Deus não pensa como o mundo


O mundanismo parece que toma conta da nossa realidade. Ele se insere no nosso modo de pensar e agir, como se fosse a regra certa de vida e de felicidade. No entanto, é capaz de gerar ódio e divisão. É capaz de corromper, e de corromper até na Igreja. É uma ilusão de vida baseada, exclusivamente, nos bens materiais, na diversão egoística. E quem se opõe a isso é odiado, não é bem visto. Essa maneira de ser criou até uma cultura. Uma cultura que não consegue ir além daquilo que se enxerga, do que aparece. Os valores consistem somente na superfície e, portanto, é esdrúxula, com tempestividades de mudanças, perdendo as certezas de vida do além. Assim sendo, promove-se um modo de ser descartável, isto é, ‘usa-se e se descarta’. Delineia-se uma cultura sem fidelidade, sem raízes, como diz papa Francisco. E muitos cristãos assumem esse modo de ser mundano, confundindo Deus com o mundo. Jesus, o nosso verdadeiro mestre, no entanto, nos diz que esse mundanismo sufoca a Palavra de Deus, a combate.

 

Precisamos resgatar a espiritualidade, qual aprofundamento da palavra de Deus, testemunho e experiência comunitária. É tentar, a partir desta experiência, uma busca de Deus. Neste sentido, a experiência da mãe de Jesus, Maria, ajuda-nos a encontrar caminhos. Todos nós lembramos quando Maria se achava em um profundo silêncio contemplativo e, de repente, foi alcançada pelas palavras do anjo Gabriel. A materialidade não a distraiu.

 

E, assim, Maria conseguiu dialogar com o anjo. Saem palavras simples, mas exaustivas. No começo, até que ela ficou perturbada e refletiu sobre aquilo que estava acontecendo. Aqui surge, espontaneamente, a pergunta: como podemos perceber a presença de Deus na nossa vida, se a gente não consegue fazer um momento de silêncio no nosso dia a dia? As coisas efêmeras mandam na vida. Imagino Maria totalmente absolvida nesta ação para tentar entender.

 

De fato, isto acontece também conosco quando não sabemos o que fazer? Qual a nossa reação perante tudo isso? Maria nos orienta neste sentido. Ela procurou escutar atentamente o enviado de Deus e, com isso, conseguiu dialogar. Nós conseguimos reconhecer o enviado de Deus na nossa vida cotidiana? Deus não falou só naquele tempo e a uma só pessoa, mas em toda a história da humanidade. E, assim sendo, também no nosso tempo. Estamos percebendo tudo isso? Para poder dialogar, temos que saber escutar.

 

Como vivemos a nossa dimensão de saber ouvir os outros? Maria consegue dar um sentido a sua vida, por meio do diálogo com o anjo que interveio na vida histórica dela. Portanto, Deus não pode ser encontrado fora da nossa realidade, da nossa vida e dos nossos acontecimentos. Toda a Bíblia nos confirma que Deus toma a iniciativa da sua presença na vida do ser humano. Maria demonstrou que tem consciência disso reconhecendo-O na sua história, dando aquela sublime resposta de confiança: “faça-se em mim segundo a tua palavra!”.


Enciclica do papa Francisco: ‘Fratelli tutti’


“Mesmo depois do céu cinzento da pandemia, esta encíclica abre um horizonte de esperança: todos nós somos chamados a nos tornarmos irmãos e irmãs. Surge um sonho pelo qual devemos viver e lutar, mesmo com as mãos nuas”. Assim falou o professor Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Sant’Egidio, docente de História Contemporânea, sobre a nova encíclica do papa.

“Fratelli tutti” (Todos irmãos), do santo padre Francisco, nos convida a ter um coração aberto ao mundo inteiro para trabalhar em prol da fraternidade universal. Como? Em síntese: acolher as pessoas migrantes e todos os marginalizados, desenvolver a consciência de que ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém e buscar um ordenamento jurídico, político e econômico mundial que tenda para o desenvolvimento solidário de todos os povos.

Precisamos, diz o papa, abrir as nossas mentes e os corações para que nos ajude a perceber o diferente na comunhão universal de cada grupo humano que encontra a sua beleza. O ser humano é o ser fronteiriço que não tem qualquer fronteira. “Todos irmãos”, expressão do grande santo Francisco, aponta um projeto de fraternidade bem claro e substancial para toda a humanidade, meio perdida. E um dos obstáculos para essa fraternidade é a guerra. “A guerra – diz o Papa alarmado – não é um fantasma do passado, mas se tornou uma ameaça constante”.

