José Sarney
Os anjos estão de volta
Meus queridos leitores, há dois dias, no Senado Federal, com uma Mesa prestigiada pelos Presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, Davi Alcolumbre e Hugo Motta, relancei três romances meus, publicados há alguns anos, atendendo à sedução do convite da Editora Ciranda Cultural, pelo selo Principis, e ao meu desejo de que as novas gerações conhecessem um pouco da minha literatura, com essa vontade que é a de todos os escritores: ser lido.
Foi assim que agora reeditei essa coletânea com três romances, “O dono do mar”, “Saraminda” e “A duquesa vale uma missa”, pois me veio à cabeça que o romance carrega a temática maior, porque é o romancista que dá movimento à experiência humana na Terra.
Fiquei tão emocionado e envolvido no trabalho que revivi as entrelinhas que me ajudaram a construir meu mundo literário. Nele, o romantismo grita o que a minha alma nunca quis calar.
Bem sabemos que o romantismo foi um movimento que surgiu na Alemanha no século XIX e influenciou todas as esferas das artes e da cultura, transformando-se até em estilo de vida. O mundo ali ganhava outras cores, o novo pedia passagem. E passava.
Chegou a outros países da Europa e fez nascer em seu bojo grandes nomes. Quem não se recorda de Lorde Byron e Shelley, na Inglaterra? Estes ingleses sabiam extrair da vida o suco que ainda nos oferece em suas obras primas — e ele é amargo e doce na medida exata. Na França, Madame de Staël, sistematizou esse novo credo e o difundiu para novas terras. Madame de Staël, sim, a que suscitou suspiros do grande pianista polonês Frederico Chopin. De Portugal chegou ao Brasil.
Na música, nas artes plásticas, na arquitetura, na literatura, o romantismo exerceu sua influência. Criou até um estilo de vida, nos homens, nas cidades. Passou a ser quase um estado de espírito: o amor idealizado quase sempre inalcançável.
O credo romântico presta culto aos “suspiros e saudades”, à idealização do Amor (com maiúscula), a um certo tipo de sofrimento compadecido. Ele chega a ser uma visão de mundo, um sistema de valores, uma ideologia. O grande expoente da poesia romântica é Lamartine, depois surgiram outros, exprimindo-se em diferentes idiomas.
No Brasil, o primeiro romântico foi Gonçalves de Magalhães, que publicou uma obra, em 1830, com o sugestivo título de Suspiros e saudades e, numa incursão exótica, acompanhou o duque de Caxias, sendo o cronista da Balaiada.
Mais do que escola ou corrente artística, o romantismo é um modo de ser e de exprimir-se, chega a ser uma ideologia que se imprimiu em tudo que somos, trazendo reflexos até mesmo na política. Nos anos 60, os movimentos de retorno à natureza, o culto ao natural, a busca de viver em pequenas comunidades longe dos grandes centros urbanos, as “aventuras” de um Che Guevara, que apregoava a revolução sem perder jamais a ternura — todas essas manifestações têm um certo sabor romântico.
Depois do auge dessa onda romântica, viveu-se a visão de um mundo que abandonava esses valores e caminhava rumo à máquina para abandonar a Terra e ser passageiro de naves espaciais em busca de novos mundos. Júlio Verne dominou essas visões. Chaplin, em Tempos modernos, sintetizou a predominância da máquina sobre os homens — mas ele mesmo era o mendigo a entregar aquela flor que é mais do que uma flor, em Luzes da ribalta.
Sonhou-se até com a morte de Deus, no homem-senhor dominando todos os saberes.
E o mundo mudou. Agora é outro com a rota da máquina e da tecnologia de ponta, das redes de computador, da robótica, da telemática, que provoca transformações nas profundas nas relações humanas. Hoje é possível uma pessoa ter, com a permissão de Roberto Carlos, um milhão de amigos sem nem mesmo botar os pés fora de casa.
É a tecnologia em tudo: o homem está interligado em redes eletrônicas, mas vive na solidão. E volta-se para a ecologia, consciente de que a preservação do meio-ambiente é essencial para sua própria sobrevivência.
Mergulhando no cosmos, o homem aprofunda seus conhecimentos sobre a origem do universo, como quem busca o próprio Deus. E é mesmo uma nova busca de Deus.
Mas se a religião oferece a salvação; a Arte, a compreensão. E na literatura a nossa alma se aconchega.
E continuamos sonhando com a Paz e outras ternuras. Somos diferentes, mas ainda os mesmos: românticos, sonhadores.
Que os Anjos digam: Amém!
Carta de amor à urna eletrônica
Com a maior felicidade assisti ao discurso do Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, com o elogio da urna eletrônica, vinculando sua existência, ao longo do processo de informatização das eleições, ao fortalecimento da democracia, com a consolidação da pureza dos escrutínios eleitorais.
Eu, por conta da bondade de Deus, que me assegurou vida longa, e da minha carreira política, que marcou o meu destino, acompanhei todo esse processo de informatização e, muitas vezes, ajudei a modificar a legislação eleitoral: no princípio, muito participei da advocacia eleitoral, quer como advogado, quer como delegado de partido.
Comecei como candidato a deputado federal, em 1954, com as cédulas retangulares de papel, nas quais estava escrito o nome do candidato e o cargo a que pleiteava. Depois participei de eleições já com a cédula eleitoral distribuída pelos partidos, com um pequeno quadrado no qual o eleitor escolhia o seu candidato, cujos nomes figuravam na respectiva cédula.
As críticas a essa cédula eram muito fortes, pois possibilitavam muitas distorções e fraudes. Então, nós, da UDN — União Democrática Nacional, partido ao qual pertencia, com parlamentares de outros partidos, lutamos pela chamada cédula oficial, que nada mais era do que a cédula anterior, mas feita pela Justiça Eleitoral, por ela distribuída e entregue na seção receptora.
