Eu já teria morrido


Um católico muito praticante escreveu ao diretor de um jornal, manifestando o seu desinteresse para ir à igreja aos domingos. “Faz trinta anos que vou na missa. Escutei, ao menos, 3.000 homilias, mas não me lembro absolutamente nada delas. Estou gastando à toa o meu tempo e acredito que os padres fazem o mesmo quando pregam por aí”. O diretor publicou a carta e recebeu muitas respostas, algumas a favor, outras contra. Um leitor escreveu o seguinte: “Estou casado faz trinta anos. Durante todo esse tempo, a minha mulher preparou 32.000 almoços e, juro, não me lembro do cardápio de nenhum. Sei, porém, com certeza, que todos aqueles alimentos me deram a força que eu precisava para o meu trabalho. Se não tivesse consumido o que ela preparava, hoje estaria morto. Igualmente, se não tivesse ido à igreja durante todos esses anos, para me alimentar também, eu já teria morrido espiritualmente”.

Neste primeiro domingo, após o tempo do Natal, a liturgia nos apresenta um trecho do evangelho de João, ainda no seu primeiro capítulo. João Batista aponta a Jesus e o chama de “Cordeiro de Deus”, um título com profundas raízes bíblicas. André, que era discípulo de João, entende logo que algo importante está em jogo. Deixa o Batista, aproxima-se de Jesus e já o chama de “Mestre”. Quer saber onde ele mora. Jesus, não lhe dá o endereço de um local, mas o convida a passar um tempo com ele. “Vinde ver” é a resposta.

O evangelho diz que os dois foram e “permaneceram” com Jesus. A palavra cheia de sentido é, evidentemente, o verbo “permanecer”. Não sabemos a duração dessa “permanência”, mas, com certeza, não foi uma simples visita de cortesia ou uma troca de amabilidades. Foi muito mais, foi a descoberta de alguém por muito tempo esperado: o Cristo. É isto que André diz a Simão, seu irmão: “Encontramos o Messias”. Ou seja, a espera longamente preparada, anunciada pelos profetas e ansiosamente vivida, terminou. Os dois discípulos, que com Simão, logo se tornam três, já sabem o que fazer. Deixam o Batista, ainda no limiar do Antigo Testamento, para iniciar um caminho novo com Jesus.

Esta é a nossa reflexão: tem algo que passa e algo que permanece. O antigo povo “passou” por muitas experiências: foram os anos “passados” no deserto, os anos do exílio, os anos da história conturbada de poder e conflitos, feita de momentos de vitória e momentos de destruição. Tudo passa? Nem tudo. Permanece aquilo que nós guardamos como aprendizagem e experiência e que se transforma em sabedoria, em luz para continuar o caminho da vida. Ou seja: no meio dos acontecimentos ao nosso redor e da nossa própria vida que passa, o que mesmo vai permanecer? Vivemos tempos frenéticos, de notícias se atropelando, de problemas novos surgindo, de seguranças que desmoronam, de propostas fantasmagóricas, além da nossa honesta imaginação. Por isso, palavras como “para sempre” amedrontam, soam impossíveis, até no amor e na vo cação.

Em tempos de incertezas e dúvidas sobrando, tem sentido falar em algo – ou em Alguém – que permanece? Seria muito fácil responder “Deus” ou “Jesus”. Contudo para que “Deus” e “Jesus” não fiquem meras palavras, sem rosto e sem compromisso, mas sejam “pessoas” vivas nas quais podemos confiar, é necessário ter a coragem de “permanecer” com eles, ou seja, conhecê-los de perto, não por informações superficiais, costumeiras ou formais. Esse “encontro” é profundamente pessoal, mas também comunitário. Deus escolheu nos santificar e salvar, ensina-nos o Concílio Vaticano II, não separados uns dos outros, mas como “povo”, ou seja, numa comunhão de fraternidade e fé (LG 9). Com isso espero ter ajudado a entender por que devemos participar da vida eclesial. N ão é para aprender e lembrar algum conceito ou alguma doutrina. Certas coisas só se entendem praticando. O “permanecer” vai junto com o “participar”. São a Palavra praticada e a Eucaristia celebrada que nos alimentam e comprometem a nossa vida; somente assim seremos membros vivos de um corpo vivo. Sem alimento todo ser vivo, morre. Vale também para a nossa vida espiritual.


Feliz e abençoado 2021!


No meio de tantas mensagens que chegam pela internet, leio a seguinte: Alguns estudiosos especulam que a história bíblica da Estrela de Belém, que conduziu os Três Reis Magos do Oriente ao encontro do menino Jesus, está associada a uma conjunção Tripla de Júpiter e Saturno. Em intervalos de tempos irregulares, pode ocorrer, ao longo de meses, uma sequência de três conjunções Júpiter-Saturno. A última conjunção tripla foi em 1981, enquanto a próxima é esperada para 2238. No ano 7 a.C., ocorreram conjunções em 29 de maio, 30 de setembro e 5 de dezembro, tempo suficiente para os três viajarem de sua terra natal, no Oriente, até encontrar a criança na manjedoura. Os dois planetas brilhantes convergindo num ponto perto do horizonte, certamente indicariam uma direção a ser seguida. Por essa razão, a conjunção deste ano tem sido frequentemente chamada de ‘Estr ela de Natal’”.

