José Sarney
Viver é bom!
Antigamente, o velho era objeto de respeito e reverência. Veja-se o culto que a eles faziam, e ainda fazem, os índios, sendo parte de sua cultura essa marca. Estudando a História, vamos encontrar essa quase divinização dos velhos no fato de serem eles a memória dos povos. Sem escrita, a única maneira de guardar o passado era a memória, e esta, quanto mais antiga, mais longe ia no conhecimento de tudo, dos fatos cotidianos até todos os ramos dos acontecimentos.
Vemos isso no Fedro, de Platão, em que Sócrates conta que o deus Thot levou ao rei do Egito, Thamus, a escrita, remédio contra a dificuldade de aprender e recordar. O rei Thamus reagiu: “O que será de nossas memórias, de tudo que temos na cabeça se o homem vai ter tudo isso armazenado na escrita? Ela só produzirá nas almas o esquecimento dos que a aprenderem, fazendo com que deixem de exercitar a memória; confiando neste auxílio, a escrita, eles deixarão a caracteres materiais o cuidado de recordar as lembranças de que seu espírito terá perdido o traço.”
Os velhos, então, eram os verdadeiros sábios: eram os guardiões da experiência e testemunhas do passado.
Assim, a velhice foi tema constante desde o começo da literatura e continua sendo objeto de reflexão, associada à morte, por parte de filósofos e pensadores.
No tempo bíblico se vivia muito. E não são poucos os personagens que viviam séculos, o maior deles, Matusalém, avô de Noé, 969 anos, e não sabia quantos filhos, netos e bisnetos tinha, porque todos eram avós e bisavós e já tinham morrido. Até 187 anos procriou, e Noé, seu neto, até 500 anos. Todos os patriarcas, segundo a Bíblia, viveram muito e funcionaram demais.
Há alguns anos, li uma pesquisa sobre a maneira de os brasileiros encararem o envelhecimento, que revelou que apenas 9% dos entrevistados afirmaram não ter nenhum receio do envelhecimento, ou seja, a maioria receia essa fase da vida. O paradoxo é que todos querem envelhecer, desejando chegar, uns, mais pessimistas, aos 76 ou 85 anos, outros, mais otimistas, aos 96, e ainda outros até 120 anos. Todos acreditando nos novos medicamentos, na medicina preventiva e no progresso das técnicas de cirurgia.
A verdade é que é muito bom fazer aniversário e assistir à mudança de ano. Bobbio, o grande politicólogo italiano, ao definir sua velhice, disse: “A velhice é muito boa, mas com um grave defeito: dura muito pouco.”
Mas o tempo é uma invenção dos homens. O que existe é a Eternidade, sem começo nem fim. O homem resolveu marcar a vida pelos anos. Nós, cristãos pelo nascimento de Cristo, há 2026 anos, menos que uma gota de água na imensidão dos dias e das noites. Os judeus têm o seu calendário; os chineses, idem; e nós este que seguimos, chamado de gregoriano, porque foi São Gregório que conseguiu esta fórmula de 28 dias em fevereiro; de quatro em quatro anos, 29; e com meses de 30 e de 31 dias, tudo de modo a fechar a rotação da Terra em torno do Sol, nos 365 dias de um ano.
Envelhecer é bom, como dizia Saulo Ramos, meu amigo que 2013 levou: “A outra solução é pior. Melhor é confessar!” Concordo. A outra solução é não envelhecer, levado por aquele esqueleto com foice na mão, inspirado em Plutão, ou pela velha Morta, a terceira das Parcas, que cortava o fio da vida tecido por Nona e controlado por Décima, velhas memórias dos romanos.
Jorge Amado me dizia: “Até hoje não encontrei nenhuma vantagem na velhice.” E terminava contando seu encontro com Pablo Neruda, depois da separação de longos anos de exílio. Quando Jorge lhe perguntou sobre determinado amigo comum, Neruda respondeu-lhe: “Não me pergunte por ninguém, todos já morreram.”
Isto eu considero o pior de envelhecer: perder todos os amigos de sua geração, um a um, ver indo embora todas as referências da infância, da mocidade, da maturidade e do nosso universo sentimental.
Ainda bem que Deus, como o bondoso Pai que é, nos deu o conforto de nunca os esquecer.
*******************************************
Democracia de Massa
Aqui em São Paulo, no Hospital Sírio-Libanês, onde ainda me encontro brigando com uma indigesta pneumonia que resolveu me perturbar nessa semana da eleição, mas já me preparando para voltar ao Maranhão, escrevo estas apressadas linhas.
Nestes 41 anos da Nova República exercemos a Democracia pelo voto do povo. No domingo próximo, dia 4, o País irá às urnas para escolher seus representantes no Poder Executivo e nas Casas Legislativas, estaduais e federais. Em quatro dos meus cinco anos na Presidência, realizamos eleições: um dos meus primeiros atos ao assumir foi restaurar as eleições diretas em todos os níveis no Brasil (Emenda Constitucional nº 25), uma vez que o País estava saindo do regime de eleições indiretas via Colégio Eleitoral, que Tancredo dizia serem as últimas a serem realizadas no Brasil. E foram.
Hoje, o Brasil é a segunda maior democracia do mundo ocidental, implantada pela transição que presidi, que se concretizou com as eleições diretas e a nova Constituição Federal. Foi uma das mais marcantes transições da América Latina, que elaborou sua própria Carta Magna e consolidou uma verdadeira sociedade democrática de massa.
Na minha vida, concorri em 12 eleições. Na primeira, para deputado federal, em 1954, não fui eleito, mas fiquei como suplente, tendo a oportunidade de assumir várias vezes o mandato na Câmara dos Deputados, no Rio de Janeiro. A partir daí, fui eleito deputado federal por duas vezes, governador do Maranhão, senador pelo Maranhão, também duas vezes; presidente da República e senador pelo Amapá, por três mandatos.
Esses mandatos, somados, deram-me a condição de ser o Parlamentar que mais tempo passou no Senado na era republicana, 39 anos, mais 10 anos em cargos no Executivo, como governador e presidente da República, e 12 anos como deputado federal. À exceção da minha primeira candidatura, em todas as outras vezes em que concorri fui o mais votado. Agradeço a Deus o destino que me proporcionou; ao povo do Maranhão, do Amapá e ao povo brasileiro, pela confiança depositada em minha carreira política.
