Papa Francisco: dia mundial dos doentes


A celebração do XXIX Dia Mundial do Doente que tem lugar a 11 de fevereiro de 2021, memória de Nossa Senhora de Lurdes, é momento propício para prestar uma atenção especial às pessoas doentes e a quantos as assistem quer nos centros sanitários quer no seio das famílias e comunidades. Penso de modo particular nas pessoas que sofrem em todo o mundo os efeitos da pandemia do coronavírus. A todos, especialmente aos mais pobres e marginalizados, expresso a minha proximidade espiritual, assegurando a solicitude e o afeto da Igreja.

O tema deste Dia inspira-se no trecho evangélico em que Jesus critica a hipocrisia de quantos dizem mas não fazem (Mt 23, 1-12). Quando a fé fica reduzida a exercícios verbais estéreis, sem se envolver na história e nas necessidades do outro, então falha a coerência entre o credo professado e a vida real. O risco é grave; Jesus, para acautelar do perigo de derrapagem na idolatria de si mesmo, usa expressões fortes e afirma: «Um só é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos».

Esta crítica feita por Jesus àqueles que «dizem e não fazem» é sempre salutar para todos, pois ninguém está imune do mal da hipocrisia, um mal muito grave, cujo efeito é impedir-nos de desabrochar como filhos do único Pai, chamados a viver uma fraternidade universal.

Como reação à necessidade em que versa o irmão e a irmã, Jesus apresenta um modelo de comportamento totalmente oposto à hipocrisia: propõe deter-se, escutar, estabelecer uma relação direta e pessoal, sentir empatia e enternecimento, deixar-se comover pelo seu sofrimento até lhe valer e servir (Lc 10, 30-35).

A experiência da doença faz-nos sentir a nossa vulnerabilidade e, ao mesmo tempo, a necessidade natural do outro. Torna ainda mais nítida a nossa condição de criaturas, experimentando de maneira evidente a nossa dependência de Deus. De fato, quando estamos doentes, a incerteza, o temor e, por vezes, o pavor impregnam a mente e o coração; encontramo-nos numa situação de impotência, porque a saúde não depende das nossas capacidades nem do nosso afã (Mt 6, 27).

A doença obriga a questionar-se sobre o sentido da vida; uma pergunta que, na fé, se dirige a Deus. Nela, procura-se um significado novo e uma direção nova para a existência e, por vezes, pode não encontrar imediatamente uma resposta. Os próprios amigos e familiares nem sempre são capazes de nos ajudar nesta busca afanosa.
Emblemática a este respeito é a figura bíblica de Jó. A esposa e os amigos não conseguem acompanhá-lo na sua desventura; antes, acusam-no aumentando nele solidão e desorientamento. Jó cai num estado de abandono e confusão. Mas é precisamente através desta fragilidade extrema, rejeitando toda a hipocrisia e escolhendo o caminho da sinceridade para com Deus e os outros, que faz chegar o seu grito instante a Deus, que acaba por responder abrindo-lhe um novo horizonte: confirma que o seu sofrimento não é uma punição nem um castigo, tal como não é distanciamento de Deus nem sinal de indiferença d’Ele. E assim, do coração ferido e recuperado de Jó, brota aquela vibrante e comovente declaração ao Senhor: «Os meus ouvidos tinham ouvido falar de Ti, mas agora veem-Te os meus próprios olhos» (Jó 42, 5).

A doença tem sempre um rosto, e até mais do que um: o rosto de todas as pessoas doentes, mesmo daquelas que se sentem ignoradas, excluídas, vítimas de injustiças sociais que lhes negam direitos essenciais (Fratelli tutti, 22). A atual pandemia colocou em evidência tantas insuficiências dos sistemas sanitários e carências na assistência às pessoas doentes. (Continuação na próxima).