 

Muito bem. Talvez alguns tenham realmente assistido ao fenômeno na noite de 21 de dezembro passado. Quem não assistiu terá novas chances em 2040 e 2060, mas, uma conjunção tão espetacular como a do ano passado só acontecerá em 2080. Assim explicam e calculam os astrônomos. No entanto, essa ligação com a página do evangelho de Mateus é pura “especulação”. Graças a Deus, faz tempo que aprendemos a ler os evangelhos com um entendimento diferente daquele de considerá-los como um relato mais ou menos pormenorizado de eventos. Nada impede que algo contado pelo povo tenha chegado até o autor do evangelho, contudo nunca poderemos averiguar as circunstâncias e isso, de fato, pouco lhes interessava. A “boa notícia” que queriam comunicar era bem outra: a criança que nasceu em Belém não será simplesmente o “rei dos judeus”, mas todos os povos virão adorá- lo. A festa da “Epifania”, palavra que significa manifestação, tem, portanto, um alcance universal.

 

Os famosos “magos”, sem nome e nem número, representam todos aqueles e aquelas que buscam com afinco dar um sentido sério às suas próprias vidas. Eles não são meros viajantes ou simples curiosos. Eles querem dobrar os joelhos na frente de alguém que mereça ser procurado e encontrado. Por isso, não tem receio de perguntar a quem deveria saber e, de fato, sabe, onde poderia estar o prometido chefe que será pastor de Israel. Escutam a resposta, mas não ficam por aí, parados como os demais, eles retomam o caminho. É neste momento que os magos voltam a enxergar a “estrela” e experimentam “uma grande alegria”.

 

O evangelista Mateus nos oferece uma mensagem extraordinária: quem arrisca continuar a sua busca encontra o que procura! Essa busca parte de longe; vem das promessas da antiga Aliança, dos Profetas, do que foi escrito, transmitido, contado e acreditado faz séculos, mas não termina por aí, tem sempre algo novo acontecendo. O novo “rei” é “o menino com Maria, sua mãe”, a ele os magos adoram e oferecem os seus dons. As “escrituras” e os sinais exteriores, como a “estrela”, servem para motivar e sustentar a busca, mas precisa ter um desejo interior que ajude a entender e motive a caminhada. Não basta ficar “perturbados” como Herodes e toda a cidade de Jerusalém.

 

O “desejo” do qual estou falando é algo muito mais s&e acute;rio, grande e bonito. Deve ser capaz de alimentar a nossa esperança, nos fazer sonhar e imaginar algo novo, justamente, como toda criança é “nova” por si mesma. Até os magos voltam para a sua terra “seguindo outro caminho”. Quem encontra Jesus e o reconhece como “Senhor” de sua vida, começa a abrir e a percorrer novos percursos. Quem faz isso também cansa, corre o perigo de errar, é verdade, mas pode voltar e recomeçar tudo de novo, até chegar a encontrar o procurado, Aquele que enche o coração de alegria. Muito melhor que ficar parado, desejando que nunca mais chegue algum aviso ou alguém para incomodar. Uma vida sem brilho, porque faltou um encontro imperdível, de verdade, muito mais que a conjunção de Júpiter e Saturno. Essa pode esperar séculos para acontecer de novo, o nosso encontro com Jesus não.


Maria, José e o menino Jesus


Aproveito o Domingo da Sagrada Família para falar um pouco do Ano de São José que Papa Francisco proclamou no dia 8 de dezembro passado. Esse Ano se encerrará, justamente, no mesmo dia em 2021. A motivação é a recorrência dos 150 anos da Declaração de São José como Padroeiro da Igreja Católica feita pelo b eato Pio IX no dia 8 de dezembro de 1870. Para nós da Diocese de Macapá é uma grande alegria, porque São José é também o “nosso” padroeiro. Vou começar, porém, pelo evangelho deste domingo. Maria, José e o menino Jesus nos são apresentados como uma família que cumpre “a Lei do Senhor” no que diz respeito aos primogênitos. Nada de especial ou algum privilégio. Somente as palavras dos dois idosos Simeão e Ana fazem a diferença. “O pai e a mãe” de Jesus ficam admirados com o que diziam a respeito dele, e Ana fala do menino “a todos que esperavam a libertação de Jerusalém”. Com isso temos, de um lado, a memória das promessas e a continuidade da fé num Deus comprometido com o seu povo, mas, ao mesmo tempo, a “salvação” será oferecida a todos e a crianç ;a é chamada não mais só “glória de Israel”, é proclamada também “luz das nações”. Essa é a grande novidade: o projeto de amor de Deus alcança, em Jesus Cristo, toda a humanidade.

A missão da Igreja nunca será cuidar somente do seu rebanho que não importa se é grande ou pequeno numericamente. O que vale é que um pouco da “luz” do Senhor chegue, de alguma forma, a todos. A Igreja não pode desistir de se interessar por toda a humanidade, não porque queira se meter em tudo ou ser a mais poderosa, mas porque acredi ta que Jesus Cristo tem uma proposta de Homem Novo, que pode mudar e dar sentido à existência de qualquer pessoa, além das raças, nacionalidades, tradições e crenças. A Igreja tem consciência de ter um “tesouro” de fé, de esperança e de amor que não pode segurar para si mesma, mas deve partilhá-lo, doá-lo, oferecê-lo sempre, mesmo quando essa Boa Notícia for desprezada, silenciada e os cristãos forem perseguidos e martirizados. “Ai de mim se não anunciar o Evangelho” diria São Paulo ( ), o apóstolo dos pagãos, dos estrangeiros, dos não judeus, dos diferentes.