Em 1984, sob a liderança de Tancredo Neves, com a minha participação e as de Ulysses Guimarães, Aureliano Chaves e Marcos Maciel aprovamos o Manifesto da Aliança Liberal, que reuniu o MDB e a Frente Liberal, na qual estabelecemos os princípios que seguiríamos na transição democrática, entre eles o maior de todos: a convocação da Constituinte, o que fiz logo nos primeiros meses do meu mandato como Presidente da República. Isto, sem dúvida, marcou a transição democrática brasileira e assegurou ao País a estabilidade e a volta ao Estado de Direito, que sustenta a nossa Democracia até hoje, permitindo que mais uma vez possamos ir às urnas escolher os nossos governantes.
Sempre tive na minha vida forte consciência democrática, que nasceu quando eu era jovem e participei da Juventude Brigadeirista, no combate à ditadura Vargas. Cheguei, inclusive, a ser preso durante uma manifestação, que contava com a presença do interventor do Maranhão, quando gritei: “Abaixo a Ditadura!”
Fui o único governador a não aprovar o AI-5, o que determinou uma especulação muito grande de que eu seria cassado, o que não aconteceu: o Presidente Costa e Silva disse, numa reunião de governadores a que eu estava presente, que não desejava desmontar a Federação. Quando eu era Senador da República, em conjunto com Teotônio Vilela, Daniel Krieger, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Aureliano, Marco Maciel, Roberto Freire, Haroldo Lima, Fernando Henrique Cardoso criamos uma entidade secreta chamado “Sacro Colégio”, cuja finalidade era não permitir que o Congresso Nacional fosse fechado, uma vez que a nossa convicção era de que, se permanecêssemos com o Legislativo funcionando, conseguiríamos ultrapassar o regime de exceção.
E foi isso o que conseguimos, finalmente, com a minha eleição e de Tancredo para, respectivamente, vice-presidente e presidente da República, cargo que assumi enfrentando a tragédia da morte do nosso líder Tancredo. Presidi uma transição absolutamente tranquila, consolidamos a Democracia e hoje estamos completando 41 anos no regime democrático, com mais uma eleição; nesta, tenho a felicidade de ver Roseana Sarney concorrendo com forte apoio do povo maranhense a uma vaga no Senado Federal, cumprindo o seu grande destino de líder política, tendo sido a primeira mulher eleita governadora de um Estado brasileiro pelo voto direto.
Acredito que o Senado esteja precisando, agora mais do que nunca, de lideranças como a de Roseana para recuperar o seu prestígio e voltar a ser aquela Casa que conheci, onde, com o auxílio do Conselho de Estado, o Brasil se consolidou como Nação e se estruturou, tornando-se o grande País que hoje é: a oitava economia do mundo, com voz e voto nos grandes organismos internacionais, podendo nosso Presidente afirmar que “Não seremos quintal de ninguém.”
Portanto, no domingo, vamos viver a nossa Festa Democrática, com quase 160 milhões de eleitores chamados às urnas para celebrar esse pacto entre o Governo e o Povo, saudando o Brasil como um dos grandes países democráticos do mundo, com uma economia livre e um regime político sob o Estado de Direito.
O amor do Brasil à ONU
Quando me tornei deputado federal a Câmara dos Deputados ficava no Rio de Janeiro, no Palácio Tiradentes. Continuei deputado depois da inauguração de Brasília, a nova capital. Em 1961, ao contrário do que veio depois, quando Câmara e Senado passaram a fazer parte da Delegação como observadores parlamentares, a representação dos nossos órgãos legislativos era nomeada pelo Presidente da República e participava plenamente dos trabalhos. Eu fui convidado pelo Ministro Afonso Arinos, Chefe da Delegação, para integrá-la. A Assembleia Geral das Nações Unidas era realizada sempre no mês de setembro, e o Brasil, desde 1955, abria os trabalhos.
Era a 16ª Assembleia Geral, e os sinos da Segunda Grande Guerra Mundial ainda eram ouvidos ao longe.
Tornei-me membro da Comissão de Política Especial, encarregada, nas Nações Unidas, das questões do Alto Ádige (atualmente a Província Autônoma de Bolzano, com população de origem austríaca, ocupada pela Itália durante o fascismo, onde um grupo procurava a independência com ações terroristas); dos refugiados árabes da Palestina (como eram chamados os palestinos expulsos de suas terras para a criação do Estado de Israel); do apartheid na África do Sul, sistema abominável de segregação racial; e de outros assuntos. Da Comissão de Política Especial faziam parte Golda Meir, representando Israel, e Antonio Segni, Ministro das Relações Exteriores da Itália e futuro presidente daquele país, eu — então com 31 anos de idade —, pelo Brasil, e outros membros, todos de grande representatividade mundial. Ali, sentado naquele ambiente de grande prestígio, eu estava nervoso, mas agradecido a Deus por ter me conduzido, tão jovem, a tamanhas responsabilidades, que procurei cumprir com o maior zelo e grande dedicação. Procurei manter aproximação com Golda Meir, e duas vezes ela me convidou para almoçar — ela que já era, e continuou sendo, um ícone mundial —, com Yitzhak Rabin e Shimon Peres. Este, quando veio ao Brasil, citou um de meus livros em seu discurso. Foi um dos maiores oradores que ouvi. Muito diferente de Netanyahu, ele foi o verdadeiro representante do povo judeu.
Naquela Comissão na ONU eu proferi talvez o primeiro discurso do Brasil contra o apartheid. Condenei veementemente a excrescência daquele regime e citei a Lei Afonso Arinos, que criminalizou a discriminação racial.
Agora, o pronunciamento de Lula nas Nações Unidas foi excelente, bem estruturado e magnificamente escrito. Concordo com sua afirmação sobre a falência da ONU na realização de seus objetivos de promover a paz e acabar com as guerras (embora tenha conseguido evitar até agora uma nova guerra mundial), que expressa um sentimento unânime da comunidade internacional.
Recordo que, quando pela primeira vez estive nas Nações Unidas, o mundo era muito diferente. O Estado de Israel tinha sido criado havia uma quinzena de anos; muitos palestinos viviam abrigados em campos de refugiados, como o que visitei perto de Sídon, no sul do Líbano — e que deu origem ao Hezbollah. Penso que foi um grande erro a ONU não ter consolidado também o Estado Palestino, após ter aprovado a sua criação. Já os atuais Emirados Árabes e outros territórios da região eram liderados por emires e sultões que andavam paramentados naqueles corredores em busca de tornar seus países independentes, o que ocorreu. Hoje, eles são ricos exportadores de petróleo.
