José Sarney

Faz-não-faz e Desfaz

 

O Presidente dos Estados Unidos tem estarrecido o mundo com suas exóticas colocações, que, no mínimo e no máximo, representam um jogo de faz-e-esconde, o que tem mantido as nações em suspense sem saber por onde ele quer ir e para onde vai. Parece os versos do grande poeta português José Régio: “Se ao que busco saber nenhum de vós responde, / Por que me repetis: ‘vem por aqui’? / Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / a ir por aí… […] Ninguém me diga: ‘vem por aqui’! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou… / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / —Sei que não vou por aí!”

 

Este é o caso de todos no mundo inteiro: não sabemos por onde vamos, não sabemos para onde vamos, mas sabemos que não vamos atrás do Trump.

 

A última dele foi a de que iria destruir uma civilização, isto é, a milenar civilização persa, como se isso fosse possível. Em seguida, afirmou que o Irã seria consumido pelo fogo, numa tragédia igual àquela de Sodoma e Gomorra. Mas no dia seguinte, já na quarta-feira, pensando melhor, Trump voltou atrás e, numa boa volta, resolveu parar com essa coisa escatológica de fim do mundo e negociou uma trégua em troca da abertura do Estreito de Hormuz.

 

Essa guerra com o Irã sempre foi difícil de ser entendida ou de se aceitar a razão, a sem-razão, de sua fúria, nem as alegadas justificativas. O fato que é difícil de explicar é, depois de destruída — obliterada — a capacidade iraniana de enriquecimento do urânio, como esse país produziria uma bomba atômica que pudesse ameaçar Estados Unidos e/ou Israel. Israel e Irã sempre pregaram a mútua destruição, mas os ataques sempre partiram de Israel.

 

O que ficou evidente é que, enquanto os Estados Unidos negociavam um acordo com o Irã, os israelenses descobriram onde as lideranças iranianas iriam se reunir para discutir os termos desse acordo e imediatamente o Netanyahu convenceu Donald Trump de que deviam aproveitar essa reunião para eliminar todas as lideranças iranianas. Com o assassinato destes líderes, cairiam o Governo iraniano e o regime teocrático, assegurando uma vitória total com menor custo do que o de uma guerra. Daí a afirmação inicial de Trump de que em quatro dias a guerra estaria acabada.

 

Isso bastou para convencer Trump a entrar em uma guerra sem uma análise mais aprofundada de que, com o componente religioso e dogmático que leva ao fanatismo do povo, liquidados os seus líderes, outros apareceriam imediatamente em substituição àqueles, sem solução de continuidade. Talvez os estudos tenham sido feitos, mas se sabe que Trump não lê nem ouve nada que não esteja na televisão — e por isso logo demitiu o chefe da inteligência americana que disse ter avisado que o Irã não era uma ameaça. Não previu as consequências que adviriam ao comércio mundial com o comprometimento das exportações do Golfo Pérsico, nem tomou providências para proteger as bases americanas na região. Ignorou que pelo Estreito de Hormuz transitavam 20% de todo o consumo mundial de petróleo.

 

O fracasso dessa ausência de qualquer plano estratégico imediatamente aflorou, e o resultado é que a economia mundial entrou em crise, com impactos considerados mais graves que os da crise de 1972, quando houve o famoso choque do petróleo. A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz.

 

Trump não acredita na revolta da opinião pública dos Estados Unidos, que hoje está sendo divulgada: 60% da população é contra sua decisão de fazer essa guerra levado pelo israelense Netanyahu — que aproveitou o momento para mais uma vez destruir o Líbano, várias vezes massacrado pelo vizinho mais forte.

 

Se soube agora que, no ano passado, o Pentágono chamou o Núncio Apostólico para dizer que, se o Papa não aderisse ao trumpismo, os americanos fariam um novo papado paralelo — como o de Avignon. O Papa, que está com Deus e não com o Diabo, sabe por onde vai e não se abalou, continuou dizendo que as orações de quem faz a guerra não são ouvidas por Deus.

 

Temos que, com o Papa, rezar para que o cessar-fogo, mesmo com intermitência, acabe com os crimes contra os civis e dure até poder surgir um espaço para a paz.

 

A Paz é o que o povo americano e o resto do mundo querem.

 

 

 

Minha Semana Santa

 

Mais de uma vez Marly e eu, com o casal Emília e Álvaro Pacheco — meu saudoso amigo —, pegamos o táxi do inesquecível Seu Pedro, uma Mercedes preta, e, durante a Semana Santa, fomos pelo interior de Portugal até Santiago de Compostela, aonde sempre chegávamos na quinta-feira à noite e nos hospedávamos no Hostal dos Reis Católicos, ao lado da Catedral, com sua praça cheia de peregrinos, chegando de todos os lugares do mundo para assistir às solenidades litúrgicas, desde as procissões dos encapuçados até as bênçãos do óleo e da vela, na Matriz de novecentos anos, que fica, durante todo o ano, com sua chama acesa, com o cheiro de incenso do Botafumeiro invadindo e perfumando toda a igreja, mas sem a missão do passado: eliminar o odor dos corpos sem higiene que assistiam a missas e sermões na Idade Média.

 

Lembro também da Sexta-Feira da minha infância. Recordo estes espaços de tempo da vida sempre agradecendo as bênçãos que Ele me deu.

 

A infância é o tempo da estreita amizade com Deus. Quando ainda não chegaram as preocupações e dúvidas que nos darão o saibo da amargura, que fica sempre com uma parte dos nossos anos.

 

Deus era a sombra que eu sabia ter me dado a vida e que me assegurava a Eternidade, que naqueles tempos não era o céu prometido, mas o paraíso que ele me Ele dera para viver na Terra: a casa do meu avô, o engenho, os campos verdes, os sons dos sinos tocando nas alegrias, até que com os anos a vida passasse a ter o cheiro azedo da garapa.