A Igreja, porém, começou bem pequena. Logo pensamos nos Doze Apóstolos que Jesus escolheu e enviou pelo mundo, mas antes, algo menor que o número, muito grande no valor, já havia acontecido: a Sagrada Família. Os primeiros que acolheram Jesus foram Maria, sem dúvida alguma, e José, aquele que, misteriosamente, foi chamado a cuidar do Menin o que “crescia e tornava-se forte, cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava com ele” (Lc 2,40). Por tudo isso, São José, o santo humilde e silencioso, o sonhador que vence o medo, acredita e confia, é proclamado padroeiro de toda a Igreja. Porque o Povo de Deus a caminho na história sempre encontra perigos, dúvidas, pensa em desistir, mas sabe que deve confiar sempre e em qualquer situação no único Deus da Vida, no Pai de todos que não poupou o seu próprio Filho. A Igreja, família dos cristãos, sabe que também é “cuidada” de maneira especial por São José e estas são as primeiras palavras da Carta Apostólica do Papa Francisco sobre o Ano dele: “Com coração de pai: assim José amou Jesus, designado nos quatro Evangelhos como “o filho de José”

Temos mais novidades. É costume que a Igreja, nos Anos especiais ou Santos, ofereça aos fiéis a possibilidade da chamada Indulgência Plenária. Simplificando demais, podemos comparar a Indulgência a um “super perdão” para os “superpecadores”, que somos todos nós. Desta vez, além das condições exigi das (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração segundo as intenções do Santo Padre), são oferecidas diversas oportunidades. Será possível conseguir a Indulgência Plenária meditando por 30 minutos sobre a oração do Pai Nosso ou participando de um Retiro Espiritual que tenha uma meditação sobre São José. Outra possibilidade: o cumprimento de uma obra de misericórdia corporal ou espiritual. Será concedida também a quem rezar o Terço em família ou entre namorados que se preparem ao matrimônio. Igualmente, trabalhadores e desempregados poderão invocar cotidianamente São José, exercendo a própria profissão ou saindo em busca de trabalho. Também poderá ser rezada a Ladainha de São José, em comunhão com os enfermos, os migrantes, os refugiados e to dos os rejeitados e abandonados. Enfim, algumas datas serão mais apropriadas: o 19 de março e o 1º de maio; o Domingo da Sagrada Família; o 19 de cada mês e toda quarta-feira, dia da memória semanal de São José. A primeira ocasião, portanto, será neste domingo, ainda neste tempo de Natal.


A Cura


Natal está chegando. A liturgia do Quarto Domingo de Advento nos apresenta a página bem conhecida do evangelho de Lucas, aquela que nós chamamos de “anunciação”. À Virgem Maria é dito para não ter medo, para confiar, porque nada é impossível para Deus. Maria, com o seu sim generoso, aceita o desafio de ser a mãe da criança que vai nascer. A ela é antecipado também o nome da criança, deverá ser chamado: Jesus. Na Bíblia, muitas vezes, o nome dado às pessoas não é mero instrumento de distinção dos demais. O nome indica a missão que aquele homem, ou mulher, deverá cumprir e que, portanto, dará o sentido mais profundo à sua vida.

“Jesus” significa “Deus salva”. Ouviremos isso na noite de Natal. O anjo dirá aos pastores: “Eu vos anuncio uma grande alegria… Hoje, na cidade de Davi, nasceu um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,10-11). Entendemos que se alguém precisa de salvação é porque está em perigo. Somente quem passa por dificuldade ou se sente ameaçado pede socorro. Nem sempre, claro. Gritar por ajuda exige, no mínimo, a capacidade e a humildade para fazê-lo. Nós, cristãos, estamos tão acostumados com o uso de certas palavras que pouco refletimos sobre elas. Parece que sabemos já todas as respostas. Sem nenhuma pretensão, porém, deixem-me fazer alguma comparação,  a partir do perigo no qual todos nós ficamos mergulhados neste ano: o coronavírus.

A humanidade inteira almeja e grita por uma “salvação”. Em parte, a resposta virá das vacinas. Todos nós rezamos por isso e aguardamos os resultados com muita esperança. Será mais uma vitória da ciência, da inteligência humana, usada a favor da vida. Podemos aplaudir e esperar a nossa vez de sermos, digamos, imunizados e libertos do perigo. No entanto quando tudo voltar, mais ou menos, ao normal, precisamos lembrar de outros “vírus” que circulam por aí e que Papa Francisco já apontou muitas vezes em discursos e documentos. Ao menos dois: o vírus do egoísmo e o vírus da indiferença. Terá vacinas para isso? Eis a boa notícia: o remédio e a cura já existe e têm  nome, chamam-se Jesus Cristo, o seu amor e a sua vida doada para nos salvar. Porém são vacinas especiais, funcionam diferente das que tomare mos contra o coronavírus. Não vêm de algum laboratório humano, mas do próprio Deus.

