Louva, ó minha alma, o Senhor!


O salmo 145 das Sagradas Escrituras é o grande louvor ao Senhor Deus. Um louvor sem fim, que perdura até o fim: “Louvarei o Senhor por toda a vida. Salmodiarei o meu Deus enquanto existir.” Portanto, é um hino de festa, mas, ao mesmo tempo, pode-se notar uma grande concentração teológica. Veja nesses versículos: “É esse o Deus que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm; que é eternamente fiel à sua palavra, que faz justiça aos oprimidos, e dá pão aos que têm fome. O Senhor livra os cativos; o Senhor abre os olhos aos cegos; o Senhor ergue os abatidos; o Senhor ama os justos. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva; mas entrava os desígnios dos pecadores. O Senhor reinará eternamente; ó Sião, teu Deus é rei por toda a eternidade.”

Observa-se quantas vezes o nome de Deus é citado. E qual o sentido de todos esses nomes? Preocupam-se em celebrar quanto esse Deus ama as suas criaturas, em particular, àquelas fragilizadas e fracas. E mostra o salmista através da citação “Deus que fez o céu, a terra e o mar”, de maneira bem simbólica, a criação do universo na sua totalidade. É esse o Deus criador que tudo lhe pertence, e nós queremos adora-Lo. Por que queremos adora-Lo? Porque Ele é fiel para sempre à sua imensa obra criada. Que maravilha aos nossos olhos essa obra divina! Não temos palavras ao contemplarmos tudo isso. Além do mais, revela o autor que Deus faz ‘justiça aos oprimidos’ e abate os poderosos. Um Deus, portanto, que é justo e defensor dos últimos.

Na mesma lógica, continua o salmista dizendo que Deus ‘dá pão aos que tem fome’. Assim sendo, afirma, de maneira indireta, sobre a destinação universal dos bens que estão antes de cada direito de propriedade privada. Continua dizendo que o Senhor livra os presos e abre os olhos aos cegos. Isto mostra implicações da era messiânica, revelando assim sinais da nova criação de uma nova humanidade. O salmista conclama também que Deus ‘ergue os abatidos’: Ele se curva sobre aquele que está no chão pelo desespero e pela humilhação da vida e fica próximo para lhe dar a possibilidade de se agarrar e assim se levantar para ter novas perspectivas de vida. Dignidade. Tem mais: ‘O Senhor ama os justos’, isto é, os fiéis que seguem e vivem a lei moral divina. ‘O Senhor protege os peregrinos, os estrangeiros’: eles têm em terra estrangeira o defensor e protetor supremo que é o mesmo Deus. ‘Ele ampara o órfão e viúva’, categorias desprotegidas de um defensor, neste caso, que seriam pai e esposo, e, portanto, confiados diretamente ao Senhor. ‘Entrava os desígnios dos pecadores’, o autor quer mostrar como Deus se opõe àqueles que se afastam Dele em seus gestos e mentalidades. É a justiça que prevalece contra os projetos dos ímpios, de forma que quem reina é sempre o Senhor.

Por isso, o louvor é proclamar o projeto de amor e de misericórdia de Deus sobre o mundo. É este Reino que perdurará pelos séculos, de maneira gradual e eficaz. Esta perspectiva leva a louvar sempre o Senhor da Vida.


Por que as notícias falsas?


Por que notícias falsas correm rapidamente nas redes sociais? Qual a intenção de tudo isso? Para que serve esse tipo de (des) informação? Em síntese, poderíamos dizer que as falsas informações percorrem de forma extraordinárias as redes sociais porque é através delas que se tenta firmar as amizades com pessoas de mesmo caráter e que trocam conteúdos entre si. Todos nós sabemos que a informação é um fenômeno de contagio social e, nesse sentido, nunca, como hoje, vimos a grande importância que assumiu a mídia como informação. Essa vitalidade das notícias tem uma semelhança entre as pandemias e a maneira como circula uma falsa notícia nas redes sociais, mas também tem grandes diferenças.

A partir dessas considerações se torna difícil prever e analisar suas dinâmicas. A essa altura, podemos nos questionar: sobre esse tipo de ação nas redes, é possível considera-la como inteligência grupal-comunitária ou poderia ser considerada uma ignorância grupal-comunitária? Provavelmente, por que não considera-la as duas faces da mesma moeda? Uma coisa é certa: a informação é um fenômeno de contágio social. Assim que recebo, por exemplo, algumas informações dos meus amigos ou conhecidos e começo a repassa-las. É como se tivesse sido infectado. E, por sua vez, eu infecto os outros. Portanto, como se defender dos vírus das redes?