 

Nesse tempo, meu Jesus Cristinho morava na cidade de São Bento, onde despertei para a vida. Ele estava na igreja entre as colunas pintadas imitando mármore. Nos tempos da Paixão, eu chorava com a revelação de que homens maus o tinham crucificado, pregado na cruz, trespassado por lança e que Judas o traíra.

 

O tempo da Quaresma era a oração e o silêncio em que os nossos jogos e sorrisos não podiam ser exuberantes porque Jesus iria morrer. A procissão do encontro, o Bom Jesus da Cana Verde, o lava-pés, o canto da Verônica e as estações da Paixão. E nos preparávamos para malhar o Judas no Sábado de Aleluia.

 

Tudo tinha um sentido misterioso, em que a razão não entrava, só a emoção. A Igreja governava as nossas referências, os domingos, as ladainhas, o rosário, as nossas súplicas e conversas com Deus. Minha mãe nos ensinava tudo sobre o segredo da vida, do Céu e da Terra, a Paixão de Jesus.

 

Depois veio a mocidade, a adolescência e o domínio da batalha de vida. Nesse tempo não existe mais a abstração, é o momento contínuo de conquistar a base, a realidade dos espaços de nossa preparação para a vida. A Paixão fica reduzida na nossa esperança da ressureição, como disse o poeta francês Pierre Emmanuel: “Este imenso vazio entre a morte de Deus e a esperança de vê-lo ressuscitado.”

 

Dois mil e vinte e seis anos depois o Cristianismo não conseguiu transformar o homem, que vive ainda prisioneiro da violência, do pecado, como síntese de todas as escravidões do corpo e da alma.

 

O autor mais lido da humanidade é Cristo. Um homem que, paradoxalmente, não escreveu nada, ao que se sabe, apenas algumas palavras na areia. Contudo, a força de sua doutrina desencadeou uma revolução na história do mundo pela palavra. Ele revelou, num tempo de escravos e senhores, de uma sociedade perdida pela divisão de castas, condições e submissões, uma verdade simples: a de que todos somos irmãos, todos iguais, todos filhos de Deus e todos destinados à salvação. Ele nos ensinou a buscar a paz interior. Não a ausência da guerra, mas a presença da paz dentro de nós mesmos, sem nada a cobrar, sem ressentimentos, sem a desgraça corroendo o corpo e a alma pela escravidão da maldade.

 

Cristo nos ensinou a perdoar e nos assegurou o caminho da salvação. Encontrar a felicidade na certeza de que o homem tem um destino transcendental. “O fim sem fim do começo de tudo”, como afirmava o Padre Vieira.

 

E hoje, no momento da velhice, é Ele que estará ao meu lado no meu Encontro, com Deus me indagando: “José, onde estão tuas mãos que eu enchi de estrelas?” E eu Lhe responderei: “Estão aqui neste balde de juçaras, sofrimentos e gratidão.”

 

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As guerras sem lei

 

A guerra é a mais atroz das ações humanas, mas nos persegue desde todos os tempos. Por outro lado, a ideia de que há uma superioridade a ser obtida pela força contraria o ensinamento das religiões e dos grandes princípios civis desde que se tem notícia. Todos falam de paz. E todos praticaram e praticam a guerra.

 

Também é muito antiga a ideia de que há limites a ser respeitados. A inviolabilidade dos embaixadores, a trégua para retirada dos mortos, a intocabilidade dos enfermeiros vêm de muito longe. Há registros de tratados de paz que definiam direitos e deveres mútuos entre reinos da Mesopotâmia, entre hititas e egípcios, na Grécia antiga. Os romanos formularam o jus gentium, que estabelecia as relações entre os estrangeiros e os romanos, inclusive dentro da cidade de Roma. O confucionismo formulou regras para o imenso universo dos reinos chineses, e na Índia os estados formularam regras de neutralidade.

 

Na idade média europeia o direito canônico substituiu o direito civil, definindo regras internacionais, enquanto no mundo islâmico o siyar regulava as relações com os estrangeiros. Discutia-se sobretudo a legitimidade da guerra, a guerra justa. No renascimento começaram a surgir os grandes tratados, como os de Alberico Gentili, de Francisco Suárez e, sobretudo, o de Hugo Grotius, com seu De Jure Belli ac Pacis. Distinguia-se o jus ad bellum, o direito de fazer a guerra, e o jus in bello, o direito de como fazer a guerra.

 

Mas é no séc. XIX que se forma a primeira regra mais objetiva de um estado. Abraham Lincoln, com sua Ordem Geral no 100, impôs o Lieber Code, que estabelecia os limites da necessidade militar, o princípio da humanidade — proibia o uso da crueldade, a tortura, o uso de veneno —, a distinção entre combatentes e civis, o status do prisioneiro de guerra etc. Algum tempo depois o negociante suíço Henry Dunant propôs em Un Souvenir de Solferino uma agência de ajuda humanitária em tempos de guerra, que resultou na criação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, e sua neutralidade, permitindo que agisse nos campos de batalha. Logo depois o governo suíço convocou os países europeus, os Estados Unidos, o México e o Brasil para uma conferência diplomática, que resultou na primeira Convenção de Genebra. Apesar de vários pequenos tratados terem tentado aprimorar seus termos, poucos países aderiram a eles. Foi só em 1949, ao final da Segunda Guerra, que a Convenção, atualizada, se internalizou, com a adesão de 196 países.

