José Sarney
Calem a boca
O mundo acordou — ou dormiu — estarrecido com a inusitada operação do sequestro do Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro. Tive oportunidade de apoiar a posição do Brasil de condenação da operação militar dos Estados Unidos e emprestar minha solidariedade ao governo venezuelano por essa violência, como foi expresso pelo pronunciamento de nossos representantes na OEA e no Conselho de Segurança da ONU. Essa atitude não encontra respaldo legal; ao contrário, agride a convivência entre as nações e o direito internacional. Isso não quer dizer que ignoramos a conduta de Maduro destruindo a democracia em seu país, agredindo os direitos humanos, políticos e civis, oprimindo o povo venezuelano com a prática de tortura e destruição das instituições. Mas os fins não justificam os meios, nem a violência deve ser o instrumento que combate a violência.
A invocação da Doutrina Monroe é outro desvio de argumentação porque não é uma invasão de fora do hemisfério que está em causa, violando-a, mas a política proclamada na atualização feita pelo Corolário Roosevelt, em 1904, do Big Stick, América para os americanos.
Eu recordo de um episódio de que involuntariamente fui testemunha em 1982, no mês de abril. Eu estava nos Estados Unidos fazendo parte da comitiva do Presidente Figueiredo, representando o Congresso Nacional, quando a Grã-Bretanha invadiu as Ilhas Malvinas, que tinham sido tomadas pelos argentinos. Marquei uma audiência com o senador norte-americano Ted Stevens, no Senado Americano. Ele era representante do Estado do Alasca e um grande político americano do Partido Republicano. Lá cheguei na hora aprazada, nove horas da manhã. Os americanos, no costume herdado dos ingleses, são muito zelosos dos horários: nove horas são nove horas. Para surpresa minha, o Senador Stevens se atrasou. Acompanhava-me o diplomata brasileiro, hoje embaixador, Seixas Correa, um dos maiores e melhores diplomatas brasileiros de sua geração. Quis retirar-me, mas o chefe de Cerimonial do Senado disse-me que o Senador Stevens estava chegando e pedia desculpas. Dispus-me a esperar 15 minutos. Logo o Senador chegou e desculpou-se dizendo que tinha ficado retido numa reunião da bancada do Senado com o Presidente Ronald Reagan, até as cinco horas da manhã, tratando da invasão inglesa das Malvinas. Tinham resolvido apoiar a invasão britânica, com a restrição de que não bombardeassem o território argentino, agindo com uma contrariedade parcial à Doutrina Monroe. Afinal, por essa doutrina estaria autorizada a interferência militar dos EUA para repelir qualquer agressão externa ao solo americano — no caso, o argentino — e não para auxiliá-la. Diante de uma informação preciosa que acabava de ter, não pude ter outra atitude senão comunicá-la, logo depois da entrevista, ao Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Embaixador Guerreiro, para que ele a utilizasse da maneira que achasse importante, no caso favorecendo os argentinos, pois ela dizia do apoio dos EUA aos ingleses. E assim o fiz. Era a invocada Doutrina Monroe!
Aliás, essa doutrina foi pela primeira vez usada numa ameaça militar, em 1902, pelo Presidente Theodore Roosevelt, diante do bloqueio naval de Grã-Bretanha, Alemanha e Itália, feito contra esta mesma Venezuela, cercada para que esses países recebessem o pagamento das dívidas vencidas que a Venezuela se recusava a pagar. Agora, o mesmo bloqueio visa não permitir que o petróleo seja vendido a China, Rússia e Irã. Os motivos são diferentes, mas a justificativa é a mesma: a Doutrina Monroe.
Outros dois pontos em evidência são Groenlândia e Cuba. (Não a Colômbia, porque o país não pode ser objeto de punição, uma vez que não tem nenhuma disputa com os Estados Unidos.) Quanto a Cuba e Groenlândia, são hipotecas da Segunda Guerra Mundial. A Groenlândia, com o fim da ameaça aos americanos depois da rendição da Alemanha, foi devolvida à Dinamarca. No que se refere a Cuba, é uma hipoteca da Guerra Fria, prolongamento da Segunda Guerra. Na crise de foguetes em Cuba, o acordo feito entre Kennedy e Khrushchev determinou que as armas nucleares seriam retiradas de Cuba, porque realmente ameaçavam a segurança dos Estados Unidos; por outro lado, como compensação, os americanos se comprometiam a retirar mísseis da Turquia e não invadir Cuba. Estas obrigações foram obedecidas por ambos.
Todos estes problemas podem ser resolvidos pela Diplomacia, e o mundo ficaria livre das ameaças e do medo de uma confrontação nuclear. Mas o que estamos vivendo de mais grave é que, com o advento da internet, as relações internacionais estão sendo governadas pelo discurso: as emoções são instantâneas, dando margem a decisões apressadas e muitas vezes a palavras irresponsáveis. Essa é a grande ameaça que paira no mundo.
Se estes homens de Estado calarem a boca e restabelecerem o domínio da Diplomacia, sem a turbulência verbal como maneira civilizada de relacionamento, partiremos para fortificar os organismos multilaterais e surgirá uma distensão benéfica e a PAZ. É hora de fechar a boca.
Meu Velho Ano Novo
Passou 2025. Bom Ano. Estamos em pleno Ano Novo, com muita esperança de que seja de grande felicidade para todos.
