José Sarney

Trágico mundo do Discord

 

Deus me concedeu a graça de ter três filhos e uma esposa que me ajudou a conduzi-los pela vida, sem maiores dificuldades, senão as preocupações comuns a todos os pais para fazer com que um ser humano dê os primeiros passos pela vida e aprenda, assim, a mover-se por si mesmo.

 

Hoje tenho muitos netos e bisnetos e olho para o mundo com certo temor, pois na época em que criava meus filhos, embora com tantas atividades na carreira política e na vida literária, da qual nunca fiquei apartado, além de contar com Marly, sempre muito atenta às necessidades para a criação de um bom ser humano, tinha absoluta certeza de que, quando estavam em seus quartos, eles realmente ali se encontravam, e não em algum outro lugar do mundo, como é hoje a situação dos pais, que sofrem sem saber como lidar com esse novo passaporte que a humanidade descobriu de poder, a todo instante, se deslocar entre as nações sem gastar nada, apenas alguns toques no teclado ou até mesmo o som da própria voz.

 

Foi com muita perplexidade e apreensão que li a história da morte da jovem de 13 anos, na semana passada, na plataforma digital, que se soma a tantas outras que vêm acontecendo no mundo, lentamente, dentro de suas casas, já que sua morte foi consequência de outras tantas mortes que a criança fora tendo ao longo de dias de conversa com estranhos pelo computador, até chegar ao ponto de que essas tantas mortes se transformaram em uma, a definitiva. E é esta última que nos choca. É esta última pela qual sofremos. É esta última que faz com que todos nós, ajudados pelos meios de comunicação, gritemos: nossas crianças pedem socorro! Façamos alguma coisa.

 

No entanto, passado o luto, continuamos tristes, mas voltamos a silenciar sobre o tema. Mas este sofrimento que nos chocou continua pela vida afora nesses sofridos pais, nesses trágicos parentes, nos amigos, que nunca mais deixarão de olhar para uma tela de computador, celular ou tablet sem ver na hora a imagem de uma arma fatal.

 

Esses mágicos aparelhos, como tudo na vida, têm seus dois lados: a faca que corta o tenro legume mata; o bisturi que opera para salvar vida pode matar se nas mãos de pessoas inábeis. Por isso, nós, adultos, devemos estar sempre atentos a essas crianças que ainda não descobriram que há flores belas que trazem o perfume da morte.

 

Mas como ser pai no mundo de hoje? Como ter tempo para construir um patrimônio que acolha não só os momentos de agora, mas também o futuro num mundo em que as fronteiras começam a ser dissolvidas por guerras, e os mercados financeiros se divertem na roleta russa na qual os mais espertos vão ficando cada vez mais ricos e todos os outros, cada vez mais pobres?

 

O que fazer? Se a criança corre risco dentro de casa, se o seu quarto representa tão grande perigo, imaginem a escola e tantos outros lugares que deixaram de ser apenas um lugar de diversão para a infância. Quando as nossas crianças ali estavam podíamos ter um certo descanso ou mais tempo para nossas atividades adultas.

 

O mundo literário, no qual sempre estive envolvido, me permite ver o mundo de uma forma em que relaciono a praticidade com a intuição. Interpretar personagens num romance pode parecer tolo para muitas pessoas que enxergam apenas nos números a única forma de construir sua vida. Mas por ser um intelectual ligado à literatura é que consigo melhor entender as dificuldades que estamos passando e saber que, se ficarmos desatentos, a civilização poderá encontrar seu fim.

 

E por meio dessa visão mais acurada da vida vejo uma saída para o momento que estamos vivendo, em que os parentes não podem estar mais o tempo todo ao lado de seus filhos: caberá ao Estado construir o arcabouço de proteção para que as novas gerações não se desintegrem frente às novas tecnologias, nas quais a inteligência artificial hoje compreende e faz parte desse universo paralelo em que as crianças estão se desafiando e encontrando um orgulho pessoal na sua própria morte!

 

Então, nesse momento de pânico com as ameaças claras e disfarçadas, conclamo a todos que façamos um momento de reflexão e uma oração por essa criança que encontrou a morte e por todas as outras que estejam vivendo a mesma tragédia. Quanto a essas que ainda vivem essa angústia, que sejamos rápidos o suficiente para salvá-las, como conseguiu fazer o pai de uma delas que transformou sua dor, o susto pela quase morte da filha, em um alerta para todos, para que possamos evitar, enquanto é tempo, essa loucura que se espalha, invisivelmente, pelas redes de computadores.

 

E a todos da imprensa, peço que nos ajudem — a todos nós, pais, políticos, juízes — a fazer a população compreender que, às vezes, é preciso calar a voz assassina, mesmo correndo o risco de sermos confundidos com aqueles que estejam limitando a liberdade de expressão; às vezes confundida com censura quando um indivíduo criminoso usa esse direito para, na verdade, cometer um crime.

 

Oh! mundo de Dickens, com seus trágicos meninos. Oh! mundo de Drummond, “vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria rima, não solução.” Oh! Jorge Amado, com seus capitães da areia!

 

Ainda há tempo! Unidos nessa dor, alimentados por ela, podemos acender na escuridão a chama da esperança que nos guiará a todos para um mundo no qual nossas casas, escolas e nossos parques e playgrounds voltem a ter a gostosura que tinham quando nós, adultos, vivíamos a nossa infância dos encantos de flores, sem computadores nem homem-aranha para nos iludir.

 

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Migrações massivas

 

Há cerca de trinta anos, ouvi uma declaração que, hoje, reconheço como uma autêntica profecia. Estava numa reunião do InterAction Council, fundação criada pelos japoneses e alemães para atuar, no tempo da Guerra Fria, como intermediadora de conflitos entre as Grandes Potências, formada por ex-chefes de Estado e de Governo, com apenas quarenta membros, entre os quais apenas dois da América Latina — eu e De la Madrid, do México.  Naquele encontro, realizado na cidade do México, ainda estavam vivos Fukuda, do Japão, grande estadista, muito influente no mundo àquele tempo; Gerald Ford, ex-Presidente dos Estados Unidos, e Helmut Schmidt, ex-Chanceler da Alemanha, cargo que corresponde ao de Chefe de Governo.

