Processo equilibrado na comunicação


Precisamos se tornar pessoas humanas com toda a nossa identidade: pessoas verdadeiras, não vazias e nem manipuladas. A humanidade que existe em cada um de nós é irrepetivelmente única e precisa realizá-la em toda a sua plenitude e originalidade. Ora, o ser humano, que deve realizar essa operação central na própria vida, é chamado a nunca esquecer que o passado se une com o presente e caminha em direção ao futuro.

Isto vale na vida pessoal e na história da humanidade, porque a nossa existência não é um episódio simples, mas um evento comunitário. O ser humano, quando é autêntico, é pessoa, isto é, sujeito que vive junto aos seus semelhantes e com os seus semelhantes faz crescer a própria medida humana, a qualidade da sua fraternidade na convivência social. De que maneira ele cumpre essa extraordinária transmissão de vida? Comunicando, porque comunicando produz conhecimento, pesquisa, crescimento em todos os níveis.

Ora, as pistas da comunicação que ligam passado, presente e futuro em poder do ser humano são comunicação falada, comunicação impressa, comunicação escrita, comunicação audiovisual, comunicação telemática, comunicação cibernética. Seguindo estas pistas, realiza-se a nossa história e a história da humanidade. Seguindo estas atividades comunicacionais, produz-se não somente diálogo, mas cultura e sabedoria; trabalha-se pela construção de uma humanidade digna deste nome, porque o ser humano dá força e consegue se transformar em um ser humano do direito e do amor.

Tirar esta possibilidade de comunicar entre passado, presente e futuro quer dizer tirar do ser humano a possibilidade de ser ele mesmo e de construir aquele seu destino futuro que é a contribuição fundamental da história que estamos vendo e observando. Este atentado a formação humana tem como ponto de partida o terrível capítulo de tirar a memória do ser humano e, portanto, de eliminar o grande esforço do progresso. Em primeiro lugar, é eliminada a sua cultura e, neste caso, o livro é o símbolo mais representativo desta eliminação.

Assim sendo, podemos ir ao encontro de um grande risco perigoso e imbecil de uma televisão (também das redes sociais) ladra do tempo, o nosso precioso tempo livre, e mentirosa, subserviente somente às regras da curiosidade mais sentimental e não a lógica da verdade. Como consequência, parece reconhecer o primado aos espetáculos carnavalescos, aos mitos mais banais, as loterias bilionárias, ao sexo desenfreado, a dessacralização dos valores desde os religiosos aos civis. Isto acontece ao ser humano quando ele tem totalmente reconhecido como elemento determinante a emotividade. No entanto, nunca como hoje, torna-se urgente ligar a emotividade à razão para obter um processo equilibrado deste mundo digital.


O analfabetismo digital


A comunicação, o grande desafio do nosso tempo, é o fundamento existencial da relação humana, que tem o poder de fazer passar tal relação da essencial à existência, do intemporal (sem tempo) ao histórico. O destinatário assim procede em direção à meta de se tornar, não somente o que recebe comunicação, mas também que comunica. É um sujeito que procura e cria, determinado aprender a ser. É um laboratório de cor, sentimento, fantasia, razão, que o faz sujeito receptor e transmissor.

Como destinatário da comunicação audiovisual e das redes sociais, vive hoje imergido numa realidade flutuante, composta e heterogenia, experimentado o assim chamado conhecimento empírico. No entanto, não pode se tornar um recipiente, mas um filtro. Este é possível, se sabe se tornar no mesmo tempo comunicador e receptor. Este é o desafio que se apresenta hoje. Porém, não podemos negar também a grande importância que têm os instrumentos da comunicação social em promover a unidade e o progresso da família humana.