O professor Riccardi comenta que “a encíclica alarga o nosso olhar sobre o mundo à luz da fraternidade: o que está distante de nós, diz-nos respeito. O olhar da fraternidade nunca é míope. É evangélico e humano, mas também muito mais realista do que muitas ideologias ou políticas que a si mesmas se autodefinem como realistas.” As guerras não podem melhorar a vida das pessoas e dos povos, alias abalam o ser humano como um todo.
Lembro-me quando meu pai me contava sobre os seus momentos trágicos que viveu na II Guerra Mundial e que nunca conseguiu delatar de sua memória. Dizia-me que a vida dele foi marcada por essas bombas e projéteis que passaram perto dele. O seu psicológico foi prejudicado para sempre, tanto que uma vez, chorando, ele me pediu para compreendê-lo, quando se alterava demais. E, por isso, concordo com o papa quando ele diz: “Cada guerra deixa o mundo pior do que o encontrou”. A guerra, escreve o santo padre “é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota diante das forças do mal”.

A encíclica “Fratelli tutti” insiste sobre a responsabilidade de todos como construtores da paz. Portanto, desperta em todos nós o lado protagonista, o ser promotor de um mundo da paz. “Fratelli tutti” envolve também todas as religiões a testemunhar o diálogo, a promover a paz, mensageiras de amor transcendente a um mundo faminto e sem escrúpulos.

Papa Bergoglio escreve ainda na encíclica: “Procurar a Deus com o coração sincero, contudo, sem o macular com os nossos interesses ideológicos ou instrumentais, ajuda-nos a reconhecer-nos como companheiros de caminho, verdadeiramente irmãos”.

Este belíssimo documento nos exorta, enfim, a sermos mais próximos uns dos outros para compreendermos a beleza do Criador, da vida e sermos arquitetos da paz. E termino com essa frase tão significativa do papa Francisco: “Se consegues ajudar uma só pessoa a viver melhor, isso já justifica o dom da tua vida.”.


O que de fato sabemos?


Eu me pergunto: até aonde chega a nossa capacidade de compreender a realidade? Afinal, o que de fato sabemos? Esse excesso de informação não nos dá mais ansiedade e insatisfação?

Agora, temos também a concorrência da internet que multiplicou a produção, causando, assim, uma hiperprodução do chamado “saber”, transformando os conteúdos do mesmo saber quanto o mesmo significado do conhecimento. Vocês percebem hoje como diminuiu o número de frequentadores nas bibliotecas, porque com um simples computador em casa se pode fazer uso mais rápido e eficiente de pesquisa. Portanto, o nosso conhecimento está extremamente ligado à nova vida eletrônica. Por isso que o mercado multiplica esses meios, porque se tornaram, eu diria, vitais na vida das pessoas. A perspectiva atual, por exemplo, é de que cada “blogger se torna um meio e cada leitor um editor”.

Isto quer dizer que hoje é muito mais fácil participar dos eventos da vida do mundo todo, e, ao mesmo tempo, ter a capacidade de dar as próprias opiniões independentemente dos meios oficiais. Assim, toda pessoa se manifesta, porque acredita no saber. Nesse sentido, os internautas participam ativamente das atividades digitais, dando seus pareceres, criticando, corrigindo ou enriquecendo, se for o caso. O quadro cultural muda da necessidade de saber à necessidade de compartilhar. Porém, o que provoca tudo isso? Neste ponto, a questão do conhecimento torna-se uma discussão. Hoje em dia, a base disso são os fatos que contam, contrariamente do passado que era a teoria dos símbolos para mostrar uma ideia universal e analogias para melhor entender.

Agora, com a internet, visando o social, evidencia-se que os fatos não são unidades isoladas de conhecimento, mas fazem parte de uma rede mundial. E tudo isso pode subsistir pelo fato de ter pessoas que querem compartilha-los. Para demonstrar tudo isso no passado, quando se queria dizer que a criminalidade do estado tinha diminuído, era suficiente citar as estatísticas dentro de um artigo. O leitor não tinha outra escolha senão acreditar ou não. No entanto, hoje os mesmos dados estão à disposição de todos os internautas e podem verificar a veracidade da informação.