O Brasil esteve perto de integrar o órgão executivo da Liga das Nações e, mais tarde, o Conselho de Segurança na estruturação da ONU após a Segunda Grande Guerra, conflito de que participamos com um grande corpo expedicionário — nossos mortos, naquela época, ainda repousavam em Pistóia, na Itália, onde lutamos.
O País sempre sonhou ser membro permanente de uma organização que fosse criada para assegurar a Paz mundial. Alegava ser o maior país da América do Sul e da América Latina, com participação nas duas Grandes Guerras Mundiais, e o único da região a enviar tropas para o combate contra os alemães, com um expressivo contingente de expedicionários que lutou em campos europeus. O Brasil sofreu com vítimas em campos de batalha e teve muitos navios mercantes afundados, somando perdas humanas e materiais.
Durante os trabalhos da Liga das Nações, na década de 1920, o Brasil teve sua pretensão a um assento permanente frustrada por oposição de países europeus e pela falta de apoio dos nossos vizinhos, países do nosso próprio continente. Em resposta, o Brasil usou seu direito de veto contra a Alemanha e, isolado diplomaticamente, retirou-se da organização, em 1926.
Nas Nações Unidos, instituição idealizada e com nome dado por Franklin Roosevelt, o Brasil recebeu o compromisso de ter participação de destaque, inclusive no Conselho de Segurança. Este pleito era encampado pelo próprio Presidente norte-americano. Contudo, essa proposta foi barrada em 1945, na Conferência de São Francisco, durante a elaboração da Carta da ONU — seu capítulo dos direitos humanos, escrito em 1948, teve importante colaboração do grande escritor brasileiro e Presidente da nossa ABL por mais de 30 anos, Austregésilo de Athayde. A oposição a termos assento permanente veio do Reino Unido, da União Soviética e de países da própria América Latina. Àquela altura, Roosevelt, nosso grande amigo, já havia falecido e seu compromisso não foi mantido. Mesmo assim, o Brasil assinou a Carta e, desde o início, mantém com a ONU uma relação de amor e apoio.
Quando fui Presidente renovei esse pleito, ainda hoje secundado pelo Presidente Lula, e continuamos a reivindicar a reforma da Carta da ONU para que o Brasil integre o Conselho de Segurança como membro permanente.
Enquanto esse momento não chega, devemos prestigiar as Nações Unidas, pois é essa organização que assegura a convivência internacional e a igualdade das Nações.
Minhas cidades
O mês de setembro é para mim especial por um motivo aparentemente menor: é o mês de aniversário das duas cidades que marcaram, mais que qualquer outra, os meus primeiros dias: Pinheiro, onde nasci, e São Luís, onde me tornei gente e que conquistou o meu coração.
Minhas lembranças de Pinheiro são envoltas numa certa neblina, mas nela há focos de nitidez, às vezes não em coisas que lembre com meus olhos, mas com um conhecimento tão remoto que dificilmente posso distinguir dos outros: a chuva que caía, Mãe Benta, que tinha sido escrava, a parteira da cidade, e ficou ao lado de minha Mãe e minha Avó durante o trabalho de parto, a ida de meu Pai de madrugada à Farmácia do Zé Alvim para obter um remédio — injeção de pitruitina — para restabelecer as contrações do parto, a promessa de meu Pai de que eu me chamaria José de Ribamar, o nascer empelicado, as joias colocadas na bacia para o banho do recém-nascido.
Minha lembrança real é meio confusa. Eu devia ter uns três anos, passa uma fileira de índios com passos cadenciados diante da casa. Não há rostos, as figuras deslizam. Depois minha Mãe ajudou-me a entender: eram índios canelas, que vinham de quando em quando adquirir mantimentos, trocando peles de animais selvagens por pólvora, açúcar, farinha e fumo. Sua aldeia estava vinte léguas distantes, já na selva do rio Tury. Mas a cidade se fechava, no medo de um passado de lutas e mortes. Assim minha primeira memória é do medo.
Minha segunda memória, da mesma época, é de uma lata de flandres com biscoitos sobre uma mesa com toalha vermelha; há choros. Aprendi que naquele dia minha bisavó, que fora visitar o filho deputado em São Luís, morrera em casa dele. A partir daí me vem a lembrança das pessoas, como minha Avó Madona.
Por tudo perpassa a memória da chuva, do pote com água de caneca, da cozinha com os caldeirões de ferro, em trempes de pedra, com carvão de árvores secas, das fruteiras, manga, figo, laranja-da-terra, tangerina e da horta de quintal com tomate, vinagreira, maxixe, alface e abóbora.
Só mais tarde vem se somar à lembrança de minha Mãe Kiola a de meu Pai — influência definitiva em minha vida —, Sarney de Araújo Costa. Vítima da perseguição política do regime Vargas, ele foi transferido de cidade em cidade e percorri com ele o Maranhão.
Eu o acompanhei nas entranhas físicas do Estado, mas foi minha chegada a São Luís a maior revelação de minha vida. Meu pai fora chamado para trabalhar na Procuradoria do Estado, e começamos a vida itinerante que marcou minha infância. Embarcamos cedo em São Bento. Passei mal na viagem. O balanço do barco nas ondas violentas, os gritos, o gemer da vela, as cangas de água que lavavam o convés. Ao anoitecer, na entrada do Porto de São Luís, melhorei. Chegávamos. Olhei as luzes da cidade. Tudo me pareceu muito claro e belo. Via a eletricidade pela primeira vez e fiquei intrigado com essa luz que não se apagava, como acontecia com os morrões das lamparinas.
Do barco tomamos uma canoa que encostava na rampa, feita de pedra, que avançava na água e era coberta pela maré. O limo a tornava escorregadia e os catraieiros ajudavam a evitar os tombos das pessoas.
Os barcos chegavam com as marés, e minha Tia Martinhana e seu marido Isaac Lobato nos esperavam. A quantidade de carroças — tão diferentes dos poucos carros de boi de São Bento — que recebiam malas, cofos, sacos, engradados de galinhas, patos, porcos, gaiolas de passarinho, paneiros de farinha e peixe salgado, couros de boi, caças e peles de caças, os cachos de banana, as laranjas, o cupuaçu, a carne seca e a grande quantidade de amêndoas de babaçu, de arroz e de feijão — me impressionou.