Porém para saber desafiar essa ferramenta digital precisamos conhecê‒la. No entanto percebo que é mais uma satisfação de mercado, onde as pessoas simplesmente adquirem sem ter uma preocupação de conhecer o seu uso, e se por acaso tiver um conhecimento é muito pouco. Assim sendo torna‒se escravo da tecnologia, isto é não tendo a capacidade de fazer um reto uso dela e no mesmo tempo recepcionar tudo o que ela pode conter. Efetivamente hoje podemos constatar em geral que não existe uma cultura, uma educação do mundo digital e suas ferramentas. É um grande vazio que toma conta de todos os setores da nossa sociedade. É o analfabetismo digital. Por isso existe cada aberração na fala das pessoas quando se referem a esse tipo de comunicação virtual.

Da mensagem de S. João Paulo II para a 25ª jornada mundial para as comunicações: “O uso dos meios de comunicação, hoje, a total disposição dos seres humanos, requer um alto sentido de responsabilidade com o qual se faz o seu uso”.

Não obstante, o progresso da tecnologia precisa reconhecer que o nosso tempo, e também a mídia, é marcado por um difuso sentido de insegurança. É a insegurança que gera os seus medos.

O tempo da telemática é, portanto, contraposto por um sentido geral de mal estar existencial, que constitui aquilo que chamamos de medo do ser humano contemporâneo. Ocorre, portanto, sermos preparados mentalmente e culturalmente para enfrentar esta situação de poder que seduz e, ao mesmo tempo, faz medo.


É Círio!


OCírio de Nossa Senhora de Nazaré é um patrimônio histórico e religioso dos paraenses. Essa expressão da cultura popular é manifestada com orgulho no segundo domingo de outubro, em Belém. Embora aconteça na capital do Pará, eu diria que a grandiosa procissão em homenagem à Virgem Maria é uma “bandeira” de identificação do povo amazônico. É uma festividade que congrega e une as pessoas. É uma maneira de expressar sua religiosidade, rica em emoções e gestos heroicos de solidariedade. Nessa mega manifestação, o paraense se sente povo de Deus que busca adesão ao seu Senhor, e se percebe livre para transbordar tudo aquilo que tem na vida e no seu coração. Mesmo que alguns devotos expressem sua fé de modo estranho ao catolicismo tradicional, essa vontade de se abrir a Deus é considerada rica de valores para serem exploradas. Por meio da devoção à Virgem de Nazaré, vejo nas pessoas uma grande sede de Deus. De fato, cada povo manifesta esse desejo do seu modo e de acordo com sua maneira de ser.

O Círio é de todos, também daqueles que, às vezes, nem frequentam a Igreja ou de outras denominações que não pertencem à Igreja Católica Apostólica Romana. Perante essa realidade, a Igreja se preocupa em evangelizar. É um momento histórico de unidade. Todos se sentem mais próximos e, consequentemente, adquirindo capacidade de discernir as necessidades das próprias pessoas. A partir daí acontece a Boa Nova, que ajuda a purificar, interiorizar e amadurecer o seu ser religioso no seu cotidiano. A devoção e o amor à Maria é um incentivo constante do culto divino para fazermos a experiência da nossa condição de filhos e filhas de Deus. Círio é fazer uma experiência de fé. Essa religiosidade tão rica, mas ao mesmo tempo vulnerável, acolhe com grande sensibilidade os valores inegáveis que ajudam a fazer um verdadeiro encontro com Deus, em Jesus Cristo. Círio, isto é, Nossa Senhora de Nazaré, é uma imensa oportunidade de realizar tudo isso.

O ser humano precisa de mediações e, sobretudo, daquelas que lhes são mais concernentes com a sua realidade. Maria de Nazaré foi como uma de nós. Por seu exemplo, os devotos recebem incentivos para imita-la em como ser bons filhos e filhas de Deus. É verdade também que há pessoas, nessas circunstâncias, qual do Círio, que podem se deixar levar ao perigo das superstições, a se limitar a uma manifestação cultural e nada mais, e a outras deformações. Mas é também verdade que o Círio pode ajudar a uma verdadeira evangelização através do desejo ardente de Deus, capacidade de incentivar a fraternidade com gestos abnegados e alimentar processos de despojamento e abertura aos outros.