 

Com o surgimento da bomba nuclear, naturalmente, qualquer regra, sobretudo a mais importante, que é a proteção dos civis, torna-se nula. Daí a importância dos acordos entre as grandes potências nucleares, que recentemente deixaram de vigorar por falta de juízo de Estados Unidos e Rússia. O mundo não ficará tranquilo enquanto a ameaça nuclear não for completamente afastada, mas isso é um sonho que infelizmente não verei. Dei a minha contribuição quando eu e Alfonsín tornamos a América do Sul a única região do mundo sem armas nucleares.

 

Há sempre um bárbaro que ignora, propositalmente, as leis da guerra, mesmo quando elas estão inseridas nos princípios de seu próprio direito. Mesmo quando fazem parte de regras que existiram antes de serem escritas — como a de que não se ataca de surpresa um país com quem se está negociando um acordo diplomático, como aconteceu agora com o Irã, vítima, pela segunda vez, de uma agressão completamente absurda, em que Trump certamente deu prioridade ao que ouviu de Netanyahu. Também é inaceitável que se atinja a população civil — não há desculpa aceitável, diante da impressionante precisão das informações de suas agências de inteligência e de suas armas, para o assassinato de mais de 160 meninas numa escola.

 

Imaginar que o Irã negocie uma terceira vez, que recue e deixe aberto o Estreito de Hormuz, que deixe inspetores examinar sua pesquisa nuclear e seus projetos de armamento só poderia passar na cabeça fértil do Barão de Münchhausen, se levantando pelo próprio cabelo ou voando sobre uma bola de canhão por sobre o exército turco.

 

Infelizmente para o mundo, vivemos tempos de retrocesso não só no direito de como fazer a guerra, mas também nos princípios que criaram a Carta das Nações Unidas. A ideia que Franklin D. Roosevelt levantou e que não viu realizada é a de que a paz seja o objetivo das nações. Só elas reunidas na Assembleia Geral e, sobretudo, no Conselho de Segurança, podem definir e implementar ações militares. Essa regra é ignorada a todo momento, mas nunca como agora.

 

O mundo precisa de paz, e para isso precisa deixar de fazer a guerra e de cometer ostensivamente os maiores crimes de guerra.

 

Mesmo sem sermos ouvidos, gritemos: PAZ! Fim de todas as guerras!

 

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Riqueza braba

 

Li na Folha de S. Paulo (onde escrevi uma coluna durante 20 anos, às sextas-feiras, o que me remete à saudade do meu grande amigo Octávio Frias), uma crônica muito gostosa de ler da escritora e dramaturga Becky S. Korich, “A performance brega do novo milionário”, em que faz uma gozação muito pertinente da ostentação dos super-ricos que esbanjam escandalosamente, agredindo nossa sensibilidade com festas ruidosas no exterior, gastando milhões de reais para pedidos de noivado e casamentos sucessivos com influenciadoras e influenciadas digitais para mostrar riqueza, com convidados em jatinhos e jatões, desfile de vestidos luxuosos e bolsas milionárias, que a jornalista diz ser “coisa brega”. Só falta, para completar a comédia, a indelével música dos cafonas, de Waldick Sorano: “Eu não sou cachorro não”.

 

Na verdade, o grande corruptor é o dinheiro. Ele aparece todos os dias na televisão ao lado das operações da consagrada Polícia Federal, que tem seu trabalho reconhecido por todo o País. Já apareceu até “acalentando” o sono de um deputado estadual do Rio.

 

Na verdade, o dinheiro vem desde a antiguidade participando da História. Ele foi usado na armadilha dos fariseus a Jesus Cristo ao lhe perguntarem se era correto pagar tributo, a que Jesus respondeu: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Outra vez o dinheiro aparece nos Evangelhos corrompendo um dos apóstolos, Judas, que trai Jesus. E foi o dinheiro mandou Judas à forca. Lembra ainda o Padre Antônio Vieira que o diabo tentou Jesus com todas as riquezas oferecendo a Ele todo o mundo, dizendo: “Tudo isso será teu se me adorares”. Para Vieira, se o Diabo podia oferecer a Jesus todo o mundo e suas riquezas é porque o mundo era dele, do diabo. Assim podemos pensar que se o dinheiro invade e corrompe todos é porque é ele, o dinheiro, quem manda e resolve. Será?

 

Mas eu desejava falar era da verdade das palavras da escritora da Folha. Ela cita a última crônica de Fernanda Young, falecida em 2019, um “pequeno tratado sobre o mau gosto existencial brasileiro”, como se Fernanda mandasse um recado do passado para o Brasil de hoje: “Existe algo mais brega do que um rico roubando?” E agora Becky conclui: “Rico é quem dorme tranquilo. Essa é a maior das riquezas”.

 

A tranquilidade só existe quando o homem tem aquela paz que não é a ausência de guerra, mas a paz interior que nos aproxima da fortuna imensa de dormir tranquilo, sem o peso das falhas, que só trazem pesadelos.

 

Infelizmente, sob o manto da desgraça o dinheiro invadiu as instituições, e a opinião pública está perdendo a confiança nelas. Mas pela experiência que tenho de Parlamento, observo que não podemos generalizar. Nas Casas Legislativas do País há homens e mulheres com espírito público que também condenam esse procedimento totalmente abominável.