Falando de informação, a sociedade tem uma grande incidência sobre a possibilidade de contágio. E se por acaso essas informações vierem de amigos ou de pessoas que simpatizamos e que confiamos porque têm os mesmos interesses e pensamentos, então têm ainda mais importâncias as informações. Assim sendo, é possível prevê onde, quanto e quando se difunde uma informação falsa? Perante esse questionamento, precisamos compreender o que é uma notícia falsa, o que é desinformação. Às vezes, é simples para entender, às vezes, é meio complicado. Portanto, compreender qual é a percepção do mundo a respeito de uma determinada notícia pode ser bem complexo.

Precisamos detalhar o espaço, o ambiente onde nasce essa falsa notícia; identificar as pessoas com quem se mantém o contato constantemente e seus costumes de vida, e assim por diante. Com essas novas tecnologias que invadem qualquer território pode ser mais possível identificar elementos para uma melhor analise da realidade e, assim, cruzar as notícias e identifica-las. Mas se isso é verdade para peneirar melhor as notícias, também é verdade que se podem difundir cada vez mais notícias falsas. Essas redes sociais, colocando a disposição de todos quaisquer tipos de notícia, podem iludir muitos de saber tudo, de estar informado de maneira eficiente. No entanto, isso não é verdade.

É urgente nos conscientizar para evitar abrir um grande conflito entre a idade da inteligência coletiva e da ignorância coletiva. Infelizmente, essa ignorância coletiva pode mudar a própria realidade: compreender uma coisa por outra pode levar a situações desastrosas.


Papa Francisco promovera missão evangelizadora


A instrução da “Conversão Pastoral da Comunidade Paroquial a Serviço da Missão Evangelizadora da Igreja”, da Congregação para o Clero,20.07.2020, focaliza muitos aspectos. Por exemplo, render a “evangelização como promoção para que as comunidades cristãs tornem-se cada vez mais centros propulsores do encontro com Cristo”. E o papa Francisco se pronunciou assim: “Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer (Mc 6, 37).”

A Igreja de Jesus Cristo sempre se preocupa em estar presente na vida das pessoas e como melhor servi-las na ótica do Reino de Deus. O seu projeto vai além dos projetos humanos, porque é de Deus. E o Santo Padre, o papa Francisco, hoje deve ser fiel a Deus na sua missão, porque ele é sucessor de Pedro. O que me deixa, sobretudo hoje em dia, altamente triste é ver católicos que contestam o papa, dizendo que não o representam, talvez porque não satisfaça as ideologias deles. É bom esclarecer que o papa não é eleito por nós nem por partidos ou por qualquer um que o pretenda. Ele foi escolhido pelo Espirito Santo, isto é, por Deus.

Quando Jesus escolheu Pedro, não foram os apóstolos que o indicaram, mas foi o próprio Deus que o escolheu. Não reconhecer isso significa que estamos fora da Igreja de Jesus. É muito grave isso enquanto rompe a comunhão com a mesma Igreja que Jesus fundou. A Igreja não é um partido político; e tentar se espelhar nela para dar uma razão partidária é manipular a verdade, distorcer a verdade. O papa, fiel ao Evangelho, conduz a Igreja rumo à salvação, a uma vida que fica para sempre.

Segundo alguns católicos, por sorte são poucos, o papa Francisco é comunista, faz política e assim por diante. O papa, como verdadeiro pastor, deve conduzir a Igreja conforme Deus estabeleceu e planejou. É evidente que esse pastoreio abrange tudo e afeta tudo. Justamente, com essa preocupação da missão evangelizadora, o papa nos ajuda como melhor realizá-la. Portanto, o nosso papel é saber escutá-lo e colocar em prática o seu ensino. Isto significa que, como bons católicos, devemos ser obedientes a ele e não desobedientes como alguns fazem. No lugar de duvidar e rejeitar, precisamos viver seriamente aquilo que o sucessor de Pedro nos orienta, porque é para o nosso bem, para uma vida infinita que nenhuma ideologia desse mundo pode nos dar. Duvidar de Pedro é duvidar do projeto de Deus. Aqui está em jogo a verdadeira felicidade da nossa vida.