 

Foi justamente Helmut Schmidt, o mais eloquente orador que ouvi entre meus homólogos, quando eu era Presidente, que antecipou, naquela reunião, que duas coisas ameaçavam o futuro da Humanidade, o que, como uma confirmação da marca inequívoca dos grandes oradores, hoje se concretiza: as doenças desconhecidas e as migrações massivas.

 

Realmente, já enfrentamos a ameaça da Covid-19, com a inexistência de remédios, a luta universal para chegar à descoberta de vacina e o negacionismo de alguns loucos. Mesmo assim chegamos a um final feliz, embora com alguns milhões de mortos no mundo inteiro.

 

Mas agora assistimos, estarrecidos, ao desespero de oitenta mil marroquinos que, enganados pelas falsas notícias de que a fronteira com Ceuta, fronteira da Europa com a África, estava aberta com a Espanha, se jogaram ao mar para fazer a travessia de 600 metros: ocorreram cerca de vinte mortes.

 

Esta região, uma passagem estratégica entre o Atlântico e o Mediterrâneo, tem sido, ao longo dos séculos, motivo de muitas guerras. E foi numa delas, na Batalha de Alcácer-Quibir, que desapareceu Dom Sebastião, que veio, segundo a lenda portuguesa, encantar-se na Praia dos Lençóis, na Ilha dos Lençóis, no Maranhão.

 

Pelo nosso testemunho, presenciamos o início das previsões de Helmut Schmidt. A Europa está vivendo o problema mais agudamente, com a invasão africana dos países outrora colônias europeias, que agora exportam muitos dos seus habitantes para os países desse continente. Isto o mundo viu na última Copa de Futebol nos Estados Unidos, em que a maioria dos jogadores dos times europeus era africana. Até, para surpresa, o goleiro do Japão era de origem africana.

 

Nós, aqui no Brasil, estamos livres das migrações massivas desordenadas. Eu sempre afirmo que temos uma posição privilegiada de integração e diplomacia em relação a muitos países do Primeiro Mundo, pois já resolvemos questões com que eles ainda lidam com grande dificuldade. Não temos fluxo de migrações massivas e desordenadas de outras regiões, nem ameaça delas; temos uma tradição de convivência pacífica entre religiões, sem os conflitos teocráticos cruéis, que estão na base da maioria das guerras localizadas atuais; não temos litígios territoriais de fronteira que ainda existem na Europa, nos Estados Unidos, onde o Presidente Trump tem a obsessão por construir muros, como ocorre na fronteira com o México, e também a necessidade de ter um exército para combater imigrantes, o ICE, de triste fama, matador de americanos protetores de imigrantes e de imigrantes, inclusive com a morte de um brasileiro, também vítima do ICE.

 

É que na nossa América Latina temos uma cultura de paz. Somos o Continente mais pacífico da face da Terra. Nossa última guerra foi a do Paraguai — uma guerra que lamentamos por suas perdas, pela violência extrema do desfecho, pelo massacre do povo vizinho e por seu custo social e financeiro — e, depois dela, há quase um século, a do Chaco, que opôs Bolívia e Paraguai em um duro e sangrento conflito fronteiriço.

 

Para mostrar a nossa vocação de paz, particularmente do Brasil, temos a exigência em nossa Constituição de que a nossa política deve ser sempre de negociação, nunca de violência. Agregamos uma decisão recente, assinada por mim e pelo Presidente Alfonsín, de encerrarmos a corrida nuclear que existia entre o Brasil e a Argentina, baseada na tese dos países comunistas de que quem tiver uma arma nuclear terá um status de grande potência e será por elas respeitado.

 

O Brasil e a Argentina estavam nesta direção. Foi então que a redemocratização possibilitou o fim dessa corrida, tirando nossos países desse perigo. A divergência que sempre tivemos com a Argentina estava baseada numa tese falsa de que quem dominasse a Bacia do Prata dominaria a América do Sul.

 

Não queremos ser uma potência nuclear, porque seria um suicídio, mas, sim, uma potência econômica, uma potência cultural, uma potência de convivência racial, religiosa e política, influindo mundialmente na paz e pela paz.

 

Repito, uma vez mais, que com nossa decisão pacifista, minha e de Alfonsín — que me chamou de “estadista da América”, e eu a ele dei o mesmo reconhecimento —, de banir das Nações sul-americanas as armas nucleares, contribuímos para a Paz da Humanidade, que há de lembrar que fomos pioneiros em considerar que, enquanto existir uma única arma nuclear, o mundo não dormirá tranquilo.

 

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Fora da curva

 

Vamos dar uma pausa nas discussões do presente para lembrar algumas figuras populares que habitam nossas memórias, em toda parte, enchendo o cotidiano das cidades. No Maranhão, sempre tivemos muitos: um deles era o Comendador Satyro Pamphilo, que andava sempre de casaca preta, cartola e bengala. Ele estava sempre muito sóbrio e sério, cumprimentando todos os que passavam por ele.

 

Mas a sua fama maior era por causa do espetáculo que fazia todo ano, chamado “A Queda da Bandeira”. Satyro fazia os convites à mão e colocava embaixo das portas das casas; levava quase todo o ano convidando para sua festa no Teatro de São Luís — hoje Teatro Arthur Azevedo.

 

O espetáculo resumia-se no seguinte: no dia 7 de setembro, ele colocava uma mesa, forrada com um pano verde, em cima do palco, bem na frente, e uma escadinha atrás dessa mesa, por onde ele subia. O espetáculo era muito popular, sobretudo entre os estudantes. Às sete horas da noite, em ponto, o Comendador Satyro entrava no palco e subia na mesa. Uma fanfarra tocava o Hino da Independência. Então, Satyro se enrolava na bandeira e se atirava lá de cima, no meio da estudantada, que o recebia nos braços; não poucas vezes, ele ia ao chão.

 

O público aclamava e gritava:

 

— De novo! De novo! De novo!

 

E o Satyro subia novamente e tornava a se atirar no meio do pessoal. Era uma pataquada (como se dizia naquele tempo) terrível! Mas era célebre na cidade a festa “A Queda da Bandeira”, do Comendador Satyro.

 

Havia muitas outras histórias com Satyro, que fazia questão de ser chamado de Comendador. Ele escreveu um livro, Embófias de um cérebro inlustrado, que incluía um dicionário construído com uma série de palavras que ele inventou.