 

Tenho uma visão abrangente porque o destino me proporcionou bastante tempo naquelas Casas gloriosas — Senador por 40 anos, antes fui deputado federal, por 12 anos, suplente e efetivo desde 1955. Assisti, portanto, a muitos episódios da nossa História vividos pelo Parlamento: o suicídio de Getúlio Vargas; o Golpe do Lott, de 11 de novembro de 55, que possibilitou a posse de Juscelino; as revoltas de Jacareacanga e de Aragarças,  comandadas pelos oficiais da Aeronáutica, Tenente-Coronel Veloso e Major Lameirão, depois anistiados pelo Presidente que queriam depor; a tentativa de evitar a posse do Jango em 1961 e, posteriormente, a sua deposição em março de 1964; o AI-5, em 1968, e a Transição Democrática, da qual fui protagonista, além de ter sido o primeiro civil Presidente da República depois do período militar. Na Presidência, tive a oportunidade de viver as relações Executivo e Congresso, desse recebendo total apoio, o que assegurou a convocação da Assembleia Constituinte que nos deu a Constituição de 1988. Creio ter ajudado o País a ultrapassar muitos de seus momentos difíceis.

 

O domínio do dinheiro, senhor da corrupção, corroendo os Poderes está a merecer de todos um combate sem quartel, capaz de assegurar a moralidade pública, mas não somente com a ação penal, mas com um comportamento político mais austero, como antigamente existia. O caminho do sucesso político era a correção, a austeridade e o preparo — a ignorância sempre foi aliada dos malfeitos e da corrupção. E essa mácula ataca a classe política desde as bases fundamentais. Até mesmo Péricles, que imortalizou os princípios da Democracia em sua Oração Fúnebre, enfrentou as calúnias políticas de seus opositores e teve que defender a integridade do ouro da estátua de Atenas!

 

A Democracia não é atacada somente pelo desejo da tomada do poder, mas também pela corrupção generalizada.

 

O Nada e o Tudo

 

Pensando no Trump, no Netanyahu, no Mojtaba Khamenei (o filho do Khamenei que está aí), no Maduro, no Putin, no Milei, no Santiago Peña (que quer atirar no Brasil) e em todos os ilustres perturbadores das nossas cabeças, resolvi sonhar com o mundo futuro, com paixões, sonhos, poetas e heróis, que virá depois de passarmos pelos robôs e pelas máquinas — coitadas delas, que não sonham nem pensam, mas pelo menos estão livres da maldição dos fazedores de guerra! —, e escrever uma reflexão sobre a confusão do mundo atual. Principalmente, do mundo de cá.

 

Como uma vez presenciei o Carlos Lacerda que, sem assunto, me disse que ia falar sobre os animais em sua coluna, eu, ao contrário, com muito assunto, decidi não falar sobre nada disso, mas, ao mesmo tempo, refletir sobre tudo.

 

Assim começo este artigo de hoje.

 

Deus poderia ter feito o mundo sem que o homem necessitasse de construir nada para melhorá-lo. Todas as coisas no lugar certo, todos os homens sem o dilema entre o Bem e o Mal. Era o que tinham Adão e Eva, os primeiros e os últimos seres a provar a utopia ecológica.

 

Foi por isso que Rousseau e Malherbe, em momentos diferentes, viram o selvagem feliz e a beleza de viver num mundo sem ambições. Triste engano. Adão, Eva e os índios que foram batizados em Notre Dame, deixando Paris de mais de 400 anos atrás excitada, vendo seres de outros mundos e estrelas, tão cheios eram de vaidade quanto os poetas de França.

 

Deus fez a obra da natureza de uma matéria convulsa, em contorções permanentes, de seres nascendo e morrendo, de gases que se combinam e destroem, de gente à feição do Criador, mas a alma dividida com o Diabo. E provou com as próprias Escrituras, quando aludiu ao fato da tentação de Cristo pelo demônio. O que diz o demônio a Cristo?

 

— Dar-te-ei todos os prazeres da Terra, desde que me entregues tua alma.

 

E mostrou-lhe do alto do monte o mundo e suas seduções. Ora, argumentou o Padre Vieira, se o Diabo oferecia o mundo, era porque este era dele.

 

Mas o Criador não fez nem o mundo, nem o homem perfeitos justamente para que este participasse da obra da criação. Escondeu-se na fé para dar ao homem o maior de todos os seus bens: a liberdade. A liberdade de construir o mundo e de descobrir o caminho da virtude, dividido entre o bem e o mal.

 

Chegamos ao fim da História e ao começo de outra época. Já se pode ver o mundo do futuro, interdependente, sem fronteiras, com o conceito de soberania desmoronado em favor do ideal universal da sobrevivência da própria humanidade. Um mundo da informática, em que ninguém precisa sair de casa, lugar onde se trabalha, diverte, dorme, administra e reza. Tudo nas telas coloridas, no gingado dos robôs. Não haverá mais mistérios. Tudo se sabe, desde o conteúdo da partícula fundamental da matéria, raiz do universo, até a previsão de todos os fenômenos e do futuro. Não faltará a viagem ao interior da alma humana e a construção de seres sintéticos, sem necessidade dessa coisa de amor e sexo.

 

Nada mais terrível e aterrador do que a visão desse mundo triste, sem ideias, sem Deus, sem a liberdade de escolher entre a virtude e o pecado.

 

Não nos entreguem ao mundo frio das máquinas. Vamos continuar na aventura de um mundo feito com o suor do homem, o trabalho, o emprego, a inteligência, o idealismo, os heróis, os mártires e os poetas.

 

Assim é a vida.

 

Lembro aqui o poema do meu querido amigo Bandeira Tribuzzi, o grande poeta maranhense, que escreveu estas palavras em seu “A máquina do mundo”.

 

Pelos campos do mundo, o coração,

menino a quem de novo concederam

a alegria de sua condição,

irá cantando o canto que esqueceram

aqueles que sozinhos caminhavam

e, perdidos no mundo, estiolavam

a alegria — futura rosa rubra:

do silêncio de outono enfim desperta,

a congregada força humana obscura

vai tecer a futura primavera!

