acontecimentos»: afirmava Santo Agostinho,exortando-nos a verificar na realidade o cumprimento das profecias que se encontram na Sagrada Escritura. Assim, o Evangelho volta a acontecer hoje, sempre que recebemos o testemunho transparente de pessoas cuja vida foi mudada pelo encontro com Jesus. Há mais de dois mil anos que uma corrente de encontros comunica o fascínio da aventura cristã. Por isso, o desafio que nos espera é o de comunicar, encontrando as pessoas onde estão e como são.

Senhor, ensinai-nos a sair de nós mesmos,
e partir à procura da verdade.
Ensinai-nos a ir e ver,
ensinai-nos a ouvir,
a não cultivar preconceitos,
a não tirar conclusões precipitadas.
Ensinai-nos a ir aonde não vai ninguém,
a reservar tempo para compreender,
a prestar atenção ao essencial,
a não nos distrairmos com o supérfluo,
a distinguir entre a aparência enganadora e a verdade.
Concedei-nos a graça de reconhecer as vossas moradas no mundo
e a honestidade de contar o que vimos.

FRANCISCUS


Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são (II parte)


O próprio jornalismo, como exposição da realidade, requer a capacidade de ir aonde mais ninguém vai: mover-se com desejo de ver. Uma curiosidade, uma abertura, uma paixão. Temos que agradecer à coragem e determinação de tantos profissionais (jornalistas, operadores de câmara, editores, cineastas que trabalham muitas vezes sob grandes riscos), se hoje conhecemos, por exemplo, a difícil condição das minorias perseguidas em várias partes do mundo, se muitos abusos e injustiças contra os pobres e contra a criação foram denunciados, se muitas guerras esquecidas foram noticiadas. Seria uma perda não só para a informação, mas também para toda a sociedade e para a democracia, se faltassem estas vozes: um empobrecimento para a nossa humanidade.

Numerosas realidades do planeta – e mais ainda neste tempo de pandemia – dirigem ao mundo da comunicação um convite a «ir e ver». Há o risco de narrar a pandemia ou qualquer outra crise só com os olhos do mundo mais rico, de manter uma «dupla contabilidade». Por exemplo, na questão das vacinas e dos cuidados médicos em geral, pensemos no risco de exclusão que correm as pessoas mais indigentes. Quem nos contará a expectativa de cura nas aldeias mais pobres da Ásia, América Latina e África? Deste modo as diferenças sociais e económicas a nível planetário correm o risco de marcar a ordem da distribuição das vacinas anti-Covid, com os pobres sempre em último lugar; e o direito à saúde para todos, afirmado em linha de princípio, acaba esvaziado da sua valência real. Mas, também no mundo dos mais afortunados, permanece oculto em grande parte o drama social das famílias decaídas rapidamente na pobreza: causam impressão, mas sem merecer grande espaço nas notícias, as pessoas que, vencendo a vergonha, fazem a fila à porta dos centros da Cáritas para receber uma ração de víveres.

A rede, com as suas inumeráveis expressões nos social, pode multiplicar a capacidade de relato e partilha: muitos mais olhos abertos sobre o mundo, um fluxo contínuo de imagens e testemunhos. A tecnologia digital dá-nos a possibilidade duma informação em primeira mão e rápida, por vezes muito útil; pensemos nas emergências em que as primeiras notícias e mesmo as primeiras informações de serviço às populações viajam precisamente na web. É um instrumento formidável, que nos responsabiliza a todos como utentes e desfrutadores. Potencialmente, todos podemos tornar-nos testemunhas de acontecimentos que de contrário seriam negligenciados pelos meios de comunicação tradicionais, oferecer a nossa contribuição civil, fazer ressaltar mais histórias, mesmo positivas. Graças à rede, temos a possibilidade de contar o que vemos, o que acontece diante dos nossos olhos, de partilhar testemunhos.

