José Sarney

Senado e querer bem

 

Eu, ultimamente, tenho sofrido muito quando ouço ou leio notícias sobre a atual situação do Senado, Casa onde passei grande parte da minha vida: 40 anos. Sou o político que mais tempo, durante a República, exerceu mandatos eletivos e, se incluirmos o Senado do Império, que era vitalício, fico empatado, como Senador, com o Visconde de Suassuna, Francisco de Paula Cavalcanti e Albuquerque, Senador no Império por 40 anos, de 1840 a 1880. Muito tempo ali também passou o Marquês de Muritiba, da Bahia, 38 anos.

 

Por 61 anos, exerci mandatos eletivos: Presidente da República por 5 anos; Senador por 40 anos, tendo sido, por 8 anos, Presidente da Casa; Deputado Federal, 12 anos, desde 1955; governador do Maranhão, 4 anos e 6 meses. O Marquês de Abrantes, no Senado do Império, sabendo que os Senadores só perdiam o cargo pela morte, certa vez, numa longa discussão no plenário, disse uma frase que eu gostava de repetir: “Nada de brigas, lembremos que temos que viver juntos a vida inteira.”

 

Mesmo assim, o Duque de Caxias, quando ferido em sua honra por uma ironia de Zacarias de Góis, que o acusava de ter trazido do Paraguai um cavalo e uma égua, desrespeitando o regulamento, que permitia somente uma montaria, desembainhou a sua espada. Esse fato até hoje é citado como perda de paciência por aquele que é o Pacificador, Patrono do Exército Nacional.

 

Na presidência dessa Casa Legislativa, sempre pautei minha gestão com os olhos no futuro e, como dizia o Padre Vieira, no “futuro do passado”. Ao assumir meu primeiro mandato naquela Casa, em 1971, juntei-me ao grupo que fundara o Instituto de Pesquisas da Realidade Brasileira e, tendo sido escolhido o Presidente de sua Comissão Executiva, transformei-o em Instituto de Pesquisas e Assessoria do Congresso (IPEAC), que deu grande contribuição aos trabalhos técnicos legislativos — podendo, como fez, requisitar os principais pensadores brasileiros dos temas relevantes do nosso País em auxílio ao exercício do mandato dos Senadores.

 

Para que se tenham um exemplo do nosso trabalho no IPEAC, basta dizer que nos dois primeiros anos realizamos 2.914 trabalhos especializados e, em 1973, já chegamos a 7.669 contribuições ao Legislativo. Havia um grande esforço para implantarmos uma abordagem que extrapolasse a contribuição individual ao parlamentar, elevando-a para um nível de apoio técnico aos subsídios da Instituição e, ao mesmo tempo, fizemos do nosso Senado um fórum de debates no IPEAC.

 

Dessa ideia, nasceu a criação do quadro de Consultores do Senado Federal, que até hoje é uma referência no Serviço Público do País, ocupado por grandes inteligências e capacidades, sendo seu concurso um dos mais exigentes de toda a Administração Pública brasileira.

 

O que me impulsionou na direção do IPEAC foi a necessidade de darmos aos trabalhos do Senado, principalmente aos do Plenário, o domínio de temas e discursos exemplares, cujos subsídios eram garimpados nas maiores capacidades científicas do Brasil.

 

Assim, embora o Golbery tivesse dito aquela frase irônica de que “quem quisesse guardar um segredo o colocasse nos Anais do Congresso Nacional”, digo que quem analisar os Anais do Senado daquele tempo encontrará os trabalhos mais competentes de nossa História Republicana, debates relevantes dos temas sujeitos ao Plenário do Senado, necessários para fazer face à situação de declínio político que, naquela época, vivia o Congresso, sujeito a uma vigilância dos militares que governavam o País.

 

Com a minha visão de modernidade, em companhia de Ney Braga e Carvalho Pinto, em uma comissão sobre a necessidade de informatização da Casa, quando este assunto ainda engatinhava no mundo, sugerimos ao então Presidente da Casa Petrônio Portella — que aceitou nossa ideia — a criação da Secretaria de Informação.

 

Lembro-me de que o Ministro Mário Henrique Simonsen me disse que, quando fora convidado para Ministro da Fazenda pelo Presidente Geisel, este iniciou e deu curso à sua conversa, quase uma inquisição, tendo à mão várias conferências do IPEAC por nós publicadas, debatendo soluções sobre a economia nacional.

 

Quando era Presidente da República, procurei o Ministro Néri da Silveira, então Presidente do Superior Tribunal Eleitoral, para deflagrarmos o processo de informatização da Justiça Eleitoral, a começar pelo título eleitoral, que ainda utilizava o modelo velho, reminiscência da primeira República. Esse passo foi o primeiro na busca do sistema da urna eletrônica, exemplo mundial.

 

Para mim, o Senado Federal foi, juntamente com o Conselho de Estado — como é considerado por vários de nossos historiadores —, um dos responsáveis pela integridade nacional e pela formação do País. Essa Casa legislativa foi um celeiro de grandes homens públicos, exemplares no civismo e na construção de instituições que remontam à formação da nacionalidade.

 

Lembro ainda, ao término dessas linhas, que, no Senado, criamos, na área de informática, o Siga Brasil, a Ouvidoria, a Página de Consolidação Temática, o Núcleo de Estudos e Pesquisas da Consultoria e, para transparência, TV Senado, Jornal do Senado, Agência Senado, o Alô Senado, o Data Senado, o Programa de Visitação, o Portal de Notícias, conjunto que atende a milhões de brasileiros.

 

Modernizamos o Senado, que possui o melhor quadro de funcionários do Brasil. Tenho orgulho dessas grandes realizações das minhas presidências, ponto de referência de modernização e informatização dessa parte do Poder Legislativo.

 

Por isso, fico constrangido com as notícias cotidianas sobre aquela tradicional Casa, mas cheio de esperança e sonho de que o velho Senado ultrapasse essas críticas e volte a ser o que sempre foi: um suporte para o desenvolvimento do nosso país.