Uma carroça levou nossos sacos, e nós fomos de bonde. O bonde! — Quem puxa o bonde? — A eletricidade. Não entendi. Quando, depois, vi a lança do bonde correndo no fio, imaginei que a lança era o cavalo da carroça e o boi do carro.
Ficamos em casa de Tia Martinhana por umas duas semanas. Dali descobri a cidade de São Luís com seus casarões altos que pareciam ir ao céu, o casario que se derramava em ocre ladeiras acima e abaixo, as telhas a cobrir tudo como um lençol estendido sobre a cidade. Deslumbramento! São Bento — muito menos Pinheiro — não era o centro do mundo.
Pinheiro, fundada em 1856, completou há poucos dias seus cento e setenta anos. Ali mantenho meus vínculos familiares, grandes amizades, essa lembrança insubstituível da terra em que nascemos. Ali se cristaliza minha primeira ligação com a Baixada, terra alagada, de capins de toda espécie, pássaros em bando, peixes de água doce que vivem em lagos e poções.
Mas em São Luís, fundada há 414 anos, me tornei homem, tive meu primeiro emprego, escrevi meus primeiros versos, tomei parte na Turma da Movelaria que viria a transformar, sob minha liderança, o Maranhão. Aqui combati o bom combate, derrubando a oligarquia que pode ser explicada no fato de que, ao tomar posse, encontrei presos amarrados a troncos como no tempo da escravidão. Daqui mudamos o Maranhão.
São Luís, minha terra, minha paixão!
***********************************************
Livros e Bibliotecas
Quando eu nasci Deus me deu o meu melhor amigo, o livro, que me acompanhou a vida inteira, ensinou-me tudo o que sei, os conhecimentos que adquiri e encheu os meus ócios com a beleza e a força da literatura. Até hoje, nas águas tranquilas dos meus 96 anos, ele não me larga, nem eu largo a ele. O costume tornou-se a minha própria vida. Sempre digo que dois caminhos alimentaram meus dias: o da literatura e o da política. A literatura foi a vocação, e falar de literatura é falar do livro, dessa segunda natureza que me alimentou a cabeça.
A política entrou na minha vida pelos desafios que passei a viver e de que me tornei parte, querendo enfrentá-los para melhorar a sorte do povo dos municípios em que nasci, onde cresci e nos quais lutei. Meu desejo e minha determinação eram aliviar o sofrimento, que testemunhei na minha meninice, na adolescência e na juventude, e meus olhos viam as dificuldades, a pobreza e as injustiças no ambiente em que vivia. Depois, adulto, transportei a minha inconformidade para o Maranhão e, mantendo esta nobre ambição, tornei-me governador e creio ter feito um bom trabalho, separando a sua História em dois momentos, antes e depois de minha administração.
Finalmente, o destino me levou a decidir sobre políticas públicas e lidar com problemas nacionais maiores ainda, gigantescos, e lutar contra soluções demagógicas e simplistas para problemas difíceis e quase insolúveis. A História se contorcia. A democracia renascia em minhas mãos em um momento de grandes obstáculos. Nela e para ela concentrei todos os esforços, de tal modo que hoje podemos celebrar seus primeiros quarenta anos, com uma sociedade democrática de massa e uma Constituição que é das poucas elaboradas nos países que naquele tempo fizeram a transição para a democracia, o que foi ressaltado pelo brasilianista Ronald Schneider ao analisar aquelas transições democráticas.
Mas o que quero mesmo é dizer que, diante da minha frustração de não ter tido a oportunidade de frequentar um grande centro de formação, foi da biblioteca que me socorri para ter êxito na busca de suprir as minhas deficiências por meio do estudo: como não podia adquirir muitos livros, fui atrás deles nas bibliotecas, sendo frequentador delas a vida inteira, a começar pela Biblioteca do Maranhão, que naquele tempo tinha o nome de Benedito Leite, um grande político e intelectual maranhense.
Agora leio, com grande curiosidade, matéria bastante instigante do competente jornalista Irineu Machado, do UOL, sobre a observação diária e empírica que, durante dez anos, com persistência, realiza em suas viagens de metrô, das leituras que os passageiros fazem durante o percurso entre o trabalho e a casa. A primeira percepção dele foi sobre aquilo que é noticiado diariamente, o declínio do hábito de leitura. Em “Frequento uma biblioteca móvel subterrânea”, pela diversidade e quantidade de leitura que presencia no metrô, o jornalista Irineu Machado desmistifica a ideia de que o brasileiro não lê. Em abono de sua tese destaco o êxito da Bienal do Livro de São Paulo, com a presença de cerca de seiscentas mil pessoas, que por ali passaram comprando livros, participando das mesas-redondas e prestigiando palestras e debates com autores. A outra percepção de Irineu Machado é que a “biblioteca móvel subterrânea”, é bastante atualizada com autores clássicos e contemporâneos. Assim Freida McFadden, Kurt Vonnegut, Guimarães Rosa estão juntos na escolha de seus leitores de metrô. É realmente uma diversidade grande: McFadden é uma autora de suspenses, e Vonnegut é um condenador das guerras, como seu livro sobre o bombardeio de Dresden, que deixou centenas de mortos e destruiu a bela e icônica igreja, restaurada com a ajuda do povo do mundo inteiro. Estranho encontrar Guimarães Rosa em companhia dessa gente, ele que divide com Machado de Assis, cada um em seu tempo, serem os maiores autores da literatura brasileira.
Outra constatação, esta minha, sobre o livro, é que ele anda muito: à noite, quando estamos buscando em nossa biblioteca os livros de nossa preferência, nós os retiramos do lugar e, no dia seguinte, eis a nossa procura pelo livro que “andou na madrugada”.
Meus cumprimentos e minha louvação a Irineu Machado pelo ineditismo de sua reportagem, mostrando que encontramos, nesse hábito no metrô, uma extensão da nossa casa e da biblioteca para a leitura, sempre viva.
Mas os livros merecem de nós um carinho muito grande. Temos os nossos amores por eles. Quando tive de separar-me de muitos deles, 24 mil volumes — 90% da minha biblioteca foi doada à Fundação da Memória Republicana, o Memorial José Sarney —, meu coração se apertou. Despedi-me do O Estadista do Império, de Joaquim Nabuco, e do Pesquisas e Depoimentos, de Tobias Monteiro, e quase chorei.
