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José Sarney

Tancredo Neves: Os Desejos

Tancredo contou-me que, no Governo de Raul Soares —Presidente (governador) de Minas Gerais de 1922 a 1924 —, em Minas, ainda havia no Palácio da Liberdade um corredor por onde entrava o Presidente do Estado toda manhã. Em bancos laterais desse corredor ficavam os pedintes, e ali o Presidente fazia o seu primeiro despacho: uns pediam passagem, outros, emprego etc. Entre aquelas pessoas, havia uma senhora que nunca lhe pedira nada, mas todo dia ali se sentava. Até que, passadas umas duas semanas depois que assumira, Raul Soares perguntou-lhe:

 

— E a senhora, todo dia sentadinha… O que deseja?

 

Ela perguntou ao Presidente:

 

— Já voltaram a fornecer as passagens para o noturno do Rio de Janeiro?

 

Todo governo começava com um corte de despesas, a primeira delas era a doação de passagens. Passada a propaganda da eleição, voltava tudo a ser como dantes no quartel de Abrantes.

 

Em 1955, quando era deputado federal, Tancredo Neves foi encarregado por Juscelino de explicar ao Dagoberto Sales — que já tinha sido convidado por ele para Ministro da Agricultura — que ele teria de nomear para esse cargo o então Governador do Maranhão, Eugênio Barros, com quem combinara a eleição do Chateaubriand a senador pelo Estado, para, com isso, receber o apoio dos Diários Associados. Juscelino recompensaria o Maranhão nomeando Ministro da Agricultura o Eugênio Barros, em vez do Dagoberto Sales.

 

Passada a eleição, Tancredo evitava encontrar-se com ele: quando ia à Câmara desviava do deputado sempre que o encontrava, com vergonha da missão que lhe tinha sido confiada por Juscelino.

 

Um dia não teve jeito: ia subindo a escada atrás da mesa, no plenário da Câmara, que levava à Primeira-Secretaria, e Dagoberto ia descendo. Tancredo saudou-o:

 

— Ô Dagoberto! Que saudade! Como vai você?

 

— Vou como noiva em noite de lua de mel!

 

E o melhor da história: Eugênio Barros também não foi nomeado Ministro da Agricultura, cargo que terminou nas mãos de Ernesto Dornelles, primo de Getúlio, que acabara de encerrar seu mandato de Governador do Rio Grande do Sul, por outro desses arranjos feitos nas campanhas eleitorais.

 

Eugênio Barros foi mais discreto: perguntado por que não fora nomeado Ministro da Agricultura, como tinha sido noticiado, respondeu:

 

— Porque não fui convidado!

 

Na organização do Ministério, em 1985, Ulysses levou a Tancredo o protesto geral do PMDB pela escolha do Antônio Carlos Magalhães para Ministro das Comunicações.

 

Disse-lhe Ulysses que não tinha condições de segurar o Partido, que eles tinham como candidato Freitas Nobre ou Severo Gomes. Todos estavam revoltados com a escolha do ACM.

 

Então, Ulysses avisou a Tancredo:

 

— Você vai ser obrigado a enfrentar uma briga muito grande com o Partido, com os candidatos, com as lideranças por causa disso. Pense bem, Tancredo, arrume um lugar de embaixador para o Antônio Carlos.

 

Tancredo bateu na perna do Ulysses e disse-lhe:

 

— Olhe, Ulysses, eu brigo com o Papa, brigo com o Partido todo, brigo com as lideranças, brigo até com você: eu só não brigo com o Dr. Roberto Marinho, que nada me pediu e merece minha atenção!

A Furna da Marruá

Bobbio dizia que a velhice era muito boa e cheia de encantos, o maior deles o gosto de matar saudades. Mas eu acho que o divertimento maior da velhice é o espaço de contar histórias, bom para encher e passar o tempo.

 

As operações do Ministério Público e da Polícia Federal, seguindo o costume das operações militares, têm sido férteis em criar cognomes e às vezes até os símbolos gregos e latinos são usados para denominar o trabalho. Assim é que encontraram o nome de Furna da Onça, que poucos sabem o que era e ninguém, hoje, se lembra de onde vem. Simplesmente era um nome muito conhecido do Rio dos anos 50, dado a um conjunto de duas salinhas no fundo do plenário do Palácio Tiradentes, então sede da Câmara dos Deputados, único lugar que existia, no meu tempo de deputado federal no Rio de Janeiro, para apoio dos parlamentares.

 

Essa denominação logo se popularizou graças à coluna Rondó, de curiosidades, mantida no Jornal do Brasil pelo grande jornalista Hermano Alves, que por alguns anos perambulou como exilado em vários países e só voltou ao Brasil em 1984; acabou morrendo em Lisboa. Muitas vezes fui seu informante e colaborador; eu contei ao Hermano a denominação das salinhas da Câmara, e ele começou a falar delas como se fossem o lugar dos conchavos políticos, por discretos e longe da imprensa.

