Só um grão de ervilha


Havia um homem que levava uma vida de penitência e não comia pão. Um dia, foi visitar um sábio. Aconteceu que também alguns peregrinos passassem por lá, naquele dia, e o sábio preparou para todos uma simples refeição. Quando se sentaram à mesa para comer, o monge que jejuava pegou somente um grão de ervilha e ficou mastigando-o longamente. Quando se levantaram, o sábio chamou o monge e, a sós, disse-lhe:

– Irmão, quando você visita alguém, não chame atenção para a sua maneira de viver. Se quiser manter a sua penitência, fique na sua cela e nunca saia de lá. Ele aceitou o conselho e, a começar daquele dia, agiu como os demais quando os encontrava.

O evangelho deste Terceiro Domingo de Páscoa é a continuação da página bem conhecida dos discípulos de Emaús. Após terem reconhecido Jesus naquele peregrino forasteiro, os dois voltam para Jerusalém e encontram os onze e os outros discípulos reunidos (Lc 24,33). Eles contam a experiência e lembram o gesto que abriu seus olhos: “ao partir o pão”. Os outros também confirmam: – Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão (v.34). É neste momento de alegria e fraternidade que aparece Jesus. O evangelista Lucas quer nos ajudar a entender que Jesus está sempre presente na comunidade reunida. Isso não é simples imaginação ou devaneio, é uma presença real também se através dos sinais que o próprio Senhor escolheu durante aquela Ceia derradeira e que deixou como seu “memorial”. Depois , de novo, como fez no caminho de Emaús, ele abre a inteligência dos discípulos para entender as Escrituras e, com isso, poder compreender tudo aquilo que aconteceu naquela última Páscoa. Por fim, entrega-lhes uma missão: serem “testemunhas de tudo isso” pregando a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações. Aqui termina a leitura da Liturgia deste domingo, mas, se lermos um pouco mais à frente, Jesus promete o dom do Espírito Santo e isso nos ajuda a entender por que o autor deste evangelho, com toda probabilidade, é o mesmo que escreveu o livro dos Atos dos Apóstolos, eles indo em missão, “até os confins da terra”.

Retomamos os principais gestos que são apresentados neste evangelho: a refeição em comum, a explicação das Escrituras e o testemunho. Não é muito difícil lembrar as nossas liturgias, sobretudo as Missas. A primeira coisa, importante é que a nossa fé nunca é individual ou “solitária”: deve ser sempre uma experiência fraterna. As motivações são muitas, mas uma é elementar: Deus não ama somente a mim, ama a todos nós e a cada um ao mesmo tempo. Eu posso esquecer dos meus irmãos ou não os reconhecer como tais, mas Deus nunca esquece de nenhum dos seus filhos. Talvez se lembre mais ainda daqueles que eu, no meu egoísmo, apago da minha memória ou penso que não mereçam a minha atenção. A fé viva e verdadeira é recebida dos outros, pelas explicações, mas sobre tudo pelo exemplo. De outra maneira, cada um decidiria o conteúdo e a vivência da fé a seu gosto e interesse. Algo semelhante vale também para a escuta das Escrituras. Disse “escuta” e não leitura. Porque o único que se revela e fala é o Senhor, o Mestre de todos.

O que cabe a nós é nos ajudarmos uns aos outros a entender e a praticar a mesma Palavra ouvida. Pouco falamos entre nós da nossa fé, pouco partilhamos dos frutos da Palavra semeada em nós e que sempre deveria abrir as nossas inteligências. Os nossos corações não se aquecem como deveriam. Por consequência, também a nossa missão é fraca, desanimada, não sabemos o que dizer porque escutamos e aprendemos pouco. Confundimos o anúncio do Evangelho de Jesus com uma doutrina ou com a adesão ao nosso grupo, igreja ou movimento. É Jesus, a sua pessoa, a sua vida e o seu amor que devemos testemunhar, não a nossa organização, nossos hábitos e devoções. Se algo deve chamar atenção dos que ainda não conhecem o Evangelho não serão as nossas esquisitices – como comer só um grão de ervil ha – mas a alegria, o entusiasmo, a generosidade e, não esqueçamos, a capacidade de dialogar com todos para sempre ensinar e aprender. Com humildade.