Quando Presidente da República sempre incluía nas minhas viagens visitas a bibliotecas. Foi assim que quando encontrei, entre as raridades que me apresentavam, Os Anais Históricos do Estado do Maranhão, de Bernardo Pereira de Berredo, na 1ª edição, do século XVIII, eu cumprimentei o colecionador e tive orgulho de saber que eu tinha essa mesma edição em meus livros no Maranhão.
Trágico mundo do Discord
Deus me concedeu a graça de ter três filhos e uma esposa que me ajudou a conduzi-los pela vida, sem maiores dificuldades, senão as preocupações comuns a todos os pais para fazer com que um ser humano dê os primeiros passos pela vida e aprenda, assim, a mover-se por si mesmo.
Hoje tenho muitos netos e bisnetos e olho para o mundo com certo temor, pois na época em que criava meus filhos, embora com tantas atividades na carreira política e na vida literária, da qual nunca fiquei apartado, além de contar com Marly, sempre muito atenta às necessidades para a criação de um bom ser humano, tinha absoluta certeza de que, quando estavam em seus quartos, eles realmente ali se encontravam, e não em algum outro lugar do mundo, como é hoje a situação dos pais, que sofrem sem saber como lidar com esse novo passaporte que a humanidade descobriu de poder, a todo instante, se deslocar entre as nações sem gastar nada, apenas alguns toques no teclado ou até mesmo o som da própria voz.
Foi com muita perplexidade e apreensão que li a história da morte da jovem de 13 anos, na semana passada, na plataforma digital, que se soma a tantas outras que vêm acontecendo no mundo, lentamente, dentro de suas casas, já que sua morte foi consequência de outras tantas mortes que a criança fora tendo ao longo de dias de conversa com estranhos pelo computador, até chegar ao ponto de que essas tantas mortes se transformaram em uma, a definitiva. E é esta última que nos choca. É esta última pela qual sofremos. É esta última que faz com que todos nós, ajudados pelos meios de comunicação, gritemos: nossas crianças pedem socorro! Façamos alguma coisa.
No entanto, passado o luto, continuamos tristes, mas voltamos a silenciar sobre o tema. Mas este sofrimento que nos chocou continua pela vida afora nesses sofridos pais, nesses trágicos parentes, nos amigos, que nunca mais deixarão de olhar para uma tela de computador, celular ou tablet sem ver na hora a imagem de uma arma fatal.
Esses mágicos aparelhos, como tudo na vida, têm seus dois lados: a faca que corta o tenro legume mata; o bisturi que opera para salvar vida pode matar se nas mãos de pessoas inábeis. Por isso, nós, adultos, devemos estar sempre atentos a essas crianças que ainda não descobriram que há flores belas que trazem o perfume da morte.
Mas como ser pai no mundo de hoje? Como ter tempo para construir um patrimônio que acolha não só os momentos de agora, mas também o futuro num mundo em que as fronteiras começam a ser dissolvidas por guerras, e os mercados financeiros se divertem na roleta russa na qual os mais espertos vão ficando cada vez mais ricos e todos os outros, cada vez mais pobres?
O que fazer? Se a criança corre risco dentro de casa, se o seu quarto representa tão grande perigo, imaginem a escola e tantos outros lugares que deixaram de ser apenas um lugar de diversão para a infância. Quando as nossas crianças ali estavam podíamos ter um certo descanso ou mais tempo para nossas atividades adultas.
O mundo literário, no qual sempre estive envolvido, me permite ver o mundo de uma forma em que relaciono a praticidade com a intuição. Interpretar personagens num romance pode parecer tolo para muitas pessoas que enxergam apenas nos números a única forma de construir sua vida. Mas por ser um intelectual ligado à literatura é que consigo melhor entender as dificuldades que estamos passando e saber que, se ficarmos desatentos, a civilização poderá encontrar seu fim.
E por meio dessa visão mais acurada da vida vejo uma saída para o momento que estamos vivendo, em que os parentes não podem estar mais o tempo todo ao lado de seus filhos: caberá ao Estado construir o arcabouço de proteção para que as novas gerações não se desintegrem frente às novas tecnologias, nas quais a inteligência artificial hoje compreende e faz parte desse universo paralelo em que as crianças estão se desafiando e encontrando um orgulho pessoal na sua própria morte!
Então, nesse momento de pânico com as ameaças claras e disfarçadas, conclamo a todos que façamos um momento de reflexão e uma oração por essa criança que encontrou a morte e por todas as outras que estejam vivendo a mesma tragédia. Quanto a essas que ainda vivem essa angústia, que sejamos rápidos o suficiente para salvá-las, como conseguiu fazer o pai de uma delas que transformou sua dor, o susto pela quase morte da filha, em um alerta para todos, para que possamos evitar, enquanto é tempo, essa loucura que se espalha, invisivelmente, pelas redes de computadores.
E a todos da imprensa, peço que nos ajudem — a todos nós, pais, políticos, juízes — a fazer a população compreender que, às vezes, é preciso calar a voz assassina, mesmo correndo o risco de sermos confundidos com aqueles que estejam limitando a liberdade de expressão; às vezes confundida com censura quando um indivíduo criminoso usa esse direito para, na verdade, cometer um crime.
Oh! mundo de Dickens, com seus trágicos meninos. Oh! mundo de Drummond, “vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria rima, não solução.” Oh! Jorge Amado, com seus capitães da areia!
Ainda há tempo! Unidos nessa dor, alimentados por ela, podemos acender na escuridão a chama da esperança que nos guiará a todos para um mundo no qual nossas casas, escolas e nossos parques e playgrounds voltem a ter a gostosura que tinham quando nós, adultos, vivíamos a nossa infância dos encantos de flores, sem computadores nem homem-aranha para nos iludir.
*************************************************
Migrações massivas
Há cerca de trinta anos, ouvi uma declaração que, hoje, reconheço como uma autêntica profecia. Estava numa reunião do InterAction Council, fundação criada pelos japoneses e alemães para atuar, no tempo da Guerra Fria, como intermediadora de conflitos entre as Grandes Potências, formada por ex-chefes de Estado e de Governo, com apenas quarenta membros, entre os quais apenas dois da América Latina — eu e De la Madrid, do México. Naquele encontro, realizado na cidade do México, ainda estavam vivos Fukuda, do Japão, grande estadista, muito influente no mundo àquele tempo; Gerald Ford, ex-Presidente dos Estados Unidos, e Helmut Schmidt, ex-Chanceler da Alemanha, cargo que corresponde ao de Chefe de Governo.