Este novo compartilhamento oferecido pelas redes sociais muda o príncipio do novo conhecimento. Portanto, hoje a inteligência passa através das redes sociais que permitem as conexões entre as pessoas pelo mundo inteiro. Essa nova maneira de conhecer permite de ser mais humano, menos preciso, mas mais transparente; menos consistente, mas mais abrangente. É em ato um novo saber. Naturalmente, perante essa realidade, é necessário uma educação para saber fazer um correto uso dessas redes sociais. Percebe-se que no on-line acontece de tudo, como também de quantas coisas que passam por ai e que poderiam prejudicar o próprio saber das pessoas. Por isso, é urgente construir filtros que possam promover o novo saber.


As redes dos fluxos de informação replasmam a sociedade


A mídia tradicional não chegou ao fim, mas houve uma re-mediação dela em um novo modelo digital global. Os videogames, por exemplo, ensinam às crianças as regras escondidas para poder interagir com os nossos desejos e necessidades. A inteligência conectiva está substituindo aquela lógica linguística.

 

As redes dos fluxos de informação replasmam a sociedade contemporânea. A lógica dos fluxos de informação na sociedade é global e universal, mas não onicompreensiva. É impossivel reduzir à uniformidade a multiplicidade. Dezenas de milhões de pessoas usam os blogs para compartilhar e trocar experiências. Este uso hoje já é reconhecido tanto pelos jornalistas quanto pelos jornais do mundo todo como fonte de informação. No entanto, o uso é muito pessoal. Por isso, hoje as notícias não passam da mídia para as pessoas, mas das pessoas para a mídia. Metodologia e conceitos mudaram. Vimos como a mídia analógica triunfou na época da produção industrial de massa, mas este sistema de comunicação parece que não consegue responder mais às necessidades e desejos de uma sociedade pós-industrial.

 

Segundo a teoria de Lasswel (1948), a mídia e o modelo comunicativo se baseiam sobre uma teoria de comunicação que quer informar e persuadir mais ou menos ocultamente para convencer ou manipular, no lugar de interagir ou a cooperar.

 

Umas das características da mídia elétrica, segundo McLuhan, e da mídia eletrônica, segundo Bolter, é aquela que tem como conteúdo outra mídia (nova mediação). A mídia digital, tenta englobar, na nova mediação, toda a midia analógica.

 

A tese que queremos demonstrar é que, em breve e médio tempo, a atual organização do mercado da indústria cultural é destinada a se acabar. A mídia tradicional, como nós conhecemos hoje, vai se extinguir.

 

Um novo modelo é destinado a se afirmar, assim como uma nova estruturação do setor da comunicação e da cultura, um modelo baseado sobre dinâmicas da convergência e divergência digital.

 

Por convergência e divergência digital, entende-se o convergir em código binário (é um sistema de numeração posicional em que todas as quantidades se representam com base em dois números) de todos os conteúdos: informações, notícias, conteúdos textuais, musicais e visuais.

 

Segundo o “profeta” da comunicação McLuhan, quando uma nova tecnologia da comunicação entra na vida da sociedade, precisa ver quais são os efeitos socioeconômicos produzidos. Por isso é necessário se questionar: o que desenvolve ou promove a comunicação? Quais são os meios que se tornam obsoletos ou inutilizados pela inovação tecnológica?

 

O que reutiliza a nova mídia daqueles meios que foram jogados para o escanteio? Quais os efeitos que geram e que acontecem quando são levados nos seus limites comunicacionais?

 

Com certeza, essa mudança de época nos obriga a ter atitudes bem dinâmicas, não podemos somente ser espectadores neste novo cenário social.


As pessoas e a internet


A internet está cada vez mais inteligente? Este é o questionamento de muita gente hoje, no terceiro milênio. O famoso Marshall McLuhan (1911-1980), canadense, ‘profeta’ da comunicação, tinha previsto, já no ano 1962, que o “próximo meio teria sido a extensão da consciência, e a internet representaria de fato esta grande extensão que contem memória e inteligência.

 

Que a televisão iria se tornar uma forma de arte, e o YouTube não a poderia representá-la, enquanto colocada à disposição para cada um de nós, transformando em arte e emoção global. O sonho de Marx se realizou: a apropriação de um instrumento à disposição de todos”.