Conversão pastoral


Algum tempo atrás, escrevi que o racionalismo tecnológico se torna protagonista da vida das pessoas e dos jovens. Porém, esse racionalismo algorítmico tem uns limites. Por que isso? Porque os compromissos e as analogias das aproximações algorítmicas levam a suprimir tudo aquilo que não se compreende. A nossa sociedade hoje é envolvida nisso e, então, a verdade é geralmente e exclusivamente pessoal.

Assim é difícil dialogar. Mesma a religião, se não é possível compreender nem se percebe ter entendido, migra-se com facilidade para outra crença. Tudo se generaliza e se formaliza, dizendo que mais ou menos tudo é igual. A verdade se torna subjetiva e não objetiva e o pensamento mágico é um claro processo algorítmico. Além do mais, o perigo é raciocinar que o pensamento humano e os processos da computação são como idênticos. Nós confundimos o conhecimento e o significado, o processo e o propósito.

Efetivamente, se o nosso raciocínio é cada vez mais dependente dos sistemas de computação tanto mais deveremos enfrentar processos racionais que estão fora do nosso controle, e mais dependentes da técnica informática. Por isso, com toda sinceridade, confiamos e delegamos a esse processo algorítmico o nosso pensar e agir. De tal modo, a verdadeira ameaça cultural ainda somos nós, porque fomos nós a dar todo esse poder ao processo algorítmico computacional. É assim que o novo Diretório para a Catequese quer ajudar a renovar a catequese na evangelização nesse novo processo cultural digital.

O que é este Diretório para a Catequese? É um documento da Santa Sé para todas as igrejas no mundo. Os envolvidos diretos com o uso desse diretório são Bispos, sacerdotes, diáconos, religiosos e catequistas. A preocupação desse documento é ajudar a realizar uma catequese mais eficaz aos tempos de hoje. Tempos que mudaram totalmente a cultura, como falava acima, tecnológica e digital. A proposta de Jesus deve passar necessariamente pelos meios de hoje, em que o imaginário é muito reforçado, eu diria constitucional.

Assim sendo, denota-se uma séria preocupação de como melhor encarnar a proposta de catequese em nossos dias. A Cultura digital, já globalizada, determina o nosso processo evangelizador. Estamos numa transformação radical da nossa convivência e da mesma identidade pessoal. Portanto, é necessário um modelo de comunicação, de novas linguagens que possam responder a esta nova realidade. Este novo diretório pretende inspirar novos percursos para que a catequese possa oferecer aos fiéis deste mundo digitalizado capacidades de compreender e acolher a Boa Notícia de Jesus Cristo.

Realmente, eu me questiono: se, no passado, a evangelização se deixou manipular pela linguagem da escrita e verbal, por que hoje a mesma não pode se deixar manipular pela linguagem digital? É demais importante a evangelização e devemos fazer de tudo para que se torne sempre mais eficiente. Assim sendo, a catequese não pode estar separada da evangelização e não pode ser uma teoria abstrata, mas um instrumento existencial.


A realidade dos fiéis


Uma pesquisa sobre religião, teoria e prática, realizada em 2001, com jovens e adultos de bairros de Belém indicou que muitas pessoas passaram a frequentar as Igrejas evangélicas. As mais frequentadas são Universal, Seitas Pentecostais, Assembleia de Deus e Quadrangular. Apesar da maioria dos entrevistados ser da religião católica, ficou evidente, ou quase, o grande desconhecimento sobre a Igreja. De questões mais simples de catequese como os dez mandamentos e os sacramentos da Igreja, até questões mais profundas da Igreja como o funcionamento da paróquia, a maioria dos entrevistados mostrou desconhecimento.

O importante que a pesquisa desnudou foi uma tendência cada vez maior de fiéis não praticantes que, na verdade, conhecem pouco ou quase nada da Igreja que participam. Dizem-se católicos por tradição da família ou por influência de terceiros, mas em geral vão à missa eventualmente nos momentos de festa da Igreja. Isso indica que há uma massa de pessoas que se dizem católicas, mas não praticam os ensinamentos doutrinais.

Destaca-se na pesquisa uma maioria de jovens, em geral de famílias de classe baixa, que vive de 1 a 3 salários mínimos. Os dados indicam uma tendência clara dos jovens para o desapego ao modelo eclesial tradicional que não responde mais as exigências do mundo contemporâneo. O fato da Igreja Católica no Brasil, nos últimos 10 anos, ter investido mais na construção de um estilo de Igreja que valoriza muito mais o louvor, com aspectos espiritualistas, em detrimento da vivência de uma espiritualidade libertadora que engaja as pessoas em pequenas comunidades e paróquias é um dos fatores que incidem nessa mudança.