 

Meu pai, quando tinha uma festa de aniversário, citava o Satyro dizendo: “Temos hoje um ispiquitó” — era uma palavra dicionarizada pelo Satyro, com a seguinte definição: “Anatalácio de donzela moça.”

 

Outro termo era o que ele usava para definir polêmica de jornal: “metrandação”. E acrescentava: “metrandação cerebral”.

 

Política era “rega-bofe de anacoretas”.

 

Quando ficava sabendo que haveria festas de aniversário, de casamento, ele se apresentava aos anfitriões e era difícil que não improvisasse um versinho.

 

Foi assim que, na casa da Dona Doca, que aniversariava uma das filhas, ele saiu-se com esta:

 

— Matilde, Maria e Maroca / Três estrelas divinais / São filhas da Dona Doca…

 

Parou, procurou a rima e, não a encontrando, fechou com esse verso:

 

— …com três diferentes pais.

 

Não é preciso dizer que foi expulso da festa.

 

Outra figura inesquecível, da década de 1950, aqui no Maranhão, era o Paletó.

 

Ele dizia sempre: “Sou o Número Um das Oposições Coligadas.” Eu ainda o conheci: ele não faltava a nenhuma das reuniões dos nossos partidos políticos.

 

Certa vez o Deputado Clodomir Millet, então chefe da Oposição, resolveu dar uma missão ao Paletó: ir todo dia ao TRE (Tribunal Regional Eleitoral) assistir às sessões e trazer de volta o relatório do que tinha sido votado e de como havia votado cada um dos juízes.

 

Um dia, Paletó entrou, meio cansado e revoltado, na redação do jornal O Povo, onde nos reuníamos todas as tardes, e foi logo dizendo:

 

— Dr. Millet, não volto mais ao Tribunal. Está tudo perdido: um juiz da Oposição — como é o Desembargador Eugênio Piva — votou com o juiz do Governo!

 

Naquela época a política muitas vezes se tornava violenta.  Quando organizamos uma passeata para protestar contra o Governo, acusado de estar queimando as casas dos pobres, o Paletó também quis participar dela.

 

Neiva lhe deu uma bandeira, dizendo:

 

— Paletó, leve esta bandeira.

 

Então, o Paletó, “Membro Número Um das Oposições Coligadas”, enrolou a bandeira no pescoço, deixando uma parte caída nas costas, e foi, exaltado, à passeata, gritando palavras de protesto. Até que, chegando perto do Palácio, vendo que havia uma fila de soldados com metralhadoras apontando para a passeata, ele parou e disse:

 

— Seu Neiva Moreira, está aqui a sua bandeira. Arrume um mais doido do que eu que, daqui, não passo!

 

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¡Arriba Argentina!

 

Vou tratar de um assunto delicado e até repetitivo, pois muitas vezes o tenho abordado, com a autoridade de quem negociou o fim das relações afastadas, e muitas vezes conflituosas, entre Brasil e Argentina.

 

É que agora estamos assistindo, depois de um progressivo afastamento entre nossos dois países, a uma série de despautérios do Presidente da Argentina contra o Presidente Lula, do Brasil, e contra o Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, fora dos limites da civilidade, como disse o Presidente da Corte, Edson Fachin, com a palavra apropriada e respeitando o vocabulário neutro, domínio da linguagem oficial.

 

Este meu artigo se situa, também, no contexto de uma excelente carta feita pela Deputada Marcela Pagano, da Nação Argentina, ao Presidente Lula da Silva, pedindo leniência para o Brasil, para que tenha esquecimento e quase perdão das desastrosas intervenções do Sr. Milei. Não posso deixar de repetir as palavras da Deputada Pagano, de total propriedade sobre o que representa o Chefe de uma Nação:

 

“Um Estado não é um governo, não é um homem. As nações são entidades históricas: duram mais que os mandatos, mais que as conjunturas e, certamente, mais que os destemperos. O que foi dito não representa a República argentina.”

 

A tese construída que iniciou essa rivalidade entre nossos dois países era — e é — absolutamente falsa: quem dominasse a Bacia do Prata dominaria a América do Sul, ou precisamente, o Cone Sul. Chegou-se mesmo a vislumbrar, naquele tempo das lendas fantasiosos, que nas nascentes estariam o Reino de Prestes João, onde os lagos seriam de águas de ouro. Falava-se de uma criação que nem Deus fizera na face da Terra: rios e lagos dourados.

 

Mas vamos aos tempos atuais. Agora mesmo, na assinatura do Tratado do Mercosul com a União Europeia, eu escrevi, e o artigo foi publicado no La Nación, de Buenos Aires, que nada se teria construído sem a Argentina, sem Raúl Alfonsín, o grande estadista das Américas e Sáenz Peña, grande amigo do Brasil, este autor da tese verdadeira “Tudo nos une, nada nos separa”, que deve presidir e nortear a diplomacia dos nossos dois países.

 

Tudo se pode mudar no mundo, menos a geografia. As nossas fronteiras comuns dizem que não podemos nos separar. Estamos unidos para sempre. Miguel Torga, grande intelectual e poeta português, define no seu poema “Fronteira” aquilo que ela tem de manter o sentimento de pátria sem dividir o sentimento de união. Ele diz: “De um lado terra, doutro lado terra; / De um lado gente; doutro lado gente; / […] Mas uma força que não tem razão, / Que não tem olhos, que não tem sentido, / Passa e reparte o coração / Do mais pequeno tojo adormecido.”

 

A fronteira está aí para nos unir, convivendo com a mesma terra, as mesmas árvores, os mesmos problemas, as alegrias e tristezas, sem afetar a união dos povos.

 

Alfonsín foi nesses fatos ainda recentes o grande artífice dessa união. Sem ele não existiria o Mercosul, nem a Ata de Iguaçu, nem o tratado de morte à corrida nuclear, na concretização da pesquisa nuclear para a paz, apenas para fins pacíficos, civis, de bem-estar do povo.