Cultura do cuidado como percurso de paz


“É doloroso constatar que, ao lado de numerosos testemunhos de caridade e solidariedade, infelizmente ganham novo impulso várias formas de nacionalismo, racismo, xenofobia e também guerras e conflitos que semeiam morte e destruição. Estes e outros acontecimentos, que marcaram o caminho da humanidade no ano de 2020, ensinam-nos a importância de cuidarmos uns dos outros e da criação a fim de se construir uma sociedade alicerçada em relações de fraternidade. Por isso, escolhi como tema desta mensagem «a cultura do cuidado como percurso de paz»; a cultura do cuidado para erradicar a cultura da indiferença, do descarte e do conflito, que hoje muitas vezes parece prevalecer.” Com essas palavras o papa Francisco nos convida como perseguir a paz nesse novo ano. A paz é possível por meio de uma informação de paz. Duas realidades fundamentais para a convivência humana. Parece que estão em risco. O nosso mundo, onde o progresso avança sempre mais e a tecnologia da mídia se expande com ritmos acelerados, mostra-nos a real ligação e dependência entre esses dois fatores, a comunicação e a informação.

Estamos dominados pelo determinismo tecnológico. Reconhecemos que o ser humano possa encontrar as soluções por meio da sua capacidade do saber e do dialogar. No entanto, nos questionamos: será que estamos ensaiando, vivendo esta dimensão do saber e do dialogar?

Pelo menos nós da Igreja nos interrogamos o que estamos fazendo, de fato, em relação a isso. Despertemos, porque a paz tem pressa, não pode nos esperar, porque bilhões de crianças, mulheres e homens estão vivendo de maneira dramática. A paz não é simplesmente a ausência da guerra e nem é promovida apenas para evitar o conflito mais vasto. Ao contrário, ajuda a orientar o nosso raciocínio e as nossas ações para o bem de todos. Ela se torna uma filosofia de ação que nos ajuda a sermos todos responsáveis pelo bem comum e nos obriga a dedicarmos todos os nossos esforços para a sua causa.

Vejamos, por exemplo, como a informação é submetida a limitações e condicionamentos políticos e econômicos, arriscando, assim, de ser sempre menos independente, livre e insuficiente. Desde sempre, a guerra como o terrorismo se alimentam por uma informação facciosa, parcial e duvidosa que gera medo, ódio e violência. Ao mesmo tempo, cada vez que se esconde ou se muda a verdade, que se obscurece uma manifestação ou projeto de paz, que se privilegiam os interesses de uns no lugar do bem comum, cumpre-se assim um grave atentado à construção da paz.

Infelizmente, os grandes e poderosos meios de informação geralmente difundem uma falsa ideia da paz que se associa a inércia, renúncia, entrega, resignação, impotência. As imagens, palavras e atitudes irresponsáveis transmitem princípios e comportamentos que corroem as raízes por uma cultura da paz. Porém, a paz se gera e mantém com uma informação e uma comunicação livre, se preocupa com o bem comum, é próxima aos direitos e as necessidades das pessoas. Assim sendo, uma livre informação pode crescer somente na paz.

Por isso, eu acredito na paz, porém, não podemos nos iludir que isto aconteça sem uma nossa colaboração. O nosso papel é fundamental em acreditar que é possível se dedicar para dar a nossa contribuição. Nesse sentido, no ano 2021 não devemos “dormir”, mas acordar as nossas aspirações para uma cultura de paz.


Natal na pandemia


A celebração do Santo Natal na pandemia nos deixa bem tristes e mais medrosos. Perante uma realidade de incertezas da vida o nascimento de Jesus nos fala de uma vida que tem coragem de olhar além de tudo que nos aflige e nos abala.

 

Ele se torna pequeno para ser acolhido por todos nós que estamos passando esses momentos da nossa história tão assustadora. Nosso Deus é sábio em nos ajudar a compartilhar sua divindade compartilhando a dramaticidade da nossa vida.

 

É nisso que consiste nossa dignidade. Somos atraídos para essa verdade. Essa experiência de fé marca a nossa história. Portanto, imitando os pastores queremos anunciar nesses momentos difíceis boas notícias. Notícias animadoras, confortantes que fazem esperar grandes coisas, horizontes novos e sem fim. Incentivar novas relações sociais, comunitárias e familiares mais justas e fraternas.