 

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4 de julho: data Mundial

 

Amanhã, dia 4 de julho, os Estados Unidos comemoram 250 anos da declaração de sua Independência. Digo que é uma data significativa da História do Mundo. Não pelo que diz respeito à separação de um país de outro, criando uma nova Nação, mas pela sua Declaração de Independência, na qual foram fixados os conceitos de Direitos Humanos surgidos na Revolução Francesa e tornados objetivos e profundos, de modo a deflagar uma Revolução mundial que consolidou os ideais de liberdade. Não resisto a transcrever o preâmbulo dessa Declaração, aprovado na sessão do II Congresso Continental, em Filadélfia, no dia 2 de julho de 1776:

 

Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos Direitos inalienáveis, entre os quais estão a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade. Que, para garantir esses direitos, governos são instituídos entre os Homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados. Que, sempre que qualquer Forma de Governo se torne destrutiva desses fins, é o Direito do Povo alterá-la ou aboli-la e instituir um novo Governo, lançando seus fundamentos sobre os princípios e organizando seus poderes das formas que lhes pareça mais adequada para proporcionar sua Segurança e Felicidade.

 

Essa declaração foi escrita originalmente por Thomas Jefferson, esse homem extraordinário, que tanta contribuição e exemplo deu à política e aos políticos do mundo inteiro durante estes dois séculos e meio. O Presidente Kennedy, quando fazia uma homenagem aos premiados do Nobel, reunindo grandes nomes da cultura, na Casa Branca, em Washington, disse: “Hoje é o dia em que esta Casa recebe a maior quantidade de inteligência do mundo, exceto quando, como Presidente dos Estados Unidos, Thomas Jefferson meditava sozinho nesta sala.” Essa era a avaliação da grandeza desse homem.

 

No dia 28 de junho de 1776, Jefferson submeteu sua proposta de declaração a John Adams e Benjamin Franklin, seus companheiros de comitê de redação. Desde o dia 7 de junho o Congresso discutia a proposta de Richard Henry Lee de que fosse feita uma declaração de que os Estados Unidos da América eram independentes. Aprovada no dia 2 de julho, pelo voto unânime de 12 delegações — Nova York se absteve —, o texto foi aprovado com cortes.

 

O Congresso retirou um quinto do texto de Jefferson, inclusive um que denunciava o rei pelo tráfico de escravos e pela escravidão. Pelo resto da vida Thomas Jefferson lamentou essa poda e responsabilizava essa decisão por muitos dos problemas futuros dos EUA.

 

Lembro que no Brasil José Bonifácio também lamentava que a nossa independência não tivesse resolvido o problema indígena e o da escravidão. Ele explicava que o primeiro passo era acabar com a política de enfrentamento que existia e a sangrenta e sistemática matança dos índios. A relativa à escravidão também não era menor, responsável pelo sofrimento e pela constante tortura dos pretos, além da política de considerá-los “coisa”, objeto de propriedade; propunha a emancipação progressiva, uma reforma agrária para lhes dar condições de vida autônoma e sua educação.

 

José Bonifácio concluía seu pensamento dizendo que “nossa independência não se completou porque não resolveu estes dois problemas”.

 

Mais sobre a data de 4 de julho, 250 anos da Declaração de Independência americana: sabemos que, a partir dessa data, saiu do continente americano, do Novo Mundo, o país que iria divulgar os ideais de liberdade, dos direitos humanos, como apanágio de todos que desejam viver livres e que abominam todos os autoritarismos e regimes de força.

 

Por isso lamentamos a presidência atual de Donald Trump, rompendo com a missão messiânica de sua pátria, ao mudar a destinação dos Estados Unidos, seu histórico exemplo de liberdade, de respeito aos direitos humanos e pregar a negação desses princípios que mudaram o mundo e continuarão mudando.

 

Nossa admiração pelos Estados Unidos, por esses ideais que nos inspirarão permanentemente, se sustenta na esperança de que estas distorções atuais passarão.

 

Ao finalizar estas linhas não posso deixar de dizer que minha mãe nasceu em 4 de julho de 1911 e amanhã completaria 115 anos — dela permanece uma saudade que não passa e um amor de mil anos.

 

Mundo Aliviado

 

Há sempre esperança de renascimento da alegria. Depois das tristezas de todo dia, nos levando muitas noites à lamentação e ao choro, chega o mês de junho com a alegria do nosso povo nos folguedos populares do Bumba meu Boi ­─ a nossa ópera popular que é encenada durante meses, nas comemorações do nosso São João ─, trazendo alívio à nossa alma.

 

São Luís é uma terra que bem merece ser chamada de Ilha do Amor. Melhor seria se fosse do Amor Demais. Falo do nosso amor a sua história e a sua gente, a seu espírito, a sua beleza.

 

Para parodiar Hemingway, que dizia que “Paris é uma Festa”, eu diria que “São Luís é um amor”. É para mim uma terra de lembranças que estão associadas à minha mocidade.

 

Mas naquele tempo a cidade não era a Ilha do Amor, era a Ilha Rebelde, rebelde pelas heranças do passado que a fez resistir a todas as ocupações, dos franceses, dos holandeses e dos portugueses, e a todos os governos, para ser uma cidade sem amarras, bem brasileira, na miscigenação das raças, em que negras magras e elegantes tiveram forte influência.

 

Mas quero falar só da alegria, que chegou em maio, quando já se começa a esquentar os tambores e ensaiar as brincadeiras que fazem do nosso São João a festa mais popular da região.

 

Não se sabe bem como começou, de onde veio, mas sabe-se como foi absorvendo o momento em cada ano e incorporando novos estilos e outras brincadeiras — como são chamadas as diversas apresentações.