Antes, porém, temos que aceitar e nos convencer que estamos doentes. Os sintomas são conhecidos. O egoísmo nos fecha em nós mesmos. Quando a farinha é pouca, diz o ditado, “primeiro o meu pirão”. Só que, às vezes, o “pirão” são privilégios demais, direitos desiguais, desprezo para os pequenos e os diferentes, salários incomparáveis com o “mínimo” da maioria das famílias. A indiferença é uma doença fatal porque mata por dentro, zera os nossos sentimentos. Torna-nos impermeáveis a qualquer emoção que, por acaso, venha a nos incomodar ou sacudir.  A “cura Jesus” é diferente de qualquer outro remédio, porque precisa absolutamente da nossa colaboração. Vai funcionar somente se nós quizermos ser curados. Não pode ser engolida à força o u administrada quando estivermos inconscientes. Ao contrário, o seu efeito é nos acordar da anestesia da acomodação, da dopagem de tantos discursos que não levam a nada. Não dá para tomar tudo numa ou duas doses só. É uma cura continua, porque as recaídas são constantes, muito mais que uma primeira e uma segunda onda. Mas a cura está garantida? Se nunca mais largarmos o remédio (Jesus), com certeza. Como vamos saber se a cura está fazendo efeito? Simples, se conseguimos nos alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram (Rm 12,15) é sinal de que começamos a quebrar o gelo da indiferença. Se, depois, estamos dispostos a sofrer, ao menos um pouco, para aliviar a aflição de quem talvez nem conhecemos, é sinal de que superamos a primeira fase do egoísmo. É uma cura de pequenos passos. Não podemos desistir. Depois do Na tal, virá a Páscoa e depois Pentecostes… e assim por adiante, sempre no caminho do Senhor Jesus, “Salvador” das nossas vidas. Coragem. Feliz Natal para todos!


Abre outra fábrica


Numa tarde, um rico industrial foi ter com Dom Bosco para se aconselhar. Estava decidido a fazer com as suas riquezas aquilo que o Senhor lhe tivesse indicado, incluindo a possibilidade de vender tudo e dá-lo aos pobres, se isso era o que Deus queria dele. Dom Bosco pediu um tempo para rezar e quando o rico voltou para ter a resposta, disse-lhe:

– Tem um dinheiro guardado neste momento?
– Sim. Respondeu o homem.- Então, vai, abre uma nova fábrica e dá trabalho aos operários. E assim ele fez.

É verdade que não conhecemos bem as condições de vida daquele tempo, quando São João Bosco deu esse “conselho” ao rico industrial e podemos nos perguntar por que ele não lhe pediu para dar tudo aos pobres como lemos no evangelho. Talvez a resposta seja elementar. Simplesmente ele pediu àquele homem para “ajudar” os outros naquilo que sabia fazer bem: investir os seus ganhos para dar trabalho e sustento a mais famílias. Talvez, ir para o convento, não era a vocação daquele senhor. Mas também não era aquela de lucrar sozinho.

Reconhecer a nossa “missão” neste mundo é dar um sentido bom à nossa vida.

No Terceiro Domingo de Advento, deste ano, encontramos novamente a figura de João Batista, mas num trecho do evangelho de João, tirado do primeiro capítulo. Têm muitas perguntas e respostas. Os interlocutores querem saber o que João Batista diz dele mesmo e porque está batizando. Ele é ou não é o Messias? É o novo Elias ou outro profeta? João esclarece que ele não é o Messias, mas que também não é nada igual aquilo que já aconteceu no passado. Ele tem uma missão totalmente nova e que já é apresentada nos primeiros versículos do mesmo trecho evangélico. João é uma “testemunha” e veio para dar testemunho da luz! (Jo 1,7-8). João brilhou, sim, mas não era ele a luz. Desde o início do seu evangelho, João, afirma que a luz plena e verdadeira é Jesus: “E a luz brilha nas tr evas, mas as trevas não a dominaram” (Jo 1,5). Em seguida, na sua resposta, João Batista retoma as palavras que também os outros evangelhos colocam. Mais uma vez, com humildade e sinceridade, declara que ainda não conhecem aquele que ele anuncia, mas que o Messias já está presente entre eles.

Podemos dizer que o Evangelho deste domingo nos convida a reconhecer Jesus como a luz que veio iluminar o mundo e, por consequência, um convite a sermos, nós também, testemunhas luminosas desta luz plena. Em tempos de apagão geral, todos nós lamentamos muito a falta da luz. No entanto estamos falando de algo muito mais profundo e decisivo que… a energia elétrica. Estamos falando da nossa própria vida. Podemos nos achar muito importantes, pensar que o universo todo roda para nós. Ao contrário, podemos nos sentir tão desanimados ou pequenos a ponto de chegarmos a pensar que somos inúteis e que talvez o mundo funcionaria melhor sem um de nós. Não é bem assim.

Entre o orgulho exagerado que nos leva a usar dos demais para o nosso proveito e a depressão que nos faz desejar o sumiço, está a consciência de algo simples e bonito: a fraternidade. Os outros não estão aí para nos servir e nem nós somos sobras inúteis. Podem existir tarefas e responsabilidades maiores ou menores, mas ninguém deve ser considerado um peso para a sociedade. Alguém pode não ter dinheiro para o consumo, mas quem disse que deve ser esquecido e deixado de lado? Outro pode não ter muitas capacidades práticas ou intelectuais, mas sempre poderá ajudar alguém, ser apoio e carregar um irmão ou uma irmã para partilhar com ele ou com ela um pouco de calor humano, buscando força naquele tesouro de amor que todos temos guardado. Do ponto de vista do sucesso nem João Batista e nem Jesus se deram bem. A um cortaram a cabeça pelo capricho d e uma mulher e o Senhor foi crucificado como malfeitor. No entanto este foi “a luz que vinha no mundo” e o outro a “testemunha” da luz. Não importa quando, como e onde, mas quem se deixou, ao menos um pouco, alcançar pela luz de Jesus, saberá refleti-la, iluminará outros. Todos podemos ser fabricantes de amor. Não tem luz maior do que esta num mundo de escuridão, violência e indiferença. É a luz do Natal de Jesus que está chegando.