É sempre o mistério do tempo que a graça de Deus nos concede. Antes de saudar com esperança o Ano Novo — que o Padre Antônio Vieira preferia usar a fórmula de “Bons Anos” para não sermos mesquinhos desejando um só, mas todos os anos futuros —, eu agradeço a Deus o ano que passou, em que nos foi concedida pelo Criador a graça da vida. Em cada ano que passa, vivemos. Meu avô quando fazia aniversário sempre dizia: “Ruim é não fazer.” Ele mesmo, que morreu aos noventa e seis anos, quando lhe perguntavam a sua idade, confessava, sem esconder nada e acrescentava: “Vê se tu chegas lá.”
O calendário marcado pelos dias gloriosos do ano me traz memórias desde a infância, nas sombras cinzas das lembranças daquele interior perdido nos campos verdes do Maranhão, quando íamos à igreja louvar o nascimento do Filho de Deus, cujas sandálias João Batista se dizia indigno de desatar, até a madurez da reza em comum com a família, lendo o Evangelho de São Lucas, que descreve o que aconteceu na manjedoura de Belém.
Na minha infância eu já sabia que comer gomos de romã na entrada do Ano Novo assegurava que o novo ano nos tratasse bem. Depois descobri que em toda entrada de ano as pessoas colocavam, para a passar a meia-noite, um dinheiro no bolso. Assim não teriam dificuldades financeiras.
Hoje, vejo que os anos da fase do conhecimento e da comunicação gostam de lentilhas — que no interior do Maranhão nem se sabia o que era —, roupa branca, flores no mar, velas na praia e fogos de artifício. Aqueles meus primeiros anos gostavam de sinos da meia-noite, rezas, ladainhas e louvações. Outro costume daquele tempo era dar esmolas, fazer ceia para os mendigos (coisa que minha mãe nunca deixou de fazer) e comer Garibaldi: as ossadas do peru da ceia preparadas num cozido ensopado com pirão do caldo.
Naquele tempo só havia um Senhor do universo: o Criador. Hoje existem muitos deuses. O pior deles, o deus da guerra, não desaparece de muitas partes do mundo; mais forte no Oriente, em Gaza, e na Ucrânia.
Na Pinheiro da minha infância, nenhum bicho preto podia aparecer na rua no dia primeiro do ano. Eram escondidos, presos nos currais, sem direito a circular. Traziam mau agouro.
Outras coisas eram comentadas em segredo: os maridos deviam, na noite da passagem de ano, “procurar” suas esposas, o que traria felicidade no casamento. Por isso, talvez, o rosto delas fosse enigmático na véspera do Ano-Novo, uma contida alegria. Quando soube disso, já menino grande, eu as olhava com olhos desconfiados.
Com o passar dos anos, no mar alto da guerra pela sobrevivência, com as lembranças todas acumuladas como se fosse um depósito de coisas arquivadas, percebo que a infância é eterna e diferenciada. É dela que retiro uma personagem daqueles anos.
Maria Roxa, crioula tida como doida, rodopiando brejeira, com uma flor no cabelo, chega na porta de nossa casa, os meninos rindo de sua loucura, cantando. De repente ela levanta a saia e grita: “Olha a onça”. E aí nossa inocência ia embora.
O mundo precisa recuperar um pouco a sua inocência, no sentido de não praticar o mal. Precisamos valorizar a vida, o infinito número de coisas boas que Deus nos deu, com que convivemos. Inclusive as pessoas, que Deus fez a Sua imagem e semelhança e que, em imensa maioria, praticam o bem e rejeitam o mal.
Se há muitos sinais ruins, nós aqui no Brasil começamos o Ano Novo com pleno emprego, os salários em alta, a economia superando os desafios, a democracia consolidada, sem desastres maiores e cheios de esperança. Esta é a mensagem que envio a todos: um Ano Novo cheio de esperança!
Um conto de Natal
Dona Carlota vivia a sua vida de um século num velho sobradão de azulejos coloniais, em São Luís do Maranhão, envolta na solidão e nos mistérios de sua velhice final. Dali viu saírem em cortejo fúnebre os corpos dos pais; em seguida, o do marido e, depois, da filha única, que lhe contrariou o desejo de morrer primeiro, para não ficar sozinha. Os netos perderam-se nos caminhos do mundo e a abandonaram naquela morada, de onde nunca mais saiu. Só lhe restou o velho sobrado de três andares, onde havia tempo a grande família vivia, folgadamente, importando roupas e vinhos da Europa. Sua linhagem era a dos tradicionais comerciantes de algodão, no Maranhão das “soirées blanches”, do século 19.
Dona Carlota era uma sobrevivente daqueles tempos. Recusara-se a morrer. Com os anos, foi perdendo o corpo e as posses. Primeiro, os cabelos pretos e a beleza; depois as joias, a prataria e, mais adiante, as louças, os serviços da Índia, os quadros, os conjuntos de palhinha D. João V, os lustres e aparadores de cristal. Os salões foram ficando vazios, vazias as paredes, vazia a sala de jantar; o teto arriando, as telhas caindo, os forros despedaçados, as portas apodrecidas, aldrabas enferrujadas, janelas com vidros partidos, que não fechavam. Havia em tudo um cheiro de mofo e um ar de abandono. Dona Carlota confinou-se no velho quarto, com seus gatos e fantasmas. Comprou o que comer, durante muitos anos, com a venda dos seus pertences. Agora, vivia da caridade dos vizinhos, que sempre lhe deixavam no corredor um prato de comida.
Com o tempo e os invernos de tempestades, o sobradão começou a desmoronar: perigo para a moradora. O corpo de bombeiros interditou o imóvel, mas Dona Carlota se recusava a sair. A cidade acompanhava o seu drama. Seu mundo era o sobradão e seus gatos. E os fantasmas, que chegavam com os ventos da noite.