 

Quando me reuni com Alfonsín, em Foz de Iguaçu, em 1985, e apertamos os mãos (a deputada Marcela Pagano se refere a esse encontro inaugural), começava um novo tempo, no Brasil, chamado Nova República, para benefício da Humanidade, pois dali saiu ser a América do Sul o único continente do mundo sem armas nucleares. Ali eu propus ao Alfonsín que iniciássemos uma nova era para a América do Sul, com a política de cooperação entre nossos países, e não de confrontação. De integração. Devo recordar também de Julio María Sanguinetti, então Presidente do Uruguai, que acreditou em nosso projeto e foi o primeiro a apoiá-lo.

 

Agora me dirijo à brilhante Deputada Marcela. Ela disse que os dois presidentes daquela época, da Ata de Iguaçu, não estavam mais vivos: “Nenhum dos dois está mais vivo.” Estou aqui, Deputada Marcela, para repetir aquilo que sempre digo: fui o Presidente do Brasil que mais amor teve pela Argentina. E para dizer mais: torci e sofri pela Argentina na Copa do Mundo. E não sou fanático pelo futebol. Contei essa história de meu amor pela Argentina a toda minha família, que participou dessa torcida pelo seu país: eu, com 96 anos, 3 filhos, 15 netos e 23 bisnetos!…

 

Gonçalves Dias, o maior poeta brasileiro, foi dado como morto na Europa. No Rio, foram celebradas missas, uma do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Ele, quando soube, escreveu uma carta de próprio punho dizendo: “Não morri! nem morro! nem ei de morrer nunca mais!”

 

Eu não digo tal, apenas peço que não esqueçam aquele trabalho pela paz, meu e de Alfonsín. Pelo que fizemos. Do Mercosul. Do banimento das Armas Nucleares entre Brasil e Argentina, tornando a América do Sul o único continente no mundo livre dessa ameaça de destruição.

 

Símbolo dessa amizade indestrutível foi o meu convite a Raúl Alfonsín para inaugurar a Usina Secreta de Aramar, onde se processava o enriquecimento de Urânio. Convite eternizado na placa ali posta:

 

“Esta usina foi inaugurada pelo presidente da Argentina Raúl Alfonsín.”

 

Esta atitude é tida como um exemplo para o mundo.

 

Só pudemos chegar a estas metas porque Alfonsín e eu fomos os Presidentes que implantaram a Democracia depois da ditadura e do regime autoritário. Agora, sempre juntos, jogando no mesmo time, Pelé e Messi, Maradona e Ronaldo Fenômeno, Sarney e Alfonsín, Argentina e Brasil.

 

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Líder, Liderança

 

Em 1958, eu era deputado federal no Rio de Janeiro (a sede da Câmara ainda era lá), e Afonso Arinos, líder da Oposição ao Governo de Juscelino Kubitschek, propôs o meu nome para vice-líder da UDN. Eu tinha apenas 28 anos, mas já construíra minha reputação combatendo o governo e exercendo uma presença forte em nossa Bancada.

 

A vice-liderança representa uma função de muita responsabilidade. Uma das principais tarefas confiadas aos vice-líderes consiste em emitir um parecer preliminar para orientar os deputados — servindo como recomendação oficial do Partido para a Bancada. Naturalmente, ouvíamos as bancadas estaduais, consultávamos os Estatutos e o próprio Líder — naquele tempo, o meu era Carlos Lacerda — sobre a orientação política. Todos, com disciplina, seguiam a orientação oficial. Quando alguém divergia e queria votar diferente, só o fazia depois de autorizado, após examinadas e aprovadas as razões de consciência.

 

Quando eu era deputado em Brasília, já tendo deixado a vice-liderança, algumas vezes votei divergindo do Partido, por razões de consciência, a favor de determinado projeto ou aprovação de nomes. Foi assim quando San Tiago Dantas foi indicado para Primeiro-Ministro, no regime parlamentarista: pedi licença para votar a favor, contrariamente à orientação da Liderança — a exemplo do que fez Bilac Pinto, futuro Presidente da UDN. Devidamente autorizados, assim o fizemos. Repito: somente após a autorização do Partido, exatamente como determinava o Estatuto.

 

Tanto é verdade que o nosso líder, Adauto Lúcio Cardoso, disse certa vez a meu respeito: “Sarney nunca votou contra a orientação do Partido; nas vezes em que divergiu, foi autorizado por nós. Ele é uma alta expressão da nossa Bancada e construiu uma bonita história partidária”. Nessa época, eu era vice-presidente da UDN e muito fiel à agremiação.

 

Ressalto isso para dizer que a Democracia não existe sem partidos disciplinados e fortes. Quando os partidos não funcionam assim, a democracia se torna frágil.

 

No Brasil até hoje não consolidamos a tradição de partidos verdadeiramente nacionais, condição que remonta aos tempos do Império, apesar da histórica divisão entre liberais e conservadores.

 

No tempo da Primeira República, a política se dividiu em partidos regionais, fragmentando a composição partidária e dando lugar ao domínio das oligarquias estaduais. Esse sistema perpetuou as elites no poder e consolidou costumes nefastos para a democracia, como a fraude, o voto de cabresto, o voto aberto e o mapismo: práticas vergonhosas e condenáveis, que burlavam a real vontade popular.

 

Essas práticas levaram à Revolução de 1930, articulada em aliança com os jovens tenentes, depois que Getúlio Vargas assumiu como programa o voto secreto, o fim das oligarquias e a ampliação do poder central em detrimento dos poderes estaduais.

 

Mesmo assim, o partido de âmbito nacional só veio a ser adotado em 1945, com a chamada Lei Agamenon Magalhães — então Ministro da Justiça —, de 1945. A força remanescente das oligarquias estaduais tinha sido tão forte que retardou o cumprimento do maior dos objetivos da Revolução de 1930 — o fim dos partidos estaduais — até 1945, ou seja, por quinze anos!

 

A grande crise política do Brasil é a desintegração dos Partidos, vítimas da ausência de democracia interna. Após a exigência de legendas nacionais e o fim dos partidos regionais, o que se viu foi a personalização das siglas e seu fracionamento em alas — o que gera o desequilíbrio político atual.

 

Conseguimos, na área econômica, a estabilização da moeda e a consciência nacional de que a inflação é injusta, inimiga do povo e incompatível com o equilíbrio democrático. Já o desequilíbrio político persiste e afeta a essência da democracia e o funcionamento do Congresso, a começar pelo orçamento, hoje desintegrador do governo e fonte de corrupção.