 

Porém, em muitas ocasiões, quanta falta de transparência em tudo isso! Podem ver que as problemáticas, as dificuldades de se entender, os conflitos que surgem em consequência disso, tornam-se quase como uma denúncia da nossa não correta ação de vida. Assim sendo, creio que é necessário imitarmos aqueles pastores. Hoje em dia, estamos vivendo um bombardeio de informações, sobretudo nas redes sociais, mas tudo isso nos leva a ter um conhecimento real e verdadeiro da realidade ou cria mais confusão na nossa cabeça, favorecendo mais conflitos pessoais e sociais? E aquela gruta onde nasceu o Menino Jesus? A humildade e a simplicidade revelam um fato extraordinário de Deus que se rebaixa até nós.

 

Pergunto-me: se Deus se torna presente na nossa vida com total humildade, por que nós não podemos estar juntos despojados de qualquer arrogância, soberba, altivez? O Altíssimo se faz presentíssimo, não desprezando a nossa realidade, mas, ao contrário, compartilhando conosco o seu grande poder porque é preocupado com a nossa vida. Então, como queremos caminhar com os outros para compartilharmos aquilo que somos? Temos a coragem de nos rebaixar para favorecer os outros? A onipotência do nosso Deus, por incrível que pareça, se manifesta nessa capacidade de entrar na nossa vida. Uma verdadeira e transparente convivência é totalmente humilde porque quer favorecer a vida e, sobretudo, de quem mais necessita. É solidária e fraterna. Não é uma elucubração de palavras e pensamentos, mas de testemunho de vida.

 

Aquele silêncio recolhido daquela gruta emana uma magnífica e poderosa comunicação: a vida não tem limite. Quantas vezes não sabemos priorizar o silêncio, e sobretudo hoje em dia quando estamos recolhidos, isolados por causa dessa pandemia, temos medo de estar sós.  No entanto, no nascimento, Deus não fez manifestações de praça, barulhos de palavras, não tocaram tambores, ao contrário de nós, quando queremos mostrar algo de importante usamos todos os possíveis meios que estão ao nosso dispor para contar o evento da nossa vida.

Deus prefere comunicar no silêncio, porém, nós preferimos comunicar com barulhos. Que diferença! Creio que esta grande solenidade do Santo Natal possa se tornar para todos um momento de reflexão sobre como podemos aperfeiçoar a relação entre nós nesses tempos difíceis.

 

Feliz e Santo Natal.


Uma notícia superficial pode até destruir uma pessoa


A palavra ética provém do grego que quer dizer moral. Portanto, é a ciência que tem como objeto os valores em relação à ação do ser humano, baseando-se, sobretudo, no comportamento dele. A ética em quanto normativa se apresenta ao ser humano como uma tarefa, um fim, um ideal para realizar um esforço positivo ou remover os obstáculos que a sociedade, a cultura e a tradição se opõem. Em outros termos, a ética é o conjunto de valores com os quais se pode formular juízos sobre o que é bom, correto ou não.

A ética, portanto, tem a capacidade de discernir valores: aqueles bons, daqueles ruins; aqueles corretos, daqueles errados; aqueles praticáveis dos impraticáveis. Por isso, existe um código deontológico na comunicação (por deontologia, explica-se, é a filosofia moral que individua e debate os deveres das condições profissionais). Este código não tira a liberdade dos jornalistas, dos profissionais que atuam na mídia em geral, mas é um sistema de coordenação para orientar a atividade de cada membro da categoria. É como se fosse um manual que individua o mínimo ético comum.
Isto não significa, repito, tirar o direito de manifestar livremente o próprio pensamento com palavras ou qualquer outro meio de difusão. Todos os que trabalham no campo comunicacional têm a obrigação de respeitar a verdade substancial dos fatos, observando os deveres impostos pela lealdade e pela fé. A presença da ética impõe, além do mais, a todos os jornalistas e editores a correção de eventuais notícias ditas de formas erradas, e a corrigir eventuais erros, e sobretudo a respeitar o segredo profissional sobre a fonte da notícia.