Certa vez, num Natal, perto da hora da Missa do Galo, mendigos, que se refugiavam na parte térrea do seu sobradão sem portas, encontraram no lixo uma caixa de sapatos vazia e resolveram fazer uma brincadeira de mau gosto com a Dona Carlota: iam levar a caixa vazia como se fosse um presente de Natal para a velha senhora de cabelos brancos e desgrenhados, que vivia escondida e de quem, vez ou outra, roubavam a comida. Fizeram um tosco pacote, enrolado com papel de embrulho, também achado na lixeira. E, sob a meia-luz que se formava a partir da rua, numa sombria diversão, subiram a escada de tábuas quebradas, com o corrimão coberto de excrementos de morcegos. Subiram trôpegos os degraus e chegaram ao antes grande e aristocrático salão dos banquetes, agora reduzido a lixo e abandono, teias de aranha, poeira e podridão.
— Dona Carlota, trouxemos um presente de Natal para a senhora — disseram três vezes, cada um por seu turno.
Ela, que há tantos anos não recebia um gesto de amor, que do Natal só conhecia a solidão, aproximou-se deles, lamparina à mão. Olhou-os com benevolência, mas nada falou. Recebeu a caixa, desamarrou o cordão, retirou o papel que a envolvia, e a sua face se iluminou. Os olhos brilhavam, e o rosto exprimia um sorriso de grande felicidade.
Os mendigos, estranhando a sua reação, lhe perguntaram:
— O que a senhora ganhou, Dona Carlota?
A velha senhora, olhando o interior da caixa vazia, onde via a coisa mais bela do mundo, respondeu-lhes:
— Um beijo de São José e Nossa Senhora, que vieram passar o Natal comigo.
Os sinos da Igreja do Convento do Carmo tocaram em Aleluias.
Amor e Ciúme
A violência representa um dos maiores problemas da sociedade contemporânea. Paradoxalmente ela esteve, por motivos de sobrevivência, entre as três necessidades básicas fundamentais do gênero humano, cujo controle lhe assegurou a condição de espécie mais dominante na face da Terra e de sua controladora — tudo no projeto de Deus.
O homem, inclua-se a mulher, como deve ser a forma correta de tratamento, sempre precisaram para sobreviver de alimentação, segurança e vestuário. A primeira para sobrevivência física; a segunda, segurança, está ligada à primeira, para escapar dos predadores, e a terceira para poder adaptar-se ao clima, aos rigores do frio e do calor.
O instinto violento do homem fez dele, segundo Lévy Straus, além de um ser predador, o maior poluidor. Mas hoje, a sua necessidade de segurança, uma daquelas três preocupações básicas do homem primitivo, evoluiu a novo patamar: a ameaça não é somente a individual, como também a global, com a possibilidade de destruição nuclear e a internacionalização do crime com suas conexões com as drogas e a utilização do conhecimento e da ciência para sua mundialização.
Mas o que desejo abordar é sem dúvida um fenômeno novo: a vulgarização da tragédia do crime desprezível da violência contra a mulher. Já não podemos assistir à televisão nem ler jornais e revistas, de qualquer mídia, sem que a predominância seja a dos crimes e tratamentos mais hediondos contra o gênero feminino. Esses fatos vêm num crescendo que está merecendo, em todas as partes da Terra, revolta e protestos fortes que motivem não somente mulheres, mas também todos os homens, pois estes foram destinados a compartilhar a felicidade da igualdade com a mulher, fazendo parte um da vida do outro, igualmente responsáveis por dar continuidade à espécie humana. É inaceitável que a ameaça à sobrevivência das mulheres venha do próprio homem.
Acredito que se a ciência, em todos os seus domínios, foi capaz de chegar às profundezas do micromundos dos átomos e até das naves espaciais e de nossa presença no universo, tendo por marco inicial o homem na Lua, pode e deve também se debruçar sobre o sentimento humano para transformá-lo, pesquisando-se a raiz e os fatores dessa violência, o que está desencadeando essa tragédia de nossos dias. Não se pode excluir dessa busca o fracasso dos métodos atuais, a responsabilidade dos governos, já que eles foram constituídos e instituídos para conjurar os problemas, entre eles o da violência. Isso não pode ser feito sem uma cooperação efetiva de todos os segmentos da sociedade; e, em nosso caso, sem os diversos setores da União, dos Estados e Municípios, dos Poderes constituídos, Executivo, Legislativo e Judiciário — mas, infelizmente, o que testemunhamos nos últimos dias, em vez de cooperação, foi o mais condenável exemplo de falha na conduta de alguns membros desses Poderes.
Outros motivos estão à vista: a dolorosa desigualdade social, que faz com que sejam mulheres negras e de pouca idade a maior parte das vítimas dessas mãos assassinas, numa cruel mistura de misoginia, racismo e desigualdade social.
Outras causas subjetivas também nos dão uma pista. Elas vêm da literatura. Shakespeare, na sua genial construção da tragédia no seu teatro, nos oferece um exemplo do amor deformado pelo ciúme — que sempre esteve associado ao amor doentio que rapidamente descamba para violência. É o exemplo de “Otelo, o Mouro de Veneza”, em que sua esposa, Desdêmona, é vítima do seu amor e do ciúme do marido, dominado por intrigas de Iago, que, por revanche, cria uma teia de mentiras e intriga convencendo Otelo de que a esposa o traía, num romance que não existia. Ele, Otelo, mata Desdêmona, asfixiando-a, e depois, quando descobre que não era verdadeira a traição, mata-se. A tragédia de Otelo desdobra-se genialmente com muitas nuances, mas traz também, como toda literatura genial, a oportunidade de refletirmos sobre a verdade, a mentira e suas consequências destrutivas. Esse dilema se repete na internet, com a divulgação de tantas mentiras — como fez Iago —, multiplicando-se os riscos de violência. E terminamos por não saber o que é verdade e o que é mentira. E quanto perigo há nisso!