Mas o grande problema ainda era o da obtenção do título eleitoral, feito por iniciativa de candidatos e cabos eleitorais, que também providenciavam um retrato para os eleitores, um processo com alto custo. Basta ver que retratos de outros estados eram comprados para serem usados em títulos fantasmas, deformando o resultado das eleições.
Lembro que, no Maranhão, no Município de Parnarama, compraram retratos do Piauí e, esgotadas as possibilidades de criação de novos nomes de eleitores fantasmas, resolveram inventar uma família Kodak, o que foi motivo de muita chacota. Apareceram ali “membros da família” da marca da máquina de retrato, Kodak. Então: João Kodak, Maria Kodak, Joaquim Kodak. Eram tantos Kodaks que se pensou em levá-los para se habilitarem como herdeiros dessa grande indústria de máquinas de retrato!
No Parlamento, defendi o projeto de lei de modernização do alistamento eleitoral e a criação do Serviço Nacional de Alistamento Eleitoral, tendo como exemplo o Alistamento Militar que já existia, destinado a sanar essa válvula de fraude que engordava o eleitorado fantasma.
Em 1989, quando fui Presidente da República, com o Ministro Néri da Silveira como Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, incentivei-o a deflagrar um processo de informatização: ele começou esse trabalho e entregou-me o primeiro título eleitoral, que era igual a um cartão de crédito. Era um grande avanço e o pontapé que nos levaria à urna eletrônica. Esse projeto de urna eletrônica como meta final teve um grande avanço na Presidência do Ministro Carlos Veloso, que sucedeu ao Ministro Néri da Silveira. A primeira utilização de urna eletrônica, com o título já digitalizado, ocorreu em 1996. Naquele ano, como experiência, mais de 50 Municípios (com mais de 200 mil eleitores) já votaram nesse método. A utilização de urnas eletrônicas em 100% dos Municípios brasileiros ocorreu em 2000.
Desde então, a urna eletrônica consolidou sua presença e conquistou grande prestígio. Ela passou a assegurar eleições limpas e transparentes, simplificando grandemente o processo eleitoral. A apuração — que no velho sistema consumia muitos dias — passou a levar somente algumas horas. Desse modo, às dez horas da noite do dia do pleito, todo o Brasil já conhece o resultado das eleições — chorando os derrotados e soltando foguetes os vencedores.
A urna eletrônica é um instrumento de cidadania e liberdade: quando o eleitor está na cabine, só ele e aquela pequena máquina, sem a presença do cabo eleitoral e a pressão de coronéis, ele é o único dono de sua vontade.
Somente pude ser governador do Maranhão porque o Presidente Castelo Branco, por solicitação nossa, apoiou a ideia de que, antes da eleição, o TSE e o TRE do Estado fizessem uma revisão do eleitorado, numa comissão presidida por um ministro do TSE, garantindo a presença da Força Federal. Dessa forma, eliminaram-se 200 mil eleitores fantasmas, que votavam fraudulentamente e nem eram apurados, apenas somados aos mapas — único lugar em que esses eleitores viviam.
Então, pintaram no muro do cemitério de São Luís, em 1965, no dia da minha eleição para governador:
“Agradecemos ao TSE não termos de votar hoje. Agora descansamos em paz! Assinado: os mortos.”
Feita a eleição para governador, derrotei os candidatos do governo do Estado por uma larga margem de votos, constituindo o passo definitivo para a libertação do Maranhão de eleições fraudadas.
A urna sempre fez parte da minha carreira política, pois foi ela que me deu todos os cargos que ocupei, expressando a vontade do povo do Maranhão, do Amapá e do Brasil.
Apesar de ter a maioria esmagadora das pessoas como amigos, a urna eletrônica sempre teve inimigos. Contra ela, Brizola, o maior deles, que desejava o sistema anterior e voto impresso, e depois o ex-Presidente Bolsonaro.
Hoje a urna eletrônica é um exemplo mundial. Eu e quase a totalidade do mundo político só temos louvores para ela. Agora, mais velho, posso dizer que ela nos poupou de muitas mazelas que vivi e presenciei antes dela. Nas velhas urnas, de pano e de madeira, sempre havia denúncia de terem sido “emprenhadas”. A urna eletrônica continua virgem: ninguém maculou sua pureza.
No dia 13 de maio deste ano, a urna eletrônica completou 30 anos. Os técnicos que compareceram ao TSE para certificarem sua integridade saíram de mãos vazias, o que se mostrou ser uma grande conquista da democracia e da liberdade.
Parabéns ao Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, pela sua defesa da urna eletrônica e pelas ideias do seu programa. Eu me congratulo com Vossa Excelência porque fui um dos lutadores pela modernização do processo eleitoral.
Minha urna, meu amor. Viva!
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Bumba Meu Boi
Quando maio aparece, no Nordeste é recebido não apenas como o mês das noivas, mas principalmente como o tempo que antecede o São João. E logo começam a esquentar os tambores e ensaiar as brincadeiras que fazem do nosso São João a festa mais popular da região. Não se sabe bem como começou, de onde veio, mas sabe-se como foi absorvendo o momento em cada ano e incorporando novos estilos e outras brincadeiras — como são chamadas as diversas apresentações —, de tal modo que as danças portuguesas estão sendo também apresentadas como folguedos populares do São João, principalmente no Maranhão.
Há por aqui um provérbio, que corre no linguajar do povo, que diz: “Abril, chuvas mil; maio, trovão e raio.” O certo é que, sem qualquer base científica, acontece aqui estes fenômenos meteorológicos. Eu aqui, nesta semana, fiquei perturbado com a grande quantidade de trovões e raios, e um deles me deu um grande susto, caindo num terreno bem perto da minha casa.