 

Em junho, aparecem os ventos gerais, em que os dias vão se transformando de chuvosos para de sol aberto, e as noites são só os sotaques dos bois, do Bumba meu Boi, misturando os caboclos de paus de fita, os índios de cabeças de pena, as “catirinas”, os “pais-franciscos” e, por fim, os “bois”, de couro, de miçangas, com figuras religiosas bordadas por mãos de fada, como aquela “Neusa”, cantada nas toadas de matraca e de pandeiros gigantes: “foi Neusa quem bordou”. E os cantadores, heróis do nosso povo, que aqui deixaram até provérbios como este: “como o Boi de Tolentino, só fama”, quando a decadência chegava, ou com a velhice ou com a perda do prestígio e beleza.

 

E ainda o Tambor de Crioula, das saias rodadas e das “pungas sensuais”. Tudo isso misturado com os fogos, os busca-pés, as danças, o cacuriá e o trejeito das mulatas.

 

Na passagem para o século XVIII, chegaram aqui os açorianos. Que gente era essa com essa vocação inevitável de vaqueiro? Eram os migrantes da Ilha dos Açores, essa gente ainda hoje devota ao gado, ao boi, que enfeitam quando vai morrer. Para onde foram, levaram sua cultura, que no Brasil deu várias formas de festa, inclusive o nosso Bumba meu Boi, o Boi de Mamão de Santa Catarina e o Boi Bumbá do Piauí. E o boi foi avançando e criando uma cultura muito particular.

 

Agora, o Bumba meu Boi do Maranhão foi reconhecido pela Unesco (o maior órgão de cultura das Nações Unidas), em dezembro de 2019, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. A entrega oficial ocorreu em agosto de 2025. Assim, o Maranhão, com justa autoridade, reivindica ser a Pátria Brasileira do Bumba meu Boi.

 

A verdade é que em nenhum outro lugar ele se apresenta com uma riqueza musical — cancioneiros, sotaques, fantasias, instrumentos, variedades de apresentação — como a de nosso Estado. Até mesmo os cordões que existem em outras partes do nosso país foram levados por maranhenses, conhecedores do auto e do ritmo desse folguedo popular.

 

Nada mais bonito, nada mais autêntico, tradicional e puro.

 

No São João do Maranhão está a beleza dos folguedos populares dos nossos antepassados, nessa magia do Bumba meu Boi trazendo conforto à nossa alma.

 

Entre fogos e festas brincamos todos. Lembro ainda hoje as noites em que todos nós, Tribuzzi, Bogéa, Evandro, Luís Carlos, Sílvio, Cadmo, Floriano, Figueiredo e eu passávamos a noite acompanhando, com matracas na mão, o Boi da Maioba.

 

A alegria das festas de São João deve substituir a tristeza da Guerra, como no tempo da Guerra do Canal de Suez, no Egito, em 1956, quando nos bailes de carnaval se colocavam um grande cartaz: “Em Suez, se briga; aqui se brinca.”

 

Em junho, no mês do Bumba meu Boi, vamos todos dizer:

 

Faça a alegria, os fogos e as fogueiras das festas; não faça a guerra!

 

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Copa Brasil

 

Nunca fui fanático por Copa do Mundo, mas sempre um torcedor engajado do Flamengo. Com meus 96 anos de vida, talvez eu seja o mais antigo torcedor do time, ou um deles.

 

No ano em que nasci, 1930, a FIFA (Federal Internacional de Futebol) realizou a primeira edição da Copa do Mundo de Futebol. Mas a Copa de que até hoje me recordo foi a de 1950. Eu viajava pela segunda vez de avião e ia, pela primeira vez, ao Rio de Janeiro para participar do Congresso Nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes), como representante do Maranhão. O avião em que viajei era o Aero Commander 520, um avião de transporte leve do pós-Segunda Guerra, cujas aeronaves posteriormente foram transformadas em cargueiros leves por empresas de usados. Esse avião saía de São Luís, no Maranhão, às cinco horas da manhã. Pousava em Carolina, seguia para Porto Nacional e, em seguida, para Formosa, em Goiás. De lá, o avião partia rumo a Belo Horizonte e terminava a rota no Rio de Janeiro, aonde chegava às seis da tarde. Ao sobrevoarmos o Rio de Janeiro, o comandante comunicou de sua cabine que o Uruguai acabara de marcar o gol que o faria Campeão do Mundo, derrotando o Brasil. Eu não entendi bem o que aquele anúncio significava, pois estava exausto após um dia inteiro nesse avião, que não tinha pressurização e balançava muito. Com todos os passageiros enjoados e ainda vomitando, o cheiro na aeronave estava terrível. Nosso mal-estar físico se misturava com o do medo de quem viajava de avião pela primeira vez. Ao saltar, quase mortos, passageiros do Norte e do Brasil central eram trapos humanos.

 

Depois, meu padrinho, o Desembargador do Rio Ivan Castro de Araújo e Souza — primo do meu pai —, explicou-me a tragédia nacional que aquele gol significava. Assim, só ao longo do tempo pude avaliar o impacto real daquela derrota para a história do nosso futebol.

 

Outra Copa de que não posso me esquecer é a de Guadalajara, no México — um dos países onde se realiza a atual —, na qual o Brasil conquistou o título, pela terceira vez, de Campeão do Mundo: quando Presidente da República, visitei o México e fui a Guadalajara. O povo de lá, ainda tomado de amor pelo Brasil, ao ver passar meu carro, gritava: “Pelé, Pelé, Pelé.”

 

Agora vamos concorrer a uma nova Copa do Mundo, sem notáveis jogadores; a figura depositária de nossas esperanças é a do treinador Carlo Ancelotti, um italiano simpático, experiente e inspirador de confiança. Particularmente, gostei de ele ter convocado o Neymar, que ainda é uma legenda do futebol mundial.

 

Mas eu sempre serei um irredutível otimista em relação ao Brasil: em qualquer setor em que o país esteja envolvido, nele acredito e nunca desaparece em mim a esperança. Para abalizar meu otimismo, tenho o meu exemplo e agradecimento — porque gratidão reservo a Deus, com a minha fé inabalável: acredito em Sua proteção como responsável por meu destino e minha vida. Veja o meu exemplo: nascido em uma pequena cidade do interior do Maranhão, sem família rica, filho de uma retirante da seca do Nordeste e de um pequeno promotor público, cheguei a Presidente da República cinco anos após tornar-me membro da Academia Brasileira de Letras, o que minha mãe considerava ser meu maior título.