A liberdade da imprensa deve ser guardada como um direito inalienável dos cidadãos. Um famoso político executivo, que não quero citar o nome, dizia: “Prefiro publicar uma notícia velha amanhã no lugar de uma falsa hoje”. Neste sentido, podemos atingir a questão da privacidade que oferece uma proteção das informações pessoais que são conservadas de maneira legítimas nos arquivos das organizações públicas e privadas.

A privacidade não implica em esconder um terrível segredo. Ela não faz outra coisa, senão reconhecer a importância de não dar a qualquer um o poder de fiscalizar a vida dos outros para o respeito deles próprios, a dignidade pessoal e a segurança, a autonomia e a identidade, em geral, a integridade e a imunidade da pessoa. A privacidade não quer dizer ser sempre ligada a uma condição de vida de um indivíduo único, mas ela pode ser compartilhada entre indivíduos ou pessoas que tenham algo em comum.

Neste sentido, é de suma importância respeitar esta ação de privacidade porque não sabemos, na verdade, a realidade e assim poderíamos prejudicar a existência daqueles indivíduos. Respeitar a privacidade significa também reconhecer quanto é importante o ser humano, embora que nas maiorias das vezes não seja reconhecido. Na bíblia, encontramos na leitura dos salmos que diz “quem conhece o ser humano, senão somente Deus?”. A privacidade, portanto, na comunicação é um momento de respeito, porque na verdade não conhecemos a verdadeira situação. Às vezes, reproduzir um fato ou notícia de maneira superficial pode até destruir uma pessoa.


Sem uma verdadeira comunicação as pessoas se sentem perdidas


A vida da cidade é bem diferente da vida rural. Então, qual é impacto comunicacional que gera a convivência das pessoas entre as duas realidades?

Os laços de união entre as pessoas na vida rural são bem mais consistentes que na vida urbana. O sentido de pertencer a um grupo ou família é bem determinante. No entanto, na vida urbana, a pessoa se individualiza cada vez mais, sendo levada a tomar decisões sozinha, praticamente isolando-se. A pessoa no mundo urbano se torna o centro de tudo, e a comunidade ou grupo torna-se somente uma referência optativa. Exatamente ao contrário do mundo rural. O ser humano do mundo urbano é sempre mais solitário, porém, com o prazer de estar, às vezes, imergido na massa popular. Gosta do anonimato. Portanto, uma população concentrada na maior parte nas cidades, temos como consequência uma população marcada por um excesso de individualização.

Aí a gente se pergunta: qual é a comunicação que prevalece nesse tipo de vivência? Reconhecemos que o mundo urbano oferece também grandes possibilidades de conhecimento e de progresso, mas deixa as pessoas fragilizadas no tecido comunitário, e também sem rumo. Por que isso? Porque a pessoa em si, ainda que seja forte e preparada, não tem capacidade de viver sozinha. Não suporta uma vida determinada no isolamento. Não é suficiente viver encostados uns nos outros. Precisamos compartilhar. No final, a verdadeira comunicaçao é isso próprio: é um processo de identificação entre as pessoas. Com isso, estamos vendo que se torna difícil uma comunicação no mundo urbano, embora que se possua muita tecnologia de comunicação.

O indivíduo urbano tem a sua disposição uma mídia avançada, mas se torna incapaz de fazer uma verdadeira comunicação. Segundo pesquisas religiosas realizadas alguns anos atrás, a maioria dos brasileiros fez opção da religião por motivação pessoal, ditada pelos seus interesses de circunstância. Veja como o critério da subjetividade se tornou mais importante do que o critério da objetividade. A cultura urbana enaltece esse tipo de opção de vida subjetiva. Qual o resultado de tudo isso? Nesse caso, teremos uma perspectiva de um florescente crescimento de pluralismo religioso. O ser humano da cultura urbana tenta uma identidade, também na questão religiosa, a partir das suas necessidades, e quer uma resposta imediata. Com isso, o pluralismo do novo fenômeno religioso responde aos seus anseios.