 

Esta previsão perspicaz nos surpreende e nos interpela mais ainda para aprofundar tal debate. Certamente, não se pode dizer que a internet está cada vez mais inteligente, no entanto, que é uma “ação orquestrada entre os seres humanos e Web (rede de alcance mundial). Esta combinada ação dos dois elementos pode dar início a um princípio de inteligência superior a cada uma das partes.

 

Com certeza, não podemos parar aquela fome de se conectar à rede, o desejo de ficar ligados à telinha, mas é possível incorporar aquela necessidade de uma fusão efetiva da tecnologia com o corpo, para fazer daquela conexão, por meio da tecnologia, uma ligação física”.

 

E nesta época de explosão tecnológica surgem diversas perguntas e questionamentos que poderíamos resumir desta forma: quando os sentimentos podem ser programados, podemos, na verdade, acreditar naquilo que nos dizem do mundo? Esta mudança de época pode transformar profundamente a vida do ser humano?

 

Continuando com McLuhan, o computador teria sido, segundo o pesquisador, o próximo “sistema de pesquisa e de comunicação” e teria capacidade de “melhorar o resgaste da informação e tornar ociosa a organização da biblioteca”.

 

Além de desenvolver uma “função de enciclopédia” e de se transformar numa “versão privada para transmitir dados”. Atualmente, nós entramos, segundo Derrick de Kerckhove, (Wanze, 30 maio 1944) um crítico literário belga naturalizado canadense, e que trabalhou com Marshall McLuhan por mais de 10 anos como tradutor, auxiliar e co-autor, “na terceira idade da linguagem. A primeira é representada pelo reino da oralidade, baseada sobre os relacionamentos face a face e sobre a qualidade de ser sociável.

 

A segunda, a era da escrita, cria uma nova situação: a linguagem é revelada, colocada sob o controle do leitor de maneira que pode gerar uma mudança entre comunidade e a pessoa, que toma o poder sobre a linguagem e escreve o seu destino. Com a passagem à eletrônica, pelo contrário, na terceira era, a linguagem se mistura ao nosso ser.

 

Agradecendo à digitalização, nos tornamos criadores e atores da linguagem, mas somos também condicionados pela possibilidade de rastreamento. Por fim, o Ipad nos leva ao tato, revertendo o pensamento do século de Freud, no qual o homem tem medo do seu corpo e o olho prevalece sobre o tato”.


A democracia de inspiração cristã


O catolicismo democrático nasceu e cresceu na Europa, no fim do século 19, porque os católicos se preocuparam com vivência dos valores da própria fé, uma fé encarnada na sociedade como um todo. Como se deve identificar a democracia de inspiração cristã? Creio que poderíamos dizer: é bem reformista.

Isto é, segundo a Enciclopédia Treccani, o ‘reformista é aquele movimento político que repudiando tanto os sistemas revolucionários quanto os conservadores, reconhece a possibilidade de modificar o ordenamento político existente somente por meio da atuação de orgânicas, mas graduais reformas’. Assim sendo, é uma democracia que se caracteriza pela capacidade de mediação. Porém, essa mediação não se define em agradar a todos, mas representar a todos, sobretudo os menos favorecidos e frágeis.

Não temos dúvidas em afirmar que aqueles que aderem a esse tipo de democracia, a laicidade na sociedade, vivem a maneira de ser cristão adulto. Gostei dessa definição de Pietro Scoppola, político e acadêmico italiano, que disse o seguinte a respeito da laicidade: “A laicidade não é apenas sobre os Estados, as leis, o modo de ser das Instituições. A laicidade é, antes de tudo, um modo de viver a experiência religiosa ao nível pessoal e interior; se falta esta condição interior também os aspectos institucionais da laicidade, eles serão enfraquecidos e, no fim, comprometidos”.

O Magistério da Igreja daquele tempo se pronunciou a respeito disso, reconhecendo a importância histórica dessa experiência de fé na política. E essa inspiração cristã na democracia de então solidificou um planejamento em que se destacava a defesa da família, liberdade do ensino, referendos locais, centralidade dos municípios e formas de previdências sociais, representação proporcional e voto às mulheres, liberdade da Igreja e construção de uma ordem mundial nova.

Tudo isso não era um compromisso político, mas uma proposta de convivência social, a partir da Doutrina Social da Igreja. E a famosa Encíclica RerumNovarum, do papa Leão XIII, 15.05.1891, também inspirou esse movimento democrático: “A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social.

Efetivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos de um pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião, enfim, mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito…”

Já se passaram mais de cem anos e essa lição é tanto mais atual para os nossos tempos. Não por acaso, o mesmo Concilio Vaticano II, com a Gaudium et Spes, considera o compromisso político como uma vocação especifica na Igreja. E a democracia garante a participação dos cidadãos às escolhas políticas. Tudo isso iluminado pelos valores da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja. ■


Não se pode comercializar Deus


Estamos assistindo, ao longo desses últimos anos,a religião sendo apresentada igual a um produto de consumo. O processo de marketingparece que se tornou um meio muito atrativotambém para as igrejas do nosso tempo. A fé não pode ser comparada a uma roupa, a um sabonete. Ela não pode ser comercializada, como não pode absolutamente ser comercializado Deus, porque Ele está acima de tudo e de todos. Veja como as empresas, estrategicamente, fazem de tudo para vender a própria logomarca como garantia de sucesso na comercialização dos seus produtos. As igrejas também se preocupam, sobretudo, em reforçar as próprias instituições para ter garantias de venda de seus “produtos”. Portanto, adquiriu-se, em certo sentido, um processo de falta de fé, reduzindo Deus em segundo lugar: a instituição se tornou mais importante. Praticamente, ainstituição substitui, pelo privilégio, Deus. Nesse sentido, temos que reconhecer, desse jeito, que a mediação supera mensagem.

 

Com isso, não podemos, de jeito nenhum, reduzir as igrejas a empresas, que se preocupam em fazer “conquistas” para “ter” cada vez mais. Assim sendo, amplia-se sempre mais um processo de materialismo no lugar da fé. Esse grande perigo pode levar o indivíduo a fazer uma experiência reduzida do ser humano, limitando-o a uma simples dimensão corporal.

 

É verdade, embora não se fale expressamente de marketing comercial, porém, os métodos são muitos parecidos. A religião, para manter as suas lideranças, multiplica as maneiras de como mais consumir. Assim, propõe produtos de atração para o povo, que quase se sente obrigado a valorizá-los, confundindo-os com o dom da fé. É verdade, também, que as pessoas começam a demonstrar certa insatisfação em relação às instituições e procuram dar mais ênfase a uma experiência direta com Deus. O pragmatismo individual não isenta nem mesmo a religião. A cultura que favorece o individualismo, típica da nossa sociedade urbanística, certamente promoverá uma experiência religiosa pessoal mais que comunitária.

 

Com isso, vai se complicando o mandamento de Deus de “Amar a Deus e ao próximo”. O cenário da sociedade não favorece essa prática de fé. Torna-se difícil entender Jesus e viver o seu testemunho, porque não vai ao encontro das nossas concepções da vida. Com isso, é muito fácil criar idolatrias, que tentam substituir a verdadeira presença de Deus. Por sinal, isto é o pecado, segundo as Sagradas Escrituras, que enfurece o nosso Deus. Um processo de marketing não seria, por acaso, uma pretensão de querer manipular a Deus? Marketing é também ter certezas. No entanto, quem faz a experiência de Deus na sua vida não tem outra certeza se não depender totalmente Dele.

 

A fé, de fato, é se deixar conduzir cegamente por Deus. Dessa forma, quero dizer que o marketing religioso é mais um serviço por interesses não estritamente espirituais. Às vezes, eu penso como as religiões podem fortalecer a dimensão materialista de marketing no lugar da espiritual.


O drama da pessoa


O pior drama para o ser humano, eu creio, é quando a pessoa se sente só; não consegue dar sentido a sua vida; é ausência total do seu eu. Para dizer a verdade, eu me sinto à vontade quando consigo fazer o silêncio ao meu redor para ajudar o silêncio dentro de mim. É esse encontro que me ajuda a dar sentido a minha vida. Sinto-me seguro e sereno. Como diz a Sagrada Escritura nos livros dos Salmos: “Como a criança bem tranquila, amamentada no regaço acolhedor de sua mãe (Sl 130)”. E esse silêncio me favorece em perceber o quanto é precioso o convívio, por exemplo, com a mãe natureza. Ouvir a linguagem dos animais, do vento, das árvores, das águas… Essa percepção me permite entender melhor o ser humano e seu cotidiano. Sentir o drama e a alegria das pessoas. Portanto, refugiar-me no meu silêncio não significa fugir da realidade do mundo, mas, pelo contrário, ir ao encontro dele com toda a pureza de espírito.