Mas do que eu quero tratar mesmo é do São João do Maranhão, que chega depois das chuvas e dos raios. É considerado pelos maranhenses como o melhor do País e, como só no Brasil esta festa é dominante, acrescentam: “É o melhor do mundo!”
Modéstia à parte, a verdade é que o Bumba Meu Boi do Maranhão — que é a cara do nosso São João — foi reconhecido pela Unesco (o maior órgão de cultura das Nações Unidas), em dezembro de 2019, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Assim, o Maranhão, com justa autoridade, reivindica ser a Pátria Brasileira do Bumba Meu Boi.
A verdade é que em nenhum outro lugar ele se apresenta com uma riqueza musical — cancioneiros, sotaques, fantasias, instrumentos, variedades de apresentação — como a de nosso Estado. Até mesmo os cordões que existem em outras partes do nosso país foram levados por maranhenses, conhecedores do auto e do ritmo desse folguedo popular.
Vale citar que o Boi de Parintins — que tanto sucesso faz hoje no Amazonas, derramando-se pelo Brasil com o nome de Boi-Bumbá (nome como também é conhecido no Piauí) — foi levado por dois maranhenses. Hoje a festa está competindo com o Carnaval na famosa disputa entre os bois Caprichoso e Garantido. Já em São Paulo, no Centro Nordestino — fundado pelo saudoso Deputado José de Abreu e hoje administrado com grande sucesso por sua filha, a Deputada Renata Abreu, herdeira do talento realizador do pai —, também existe uma manifestação do Bumba Meu Boi, mantida por maranhenses. Em Brasília tinha, e ainda tem, o Boi do Teodoro, do falecido Teodoro, que eu conheci, a quem sempre dava apoio para realizar o Bumba Meu Boi na Ceilândia e no Núcleo Bandeirante, naquele tempo chamado Cidade Livre.
No Estado de Santa Catarina existe uma festividade chamada Boi de Mamão, que em nada se assemelha à nossa, embora também teria vindo do Açores, segundo a tradição local.
Muitos pesquisadores estudaram o tema, e Carlos Lima, talvez o mais minucioso deles, tem um trabalho profundo em que levanta todas as hipóteses da origem dos folguedos do boi. Certo é que os primeiros habitantes portugueses do Maranhão vieram dos Açores, aquelas ilhas lendárias e heroicas do tempo das navegações. Simão Estácio da Silveira, um propagador das riquezas maranhenses, escreveu um pequeno opúsculo para trazer colonos para esta terra: “Das terras que Portugal conquistou, o melhor é o Brasil / Mas o Maranhão é o Brasil melhor”. Nessa época, era Governador do Maranhão o sobrinho do Marquês de Pombal, Joaquim de Melo e Póvoas; governara o Grão-Pará e Maranhão, anteriormente, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês e, portanto, tio de Póvoas.
Mas o São João do Maranhão — o melhor do mundo! — já está ensaiando, rompendo as madrugadas com o nosso Bumba Meu Boi, e eu já me preparo para vê-lo em junho. Nada mais bonito, nada mais autêntico, tradicional e puro.
Caso você queira visitar o século XIX, venha assistir ao São João do Maranhão e ver a beleza dos folguedos populares dos nossos antepassados, na magia do Bumba Meu Boi.
Lá nos esperam São João, São Pedro, São Paulo, Santo Antônio e São Marçal (este uma tradição única das festas de junho no Maranhão).
Venha e seja compadre na fogueira de um amigo.
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A casa da infância
Hoje, 24 de abril, é o dia em que meus olhos se abriram para o mundo, às sete e meia da manhã, na cidade de Pinheiro, localizada na Pré-Amazônia, área da Baixada Maranhense, zona de campos verdes, alagados, com muitos lagos e capins variados, como arroz-bravo, andrequicé, capim-de-marreca, algodão-do-campo, e flores amarelas que enfeitavam o tapete verde das plantas.
Nessa cidade, as casas baixas, a rua deserta e a visão do campo verde davam ternura a uma planície sem fim que se perdia no horizonte. Era uma pequena vila de duas ruas, uma maior, o eixo central, como em outros lugares sempre chamada de Rua Grande, e a outra que dela derivava e ia em curva até a Igreja de Santo Inácio, onde se iniciara a povoação. Em 1920 foi elevada a Município, desmembrada da Comarca de São Bento.
Em março de 1930, uma comitiva chegou a Pinheiro no fim da tarde e desembarcou no porto do Albino Paiva — assim chamado porque ali ele tinha sua casa de comércio —, onde aportavam as canoas, que, no inverno, eram o único transporte disponível. Naquela tarde, meus pais se dirigiram para a casa onde iriam morar.
Deus, o ser bondoso que eu sabia ter me dado a vida, me assegurou a Eternidade no paraíso que Ele me dera para viver na Terra: uma pequenina casa, com um quarto na frente, com piso de tijolo local, um outro quarto, uma salinha de comida e cozinha, juntas, de chão de barro batido.
A casa da infância é, sobretudo, onde moram as saudades nunca mortas, no interior do Maranhão, há quase cem anos — isso parece ontem. Na memória me vêm o pote com água de caneca, a cozinha com os caldeirões de ferro, em trempes de pedra, com carvão de árvores secas, as fruteiras, manga, figo, laranja-da-terra, tangerina e a horta de quintal com tomate, vinagreira, maxixe, alface e abóbora. Os urucus vermelhos e o cavalo Graúna, preto, brilhante, relinchando com a chegada das cargas de palmito de babaçu, num quadro materializado no tempo.