Ele entra solitário e sai reconhecido. Fortalece uma nova identidade humana. O ser humano imergido em uma cultura urbana é cada vez mais lançado além das suas fronteiras, dos seus limites. Torna-se planetário e, assim, perde de vista aquele espaço de intercomunicação mais próxima. Tem dificuldades de se comunicar com as pessoas que vivem perto dele. Assim sendo, precisa resgatar uma comunicação que saiba valorizar o intercâmbio humano, e tentar relativizar a importância dos grandes meios de comunicação na convivência social.


A midia deve favorecer a fraternidade


Um jovem me falou: “Padre, lá em casa ninguém me entende e eu assim fico sempre com o meu computador navegando na internet.”
A comunicação, o grande desafio do nosso tempo, é o fundamento existencial da relação humana, que tem o poder de fazer passar tal relação da essencial à existência, do intemporal (sem tempo) ao histórico. O destinatário assim procede em direção à meta de se tornar, não somente o que recebe comunicação, mas também que comunica. É um sujeito que procura e cria, determinado aprender a ser. É um laboratório de cor, sentimento, fantasia, razão, que o faz sujeito receptor e transmissor no mesmo tempo.

Como destinatário da comunicação audiovisual e digital, vive hoje imergido numa realidade flutuante, composta e heterogenia, experimentado o assim chamado conhecimento empírico. No entanto, não pode se tornar um recipiente, mas um filtro. Este é o desafio que se apresenta hoje. Porém, não podemos negar a grande importância que têm os instrumentos da comunicação social em promover a unidade e o progresso da família humana.
A Igreja é consciente de tudo isso, como confirma o decreto conciliar Vaticano II, Inter Mirífica (Entre as maravilhas), e o constante magistério pontifício. Da mensagem de S. João Paulo II para a 25ª jornada mundial para as comunicações (A proclamação da mensagem de Cristo nos meios de comunicação), extrai-se a seguinte consideração: “Desde muito tempo, a Igreja considera que a mídia seja vista como dom de Deus. O fim desses dons é a aproximação uns dos outros, mais intimamente na fraternidade e na busca do nosso destino humano. O uso dos meios de comunicação, hoje, a total disposição dos seres humanos, requer um alto sentido de responsabilidade com o qual se faz o seu uso. Neste quadro, cada membro da família humana, desde o mais simples consumidor ao maior produtor, tem sempre uma responsabilidade individual”.

Não obstante, o progresso da tecnologia precisa reconhecer que o nosso tempo, e também a mídia, é marcado por um difuso sentido de insegurança. É a insegurança que gera os seus medos. Em cada época, o ser humano teve os seus medos. Por exemplo, a época da civilização agrícola. Neste sentido, foi justamente relevado que o medo foi induzido pelo mundo externo: medo do cosmo com a sua imprevisibilidade gera insegurança. Isso levava a uma tensão fortemente mirada na busca das leis da natureza para dominar. Nesta perspectiva, a abertura ao religioso era reconhecida e gerava na boa e na má sorte aquela solidariedade que, infelizmente, hoje falta na era midiática.

Passando do medo cosmológico àquele que hoje podemos chamar de medo antropológico, o beneficiado pelas comunicações sociais se acha angustiado por um sentido de desorientação. O tempo da telemática é, portanto, contraposto por um sentido geral de mal estar existencial, que constitui aquilo que chamamos de medo do ser humano contemporâneo. Ocorre, portanto, sermos preparados mentalmente para enfrentar esta situação de poder que seduz e, ao mesmo tempo, faz medo.


A fala deve fazer triunfar a caridade


O mundo está cheio de palavras. O que é efetivamente a palavra? Segundo o filósofo La Croix: “A palavra é possuir a mesma humanidade”. Por meio da palavra se fixa o ponto de partida do diálogo. Nesta perspectiva, tem de se colocar a relação “pessoa, liberdade, palavra”. O falar da pessoa liberta para dizer algo de verdadeiro.