As feridas


Um homem morreu e chegou às portas do céu. O anjo encarregado da acolhida lhe disse:
– Me apresente as suas feridas. Espantado o homem respondeu:
– Quais feridas? Eu não tenho nenhuma ferida. E o anjo falou:
– Nunca pensou que tivesse alguma coisa na vida para a qual valesse a pena lutar?
No Segundo Domingo da Páscoa, sempre encontramos a página do evangelho de João que fala de duas aparições do Senhor ressuscitado aos discípulos. A primeira, “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana” (20,19) e a segunda “oito dias depois” (20,26). Em ambas as aparições, a saudação de Jesus é: “A paz esteja convosco” e, logo em seguida, ele apresenta “as mãos e o lado”, de maneira toda especial para Tomé, que não estava presente na primeira vez. É bastante fácil entender que o evangelista João quer nos ajudar a ter fé naquele Jesus crucificado e, agora, ressuscitado no qual nós também devemos crer, mas, sem o “terem visto” (20,29).

Feridas e paz, são duas coisas que parecem opostas. Como é possível ter feridas e estar em paz? Que paz é essa? A paz que Jesus deseja aos discípulos não é a da morte, do silêncio e da escuridão do túmulo, onde acabam todas as batalhas de todos os seres humanos. É aquela que, com a ressurreição, torna-se o grande anúncio pascal de vitória e de vida nova. Isso é possível porque as feridas de Jesus não são só as consequências dramáticas de uma morte terrível, de um sofrimento desumano, lá na cruz, no meio dos insultos e zombarias dos que passavam. Elas são os sinais daquela luta que Jesus travou, ao longo de toda a sua vida, contra todo tipo de mal e de pecado que nos afastam de Deus, Pai amoroso, e, com isso, impedem-nos de sermos o que todos deveríamos ser: imagem e semelhança dele.

No evangelho de João essa “luta” do bem contra o mal é apresentada de muitas formas. São as trevas que não querem acolher a luz (Jo 1,5). É a cegueira de quem não quer ver por que pensa que já sabe tudo (Jo 9,41). É a frieza de uma lei que julga cruelmente e é aplicada sem compaixão e misericórdia (Jo 8,11). É a recusa da verdade por parte de quem segue o “pai da mentira” (Jo 8,44). São os “ladrões e assaltantes” que as ovelhas não escutam ou os “mercenários” que fogem quando deveriam defendê-las dos lobos (Jo 10,8.12). É a inveja que sela o “pacto da morte” (Jo 12,10-11). É a frieza e a corrupção do traidor (Jo 18,2). Tomé sabia o valor das feridas do Crucificado. Tinha acompanhado Jesus nos caminhos da Galileia, nas disputas com os doutores da Lei, nos desafios com os f ariseus, quando tinha curado em dia de sábado, no escândalo com os sacerdotes, quando tinha expulsado os vendilhões do Templo. Tudo, porém, tinha sido em vão. Aquelas feridas, aquela morte, foram, afinal, uma grande derrota. Tomé não confiou nos outros companheiros, talvez porque já tinha desistido de crer e esperar.

É a ele, como a nós, sempre incrédulos, desconfiados e cheios de perguntas, que Jesus oferece a sua paz e apresenta as suas feridas. A luta não foi em vão, algo novo e surpreendente aconteceu, uma vida nova e diferente começou. A vitória já começa quando começamos a lutar, quando não desistimos da verdade, do bem e do amor, quando reconhecemos que o caminho é longo, cansativo e que somos tentados de desistir. Contudo, não abandonamos o campo da batalha porque não tem outro planeta mais cômodo e outra humanidade mais tranquila. É aqui, no dia a dia, que decidimos de que lado jogamos, quem e o que defendemos, para que estamos dispostos a ficar feridos e até a doar a vida. Estamos dispostos a enormes sacrifícios e renúncias para ganhar mais dinheiro e prestígio. Entregamos a nossa liberdade, a nossa capacidade crítica e até a nossa c onsciência. Calamos para não ser cobrados, lavamos as mãos para não ser incomodados. A paz de Jesus é para quem tem feridas. As feridas de quem luta pela vida, seguindo Jesus “o profeta de todas as causas justas”.