Foi justamente Helmut Schmidt, o mais eloquente orador que ouvi entre meus homólogos, quando eu era Presidente, que antecipou, naquela reunião, que duas coisas ameaçavam o futuro da Humanidade, o que, como uma confirmação da marca inequívoca dos grandes oradores, hoje se concretiza: as doenças desconhecidas e as migrações massivas.
Realmente, já enfrentamos a ameaça da Covid-19, com a inexistência de remédios, a luta universal para chegar à descoberta de vacina e o negacionismo de alguns loucos. Mesmo assim chegamos a um final feliz, embora com alguns milhões de mortos no mundo inteiro.
Mas agora assistimos, estarrecidos, ao desespero de oitenta mil marroquinos que, enganados pelas falsas notícias de que a fronteira com Ceuta, fronteira da Europa com a África, estava aberta com a Espanha, se jogaram ao mar para fazer a travessia de 600 metros: ocorreram cerca de vinte mortes.
Esta região, uma passagem estratégica entre o Atlântico e o Mediterrâneo, tem sido, ao longo dos séculos, motivo de muitas guerras. E foi numa delas, na Batalha de Alcácer-Quibir, que desapareceu Dom Sebastião, que veio, segundo a lenda portuguesa, encantar-se na Praia dos Lençóis, na Ilha dos Lençóis, no Maranhão.
Pelo nosso testemunho, presenciamos o início das previsões de Helmut Schmidt. A Europa está vivendo o problema mais agudamente, com a invasão africana dos países outrora colônias europeias, que agora exportam muitos dos seus habitantes para os países desse continente. Isto o mundo viu na última Copa de Futebol nos Estados Unidos, em que a maioria dos jogadores dos times europeus era africana. Até, para surpresa, o goleiro do Japão era de origem africana.
Nós, aqui no Brasil, estamos livres das migrações massivas desordenadas. Eu sempre afirmo que temos uma posição privilegiada de integração e diplomacia em relação a muitos países do Primeiro Mundo, pois já resolvemos questões com que eles ainda lidam com grande dificuldade. Não temos fluxo de migrações massivas e desordenadas de outras regiões, nem ameaça delas; temos uma tradição de convivência pacífica entre religiões, sem os conflitos teocráticos cruéis, que estão na base da maioria das guerras localizadas atuais; não temos litígios territoriais de fronteira que ainda existem na Europa, nos Estados Unidos, onde o Presidente Trump tem a obsessão por construir muros, como ocorre na fronteira com o México, e também a necessidade de ter um exército para combater imigrantes, o ICE, de triste fama, matador de americanos protetores de imigrantes e de imigrantes, inclusive com a morte de um brasileiro, também vítima do ICE.
É que na nossa América Latina temos uma cultura de paz. Somos o Continente mais pacífico da face da Terra. Nossa última guerra foi a do Paraguai — uma guerra que lamentamos por suas perdas, pela violência extrema do desfecho, pelo massacre do povo vizinho e por seu custo social e financeiro — e, depois dela, há quase um século, a do Chaco, que opôs Bolívia e Paraguai em um duro e sangrento conflito fronteiriço.
Para mostrar a nossa vocação de paz, particularmente do Brasil, temos a exigência em nossa Constituição de que a nossa política deve ser sempre de negociação, nunca de violência. Agregamos uma decisão recente, assinada por mim e pelo Presidente Alfonsín, de encerrarmos a corrida nuclear que existia entre o Brasil e a Argentina, baseada na tese dos países comunistas de que quem tiver uma arma nuclear terá um status de grande potência e será por elas respeitado.
O Brasil e a Argentina estavam nesta direção. Foi então que a redemocratização possibilitou o fim dessa corrida, tirando nossos países desse perigo. A divergência que sempre tivemos com a Argentina estava baseada numa tese falsa de que quem dominasse a Bacia do Prata dominaria a América do Sul.
Não queremos ser uma potência nuclear, porque seria um suicídio, mas, sim, uma potência econômica, uma potência cultural, uma potência de convivência racial, religiosa e política, influindo mundialmente na paz e pela paz.
Repito, uma vez mais, que com nossa decisão pacifista, minha e de Alfonsín — que me chamou de “estadista da América”, e eu a ele dei o mesmo reconhecimento —, de banir das Nações sul-americanas as armas nucleares, contribuímos para a Paz da Humanidade, que há de lembrar que fomos pioneiros em considerar que, enquanto existir uma única arma nuclear, o mundo não dormirá tranquilo.
*************************************************
Fora da curva
Vamos dar uma pausa nas discussões do presente para lembrar algumas figuras populares que habitam nossas memórias, em toda parte, enchendo o cotidiano das cidades. No Maranhão, sempre tivemos muitos: um deles era o Comendador Satyro Pamphilo, que andava sempre de casaca preta, cartola e bengala. Ele estava sempre muito sóbrio e sério, cumprimentando todos os que passavam por ele.
Mas a sua fama maior era por causa do espetáculo que fazia todo ano, chamado “A Queda da Bandeira”. Satyro fazia os convites à mão e colocava embaixo das portas das casas; levava quase todo o ano convidando para sua festa no Teatro de São Luís — hoje Teatro Arthur Azevedo.
O espetáculo resumia-se no seguinte: no dia 7 de setembro, ele colocava uma mesa, forrada com um pano verde, em cima do palco, bem na frente, e uma escadinha atrás dessa mesa, por onde ele subia. O espetáculo era muito popular, sobretudo entre os estudantes. Às sete horas da noite, em ponto, o Comendador Satyro entrava no palco e subia na mesa. Uma fanfarra tocava o Hino da Independência. Então, Satyro se enrolava na bandeira e se atirava lá de cima, no meio da estudantada, que o recebia nos braços; não poucas vezes, ele ia ao chão.
O público aclamava e gritava:
— De novo! De novo! De novo!
E o Satyro subia novamente e tornava a se atirar no meio do pessoal. Era uma pataquada (como se dizia naquele tempo) terrível! Mas era célebre na cidade a festa “A Queda da Bandeira”, do Comendador Satyro.
Havia muitas outras histórias com Satyro, que fazia questão de ser chamado de Comendador. Ele escreveu um livro, Embófias de um cérebro inlustrado, que incluía um dicionário construído com uma série de palavras que ele inventou.