Eu também me sinto violentado por essa violência. Recuso-me a absorver o relato completo desses fatos repugnantes. Sou forçado a tomar conhecimento desses crimes, mas me perturbam o sono e o viver.
Minha solidariedade a todas as mulheres que sofreram e sofrem nessa tragédia do nosso tempo.
Se a internet e a Igreja moderna exorcizaram o diabo, eis que ele ressurge na figura desses monstros: assassinos, espancadores e violentadores de mulheres.
Natal, pacto de Deus
Já está chegando o Natal. Ouvimos as badaladas dos sinos do Advento. A memória da chegada do Menino Jesus, que fez a opção pelos pobres entre os mais pobres. É o momento de receber, entre sorrisos e esperanças, o Deus que veio para dizer que não estamos sós neste universo de fogo e de silêncios — e que fez um pacto com os homens na Terra.
Eu, ao longo da vida, sempre tive a certeza de que Deus estava vigiando as minhas ações, omissões e pecados.
O Deus da minha infância, que me guardava nas noites escuras de fantasmas e mistérios. O Deus da minha juventude, que me protegeu das dúvidas, nos caminhos da fé. O Deus da minha maturidade, consolidado, amigo e pai. O Deus da minha velhice, que me receberá um dia, na morte, e perguntará:
— José, onde estão tuas mãos que eu enchi de estrelas? Tua cabeça onde pus meus votos de proteção?
E eu responderei:
— Estão aqui, nesta vida, como todas as vidas, de flores vivas em dias de alegria e de flores murchas em dias de ausência e silêncio.
O Natal é a festa da família. É a maior festa da humanidade. Celebramos a memória do pacto de Deus com os homens. Ele mandou seu filho ao mundo para comungar conosco da Graça da vida. Deu-nos um código de comportamento: “todos somos iguais, filhos do mesmo pai”; “amai-vos uns aos outros’ e “que tenham paz”, a paz interior, esta da reconciliação do homem com o próprio homem.
Mas mudou o Natal ou mudei eu? A pergunta de Machado de Assis é quase lugar-comum, tantas vezes citada, mas é pertinente. Mudou o Natal. O mundo mudou.
Mas o meu Natal, indestrutível, é o Natal da minha infância. Meu avô, minha avó, meu pai, minha mãe, meus irmãos, como se fossem figuras do próprio presépio. Éramos felizes. O tempo não tinha o cheiro azedo de um mundo transformado. Era o cheiro do alecrim e cravo.
Recordo-me de minha avó a preparar o presépio. A semear arroz com antecedência na terra preparada em volta da manjedoura. Quando nascia, era o verde. Os burrinhos e bichos eram de buriti. A estrela, de papel. Tudo muito simples e pobre. A cidade tinha no máximo dois mil habitantes.
Meu avô abria a Bíblia, quinze minutos antes da meia-noite. Lia um Evangelho sobre o nascimento de Jesus, um Salmo, um Padre nosso, e depois seguíamos, o sino tocando à meia-noite, para a igreja. A Missa do Galo.
Meu avô passou o costume de reunir a família e ler a Bíblia a meu pai e, quando este morreu, a mim coube continuar a tradição. No Palácio do Planalto, presidente, lia o Evangelho nos Natais e dizia a todos que era uma tradição de família.
Depois vim a saber de outros natais. A saber a origem do Natal. Que a data de 25 de dezembro foi fixada pelo papa Júlio I (São Júlio I). Em outras igrejas celebra-se em janeiro ou abril. Que no século VI os padres foram autorizados a rezar, nesse dia, três missas. Ficavam em jejum o dia inteiro.
O Papai Noel de hoje, o esbelto Bispo Nicolau, santificado, foi criado pelo cartunista americano Thomas Nost, o Santa Claus, e com sua barba e barriga invadiu a mídia e entrou no coração das crianças. Lembro-me de um tambor de lata que Papai Noel me trouxe aos cinco anos. Era feito pelo funileiro de Pinheiro! Nada mais belo e nada me fez tão alegre. A ideia de presentes refletindo a doação e a generosidade não pode perder o sentido cristão desta festa da família, representando a união do homem com Deus.
Mas leio os jornais todos os dias. É difícil misturar Natal, violência, guerras. É triste constatar que o homem ainda não mudou e que muitos natais devem vir até que o homem faça aquela revolução interior da correção, exorcizando a violência e logrando aquilo que o padre Vieira pregava no “Sermão do Mandato”: “colocar em Cristo o coração dos homens, e nos homens o coração de Cristo”.
Mas no Brasil tem céu azul. E nada ofuscará a nossa fé nesse momento em que recebemos O filho de Deus, que veio ao mundo para ensinar que o homem deve mudar segundo um processo interior de leis morais e de condutas baseadas nas virtudes, e não no medo.
Paz, paz na Terra e dentro de nós mesmos.
Literatura, Vocação
Na Academia Brasileira de Letras, a editora Ciranda Cultural lançou, sob um novo selo, Principis, meus três romances: O Dono do Mar, Saraminda e A Duquesa vale uma Missa. Ao mesmo tempo a Academia me fez uma homenagem que muito me tocou, ao me dedicar uma sessão especial, com meus confrades Domício Proença e Antônio Carlos Secchin analisando minha obra de prosador e de poeta.