As moedas falsas


O povo conta, por aí, que um comerciante tinha uma loja numa rua bem frequentada. Muitas pessoas entravam no estabelecimento e compravam alguma mercadoria. O homem ficava sentado no caixa e colocava em diferentes compartimentos as moedas e as notas de papel conforme o valor. Um amigo, parou bem perto dele para conversar e reparou que o comerciante tinha outra pequena repartição na gaveta onde colocava moedas falsas ou o dinheiro antigo, já fora de uso. Contudo ele agradecia o cliente com um sorriso e não falava nada.

– Você pegou moedas falsas sem dizer nada? Perguntou o amigo. O comerciante respondeu com um sorriso meio triste:

– Veja bem, quando acontece isso, penso sempre: eu também sou uma moeda sem valor, mas Deus me aceita sem reclamar!

No evangelho do Segundo Domingo de Advento, deste ano, encontramos o “mensageiro” que vai à frente do Senhor, João Batista, aquele que se define: “a voz que grita no deserto” (Mc 1, 3). João é uma pessoa austera, convida a um “batismo de conversão”. Ele mesmo vive afastado do barulho da cidade, com simplicidade na comida e na roupa. Dessa maneira, não só a pregação, mas a própria pessoa dele se torna um sinal que chama atenção. Como outros profetas e pregadores anteriores, João anuncia alguém mais importante do que ele, alguém que batizará não só com a água, mas também “com o Espírito Santo”: o Messias esperado. Mais um motivo para alimentar a expectativa, convocar as multidões e reforçar o convite a uma mudança de vida.
Por isso, o tempo litúrgico do Advento é, para nós também, um tempo de “conversão”.

Nunca é fácil dar uma virada ao rumo da nossa vida, mas talvez seja esse um desejo escondido para o qual sobram convites, mas nos falta coragem. No tempo de Advento, essa “conversão, tem o gosto da abertura, da acolhida de Alguém que precisamos deixar entrar em nossa vida. Ele, o Senhor, já veio no meio de nós e sempre vai chegar para quem lhe preparar o caminho. O que falta para que isso aconteça?

De novo, João Batista pode nos ajudar. A primeira condição, talvez, seja o ambiente do “deserto” entendido como momentos de bendita solidão e não, com certeza, de isolamento. “Deserto” não é fuga, escondimento. Deserto é a capacidade de silenciar as confusões ao nosso redor, para poder escutar a voz da nossa consciência, a voz de Deus e a voz dos pobres. Penso, sim, nessa ordem, porque cabe a nós pedir a Deus o dom da escuta. De outra forma, o Natal de Jesus será uma mera repetição de costumes e de emoções exteriores. Igualmente não saberemos ouvir a voz dos pobres se, em nossa vida, prevalecem o nosso comodismo e bem-estar e praticamos uma religiosidade só intimista e interesseira. A segunda condição para o começo da nossa conversão é o reconhecimento da nossa fragilidade e carência. João Batista falava de alguém “mais forte” e reconhecia a sua indignidade. Se estamos cheios de orgulho e nunca admitimos ter errado e que sempre podemos errar, dificilmente, alguma vez, pediremos desculpa. Por consequência, nunca mudaremos nada da nossa maneira de nos relacionar com os outros. Entraremos em disputas e apontaremos sempre os defeitos alheios.

Numa sociedade cheia de super-heróis que se autopromovem, a humildade fica esquecida. Então, quem consegue perseverar no caminho da conversão? A boa notícia é que não estamos sozinhos. O Menino que acolheremos no Natal será chamado Jesus, mas também Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23). Jesus, bem sabemos, não veio para os que se acham tão bons de não precisar de nada, veio para os que se reconhecem pecadores, necessitados de conversão. O Senhor gostaria de não perder nenhum dos seus filhos e filhas, porque para ele somos todos muito preciosos. O amor dele quer chegar aos últimos e aos mais afastados. Nasceu pequeno para que não esqueçamos os menores, os menos considerados, os invisíveis. Para ele,
não tem moedas falsas que possam ser jogadas fora. No coração dele, tem lugar para todos e todas. Também para nós, se quizermos.


Boas escolhas, más escolhas


Certo dia, o discípulo cria coragem e resolve tirar a sua grande dúvida com o Mestre.

– Mestre, como faço para me tornar um sábio? – perguntou.

– Boas escolhas. Ele fica pensativo por alguns instantes e depois torna a perguntar:

– Mas como fazer boas escolhas?

– Experiência – diz o mestre.

– E como se adquire experiência, mestre? – Más escolhas…
Estamos de novo no começo do Ano Litúrgico e sempre reiniciamos pelo tempo de Advento. Estas semanas nos prepararão às festas do Natal. Tempo de espera ou de esperança, depende de nós. “Espera” significa simplesmente deixar o tempo passar e ocupá-lo, talvez, com alguma atividade, conforme as nossas possibilidades ou os nossos gostos.