Portanto, essa manifestação de fé no Círio de Nazaré não exclui nem sequer ofusca a mediação universal e insubstituível de Cristo. Celebrar mais um Círio é uma extraordinária oportunidade de resgatar e estimular a nossa condição de filhos e filhas de Deus.


Educação digital


As pessoas, desde crianças, já conhecem os mecanismos do funcionamento da ação digital, mas não sabem avaliar as consequências dessas atividades. Uma linguagem às vezes indecente com difamações e ameaças, espreitando as pessoas, leva a progressivos conflitos. Não é por acaso que constatamos um índice crescente de violência. A essa altura, parece evidente que precisamos percorrer uma nova educação cívica em educação digital. Eu costumo fazer a comparação dessa nova tecnologia digital com um ‘super’ carro tipo Ferrari que está a nossa disposição, mas não sabemos dirigi-lo.

 

A máquina é muito veloz e cheia de tecnologia: como dirigi-la? Se não tivermos uma devida preparação, podemos nos arrebentar, porque foge do nosso controle. Assim é essa nova tecnologia: se não tivermos uma devida preparação, podemos nos prejudicar seriamente. Quantas histórias tristes e frustradas, provocadas via on-line, marcam a nossa convivência social! Como reverter tudo isso? Todos precisamos conhecer mais, porém, os jovens deveriam ser prioridade. A Rede é uma maneira de comunicação anômala, diferente da comum convivência do cotidiano.

 

Para tanto, creio que seja necessário, urgentemente, uma educação escolar a respeito. Contudo, eu me pergunto: quantas escolas estão preparadas para isso? Quantos professores estão habilitados em ter conhecimentos técnicos e jurídicos para essa formação digital? Como dar segurança e proteger, sobretudo, os mais novos na Rede das tantas coisas indecentes, em todos os sentidos?  Parece-me que já existem ou estão surgindo corporações-associações com o intuito de educar o uso da Rede. Não é para menos: no mundo digital, encontra-se de tudo; e muitas vezes se torna cruel e perigoso, com o uso de palavras de baixo nível e ameaçadoras.

 

Portanto, é importante alertar os jovens que a verdadeira vida não é somente na Rede, mas também fora dela. Lendo os comentários nos blogs, pode-se perceber como muitos adultos não compreenderam ainda como as pessoas são as mesmas, a vida é a mesma. E escrevem todos os tipos de insultos e ruindades que o ser humano pode fazer. Esse tipo de presença pode ser evitada? Veja o que disse o antigo presidente de Google, Eric Schmidt: “1% do povo é louco”. E isto não se pode mudar. No entanto, eu creio que isto não nos livra de ajudar os jovens a compreender esse novo mundo para melhor viver.


O mundo digital


A tecnologia digital se desenvolve com uma velocidade sem precedente na história da humanidade, leva-nos a uma desorientação na vida individual e social. O que constatamos perante esse grande fenômeno? Alguns rejeitam totalmente; outros são atraídos por esta tecnologia, sem conseguir, efetivamente, entrar em sua lógica. Enfim, há outros que se identificam em fazer uma só coisa com esta nova tecnologia.

Aqueles que rejeitam este fenômeno digital sustentam a tese de que essa nova realidade não condiz com suas idades já avançadas nem com seus hábitos e rotinas. A vida deles já foi planejada e, portanto, foram acostumados a um estilo de vida que não permite mais se aventurar em outras experiências. Existe um imobilismo nesta situação. Aqueles que se tornaram eufóricos perante a nova tecnologia foram, praticamente, os primeiros fregueses, adquirindo produtos sem, porém, conhecê-los de maneira correta. Podemos dizer, de maneira muito simples, que há uma total dependência e entusiasmo pela estética dos meios.