A novidade da Páscoa


É bastante fácil perceber que todos os evangelistas tiveram dificuldade para apresentar o evento da Ressurreição de Jesus. O acontecimento era tão novo, inesperado e surpreendente que, ao longo dos evangelhos, repete-se, algumas vezes, que os discípulos não entendiam bem quando Jesus falava de Ressurreição (por exemplo: Mc 9,9-10). De fato, eles tiveram que inventar palavras novas ou, seria melhor dizer, tiveram que usar palavras velhas para expressar coisas totalmente novas. Não devemos duvidar de tudo isso, também se nunca teremos provas irrefutáveis, no sentido comum da palavra. Temos, porém, o auxílio da fé que nos permite enxergar além do imediato e visível ou do material e experimentável. O assunto “Páscoa” é objeto da fé cristã, nunca será fruto de demonstrações lógicas, argumenta&cc edil;ões racionais ou algo semelhante. A Ressurreição do Senhor vai muito além do nosso mundo sensível e puramente histórico.

A novidade da Páscoa começa muito antes da radiosa manhã daquele primeiro dia da semana. Começa quando Deus, no seu projeto de amor para conosco, decidiu tornar-se, no homem Jesus, um de nós, assumindo em tudo a nossa condição humana, “menos o pecado” (Oração Eucarística IV). A novidade continuou ao longo de toda a vida terrena de Jesus. Quantas vezes lemos nos evangelhos que o povo dizia que nunca, ninguém, tinha falado como aquele homem. O evangelista João usa a palavra “sinais” lá onde nós pensamos logo em milagres. Por definição, um “sinal” aponta algo que vai além dele.

O jeito de Jesus agir, falar, perdoar, encontrar as pessoas, era um “sinal” que algo muito novo estava acontecendo. Contudo o sinal maior de todos, que não podemos separar da Ressurreição, é a morte de Jesus na cruz. A própria Ressurreição seria incompreensível sem a Paixão e a Morte de Jesus no Calvário. Nunca nos deve deixar de surpreender um Deus que se fez homem e aceitou livremente de passar pela morte, destino inevitável de cada criatura vivente, daquela forma tão injusta, trágica e vergonhosa, ao ponto de ser considerado um perigoso inimigo. A cruz era, e foi, o máximo da humilhação e do despojamento. Mas a “Cruz” se transforma em “Luz” se admitimos que a verdadeira vitória não está no poder e no sucesso, no aniquilamento dos adversários, mas na força de amar até os inimigos, de pe rdoar os próprios assassinos, de morrer para abrir um caminho de vida nova. A surpresa das mulheres e dos apóstolos ao verem o túmulo vazio foi grande demais, porque a maior derrota se transformou em vitória, o desprezo em glória, o silêncio da sexta-feira no “aleluia” do domingo. Para nós cristãos, não tem outra maneira para testemunhar a semente da Vida Nova colocada por Jesus em nossas vidas. Somente o caminho da humildade que não disputa com os soberbos, da generosidade que confunde os gananciosos, do amor que não pede devolução e reconhecimento porque é puro, desinteressado e total, pode gerar uma nova humanidade liberta das garras do mal.

Nestes últimos tempos tão tristes e dramáticos para o Brasil e a humanidade inteira, todo dia ouvimos falar de “novo” normal. Dizem isso porque ainda teremos que conviver muito tempo com a ameaça real do vírus. No entanto muitos continuam pensando que tudo voltará como era antes. Para nós cristãos “batizados”, “mortos e renascidos em Cristo”, o verdadeiro novo é aquele que Jesus ensinou, viveu e que o levou à cruz. Somente uma transformação mais radical em nossas vidas, muitas vezes acomodadas, insensíveis e superficiais, pode gerar algo realmente novo: um mundo de paz e de fraternidade, de diálogo e tolerância, de partilha e solidariedade. Se soubermos “desperdiçar”, por amor, um pouco – ou bastante – do nosso tempo, dos nossos bens, dos nossos saberes – também os científicos – come&cce dil;ará para a humanidade um novo e radiante alvorecer. Ao túmulo vazio de Jesus, absoluta novidade, deve corresponder o nosso coração esvaziado de ódio, rancores, interesses escusos e egoístas. Com esses sentimentos de fé e de esperança, desejo a todos e a todas uma Feliz Páscoa.