Na liberdade e na relação, o ser humano constrói a cada dia, traçando a estrada da alegria que leva à civilização autêntica, isto é, a civilização cristã. O ser humano, como sujeito comunicativo, por meio da liberdade e da palavra dele, deve atingir constantemente a realidade espiritual, estabelecendo, assim, aquele centro de gravitação que consiste em enfrentar o desafio do nosso tempo dominado pelo consumismo e pelo abuso do poder.

O ser humano é, portanto, chamado a realizar a “pessoa do amor”, no qual se juntam a “pessoa da força” e a “pessoa do direito”. Um válido compromisso da mídia contribuirá de tal modo a fazer triunfar a virtude positivamente contagiosa definida por muitos filósofos como a virtude da caridade. A palavra cristã, assim sendo, é, em síntese, comunicativa, porque traz sentido e vida e não podemos certamente defini-la de “trombeta, címbalo sonoro”.

O monge Gregório Magno, que se tornou papa no ano 590, chamava a atenção de todos durante seus pronunciamentos dizendo: “Os discursos ociosos são palavras ao vento. Quando não se freia a língua dos discursos inúteis, chega-se, sem perceber, até a chamada de atenção de estultos e temerários. Começa com não dar atenção às palavras ociosas, alcançam-se aquelas danosas; primeiro se acha prazer ao falar da vida dos outros, depois se começa a colocar em discussão a própria vida”.

É a partir disso que surgem os estímulos, a ira, ódio, raiva e, desse modo, acaba-se a paz do coração. Pode acontecer, às vezes, que também pelo medo podemos nos calar além do necessário. De fato, com o silêncio exagerado, devemos sofrer no coração uma grave falação de pensamentos, que fervem com violência quanto mais ficam fechados no nosso indiscreto silêncio. Às vezes, a mente se ensoberbece do seu silêncio e olha como imperfeitos aqueles que ouvem falar. Ao mesmo tempo, mantém fechada a boca do corpo, e não se conscientizam de que com a soberba abre a porta aos vícios.

É verdade que hoje se escreve pouco a respeito do passado. A correspondência epistolar foi reduzida ao mínimo, notadamente por se ter a disposição sistemas de comunicação em tempo real para imensas distâncias. Em compensação, fala-se muito mais. Se quiséssemos interpelar aos antigos cristãos, permitindo a eles olhar os nossos sistemas de comunicação, nos recomendariam de escolher palavras e discursos capazes de fazer bons e verdadeiros exemplos àqueles que falam e aos que escutam.

Temos na verdade um grande desafio, o de adequar a palavra à liberdade, sem deixar que o silêncio da tecnologia seja uma barreira, mas sim um meio de evangelização concreto.


Hoje as notícias correm mais rápidas


O que está acontecendo? Passaram mais de 20 dias e não recebi mais nenhuma Fake News (Notícia falsa). As redes sociais favoreceram esse modo de comunicar. Distorcendo totalmente a realidade. Assim sendo, as notícias falsas são sempre notícias. E relembrando-nos o que falou o ex-ministro Goebbels da Alemanha de Hitler: “Uma mentira contada mil vezes, torna-se uma verdade”, assim nos leva a não compreender mais a verdade. Por que essa lógica?

Fechada esse parêntese, hoje as notícias correm mais rápidas e só depende da gente intercepta-las. Quanta vez me aconteceu de ter anticipado informações através dos motores de busca via on-line! O digital tem o mérito que pode ser consultado em qualquer momento e lugar sem grandes recursos e não precisa imprimir. Tudo isso a custos bem acessiveis a qualquer um. Gratifica a sua ação.

Além do mais, nestes últimos anos, o número de pessoas que frequentam a Internet aumenta cada vez mais. Isto é confirmado por uma infinidade de estatísticas, tanto nacional quanto internacional. Somente o Brasil tem quantos milhões de internautas? A praça digital é cada vez mais frequentada. E, assim, o número de pessoas e de ideias que posso entrar em contato diariamente aumentam de maneira sensivel. Consigo me manter informado em muitas coisas que, em um passado até recente, isto me era impossivel. Torna-me fácil explorar novas realidades geograficas, sociais e eclesiais quando, no passado, para ter isso precisava se locomover pessoalmente, fazer viagens incansáveis e extenuantes.