 

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Brasil e Argentina

 

O Congresso, Câmara e Senado, aprovou o acordo comercial do Mercosul com a Comunidade Europeia. Embora ainda pendente da aprovação pelo Parlamento Europeu — mas com efeito parcial garantido pela Comissão Europeia —, o resultado dessa junção é a grande ampliação que passamos a ter do nosso mercado, que vai atingir oitocentos [ou mais quinhentos] milhões de pessoas, mais da metade com alto poder aquisitivo. Os países que compõem o Mercosul assim passam a ter um patamar que nos assegura uma grande participação no mercado mundial. Brasil e Argentina, os dois maiores países do grupo, passam a ter uma responsabilidade muito grande ao liderar essa participação da América do Sul.

 

Nossos países precisam estar unidos e o máximo possível ter posições conjuntas. Tenho afirmado sempre da minha luta pela união e integração do Cone Sul, que a única coisa que o homem não pode mudar é a geografia. Estamos juntos e estamos condenados — ou salvos — a viver juntos eternamente.

 

Aquele que perde a memória histórica arrisca-se a repetir erros do passado. A história das relações entre Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai foi marcada pelos desencontros. A questão do Prata, como caminho dominante do centro da América do Sul, criou rivalidades e alimentou disputas que chegaram até nossas gerações.

 

Ao chegar à Presidência eu levava a decisão firme de iniciar nova etapa das relações entre o Brasil e os demais países do Cone Sul. Isso aconteceu. As relações do continente mudaram, e devemos crescer juntos e juntos caminhar para o desenvolvimento. Lembremos uma vez mais Saens Pena, quando disse: “Tudo nos une, nada nos separa.”

 

Enviei a Buenos Aires, dois meses depois de assumir, meu Ministro das Relações Exteriores, Olavo Setúbal. Tinha pressa. Queríamos estabelecer uma grande mudança. Nasceu meu encontro com Raúl Alfonsín, em Iguaçu, em novembro de 1985. Havia uma afinidade total em nossas visões. Ali conheci as virtudes extraordinárias desse homem, Estadista das Américas, grande patrimônio moral e político da Argentina.

 

Ele compreendia que deveríamos crescer juntos, mudar a história do continente, com a formação de um mercado comum entre nossos países. Alfonsín deu o primeiro passo importante para mudar a imagem de nossas diferenças. Visitou Itaipu. Ficou apenas uma foto, que sepultou a fantasiosa guerra das águas do Paraná.

 

Assinamos acordos básicos, inclusive o primeiro na área nuclear. Necessitávamos suprimir essa tentação de alguns setores militares de nossos países, a tentação do brutal, que seria uma corrida nuclear no Cone Sul. Depois, Alfonsín levou-me a Pilcaniyeu, e eu o trouxe a Aramar, locais onde cada um processava urânio. Ele inaugurou a nova usina brasileira, até então mantida em segredo, sob a jurisdição de nossa Marinha de Guerra.

 

O Uruguai, sob a liderança iluminada de Julio María Sanguinetti, juntou-se logo, e depois o Paraguai, assim que aderiu aos princípios democráticos.

 

Nosso ideal era seguir o exemplo do mercado comum europeu (a União Europeia se formou mais tarde, em 1992): integração econômica, estratégica, política e cultural.

 

Na Europa, há 75 anos, essa solução começou com o acordo sobre o carvão e o aço. Nosso projeto seria, também, por setores. Deveria dar passos firmes, para evitar retrocessos e frustrações. Estabelecemos um programa.

 

Onde nos equivocamos? No meu modo de ver, quando em julho de 1990, com os novos presidentes, os quatro países decidiram mudar os rumos e priorizaram a união aduaneira. Agora temos que voltar ao projeto inicial do mercado comum.

 

Os problemas que surgiram, que aparecem e crescem a toda hora, exigem dos envolvidos capacidade e paciência para negociar e uma decisão política firme de avançar e não retroceder. Sejamos vigilantes nessa direção. A economia é o transitório. O permanente são os ideais que nos uniram.

 

O balanço dos anos que vão da Ata de Foz do Iguaçu e a criação do Mercosul a nossos dias tem resultados positivos extraordinários. Mas nunca foi tão necessária a criação de espaços geopolítico-econômicos para aumentar o poder de competência e de defesa frente à concentração de riquezas, em um mundo globalizado.

 

O Mercosul é para que cresçamos juntos e não para empobrecermos juntos. É para criar uma poderosa plataforma de exportação e para participarmos firmemente da economia mundial.

 

Tenho uma imensa admiração pela Argentina, pelo seu povo, pela sua História, pela sua literatura. Quando vejo que as nossas relações estão em crise, fico apreensivo, mas sei que logo passará.

 

Agora, com nosso acordo com a União Europeia, mais do que nunca, devemos caminhar juntos e crescer juntos.

 

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Não às Armas

 

Uma Guerra Nuclear é o maior pesadelo da Humanidade. Ela tem o potencial de destruir a vida sobre a face da Terra, de maneira direta ou indireta, seja pela contaminação de bilhões de pessoas, seja pela destruição da infraestrutura necessária à produção e distribuição de alimentos aos sobreviventes, seja pelo inverno nuclear, cujas alterações na atmosfera terrestre tornariam inviável toda forma de vida.

 

Presidente do Brasil de 1985 a 1990, determinei em meu governo o fim de toda pesquisa de artefatos nucleares com fins militares. Ao mesmo tempo estabeleci, em parceria com Raúl Alfonsín, Presidente da Argentina, uma cooperação no desenvolvimento nuclear com fins pacíficos. Finalmente, por proposta de nossos dois países, Brasil e Argentina, em 1986, durante a III Sessão Especial da Assembleia Geral da ONU sobre Desarmamento foi aprovada, com a Resolução no 41/11, a Zona de Paz e de Cooperação do Atlântico Sul, que tornou a região livre de armas nucleares e de destruição em massa.