Setenta semanas de jejum


Contavam por aí que um sábio tinha jejuado por setenta semanas seguidas, tomando alimento somente uma vez por semana. Ele perguntou a Deus o sentido de algumas palavras da Escritura que não entendia, mas Deus não lhe respondeu. Então ele disse entre si:

– Fiz um grande esforço, mas não tive nenhum progresso. Por isso, irei perguntar ao meu irmão que me ajude na explicação. Saiu de casa, fechou a porta e começou a viagem. Um anjo do Senhor foi enviado para ele e lhe disse:

– Setenta semanas de jejum não te aproximaram mais de Deus, mas agora que tu és bastante humilde para pedir ajuda ao teu irmão, eis que eu fui enviado para te revelar o sentido das Escrituras. O anjo explicou para o sábio o que queria saber e, depois, foi embora.

Para nós, passaram somente as cinco semanas da Quaresma. Não sei se jejuamos de verdade e, sobretudo, se nos sentimos mais próximos de Deus. O sentido do jejum é mesmo dar mais valor a certas coisas e menos a outras. Têm guloseimas que dão prazer ao paladar, mas têm muitas outras que dão satisfação ao nosso orgulho e a nossa soberba. Deixar de lado a nossa autossuficiência talvez seja o jejum mais difícil. Convido, portanto, a viver a semana na qual faremos memória dos momentos mais importantes da nossa fé cristã, a Semana Santa, com humildade, mais na oração e na contemplação que na busca de razões humanas para acontecimentos tão acima da nossa compreensão. Iniciamos esta semana com o Domingo de Ramos.

Jesus entra em Jerusalém cavalgando um jumentinho, como o rei manso e humilde anunciado pelo profeta Zacarias (Zc 9,9). É um sinal que revela o entusiasmo para o novo Reino, da justiça e da paz, mas os tempos são outros e as sombras do complô contra o “bendito” que “vem em nome do Senhor”, como o povo o aclama, não tardam a aparecer. Por isso, a Liturgia nos oferece a leitura da Paixão do Senhor, neste ano, conforme o evangelista Marcos. No início desse Evangelho, está escrito que a “Boa Notícia” era a respeito de Jesus Cristo, Filho de Deus. Poucas palavras, em si, mas elas sintetizam muito mais que o assunto do livro. Esta “verdade” será a descoberta maravilhosa que irão fazer aqueles que continuarem acompanhando a narração. Assim, ao final da Paixão segundo Marcos, depois de ter visto como Jesus tinha morrido, escutaremos o cent urião romano usar as mesmas palavras: “Na verdade, este homem era Filho de Deus!”. Como é possível que um pagão vendo aquela morte vergonhosa na cruz, aquela solidão (“Todos o abandonaram e fugiram”, Mc 14,50), consiga fazer uma tal profissão de fé a respeito daquele malfeitor que ele mesmo tinha crucificado? Não sei.

O que vale é que na frente do Crucificado ninguém consegue ficar indiferente. Se pensamos que ele mereceu o suplício vamos engrossar o coro dos zombadores. Com efeito, têm muitas formas de difamar Jesus, também por parte daqueles que se declaram muito religiosos, como os sumos sacerdotes e os anciãos que o condenaram. Para fazer isso basta escolher as palavras dele que confirmam as nossas ideias e silenciar aquelas que nos incomodam. Quantas vezes preferimos adaptar os ensinamentos de Jesus em lugar de nos converter e mudar a nossa vida! Ao contrário, se o reconhecemos inocente e injustiçado, algo novo deveria acontecer com a nossa consciência e, quem sabe, reavivar a nossa fé. A cruz só se explica se acreditarmos num Deus solidário que se põe junto a todos os sofredores e excluídos, a todos os condenados porque erraram ou, simplesmente, porque não se calaram e não c ompactuaram com quem chega a usar até o nome de Deus para tirar vantagem. Com a cruz, Jesus, escolheu estar do lado dos perdedores, dos pequenos e dos fracos e não do lado dos poderosos que condenam, desmandam e oprimem. “Pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10,45). “Por isso Deus o exaltou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome” (Fl 2,9). Alegres, cantaremos a vitória de Jesus sobre a morte na noite de Páscoa.