 

Lembremos que o controle do orçamento foi o principal objetivo da afirmação do poder do Parlamento, na Revolução Gloriosa (assim chamada), de 1688, na Inglaterra.

 

Hoje ninguém respeita as lideranças, e os Partidos estão entregues a uma desintegração que não permite nenhum consenso.

 

A Espanha atingiu o seu equilíbrio político a partir do Pacto de Moncloa, que garantiu as bases necessárias para a consolidação da democracia, da monarquia constitucional e da rotatividade do poder.

 

Vamos refletir mais sobre a urgente necessidade do nosso equilíbrio político e a sua principal consequência: o equilíbrio orçamentário.

 

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Amizade, graça de Deus

 

Ao longo da vida, depois de navegar entre dúvidas para escolher o que achava melhor da existência, cheguei à conclusão que tenho repetido muitas vezes ao longo dela: a melhor coisa da vida é a amizade.

 

Os teólogos buscam compreender as raízes da amizade desde o Livro do Gênesis. Eu acho que só não se pode dizer que ela é a motivação, mas, sem dúvida, uma das alegrias de sustentação do viver é essa forma de comunhão humana que une as pessoas e faz com que essa união seja sinônimo de felicidade e caminho para muitas alegrias e satisfações.

 

A primeira vez que eu senti a força do que era a amizade foi numa conversa com meu pai, quando eu tinha mais ou menos 12 anos de idade. Ele me chamou e, no meio da nossa conversa, já então um relacionamento de estreita ternura e grande amor, me disse: “José, eu sou teu pai. Ninguém nasce sem ter um pai. Sou parte da missão de Deus para que tu tivesses vida. Assim, eu já sou teu pai, quero ser também teu amigo.”

 

Talvez eu não soubesse àquele tempo a profundidade do que ele tinha me dito, mas hoje ele está no caminho da Eternidade, e eu, aqui, nos caminhos da existência que Deus me deu, através dele e de minha mãe, posso afirmar que o pedido dele para que fôssemos amigos me indicava o melhor caminho. E posso dizer que sua amizade foi a primeira, a maior e a mais profunda de minha vida, dividida com minha mãe, que também marcou esta minha jornada.

 

Sempre fui muito amigo de meu pai, e nessa amizade estava a confidência e, sobretudo, a confiança — sinônimo de amizade, porque esta não existe se antes não existir aquela. É a confiança que dá a segurança de unidade, de revelação e de certeza de que a amizade é, como diz Dom Bento de Aviz, “uma das experiências universais mais estruturantes do humano, como o amor, a dor, o vínculo, a festa, a amizade”, considerando, inclusive, que ela faz parte do próprio dom de Deus com os homens.

 

Que ela faz parte da sublimação da alegria do relacionamento humano não tenho dúvida e deixo essa busca religiosa de sua origem para afirmar da vivência e da existência de cada um. Atrevo-me a dizer que quem não tem amigos não viveu, pois deixou de experimentar o que há de mais humano em nós; quem não fez amigos ou os abandonou corre o risco de ficar condenado à frustração e à infelicidade.

 

São os amigos aqueles que nos sustentam nos momentos difíceis, e nós os sustentamos nas horas iguais. São os amigos que nos dão segurança na necessidade dos conselhos e das opiniões. Muitas vezes são os que nos salvam. Reconheço que não são muitos e, ao longo da nossa trajetória na face da Terra, o próprio viver nos faz ir decantando e vendo sobrar aqueles que foram testados e juntos nos asseguram a felicidade de poder chamá-los de amigos.

 

Meu pai, para mim, colocou a amizade senão acima da paternidade, pelo menos no mesmo andar em que elas realmente se encontram. Cristo, igualmente, fez a mesma coisa quando, na Última Ceia, fala aos Seus apóstolos:

 

“Já não vos chamo ‘servos’, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado ‘amigos’, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer.” (Evangelho de São João, 15:15.)

 

Assim, nós descobrimos que, quando o Redentor se refere aos amigos não é o mesmo de quando Ele se refere aos irmãos. A Irmandade está vinculada à nossa origem divina, na certeza de que todos somos filhos de Deus. Já para ser Amigo precisamos da vida; e acredito que a base da amizade é a intimidade — intimidade esta que Cristo tinha com os que, com Ele, assumiram a missão de evangelizar.

 

São Gregório, contudo, em sua divergência com São Basílio, nos adverte em sua autobiografia sobre a profunda decepção que sofreu em sua relação de confiança com esse seu grande amigo, companheiro de juventude, São Basílio Magno, relatando ter sido pressionado por ele a assumir a cátedra episcopal na isolada e árida Sássima, expressando sua dor pelo abalo na relação de confiança:

 

“Pela força me fez assumir o trono episcopal, assim, com seu amor paternal, enganou-me duas vezes: por nossa parte, tiramos um lucro de sua amizade: não confiar em amigos e não considerar nada mais valioso do que Deus.”

 

É verdade que, depois, impedido pelas circunstâncias de assistir São Basílio em seus momentos finais, São Gregório uniu-se novamente ao amigo em espírito, reconciliando-se na Eternidade e na memória: São Gregório dedicou-se a defender o legado de São Basílio e a eternizar aquela amizade na memória da Igreja.

 

Não vou mais senão afirmar que a verdadeira amizade não acaba, se reconstrói sempre, porque é tão forte, tão grande e tanto espaço ocupa na vida de todos nós, que não podemos viver sem os amigos que conquistamos. Até hoje sou amigo de meu pai, de minha mãe — através da sua memória e do seu eterno amor.

 

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Senado e querer bem

 

Eu, ultimamente, tenho sofrido muito quando ouço ou leio notícias sobre a atual situação do Senado, Casa onde passei grande parte da minha vida: 40 anos. Sou o político que mais tempo, durante a República, exerceu mandatos eletivos e, se incluirmos o Senado do Império, que era vitalício, fico empatado, como Senador, com o Visconde de Suassuna, Francisco de Paula Cavalcanti e Albuquerque, Senador no Império por 40 anos, de 1840 a 1880. Muito tempo ali também passou o Marquês de Muritiba, da Bahia, 38 anos.