 

Essas duas salinhas passaram a ter uma só denominação, passando do plural para o singular: Furna da Onça. Não sei com exatidão quem pôs esse nome. Sem certeza, acredito que a autoria esteja entre o Último de Carvalho, que gostava de brincadeiras desse tipo, e o Carvalho Sobrinho, que fazia quadrinhas, algumas célebres, que não repito para não lembrar a memória e a personalidade de muitos companheiros daquele tempo, final dos anos 50. O primeiro deputado por Minas Gerais e o segundo por São Paulo.

 

Uma das salas tinha somente uma funcionária, muito feia, que datilografava telegramas para nós. Do outro lado, uma moça bonita, alvo da investida de muitos parlamentares, muito assediada. A primeira, alvo de chacotas, foi logo apelidada de Onça, dando nome à sala de Furna da Onça.

 

Agora a Furna da Onça está consagrada pela Polícia Federal. A Onça da Câmara, vítima da feiura, ficou eternizada.

 

Talvez, se fosse hoje, quando a novela Pantanal ocupa a noite das famílias brasileiras, e Alanis Guillen — com seu notável desempenho — fosse funcionária da Assembleia do Rio de Janeiro, as salinhas da Câmara seriam Furna de Juma Marruá, e os deputados faltariam às sessões para ver o momento em que ela se transforma em onça e, em vez de processos apurando as mortes da novela e os processos políticos, teríamos milhares de denúncias de assédio sexual. E a onça solta no plenário da Câmara ia atacar muita gente.

 

E aí a Polícia Federal, em vez de Operação Furna da Onça, teria de chamá-la de Operação Marruá.

Rua México, 3

A UDN foi o grande partido do Brasil. Seus quadros constituíam a elite nacional, juntando conservadores com a esquerda democrática, como os dois irmãos que traziam incorporados em sua biografia a luta e o exílio curtidos na oposição a Getúlio Vargas: Otávio Mangabeira e João Mangabeira, brilhantes e combativos.

 

Organizados em partido depois da queda do Getúlio, tinham por hábito reunir-se toda quarta-feira em sua sede, na Rua México, 3, onde as diversas alas e divergências cruzavam espadas.

 

Quando eu cheguei ao Rio, em 1955, um ano após o suicídio de Vargas, graças a Odylo Costa, filho — a mão generosa que me acolheu e tinha, como secretário do Brigadeiro Eduardo Gomes, entrada no sínodo —, eu, coroinha, passei a conhecer, deslumbrado, as figuras que eram da minha devoção. Na casa de Odylo, na Rua Áurea, reuniam-se os cardeais Carlos Lacerda, Milton Campos, Magalhães Pinto, Osório Borba, Afonso Arinos, misturados com intelectuais como Manuel Bandeira, Peregrino Júnior, Eneida, Pedro Nava, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, o meu conterrâneo e amigo Josué Montello e tantos e tantos outros.

 

Mas da Rua México até a Rua Áurea do Odylo eu me afastei do assunto — as discussões da UDN, nas quais a política fervia. Por obra e graça da habilidade do então presidente Magalhães Pinto, o partido era conduzido em duas alas muito definidas: a radical de Carlos Lacerda e a macia dos mineiros. A primeira, intransigente e violenta contra Juscelino, e a outra contemporizadora, mesmo acusada de colaboracionista. Lacerda toda quarta fazia denúncias violentas do governo e pedia que o partido se pronunciasse. Magalhães usava a técnica de contornar, dizendo: “A denúncia é grave. Designo uma comissão composta pelo deputado Carlos Lacerda, como presidente, Mário Martins — grande batalhador —, (…) com o prazo de 90 dias para analisar a denúncia e conduzir a posição udenista”; e assim abafava todas as acusações. Lacerda não aceitava e agredia o Magalhães. A discussão era árdua e rica. Nela tomavam parte Aluísio Alves, Virgílio Távora, Seixas Dória… A imprensa repercutia e alimentava o noticiário da semana.

 

De dois episódios me lembro bem, entre os muitos que presenciei. Seixas Dória, brilhante, idealista e baixinho, fora convidado por Leandro Maciel, velho chefe político, grande e alto, ambos candidatos a governador, a fazer uma campanha “alta”. Seixas retrucou: “Nada de campanha alta, quero baixa e digna.” Invocava seu tamanho para estabelecer a regra.

 

A UDN indicou Leandro Maciel como candidato a vice-presidente na chapa de Jânio Quadros, que logo implicou com ele e quis substituí-lo. Não se sabia qual a motivação que a UDN teria para retirá-lo da chapa. Discussão vai e vem e Virgílio Távora encerrou: “A questão é esta: ninguém ajuda; nosso candidato não tem dinheiro nem para pagar o hotel.”

 

E foi assim que foi aberta a vaga para Milton Campos!