Acordados ou dormindo, inexoravelmente, os dias irão transcorrer. Mais cedo ou mais tarde, seremos obrigados a reconhecer isso. “Esperança” é outra coisa. O tempo não vai parar, nem vai ser mais longo ou mais curto. O segredo está na capacidade de aproveitar dos dias que passam. O fato de “recomeçar” e percorrer novamente um caminho já andado, não significa mera repetição. Podemos tentar responder, mais uma vez, a uma pergunta chave da nossa vida: o que aprendemos até aqui? Para onde nos leva o rumo que damos às nossas vidas? Evidentemente são questões que supõem um interesse sério a não desperdiçar o nosso tempo e a ter, cada vez mais, clareza daquilo que queremos alcançar. O contrário seria a superficialidade ou, talvez, uma vida vazia, dirigida pelos outros, pelas modas, imitando aqueles que parecem brilhar naquele instante. A “esperança” verdadeira nos ajuda a ter objetivos e sonhos. Nos obriga a buscar o que vale, a questionar os caminhos que estamos trilhando. É uma virtude e, ao mesmo tempo, um dom de Deus segundo a profecia de Joel, realizada no dia de Pentecostes: “os vossos jovens terão visões e os vossos anciãos terão sonhos” (Atos 2,17). A esperança anima, não anestesia e nem se conforma com as coisas erradas, é algo que nos inquieta e não deixa entorpecer as nossas consciências. Porém, não basta dizer: vou fazer diferente…Precisa ter claro o que fazer e como fazer. Somos todos eternos aprendizes.

O evangelho deste Primeiro Domingo de Advento é uma exortação de Jesus – ou mesmo uma ordem – para ficar atentos, vigiando. Conscientes ou não, todos estamos esperando algo acontecer, aguardamos um encontro com alguém que nos mude e dê sentido a nossa vida. O Senhor nos lembra que somos “responsáveis” por essa espera. Podemos e devemos tomar decisões, organizar projetos, marcar percursos e metas. Cabe a nós mudar as circunstâncias, transformar as situações. Lembrando a canção: “quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. Para isso, porém, precisa “saber”, é necessária muita “sabedoria” que, por sua vez, aprende-se também errando. Não devemos ter medo dos erros, dos desvios, contanto que nos tornem mais sábios e corajosos para abrirmos novos caminhos. Em certos momentos, temos a impressão de que tenhamos aprendido pouco com os nossos erros pessoais e da própria humanidade. Como se não bastassem as guerras do passado, as vidas perdidas pelos sonhos de poder, pelos ódios, as cercas e as bombas atômicas. Deixamos de sonhar a paz para cultivar o rancor e a vingança, perdemos a chance de partilhar bens e saberes para acumular inveja e indiferença. Tudo isso entre pessoas e famílias, entre países e blocos comerciais. Quem, com os seus erros, encontra o caminho do bem, exerce a humildade, aprende a escutar conselhos, confia na fraternidade e na solidariedade.

O tempo de Advento deve servir para iluminar o que aprendemos até aqui, mas não para ficar parados. O simples e grandioso fato de acreditar num Deus que quis ser humano para caminhar conosco e ser “o caminho” para nós, nos deve animar. Temos motivos para ser tristes: a pandemia, o desemprego, a pobreza, a incerteza do futuro, mas nunca tão perdidos “como aqueles que não têm a esperança”. (1Tes. 4,13). Esta é sabedoria, é fé, é recomeçar com Jesus no Natal.


A educação


Madre Teresa de Calcutá contava: “Meu pai se chamava Kole Bojaxhiu. Ele era comerciante e viajava pela Europa toda. Quando voltava para casa, reunia todos os filhos ao seu redor e contava o que tinha visto e feito. Era um homem severo e exigia muito de todos nós. Mas era também muito generoso. Às escondidas, doava alimentos e dinheiro sem chamar atenção, nem se vangloriar. Dizia sempre:

– Devem ser generosos com todos como Deus foi generoso conosco: nos deu tanto, tanto, por isso façam o bem a todos!

Certa vez ele me disse:

– Filha, nunca receba e nem aceite um pedaço de pão, se não for partilhando com os demais!

No último domingo do ano litúrgico, celebramos a Solenidade de Jesus Cristo Rei do universo e somos lembrados, pelo evangelho, que seremos julgados por ele pelo amor, a misericórdia e a compaixão. Nada mais, mas, também, nada menos. O maravilhoso dessa página de Mateus é a surpresa de todos, justos e injustos. Todos perguntarão: – Quando, Senhor, te vimos com fome e te demos – ou não te demos – de comer?

Isso significa que devemos aprender a reconhecer o Senhor naqueles com os quais ele quis se identificar: os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os nus, os doentes e os presos. Uma simples amostra para exemplificar aquela parte da humanidade ainda desprezada, excluída, esquecida. Jesus começa com os sofrimentos imediatos, aqueles que fazem doer o estomago, que matam fisicamente ou pelo abandono em esperas e castigos intermináveis. Depois, nós juntamos as obras de misericórdia espirituais. Justo, mas querer consolar sem dar comida é considerar o faminto um anjo, mais do que nós, provavelmente, de barriga bem cheia. Seria uma fé morta, que mata e não doa vida (Tg 2,14-17).