Meu pai, quando tinha uma festa de aniversário, citava o Satyro dizendo: “Temos hoje um ispiquitó” — era uma palavra dicionarizada pelo Satyro, com a seguinte definição: “Anatalácio de donzela moça.”
Outro termo era o que ele usava para definir polêmica de jornal: “metrandação”. E acrescentava: “metrandação cerebral”.
Política era “rega-bofe de anacoretas”.
Quando ficava sabendo que haveria festas de aniversário, de casamento, ele se apresentava aos anfitriões e era difícil que não improvisasse um versinho.
Foi assim que, na casa da Dona Doca, que aniversariava uma das filhas, ele saiu-se com esta:
— Matilde, Maria e Maroca / Três estrelas divinais / São filhas da Dona Doca…
Parou, procurou a rima e, não a encontrando, fechou com esse verso:
— …com três diferentes pais.
Não é preciso dizer que foi expulso da festa.
Outra figura inesquecível, da década de 1950, aqui no Maranhão, era o Paletó.
Ele dizia sempre: “Sou o Número Um das Oposições Coligadas.” Eu ainda o conheci: ele não faltava a nenhuma das reuniões dos nossos partidos políticos.
Certa vez o Deputado Clodomir Millet, então chefe da Oposição, resolveu dar uma missão ao Paletó: ir todo dia ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral) assistir às sessões e trazer de volta o relatório do que tinha sido votado e de como havia votado cada um dos juízes.
Um dia, Paletó entrou, meio cansado e revoltado, na redação do jornal O Povo, onde nos reuníamos todas as tardes, e foi logo dizendo:
— Dr. Millet, não volto mais ao Tribunal. Está tudo perdido: um juiz da Oposição — como é o Desembargador Eugênio Piva — votou com o juiz do Governo!
Naquela época a política muitas vezes se tornava violenta. Quando organizamos uma passeata para protestar contra o Governo, acusado de estar queimando as casas dos pobres, o Paletó também quis participar dela.
Neiva lhe deu uma bandeira, dizendo:
— Paletó, leve esta bandeira.
Então, o Paletó, “Membro Número Um das Oposições Coligadas”, enrolou a bandeira no pescoço, deixando uma parte caída nas costas, e foi, exaltado, à passeata, gritando palavras de protesto. Até que, chegando perto do Palácio, vendo que havia uma fila de soldados com metralhadoras apontando para a passeata, ele parou e disse:
— Seu Neiva Moreira, está aqui a sua bandeira. Arrume um mais doido do que eu que, daqui, não passo!
************************************************
¡Arriba Argentina!
Vou tratar de um assunto delicado e até repetitivo, pois muitas vezes o tenho abordado, com a autoridade de quem negociou o fim das relações afastadas, e muitas vezes conflituosas, entre Brasil e Argentina.
É que agora estamos assistindo, depois de um progressivo afastamento entre nossos dois países, a uma série de despautérios do Presidente da Argentina contra o Presidente Lula, do Brasil, e contra o Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, fora dos limites da civilidade, como disse o Presidente da Corte, Edson Fachin, com a palavra apropriada e respeitando o vocabulário neutro, domínio da linguagem oficial.
Este meu artigo se situa, também, no contexto de uma excelente carta feita pela Deputada Marcela Pagano, da Nação Argentina, ao Presidente Lula da Silva, pedindo leniência para o Brasil, para que tenha esquecimento e quase perdão das desastrosas intervenções do Sr. Milei. Não posso deixar de repetir as palavras da Deputada Pagano, de total propriedade sobre o que representa o Chefe de uma Nação:
“Um Estado não é um governo, não é um homem. As nações são entidades históricas: duram mais que os mandatos, mais que as conjunturas e, certamente, mais que os destemperos. O que foi dito não representa a República argentina.”
A tese construída que iniciou essa rivalidade entre nossos dois países era — e é — absolutamente falsa: quem dominasse a Bacia do Prata dominaria a América do Sul, ou precisamente, o Cone Sul. Chegou-se mesmo a vislumbrar, naquele tempo das lendas fantasiosos, que nas nascentes estariam o Reino de Prestes João, onde os lagos seriam de águas de ouro. Falava-se de uma criação que nem Deus fizera na face da Terra: rios e lagos dourados.
Mas vamos aos tempos atuais. Agora mesmo, na assinatura do Tratado do Mercosul com a União Europeia, eu escrevi, e o artigo foi publicado no La Nación, de Buenos Aires, que nada se teria construído sem a Argentina, sem Raúl Alfonsín, o grande estadista das Américas e Sáenz Peña, grande amigo do Brasil, este autor da tese verdadeira “Tudo nos une, nada nos separa”, que deve presidir e nortear a diplomacia dos nossos dois países.
Tudo se pode mudar no mundo, menos a geografia. As nossas fronteiras comuns dizem que não podemos nos separar. Estamos unidos para sempre. Miguel Torga, grande intelectual e poeta português, define no seu poema “Fronteira” aquilo que ela tem de manter o sentimento de pátria sem dividir o sentimento de união. Ele diz: “De um lado terra, doutro lado terra; / De um lado gente; doutro lado gente; / […] Mas uma força que não tem razão, / Que não tem olhos, que não tem sentido, / Passa e reparte o coração / Do mais pequeno tojo adormecido.”
A fronteira está aí para nos unir, convivendo com a mesma terra, as mesmas árvores, os mesmos problemas, as alegrias e tristezas, sem afetar a união dos povos.
Alfonsín foi nesses fatos ainda recentes o grande artífice dessa união. Sem ele não existiria o Mercosul, nem a Ata de Iguaçu, nem o tratado de morte à corrida nuclear, na concretização da pesquisa nuclear para a paz, apenas para fins pacíficos, civis, de bem-estar do povo.
Quando me reuni com Alfonsín, em Foz de Iguaçu, em 1985, e apertamos os mãos (a deputada Marcela Pagano se refere a esse encontro inaugural), começava um novo tempo, no Brasil, chamado Nova República, para benefício da Humanidade, pois dali saiu ser a América do Sul o único continente do mundo sem armas nucleares. Ali eu propus ao Alfonsín que iniciássemos uma nova era para a América do Sul, com a política de cooperação entre nossos países, e não de confrontação. De integração. Devo recordar também de Julio María Sanguinetti, então Presidente do Uruguai, que acreditou em nosso projeto e foi o primeiro a apoiá-lo.