Aqueles, no entanto, que se lançaram totalmente à tecnologia digital se integraram na nova realidade, quase se identificando com ela. Quem são eles? São os verdadeiros especialistas que criaram outra dependência: sem esta tecnologia parece quase impossível viver. Aqui nasce uma nova maneira de viver e pensar. Um novo mundo se direciona para esta realidade, aliás, que transforma totalmente a mesma realidade do passado e não a continua, como alguns a consideram.
Perante este novo cenário, nós nos conscientizamos do quanto é difícil a convivência dessas três realidades. Eu diria que nos deixa um pouquinho inquietos, perplexos, e assim surgem espontaneamente essas perguntas: como dialogar com essas três realidades? Como fazer para não exasperar a convivência uns com os outros? Quais os elementos que poderiam unir no lugar de dividir? Como fazer do mundo digital um verdadeiro serviço a humanidade? Como a evangelização pode usar esse mundo digital? O novo mundo digital pode favorecer mais justiça e fraternidade no mundo? O novo mundo digital será a verdadeira mudança do mundo por sua correta compreensão?

A virtualização e a ilusão do contato físico levam para problemas de reconhecimento, comportamento, privacidade e de ética em geral. A fragilidade do sistema é dada pelo seu formato transmissível na rede e é totalmente dependente da energia ou de outros componentes técnicos que quando falham põe em crise a mesma sociedade. A Igreja é provocada a enfrentar tal realidade, não como uma simples expectadora, mas como uma verdadeira protagonista. Educar permanentemente em todo o lugar subsiste para sempre.

Por isso, também, esse novo mundo digital precisa ser instruído conforme o mandato de Jesus, o Ressurgido. A nova cultura virtual requer tempo, espaço e estrutura nova para uma nova evangelização.


A importãncia dos símbolos


O símbolo fala e comunica por si. Mas, ao mesmo tempo em que comunica, ele esconde algo de misterioso. Os símbolos são irrenunciáveis na nossa vida. Eles têm uma linguagem própria de comunicar diferente da linguagem lógica e racional.

Isto não quer dizer que a linguagem lógica não se sirva dos símbolos. Desta forma, o símbolo aparece como dimensão transcendental na vida do ser humano. A linguagem humana é expressa através dos símbolos que falam, sem reduzir a conceitos e objetivos. Só a dimensão do simbólico permite transcender o aspecto da aparência de algo, para explicá-lo além de sua própria substância. Um dos campos mais ricos do simbólico, certamente, é o campo religioso. O símbolo assume na vida humana uma importância relevante, pois, sem ele, o ser humano não teria capacidade de comunicar toda a sua expressividade.

 

Portanto, é natural perguntar o que é na verdade o símbolo. Ele é um sinal, mas um sinal com um sentido próprio. No símbolo, impregnam-se muitos significados. É racional e se estrutura em âmbito hermenêutico, pois traz uma compreensão que rompe as barreiras do físico e se projeta além dele para mostrar o seu significado. Historicamente falando, a palavra símbolo é encontrada pela primeira vez no antigo Egito, que era uma espécie de marca de identidade, confeccionado de diferentes materiais.

 

Mais tarde, o conceito se concentrou em um sinal e passou a ser usado em expressões que descreviam a ideia de reunir. Assim sendo, o símbolo passou a referir-se a união de duas coisas. Ora, se junta o que está separado, assim o símbolo expressa a união de coisas que estavam separadas. Era comum, no mundo grego antigo, ao fazer um contrato, as pessoas quebrarem em duas partes um objeto de cerâmica e cada um levava um pedaço. Uma ulterior reclamação seria legitimada pela união das duas partes coincidentes.

 

A questão, entretanto, não está no nível das coisas em si mesmas, mas no nível do sentido. Além do mais, é bom precisar que o sinal não pode ser identificado como o símbolo, enquanto estrutura diversa. O sinal recoloca o próprio significado a algo que quer representá-lo. Portanto, não tem nunca um significado em si. No entanto, o símbolo recoloca, sim, o significado em algo que representa, mas também tem em si mesmo um significado. O sinal sempre representa e o símbolo, porém, tem a capacidade de ter um significado em si.

 

A força do símbolo desloca a experiência do humano para outra realidade, para além do âmbito do sensível.