Com a “surpresa” final, descobrimos que ninguém terá alguma vantagem, nem os justos e nem os injustos. Mais uma grandeza de Deus, que não deixa de enviar mensagens e mensageiros, mas não obriga ninguém a fazer o que não escolhe e decide em seu coração. É a liberdade que dá valor a qualquer gesto de amor. Algo se deve e se pode planejar, sem dúvida: assistência, proteção social, planos de resgate para pessoas necessitadas. É o mínimo que uma sociedade civilizada deveria conseguir. O contrário seria a barbaridade, o descaso total. Não seremos, porém, julgados sobre os resultados das grandes obras, das estatísticas, da propaganda usada para explicar como e onde os milhões foram gastos. Nada disso. O “julgamento” estará mais uma vez nos gestos simples, pobres, mas fraternos, de aproximação, de encontro, de capacidade de reconhecer a pobreza comum de todos, a fragilidade e a solidão, enfim, de todos. Servem obras grandes, dinheiro público para sustentar muitas coisas, mas a pouco serviria se não mudasse o coração de cada um, se ficássemos satisfeitos com resultados exteriores, por maiores que fossem, mas não aprendêssemos a amar o nosso irmão, a vê-lo como o próprio Jesus ainda crucificado e sofredor. Foi assim que Deus viu o povo escravo no Egito e decidiu libertá-lo (Ex 3,7-10). Foi assim que o Pai viu a humanidade toda e enviou o seu Filho para nos resgatar do pecado e da morte. “Não poupou o seu Filho” diz João (Jo 3,16-17). Ele mesmo veio no meio de nós, não mandou planos acabados para ser cumpridos. Deu o exemplo!

Nada substitui a generosidade pessoal, o afeto e atenção que todos podemos dispensar – e receber, claro – a quem entendemos que esteja precisando. Sempre precisaremos de caridade planejada, porque o bem deve ser bem feito e não improvisado. Mas a todos e a todas, cristãos e não, é dada a chance de ter compaixão, de se deixar tocar pelo sofrimento do outro. É como dizer que ninguém está perdido de antemão ou esteja fora da possibilidade de fazer o bem. Só precisa aprender e acreditar que vale a pena. Ser bons e compassivos nos humaniza, nos torna imagem verdadeira do Pai misericordioso, não de um Deus poderoso que amedronta e castiga. Um Pai que educa sempre os seus filhos. Um Deus Mãe que sente compaixão e amor pela nova vida que carrega em si: o pequenino ainda desamparado.


Deve trabalhar para viver


Contam os monges anciãos que, certo dia, João, o pequeno, disse a um irmão mais velho:
– Quero ser livre das preocupações e não trabalhar. Quero adorar o Senhor sem parar”. Tirou a veste de monge e foi para o deserto. Depois de uma semana, voltou com aquele irmão. Quando bateu na porta, o monge, de dentro, sem abrir, perguntou:
– Quem é? – Respondeu:
 – Sou João, teu irmão.
 Mas o velho monge rebateu:
 – João se tornou um espírito e não vive mais entre as pessoas!
João suplicou:
 – Sou eu! Mas o irmão não abriu a porta e o deixou no desespero até a manhã seguinte.
 Quando saiu lhe disse:
 – Se és um ser humano deves trabalhar para viver.
João, o pequeno, se arrependeu e disse:
– Me perdoe, irmão, porque errei.
A parábola dos talentos, que encontramos no evangelho deste domingo, é muito conhecida e, como outras parábolas,  presta-se a diversas leituras. A primeira mensagem está em continuidade com que refletimos nas últimas semanas: o Senhor nos quer “vigilantes”, ou seja, a espera da volta dele – que é a nossa própria vida nos dias que passamos neste mundo – e deve ser um aguardá-lo ativo, alegre e comprometido. Nada de preguiça, sonolência e acomodação. O exemplo mais prático para entender isso é o da entrega dos “talentos”, qualquer coisa eles representem. O certo é que somente quem soube multiplicá-los será premiado e chamado de servo “bom e fiel”. Quem, ficou com medo ou achou o “dono” severo e exigente demais e acabou enterrando o único talento recebido, será chamado de servo “mau, preguiçoso” e, enfim, “inútil”.
 A essa  altura devemos nos perguntar se o Senhor Jesus queria falar mesmo de bens materiais ou, sobretudo, de outros tesouros preciosíssimos que a todo custo devem ser traficados. Uma coisa não exclui a outra. Hoje entendemos, por exemplo, que a própria natureza é o primeiro “dom” que o Pai criador entregou à humanidade e que, com seu respeito e sustentabilidade pode, ou não, ser fonte de vida ou de morte para os habitantes do planeta. A “cura” da criação nos aparece cada vez mais urgente e de responsabilidade de todos. Uma humanidade digna de ser “humana” mesmo e não mera consumidora e exploradora de riquezas não pode mais pensar só no lucro da geração atual, deve saber enxergar mais longe se quiser preparar um futuro melhor para todos. De outra forma, nunca acabarão as guerras para o controle das riquezas e nunca haverá fraternidade e partilha.
Talvez precisemos redescobrir e reavaliar outros tipos de “talentos”, menos materiais, mas igualmente – ou mais – valiosos. Simples. Se achamos que o ser humano se satisfaz somente com o famoso “pão”, deixamos de lado outros bens. Jesus nos ensinou que precisamos também da Palavra de Deus, ou seja, de escutar sempre e de novo a proposta daquele que colocou em nossos corações muitos outros desejos e sonhos que nunca ficarão satisfeito com o que encontrarmos e construirmos neste mundo. Hoje, a grande questão do chamado “progresso” é que não pode mais ser somente material.
O “crescimento” pede novos equilíbrios com a natureza, novos relacionamentos mundiais, novo respeito pela existência de todos os seres vivos. Papa Francisco fala de “sobriedade feliz”. Lembra-nos que “tudo está interligado”. É simplesmente imoral querer construir “ilhas” de felicidade isoladas para poucos privilegiados. Seriam somente lugares de egoísmo e desprezo para os demais, numa vida triste cheia de barulho e superficialidade.
Penso que, afinal, seja esse o grande “trabalho” dos cristãos, daqueles que querem contribuir com a construção do Reino de Deus e não dos ilusórios reinos humanos. Temos um “tesouro” imenso, incalculável, de amor, de criatividade para organizar novas economias, novas fraternidades, novos relacionamentos. Sempre os cristãos sonharam com novas “cidades” mais semelhantes com a “cidade do céu”. Nunca faltaram profetas e mártires para isso. O pior é desistir de ser cristão ativos, cada um com as suas capacidades, numa comunhão de compromisso e bondade. Orar não é fugir, se esconder, mas saber para que se reza e, sobretudo, para que se vive.