Ficava na rua principal, àquele tempo José Anastácio, que fora um grande prefeito da cidade. Em frente morava José Alvim, farmacêutico, solteirão que depois veio a se casar com Inês de Castro — que se tornaram meus amigos, eles e seus filhos.
Naquela madrugada de abril anterior ao meu nascimento, chovera muito, e ainda chovia quando meu pai teve de ir buscar na Farmácia do Zé Alvim, a única da vila, uma injeção para restabelecer as contrações do parto. Aliás, o ditado popular era: “abril, chuvas mil; maio, trovão e raio”.
Busco antigas recordações e lembro das chuvas da minha infância e, na minha memória, as águas não param de cair. Ao me recordar desse tempo hoje ainda chove, uma chuva azul escuro que turva o dia.
Na cidadezinha pequena, pobre, isolada, mas bela na pureza de seus humildes arruados, Pinheiro, ficava minha casa, meu chão, onde meus olhos se abriram para a vida. Em duas ruas a cidade se esgotava. Mas nada mais belo do que a minha cidade, seus campos, suas águas, sua gente.
Eu tenho escrito muitas vezes que o tempo é uma criação do homem, feito de datas escolhidas por nós. Mas o tempo não destrói as memórias velhas, onde ficam as saudades nunca mortas.
Ao longo da vida, com mais de 50 anos de crônicas de imprensa, publicadas semanalmente em jornais e sites, que eu me recorde, com boa memória, jamais meu aniversário coincidiu com a data e o dia da publicação do meu artigo: sexta-feira, 24. Por isso compartilho tanta saudade. Desculpe-me o leitor, mas obrigado pelos parabéns que eu sei que está me enviando.
Eu sou só gratidão no dia de hoje. Todas as manhãs e noites agradeço a Deus pela vida que me deu, através do meu pai e da minha mãe, e pela minha família: filhos, genro, noras, netos, bisnetos, parentes e amigos. Deus guiou os meus passos.
Viva a vida. Viva o amor. E as saudades que nunca morrem.
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Liberdade e Populismo
É difícil uma definição de liberdade que seja abrangente em todos os seus aspectos. Até porque, com o passar dos tempos, ela adaptou-se à diferença da sociedade do seu tempo. Foram vários os conceitos e aspectos.
O mais importante período dessas mudanças foi aquele em que os conceitos e julgamentos sintetizaram os direitos humanos e individuais, culminando na Revolução Francesa, passando pela Independência dos Estados Unidos e iniciando com a Revolução Gloriosa na Inglaterra — esta, com a reforma da Bill of Rights, a verdadeira origem do parlamento moderno e do fim do poder absoluto.
Uma definição simples, concisa e abrangente de liberdade é aquela que se deduz das ideias de Thomas Jefferson, sem dúvida alguma um dos maiores pensadores políticos modernos. Ele consolidou a concepção de democracia à de liberdade, de tal modo que podemos afirmar serem sinônimas. A democracia é, sem qualquer negativa, a palavra que resume a liberdade: os direitos individuais e civis (como o direito de ir e vir e a negação de qualquer forma de escravidão), a imprensa livre, a igualdade entre gêneros e toda a essência da condição de homem livre.
Nessa invocação dos conceitos de liberdade e democracia, não podemos esquecer a definição de Aristóteles de que “o homem é um animal político”, ou seja, para ele a liberdade era indissociável da vida em sociedade.
Objetivamente a Revolução Gloriosa marca a prevalência do Parlamento, tornando-o uma realidade, pondo fim ao governo absoluto e estabelecendo o império das leis. Neste, o Parlamento torna-se o centro do poder, consolidando o que se define como o “governo das leis, e não dos homens”.
Também não podemos ser radicais chegando ao extremo de dizer que a liberdade e a democracia não existem apenas porque não conseguem resolver todos os problemas de uma sociedade de classes, que, cheia de reivindicações de toda natureza, exerce uma pressão gigantesca para assegurar seus direitos. Isto, ao contrário de negar a democracia e a liberdade, reafirma que ambas passam a ser uma.
Por outro lado, fazem parte da liberdade e da democracia a pressão e a efervescência de uma sociedade de massa, desde que contidas no enquadramento das leis, que limitam os nossos direitos onde começam os direitos dos outros.
Mas a liberdade tem um poder criativo que se dissolve na democracia, fazendo parte dela e possibilitando certas licenciosidades, que me permito citar para aliviar o peso desses conceitos e do universo de suas interpretações e derivativos. Nesse ramo, podemos incluir o populismo e, o pior deles, o anarcopopulismo, que invadiu a América Latina como um braço da Revolução Cubana, desestabilizando governos e servindo de justificativa para a ascensão do militarismo, felizmente ultrapassado.
Para várias piadas políticas também serviu a liberdade. Recordo-me de uma delas. Há muitos anos, quando visitei pela primeira vez meu amado Portugal, ainda ocupava o governo o Dr. Oliveira Salazar, que o exercia com mão de ferro usando sua PIDE, a cruel polícia política. A principal avenida de Lisboa chamava-se “Avenida da Liberdade”. Estava num táxi e, sem nenhum conhecimento da cidade, perguntei ao motorista: “Qual é o nome desta avenida tão bonita?” Ele me respondeu, com um tom crítico: “Avenida da Liberdade, mas nós ainda não a inauguramos. Só o faremos quando o Salazar morrer.” Deu uma gargalhada, e eu o acompanhei, com a certeza mútua de que eu não o denunciaria à PIDE.
Outro dia assistia a um noticiário de TV quando uma bela moça, numa delegacia, denunciava que tinha sido vítima de assédio sexual. O delegado pediu-lhe que detalhasse as circunstâncias desse crime, infelizmente tão comum. Ela respondeu: “Eu estava em pé no ônibus, e o saliente me disse que ‘tomou a liberdade’ de passar a mão em minhas partes íntimas.” Vi, então, que há um grande poder criativo sobre o que é liberdade.