Comecei a escrever muito moço. Com meu pai, aprendi a amar os livros, amor que me acompanha por toda a vida. Sem eles não sei viver: vivo com eles. Primeiro aprendi a ler alguns clássicos, na pequena biblioteca que tínhamos em São Bento, no interior do Maranhão. Depois comecei a fazer, à mão, pequenos livros, com folhas datilografadas, A Canção Inicial e Poemas Decadentes. Participei, mais tarde, de um pequeno grupo que sonhava recuperar o Maranhão: éramos escritores e pintores. Ali tive grandes companheiros, como o grande poeta Bandeira Tribuzzi, que fora estudar em Coimbra e nos trouxera a descoberta da poesia portuguesa, sobretudo Fernando Pessoa.
Com o meu primeiro livro de poesia, que afinal chamei de A Canção Inicial, entrei para a Academia Maranhense de Letras. Mas a política me chamou, era meu destino. Minha vocação era a literatura. Com ela noivei todas as noites.
Quando o destino me levou ao governo do Maranhão, entre as solicitações permanentes da tarefa de romper com os vícios que atrasavam o Estado naquela época, encontrei tempo para escrever um livro de contos, Norte das Águas, que teve uma excelente acolhida da crítica. Habituei-me a afastar as demandas da política — que me cobrava os textos de discursos, pareceres, projetos de lei etc. — para escrever literatura. Publiquei mais dois livros de poesia, Os Maribondos de Fogo e Saudades Mortas, outros contos, os três romances, ensaios, conferências.
Um dia reuniram a fortuna crítica de minha obra literária — não só o que se escreveu no Brasil, mas em todo o mundo — e me assustei: em 2018, tinha 119 títulos, com 168 edições; e de lá para cá já saíram vários livros e novas edições.
A política, além do tempo que me tomou, muito prejudicou a acolhida de minha obra literária. Não que não tenha tido aqui grandes elogios de grandes escritores, como Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Darcy Ribeiro e tantos outros, mas muitos confundiram o político com o escritor, e passaram a este a hostilidade àquele, enquanto no exterior fui analisado apenas como escritor, tendo tido uma excepcional acolhida da crítica e de personalidades como Lévi-Strauss ou Maurice Druon — e tido, além das edições padrão, a acolhida para um público maior, em coleções de bolso como Le Petit Vermillion e a Folio, da Gallimard. Eu também fui responsável, pois fui um mau autor, não pude dedicar à minha obra a atenção que todas precisam de seu autor.
Foi em parte na busca de alcançar as novas gerações que combinei estas novas edições, que receberam da editora um tratamento moderno, com excelentes capas e a possibilidade de serem compradas num estojo que reúne os três romances. Para temas diferentes, fiz abordagens diferentes, e não sei se quem tiver lido um terá ideia do que são os outros. O Dono do Mar é uma história de pescadores, lendas e tempos do Maranhão; Saraminda se passa em torno do ouro do Amapá e de uma mulher que com ele se identifica; e A Duquesa vale uma Missa é a visão íntima de uma paixão diferente.
Foi sobretudo Norte das Águas que me conduziu, pelas mãos de grandes escritores da Casa, que já eram meus amigos, à Academia Brasileira de Letras. Ali entrei com 50 anos, estou, portanto, há 45 e há cerca de 20 anos sou seu decano — coisa meio triste, pois significa que todos que lá estavam quando fui acolhido já se foram. Fiquem tranquilos, eu nem sonhava em ser Presidente da República, e meu lugar na Casa é do escritor, não do político.
É assim, me sentindo rejuvenescido com o lançamento destes livros, que estou emocionado e grato com a homenagem que a Academia me presta.
Não foi uma homenagem ao meu destino, que cumpri como pude, mas à minha vocação, a literatura.
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A alegria do Brasil veio da África
Quando Presidente da República, visitei Cabo Verde, então governado pelo meu saudoso amigo Aristides Pereira. Foi uma admiração baseada na sua história de lutador pela independência de Cabo Verde e por seu trabalho à frente daquele país.
Foi uma recepção inesquecível. Na ilha da cidade de Praia, sede do governo, desembarcamos e fomos recebidos por uma multidão com galhos de árvores, tambores e uma grande alegria. Estava acompanhado por Jorge Amado.
Quando vi a alegria naquelas manifestações musicais, virei para Jorge e disse: “Você está vendo o que estou vendo?” E em seguida acrescentei: “Estou vendo na beleza dessa multidão em sua manifestação que a alegria do Brasil e do povo brasileiro veio da África. Você pode ver esta multidão aqui em Cabo Verde como eu posso ver no Maranhão, e você, na Bahia.”
O sangue africano, fundamentalmente, contribuiu para a formação do caráter e da identidade do povo brasileiro, de tal modo que podemos afirmar sermos um país mestiço. Praticamente nenhum brasileiro pode negar que essa marca esteja presente em seu DNA.
Pois bem. É uma vergonha que a escravidão no Brasil tenha se prolongado até o fim do século XIX. Mas a libertação dos escravos foi um dos maiores movimentos brasileiros na construção de uma consciência nacional contra o sistema de terror que a escravidão representava.
O terceiro maior quilombo do Brasil foi comandado pelo Negro Cosme, líder do Quilombo da Lagoa Amarela, no Maranhão. A primeira coisa que fez no Estado foi fundar uma escola de leitura e escrita. Ali se reuniam quase três mil negros. Foi mártir, enforcado em Itapecuru-mirim, no Maranhão.
Não me canso de dizer que, ao lado de Zumbi, a luta da raça negra deve invocar essa figura notável, heroica, brava e altamente revolucionadora, que nos deu o exemplo de querer para o seu povo a ascensão através da educação.