A partir disso, eu me pergunto: por que a cidade é tão barulhenta? Por que nossos lares são invadidos por tantos aparelhos tecnológicos audiovisuais? Por que todos esses celulares, esses desejos de falar sempre com alguém, sem deixar tempo para falar consigo? Parece que o ser humano tem medo de estar só. Quer evitar a tudo custo a experiência de se achar consigo mesmo.

O barulho, sons e exterioridade são uma maneira de preencher esse vazio. Para eles, o silêncio dá ansiedade, marginalização. Assim, não se consegue mais ouvir as outras linguagens sutis da natureza e das lamentações silenciosas dos irmãos em perigo ou sofrimento. A nossa surdez causada pelo excesso de sons e barulhos nos prejudica na nossa fala, na nossa comunicação. É verdade que não só falamos muito, mas também gritamos. Porém, não comunicamos. Isto é, não conseguimos nos fazer entender. Estamos numa situação babélica. A verdade, mais que falar é gaguejar. Daí, pode-se compreender como podemos nos comunicar.

O ser humano, assim, vai se enfraquecendo e se tornando cada vez mais frágil na comunicação. Para dizer a verdade, eu aprendo muito mais a falar ficando tempos prolongados, todos os dias, perante a cruz. É o silêncio da cruz que desperta em mim os conteúdos da vida, perspectivas cósmicas, preenchendo o meu ‘coração’. Tudo isso gera palavras mediadoras daquilo que existe em mim. Elas se tornam veículo de transmissão daquilo que a minha vida tem. Portanto, silêncio e palavras não podem ser separados, mas cada um precisa do outro. São coexistentes. Porém, quando o silêncio se torna uma tumba, rompe a harmonia do ser e da sua existência. De fato, posso ouvir, mas não entender, posso perceber os sons das palavras, mas não decifrá-las ou decodificá-las. Assim, cala-se a minha vida nos meandros da história. O mundo parece tornar-se um deserto, uma total aridez.. ■


A Igreja não pode ficar calada


Tenho a impressão de que as incertezas e a autodestruição estão dominando nosso tempo. Tempo de mudanças antropológicas que focam um novo relativismo. Os papas, e sobretudo Bento XVI, denunciaram esse perigo. Um perigo que pode levar às ideologias totalitárias e autoritárias e que, por sua vez, pretendem ser donas da verdade. A nossa Igreja, defensora da verdade em Jesus Cristo, não pode ficar calada perante esse perigo das ideologias totalitárias. Ideologias essas que querem dominar desde o campo religioso até o campo politico e social.

A campanha contra o Sumo Pontífice, papa Francisco, por exemplo, é sustentada por uma ideologia totalitária, porque o vê como um perigo para os poderosos que, sobretudo, querem celebrar, perpetuar o presente como absoluto, abrindo assim movimentos reacionários. Com essa lógica do presente absoluto, não tem espaço para Deus, pelo menos o Deus que Jesus Cristo nos revela, porque Ele criou a realidade temporal absoluta que vai além do presente, do passado e do futuro. Com essa lógica e realidade de Deus, a vida do ser humano deve ser avaliada na totalidade e, portanto, dar vida a diferenças e manifestações de pessoas.

Nesse sentido, por exemplo, uma economia que não favorece uma solidariedade e fraternidade foge dos tempos de Deus e favorece um presente absoluto que beneficia uns e exclui outros. Também, em nível político, a tendência é privilegiar uns, deixando de lado uma maioria. Perante um cenário desse tipo, a Igreja não pode ficar calada, mas deve proclamar a grande verdade que Deus é o absoluto. Ao Deus que tudo lhe pertence. Um Deus que é Pai e que favorece todos os filhos e filhas, sem excluir ninguém. Uma ideologia do presente absoluto gera divisões, exclusões, materialismo.

Não tem mais espaço para Deus, mas, sim, para um deus que não ouve e não fala. Diria a Palavra de Deus: um deus dos pagãos. Tenho a impressão que no nosso tempo prevalece um deus dos pagãos e o Deus de Jesus Cristo é considerado muito perigoso. Assim sendo, podemos constatar que o aspecto humano esteja muito enfraquecido, justamente porque o Deus verdadeiro se tornou uma experiência de vida do passado ou pelo menos está ausente no momento presente. E a Igreja não pode ficar ausente num cenário como esse. Não pode ficar apartada.