 

Por 61 anos, exerci mandatos eletivos: Presidente da República por 5 anos; Senador por 40 anos, tendo sido, por 8 anos, Presidente da Casa; Deputado Federal, 12 anos, desde 1955; governador do Maranhão, 4 anos e 6 meses. O Marquês de Abrantes, no Senado do Império, sabendo que os Senadores só perdiam o cargo pela morte, certa vez, numa longa discussão no plenário, disse uma frase que eu gostava de repetir: “Nada de brigas, lembremos que temos que viver juntos a vida inteira.”

 

Mesmo assim, o Duque de Caxias, quando ferido em sua honra por uma ironia de Zacarias de Góis, que o acusava de ter trazido do Paraguai um cavalo e uma égua, desrespeitando o regulamento, que permitia somente uma montaria, desembainhou a sua espada. Esse fato até hoje é citado como perda de paciência por aquele que é o Pacificador, Patrono do Exército Nacional.

 

Na presidência dessa Casa Legislativa, sempre pautei minha gestão com os olhos no futuro e, como dizia o Padre Vieira, no “futuro do passado”. Ao assumir meu primeiro mandato naquela Casa, em 1971, juntei-me ao grupo que fundara o Instituto de Pesquisas da Realidade Brasileira e, tendo sido escolhido o Presidente de sua Comissão Executiva, transformei-o em Instituto de Pesquisas e Assessoria do Congresso (IPEAC), que deu grande contribuição aos trabalhos técnicos legislativos — podendo, como fez, requisitar os principais pensadores brasileiros dos temas relevantes do nosso País em auxílio ao exercício do mandato dos Senadores.

 

Para que se tenham um exemplo do nosso trabalho no IPEAC, basta dizer que nos dois primeiros anos realizamos 2.914 trabalhos especializados e, em 1973, já chegamos a 7.669 contribuições ao Legislativo. Havia um grande esforço para implantarmos uma abordagem que extrapolasse a contribuição individual ao parlamentar, elevando-a para um nível de apoio técnico aos subsídios da Instituição e, ao mesmo tempo, fizemos do nosso Senado um fórum de debates no IPEAC.

 

Dessa ideia, nasceu a criação do quadro de Consultores do Senado Federal, que até hoje é uma referência no Serviço Público do País, ocupado por grandes inteligências e capacidades, sendo seu concurso um dos mais exigentes de toda a Administração Pública brasileira.

 

O que me impulsionou na direção do IPEAC foi a necessidade de darmos aos trabalhos do Senado, principalmente aos do Plenário, o domínio de temas e discursos exemplares, cujos subsídios eram garimpados nas maiores capacidades científicas do Brasil.

 

Assim, embora o Golbery tivesse dito aquela frase irônica de que “quem quisesse guardar um segredo o colocasse nos Anais do Congresso Nacional”, digo que quem analisar os Anais do Senado daquele tempo encontrará os trabalhos mais competentes de nossa História Republicana, debates relevantes dos temas sujeitos ao Plenário do Senado, necessários para fazer face à situação de declínio político que, naquela época, vivia o Congresso, sujeito a uma vigilância dos militares que governavam o País.

 

Com a minha visão de modernidade, em companhia de Ney Braga e Carvalho Pinto, em uma comissão sobre a necessidade de informatização da Casa, quando este assunto ainda engatinhava no mundo, sugerimos ao então Presidente da Casa Petrônio Portella — que aceitou nossa ideia — a criação da Secretaria de Informação.

 

Lembro-me de que o Ministro Mário Henrique Simonsen me disse que, quando fora convidado para Ministro da Fazenda pelo Presidente Geisel, este iniciou e deu curso à sua conversa, quase uma inquisição, tendo à mão várias conferências do IPEAC por nós publicadas, debatendo soluções sobre a economia nacional.

 

Quando era Presidente da República, procurei o Ministro Néri da Silveira, então Presidente do Superior Tribunal Eleitoral, para deflagrarmos o processo de informatização da Justiça Eleitoral, a começar pelo título eleitoral, que ainda utilizava o modelo velho, reminiscência da primeira República. Esse passo foi o primeiro na busca do sistema da urna eletrônica, exemplo mundial.

 

Para mim, o Senado Federal foi, juntamente com o Conselho de Estado — como é considerado por vários de nossos historiadores —, um dos responsáveis pela integridade nacional e pela formação do País. Essa Casa legislativa foi um celeiro de grandes homens públicos, exemplares no civismo e na construção de instituições que remontam à formação da nacionalidade.

 

Lembro ainda, ao término dessas linhas, que, no Senado, criamos, na área de informática, o Siga Brasil, a Ouvidoria, a Página de Consolidação Temática, o Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria e, para transparência, TV Senado, Jornal do Senado, Agência Senado, o Alô Senado, o Data Senado, o Programa de Visitação, o Portal de Notícias, conjunto que atende a milhões de brasileiros.

 

Modernizamos o Senado, que possui o melhor quadro de funcionários do Brasil. Tenho orgulho dessas grandes realizações das minhas presidências, ponto de referência de modernização e informatização dessa parte do Poder Legislativo.

 

Por isso, fico constrangido com as notícias cotidianas sobre aquela tradicional Casa, mas cheio de esperança e sonho de que o velho Senado ultrapasse essas críticas e volte a ser o que sempre foi: um suporte para o desenvolvimento do nosso país.

 

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4 de julho: data Mundial

 

Amanhã, dia 4 de julho, os Estados Unidos comemoram 250 anos da declaração de sua Independência. Digo que é uma data significativa da História do Mundo. Não pelo que diz respeito à separação de um país de outro, criando uma nova Nação, mas pela sua Declaração de Independência, na qual foram fixados os conceitos de Direitos Humanos surgidos na Revolução Francesa e tornados objetivos e profundos, de modo a deflagar uma Revolução mundial que consolidou os ideais de liberdade. Não resisto a transcrever o preâmbulo dessa Declaração, aprovado na sessão do II Congresso Continental, em Filadélfia, no dia 2 de julho de 1776:

 

Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos Direitos inalienáveis, entre os quais estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade. Que, para garantir esses direitos, governos são instituídos entre os Homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados. Que, sempre que qualquer Forma de Governo se torne destrutiva desses fins, é o Direito do Povo alterá-la ou aboli-la e instituir um novo Governo, lançando seus fundamentos sobre os princípios e organizando seus poderes das formas que lhes pareça mais adequada para proporcionar sua Segurança e Felicidade.