Senhor, sorria, por favor


A Conta-se que um homem rabugento, de caráter ácido e difícil, precisou tirar uma fotografia e dirigiu-se ao estúdio de um profissional. Uma vez diante da câmara, o fotografo disse-lhe:

– Senhor, sorria, por favor. O homem, aborrecido, respondeu:

– A nós, que temos sofrido, não restam sorrisos para repartir. O fotografo insistiu:

– Eu compreendo, senhor. Mas procure sorrir apenas por um instante. Pense em algum momento bom de sua vida…Assim… E disparou a máquina. A seguir, elogiando-o disse:

– Conseguiu fazê-lo muito bem, senhor. Seu sorriso foi muito bom. Verá que na foto aparecerá melhor, com expressão mais favorável. Irá gostar. E assim aconteceu. A partir daí, todos os dias, ao levantar-se, aquele homem olhava-se ao espelho e dizia para si:

– Ande, sorria, que melhorará sua jornada. Os que tinham algum contato com ele diziam que ia se transformando cada dia, pouco a pouco, em outra pessoa, mais sorridente, mais sociável, mais amável, mais cordial, mais solícito…enfim uma pessoa melhor.

Chegamos ao Quinto Domingo da Quaresma. O evangelista João nos diz que alguns gregos, portanto a princípio, pagãos, pediram a Filipe, que talvez falasse a língua deles, para ver Jesus. Não sabemos se Jesus ficou feliz por ser famoso e nem como os recebeu. O que sabemos é que Jesus aproveitou para se apresentar e não simplesmente para deixar-se ver e, assim, satisfazer, talvez, alguma curiosidade. Parece que o evangelista queira nos dizer que todos precisamos “ver” Jesus, mas na maneira certa, sem ficar nas aparências ou através de imagens falsas e distorcidas. Jesus mesmo diz que o Pai irá glorificá-lo e a misteriosa voz do céu, confundida com um trovão, confirma isso.

No entanto, antes, ele já tinha feito uma comparação. Com ele – e com todos aqueles que o quiserem seguir e servir – acontecerá como com o grão de trigo. Deve morrer, ou seja , deixar de ser só um grão, para produzir fruto e tornar-se uma espiga. Depois disso, Jesus continua dizendo que não pedirá ao Pai para livrá-lo do sofrimento e da morte, porque esta foi a missão que o próprio Pai lhe confiou. Chegou a “hora” da verdade, do “julgamento deste mundo”. “Eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim” afirma Jesus (Jo 12,32). Palavras enigmáticas e maravilhosas ao mesmo tempo porque com uma só declaração ele anuncia a cruz e a ressurreição, que, para o evangelista João, são uma só “glorificação”. Mas como ele pode dizer que “todos” serão atraídos? Também nós que viemos depois e o resto da humanidade até o fim? Com efeito, pela morte, herança comum de todos os seres vivos, Jesus se tornou solidário com todos os seres humanos, e, igualmente, pela vitória sobre a morte abriu a todos o caminho da vida plena, a vida de Deus. Por causa desta solidariedade com a natureza humana, Jesus se sente “angustiado”. Ele não é um super-homem indiferente à morte, sabe que será dolorosa e humilhante. A cruz, porém, será também glória ao “nome” do Pai, porque no Filho unigênito “obediente” se manifestará o amor total do próprio Pai.

Cruz e ressurreição, estão mais juntas do que, às vezes, pensamos. Mais ainda quando o morrer significa jogar fora, aos poucos, da nossa vida obras, pensamentos, atitudes que geram sofrimento, lágrimas e talvez até mesmo a morte de alguém. No lugar disso, devemos colocar solidariedade, esperança e alegria. Esses frutos de vida só se multiplicam se “morremos” ao nosso egoísmo, ao orgulho e a todas as nossas maldades. Sem essa “morte” não há vida nova, sem esse morrer não há ressurreição. Entre a superficialidade inconsciente de quem pensa que nunca vai sofrer e a tristeza de quem vive acabrunhado reclamando das tristezas da vida, existe a possibilidade de transformar o sofrimento em esperança, as nossas caras fechadas e sérias demais em rostos sorridentes. Isso não porque, de repente, não temos mais problemas, mas porque acreditamos que a última palavra não será do desespero e da morte, mas da manhã luminosa da ressurreição. Um sorriso todo dia pode ser um santo remédio que nos tornará melhores.


Basta olhar os dedos da mão


A catequista ensinava às crianças: “Rezar é a coisa mais simples deste mundo. Basta olhar os dedos da mão. O polegar é o dedo mais próximo, nos lembra de rezar pelas pessoas mais queridas e que estão mais perto de nós. O índicador serve para indicar. Representa todos aqueles e aquelas que nos ensinam e que tem responsabilidade sobre nós. O médio é o maior, por isso devemos lembrar as pessoas importantes, as autoridades, em todos os setores da vida. O anular é o mais fraco e representa os enfermos, todos aqueles que estão com dificuldades. Rezamos por eles. Enfim, o mindinho é o menor, nos ajuda a lembrar os pequenos e todas as pessoas que não levamos em consideração, que são esquecidas. Bom – concluía a catequista – se me virem olhando as minhas mãos fiquem sabendo que estou rezando”.