No Brasil não podemos falar da Abolição sem invocar a figura de Joaquim Nabuco, que dedicou sua vida, sua obra e seu talento a essa causa, ajudado pelo maranhense Joaquim Serra, a quem o próprio Nabuco reconhecia que, sem ele, jornalista e lutador, a campanha da Abolição não teria sido o que foi. Foi seu assessor e companheiro. Infelizmente, Joaquim Serra morreu antes que a Abolição fosse proclamada.
A comemoração do Centenário da Abolição ocorreu durante a minha presidência. Não quis fazer festa, mas marcar a data com a minha convicção de que a nossa luta contra a discriminação racial dos negros tinha tido até então apenas manifestações políticas, nas quais não se via nenhuma providência concreta para a sua ascensão social, única fórmula para a sua participação nas decisões nacionais e a extinção da discriminação.
Criei a Fundação Palmares, que até hoje é o grande instrumento a promover esse destino. Por outro lado, como Senador, sem que nunca se tivesse falado sobre isso no Brasil, apresentei no Congresso Nacional o primeiro projeto abrangente sobre cotas raciais e ações afirmativas, dando a oportunidade de os negros terem uma cota de participação não somente no ensino médio e no universitário, mas também em vários setores da sociedade, de modo a que eles ascendessem a camadas mais altas em nosso país. E assim vejo na televisão, nas novelas, em telejornais e em diversos programas a participação do talento negro com seus valores, sua alegria, sua cultura e sua musicalidade, que eles trazem no sangue.
As cotas raciais e a Fundação Cultural Palmares têm ajudado na ascensão social, política e econômica dos negros no Brasil.
O que me inspirou não foi a motivação política, mas a do intelectual que sempre esteve ao lado da luta dos negros e ao lado de Afonso Arinos, que propôs a tipificação da discriminação de raça e cor (Lei Afonso Arinos, Lei nº 1.390/1951). Minha inspiração vinha também do exemplo americano, onde a política de inclusão racial funcionava desde o final da década de 1960.
Aqui no Brasil, iniciamos, em 1971, o movimento para a criação, em 1978, do Dia Nacional da Consciência Negra, homenageando Zumbi dos Palmares, e tornamos a data feriado nacional em 2023/2024, lei sancionada pelo Presidente Lula. Os Estados Unidos iniciaram uma homenagem, em 1968, ao seu grande líder negro assassinado, Martin Luther King Jr., e tornaram a data feriado federal em 1983, com início em 1986.
A comemoração que se fez ontem no Brasil, com o Feriado Nacional da Consciência Negra, é motivo de orgulho para todos nós.
O Brasil é um país mestiço, o que tive a oportunidade de proclamar em discurso nas Nações Unidos. Muitos não compreenderam, envolvidos no espírito da discriminação. Essa diversidade étnico-cultural não deve ser escondida, mas sim celebrada com satisfação.
Isso é um trunfo, e um trunfo nosso, característica do povo do Brasil, cuja alegria veio da África. E isso foi expresso ontem pelo Dia Nacional da Consciência Negra.
Viva!
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Terra em Transe
Em outra sexta-feira tive a oportunidade de escrever nesta coluna sem qualquer preocupação ou dúvida de que o setor do agronegócio é o mais desenvolvido do nosso país, responsável pelo aumento do nosso PIB, representando o que há de mais moderno no mundo em matéria de pesquisa agrícola e agropecuária, em que o Brasil, com a Embrapa – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, ocupa uma posição de excelência.
Hoje também não tenho dúvida de afirmar que o maior de todos os nossos atrasos decorre da defasagem em ciência e tecnologia. Muitos desses desencontros foram resultado de políticas inadequadas, especialmente da falta de incentivos à aplicação tecnológica da ciência digital, que constitui a materialização prática da ciência.
Agora, com a realização da COP30 — 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima —, em Belém do Pará, ficam mais evidentes as descobertas da ciência sobre as mudanças do regime climático, com o alerta de que o aumento do efeito estufa e da temperatura da Terra estão caminhando para um ponto de não retorno. As enchentes avassaladoras apontam que o desastre ecológico que ameaça nosso planeta já está “mostrando suas unhas”. Enquanto isso se processa, aparecem alguns negacionistas que só nos sugerem como exemplo os pessimistas que Moisés mandou espiar a Terra de Canaã, que com seus relatos atrasaram em 40 anos a travessia do deserto.
Os Estados Unidos, que foram exemplo nestes últimos séculos da construção do regime das liberdades, objetivamente relacionadas nas dez primeiras emendas à Constituição americana, inspiradas por Thomas Jefferson, agora assumem uma posição na qual a democracia está sob ameaça no mundo inteiro. Essa mudança iniciou com o desaparecimento do maior exemplo democrático para dar lugar aos fatos dolorosos que ocorreram em Washington antes da posse de Joe Biden, contabilizando cinco mortos e dezenas de feridos no ataque ao Capitólio, exemplo seguido pelo Brasil em 8 de janeiro de 2023.
Mas não ficou aí. Agora reeleito, o Presidente americano iniciou a desestabilização da economia mundial com uma política de tarifas e como sempre enveredando pela negação da ciência ao não aceitar que o mundo marcha aceleradamente para uma tragédia ambiental. Trump não só não acredita como procura encontrar motivações demagógicas para as verdades comprovadamente frutos de descobertas científicas.