A prática recente de querer tão somente encher as paróquias sem processo de formação catequética e eclesial coloca a Igreja Católica na direção de dois dilemas: manter o número de católicos atual, mesmo considerando que a grande maioria sabe quase nada da instituição, e investir na espiritualidade que não liberta para manter fiéis que não conhecem nada da doutrina da Igreja, portanto, incapazes de construir uma Igreja engajada e libertadora.

É importante destacar que ao não se interessar por esses problemas que consideramos serem cruciais para o avanço da Igreja Católica, entendemos que se coloca em crise uma instituição histórica que, de pouco a pouco, perde espaço para as seitas e as outras Igrejas cristãs.
A pesquisa é reveladora de uma situação que precisa ser enfrentada pelos líderes católicos: declínio do número de fiéis que migram para outras Igrejas e crenças; e o aumento cada vez maior de jovens que são católicos não por terem paixão e acreditarem na doutrina da Igreja, mas tão somente por uma questão familiar e outras que advém, como a não exigência de participar da Igreja seguindo os ensinamentos e respeitando a sua doutrina.

As motivações missionárias, evangélicas, paixão pelo paradigma de Igreja Católica, aceitação da simbologia, do discurso, cada vez mais seduzem menos e influenciam pouco na vida dos católicos que encontram poucas respostas para justificar a sua fé em um modelo de Igreja do qual sabem pouco ou quase nada. Depois de 19 anos esta pesquisa é ainda válida? Tem algo que melhorou ou piorou? Eis as questões!


A robótica invade nossa vida


O robô está presente em nossa vida, na nossa sociedade, e parece que a pandemia da covid-19 acelera ainda mais sua presença. Nota-se como em algumas cidades do mundo diversos serviços são efetuados por meio de robôs, tanto na vigilância quanto na prestação de serviços, bem como em restaurantes e, em alguns casos, nos hospitais, tudo isso para se defender do contágio do novo coronavírus.

A robótica se tornou útil para enfrentar a doença e suas consequências, evitando aglomerações e contatos diretos entre as pessoas. Assim sendo, surgem perspectivas de vida em que o uso do robô é cada vez mais ativo, suplantando a atividade humana. A tecnologia vai tomando conta da sociedade, sempre menos humana e mais técnica. Destaca-se, assim, uma relação no sentido ‘a mão única’. O que significa isso?

Inicia-se, nesse sentido, uma exclusão de afeto que provém da escuta e do ficar juntos. E nessa relação do ser humano-máquina se promove o desenvolvimento de uma busca egocêntrica da mesma pessoa. Firma-se, portanto, o primado das certezas individuais sem comparação, de onde advém uma crescente dificuldade em se envolver com o outro. Prosseguindo nessa experiência, não há dúvida de que a pessoa hoje se sente cada vez mais sozinha e, portanto, cada vez mais abandonada.

Além disso, todas as estratificações sociais, políticas ou religiosas são direcionadas para esse modo de ser em que a pessoa se projeta no quadro de uma visão distintamente individualista. Consequentemente, o relacionamento eu-você se traduz no relacionamento eu-eu. A máquina, no entanto, sempre permanece um produto que nunca substituirá a pessoa. Não há dúvida de que o relacionamento homem-máquina se torna tão forte que cria a ilusão do relacionamento com o outro, e essa ilusão depende da crescente incidência da imaginação.

O imaginário está, portanto, se tornando a base da racionalidade do ser humano, na qual a capacidade de pensar é filtrada por esse ato constitutivo da pessoa que terá que encontrar as vicissitudes concretas da vida, experimentará uma crescente perplexidade e uma fragmentação caracterizada pela separação de uns dos outros. É uma época que vivenciamos, na qual a lógica linear e consequencial; aquela tradicional, ou seja, do papel impresso, está sendo substituída por uma lógica quebrada, típica do discurso publicitário.

Isso tem um impacto significativo nas diferentes condições operacionais da própria pessoa. Assim sendo, os robôs que pretendem substituir as pessoas são estudados e atualizados para poder dialogar melhor com os seres humanos e desenvolver funções mais precisas. E este suporte de inteligência artificial torna-se o objetivo principal do trabalho. É natural a esse ponto se perguntar: qual o futuro do trabalhador humano? Aumenta o desemprego? Como sobreviver numa sociedade onde a técnica domina a humanidade? Estas e outras questões nos interpelam e precisamos dar respostas imediatas para que as pessoas possam ser pessoas e não simples objetos de outros sujeitos artificiais da história.