Severo Gomes

Severo Gomes e Henriqueta, sua mulher, pessoa de caráter e coragem, acompanhavam Ulysses e Dona Mora no trágico voo de helicóptero em que desapareceram ao largo de Angra dos Reis.

Joaquim Nabuco, ao escrever esse livro extraordinário que é Um Estadista do Império, nos dá uma lição que jamais aprenderemos: fazer perfis, colocar em poucas linhas um retrato dos homens.

É quase impossível fazer sequer um desenho de Severo Gomes. Dizer que foi um patriota é pouco. Em Severo Gomes a ação política estava indissoluvelmente ligada à sua personalidade. Como político, não era o articulador clássico, mas um organizador da articulação. Era dotado de grande cultura, apoiada numa memória fantástica e num saber enciclopédico. Tinha o gosto da vida, uma alegria de saber sorrir, um riso entre a malícia e a vivacidade intelectual.

Mas eu vi Severo e Henriqueta sofridos olhando murcharem as flores da vida. Pedro, amigo e colega dos meus meninos, o filho único, tragicamente foi levado pelas mãos da morte.

Gostava de reunir amigos. Recebia sem requintes, mas era um grande anfitrião. Lembro-me de um fim de semana em São José dos Campos. Entre os convidados o general comandante da Brigada de Campinas. Octávio Frias, ali presente, apertou o homem. Fez duras críticas ao regime. O general tentou reagir. Frias não recuou e investiu forte, de alabarda à mão. O clima ficou pesado. Severo não vacilou: tocou a ordem de servir uma leitoa, assada por um especialista contratado em Minas. E confidenciou: “Vamos sair juntos com o general, porque assim escaparemos à ordem de prisão que ele vai fazer quando chegar ao quartel. Esta casa é o centro de subversão do Vale do Paraíba…”

Grande “causeur”, sua prosa era viva e rica. Cheia de referências eruditas, sem desprezar o pitoresco, a ironia, a farpa e o brilho das citações históricas.

No meu sítio do Pericumã, num domingo, deu-me um conselho que não pude esquecer. “Toda fazenda dá prejuízo. Mas o prejuízo que dá maior satisfação ao dono é um casal de jumentos, para mostrar aos visitantes. Visita adora jumento.” Comprei os jumentos e uma briga com Marly. Os bichos comiam as plantas cultivadas com trabalho e carinho por suas mãos. Mas era uma festa! Com direito a cenas de vigor e relinchos de glória.

A conversa saiu para equitação. Falei dos andares do Maranhão. O “dois cortado”, o “esquipar”, o “mão quebrada”. Severo humilhou me. Disse-me que o cavalo, segundo a mitologia, chegara à Grécia pelo mar. “Veja os centauros.” Tácito, Virgílio e Horácio escreveram muito sobre cavalos. Que os estribos e arreios tinham sido descobertos no século 4. Falou do montar do duque de Alba e de outro de que não me recordo. Depois, sem ponto nem vírgula, saiu fluente para Kant, Hegel, Rousseau, Hume e Locke, que tratava com intimidade. E da filosofia saiu para sementes, mulheres, revoluções, economia, religião e tudo que lhe dava na telha. Não parava. Sabia tudo.

Quando Severo Gomes era ministro da Indústria e Comércio, recebeu relatório de um grande laboratório internacional, destinado a seus acionistas, justificando os lucros baixos naquele ano:

“O inverno foi muito fraco e, com o tempo bom, não tivemos a incidência de pneumonia nem complicações respiratórias. Os casos de gripe foram muito aquém de nossas previsões, e os gastos com anúncios sobre nossos produtos, excessivos.”

“Assim, pedimos a compreensão dos nossos acionistas para os baixos lucros, que não foram decorrentes da falta de esforço de nossos executivos.”

 

E o relatório continuava:

“Contudo, as perspectivas de melhoria são excelentes. Todas as previsões meteorológicas indicam que o próximo inverno vai ser rigoroso, com novos vírus gripais, não sendo descartada a hipótese de incidência de epidemias.”

“Assim, o volume de consumo dos nossos medicamentos vai ser muito grande e explosivo, compensando o fraco desempenho deste ano.”

“Isto é o capitalismo”, dizia Severo para fechar a prosa.

Mazzilli, o Presidente

ORanieri Mazzilli, deputado pelo PSD de São Paulo, foi, durante muitos anos, presidente da Câmara. Tinha um aspecto de lutador de boxe ou barítono, com uma envergadura muito grande, e falava com certo ar de autoridade, o que lhe dava o respeito dos seus colegas e, ao mesmo tempo, condições para dirigir os trabalhos com muita competência.

Quando veio a Revolução de 64, o Presidente Castello pediu-lhe, e à sua Bancada na Câmara, que apoiassem o nome do Deputado Bilac Pinto para substituí-lo, uma vez que já ocupava o cargo há sete anos e estava pleiteando a reeleição.