Hoje em dia, tudo isso se reverteu, ficando sentado numa cadeira em frente a um simples computador. Quando tenho dificuldade em solucionar algo pertinente ao meu interesse, compartilho com os meus contatos nos motores de busca.

Eu fico feliz quando consigo lançar uma ideia no mundo, e o mundo digital nisto me ajuda muito, sem encontrar dificuldade de qualquer natureza. É claro que em tudo isso precisa respeitar uma assim chamada deontologia profissional. Isto me trasforma na minha concepção de pensar e agir. Rende-me cada vez mais universal e menos local. Abre-me a mente para os fatos mais consistentes e fecha-me aos insignificantes. Reconheco que esta nova técnologia é um útil instrumento para a nossa evangelização. Porém, precisamos saber usa-la.

Repito: não se trata somente de um símples uso dela, mas precisamos saber o que significa e a portada dela no nosso dia a dia. Devemos discernir como condiciona a nossa realidade. Nisto já pude mostrar através de vários artigos antecedentes neste jornal. Esta cultura digital me facilitou uma leitura mais veloz dos textos. Ebook reader, smartphone, iPad são novos instrumentos tecnológicos que nos permitem de ler um livro em qualquer lugar e momento, com uma certa rapidez. Imagino se uma evangelização entrasse nesses parâmetros o que deveríamos fazer? Certamente a lógica digital é mais presente no mundo jovem.

Com essa nova lógica, torno-me um leitor diferente e creio mais exigente, porque quero saber fazer distinção daquilo que é verdadeiro e daquilo que é falso.


A visita aos nossos mortos


Dia dos finados, dia de visita aos cemitérios. Como é bom relembrar, rezar pelos parentes, amigos que faleceram. Relembrar e homenagear a vida deles é reviver mais intensamente a nossa vida, a nossa peregrinação terrena.

Refletir sobre a morte significa experimentar o profundo silêncio da vida. Um silêncio sem resposta, angustiante, gélido e ameaçador. O ser humano, perante ela, sente-se totalmente só. Nós temos consciência de que deveremos morrer, é isto que mais nos dá medo, não tanto a morte em si. Nós, cristãos, como enfrentamos essa realidade humana? Nós, seguidores de Jesus, como reagimos perante o fato de morrer?

O morrer faz parte da vida humana. A mesma morte se torna um instrumento de vida. Parece um absurdo aquilo que estou escrevendo, mas a verdade é isso mesmo, porque, sem a morte, como teríamos acesso definitivo para a vida que somos chamados?

Quando as pessoas nascem, elas não têm consciência daquilo que está acontecendo. Somente no decorrer de suas vidas vão adquirindo conhecimento e se conscientizando da natureza e da existência humana. Com a morte, cessa essa conscientização. Por isso, nascer e morrer são uma entrega total de si. Os poderes humanos assim, no começo e no fim, se limitam a uma total dependência que garantem a sua promoção de vida. Quem nos ajuda a compreender melhor isso é o nosso único Mestre Jesus, que, com as suas palavras e o seu testemunho, nos dá uma resposta definitiva sobre essa confiança em depender do Deus da vida.

Não temos outras respostas no curso histórico da humanidade. Nesse sentido, lendo a Bíblia, podemos entender melhor tudo isso. O Antigo Testamento nos revela que Deus quer estabelecer uma relação pessoal com o próprio povo. Está escrito em Amós (5,4): “Procurai-me e vivereis.” Assim sendo, é uma relação de confiança do povo com o seu Deus. Um Deus que garante a vida. Porém, as pessoas têm que fazer uma opção de obediência a Ele, que garante a vida, ou de desobediência, que leva a morte.