Construir a nossa vida para a liberdade


Como é difícil acolher e construir a vida! De fato, todos nós nascemos, mas não livres. Por quê? Experimente pensar um pouco e veja que não fez nenhuma opção para nascer, mas se achou no mundo por vontade do pai e da mãe. Não impôs nenhuma preferência de vida. Simplesmente se achou no mundo dentro de uma raça, de um país, de uma língua, de uma religião, de uma condição sociopolítica. Nasce no anonimato. Porém, com o passar dos anos, toma consciência da sua existência e passa a ter liberdade de ação. Isto significa que vai construindo sua vida pelas suas escolhas que a alicerçam.

É verdade que você recebeu a vida, mas depende também de como vai plasma-la na sua vida. Ela é uma obra nas nossas mãos. E a passagem da vida recebida desde o começo vai se realizando pela educação. É essa educação que permitirá ao ser humano crescer em um terreno fértil das relações. A convivência com os outros se configura como intercâmbio para ensaiar a própria liberdade, característica fundamental para dar vida à sua autenticidade e realidade presente. É nisso que a vida se torna realmente uma ‘mestra’, porque ajuda alcançar o “Bem” dentro os intercâmbios de solidariedades, interpessoais e de vivência.

E, neste sentido, fala também o papa Francisco: “Toda geração deveria pensar em como transmitir seus saberes e seus valores à geração futura, pois é através da educação que o ser humano alcança o seu potencial máximo e se torna um ser consciente, livre e responsável. Pensar na educação é pensar nas gerações futuras e no futuro da humanidade. É algo profundamente arraigado na esperança e exige generosidade e coragem”. Assim sendo, a nossa vida se torna uma verdadeira aprendizagem em que nunca se acaba de aprender.

Como verdadeiros estudantes, a cada dia se aprende sempre algo de novo que promove os aspectos de conhecimentos, de relacionamentos e afetos que enaltecem a mesma realidade. Conhecimentos em todos os sentidos. Lembra-me o que o grande filósofo Sócrates dizia: “Eu sei que não sei de saber”. Isto quer dizer que a nossa vida é uma mestra e que precisamos sempre aprender, reconhecendo as nossas limitações e desejosos de construir a própria vida nos alicerces da educação.

A nossa liberdade cresce na medida em que cresce a nossa educação, qual potencialidade da nossa vontade. As características disso são marcadas pelo diálogo como dom para a realização do outro. Na realização do outro se define a própria realização. Esta verdade se fundamenta sobretudo na Palavra de Deus. E esta verdade se constrói aos poucos e com muita paciência. O ser humano é ser humano na medida em que consegue ser um educador, fazer da vida uma mestra sem fim. É esta mestra que nos ajuda a buscar uma real aproximação do outro e, por isso, Jesus Cristo põe o grande mandamento a seguir: o amor. O amor que nos rende mais próximos e viver melhor a liberdade para que fomos chamados. Nisto consiste a nossa felicidade.


Padre Bruno Secchi:apaixonado por deus e pelas pessoas


O ano era 1986 quando dirigia a Pastoral Carcerária e dos Direitos Humanos da diocese de Macapá. Lembro-me de que estávamos saindo do regime militar e, assim, com a minha equipe decidimos realizar um simpósio sobre a violência, como contribuição para unir todas as forças políticas e religiosas do então território federal do Amapá em oposição à violência que estava avançando sempre mais.

Naquela ocasião, a figura de destaque do simpósio foi dom Helder Câmara, mas também participou como palestrante o padre Bruno Secchi. Quando o encontrei pela primeira vez, vi nele uma pessoa simples, bem magrinho e sorridente. Senti nele uma firmeza em narrar a sua obra República do Pequeno Vendedor em defesa das crianças e adolescentes de rua.

A partir daí, nunca mais o esqueci, embora nos primeiros tempos não tivemos mais contatos. Sempre seguia padre Bruno pela imprensa. Passaram alguns anos e o destino quis a nossa aproximação, porque fui transferido para a arquidiocese de Belém com a finalidade de dirigir a Pastoral de Comunicação.