Felizmente os números deste ano parecem apontar para uma inflexão nessa tragédia. Na realidade, tenho recebido da comunidade científica — bastante prestigiada por mim durante o tempo em que fui presidente da República — resultado do trabalho que lá atrás se iniciou: a descoberta do enriquecimento do urânio na fábrica de Aramar, desenvolvido pela nossa Marinha, em que asseguramos a destinação da energia nuclear para fins pacíficos, com aplicação na saúde, na produção de energia etc.
Com ambições de modernidade, tivemos então feitos marcantes na história científica do Brasil: criei o Ministério da Ciência e Tecnologia, dando aos nossos cientistas recurso e prestígio. Para se ter uma ideia, o CNPq concedeu mais bolsas em meu governo do que em todos os seus 34 anos anteriores. Com isso tivemos grandes marcos científicos, como o primeiro reator de pesquisas nucleares, o domínio do enriquecimento do urânio, o primeiro acelerador linear de elétrons, o centro de construção e o primeiro laboratório de testes de satélites, o Laboratório Nacional de Luz Sincronton, o sistema de monitoramento ambiental por satélites, o desenvolvimento de novos materiais, como fibras óticas e cerâmicas de alta resistência, avanços em radar, lasers e tantas outras coisas.
Acreditava eu — e ainda penso da mesma forma — que o mundo do futuro não será de países grandes ou pequenos, mas daqueles que dominarem tecnologias e saberes científicos. A ciência e a tecnologia são tão importantes no processo produtivo contemporâneo quanto (ou até mais do que) os recursos naturais, os equipamentos industriais ou a própria mão-de-obra.
Assim o apoio à comunidade científica deve estar na mesa dos planejadores tanto quanto a infraestrutura e a política econômica. O Brasil, como o grande país que é, não pode jamais ficar no fim da fila dos saberes científicos. Devemos aspirar não somente a participar da inteligência mundial como também a fomentar o desenvolvimento de cérebros que nos assegurem não somente prêmio Nobel, mas uma equipe capaz de caminhar assim como na agricultura, na pecuária, no desenvolvimento de vacinas, em todos os ramos das inovações tecnológicas.
O Brasil não pode abdicar de ser o país do presente e do futuro.
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Não à violência
Começo com uma confissão: tenho absoluto horror à violência, que choca as minhas mais profundas convicções. Isso, é claro, é um sentimento que me acompanhou toda a vida. Homem público, tive que reconhecer que o monopólio da força pelo Estado, derivado das fórmulas de Hobbes, é uma condição essencial para, justamente, conter a violência, pois homo hominis lupus est, o homem é o lobo do homem.
Mas a ação do Estado começa com a preservação da vida e dos direitos fundamentais e, para isso, esta tem que ser a visão prioritária de quem age em seu nome. Não adianta ensinar bons modos, técnicas de defesa e ataque etc. se esse ponto essencial não fizer parte do treinamento diário.
Sei que a violência existe desde sempre, mas é possível coibi-la. Quando assumi o governo do Maranhão, já lá vão 60 anos, encontrei presos amarrados por correntes aos antigos troncos, como no tempo da escravidão. Mostrei essas correntes e garanti que nunca mais elas seriam usadas — e elas foram abolidas.
Hoje mal tenho coragem de ver o noticiário. A ideia de que tantos mortos sejam considerados um resultado secundário de uma ação policial, por mais sucesso que tenham tido em seus objetivos iniciais, me deixa atônito. Admitamos, só para argumentar, que todos fossem bandidos. Mas cada um era uma pessoa, um ser humano com família, pais, mulher, filhos, amigos. Como pessoa, como brasileiro, tinha direito às mesmas garantias do artigo 5º da Constituição que tem cada um de nós. E, possivelmente, alguns deles não eram bandidos.
O bandido tem direito a ser julgado e receber a pena proporcional a seu crime. E quem julgou esses bandidos, no calor da ação, resolveu cumprir ali mesmo a pena de morte: mas a pena de morte é vedada na Constituição brasileira. Assim são rasgadas todas as garantias que lhes assegura o Estado de Direito.
O caminho para resolver isso tem sido apontado por ações como a que, há pouco tempo, atacou os braços financeiros de uma organização criminosa sem qualquer morte. Felizmente, também, parece se firmar a convicção de que, tendo o crime organizado se espalhado pelo País, é preciso a coordenação da União para poder ser efetivo o resultado. Ações pontuais são incapazes de afetar a força dessas organizações. Ao mesmo tempo, é preciso criar punições fortes para todo grupo armado — tráfico ou milícia, não se distinguem — que afete a presença efetiva do Estado em qualquer área do Brasil, seja cidade ou floresta.
Dizem que nossas estatísticas de crimes de morte violenta estão caindo. No ano passado tivemos mais de 44 mil mortes, uma queda de 5,4%; mas o número de desaparecidos — grande parte deles são presumivelmente vítimas de morte violenta — subiu 4,9%, passaram de 81 mil. As mortes pela ação do Estado foram mais de 6 mil e constituem 14% das mortes violentas intencionais. Com justiça se considera horrorosa a morte de policiais, dignos de todos os elogios por bravura: eles foram 43 no ano passado. Há, nessas estatísticas, um terceiro problema: não se sabe quantas mortes violentas por esclarecer foram ou não contabilizadas, como é a norma nos últimos anos; antes dessa regra essas representavam um número da ordem de 20% daquelas. Vemos uma situação horripilante quando somamos os 44+81+8 mil casos: temos 133 mil vítimas. Os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostram outros pontos chocantes, como a gigantesca proporção de jovens e de pretos, que deveria soar todos os alarmes.
Só para nos situarmos, na atual Guerra da Ucrânia morreram cerca de 30 mil civis, enquanto na Palestina devem ter morrido cerca de 70 mil.