 

Os acordos sobre mísseis nucleares têm uma longa história. Desde os SALT e START até o Tratado de Moscou e o New START, de 2010, Estados Unidos e Rússia têm examinado a redução de armas nucleares estratégicas, enquanto o INF, de 1988, baniu as armas de alcance intermediário. Infelizmente, em 2019, os Estados Unidos deixaram o INF e, agora em 2026, expirou o New START. Não há mais acordo para limitar suas armas nucleares.

 

Assim, na última década, tivemos um retrocesso no controle das armas nucleares, que são perigosas demais para esgotar-se nas negociações entre os dois países, pois afetam toda a Humanidade.

 

É doutrina inconcebível a segurança de alguns pela insegurança de todos. A tarefa da salvação é de todos, sem exclusão de ninguém. O enfraquecimento do multilateralismo é danoso à causa da paz. O desarmamento, por maiores que sejam os arsenais das grandes potências, não pode ser apenas uma discussão a dois.

 

A natureza e tudo que vive estão no âmago desta questão. Não é a arte da guerra. É a questão transcendente da vida, não como um bem individual, mas filosófico, coletivo, que é ameaçado, desde o pobre índio da Amazônia, desde a mais pequenina flor adormecida, cultivada com dificuldade, até toda a riqueza acumulada pelos homens, nos países e nos continentes. A destruição total não escolhe entre ricos e pobres. Ceifa o gênero humano. A morte a invadir seres e coisas. O silêncio eterno.

 

Estou profundamente preocupado e com medo das consequências depois que esse acordo nuclear entre Estados Unidos e Rússia teve seu prazo vencido sem que as duas potências o renovassem. Isso representa, sem dúvida, uma grande ameaça para a Humanidade, que se vê, uma vez mais, exposta ao abismo da incerteza.

 

Não é que tenhamos algum conflito iminente a nos apontar para um conflito nuclear, que se tenha nesse vácuo uma sedução para o uso desse dédalo final, mas subsiste o medo de que qualquer conflito no futuro conduza a Terra a uma catástrofe absoluta.

 

Nesse sentido me dispus a escrever esse artigo movido pelo ideal pacifista, cumprindo com meu dever de consciência, uma vez que ao longo da vida sempre me posicionei contra o uso de armas nucleares, na esperança de que minhas palavras ecoem em outros espíritos com este mesmo ideal.

 

Por mim não existiria nenhuma arma nuclear na face da Terra, pois enquanto tivermos um artefato nuclear o mundo não estará tranquilo. E a espécie humana, sempre ameaçada.

 

Pelo bem da Humanidade, que os Presidentes Donald Trump e Vladimir Putin voltem a conversar e acordar tratados pela progressiva redução dos seus arsenais nucleares.

 

A Humanidade passaria a dever aos dois presidentes a coragem de romper barreiras e começar de maneira efetiva um programa de desarmamento; que não pode parar e que deve continuar, para que se rompa essa teoria satânica de que a paz é o equilíbrio do terror.

 

Tenho autoridade para me manifestar dessa maneira por ter sido, com Raúl Alfonsín, o Estadista das Américas, responsável pela exclusão das Armas Nucleares, o que tornou a América Latina como a primeira zona densamente habitada do mundo a ser oficialmente livre de armas nucleares.

 

Não às armas. Tudo pela Paz.

 

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Esperança e fé

 

Vivi nos últimos meses entre a esperança e a apreensão. É que, há alguns meses, Roseana, minha única filha, fruto do meu extremado carinho, do meu amor e da minha admiração, pelo seu talento, pela sua personalidade corajosa e guerreira, deu-me um susto muito grande, quando me comunicou que, num checkup de rotina, fora encontrado um câncer de mama, a necessitar de uma série de exames para diagnosticar sua natureza e seu estado de evolução.

 

Procurei seu médico para obter todas as informações sobre o tumor e suas perspectivas exatas de evolução e cura. Pedi-lhe também que não me sonegasse nada, pois desejava saber exatamente de tudo. Com absoluta sinceridade ele me disse tratar-se de um câncer altamente agressivo, que há alguns anos significava uma curta sobrevivência, mas que, graças aos avanços da medicina, hoje seria possível fazer um tratamento já padronizado, bastante efetivo, mais agressivo, com alguns efeitos paralelos, mas com muito bons resultados.

 

Imediatamente, dois sentimentos me dominaram: o primeiro, de grande apreensão, e o segundo, de grande esperança. A esperança aliada à fé nos traz a certeza. Vi minha mãe professar a fé. Sei que existe ser cristão porque minha mãe era cristã: amava os outros, oferecia a outra face do rosto, sabia quem era o próximo e para ele tinha sempre caridade. Sei a força da oração porque vi minha mãe orar a vida inteira e tudo conseguir orando, anos e anos, dias e noites agarradas às contas do terço e com os olhos “nos olhos do crucificado”. Fui educado, por meu pai e minha mãe, nessa escola. Foi sobretudo dela que me veio o hábito de pedir a Deus sempre que me deparo com esses golpes que a vida nos traz. Mais tarde convivi intensamente com Santa Irmã Dulce dos Pobres, que se tornou uma segunda intermediária nessa entrega de nosso destino em Suas Mãos.

 

Assim, como somos uma família que cultiva a fé como dogma, passei esses meses vivendo uma grande apreensão, mas na certeza de que Deus não nos abandonaria e que, pelas mãos competentes e talentosas dos médicos que a assistiam — Dr. Artur Katz, Dr. David Uip, Dr. Roberto Kalil, Dr.ª Marianne Pinotti, Dr. Raul Cutait, Dr.ª Filomena Galas, Dr.ª Cristina Abdalla, Dr.ª Beatrice Abdalla, Dr.ª Thaís Brandão, Dr. Vitor Dias, Dr. Pedro Henrique Benfatti, Dr.ª Claudia Cozer, Dr. Marcelo Rodrigues, Dr.ª Marina Sahade e todos os outros médicos e enfermeiros da equipe —, seria restituída sua saúde.