Mazzilli, muito querido e prestigiado na Casa, manteve a sua candidatura, certo da vitória. Perdeu por larga margem de votos — 167 contra 200 de Bilac.

Quando fui falar com ele para cumprimentá-lo e lamentar sua derrota, embora nele não tivesse votado, porque pertencia à Bancada da UDN e era amicíssimo do Bilac Pinto, ele me disse:

— Sarney, eu tinha a promessa de 250 votos e, por isso, disputei a eleição. Apurada a urna, perdi por 33 votos. O pior é que tive somente 167 votos, mas recebi a solidariedade dos 250 deputados! E não tenho como distinguir quem me traiu: todos com a mesma cara!

Em sua última viagem como presidente da República, Juscelino Kubistchek foi a Portugal com uma grande comitiva para uma solenidade como nos velhos tempos, em que os chefes de Estado, em visitas oficiais, viajavam em seus melhores vasos de guerra, comboiados por uma esquadra de navios. Ao chegar a Lisboa, para onde viajou de avião, embarcou no cruzador brasileiro Barroso e foi recebido num grande desfile, que saiu da margem do Tejo.

O Presidente Kubitschek passou cinco dias em Portugal, onde foi alvo de grandes homenagens e fez discursos de amor à santa terrinha lusitana.

Como Jango o acompanhou, seguindo para Genebra, em missão oficial, Juscelino entregou o governo a Ranieri Mazzilli.

Zezinho Bonifácio contava que, no primeiro dia, Mazzilli foi a Caconde, em São Paulo, sua terra natal. Lá desfilou em carro aberto, de faixa presidencial no peito, o povo todo da região saudando e gritando: “Presidente! Presidente! Nosso filho presidente!”

No segundo dia, o Mazzilli foi à cidade de São Paulo, onde dormiu no Palácio dos Campos Elísios: concedeu audiências e recebeu a poderosa Fiesp, Federação das Indústrias de São Paulo, e mais outras entidades representativas da potência paulista.

No terceiro dia, viajou ao Rio de Janeiro. Hospedou-se no Palácio das Laranjeiras, reservado à Presidência da República, e deu um banquete para o qual convidou toda a sociedade carioca. Visitou duas ou três obras que estavam sendo construídas no Rio de Janeiro.

No quarto dia, voou para Brasília e ali recebeu — ele, vestido de fraque, com luvas de couro —, em várias solenidades no Palácio do Planalto, as autoridades: primeiro, os cumprimentos do corpo diplomático; depois, os deputados federais e, por último, os senadores e os ministros do Supremo Tribunal Federal.

No quinto dia — dizia o Zezinho Bonifácio —, Mazzilli fez uma proclamação agradecendo a lealdade do povo brasileiro a ele durante seu período de Governo e relatando seus feitos: a inflação não tinha subido; a dívida externa, também não. Agradeceu a lealdade das Forças Armadas, do Congresso Nacional e foi dormir no Palácio da Alvorada.

O Juscelino tinha uma lancha chamada Gilda, em que levava os visitantes para ver o lago Paranoá, principalmente à noite, quando havia luar, e oferecia jantares a bordo. Algumas vezes, a maldade nossa, da UDN, dizia que essas festas não eram tão puras e protocolares como se falavam: o que havia de mais belo, nas festas nessa lancha Gilda, eram as modelos do concurso de Miss Brasil, que ele homenageava dessa maneira.

Finalizava o Zezinho Bonifácio: “O Mazzilli fez tudo o que o Juscelino fazia. Calcule que, por último, queria até levar as misses em um passeio na lancha Gilda para conhecer o Lago Paranoá.”.

O Amor de Jesus Cristo

“Pode de Nazaré vir alguma coisa boa?”, pergunta Bartolomeu a Filipe, no começo da vida pública de Jesus. Pois foi nesta humilde cidadezinha da Galileia que o Criador escolheu um casal de noivos, Maria e José — ela, a pureza absoluta; ele, um carpinteiro da linhagem de Davi —, para em Maria encarnar Jesus. Seu Filho vem para que tenhamos ao nosso lado a face de Deus compreensível para os homens, uma presença para nos amparar nos momentos maus, para nos consolar nas horas amargas, distantes da terrível presença de Javé: Jesus Cristo é o amor que nos prescreve como o único caminho.

 

Sim, em Nazaré, sob os cuidados de José, que é a figura mais tranquila dos Evangelhos, que aceitou a vontade do Criador sem dizer uma palavra: ele comunica-se com os anjos que o visitam em sonhos, seguindo o Arcanjo da Anunciação. Assim, quando Jesus sai para cumprir seu destino, é o homem simples, desse lugar simples, dessa família simples — a mais extraordinária, no entanto, de todas as famílias. Jesus nunca escreveu nada, mas é o homem mais lido do mundo. Suas palavras são, por isso mesmo, palavras simples, mas de extrema expressão — palavras que mudam a humanidade. No tempo em que o que valia era a força, ele veio com um único valor, o do amor.