 

Assim, espero e desejo que saiamos dessa Copa com o Hexacampeonato, graças à capacidade do Brasil de superar-se, à sua criatividade e ao seu espírito de luta: jamais desistir, sempre caminhar, nunca retroceder. Somos o único país do mundo cinco vezes campeão, reconhecidamente detentor de um estilo próprio, chegando a criar o que se chamou futebol-arte.

 

Esta será uma Copa singular. Três países envolvidos, México, Canadá e Estados Unidos, com todas as equipes participando e populações deslocadas de todos os lugares do mundo a torcer pelo seu país. A nota desagradável foi o tratamento do governo do Presidente Trump ao árbitro da Somália Omar Artan: eleito o melhor árbitro africano em 2025, mas impedido de apitar nos Estados Unidos com seu passaporte apreendido e obrigado a regressar à sua pátria. É um gesto muito próprio do mandatário americano, mas desnecessário.

 

Que venha o hexa, que o Brasil brilhe e que o caneco, como popularmente se chama a taça, repouse em nosso território, para alegria do povo brasileiro.

 

Caso não tenhamos vitória, não devemos responsabilizar nossos jogadores. Eles vão dar o melhor de si pela nossa bandeira e pelo canarinho.

 

Esperança – Hexa Brasil!

 

 

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Estou no Block do Tigrinho

 

Estou no Block do Tigrinho

 

Tenho alergia por jogo de azar. Talvez tenha sido influenciado por um caso que ouvi de minha avó, na infância, sobre um parente, gerente de uma das lojas das Casas Pernambucanas. Muito sério e honrado, contraiu o vício do jogo e, depois de perder tudo em apostas, matou-se para não ver sua reputação destruída.

 

Minha aversão por jogo de azar é total. Nem bilhete de loteria oficial me seduz. Se Deus fez tanto por mim, eu não vou pedir a Ele que me faça ganhar dinheiro sem trabalhar, acertando em loteria ou qualquer outro jogo. Nunca entrei num cassino nem ao menos participo da diversão de pife-pafe ou pôquer. Nem por isso atiro pedra em quem o faz para divertir-se sem dinheiro.

 

Com esse espírito fui alimentando uma revolta com o que está acontecendo com o Brasil, transformado num grande cassino dominado pelo jogo. Isso causa imenso sofrimento à população, vítima de exploradores, a exemplo das chamadas “bets”, cujas sedes estão no exterior. A verdade é que o Brasil está drenando o suor do trabalho e a poupança do seu povo, gerando miséria e destruindo famílias para o benefício de espertalhões estrangeiros. Eles acumulam grandes fortunas lá fora, além de explorarem muitos outros países onde se infiltraram. E ninguém sabe ao certo como, e com quais métodos, aqui se instalaram.

 

A CPI do Senado apurou que o setor de apostas retirou cerca de R$ 143 bilhões do comércio brasileiro num período de dois anos, enquanto esquemas criminosos, liderados por influenciadores também causaram grandes prejuízos, segundo publicações da Folha de S. Paulo e do jornal O Globo.

 

Recentemente, apareceu o tal do “tigrinho”, jogo online que se transformou numa praga nacional.  Milhões de pessoas já estão totalmente viciadas, arrastadas para essa ratoeira tecnicamente armada. No princípio, com o claro objetivo de enganar, as vítimas são atraídas por ganhos fáceis que logo são perdidos, já que os algoritmos foram feitos para extorquir e sugar, levando os jogadores à miséria, devorados pelo tal tigrinho.

 

Bastava a alegria do futebol, o mais democrático dos esportes. Nos estádios, onde todos são iguais, o país não tem preconceito de raça, religião etc. O que divide é apenas a paixão pelo seu time, manifestada pelos hinos de cada um, pela camisa e pelo grito de guerra. Muitas vezes há excessos, o que é condenável, porque o futebol é amor e não violência: amor gratuito, paixão hereditária, que se transmite como um bem de família. O Flamengo é intocável na minha, e ser torcedor dele é uma de nossas características, embora genros e noras tenham trazido outras bandeiras e times, que aumentaram a disputa saudável, o que anima a torcida durante os jogos.

 

Com grande satisfação, vejo que não estou sozinho entre os que se posicionam contra o tal do “tigrinho” e contra essa jogatina que tomou conta do nosso país, trazendo graves reflexos para a economia.

 

Quero louvar o Block contra a jogatina, a começar pelo “tigrinho”. Block pode significar também bloco, numa tradução bem brasileira e popular. Mas a sua verdadeira ideia é bloquear, impedir, barrar — e eu acrescento uma pessoal, extinguir.

 

Assim venho me colocar no Bloco de Chico Buarque, do meu colega da Academia Brasileira de Letras, Gilberto Gil, de Caetano Veloso, Luisa Arraes, Djavan, Marieta Severo, Paulinho da Viola, Camila Pitanga, Alcione e de todos os artistas e cidadãos comuns como eu, poeta bissexto, e de padres e frades que abominam os jogos de azar, porta de crimes e pecados.

 

Faço aqui o meu apelo para conscientizar o povo brasileiro contra essa epidemia da jogatina e das “bets” predatórias. A Confederação Nacional do Comércio mostra que 1,8 milhão de brasileiros se endividaram por causa das apostas online em 2024 — embora ainda não tenhamos dados consolidados de 2025 —; e o Levantamento Nacional do Álcool e das Drogas, que 1,4 milhão de brasileiros apresentam transtornos associados às apostas. Os brasileiros, segundo o Banco Central, estão gastando entre 20 e 30 bilhões de reais por mês em plataformas online.