Anedotário ou não, a liberdade é o nosso maior patrimônio democrático. Os problemas iremos resolvendo, mas sem permitir que o populismo ameace a nossa democracia e a liberdade, sua fiel sinônima.
Lembro sempre do slogan da UDN, proposto pelo grande Afonso Arinos, que se dizia inspirado em frase de Thomas Jefferson: “O preço da liberdade é a eterna vigilância.”
Faz-não-faz e Desfaz
O Presidente dos Estados Unidos tem estarrecido o mundo com suas exóticas colocações, que, no mínimo e no máximo, representam um jogo de faz-e-esconde, o que tem mantido as nações em suspense sem saber por onde ele quer ir e para onde vai. Parece os versos do grande poeta português José Régio: “Se ao que busco saber nenhum de vós responde, / Por que me repetis: ‘vem por aqui’? / Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / a ir por aí… […] Ninguém me diga: ‘vem por aqui’! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou… / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / —Sei que não vou por aí!”
Este é o caso de todos no mundo inteiro: não sabemos por onde vamos, não sabemos para onde vamos, mas sabemos que não vamos atrás do Trump.
A última dele foi a de que iria destruir uma civilização, isto é, a milenar civilização persa, como se isso fosse possível. Em seguida, afirmou que o Irã seria consumido pelo fogo, numa tragédia igual àquela de Sodoma e Gomorra. Mas no dia seguinte, já na quarta-feira, pensando melhor, Trump voltou atrás e, numa boa volta, resolveu parar com essa coisa escatológica de fim do mundo e negociou uma trégua em troca da abertura do Estreito de Hormuz.
Essa guerra com o Irã sempre foi difícil de ser entendida ou de se aceitar a razão, a sem-razão, de sua fúria, nem as alegadas justificativas. O fato que é difícil de explicar é, depois de destruída — obliterada — a capacidade iraniana de enriquecimento do urânio, como esse país produziria uma bomba atômica que pudesse ameaçar Estados Unidos e/ou Israel. Israel e Irã sempre pregaram a mútua destruição, mas os ataques sempre partiram de Israel.
O que ficou evidente é que, enquanto os Estados Unidos negociavam um acordo com o Irã, os israelenses descobriram onde as lideranças iranianas iriam se reunir para discutir os termos desse acordo e imediatamente o Netanyahu convenceu Donald Trump de que deviam aproveitar essa reunião para eliminar todas as lideranças iranianas. Com o assassinato destes líderes, cairiam o Governo iraniano e o regime teocrático, assegurando uma vitória total com menor custo do que o de uma guerra. Daí a afirmação inicial de Trump de que em quatro dias a guerra estaria acabada.
Isso bastou para convencer Trump a entrar em uma guerra sem uma análise mais aprofundada de que, com o componente religioso e dogmático que leva ao fanatismo do povo, liquidados os seus líderes, outros apareceriam imediatamente em substituição àqueles, sem solução de continuidade. Talvez os estudos tenham sido feitos, mas se sabe que Trump não lê nem ouve nada que não esteja na televisão — e por isso logo demitiu o chefe da inteligência americana que disse ter avisado que o Irã não era uma ameaça. Não previu as consequências que adviriam ao comércio mundial com o comprometimento das exportações do Golfo Pérsico, nem tomou providências para proteger as bases americanas na região. Ignorou que pelo Estreito de Hormuz transitavam 20% de todo o consumo mundial de petróleo.
O fracasso dessa ausência de qualquer plano estratégico imediatamente aflorou, e o resultado é que a economia mundial entrou em crise, com impactos considerados mais graves que os da crise de 1972, quando houve o famoso choque do petróleo. A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz.
Trump não acredita na revolta da opinião pública dos Estados Unidos, que hoje está sendo divulgada: 60% da população é contra sua decisão de fazer essa guerra levado pelo israelense Netanyahu — que aproveitou o momento para mais uma vez destruir o Líbano, várias vezes massacrado pelo vizinho mais forte.
Se soube agora que, no ano passado, o Pentágono chamou o Núncio Apostólico para dizer que, se o Papa não aderisse ao trumpismo, os americanos fariam um novo papado paralelo — como o de Avignon. O Papa, que está com Deus e não com o Diabo, sabe por onde vai e não se abalou, continuou dizendo que as orações de quem faz a guerra não são ouvidas por Deus.
Temos que, com o Papa, rezar para que o cessar-fogo, mesmo com intermitência, acabe com os crimes contra os civis e dure até poder surgir um espaço para a paz.
A Paz é o que o povo americano e o resto do mundo querem.
Minha Semana Santa
Mais de uma vez Marly e eu, com o casal Emília e Álvaro Pacheco — meu saudoso amigo —, pegamos o táxi do inesquecível Seu Pedro, uma Mercedes preta, e, durante a Semana Santa, fomos pelo interior de Portugal até Santiago de Compostela, aonde sempre chegávamos na quinta-feira à noite e nos hospedávamos no Hostal dos Reis Católicos, ao lado da Catedral, com sua praça cheia de peregrinos, chegando de todos os lugares do mundo para assistir às solenidades litúrgicas, desde as procissões dos encapuçados até as bênçãos do óleo e da vela, na Matriz de novecentos anos, que fica, durante todo o ano, com sua chama acesa, com o cheiro de incenso do Botafumeiro invadindo e perfumando toda a igreja, mas sem a missão do passado: eliminar o odor dos corpos sem higiene que assistiam a missas e sermões na Idade Média.
Lembro também da Sexta-Feira da minha infância. Recordo estes espaços de tempo da vida sempre agradecendo as bênçãos que Ele me deu.