 

Essa declaração foi escrita originalmente por Thomas Jefferson, esse homem extraordinário, que tanta contribuição e exemplo deu à política e aos políticos do mundo inteiro durante estes dois séculos e meio. O Presidente Kennedy, quando fazia uma homenagem aos premiados do Nobel, reunindo grandes nomes da cultura, na Casa Branca, em Washington, disse: “Hoje é o dia em que esta Casa recebe a maior quantidade de inteligência do mundo, exceto quando, como Presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson meditava sozinho nesta sala.” Essa era a avaliação da grandeza desse homem.

 

No dia 28 de junho de 1776, Jefferson submeteu sua proposta de declaração a John Adams e Benjamin Franklin, seus companheiros de comitê de redação. Desde o dia 7 de junho o Congresso discutia a proposta de Richard Henry Lee de que fosse feita uma declaração de que os Estados Unidos da América eram independentes. Aprovada no dia 2 de julho, pelo voto unânime de 12 delegações — Nova York se absteve —, o texto foi aprovado com cortes.

 

O Congresso retirou um quinto do texto de Jefferson, inclusive um que denunciava o rei pelo tráfico de escravos e pela escravidão. Pelo resto da vida Thomas Jefferson lamentou essa poda e responsabilizava essa decisão por muitos dos problemas futuros dos EUA.

 

Lembro que no Brasil José Bonifácio também lamentava que a nossa independência não tivesse resolvido o problema indígena e o da escravidão. Ele explicava que o primeiro passo era acabar com a política de enfrentamento que existia e a sangrenta e sistemática matança dos índios. A relativa à escravidão também não era menor, responsável pelo sofrimento e pela constante tortura dos pretos, além da política de considerá-los “coisa”, objeto de propriedade; propunha a emancipação progressiva, uma reforma agrária para lhes dar condições de vida autônoma e sua educação.

 

José Bonifácio concluía seu pensamento dizendo que “nossa independência não se completou porque não resolveu estes dois problemas”.

 

Mais sobre a data de 4 de julho, 250 anos da Declaração de Independência americana: sabemos que, a partir dessa data, saiu do continente americano, do Novo Mundo, o país que iria divulgar os ideais de liberdade, dos direitos humanos, como apanágio de todos que desejam viver livres e que abominam todos os autoritarismos e regimes de força.

 

Por isso lamentamos a presidência atual de Donald Trump, rompendo com a missão messiânica de sua pátria, ao mudar a destinação dos Estados Unidos, seu histórico exemplo de liberdade, de respeito aos direitos humanos e pregar a negação desses princípios que mudaram o mundo e continuarão mudando.

 

Nossa admiração pelos Estados Unidos, por esses ideais que nos inspirarão permanentemente, se sustenta na esperança de que estas distorções atuais passarão.

 

Ao finalizar estas linhas não posso deixar de dizer que minha mãe nasceu em 4 de julho de 1911 e amanhã completaria 115 anos — dela permanece uma saudade que não passa e um amor de mil anos.

 

Mundo Aliviado

 

Há sempre esperança de renascimento da alegria. Depois das tristezas de todo dia, nos levando muitas noites à lamentação e ao choro, chega o mês de junho com a alegria do nosso povo nos folguedos populares do Bumba meu Boi ­─ a nossa ópera popular que é encenada durante meses, nas comemorações do nosso São João ─, trazendo alívio à nossa alma.

 

São Luís é uma terra que bem merece ser chamada de Ilha do Amor. Melhor seria se fosse do Amor Demais. Falo do nosso amor a sua história e a sua gente, a seu espírito, a sua beleza.

 

Para parodiar Hemingway, que dizia que “Paris é uma Festa”, eu diria que “São Luís é um amor”. É para mim uma terra de lembranças que estão associadas à minha mocidade.

 

Mas naquele tempo a cidade não era a Ilha do Amor, era a Ilha Rebelde, rebelde pelas heranças do passado que a fez resistir a todas as ocupações, dos franceses, dos holandeses e dos portugueses, e a todos os governos, para ser uma cidade sem amarras, bem brasileira, na miscigenação das raças, em que negras magras e elegantes tiveram forte influência.

 

Mas quero falar só da alegria, que chegou em maio, quando já se começa a esquentar os tambores e ensaiar as brincadeiras que fazem do nosso São João a festa mais popular da região.

 

Não se sabe bem como começou, de onde veio, mas sabe-se como foi absorvendo o momento em cada ano e incorporando novos estilos e outras brincadeiras — como são chamadas as diversas apresentações.

 

Em junho, aparecem os ventos gerais, em que os dias vão se transformando de chuvosos para de sol aberto, e as noites são só os sotaques dos bois, do Bumba meu Boi, misturando os caboclos de paus de fita, os índios de cabeças de pena, as “catirinas”, os “pais-franciscos” e, por fim, os “bois”, de couro, de miçangas, com figuras religiosas bordadas por mãos de fada, como aquela “Neusa”, cantada nas toadas de matraca e de pandeiros gigantes: “foi Neusa quem bordou”. E os cantadores, heróis do nosso povo, que aqui deixaram até provérbios como este: “como o Boi de Tolentino, só fama”, quando a decadência chegava, ou com a velhice ou com a perda do prestígio e beleza.

 

E ainda o Tambor de Crioula, das saias rodadas e das “pungas sensuais”. Tudo isso misturado com os fogos, os busca-pés, as danças, o cacuriá e o trejeito das mulatas.

 

Na passagem para o século XVIII, chegaram aqui os açorianos. Que gente era essa com essa vocação inevitável de vaqueiro? Eram os migrantes da Ilha dos Açores, essa gente ainda hoje devota ao gado, ao boi, que enfeitam quando vai morrer. Para onde foram, levaram sua cultura, que no Brasil deu várias formas de festa, inclusive o nosso Bumba meu Boi, o Boi de Mamão de Santa Catarina e o Boi Bumbá do Piauí. E o boi foi avançando e criando uma cultura muito particular.