 

Bendito o jogo de bola, esportivo, de graça, no campo, nada online. Que nos traga a extinção do “tigrinho” e de todas as apostas. E a vitória no campo.

 

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Bruno e a Jornada 6×1

 

Meu bisneto, Bruno, de 12 anos, me surpreende sempre com perguntas de gente grande, já que ele tem acesso, pela leitura de jornais e revistas, à pauta política. Foi assim que, de supetão, ele me perguntou:

 

— Meu bisavô, o senhor é a favor ou contra a jornada de trabalho cinco dias?

 

Eu me surpreendi, mas pensei que, com a internet e as redes sociais, os problemas maiores e menores invadem a sociedade alcançando todas as camadas sociais e faixas etárias, chegando mesmo à quase meninice. Na verdade, a era digital apressou o desenvolvimento cognitivo das crianças, que passaram a amadurecer seus questionamentos de maneira mais célere.

 

No Japão, o uso do ensino pela televisão visa, sobretudo, equalizar o nível de aprendizagem das classes. Assim, os alunos que não acompanham o ritmo regular, apresentando algum atraso no aprendizado são matriculados em turmas que utilizam métodos visuais, de modo a acelerarem o aprendizado e alcançarem o nível da classe da qual foram retirados.

 

Na verdade, comecei a divagar e já me desviava da curiosidade de meu bisneto, que percebeu minha esquiva ao não querer impor-lhe uma posição. Ele insistiu:

 

— Meu bisavô, o senhor não respondeu à minha pergunta. Diga-me se o senhor é contra ou a favor da diminuição do tempo de trabalho para cinco dias.

 

Eu, então, repliquei.

 

— Pois bem, se você quer saber, não é para orientar-se, mas para conhecer minha opinião. Então me diga primeiro: qual é a sua?

 

Ele retrucou: — Eu sou a favor.

 

— Por quê?

 

— Porque é mais justo.

 

— O que é ser justo?

 

— Trabalhar menos — ele respondeu.

 

Vi, então, que sua opinião era simplista, sem entrar, em razão da sua pouca idade, no âmago da questão.

 

A verdade é que eu também sou a favor, não só por motivos de justiça, mas por outros de natureza social.

 

Esta discussão tomou conta do país. Mas devo confessar que o debate realizado pelo Correio Braziliense foi o mais abrangente de todos: foram bons e competentes os debatedores ao dissecar os prós e contras das posições. O Ministro Gilmar Mendes foi brilhante em suas conclusões de que “O desafio está menos em escolher entre proteção social e dinamismo econômico e mais em compatibilizar os dois setores.”

 

Penso que o Projeto de Emenda Constitucional nº 221/19, aprovado pela Câmara dos Deputados, demonstra a capacidade de articulação e o prestígio do Presidente Hugo Motta ao reduzir a resistência a apenas 19 votos contrários. E o resultado mostra que as premissas do Ministro Gilmar Mendes foram plenamente recepcionadas, ou seja, o equilíbrio entre o social e o econômico prevaleceu.

 

A proposta inicialmente buscava a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, mas avançou no Congresso como base para a instituição da jornada de 40 horas semanais, com dois dias de repouso remunerado (fim da escala 6×1), alterando o ar. 7º, XIII e XV, da Constituição Federal.

 

Nenhum assunto debatido recentemente teve tanta participação da comunidade e da mídia, nem seminários com tamanha amplitude de debatedores, quanto este.

 

Recordo que, quando comecei a implantar o sistema digital e a internet no Senado Federal, falei que um dia o desenvolvimento da informatização nos levaria de volta à democracia direta, aquela que, nos primórdios do regime democrático, era o sistema praticado em Atenas.

 

O nosso grande historiador João Lisboa — que Capistrano de Abreu, seu concorrente como escritor desse gênero literário, considerava o melhor historiador do país e dono da melhor escrita — tem um livro, intitulado Jornal de Timon, em que se dedica às eleições na Antiguidade. Nele, estuda os diversos métodos eleitorais, desde o Palmômetro (Aplausômetro), aquele sistema de aferição de resultados pela intensidade das palmas na praça pública, até outras formas que buscavam a democracia direta. A internet, no futuro, fará isto.

 

Mas, para responder ao meu bisneto Bruno, manifesto minha opinião de que sou favorável à diminuição dos dias de trabalho, como já ocorre em muitos países.

 

Assim, vou encerrar este artigo e gozar de um pouco de preguiça que eu não conhecia durante toda a vida, mas de que agora desfruto em minha velhice, porque ninguém é de ferro.

 

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Os anjos estão de volta

 

Meus queridos leitores, há dois dias, no Senado Federal, com uma Mesa prestigiada pelos Presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados, Davi Alcolumbre e Hugo Motta, relancei três romances meus, publicados há alguns anos, atendendo à sedução do convite da Editora Ciranda Cultural, pelo selo Principis, e ao meu desejo de que as novas gerações conhecessem um pouco da minha literatura, com essa vontade que é a de todos os escritores: ser lido.

 

Foi assim que agora reeditei essa coletânea com três romances, “O dono do mar”, “Saraminda” e “A duquesa vale uma missa”, pois me veio à cabeça que o romance carrega a temática maior, porque é o romancista que dá movimento à experiência humana na Terra.

 

Fiquei tão emocionado e envolvido no trabalho que revivi as entrelinhas que me ajudaram a construir meu mundo literário. Nele, o romantismo grita o que a minha alma nunca quis calar.

 

Bem sabemos que o romantismo foi um movimento que surgiu na Alemanha no século XIX e influenciou todas as esferas das artes e da cultura, transformando-se até em estilo de vida. O mundo ali ganhava outras cores, o novo pedia passagem. E passava.

 

Chegou a outros países da Europa e fez nascer em seu bojo grandes nomes. Quem não se recorda de Lorde Byron e Shelley, na Inglaterra? Estes ingleses sabiam extrair da vida o suco que ainda nos oferece em suas obras primas — e ele é amargo e doce na medida exata. Na França, Madame de Staël, sistematizou esse novo credo e o difundiu para novas terras. Madame de Staël, sim, a que suscitou suspiros do grande pianista polonês Frederico Chopin. De Portugal chegou ao Brasil.