A infância é o tempo da estreita amizade com Deus. Quando ainda não chegaram as preocupações e dúvidas que nos darão o saibo da amargura, que fica sempre com uma parte dos nossos anos.
Deus era a sombra que eu sabia ter me dado a vida e que me assegurava a Eternidade, que naqueles tempos não era o céu prometido, mas o paraíso que ele me Ele dera para viver na Terra: a casa do meu avô, o engenho, os campos verdes, os sons dos sinos tocando nas alegrias, até que com os anos a vida passasse a ter o cheiro azedo da garapa.
Nesse tempo, meu Jesus Cristinho morava na cidade de São Bento, onde despertei para a vida. Ele estava na igreja entre as colunas pintadas imitando mármore. Nos tempos da Paixão, eu chorava com a revelação de que homens maus o tinham crucificado, pregado na cruz, trespassado por lança e que Judas o traíra.
O tempo da Quaresma era a oração e o silêncio em que os nossos jogos e sorrisos não podiam ser exuberantes porque Jesus iria morrer. A procissão do encontro, o Bom Jesus da Cana Verde, o lava-pés, o canto da Verônica e as estações da Paixão. E nos preparávamos para malhar o Judas no Sábado de Aleluia.
Tudo tinha um sentido misterioso, em que a razão não entrava, só a emoção. A Igreja governava as nossas referências, os domingos, as ladainhas, o rosário, as nossas súplicas e conversas com Deus. Minha mãe nos ensinava tudo sobre o segredo da vida, do Céu e da Terra, a Paixão de Jesus.
Depois veio a mocidade, a adolescência e o domínio da batalha de vida. Nesse tempo não existe mais a abstração, é o momento contínuo de conquistar a base, a realidade dos espaços de nossa preparação para a vida. A Paixão fica reduzida na nossa esperança da ressureição, como disse o poeta francês Pierre Emmanuel: “Este imenso vazio entre a morte de Deus e a esperança de vê-lo ressuscitado.”
Dois mil e vinte e seis anos depois o Cristianismo não conseguiu transformar o homem, que vive ainda prisioneiro da violência, do pecado, como síntese de todas as escravidões do corpo e da alma.
O autor mais lido da humanidade é Cristo. Um homem que, paradoxalmente, não escreveu nada, ao que se sabe, apenas algumas palavras na areia. Contudo, a força de sua doutrina desencadeou uma revolução na história do mundo pela palavra. Ele revelou, num tempo de escravos e senhores, de uma sociedade perdida pela divisão de castas, condições e submissões, uma verdade simples: a de que todos somos irmãos, todos iguais, todos filhos de Deus e todos destinados à salvação. Ele nos ensinou a buscar a paz interior. Não a ausência da guerra, mas a presença da paz dentro de nós mesmos, sem nada a cobrar, sem ressentimentos, sem a desgraça corroendo o corpo e a alma pela escravidão da maldade.
Cristo nos ensinou a perdoar e nos assegurou o caminho da salvação. Encontrar a felicidade na certeza de que o homem tem um destino transcendental. “O fim sem fim do começo de tudo”, como afirmava o Padre Vieira.
E hoje, no momento da velhice, é Ele que estará ao meu lado no meu Encontro, com Deus me indagando: “José, onde estão tuas mãos que eu enchi de estrelas?” E eu Lhe responderei: “Estão aqui neste balde de juçaras, sofrimentos e gratidão.”
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As guerras sem lei
A guerra é a mais atroz das ações humanas, mas nos persegue desde todos os tempos. Por outro lado, a ideia de que há uma superioridade a ser obtida pela força contraria o ensinamento das religiões e dos grandes princípios civis desde que se tem notícia. Todos falam de paz. E todos praticaram e praticam a guerra.
Também é muito antiga a ideia de que há limites a ser respeitados. A inviolabilidade dos embaixadores, a trégua para retirada dos mortos, a intocabilidade dos enfermeiros vêm de muito longe. Há registros de tratados de paz que definiam direitos e deveres mútuos entre reinos da Mesopotâmia, entre hititas e egípcios, na Grécia antiga. Os romanos formularam o jus gentium, que estabelecia as relações entre os estrangeiros e os romanos, inclusive dentro da cidade de Roma. O confucionismo formulou regras para o imenso universo dos reinos chineses, e na Índia os estados formularam regras de neutralidade.
Na idade média europeia o direito canônico substituiu o direito civil, definindo regras internacionais, enquanto no mundo islâmico o siyar regulava as relações com os estrangeiros. Discutia-se sobretudo a legitimidade da guerra, a guerra justa. No renascimento começaram a surgir os grandes tratados, como os de Alberico Gentili, de Francisco Suárez e, sobretudo, o de Hugo Grotius, com seu De Jure Belli ac Pacis. Distinguia-se o jus ad bellum, o direito de fazer a guerra, e o jus in bello, o direito de como fazer a guerra.
Mas é no séc. XIX que se forma a primeira regra mais objetiva de um estado. Abraham Lincoln, com sua Ordem Geral no 100, impôs o Lieber Code, que estabelecia os limites da necessidade militar, o princípio da humanidade — proibia o uso da crueldade, a tortura, o uso de veneno —, a distinção entre combatentes e civis, o status do prisioneiro de guerra etc. Algum tempo depois o negociante suíço Henry Dunant propôs em Un Souvenir de Solferino uma agência de ajuda humanitária em tempos de guerra, que resultou na criação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, e sua neutralidade, permitindo que agisse nos campos de batalha. Logo depois o governo suíço convocou os países europeus, os Estados Unidos, o México e o Brasil para uma conferência diplomática, que resultou na primeira Convenção de Genebra. Apesar de vários pequenos tratados terem tentado aprimorar seus termos, poucos países aderiram a eles. Foi só em 1949, ao final da Segunda Guerra, que a Convenção, atualizada, se internalizou, com a adesão de 196 países.