Deus nos fala


Evangelho de Marcos 8, 27-35

Para compreendermos melhor esse trecho do evangelho de Marcos, precisamos ver em que contexto foi escrito e quais eventos marcaram aquela circunstância. Estamos nos anos setenta depois de Cristo e a comunidade destinatária dessa evangelização passava por momentos não fáceis. Muita cruz pesava na vida das pessoas. Só para se ter uma ideia, seis anos atrás, isto é, nos anos 64, o famoso imperador romano Nero tinha decretado a perseguição aos cristãos, matando muitos deles. E, justamente no ano 70, Jerusalém estava para ser destruída pelo império romano. Além do mais, surgiu o conflito entre judeus convertidos a Jesus e aqueles fiéis ao Judaísmo. Sabe por quê? Tudo por causa da cruz de Jesus.

Para os judeus era uma coisa que nem se podia imaginar ver um Messias pendurado numa cruz porque, segundo o Deuteronômio (21, 22-23), quem fosse crucificado era um amaldiçoado por Deus. Portanto, eles esperavam outro Messias, outro salvador que manifestasse toda a sua majestade. Dito isso, Marcos questiona os seus discípulos em relação ao Mestre, porque sabia que não era fácil aceitar Jesus Messias desse jeito, crucificado. As multidões se afastaram, porque era mais fácil seguir um Jesus que fazia milagres do que um Jesus na cruz. Por isso, o Mestre quer preparar os seus discípulos para compreender a cruz como projeto de Deus. É a cruz o ponto de referência para entender a nossa verdadeira vida de fé. Sempre dialogando com os discípulos, o Mestre, quer saber mais sobre o que os outros dizem, e o que eles pensam. E Pedro prontamente responde que Ele é o Messias. Isto é, o Senhor que todo mundo esperava. E Jesus proibiu a Pedro de falar para o povo, porque a expectativa das pessoas era conforme os anseios delas e assim se beneficiarem. Jamais iam pensar de receber um Messias servo. No entanto, Jesus ensina que é Ele mesmo o ‘Messias servo’, que será preso, torturado e morto na cruz. Perante esse anúncio, agora Pedro reage e pede ao Mestre de se opor. Resposta de Jesus: “Afasta-te de mim, Satanás!”. Por que Jesus fez isso? ‘Satanás’ significa acusador, aquele que afasta os outros do caminho de Deus. Por isso, Jesus se torna duríssimo com Pedro, porque não permite a ninguém que o afaste da missão que Deus Pai lhe entregou. Também Pedro queria, no final, um Messias conforme os seus desejos. Nesse sentido, temos que nos questionar sempre até que ponto somos fiéis à missão que recebemos de Deus. Ou queremos fazer as nossas missões, confundindo-as com as de Deus? Porém, Jesus, com um tom imperativo, nos convida a segui-Lo carregando a cruz.

No tempo do Nazareno, o Império Romano executava a pena de morte para os pobres com a cruz. Portanto, carregar a cruz e seguir a Jesus é aceitar o desafio de ser excluído, humilhado para imitar o testemunho do Mestre em proclamar que todos têm que se tratar como irmãos e irmãs.


Deus nos fala


Evangelho de Marcos 7, 31-37

 

Jesus se encontra no território da decápole, que quer dizer dez cidades. É uma região a sudeste da Galileia, fora da Palestina, cuja população era pagã. É aqui que ocorre o milagre do surdo-gago. Por que o evangelista Marcos quis nos contar esse prodígio de Jesus em um contexto fora do povo escolhido? Ele nos mostra que Jesus já era conhecido também fora da sua terra e o povo recorre ao Mestre para ajudar uma pessoa que não consegue se comunicar direito, e, portanto, é marginalizada pelos outros. Ainda hoje quantas pessoas são marginalizadas entre nós porque não têm capacidade de comunicação? Esse povo que leva o surdo-gago sente-se impotente perante uma realidade como essa e, portanto, recorre ao Mestre, para que lhe impusesse as mãos. Porém, o Mestre vai além disso. Ele o leva para longe da multidão, colocando os dedos nas orelhas e com a saliva toca-lhe a língua e olha para o céu, suspira e diz “abre-te!”.