Entretanto foram-se tornando evidentes, para todos, os riscos duma comunicação social não verificável. Há tempo que nos demos conta de como as notícias e até as imagens sejam facilmente manipuláveis, por infinitos motivos, às vezes por um banal narcisismo. Uma tal consciência crítica impele-nos, não a demonizar o instrumento, mas a uma maior capacidade de discernimento e a um sentido de responsabilidade mais maduro, seja quando se difundem seja quando se recebem conteúdos. Todos somos responsáveis pela comunicação que fazemos, pelas informações que damos, pelo controlo que podemos conjuntamente exercer sobre as notícias falsas, desmascarando-as. Todos estamos chamados a ser testemunhas da verdade: a ir, ver e partilhar. (Continua no próximo).


Comunicar encontrando as pessoas onde estão e como são


Oconvite a «ir e ver», que acompanha os primeiros e comovedores encontros de Jesus com os discípulos, é também o método de toda a comunicação humana autêntica. Para poder contar a verdade da vida que se faz história, é necessário sair da presunção cómoda do «já sabido» e mover-se, ir ver, estar com as pessoas, ouvi-las, recolher as sugestões da realidade, que nunca deixará de nos surpreender em algum dos seus aspetos. «Abre, maravilhado, os olhos ao que vires e deixa as tuas mãos cumular-se do vigor da seiva, de tal modo que os outros possam, ao ler-te, tocar com as mãos o milagre palpitante da vida»: aconselhava o Beato Manuel Lozano Garridoaos seus colegas jornalistas. Por isso, este ano, desejo dedicar a Mensagem à chamada a «ir e ver», como sugestão para toda a expressão comunicativa que queira ser transparente e honesta: tanto na redação dum jornal como no mundo da web, tanto na pregação comum da Igreja como na comunicação política ou social. «Vem e verás» foi o modo como a fé cristã se comunicou a partir dos primeiros encontros nas margens do rio Jordão e do lago da Galileia.

Pensemos no grande tema da informação. Há já algum tempo que vozes atentas se queixam do risco dum nivelamento em «jornais fotocópia» ou em noticiários de televisão, rádio e websites que são substancialmente iguais, onde os géneros da entrevista e da reportagem perdem espaço e qualidade em troca duma informação pré-fabricada, «de palácio», autorreferencial, que cada vez menos consegue interceptar a verdade das coisas e a vida concreta das pessoas, e já não é capaz de individuar os fenómenos sociais mais graves nem as energias positivas que se libertam da base da sociedade. A crise editorial corre o risco de levar a uma informação construída nas redações, diante do computador, nos terminais das agências, nas redes sociais, sem nunca sair à rua, sem «gastar a sola dos sapatos», sem encontrar pessoas para procurar histórias ou verificar com os próprios olhos determinadas situações. Mas, se não nos abrimos ao encontro, permanecemos espectadores externos, apesar das inovações tecnológicas com a capacidade que têm de nos apresentar uma realidade engrandecida onde nos parece estar imersos. Todo o instrumento só é útil e válido, se nos impele a ir e ver coisas que de contrário não chegaríamos a saber, se coloca em rede conhecimentos que de contrário não circulariam, se consente encontro que de contrário não teriam lugar.

Aos primeiros discípulos que querem conhecer Jesus, depois do seu Batismo no rio Jordão, Ele responde: «Vinde e vereis», convidando-os a permanecer em relação com Ele. Passado mais de meio século, quando João, já muito idoso, escreve o seu Evangelho, recorda alguns detalhes «de crónica» que revelam a sua presença no local e o impacto que teve na sua vida aquela experiência: «era cerca da hora décima», observa ele! Isto é, as quatro horas da tarde. No dia seguinte (narra ainda João), Filipe informa Natanael do encontro com o Messias. O seu amigo, porém, mostra-se cético: «De Nazaré pode vir alguma coisa boa?» Filipe não procura convencê-lo com raciocínios, mas diz-lhe: «vem e verás». Natanael vai e vê, e a partir daquele momento a sua vida muda. A fé cristã começa assim; e comunica-se assim: com um conhecimento direto, nascido da experiência, e não por ouvir dizer. «Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos…»: dizem as pessoas à Samaritana, depois de Jesus Se ter demorado na sua aldeia. O método «vem e verás» é o mais simples para se conhecer uma realidade; é a verificação mais honesta de qualquer anúncio, porque, para conhecer, é preciso encontrar, permitir à pessoa que tenho à minha frente que me fale, deixar que o seu testemunho chegue até mim. (Continua no próximo).