 

Agora, o Bumba meu Boi do Maranhão foi reconhecido pela Unesco (o maior órgão de cultura das Nações Unidas), em dezembro de 2019, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A entrega oficial ocorreu em agosto de 2025. Assim, o Maranhão, com justa autoridade, reivindica ser a Pátria Brasileira do Bumba meu Boi.

 

A verdade é que em nenhum outro lugar ele se apresenta com uma riqueza musical — cancioneiros, sotaques, fantasias, instrumentos, variedades de apresentação — como a de nosso Estado. Até mesmo os cordões que existem em outras partes do nosso país foram levados por maranhenses, conhecedores do auto e do ritmo desse folguedo popular.

 

Nada mais bonito, nada mais autêntico, tradicional e puro.

 

No São João do Maranhão está a beleza dos folguedos populares dos nossos antepassados, nessa magia do Bumba meu Boi trazendo conforto à nossa alma.

 

Entre fogos e festas brincamos todos. Lembro ainda hoje as noites em que todos nós, Tribuzzi, Bogéa, Evandro, Luís Carlos, Sílvio, Cadmo, Floriano, Figueiredo e eu passávamos a noite acompanhando, com matracas na mão, o Boi da Maioba.

 

A alegria das festas de São João deve substituir a tristeza da Guerra, como no tempo da Guerra do Canal de Suez, no Egito, em 1956, quando nos bailes de carnaval se colocavam um grande cartaz: “Em Suez, se briga; aqui se brinca.”

 

Em junho, no mês do Bumba meu Boi, vamos todos dizer:

 

Faça a alegria, os fogos e as fogueiras das festas; não faça a guerra!

 

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Copa Brasil

 

Nunca fui fanático por Copa do Mundo, mas sempre um torcedor engajado do Flamengo. Com meus 96 anos de vida, talvez eu seja o mais antigo torcedor do time, ou um deles.

 

No ano em que nasci, 1930, a FIFA (Federal Internacional de Futebol) realizou a primeira edição da Copa do Mundo de Futebol. Mas a Copa de que até hoje me recordo foi a de 1950. Eu viajava pela segunda vez de avião e ia, pela primeira vez, ao Rio de Janeiro para participar do Congresso Nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes), como representante do Maranhão. O avião em que viajei era o Aero Commander 520, um avião de transporte leve do pós-Segunda Guerra, cujas aeronaves posteriormente foram transformadas em cargueiros leves por empresas de usados. Esse avião saía de São Luís, no Maranhão, às cinco horas da manhã. Pousava em Carolina, seguia para Porto Nacional e, em seguida, para Formosa, em Goiás. De lá, o avião partia rumo a Belo Horizonte e terminava a rota no Rio de Janeiro, aonde chegava às seis da tarde. Ao sobrevoarmos o Rio de Janeiro, o comandante comunicou de sua cabine que o Uruguai acabara de marcar o gol que o faria Campeão do Mundo, derrotando o Brasil. Eu não entendi bem o que aquele anúncio significava, pois estava exausto após um dia inteiro nesse avião, que não tinha pressurização e balançava muito. Com todos os passageiros enjoados e ainda vomitando, o cheiro na aeronave estava terrível. Nosso mal-estar físico se misturava com o do medo de quem viajava de avião pela primeira vez. Ao saltar, quase mortos, passageiros do Norte e do Brasil central eram trapos humanos.

 

Depois, meu padrinho, o Desembargador do Rio Ivan Castro de Araújo e Souza — primo do meu pai —, explicou-me a tragédia nacional que aquele gol significava. Assim, só ao longo do tempo pude avaliar o impacto real daquela derrota para a história do nosso futebol.

 

Outra Copa de que não posso me esquecer é a de Guadalajara, no México — um dos países onde se realiza a atual —, na qual o Brasil conquistou o título, pela terceira vez, de Campeão do Mundo: quando Presidente da República, visitei o México e fui a Guadalajara. O povo de lá, ainda tomado de amor pelo Brasil, ao ver passar meu carro, gritava: “Pelé, Pelé, Pelé.”

 

Agora vamos concorrer a uma nova Copa do Mundo, sem notáveis jogadores; a figura depositária de nossas esperanças é a do treinador Carlo Ancelotti, um italiano simpático, experiente e inspirador de confiança. Particularmente, gostei de ele ter convocado o Neymar, que ainda é uma legenda do futebol mundial.

 

Mas eu sempre serei um irredutível otimista em relação ao Brasil: em qualquer setor em que o país esteja envolvido, nele acredito e nunca desaparece em mim a esperança. Para abalizar meu otimismo, tenho o meu exemplo e agradecimento — porque gratidão reservo a Deus, com a minha fé inabalável: acredito em Sua proteção como responsável por meu destino e minha vida. Veja o meu exemplo: nascido em uma pequena cidade do interior do Maranhão, sem família rica, filho de uma retirante da seca do Nordeste e de um pequeno promotor público, cheguei a Presidente da República cinco anos após tornar-me membro da Academia Brasileira de Letras, o que minha mãe considerava ser meu maior título.

 

Assim, espero e desejo que saiamos dessa Copa com o Hexacampeonato, graças à capacidade do Brasil de superar-se, à sua criatividade e ao seu espírito de luta: jamais desistir, sempre caminhar, nunca retroceder. Somos o único país do mundo cinco vezes campeão, reconhecidamente detentor de um estilo próprio, chegando a criar o que se chamou futebol-arte.

 

Esta será uma Copa singular. Três países envolvidos, México, Canadá e Estados Unidos, com todas as equipes participando e populações deslocadas de todos os lugares do mundo a torcer pelo seu país. A nota desagradável foi o tratamento do governo do Presidente Trump ao árbitro da Somália Omar Artan: eleito o melhor árbitro africano em 2025, mas impedido de apitar nos Estados Unidos com seu passaporte apreendido e obrigado a regressar à sua pátria. É um gesto muito próprio do mandatário americano, mas desnecessário.

 

Que venha o hexa, que o Brasil brilhe e que o caneco, como popularmente se chama a taça, repouse em nosso território, para alegria do povo brasileiro.

 

Caso não tenhamos vitória, não devemos responsabilizar nossos jogadores. Eles vão dar o melhor de si pela nossa bandeira e pelo canarinho.

 

Esperança – Hexa Brasil!

 

 

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