Com o surgimento da bomba nuclear, naturalmente, qualquer regra, sobretudo a mais importante, que é a proteção dos civis, torna-se nula. Daí a importância dos acordos entre as grandes potências nucleares, que recentemente deixaram de vigorar por falta de juízo de Estados Unidos e Rússia. O mundo não ficará tranquilo enquanto a ameaça nuclear não for completamente afastada, mas isso é um sonho que infelizmente não verei. Dei a minha contribuição quando eu e Alfonsín tornamos a América do Sul a única região do mundo sem armas nucleares.
Há sempre um bárbaro que ignora, propositalmente, as leis da guerra, mesmo quando elas estão inseridas nos princípios de seu próprio direito. Mesmo quando fazem parte de regras que existiram antes de serem escritas — como a de que não se ataca de surpresa um país com quem se está negociando um acordo diplomático, como aconteceu agora com o Irã, vítima, pela segunda vez, de uma agressão completamente absurda, em que Trump certamente deu prioridade ao que ouviu de Netanyahu. Também é inaceitável que se atinja a população civil — não há desculpa aceitável, diante da impressionante precisão das informações de suas agências de inteligência e de suas armas, para o assassinato de mais de 160 meninas numa escola.
Imaginar que o Irã negocie uma terceira vez, que recue e deixe aberto o Estreito de Hormuz, que deixe inspetores examinar sua pesquisa nuclear e seus projetos de armamento só poderia passar na cabeça fértil do Barão de Münchhausen, se levantando pelo próprio cabelo ou voando sobre uma bola de canhão por sobre o exército turco.
Infelizmente para o mundo, vivemos tempos de retrocesso não só no direito de como fazer a guerra, mas também nos princípios que criaram a Carta das Nações Unidas. A ideia que Franklin D. Roosevelt levantou e que não viu realizada é a de que a paz seja o objetivo das nações. Só elas reunidas na Assembleia Geral e, sobretudo, no Conselho de Segurança, podem definir e implementar ações militares. Essa regra é ignorada a todo momento, mas nunca como agora.
O mundo precisa de paz, e para isso precisa deixar de fazer a guerra e de cometer ostensivamente os maiores crimes de guerra.
Mesmo sem sermos ouvidos, gritemos: PAZ! Fim de todas as guerras!
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Riqueza braba
Li na Folha de S. Paulo (onde escrevi uma coluna durante 20 anos, às sextas-feiras, o que me remete à saudade do meu grande amigo Octávio Frias), uma crônica muito gostosa de ler da escritora e dramaturga Becky S. Korich, “A performance brega do novo milionário”, em que faz uma gozação muito pertinente da ostentação dos super-ricos que esbanjam escandalosamente, agredindo nossa sensibilidade com festas ruidosas no exterior, gastando milhões de reais para pedidos de noivado e casamentos sucessivos com influenciadoras e influenciadas digitais para mostrar riqueza, com convidados em jatinhos e jatões, desfile de vestidos luxuosos e bolsas milionárias, que a jornalista diz ser “coisa brega”. Só falta, para completar a comédia, a indelével música dos cafonas, de Waldick Sorano: “Eu não sou cachorro não”.
Na verdade, o grande corruptor é o dinheiro. Ele aparece todos os dias na televisão ao lado das operações da consagrada Polícia Federal, que tem seu trabalho reconhecido por todo o País. Já apareceu até “acalentando” o sono de um deputado estadual do Rio.
Na verdade, o dinheiro vem desde a antiguidade participando da História. Ele foi usado na armadilha dos fariseus a Jesus Cristo ao lhe perguntarem se era correto pagar tributo, a que Jesus respondeu: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Outra vez o dinheiro aparece nos Evangelhos corrompendo um dos apóstolos, Judas, que trai Jesus. E foi o dinheiro mandou Judas à forca. Lembra ainda o Padre Antônio Vieira que o diabo tentou Jesus com todas as riquezas oferecendo a Ele todo o mundo, dizendo: “Tudo isso será teu se me adorares”. Para Vieira, se o Diabo podia oferecer a Jesus todo o mundo e suas riquezas é porque o mundo era dele, do diabo. Assim podemos pensar que se o dinheiro invade e corrompe todos é porque é ele, o dinheiro, quem manda e resolve. Será?
Mas eu desejava falar era da verdade das palavras da escritora da Folha. Ela cita a última crônica de Fernanda Young, falecida em 2019, um “pequeno tratado sobre o mau gosto existencial brasileiro”, como se Fernanda mandasse um recado do passado para o Brasil de hoje: “Existe algo mais brega do que um rico roubando?” E agora Becky conclui: “Rico é quem dorme tranquilo. Essa é a maior das riquezas”.
A tranquilidade só existe quando o homem tem aquela paz que não é a ausência de guerra, mas a paz interior que nos aproxima da fortuna imensa de dormir tranquilo, sem o peso das falhas, que só trazem pesadelos.
Infelizmente, sob o manto da desgraça o dinheiro invadiu as instituições, e a opinião pública está perdendo a confiança nelas. Mas pela experiência que tenho de Parlamento, observo que não podemos generalizar. Nas Casas Legislativas do País há homens e mulheres com espírito público que também condenam esse procedimento totalmente abominável.