 

Não podemos esquecer o quanto foi comovente a solidariedade do povo brasileiro, a começar pelo Maranhão, onde o acompanhamento de sua doença foi um verdadeiro ato de fé, nas orações que foram feitas neste período, nas missas que foram pedidas por seu restabelecimento e nas orações espontâneas dos sacerdotes em diversas igrejas, como tive oportunidade de testemunhar.

 

Sem dúvida esta filha tem-me dado muita alegria. Pelo seu coração bondoso e desempenho tão louvado nos diversos cargos que ocupou e nos quatro mandatos de governadora do Maranhão — primeira governadora eleita do Brasil —, por seu espírito público e pelo que realizou em benefício do nosso Estado, exercendo sempre funções públicas pelo voto do povo.

 

Agora, Roseana chegou ao fim do seu tratamento, com uma operação muito bem-sucedida.

 

A nossa esperança, que era nossa certeza, só tem agora gestos de gratidão e agradecimentos como tive oportunidade de expor.

 

O mais comovente desses gestos de solidariedade nos veio de  Sucupira do Norte, de um pobre homem, cheio de bondade e com grande coração, que, durante todos esses meses, reunia em oração um grupo de fiéis, rogando a Deus e a Nossa Senhora pela saúde de Roseana e, não tendo nada para ofertar, mandou seu coração, que foi um vidro de mel de tiúba, uma abelha selvagem, que tem uma doçura admirável, que ele colheu na mata, e uma lasca de casca de pau-d’arco, para que se fizesse um chá para ajudar na cura. Foi o presente maior e mais puro que recebeu.

 

Enfim, este artigo pode ser considerado uma declaração de gratidão a todos que estiveram e estão solidários com ela, por sua saúde, ao povo maranhense, ao povo brasileiro, aos amigos, aos parentes e a Deus pela graça da sua saúde, do amor e da proteção contra todos os males e perigos.

 

Carnaval, alegria do povo

 

Passou 2025 e o Carnaval veio chegando. Já começou a folia, quando as coisas vão esquentar e as águas, rolar: as águas de inverno e aquelas que passarinho não bebe — só peru na véspera de Natal.

 

O Carnaval nos foi trazido pelos portugueses, e suas origens, segundo dizem, remontam às festas pagãs da Grécia muito tempo antes de Cristo. Falam que era uma festa que louvava as colheitas e celebrava a fertilidade da terra. E — claro — caíam na gandaia.

 

Mas o que se sabe mesmo é que chegou ao Brasil no bojo das caravelas portuguesas que traziam as festas populares da Europa, a maior de todas em Veneza, com direito a máscaras, fantasias e outras roupas mais.

 

No Brasil, como o futebol, tornou-se um folguedo do povo que hoje tem a marca da cultura popular brasileira. Aqui as nossas estações não são reguladas pela rotação da Terra em torno do Sol, mas pelas festas: Carnaval, São João, tempos sem festa e Natal. Diz-se que o nome Carnaval vem do latim “carne vale”, que significa adeus à carne, com o controle dos prazeres mundanos.

 

A festa foi associada à religião lá pelos anos 500, depois de Cristo, e era o tempo da preparação para os 40 dias quaresmais, em que todos teriam que fazer jejum e rezar, preparando o espírito para lembrar o martírio de Jesus. Então, o homem, que dá um jeitinho para tudo, achou que deviam se preparar para os dias sem pecados pecando! E haja festa, vinhos e mulheres.

 

Aliás, por falar em mulheres, lembro do nosso grande poeta Manuel Bandeira — de quem fui amigo —, nos seus versos: “Que mais queres, / Além de versos e mulheres?… / — Vinhos… o vinho que é o meu fraco!… / Evoé Baco!”

 

Cabral, quando saltou nas praias de Porto Seguro, descobrindo o Brasil, encontrou as índias “descobertas” e logo armou o nosso primeiro Carnaval. Saltaram alguns marinheiros na praia e com o maracá dos índios e uns tambores, para confraternizar, fizeram uma batucada. E foi uma algazarra geral.

 

O Carnaval é uma festa da imaginação vivida de um jeito em cada lugar e em cada um de nós. O do Rio sempre foi um teatro a céu aberto, com os enredos das escolas na Marquês de Sapucaí. São Paulo já apresenta um espetáculo de altíssima qualidade. Tanto lá como em diversas capitais imperam os megablocos, juntando na dança centenas de milhares de pessoas — mais de 300 mil foliões brincando juntos, alguns passando de um milhão! Nas cidades Brasil afora, também se brinca na rua com toda a força e alegria como no fim do século passado.

 

No Maranhão, o Carnaval sempre foi marcante. Com sua forte identidade cultural, misturou ritmos que não se encontram em outros lugares: matracas e pandeiros se juntam ao reggae e às marchinhas, arrastando os foliões num espetáculo à parte. Quem ainda não foi, precisa ir ao Maranhão conhecer a mágica do bumba meu boi convivendo com o reggae.

 

Roseana, que gosta de alegria, renovou o nosso Carnaval e outras festas do nosso folclore — uma maneira de salvar a cultura popular, a grande força de identidade do brasileiro. Hoje o Maranhão tem um dos grandes carnavais do Brasil. E está de arromba. Haja perna para pular e força para bebericar.

 

É tempo de alegria, a marca do povo brasileiro.