Mas saiamos desses números que, de tão grandes, nos fazem perder a visão humana. Há, em toda essa barbaridade, em toda essa atrocidade, uma outra tragédia: a dos familiares das vítimas. Os pais que choram, as mulheres que se desesperam, os filhos que estão desamparados são faces de dores irreparáveis, de vazios que nunca serão preenchidos. Cada um deles precisa de apoio do Estado, que não lhes garantiu o direito à vida.
Há muitos anos apresentei um projeto de lei para criar um fundo de indenizações às vítimas de violência, a ser suprido inclusive com pagamentos pelos culpados. A mim me parece que é uma lacuna que o País tem que resolver. Joaquim Nabuco tem uma frase que já repeti muitas vezes, pois ela diz tudo. Ele fala do escravizado, mas podemos transpor para os nossos dias: esta questão “versa sobre as aspirações, os sofrimentos, as esperanças, os direitos, as lágrimas, a morte de milhares e milhares de gentes como nós; [e não é] uma questão abstrata, mas concreta, e concreta no que há de mais sensível e mais sagrado na personalidade humana”.
Peço a Nosso Senhor Jesus Cristo, vítima de violência, que morreu para nos ensinar o amor, que ilumine o Brasil.
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Meus Romances
Não é de bom-tom tratar de assuntos pessoais em nossas colunas de jornal. Mas não resisto à tentação de abordar o relançamento de três romances meus em São Paulo hoje, 23 de outubro, quando escrevo esta coluna, editados pela Ciranda Cultural, com o selo Principis. Eles, os editores, tiveram um carinho especial com esta publicação, a começar pelas belas capas temáticas criadas para O dono do mar, Saraminda e A duquesa vale uma missa.
É que neste relançamento o objetivo é atingir um público que ainda não conhece este meu outro lado, a minha atividade literária. A minha vida sempre teve duas vertentes, a da política e a da literatura, sem que uma invadisse o campo da outra. Embora minha presença na vida nacional tenha sido marcada pela política, não passou um só dia que eu não tivesse um convite de noivado para a literatura. Foi assim que eu consegui, pela graça do destino e de Deus, na política, chegar a Presidente da República e, na literatura, a membro da Academia Brasileira de Letras, para a qual fui eleito em 1980, sendo hoje o decano daquela Casa, onde entrei nos braços de meus livros de poesia e de contos: Canção Inicial (1954), Maribondos de fogo (1978) e o de contos, Norte das águas, publicado em 1969. Depois veio o Saudades mortas.
Na poesia, fui considerado como um poeta que atingiu o “domínio completo da melodia poética”, e o português João Gaspar Simões — o crítico que apresentou Fernando Pessoa em 1927 — observou no meu Maribondos de fogos a poética genuinamente brasileira, um eu lírico “que os poetas brasileiros, agora, mais do que nunca, estão, finalmente, a fazer seu e bem seu.”
Sobre o meu livro de contos, Norte das águas, alegraram-me as palavras de Léo Gilson, ao dizer que mostrei “um pedaço mais ameno e mais doce do Nordeste que é o Maranhão.”
O romance O dono do mar já foi traduzido em doze línguas, sendo recebido, pela crítica nacional e estrangeira, com grande generosidade. É de Heitor Cony, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Domício Proença, Léo Gilson Ribeiro, grandes escritores e críticos de literatura de nosso país e de notáveis escritores internacionais, como Alain Peyrefitte, autor do best-seller consagrado Quando a China se levantar, o mundo tremerá; Maurice Druon, autor de dois livros marcantes O Menino do dedo verde e Os reis malditos, que disse ser O dono do mar “uma saga sem precedentes na literatura latino-americana”; e Levy Strauss, o grande antropólogo e maior intelectual da Europa do século XX, que disse tratar-se de “obra monumental”. Este livro entrou na Coleção da Gallimard de literatura folio, a maior da Europa, com 2.800 títulos. Dos brasileiros, nela figuram Machado de Assis, Jorge Amado e Guimarães Rosa.
Quando, em 2018, foi editada a minha bibliografia geral e fortuna crítica, foram arrolados 120 títulos. Fiquei surpreso. Nem eu avaliava tantas publicações, com 168 edições, porque muitas das publicações tiveram muitas edições.
Devo confessar que esta vocação de escritor muito me envaidece, porque, como teria dito Napoleão Bonaparte, a política é um destino, ele ocorre circunstancialmente na vida, diferentemente da literatura, que é uma vocação, nasce das qualidades que nos governarão o viver. Não ocorre: nasce. E aguarda uma atitude nossa em resposta a esse chamamento.
Assim, hoje, estaremos na livraria do Shopping Iguatemi autografando livros, revendo amigos e surpreendendo jovens: o velho Sarney feliz, como se estivesse iniciando seus livros, romances de histórias que inventou de pescadores, de garimpeiros e de apaixonados por mulheres retratadas na história dos reinados de França, como no A duquesa vale uma missa.
Com O dono do mar acredito ter realizado uma obra de começo, meio e fim — assim foi apontado pela crítica de muitos países em que foi editado. Já em Saraminda, construí um personagem que domina e fica. Heitor Cony disse que na literatura brasileira tínhamos agora três mulheres: Capitu, Iracema e Saraminda. É exagero, mas dá vaidade.
Em Brasília, também relançaremos esses romances, no dia 11 de novembro, no Salão Negro do Senado Federal. Em seguida, será a vez de São Luís, no dia 5 de dezembro.
E aqui fico, encabulado pelo artigo pessoal, mas feliz — com a sua licença, caro leitor.