 

Suas palavras se diferenciam de todas as outras, pois são eternas, estão integradas a todos os tempos da Humanidade, mas os antecedem e os ultrapassam.

 

Pegou pescadores e artesãos e os transformou em discípulos que o seguiam e que receberam, no Pentecostes, pelo Espírito Santo, a missão de apóstolos, de levar o Evangelho, a Boa Nova, a Palavra a todos os lugares do mundo. Para ajudá-los enviou-lhes um que era contra ele, que recebeu na estrada de Damasco a revelação do Senhor e foi o escolhido para ser o consolidador de uma doutrina e difundir seus ensinamentos.

 

Mas o mistério profundo da encarnação era o resgate de uma promessa muito antiga, o de um Salvador, um Messias, que nos livraria do pecado original. Para isso a Palavra se fez Carne, habitou entre nós, assumiu a culpa da Humanidade — a Humanidade em seu sentido absoluto, isto é, de todos os homens de todos os tempos — e foi morto e ressuscitou. O Filho de Deus viveu como Filho do Homem o sofrimento total, a traição, a humilhação, a tortura, a morte de cruz. “Tendo amado os seus neste mundo, amou-os até o fim.”

 

Quando Jesus Cristo exclama, “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, está aceitando a integridade de nossa culpa e cumprindo sua missão. Desde esse momento doloroso recebemos a consequência da promessa de Deus Pai: a vida eterna. Para abrir o nosso caminho, Jesus ressuscitou ao terceiro dia.

 

Lembro, como já fiz tantas vezes pela importância que têm para a Igreja e, em particular, para a minha fé, as palavras de São Paulo: “se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé”.

 

Amor, amar, foram as palavras simples de sua vida. Ele diz: “O Pai que me enviou deu-me um mandamento sobre que direi e falarei. E sei que o mandamento d’Ele é vida eterna.” “Que vos ameis uns aos outros, tal como eu vos amei, para que também vós vos ameis uns aos outros.”

 

Jesus Cristo pregou a bondade para transformar o homem num ser pacífico.  Mas a Humanidade avançou muito pouco. Esperemos que se aproxime o dia em que Sua palavra seja ouvida por todos: “Ameis!”

 

“Deixo-vos paz. Eu vos dou a minha paz.”

Otávio Mangabeira

Otávio Mangabeira fora deputado federal desde 1911, chanceler no governo Washington Luís, exilado, novamente deputado, deputado constituinte, governador da Bahia, senador, participara da fundação da UDN e era membro da Academia Brasileira de Letras desde 1934. Velho, nos últimos anos de sua vida, morava no hotel Glória; se não me engano, na suíte 901, no nono andar. Recordo-me de que ele tinha os pés já bastante inflamados e andava com chinelas de plumas, muito confortáveis. Ali recebia os amigos e admiradores e os líderes dos partidos políticos, que sempre desejavam ouvi-lo.

 

Nós, da UDN, éramos presença constante. Não digo por mim, que era muito jovem, mas ali estive duas vezes, em companhia do Carlos Lacerda e do João Agripino.

 

No dia da revolta do Major Veloso, de Aragarças, Carlos Lacerda, ao saber da deflagração do movimento, telefonou para João Agripino e para mim pedindo que fôssemos ao hotel Glória, à suíte do Mangabeira, para onde ele estava se deslocando.

 

Lá cheguei e já encontrei o Lacerda dizendo ao Mangabeira que não tinha nenhum envolvimento com o fato e, pelo contrário, ouvindo alguns ruídos sobre sua ligação com oficiais da Aeronáutica, tinha chamado o Major Veloso, um dos mais afoitos, e dito que não praticasse nada de sedição — coisa de que eles falavam todo dia — e que ele condenaria qualquer movimento dessa natureza.

 

Mesmo assim, Veloso e alguns companheiros de farda desviaram três aviões militares, sequestraram um Constellation e foram para a pequena base de Aragarças. Foi o primeiro sequestro de avião do Brasil.

 

Lacerda insistia em reafirmar a Otávio Mangabeira e a todos nós — foram chegando outros colegas de partido: Rondon Pacheco, Milton Campos — sua absoluta falta de participação nesse movimento, feito com o objetivo de derrubar o Juscelino.

 

Mangabeira deu sua opinião, também contrária àquilo, dizendo que se tratava de uma loucura de jovens revoltados da Força Aérea, que ainda não haviam superado os resultados da chamada República do Galeão, na qual eles tinham feito o famoso inquérito sobre a morte do Major Vaz, que levara ao suicídio de Getúlio Vargas.