O toque da língua com a saliva lhe restabelece o poder da fala. Parece uma ação anti-higiênica, mas na mentalidade popular daquele tempo o gesto era considerado um ato medicinal. O olhar para o céu indica que quem faz o milagre da cura é Deus. Diz o evangelho que, imediatamente, o surdo-gago recuperou a escuta e a fala.
O sentido de tudo isso é dar o poder a todo mundo para poder recepcionar as mensagens e consequentemente transmiti-las, sobretudo as de Deus. É verdade, muitas vezes, talvez quase sempre, que não conseguimos ouvir, e, por conseguinte, nem falar do nosso Deus. Somos surdos e mudos em relação à verdadeira vida, ao Altíssimo. Perante o encontro com o Deus que nos proporciona vida é-nos recomendado de não fazer publicidade. Tudo isso tem que contemplá-lo no silêncio do nosso ‘coração’. Perante o milagre, o povo ficou admirado e falou que ‘ele fez tudo bem’. Isto evoca a criação do mundo (Gn 1,31), para confirmar a divindade de Jesus. Porém, as pessoas não conseguem ficar caladas diante dessa manifestação do Mestre e proclamam aquilo que viram.

A força da Palavra de Deus vai além das nossas capacidades e se auto-proclama sozinha. Quem encontra Jesus não consegue se calar porque é tão contagiante que quer contá-lo sucessivamente aos outros. Esse trecho do Novo Testamento nos revela também a importância da missionariedade da evangelização. Essa presença de Jesus fora da Palestina, território pagão, adquire a mensagem de que a ação de salvação de Deus não se restringe a um povo escolhido, mas vai ao encontro de todos os povos. E nós não temos o direito de se opor a esse projeto do nosso Deus. Assim, temos a certeza que Ele favorece as pessoas e faz tudo por elas. Essa é garantia de esperança de Vida. Para melhor entender isso, precisamos intensificar a oração que nos ensina que a salvação é um dom de Deus e, por isso, temos que pedi-la toda hora, sem pretensão nenhuma.


Deus nos fala


Evangelho de Marcos 7,1-8.14-15.21-23

Jesus, o verdadeiro Mestre, foi interpelado primeiro pelos fariseus e escribas, depois pelo povo, e, enfim, por seus discípulos. Seu ensino era tão profundo e sábio que escandalizava as autoridades religiosas daquele tempo e deixavam perplexos os outros. Por isso Jesus quis ensinar, sem medo de nada, para fazer uma correta experiência do Altíssimo entre nós. Para melhor entender a lição do Mestre, precisamos contextualizar o seu discurso.

O povo daquele tempo estava demais preocupado com a pureza (hoje diria quase estranha para o nosso tempo). Todas as leis daquele tempo eram endereçadas para purificar as pessoas. Eram normas indispensáveis para se colocar na presença de Deus e se tornar assim uma ‘pessoa santa e imaculada’. A experiência de Deus e sua bênção passavam por esse puritanismo. Só para se ter uma ideia, no tempo de Jesus, as pessoas não podiam tocar um leproso, comer com os publicanos, participar das refeições sem lavar as mãos, tocar o sangue ou cadáver, entre outras, e depois se colocar perante Deus.

Tudo isso tornava impura a pessoa. Assim, quem não respeitasse essas regras, era afastada do convívio da comunidade. Vivia separada. Imaginem o medo que tomava conta dessa criatura humana. Com o ensino de Jesus, tudo isso muda. Ele nos revela como fazer o encontro com Deus. Diz o evangelista Marcos que os escribas e fariseus fizeram notar a Jesus que os seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras. É bom fazer presente que essas autoridades eram de Jerusalém e que estavam aí para fiscalizar Jesus e os seus discípulos. De fato, devido à convivência com o Mestre, os discípulos tiveram a coragem de transgredir as leis impostas pela tradição “religiosa” porque compreenderam que essa preocupação com a higiene, por mais que importante fosse, não podia discriminar a pessoa. Isto é, as normas e os conselhos que os seres humanos produzem não são garantia de experiência de Deus, mas essas normas têm que se submeter ao Altíssimo para se purificar.