 

Na música, nas artes plásticas, na arquitetura, na literatura, o romantismo exerceu sua influência. Criou até um estilo de vida, nos homens, nas cidades. Passou a ser quase um estado de espírito: o amor idealizado quase sempre inalcançável.

 

O credo romântico presta culto aos “suspiros e saudades”, à idealização do Amor (com maiúscula), a um certo tipo de sofrimento compadecido. Ele chega a ser uma visão de mundo, um sistema de valores, uma ideologia. O grande expoente da poesia romântica é Lamartine, depois surgiram outros, exprimindo-se em diferentes idiomas.

 

No Brasil, o primeiro romântico foi Gonçalves de Magalhães, que publicou uma obra, em 1830, com o sugestivo título de Suspiros e saudades e, numa incursão exótica, acompanhou o duque de Caxias, sendo o cronista da Balaiada.

 

Mais do que escola ou corrente artística, o romantismo é um modo de ser e de exprimir-se, chega a ser uma ideologia que se imprimiu em tudo que somos, trazendo reflexos até mesmo na política. Nos anos 60, os movimentos de retorno à natureza, o culto ao natural, a busca de viver em pequenas comunidades longe dos grandes centros urbanos, as “aventuras” de um Che Guevara, que apregoava a revolução sem perder jamais a ternura — todas essas manifestações têm um certo sabor romântico.

 

Depois do auge dessa onda romântica, viveu-se a visão de um mundo que abandonava esses valores e caminhava rumo à máquina para abandonar a Terra e ser passageiro de naves espaciais em busca de novos mundos. Júlio Verne dominou essas visões. Chaplin, em Tempos modernos, sintetizou a predominância da máquina sobre os homens — mas ele mesmo era o mendigo a entregar aquela flor que é mais do que uma flor, em Luzes da ribalta.

 

Sonhou-se até com a morte de Deus, no homem-senhor dominando todos os saberes.

 

E o mundo mudou. Agora é outro com a rota da máquina e da tecnologia de ponta, das redes de computador, da robótica, da telemática, que provoca transformações nas profundas nas relações humanas. Hoje é possível uma pessoa ter, com a permissão de Roberto Carlos, um milhão de amigos sem nem mesmo botar os pés fora de casa.

 

É a tecnologia em tudo: o homem está interligado em redes eletrônicas, mas vive na solidão. E volta-se para a ecologia, consciente de que a preservação do meio-ambiente é essencial para sua própria sobrevivência.

 

Mergulhando no cosmos, o homem aprofunda seus conhecimentos sobre a origem do universo, como quem busca o próprio Deus. E é mesmo uma nova busca de Deus.

 

Mas se a religião oferece a salvação; a Arte, a compreensão. E na literatura a nossa alma se aconchega.

 

E continuamos sonhando com a Paz e outras ternuras. Somos diferentes, mas ainda os mesmos: românticos, sonhadores.

 

Que os Anjos digam: Amém!

Carta de amor à urna eletrônica

 

Com a maior felicidade assisti ao discurso do Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, com o elogio da urna eletrônica, vinculando sua existência, ao longo do processo de informatização das eleições, ao fortalecimento da democracia, com a consolidação da pureza dos escrutínios eleitorais.

 

Eu, por conta da bondade de Deus, que me assegurou vida longa, e da minha carreira política, que marcou o meu destino, acompanhei todo esse processo de informatização e, muitas vezes, ajudei a modificar a legislação eleitoral: no princípio, muito participei da advocacia eleitoral, quer como advogado, quer como delegado de partido.

 

Comecei como candidato a deputado federal, em 1954, com as cédulas retangulares de papel, nas quais estava escrito o nome do candidato e o cargo a que pleiteava. Depois participei de eleições já com a cédula eleitoral distribuída pelos partidos, com um pequeno quadrado no qual o eleitor escolhia o seu candidato, cujos nomes figuravam na respectiva cédula.

 

As críticas a essa cédula eram muito fortes, pois possibilitavam muitas distorções e fraudes. Então, nós, da UDN — União Democrática Nacional, partido ao qual pertencia, com parlamentares de outros partidos, lutamos pela chamada cédula oficial, que nada mais era do que a cédula anterior, mas feita pela Justiça Eleitoral, por ela distribuída e entregue na seção receptora.

 

Mas o grande problema ainda era o da obtenção do título eleitoral, feito por iniciativa de candidatos e cabos eleitorais, que também providenciavam um retrato para os eleitores, um processo com alto custo. Basta ver que retratos de outros estados eram comprados para serem usados em títulos fantasmas, deformando o resultado das eleições.

 

Lembro que, no Maranhão, no Município de Parnarama, compraram retratos do Piauí e, esgotadas as possibilidades de criação de novos nomes de eleitores fantasmas, resolveram inventar uma família Kodak, o que foi motivo de muita chacota. Apareceram ali “membros da família” da marca da máquina de retrato, Kodak. Então: João Kodak, Maria Kodak, Joaquim Kodak. Eram tantos Kodaks que se pensou em levá-los para se habilitarem como herdeiros dessa grande indústria de máquinas de retrato!

 

No Parlamento, defendi o projeto de lei de modernização do alistamento eleitoral e a criação do Serviço Nacional de Alistamento Eleitoral, tendo como exemplo o Alistamento Militar que já existia, destinado a sanar essa válvula de fraude que engordava o eleitorado fantasma.

 

Em 1989, quando fui Presidente da República, com o Ministro Néri da Silveira como Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, incentivei-o a deflagrar um processo de informatização: ele começou esse trabalho e entregou-me o primeiro título eleitoral, que era igual a um cartão de crédito. Era um grande avanço e o pontapé que nos levaria à urna eletrônica. Esse projeto de urna eletrônica como meta final teve um grande avanço na Presidência do Ministro Carlos Veloso, que sucedeu ao Ministro Néri da Silveira. A primeira utilização de urna eletrônica, com o título já digitalizado, ocorreu em 1996. Naquele ano, como experiência, mais de 50 Municípios (com mais de 200 mil eleitores) já votaram nesse método. A utilização de urnas eletrônicas em 100% dos Municípios brasileiros ocorreu em 2000.