 

Ali foi tomada a decisão de que a UDN, por todos os meios, manifestaria sua contrariedade à chamada Revolta de Aragarças. Carlos Lacerda comprometeu-se a discursar, à tarde, na Câmara dos Deputados, dizendo de sua — bem como de todo o partido — condenação ao movimento e ao gesto tresloucado.

 

Foi um discurso difícil e notável!

 

Passada a agenda política, Carlos Lacerda perguntou ao Mangabeira por que ele não se mudava para um apartamento, argumentando que ficar ali no hotel seria bastante caro para ele, homem desprovido de posses, sendo muito mais barato morar em sua própria casa.

 

Mangabeira respondeu-lhe: “Carlos, na minha idade, não sei mais quem paga meu hotel.”

 

Antônio Carlos Magalhães contava que um dia Mangabeira lhe perguntara pelo Luiz Viana. Ele, então, disse que o Luiz Viana se encontrava na Bahia, aonde fora para a comemoração de sessenta anos de um amigo.

 

Doutor Mangabeira respondeu-lhe: “Quer dizer que Luiz Viana foi à Bahia só para um aniversário de sessenta anos de um fulano de tal…” E concluiu: “É. Hoje qualquer vagabundo faz sessenta anos na Bahia!”

 

Otávio Mangabeira era governador da Bahia, e o jornal A Tarde começou a atacar alguns oficiais que teriam provocado uma desordem na zona de meretrício de Salvador. Esses oficiais invadiram e empastelaram o jornal, pelo desrespeito que tinha tido com a oficialidade da guarnição militar.

 

Simões Filho, que era uma grande figura da Bahia, ex-ministro da Educação e fundador de A Tarde, procurou Mangabeira: “Governador, isso não pode acontecer no seu Governo: empastelaram o jornal, quebraram tudo e surraram uns jornalistas. Lembremo-nos de Rui Barbosa, que dizia: ‘A imprensa constitui o pulmão da democracia.’ O senhor tem que tomar providências imediatas, abrindo inquérito para punir os culpados.”

 

Mangabeira olhou para ele e respondeu: “Ó Simões, Rui é o astral; a realidade é o Exército Nacional!” E deu por encerrada a conversa.

 

Antônio Carlos contava isso com muita graça, imitando, como ninguém, o falar entre as bochechas do velho Mangabeira.

Milton Campos

O doutor Milton Campos, um dos grandes nomes da UDN, intelectual brilhante, advogado, jornalista, foi deputado constituinte, governador de Minas, senador, candidato a vice-presidente da República, ministro da Justiça. Estava, certa vez, no aeroporto do Rio, quando se aproximou dele uma sessentona, daquelas mulheres engajadas na política:

— Doutor Milton, eu sou da UDN, mas da UDN verdadeira: fui uma das viúvas da rotativa e sou da UDN da calúnia! Da calúnia, doutor Milton, como o senhor!

 

O fato é que Carlos Lacerda promovera uma campanha para comprar uma rotativa nova para o jornal Tribuna da Imprensa: algumas senhoras saíram pela avenida Rio Branco com a bandeira da UDN esticada, e as pessoas jogavam, no meio da bandeira, suas contribuições. O Diário Carioca, que era do PSD e contra a UDN, cognominou as senhoras quarentonas de “viúvas da rotativa”.

 

Milton Campos, um padrão de correção ética, sorriu e disse:

— Persevere!

 

Ele tinha um espírito de ironia fina. Quando era governador de Minas Gerais houve uma greve de professores. O secretário da Educação fez um relatório sobre a greve, informando que era grave no Município de Divinópolis, e disse ao Governador que era necessário determinar ao secretário de Segurança que mandasse um destacamento da Polícia para acabar com ela.

 

Milton Campos respondeu ao secretário:

— Não, eu tenho outra solução: vou mandar o secretário da Fazenda pagar o salário dos professores, que estão em greve pelo atraso de seus vencimentos!

 

Seu chefe do gabinete civil era o Pedro Aleixo, muito seu amigo e figura das mais expressivas da política mineira.

 

Como era ele que executava as ordens do governador, contava-se, em Minas Gerais, a seguinte história: quando alguém queria falar com o Governador Milton Campos, ele dizia:

— Fale com Pedro, primeiro.

 

Naquela época Pedro Aleixo ficou conhecido como um dos Braganças: Pedro I.

 

Quando Milton Campos foi candidato a vice-presidente na chapa de Jânio Quadros, a votação para presidente e vice era independente. Isso fez que Jango — João Goulart — promovesse o voto Jan-Jan, infelizmente vitorioso: podemos imaginar que se Milton fosse o vice-presidente não haveria a crise de 1964 e o regime militar. O Jânio não contribuiu, durante a campanha, para desestimular o Jan-Jan. Apesar disso, ele e Milton muitas vezes fizeram campanha juntos.

 

Jânio Quadros, em todos os lugares aonde chegava, fazia o mesmo discurso, sempre com uma fórmula mágica para levantar as massas e levá-las ao delírio.