Tenho uma visão abrangente porque o destino me proporcionou bastante tempo naquelas Casas gloriosas — Senador por 40 anos, antes fui deputado federal, por 12 anos, suplente e efetivo desde 1955. Assisti, portanto, a muitos episódios da nossa História vividos pelo Parlamento: o suicídio de Getúlio Vargas; o Golpe do Lott, de 11 de novembro de 55, que possibilitou a posse de Juscelino; as revoltas de Jacareacanga e de Aragarças, comandadas pelos oficiais da Aeronáutica, Tenente-Coronel Veloso e Major Lameirão, depois anistiados pelo Presidente que queriam depor; a tentativa de evitar a posse do Jango em 1961 e, posteriormente, a sua deposição em março de 1964; o AI-5, em 1968, e a Transição Democrática, da qual fui protagonista, além de ter sido o primeiro civil Presidente da República depois do período militar. Na Presidência, tive a oportunidade de viver as relações Executivo e Congresso, desse recebendo total apoio, o que assegurou a convocação da Assembleia Constituinte que nos deu a Constituição de 1988. Creio ter ajudado o País a ultrapassar muitos de seus momentos difíceis.
O domínio do dinheiro, senhor da corrupção, corroendo os Poderes está a merecer de todos um combate sem quartel, capaz de assegurar a moralidade pública, mas não somente com a ação penal, mas com um comportamento político mais austero, como antigamente existia. O caminho do sucesso político era a correção, a austeridade e o preparo — a ignorância sempre foi aliada dos malfeitos e da corrupção. E essa mácula ataca a classe política desde as bases fundamentais. Até mesmo Péricles, que imortalizou os princípios da Democracia em sua Oração Fúnebre, enfrentou as calúnias políticas de seus opositores e teve que defender a integridade do ouro da estátua de Atenas!
A Democracia não é atacada somente pelo desejo da tomada do poder, mas também pela corrupção generalizada.
O Nada e o Tudo
Pensando no Trump, no Netanyahu, no Mojtaba Khamenei (o filho do Khamenei que está aí), no Maduro, no Putin, no Milei, no Santiago Peña (que quer atirar no Brasil) e em todos os ilustres perturbadores das nossas cabeças, resolvi sonhar com o mundo futuro, com paixões, sonhos, poetas e heróis, que virá depois de passarmos pelos robôs e pelas máquinas — coitadas delas, que não sonham nem pensam, mas pelo menos estão livres da maldição dos fazedores de guerra! —, e escrever uma reflexão sobre a confusão do mundo atual. Principalmente, do mundo de cá.
Como uma vez presenciei o Carlos Lacerda que, sem assunto, me disse que ia falar sobre os animais em sua coluna, eu, ao contrário, com muito assunto, decidi não falar sobre nada disso, mas, ao mesmo tempo, refletir sobre tudo.
Assim começo este artigo de hoje.
Deus poderia ter feito o mundo sem que o homem necessitasse de construir nada para melhorá-lo. Todas as coisas no lugar certo, todos os homens sem o dilema entre o Bem e o Mal. Era o que tinham Adão e Eva, os primeiros e os últimos seres a provar a utopia ecológica.
Foi por isso que Rousseau e Malherbe, em momentos diferentes, viram o selvagem feliz e a beleza de viver num mundo sem ambições. Triste engano. Adão, Eva e os índios que foram batizados em Notre Dame, deixando Paris de mais de 400 anos atrás excitada, vendo seres de outros mundos e estrelas, tão cheios eram de vaidade quanto os poetas de França.
Deus fez a obra da natureza de uma matéria convulsa, em contorções permanentes, de seres nascendo e morrendo, de gases que se combinam e destroem, de gente à feição do Criador, mas a alma dividida com o Diabo. E provou com as próprias Escrituras, quando aludiu ao fato da tentação de Cristo pelo demônio. O que diz o demônio a Cristo?
— Dar-te-ei todos os prazeres da Terra, desde que me entregues tua alma.
E mostrou-lhe do alto do monte o mundo e suas seduções. Ora, argumentou o Padre Vieira, se o Diabo oferecia o mundo, era porque este era dele.
Mas o Criador não fez nem o mundo, nem o homem perfeitos justamente para que este participasse da obra da criação. Escondeu-se na fé para dar ao homem o maior de todos os seus bens: a liberdade. A liberdade de construir o mundo e de descobrir o caminho da virtude, dividido entre o bem e o mal.
Chegamos ao fim da História e ao começo de outra época. Já se pode ver o mundo do futuro, interdependente, sem fronteiras, com o conceito de soberania desmoronado em favor do ideal universal da sobrevivência da própria humanidade. Um mundo da informática, em que ninguém precisa sair de casa, lugar onde se trabalha, diverte, dorme, administra e reza. Tudo nas telas coloridas, no gingado dos robôs. Não haverá mais mistérios. Tudo se sabe, desde o conteúdo da partícula fundamental da matéria, raiz do universo, até a previsão de todos os fenômenos e do futuro. Não faltará a viagem ao interior da alma humana e a construção de seres sintéticos, sem necessidade dessa coisa de amor e sexo.
Nada mais terrível e aterrador do que a visão desse mundo triste, sem ideias, sem Deus, sem a liberdade de escolher entre a virtude e o pecado.
Não nos entreguem ao mundo frio das máquinas. Vamos continuar na aventura de um mundo feito com o suor do homem, o trabalho, o emprego, a inteligência, o idealismo, os heróis, os mártires e os poetas.
Assim é a vida.
Lembro aqui o poema do meu querido amigo Bandeira Tribuzzi, o grande poeta maranhense, que escreveu estas palavras em seu “A máquina do mundo”.
Pelos campos do mundo, o coração,
menino a quem de novo concederam
a alegria de sua condição,
irá cantando o canto que esqueceram
aqueles que sozinhos caminhavam
e, perdidos no mundo, estiolavam
a alegria — futura rosa rubra:
do silêncio de outono enfim desperta,
a congregada força humana obscura
vai tecer a futura primavera!
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