 

Afinal, dizia-me um caboclo do Maranhão em relação à vaquejada (outra festa que marca a força cultural do sertanejo):

 

“Nada mais triste do que o fim de uma vaquejada, a saudade da dança de roda.”

 

Perguntei: E qual o consolo?

 

“A certeza de que, na outra semana, vai ter outra vaquejada.”

 

Um irmão de minha avó faleceu num sábado de Carnaval. Mas um tio meu, farrista e carnavalesco, já tinha mandado fazer a fantasia. Então pediu à família: “Só me comuniquem o falecimento na quarta-feira, para eu começar meu luto.”

 

Agora o Governador Brandão está fazendo no Maranhão um dos maiores carnavais, na Litorânea e em outros circuitos. Nomes consagrados como Ivete Sangalo, Léo Santana, Alok e o Bloco da Anitta etc. estão arrastando mais de meio milhão de pessoas!

 

Quando ouço reclamarem que estão gastando dinheiro com festas, sempre contesto: o povo, que sofre tanto, tem que ter direito de curtir dias de alegria.

 

E haja samba, pagode, forró, piseiro, pop, axé, funk, reggae, coco de roda, tambor de crioula…

 

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Uma inveja danada

 

Inveja é coisa feia. E este pecado mortal — Santo Agostinho dizia que é o pecado do diabo por excelência —, que é o desejo de ter o que outro tem, anda de mãos dadas com a avareza, que é o desejo de ter tudo.

 

Muita gente tem inveja dos relógios, carros e fortuna dos outros. Eu, de minha parte, nunca tive.

 

Na nossa geração da política disputada na internet a inveja encontrou um terreno fértil: já que todos se expõem e mostram o que têm, o invejoso quer ter o que o outro tem, sejam votos, acessos, “likes” e, naturalmente, o sucesso e o dinheiro que anda junto. Ideias, a esta altura, leva desvantagem, e a política se empobrece, embora os políticos enriqueçam.

 

Não é que a inveja não estivesse na política há muito tempo, desde sempre as disputas tiveram em grande parte a inveja como motivo. Os vitoriosos políticos, no mais das vezes, tinham um episódio de violência ou de envenenamento no seu sucesso, que resultava, naturalmente, em eles assumirem o que era do outro. Esse é um campo em que o Império Romano dá show: quando, por exceção, Marco Aurélio foi sucedido por seu filho Cômodo, as coisas foram muito piores do que com a costumeira adoção do sobrevivente entre os vários candidatos.

 

Na frente do invejoso se colocam algumas opções, e vale selecionar todas: a avareza, como lembrei, o narcisismo, o egocentrismo. O primeiro objeto de exposição é uma moeda com sua cara, e se as com a cara de Augusto são multidão nas coleções numismáticas, o futuro dirá quantas moedas mostrarão o topete do Trump, que já providenciou a sua. Mas o imperador deixou também uma multidão de bustos e esculturas de corpo inteiro — é surpreendente que ele, que fizera César deus para poder se dizer divi filius, não tenha providenciado para que sobrevivesse pelo menos uma escultura do pai adotivo.

 

Os artistas eram cooptados como os maiores divulgadores das belas (ai de quem quisesse ser realista) imagens dos poderosos. Estão aí as centenas de quadros de Napoleão, mão no casaco, que não nos deixam esquecer que ele também foi imperador. Depois, com o advento das massas e da fotografia, foram os retratos de seus heróis que desfilaram: Lênin, Stalin, Hitler, Mussolini, Hirohito, o Xá, Khomeini, Sadam Hussein e todos os que acreditam na autocracia, de um canto do mundo a outro. Outra variante é ter seu nome nas coisas, como o Trump, com inveja do Kennedy, fez com o Kennedy Center, que ele resolveu fechar porque os artistas não querem se apresentar no Donald J. Trump – John F. Kennedy Center for the Performing Arts.

 

Se o narcisismo é estampado, o egocentrismo leva também a achar que são os maiores. Um sapato com solado especial é um bom remédio para a altura, mas outros predicados são mais difíceis de enganar, de modo que o jeito é dizer que tem o maior tudo: bomba, prédio, depósito bancário, descaramento e por aí vai. Enquanto planejava restaurar o território russo ao esplendor do império soviético, o Vladimir Putin, há uns tempos, resolveu o problema colocando uma mesa em que se sentava à cabeceira e o interlocutor, do outro lado, tinha que usar um binóculo para vê-lo e um sistema de autofalantes e microfones para conversar, era humilhante. Esse truque, aliás, sempre foi usado, se sucedendo os estrados que mostravam a importância do mandão — ou até de autoridades regularmente eleitas, como os papas, que usavam até a sedes gestatoria nos ombros dos acólitos, até a época do Concílio Vaticano II, quando passaram a usar papamóvel.

 

O Trump — que faz questão de que estejamos todos a falar dele, mesmo mal — tem duas manias, uma decorativa outra arquitetônica. Nada de novo. O Franco, por inveja de Felipe II, que fizera o extraordinário Escorial, fez junto dele, no Valle de Cuelgamuros, que ele chamava de Valle de los Caídos, o horripilante memorial aos seus mortos na Guerra Civil, com o requinte de ser construído pelos presos políticos. O autocrata americano, além de encher de dourado o Salão Oval, diz ele que é seu Versailles, isto é, inveja do Roi-Soleil, Luís XIV, derrubou a East Wing da Casa Branca para lá fazer uma sala de baile tamanho família, e agora quer fazer também o “Arc of Trump” diante do Lincoln Memorial, do outro lado do rio Potomac; o detalhe é que tem que ser o maior do mundo, duas vezes e meio o Arco do Triunfo, por inveja de Napoleão!

 

Há inveja para todos os gostos!

 

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