 

Desde então, a urna eletrônica consolidou sua presença e conquistou grande prestígio. Ela passou a assegurar eleições limpas e transparentes, simplificando grandemente o processo eleitoral. A apuração — que no velho sistema consumia muitos dias — passou a levar somente algumas horas. Desse modo, às dez horas da noite do dia do pleito, todo o Brasil já conhece o resultado das eleições — chorando os derrotados e soltando foguetes os vencedores.

 

A urna eletrônica é um instrumento de cidadania e liberdade: quando o eleitor está na cabine, só ele e aquela pequena máquina, sem a presença do cabo eleitoral e a pressão de coronéis, ele é o único dono de sua vontade.

 

Somente pude ser governador do Maranhão porque o Presidente Castelo Branco, por solicitação nossa, apoiou a ideia de que, antes da eleição, o TSE e o TRE do Estado fizessem uma revisão do eleitorado, numa comissão presidida por um ministro do TSE, garantindo a presença da Força Federal. Dessa forma, eliminaram-se 200 mil eleitores fantasmas, que votavam fraudulentamente e nem eram apurados, apenas somados aos mapas — único lugar em que esses eleitores viviam.

 

Então, pintaram no muro do cemitério de São Luís, em 1965, no dia da minha eleição para governador:

 

“Agradecemos ao TSE não termos de votar hoje. Agora descansamos em paz! Assinado: os mortos.”

 

Feita a eleição para governador, derrotei os candidatos do governo do Estado por uma larga margem de votos, constituindo o passo definitivo para a libertação do Maranhão de eleições fraudadas.

 

A urna sempre fez parte da minha carreira política, pois foi ela que me deu todos os cargos que ocupei, expressando a vontade do povo do Maranhão, do Amapá e do Brasil.

 

Apesar de ter a maioria esmagadora das pessoas como amigos, a urna eletrônica sempre teve inimigos. Contra ela, Brizola, o maior deles, que desejava o sistema anterior e voto impresso, e depois o ex-Presidente Bolsonaro.

 

Hoje a urna eletrônica é um exemplo mundial. Eu e quase a totalidade do mundo político só temos louvores para ela. Agora, mais velho, posso dizer que ela nos poupou de muitas mazelas que vivi e presenciei antes dela. Nas velhas urnas, de pano e de madeira, sempre havia denúncia de terem sido “emprenhadas”. A urna eletrônica continua virgem: ninguém maculou sua pureza.

 

No dia 13 de maio deste ano, a urna eletrônica completou 30 anos. Os técnicos que compareceram ao TSE para certificarem sua integridade saíram de mãos vazias, o que se mostrou ser uma grande conquista da democracia e da liberdade.

 

Parabéns ao Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Kassio Nunes Marques, pela sua defesa da urna eletrônica e pelas ideias do seu programa. Eu me congratulo com Vossa Excelência porque fui um dos lutadores pela modernização do processo eleitoral.

 

Minha urna, meu amor. Viva!

 

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Bumba Meu Boi

 

Quando maio aparece, no Nordeste é recebido não apenas como o mês das noivas, mas principalmente como o tempo que antecede o São João. E logo começam a esquentar os tambores e ensaiar as brincadeiras que fazem do nosso São João a festa mais popular da região. Não se sabe bem como começou, de onde veio, mas sabe-se como foi absorvendo o momento em cada ano e incorporando novos estilos e outras brincadeiras — como são chamadas as diversas apresentações —, de tal modo que as danças portuguesas estão sendo também apresentadas como folguedos populares do São João, principalmente no Maranhão.

Há por aqui um provérbio, que corre no linguajar do povo, que diz: “Abril, chuvas mil; maio, trovão e raio.” O certo é que, sem qualquer base científica, acontece aqui estes fenômenos meteorológicos. Eu aqui, nesta semana, fiquei perturbado com a grande quantidade de trovões e raios, e um deles me deu um grande susto, caindo num terreno bem perto da minha casa.

Mas do que eu quero tratar mesmo é do São João do Maranhão, que chega depois das chuvas e dos raios. É considerado pelos maranhenses como o melhor do País e, como só no Brasil esta festa é dominante, acrescentam: “É o melhor do mundo!”

Modéstia à parte, a verdade é que o Bumba Meu Boi do Maranhão — que é a cara do nosso São João — foi reconhecido pela Unesco (o maior órgão de cultura das Nações Unidas), em dezembro de 2019, como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Assim, o Maranhão, com justa autoridade, reivindica ser a Pátria Brasileira do Bumba Meu Boi.

A verdade é que em nenhum outro lugar ele se apresenta com uma riqueza musical — cancioneiros, sotaques, fantasias, instrumentos, variedades de apresentação — como a de nosso Estado. Até mesmo os cordões que existem em outras partes do nosso país foram levados por maranhenses, conhecedores do auto e do ritmo desse folguedo popular.

Vale citar que o Boi de Parintins — que tanto sucesso faz hoje no Amazonas, derramando-se pelo Brasil com o nome de Boi-Bumbá (nome como também é conhecido no Piauí) — foi levado por dois maranhenses. Hoje a festa está competindo com o Carnaval na famosa disputa entre os bois Caprichoso e Garantido. Já em São Paulo, no Centro Nordestino — fundado pelo saudoso Deputado José de Abreu e hoje administrado com grande sucesso por sua filha, a Deputada Renata Abreu, herdeira do talento realizador do pai —, também existe uma manifestação do Bumba Meu Boi, mantida por maranhenses. Em Brasília tinha, e ainda tem, o Boi do Teodoro, do falecido Teodoro, que eu conheci, a quem sempre dava apoio para realizar o Bumba Meu Boi na Ceilândia e no Núcleo Bandeirante, naquele tempo chamado Cidade Livre.