 

Certa vez, em Salvador, fomos a um comício, e o Jânio provocou o Milton Campos:

— Doutor Milton, o senhor, em cada lugar, faz um discurso diferente.

 

O Milton Campos respondeu:

— É porque não tenho boa memória, Governador.

 

Em Brasília, logo após a mudança da capital, as casas dos deputados eram como repúblicas de estudante: nós nos reuníamos para bater papo e, ao mesmo tempo, tomar alguns drinques. Uma dessas casas, que tinha fregueses fixos, era a do Padre Godinho, brilhante orador e deputado por São Paulo.

 

Um dia, na mesa de drinques, o Padre Godinho perguntou a todos:

— Está faltando gelo?

Milton Campos lhe respondeu:

— Não, Godinho, está faltando uísque!

 

Outra tirada do Milton Campos, como sempre cheia de ironia e sabedoria, ocorreu durante um voo entre Rio de Janeiro e Vitória. O avião enfrentou muita turbulência e jogou muito. A aeromoça chegou junto ao Milton, que estava pálido e suava muito, e perguntou:

— Falta de ar, doutor Milton?

— Não, falta de terra.

Flores da Cunha

Quando cheguei à Câmara, lá estava o General Flores da Cunha, de terno branco, sempre de roupa clara, gravata borboleta, cabeça branca e contando histórias dos pagos gaúchos. Sua história já era, então, uma lenda: fora deputado desde a legislatura de 1913, senador em 1928, um dos líderes da Revolução de 30, governador do Rio Grande do Sul em 1935; exilado no Estado Novo, voltara ao Brasil em 42 e fora preso na Ilha Grande; constituinte pela UDN, tornara-se presidente da Câmara em 1955.

 

No primeiro dia em que nos cruzamos, ele pegou no meu braço e perguntou:

 

— Menino, de onde vens?

 

— Do Maranhão.

 

— Isto aqui já é jardim de infância?

 

Eu era bem jovem: estava nos meus 25 anos.

 

Certa vez, num debate na Câmara, o orador invocou aquele exemplo sempre usado quando se quer referir a uma coisa impossível: “É mais fácil um boi voar…”

 

Quando Flores da Cunha, criador, admirador de cavalos e de corrida, ouviu isso, levantou-se, foi ao microfone e disse:

 

— Boi não sei se voa, mas cavalo, se for alazão, voa!

 

Flores da Cunha presidia a Câmara, e eu fui, como Vice-Líder da UDN, pedir-lhe que convocasse uma sessão noturna para votarmos uns projetos. Ele me disse que fosse ao 1º secretário, Deputado Wilson Fadul, para que ele fizesse a convocação.

 

Fui ao Fadul, que me disse:

— Sarney, só convoco se o General Flores da Cunha mandar por escrito.

 

Retornei ao Flores da Cunha e repeti-lhe o que acabara de ouvir do Fadul. Ele me respondeu:

 

— Volte ao Fadul e diga-lhe que a palavra do General Flores da Cunha vale mais do que a sua assinatura.

 

Era um frequentador assíduo do jóquei-clube, onde não perdia a chance de jogar num páreo. Já na velhice, estava passando por dificuldades, e perguntaram-lhe o motivo de sua situação.

 

Ele respondeu:

— Mulheres ligeiras e cavalos lerdos!

 

Discursava na tribuna da Câmara e um deputado o aparteou dizendo:

 

— Vossa Excelência dá uma no cravo e outra na ferradura!

 

O general respondeu rapidamente:

 

— Mas não tenho culpa de você se mexer tanto!

 

Quando Juscelino mandou à Câmara dos Deputados o projeto das tesoureiras letra “O” — classificação alta na tabela de vencimentos do funcionalismo —, regularizando cargos que ele tinha preenchido, diziam, com moças muito bonitas, o General Flores da Cunha pegou-me pelo braço e perguntou:

 

— Vais votar neste projeto?

 

Eu respondi-lhe:

— General, do senhor eu esperava bons exemplos, mas em vez disso me dá um mau exemplo pedindo meu apoio a um projeto vergonhoso como este?

 

Ele me respondeu:

— Sarney, olha ali, naquela tribuna…

 

Eu olhei, e ele me mostrou uma velhinha elegante, de chapeuzinho de lado, assistindo aos debates na Câmara. Então acrescentou:

 

— Aquela é a Rosita. Ela fazia nossa felicidade quando nos defendíamos do minuano no tempo dos provisórios — forças armadas estaduais, compostas por brigadas militares e milícias civis. Ela vai ser nomeada tesoureira letra “O”. Então tu achas que, porque Adão, pai de todos nós, nos meteu nesse sacrifício de trabalhar para comer, para tudo na vida, eu não devo, por motivo de gratidão e amor, aumentar o orçamento da República um pouquinho por causa de uma mulher?