Comungávamos ideais e vida fundadas na Palavra de Deus. Secchi mais experiente que eu me dava aulas de como viver melhor e mais concretamente a vida seguindo Jesus Cristo. Um desses testemunhos que sempre me deixavam profundamente firme era a sua humanidade. A Palavra de Jesus não podia ser abstrata, mas encarnada no ser humano.

E aquele seu sorriso confortador acompanhado da frase “menino, como vai?” Quantas vezes fiquei pensando sobre a expressão “menino” e entendi realmente que perante o nosso Mestre Nazareno somos sempre pequenos em segui-Lo, isto é, “menino”. A vida de Bruno foi defender os meninos e meninas. Homem de Deus, defensor dos direitos humanos fundamentados em Deus, nosso Criador.

Era isso que lhe dava paciência em nunca desistir. Sempre firme na sua fé, não se deixava distrair pelos poderes do mundo, em seguir este caminho de plasmar de novo a verdadeira vida perdida ou corrompida. Portanto, nosso padre Bruno foi um grande colaborador de Jesus Cristo por recriar e defender a VIDA, remando contra a correnteza das injustiças sociais.

O sorriso dele ainda está estampado na minha memória. Quando o via por demais concentrado e com rosto sisudo, aí percebia que algo o preocupava muito. E uma das coisas que o deixava bem triste e em silêncio era ver coirmãos e pastores da Igreja fazendo escolhas bem longe do Reino de Deus.

No entanto, ele sempre se deixava vencer pela Misericórdia de Deus.

Assim, acreditava cegamente que todo mundo, com o tempo, era vencido pelo amor do nosso Criador. Quando chegava a essas considerações, sempre o acompanhava aquele sorriso de compaixão e de bondade que invade o ser humano, injetando total esperança. E por que isso? Porque vivia tudo como bom discípulo do Mestre, aberto a todo mundo, sem preconceitos de credo religioso ou político.

Para o sacerdote amigo dos mais fracos da sociedade, todo mundo era irmão ou irmã. Ele acreditava nas pessoas também quando aprontavam porque focalizava mais no aspecto positivo e discernia neles a ação do Reino de Deus. Padre Bruno foi um apaixonado por Jesus Cristo e pelas pessoas, sobretudo daquelas que tinham mais dificuldades ou eram abandonadas.


Como a Itália enfrenta a Covid-19?


Os italianos estão enfrentando a covid-19 com todas as precauções possíveis. Não estão brincando em serviço. Inclusive, todos os sacerdotes da região do nordeste da Itália tiveram de fazer o teste para não deixar dúvidas sobre a presença ameaçadora do novo coronavírus. A severidade de controle é tão minuciosa que eu mesmo estou experimentando.

Uns dez dias atrás, almocei com dois sacerdotes e, no dia seguinte, fui fazer o teste, que resultou negativo. Porém, um padre com quem almocei testou positivo cinco dias depois. Resultado: tive de passar também para a quarentena. Uma quarentena que me obrigou a permanecer em casa, sem receber visitas. E ainda tenho de controlar a temperatura duas vezes ao dia, suspender todas as atividades, inclusive as celebrações, manter a higienização do local e separar o lixo, que não pode ir naquele comum.

Ao mesmo tempo, sou vigiado por telefone, além de ter a clausura controlada diariamente pela polícia. Tudo isso porque estive perto de um contagiado. Este vírus, tão poderoso, determina a nossa vida e a nossa convivência. Este tipo de comportamento é ditado porque, efetivamente, não o conhecemos e, portanto, não sabemos ainda agir clinicamente. Nesta quarentena, me vieram a tona umas simples reflexões, relembrando a Sagrada Escritura.

Não sei se você se lembra dos leprosos no tempo de Jesus? Naquele tempo, a sociedade não conhecia a doença e a única solução era segregar o doente do convívio social para evitar mais contágios. Assim sendo, o pobre leproso, além de sofrer a doença sem expectativa de vida, tinha que enfrentar o sofrimento de estar longe de seus familiares e amigos. Totalmente abandonado. Por causa desta ignorância da medicina, continuam esses comportamentos exclusivos.

Eu me sinto nesses dias quase como um perigo público. Por exemplo: têm pessoas que chegam à porta da minha casa e, naturalmente, aviso da minha quarentena e logo elas dão um passo atrás. Este é um pequeno exemplo de como posso ter me tornado um perigo. Por isso, sinto-me assim muito abandonado. Além do mais, as pessoas que me trazem os alimentos devem deixa-los a uma boa distância para evitar a aproximação e o possível contágio, embora eu não tenha o vírus, mas esteve próximo de um que o teve. Sinto-me realmente só, humanamente falando.