Santidade, nada de santidade


Certa vez, por ordem do Papa, São Filipe Neri visitou um mosteiro onde tinha uma religiosa considerada santa. Quando Filipe, que entendia muito bem de santidade, chegou naquele lugar, tirou os sapatos sujos de lama. Com um sorriso, disse para aquela freira que tinha ido ao encontro dele:
– Irmã, por favor, pode limpar estes meus sapatos? A famosa monja foi embora indignada, reclamando. Filipe voltou com o Papa e lhe falou baixinho no ouvido: Santidade, nada de santidade!

Mais uma anedota de um santo conhecido pelo bom humor e a alegria. É bom também lembrar que os papas são chamados de “Santo Padre” ou “Santidade”, só para não confundir um título de respeito ao Papa com a “santidade” que, na Solenidade de Todos os Santos e Santas, queremos celebrar. Apesar de tantas explicações, muitos cristãos e cristãs acham que falar em santidade seja algo que não lhes diz respeito. Isso porque a Igreja continua a nos propor justamente, e com a devida propaganda também, exemplos extraordinários de batizados e batizadas que viveram heroicamente muitas das virtudes propostas a todos os cristãos. Simplesmente, a Igreja nos convida a olhar para os melhores, aqueles e aquelas que sobressaíram pela generosidade, o desprendimento, o serviço ao Evangelho e aos pobres. Aqueles e aquelas que, acreditamos, podem nos aj udar com a maravilhosa e inesgotável riqueza de amor que se chama “comunhão dos santos”. Pois nenhuma santidade verdadeira é simplesmente individual, sempre tem consequências e frutos na comunidade humana, sejam conhecidos ou não esses reflexos luminosos. Deveríamos estar convencidos que se todo mal tem, antes ou depois, consequências nefastas, igualmente o bem produz resultados impensáveis e imprevisíveis. Semente boa, em terra boa sempre produz cem, sessenta, trinta por um (Mt 13,8). Não devemos estranhar, portanto, se nos escritos do Novo Testamento, Paulo e os demais autores, chamam os cristãos de “santos”. Essa é a grande vocação à qual cada batizado é chamado.

O contrário da santidade não é a maldade, mas sim a mediocridade, ou seja, o desistir de sermos melhores, o fato de nos conformarmos com os defeitos e as limitações e achar impossível superar as dificuldades. Temperamento pessoal, educação, circunstâncias especiais, encontros com testemunhas extraordinárias, podem ajudar no caminho da santidade, mas ninguém nasce santo ou santa. Todos e todas, mais ainda os famosos, enfrentaram tentações, lutaram contra as forças do mal, tiveram medo, passaram por momentos intermináveis de escuridão, nos quais tudo parecia inútil e sem sentido. No entanto, eles e elas nunca deixaram de confiar, de pedir misericórdia Àquele que é “O Santo” (três vezes, Ap 4,8) e que nos quer santos (Lc 6,36).

Estou convencido que todos os Santos e Santas, canonizados ou não, tiveram duas qualidades em comum: a humildade e a alegria. A humildade nos ajuda a confiar mais em Deus e na misericórdia dele do que nas nossas capacidades. Quem quiser crescer em santidade deve estar muito consciente das suas fraquezas e, portanto, admitir sem medo os seus pecados. Deve pedir perdão, deve saber reconhecer quando errou, deve preferir o último lugar aos primeiros, simplicidade e o escondimento aos elogios e às honrarias. De outra forma, já teria recebido a sua recompensa (Mt 6,2). Contudo, o segredo mais bonito dos Santos e Santas, foi com certeza a alegria, pela simples razão de viver com plenitude a sua fé e o seu serviço aos pequenos e pobres. Ajudar alguém com impaciência, ou por mera obrigação, não tem alegria nenhuma. Somente se sabemos reconhecer o próprio Jesus nos irm&atild e;os, ca ídos nas estradas da vida, podemos atendê-los com carinho e solicitude. Todos os Santos e as Santas também choraram. Foi porque gostariam de fazer mais ou porque se solidarizaram com os aflitos da vida. Souberam “choraram com quem chora, para se alegrar com quem está alegre” (Rm 12,15). Os que souberam consolar, foram consolados, enxugando lágrimas de irmãos ou limpando sapatos sujos de lama, felizes.