No Estado de Santa Catarina existe uma festividade chamada Boi de Mamão, que em nada se assemelha à nossa, embora também teria vindo do Açores, segundo a tradição local.

Muitos pesquisadores estudaram o tema, e Carlos Lima, talvez o mais minucioso deles, tem um trabalho profundo em que levanta todas as hipóteses da origem dos folguedos do boi. Certo é que os primeiros habitantes portugueses do Maranhão vieram dos Açores, aquelas ilhas lendárias e heroicas do tempo das navegações. Simão Estácio da Silveira, um propagador das riquezas maranhenses, escreveu um pequeno opúsculo para trazer colonos para esta terra: “Das terras que Portugal conquistou, o melhor é o Brasil / Mas o Maranhão é o Brasil melhor”. Nessa época, era Governador do Maranhão o sobrinho do Marquês de Pombal, Joaquim de Melo e Póvoas; governara o Grão-Pará e Maranhão, anteriormente, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, irmão do Marquês e, portanto, tio de Póvoas.

Mas o São João do Maranhão — o melhor do mundo! — já está ensaiando, rompendo as madrugadas com o nosso Bumba Meu Boi, e eu já me preparo para vê-lo em junho. Nada mais bonito, nada mais autêntico, tradicional e puro.

Caso você queira visitar o século XIX, venha assistir ao São João do Maranhão e ver a beleza dos folguedos populares dos nossos antepassados, na magia do Bumba Meu Boi.

Lá nos esperam São João, São Pedro, São Paulo, Santo Antônio e São Marçal (este uma tradição única das festas de junho no Maranhão).

Venha e seja compadre na fogueira de um amigo.

 

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A casa da infância

 

 

Hoje, 24 de abril, é o dia em que meus olhos se abriram para o mundo, às sete e meia da manhã, na cidade de Pinheiro, localizada na Pré-Amazônia, área da Baixada Maranhense, zona de campos verdes, alagados, com muitos lagos e capins variados, como arroz-bravo, andrequicé, capim-de-marreca, algodão-do-campo, e flores amarelas que enfeitavam o tapete verde das plantas.

 

Nessa cidade, as casas baixas, a rua deserta e a visão do campo verde davam ternura a uma planície sem fim que se perdia no horizonte. Era uma pequena vila de duas ruas, uma maior, o eixo central, como em outros lugares sempre chamada de Rua Grande, e a outra que dela derivava e ia em curva até a Igreja de Santo Inácio, onde se iniciara a povoação. Em 1920 foi elevada a Município, desmembrada da Comarca de São Bento.

 

Em março de 1930, uma comitiva chegou a Pinheiro no fim da tarde e desembarcou no porto do Albino Paiva — assim chamado porque ali ele tinha sua casa de comércio —, onde aportavam as canoas, que, no inverno, eram o único transporte disponível. Naquela tarde, meus pais se dirigiram para a casa onde iriam morar.

 

Deus, o ser bondoso que eu sabia ter me dado a vida, me assegurou a Eternidade no paraíso que Ele me dera para viver na Terra: uma pequenina casa, com um quarto na frente, com piso de tijolo local, um outro quarto, uma salinha de comida e cozinha, juntas, de chão de barro batido.

 

A casa da infância é, sobretudo, onde moram as saudades nunca mortas, no interior do Maranhão, há quase cem anos — isso parece ontem. Na memória me vêm o pote com água de caneca, a cozinha com os caldeirões de ferro, em trempes de pedra, com carvão de árvores secas, as fruteiras, manga, figo, laranja-da-terra, tangerina e a horta de quintal com tomate, vinagreira, maxixe, alface e abóbora. Os urucus vermelhos e o cavalo Graúna, preto, brilhante, relinchando com a chegada das cargas de palmito de babaçu, num quadro materializado no tempo.

 

Ficava na rua principal, àquele tempo José Anastácio, que fora um grande prefeito da cidade. Em frente morava José Alvim, farmacêutico, solteirão que depois veio a se casar com Inês de Castro — que se tornaram meus amigos, eles e seus filhos.

 

Naquela madrugada de abril anterior ao meu nascimento, chovera muito, e ainda chovia quando meu pai teve de ir buscar na Farmácia do Zé Alvim, a única da vila, uma injeção para restabelecer as contrações do parto. Aliás, o ditado popular era: “abril, chuvas mil; maio, trovão e raio”.

 

Busco antigas recordações e lembro das chuvas da minha infância e, na minha memória, as águas não param de cair. Ao me recordar desse tempo hoje ainda chove, uma chuva azul escuro que turva o dia.

 

Na cidadezinha pequena, pobre, isolada, mas bela na pureza de seus humildes arruados, Pinheiro, ficava minha casa, meu chão, onde meus olhos se abriram para a vida. Em duas ruas a cidade se esgotava. Mas nada mais belo do que a minha cidade, seus campos, suas águas, sua gente.

 

Eu tenho escrito muitas vezes que o tempo é uma criação do homem, feito de datas escolhidas por nós. Mas o tempo não destrói as memórias velhas, onde ficam as saudades nunca mortas.

 

Ao longo da vida, com mais de 50 anos de crônicas de imprensa, publicadas semanalmente em jornais e sites, que eu me recorde, com boa memória, jamais meu aniversário coincidiu com a data e o dia da publicação do meu artigo: sexta-feira, 24. Por isso compartilho tanta saudade. Desculpe-me o leitor, mas obrigado pelos parabéns que eu sei que está me enviando.

 

Eu sou só gratidão no dia de hoje. Todas as manhãs e noites agradeço a Deus pela vida que me deu, através do meu pai e da minha mãe, e pela minha família: filhos, genro, noras, netos, bisnetos, parentes e amigos. Deus guiou os meus passos.

 

Viva a vida. Viva o amor. E as saudades que nunca morrem.

 

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