A minha sorte é a minha experiência de fé que me permite intensificar o meu estado de oração. É isto que me dá capacidade de dialogar com Deus e fazer uma experiência efetiva da ação do Espirito Santo na minha pobre vida. Experimentar como o Espirito da Verdade me ajuda a relembrar as Palavras vivas de Jesus no momento certo pra ação certa. Lembro-me da passagem do evangelista Marcos: “Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-se dela, porque era como ovelhas que não têm pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas.” A Palavra me ajuda a refletir e compreender que a compaixão de Jesus com as pessoas significa a presença de Deus em nós. Isto me conforta e me faz sonhar a grandeza da nossa Vida que não é limitada por qualquer precariedade humana.


A Covid-19 nos desestabiliza


A pandemia da covid-19 está deixando nosso pequeno planeta desnorteado, perdido. Todos estamos preocupados e sentidos, sobretudo quem foi atingido mais de perto pela doença ou pela morte. Eu estou aqui na Itália e somente nesses dias saímos do lockdown, mas sempre temerosos e com toda a precaução exigida pelas autoridades. Ao mesmo tempo, estou muito apreensivo com os meus amigos e amigas do Brasil. Quantos desabafos e tristezas: “Padre, quantos amigos se foram!” Assim me disse, com dor no peito, uma senhora que perdeu o único filho. Quanto sofrimento!

Ao compartilhar tudo isso, eu também desabafo com o meu Deus: “Senhor, por que tudo isso? Por que tantas mortes? Por que, Senhor?” Não tenho uma resposta imediata e, assim, me mergulho na oração e reflexão. Nos longos silêncios, começam aflorar pensamentos como: “Deus não tem culpa de tudo isso, aqui somos nós os responsáveis.” Como? Quando não estudamos suficientemente e não apostamos nas pesquisas científicas para poder ajudar o ser humano a se libertar das doenças. Quando não respeitamos a própria natureza e não buscamos uma convivência pacífica. Quando fazemos da nossa vida uma simples especulação de mercado, reduzindo a própria vida a uma mercadoria.

Este tempo de sofrimento e deserto nos ajuda a rever toda a nossa concepção da vida, rever os valores prioritários que temos e assumimos até agora. Também nos iludimos com os avanços da ciência, da medicina, achando que a nossa vida não tinha limite e que a morte estava bem longe. Mas com a vinda de Covid-19, nossa expectativa de vida foi derrubada e agora a morte está achando graça da nossa ciência. Portanto, essa catástrofe da pandemia pode nos ajudar também a resgatar a sabedoria das Sagradas Escrituras, que nos diz: “Ensinai-nos a bem contar os nossos dias, para alcançarmos o saber do coração.” (Sl 89,12)

Quero lembrar aqui sábias palavras do Papa Francisco: “Queridos irmãos e irmãs, na provação que estamos a atravessar, também nós, com os nossos medos e as nossas dúvidas como Tomé, nos reconhecemos frágeis. Precisamos do Senhor, que, mais além das nossas fragilidades, vê em nós uma beleza indelével… Agora, enquanto pensamos numa recuperação lenta e fadigosa da pandemia, é precisamente este perigo que se insinua: esquecer quem ficou para trás. O risco é que nos atinja um vírus ainda pior: o da indiferença egoísta. Transmite-se a partir da ideia que a vida melhora se vai melhor para mim, que tudo correrá bem se correr bem para mim”.

E continua Francisco: “Começando daqui, chega-se a selecionar as pessoas, a descartar os pobres, a imolar no altar do progresso quem fica para trás. Esta pandemia, porém, lembra-nos que não há diferenças nem fronteiras entre aqueles que sofrem. Somos todos frágeis, todos iguais, todos preciosos. Oxalá mexa conosco dentro o que está a acontecer: é tempo de remover as desigualdades, sanar a injustiça que mina pela raiz a saúde da humanidade inteira! Aprendamos com a comunidade cristã primitiva: os crentes «possuíam tudo em comum. Vendiam terras e outros bens e distribuíam o dinheiro por todos, de acordo com as necessidades de cada um» (At 2, 44-45). Isto não é ideologia; é cristianismo”. (19.04.2020)