A Igreja tem uma grande responsabilidade de proclamar a Palavra de Deus, de educar, de edificar na fé e da promoção humana. Formar as consciências sócio-políticas dos fiéis, convidando-os a uma nova responsabilidade pessoal ao redor dos valores do evangelho. E perante essa crise que marca o nosso tempo, que é fruto também da passagem da era industrial à era tecnológica, de um mundo fechado nos próprios confins a um mundo globalizado, a Igreja que caminha com o mundo se sente cada vez mais envolvida.

Por tudo isso, a Igreja não pode ficar calada perante concepções antropológicas e políticas inconciliáveis com os pontos de vistas da Palavra de Deus sobre o ser humano e sobre a sociedade. É urgente evitar um ‘presente absoluto’ para valorizar todas as pessoas.


Louva, ó minha alma, o Senhor!


O salmo 145 das Sagradas Escrituras é o grande louvor ao Senhor Deus. Um louvor sem fim, que perdura até o fim: “Louvarei o Senhor por toda a vida. Salmodiarei o meu Deus enquanto existir.” Portanto, é um hino de festa, mas, ao mesmo tempo, pode-se notar uma grande concentração teológica. Veja nesses versículos: “É esse o Deus que fez o céu e a terra, o mar e tudo o que eles contêm; que é eternamente fiel à sua palavra, que faz justiça aos oprimidos, e dá pão aos que têm fome. O Senhor livra os cativos; o Senhor abre os olhos aos cegos; o Senhor ergue os abatidos; o Senhor ama os justos. O Senhor protege os peregrinos, ampara o órfão e a viúva; mas entrava os desígnios dos pecadores. O Senhor reinará eternamente; ó Sião, teu Deus é rei por toda a eternidade.”

Observa-se quantas vezes o nome de Deus é citado. E qual o sentido de todos esses nomes? Preocupam-se em celebrar quanto esse Deus ama as suas criaturas, em particular, àquelas fragilizadas e fracas. E mostra o salmista através da citação “Deus que fez o céu, a terra e o mar”, de maneira bem simbólica, a criação do universo na sua totalidade. É esse o Deus criador que tudo lhe pertence, e nós queremos adora-Lo. Por que queremos adora-Lo? Porque Ele é fiel para sempre à sua imensa obra criada. Que maravilha aos nossos olhos essa obra divina! Não temos palavras ao contemplarmos tudo isso. Além do mais, revela o autor que Deus faz ‘justiça aos oprimidos’ e abate os poderosos. Um Deus, portanto, que é justo e defensor dos últimos.

Na mesma lógica, continua o salmista dizendo que Deus ‘dá pão aos que tem fome’. Assim sendo, afirma, de maneira indireta, sobre a destinação universal dos bens que estão antes de cada direito de propriedade privada. Continua dizendo que o Senhor livra os presos e abre os olhos aos cegos. Isto mostra implicações da era messiânica, revelando assim sinais da nova criação de uma nova humanidade. O salmista conclama também que Deus ‘ergue os abatidos’: Ele se curva sobre aquele que está no chão pelo desespero e pela humilhação da vida e fica próximo para lhe dar a possibilidade de se agarrar e assim se levantar para ter novas perspectivas de vida. Dignidade. Tem mais: ‘O Senhor ama os justos’, isto é, os fiéis que seguem e vivem a lei moral divina. ‘O Senhor protege os peregrinos, os estrangeiros’: eles têm em terra estrangeira o defensor e protetor supremo que é o mesmo Deus. ‘Ele ampara o órfão e viúva’, categorias desprotegidas de um defensor, neste caso, que seriam pai e esposo, e, portanto, confiados diretamente ao Senhor. ‘Entrava os desígnios dos pecadores’, o autor quer mostrar como Deus se opõe àqueles que se afastam Dele em seus gestos e mentalidades. É a justiça que prevalece contra os projetos dos ímpios, de forma que quem reina é sempre o Senhor.

Por isso, o louvor é proclamar o projeto de amor e de misericórdia de Deus sobre o mundo. É este Reino que perdurará pelos séculos, de maneira gradual e eficaz. Esta perspectiva leva a louvar sempre o Senhor da Vida.