Qual foi a resposta de Jesus perante essa prática religiosa? A resposta foi muito severa perante a incoerência dos fariseus, porque eles insistiam nas leis da pureza e esvaziavam os mandamentos de Deus. Eles, agindo daquele jeito, em observar tantas coisas exteriores, conseguiam fazer esquecer o que mais conta: o amor e a justiça. Jesus se opõe a essa maneira de se preocupar tanto por aquilo que está fora do ser humano e, no entanto, se esquece do interior do mesmo. Desse jeito, o Mestre quer mostrar que para combater o mal temos que procurar onde realmente surge, isto é, dentro de nós. Assim sendo, compreendemos a lição do Mestre Nazareno em dizer que não é aquilo que entra no ser humano que o contamina, mas aquilo que sai do seu coração. Não podemos fazer uma experiência de Deus na nossa vida somente com a exterioridade.


Deus nos fala


Evangelho de S. João 6, 60-69

 

Seguir a Jesus significa dizer se deixar questionar por ele. Não podemos, de jeito nenhum, para testemunhar a nossa vocação cristã, simplesmente falar dele, aplaudi-lo e reconhecê-lo prodigioso. A nossa verdadeira vocação em seguir a Jesus é caracterizada em se deixar questionar por ele, para viver seriamente a sua proposta de vida. Como Jesus se encarnou na nossa história, assim também nós temos que se encarnar nele. Realmente, a gente se pergunta, como pode acontecer isso? Falar dele não é tão difícil assim, mas se tornar a vida dele nossa vida, isto é mais complicado. Portanto, até quanto é possível?

O evangelista João nos diz que, sem a luz do Espírito Santo, torna-se difícil acontecer. Continua o evangelista, perante as palavras do Mestre Jesus sobre “comer a minha carne e beber o meu sangue”, muitos murmuravam, como o povo no deserto quando saiu do Egito, e por isso o deixaram de segui-lo. Ficou com os poucos discípulos. E o Mestre Nazareno acrescenta: “é o Espírito que dá vida, a carne não serve a nada”. Isto é, para compreender Jesus, precisamos nos deixar atrair por Deus. É ele que dá a vida e luz. Porém, também os discípulos duvidaram da presença de Jesus em partilhar o pão; que ele é o alimento da vida. Sem a sua partilha, não temos como alcançar a verdadeira libertação.

Aqui temos o significado da eucaristia. Comer o pão sem depois se fazer pão para os outros, isto se torna inútil. Se o amor recebido na eucaristia não for partilhado, não serve para nada. Como é grande o nosso Deus! Aquilo que, aparentemente, é uma falência aos nossos olhos, no entanto, para Deus é uma vitória. A acolhida desse pão para se tornar pão para os outros gera na própria vida uma potência criadora de esperança que supera qualquer tipo de obstáculo. Jesus não tem medo de perder também os poucos discípulos que ficaram, porque ele quis ser fiel a Deus Pai, no seu projeto de redenção. Tanto é verdade que provoca os discípulos de maneira categórica: “vocês querem ir embora também?”

Eles seguiam Jesus pelas próprias necessidades e não compreenderam que para segui-lo precisavam fazer que a própria vida fosse destinada ao bem e às necessidades dos outros, sobretudo para quem mais sofre. Pedro, perante o desafio do Mestre, faz a famosa e bela confissão: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que tu és o Santo de Deus”. Pedro, sem compreender tudo, aceita e crê em Jesus Filho de Deus. Professa a sua fé no pão partilhado e na sua Palavra, porque é daí que tira a verdadeira fome e sede do povo. Finalizando, pergunto: até que ponto você sabe desafiar qualquer situação da vida cotidiana para manter a opção do Mestre Jesus? Tem medo de segui-lo? Pedro nos deu uma aula a respeito como acreditar nele, embora com todas as limitações humanas.