Desde o começo da Bíblia, fala-se também da morte. Porém, não como projeto de Deus. Deus criou tudo para a vida. Por que, então, a morte? O livro do Gênesis nos mostra que pode acontecer a morte na medida em que o ser humano fique longe Dele. Assim diz a Palavra de Deus: “Mas não pode comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, com certeza você morrerá (Gn 2,17).” Fica bem claro, portanto: perdendo a comunhão com Deus, compromete-se a vida. É essa obediência a Ele que nos afasta da morte. Nesse sentido, se a morte foi criada, certamente não foi Deus, mas, sim, o próprio ser humano.

Deus é somente o Senhor da vida. Nisso consiste o pecado do ser humano de ter ameaçado o poder da vida, que pertence a Deus. Consequência de tudo isso: chegada da morte. Então acendemos as velas nos cemitérios para acender a luz da nossa esperança na vida que Deus nos oferece.


Ter consciência dos nossos limites da identidade


Hoje em dia, qual é a sua identificação? Quem acha de ser?

 

O que está em jogo é a própria identidade pessoal. Nesse sentido, questionar-se é como um espelho que mantém viva a sua capacidade de não perder de vista o conhecimento de ‘SI’. Do ponto de vista psicológico, podemos dizer que muitos elementos da vida mental não conseguem ter uma constância. Ou seja, temos componentes que vão e vem, conforme as circunstâncias da vida.

Além do mais, há componentes, inclusive, que agem por si mesmo, iludindo que sejam decisões do nosso ‘si’, da nossa consciência. Esse grande questionamento da nossa identidade pessoal a revista New Scientist demonstrou, por meio de uma pesquisa, que a identidade é um conjunto de componentes. Agora a questão é essa: como esses componentes ficam unidos entre eles? De outro jeito, faltando essa unidade, continuidade, não teríamos capacidade de nos conceber como pessoa única. Portanto, psicologicamente falando, o que nos tem unidos na percepção de tantas informações que vem tanto do corpo quanto do mundo externo da gente?

Justamente, o que mantém unido tudo isso, é a nossa personalidade, o ‘si’, a própria identidade. Na verdade, trata-se de uma ação bem complexa, em que o cérebro faz a parte dominante, e que na maioria das vezes a gente não tem consciência. Além do mais, existe também a ilusão de sermos os autores conscientes das nossas ações.

É bom dizer também que a nossa percepção identifica o presente como algo reconstruído que tinha acabado de passar. Ou seja, talvez não exista o presente em ‘si’. Os pesquisadores dizem que não temos capacidade mentais de conhecer o futuro porque não percebemos, de fato, o presente, mas, sim, o passado imediato que o transformamos como presente. Com isso, podemos dizer que chegamos atrasados na percepção da realidade. Com essa margem de diferença, por quanto possa ser mínima, não podemos dizer que conhecemos 100% o presente. Porém, segundo o psicólogo Bruce Hood, da Universidade de Bristol, é por meio das relações com os outros que damos mais consistência ao próprio ‘si’.

Naturalmente, para poder interagir com os outros, precisamos ter consciência dos nossos limites da identidade. Isto nem sempre é alcançável. Veja bem, no caso das pessoas que sofrem autismo há maior dificuldade nesse relacionamento, e também de compreender as ações dos outros. Além disso, segundo alguns psicólogos, incide muito a interação social na construção e sustentabilidade do ‘si’. E essa interação social se diferencia em contextos culturais diferentes.

Essa diferença nos testemunha que, em contextos culturais diferentes, se formam ‘Si’ não iguais, cada um com a sua bagagem que mantém a identidade pessoal. Outro elemento importante que foi relevado por um grupo de pesquisadores americanos é que a saudade teria o papel principal de manter a condição psicológica de continuidade do próprio ‘Si’. Veja como acontece tudo isso. Na medida em que tens o prazer de lembrar o passado, na realidade estás dando valor às próprias identidades passadas e também às pessoas, aos lugares e fatos da vida transcorrida. A saudade está a serviço da unidade do ‘Si’.