 

E completou:

— Uma vez, na tenda da campanha, esquecido de que estava fumando um bom charuto, queimei-a! Ela reagiu, em trejeitos de carinhos: “General, usted me lastima!”

D. Pedro I

Nos 150 anos da Independência, em 1972, o Coronel Otávio Costa, chefe da comunicação do Médici, teve a ideia de criar uma diplomacia dos ossos para reavivar o nosso sentimento patriótico: trouxe de Portugal os ossos de D. Pedro I, que percorreram o Brasil inteiro e, depois, tiveram o devido repouso no Panteão do Ipiranga, em São Paulo.

 

O caixão não podia ser aberto, fazia parte do acordo Portugal-Brasil, porque havia sempre o perigo de ossos trocados. E os portugueses bem sabem disso: a urna que continha os ossos de Santo Antônio de Lisboa, venerada por séculos na igreja do mesmo nome, quando foi aberta, para grande surpresa, tinha apenas ossos de um pobre carneirinho!

 

No Maranhão, a urna fúnebre ficou solitária no Palácio dos Leões.

 

O jornalista Erasmo Dias, tradicional boêmio de São Luís e grande escritor, estava, como em todas as noites, na zona do meretrício, quando se lembrou dos ossos de D. Pedro. Era alta madrugada. Chamou os bêbados retardatários das pensões de mulheres:

 

— Dom Pedro I está no Palácio dos Leões. Convido vocês a irem comigo visitar os ossos do Imperador.

 

Organizou um séquito respeitoso que, cambaleante e silenciosamente, subia e descia as ladeiras desertas da velha cidade para prestar homenagem ao proclamador da Independência.

 

Chegaram ao Palácio dos Leões, onde estava o caixão, para o velório patriótico.

 

Na sala de lustres portugueses, luzes baças, o caixão dourado.

 

Os bêbados se aproximaram. Erasmo foi o intérprete deles. Fechou o punho, bateu forte na tampa do caixão do Imperador e falou com a voz embargada e roufenha, pela cerveja e pela noite:

 

— Guabiru! Guabiru! Papaste as melhores damas do Império!

 

Feita a homenagem, retiraram-se em respeitoso silêncio.

 

  1. Pedro adorava cavalos e formara o hábito de elogiá-los aos donos, que acabavam por presenteá-los ao Imperador. Uma feita admirou um cavalo de um homem de sua guarda de honra, Domingos Marcondes de Andrade. Elogio, elogio, e nada. D. Pedro comentou o apreço exagerado do dono pelo animal. O guarda lhe disse que corria que ele costumava chamar os cavalos pelo nome de quem os presenteara e que nunca nenhum Marcondes fora montado. Assim o cavalo passou ao Imperador com a promessa de nunca o chamar com o nome do antigo dono.

 

Conta-se que D. Pedro I, após a abdicação, quando partia para a reconquista da coroa portuguesa, viu aquela fileira de barões nomeados por ele, deputados e senadores, entre a solidariedade e o medo do futuro.

 

O Marquês de Paranaguá apresentou-se na nau inglesa Warspite. D. Pedro disse-lhe que dele não podia se encarregar, pois já trazia muita gente às costas.

 

— Espero que não irá a Portugal antes de minha filha ficar estabelecida no trono; proíbo-lhe.

 

— Mas, senhor, que quer que eu faça? Não tenho fortuna.

 

— Faça o que quiser, não é da minha conta: por que não roubou como Barbacena? Estaria bem, agora.

 

Barbacena negociara o casamento de D. Pedro com D. Ana Amélia, e o Imperador o considerava inescrupuloso.

 

Era o mesmo D. Pedro que dissera ao Marquês de Quixeramobim sobre Gonçalves Ledo, um dos grandes heróis da Independência e homem de grande prestígio, inimigo dos Andrada, quando aquele defendia do crime de responsabilidade seu Ministro da Guerra, General Oliveira Álvares:

 

— Forte tratante! É a terceira vez que o compro e em todas me tem servido bem.

 

Desde 1826 abdicara da Coroa portuguesa em nome da filha, Maria II. D. Miguel, seu irmão, dera um golpe de Estado e formara um regime absolutista. Depois de preparar, com parcos recursos, o resgate de Portugal para a filha e para o liberalismo, D. Pedro, usando o título de Duque de Bragança, finalmente desembarca perto do Porto, em julho de 1832. Um ano depois de tremendo esforço, em que fizera de tudo, até montar canhões, conquista Lisboa e Porto; em maio de 1834 assina a Paz. Mas, nas comemorações, leva o lenço à boca num acesso de tosse e o retira vermelho de sangue: está tuberculoso. Continua, com imensa dificuldade, trabalhando. Ocupa, no Palácio de Queluz, o Quarto dom Quixote — decorado com cenas do livro de Cervantes —, onde nascera. E ali morre, quatro meses depois, vitorioso contra os moinhos de vento da História.