Agora me dirijo à brilhante Deputada Marcela. Ela disse que os dois presidentes daquela época, da Ata de Iguaçu, não estavam mais vivos: “Nenhum dos dois está mais vivo.” Estou aqui, Deputada Marcela, para repetir aquilo que sempre digo: fui o Presidente do Brasil que mais amor teve pela Argentina. E para dizer mais: torci e sofri pela Argentina na Copa do Mundo. E não sou fanático pelo futebol. Contei essa história de meu amor pela Argentina a toda minha família, que participou dessa torcida pelo seu país: eu, com 96 anos, 3 filhos, 15 netos e 23 bisnetos!…
Gonçalves Dias, o maior poeta brasileiro, foi dado como morto na Europa. No Rio, foram celebradas missas, uma do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Ele, quando soube, escreveu uma carta de próprio punho dizendo: “Não morri! nem morro! nem ei de morrer nunca mais!”
Eu não digo tal, apenas peço que não esqueçam aquele trabalho pela paz, meu e de Alfonsín. Pelo que fizemos. Do Mercosul. Do banimento das Armas Nucleares entre Brasil e Argentina, tornando a América do Sul o único continente no mundo livre dessa ameaça de destruição.
Símbolo dessa amizade indestrutível foi o meu convite a Raúl Alfonsín para inaugurar a Usina Secreta de Aramar, onde se processava o enriquecimento de Urânio. Convite eternizado na placa ali posta:
“Esta usina foi inaugurada pelo presidente da Argentina Raúl Alfonsín.”
Esta atitude é tida como um exemplo para o mundo.
Só pudemos chegar a estas metas porque Alfonsín e eu fomos os Presidentes que implantaram a Democracia depois da ditadura e do regime autoritário. Agora, sempre juntos, jogando no mesmo time, Pelé e Messi, Maradona e Ronaldo Fenômeno, Sarney e Alfonsín, Argentina e Brasil.
**********************************************
Líder, Liderança
Em 1958, eu era deputado federal no Rio de Janeiro (a sede da Câmara ainda era lá), e Afonso Arinos, líder da Oposição ao Governo de Juscelino Kubitschek, propôs o meu nome para vice-líder da UDN. Eu tinha apenas 28 anos, mas já construíra minha reputação combatendo o governo e exercendo uma presença forte em nossa Bancada.
A vice-liderança representa uma função de muita responsabilidade. Uma das principais tarefas confiadas aos vice-líderes consiste em emitir um parecer preliminar para orientar os deputados — servindo como recomendação oficial do Partido para a Bancada. Naturalmente, ouvíamos as bancadas estaduais, consultávamos os Estatutos e o próprio Líder — naquele tempo, o meu era Carlos Lacerda — sobre a orientação política. Todos, com disciplina, seguiam a orientação oficial. Quando alguém divergia e queria votar diferente, só o fazia depois de autorizado, após examinadas e aprovadas as razões de consciência.
Quando eu era deputado em Brasília, já tendo deixado a vice-liderança, algumas vezes votei divergindo do Partido, por razões de consciência, a favor de determinado projeto ou aprovação de nomes. Foi assim quando San Tiago Dantas foi indicado para Primeiro-Ministro, no regime parlamentarista: pedi licença para votar a favor, contrariamente à orientação da Liderança — a exemplo do que fez Bilac Pinto, futuro Presidente da UDN. Devidamente autorizados, assim o fizemos. Repito: somente após a autorização do Partido, exatamente como determinava o Estatuto.
Tanto é verdade que o nosso líder, Adauto Lúcio Cardoso, disse certa vez a meu respeito: “Sarney nunca votou contra a orientação do Partido; nas vezes em que divergiu, foi autorizado por nós. Ele é uma alta expressão da nossa Bancada e construiu uma bonita história partidária”. Nessa época, eu era vice-presidente da UDN e muito fiel à agremiação.
Ressalto isso para dizer que a Democracia não existe sem partidos disciplinados e fortes. Quando os partidos não funcionam assim, a democracia se torna frágil.
No Brasil até hoje não consolidamos a tradição de partidos verdadeiramente nacionais, condição que remonta aos tempos do Império, apesar da histórica divisão entre liberais e conservadores.
No tempo da Primeira República, a política se dividiu em partidos regionais, fragmentando a composição partidária e dando lugar ao domínio das oligarquias estaduais. Esse sistema perpetuou as elites no poder e consolidou costumes nefastos para a democracia, como a fraude, o voto de cabresto, o voto aberto e o mapismo: práticas vergonhosas e condenáveis, que burlavam a real vontade popular.
Essas práticas levaram à Revolução de 1930, articulada em aliança com os jovens tenentes, depois que Getúlio Vargas assumiu como programa o voto secreto, o fim das oligarquias e a ampliação do poder central em detrimento dos poderes estaduais.
Mesmo assim, o partido de âmbito nacional só veio a ser adotado em 1945, com a chamada Lei Agamenon Magalhães — então Ministro da Justiça —, de 1945. A força remanescente das oligarquias estaduais tinha sido tão forte que retardou o cumprimento do maior dos objetivos da Revolução de 1930 — o fim dos partidos estaduais — até 1945, ou seja, por quinze anos!
A grande crise política do Brasil é a desintegração dos Partidos, vítimas da ausência de democracia interna. Após a exigência de legendas nacionais e o fim dos partidos regionais, o que se viu foi a personalização das siglas e seu fracionamento em alas — o que gera o desequilíbrio político atual.
Conseguimos, na área econômica, a estabilização da moeda e a consciência nacional de que a inflação é injusta, inimiga do povo e incompatível com o equilíbrio democrático. Já o desequilíbrio político persiste e afeta a essência da democracia e o funcionamento do Congresso, a começar pelo orçamento, hoje desintegrador do governo e fonte de corrupção.
Lembremos que o controle do orçamento foi o principal objetivo da afirmação do poder do Parlamento, na Revolução Gloriosa (assim chamada), de 1688, na Inglaterra.
Hoje ninguém respeita as lideranças, e os Partidos estão entregues a uma desintegração que não permite nenhum consenso.
A Espanha atingiu o seu equilíbrio político a partir do Pacto de Moncloa, que garantiu as bases necessárias para a consolidação da democracia, da monarquia constitucional e da rotatividade do poder.
Vamos refletir mais sobre a urgente necessidade do nosso equilíbrio político e a sua principal consequência: o equilíbrio orçamentário.
******************************************************