O evangelho de João deste Quarto Domingo de Quaresma nos convida a olhar para Jesus “levantado” na cruz. A comparação vem de um episódio narrado no livro dos Números (21,4-9). Na ocasião, o povo de Israel sofreu um castigo por parte de Deus, mas, ao reconhecer a sua culpa, recebeu também a cura pela intercessão de Moisés. Os mordidos pelas serpentes venenosas deviam olhar para uma serpente de bronze levantada numa haste e ficavam curados. Quanto mais agora, explica o próprio Jesus a Nicodemos, quem crer no Filho do Homem terá a vida eterna. Com efeito, Deus não quer a morte dos homens, mas que tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10). O mundo, por errado que seja, pode ser salvo, com a condição de confiar e seguir aquele que o Pai amorosos enviou. Aqui aparecem novamente os contrastes do evangelho de João: vida e morte, luz e trevas, salvação e condenação, ações boas e ações más, preferir e odiar. No fundo, a mensagem é sempre a de um convite à decisão. As meias medidas, que são as nossas incertezas e fraquezas, devem deixar o lugar a adesão de fé plena no Filho, “a luz que veio ao mundo” (Jo 3,19). No entanto, Jesus continua: “…os homens preferiram as trevas à luz…” E depois (v.20): “Quem pratica o mal odeia a luz”. Quem olha para o Crucificado deve saber por que o faz. Também aqueles que não o olham mais ou o escondem.

O apóstolo Paulo nos ensina muitas coisas sobre a cruz de Jesus. Pode ser escândalo para os judeus, loucura para os pagãos ou poder e sabedoria de Deus (1 Cor 1,23-24).

“O que para o mundo é sem prestígio e desprezível Deus o escolheu, aquilo que é nada, para anular aquilo que é” (1 Cor 1,28). Na frente da cruz, somente, podemos baixar a cabeça e se olharmos para o Crucificado é para lhe pedir perdão, e assim nos deixar alcançar pelo seu amor total, amor ainda hoje, e sempre, desprezado e humilhado.
A cruz de Jesus incomoda, porque nós todos sonhamos com grandeza, sucesso, luxo e poder, invejamos os ricos deste mundo. Temos dificuldade a entender que toda riqueza acumulada tem o seu custo de sofrimento, exploração e miséria e, talvez, também de destruição e sangue. O mundo e a sua propaganda nos ensinam que os que fazem parte da elite poderosa são os vencedores; o restante da humanidade são os fracassados, os inúteis, os que morrem imaginando chegar aonde nunca chegarão.

Abraçando a cruz, Jesus, rosto humano de Deus, coloca-se do lado dos sofredores, dos excluídos, daqueles que podem desaparecer porque não contam, não consomem, não produzem. São todos aqueles que os abastecidos consideram somente um peso para a sociedade. Não entra na nossa cabeça ambiciosa porque o Crucificado não ganha pelo poder, não desce da cruz para esmagar o s seus inimigos. Ele desiste de todos os seus poderes para não humilhar e nem afastar ninguém, nem os que o levaram até a cruz com as suas calúnias, medos e mentiras. Este é o nosso Deus e Senhor, Jesus, o derrotado vencedor, o humilhado glorioso, o malfeitor inocente, o condenado que perdoa os que o matam.

Como a boa catequista, olhamos as nossas mãos para a aprendermos a rezar, mas, sobretudo, levantamos os olhos a Jesus crucificado para aprender a amar como ele nos amou e nos ama sempre.


Tu serás o ancião


Um monge idoso tinha um bom discípulo. Certo dia, ele estava irritado e expulsou de casa o jovem. Este se sentou fora da porta e ficou esperando. Quando o mestre abriu a porta e o encontrou ali sentado, arrependeu-se e lhe disse: “Tu és o meu pai, porque a tua humildade e paciência superaram a minha mesquinhez. Entra ! De agora em diante, tu serás o ancião e meu mestre e eu o jovem e teu discípulo. Porque o teu agir correto superou a maturidade dos meus anos”.

A partir deste Terceiro Domingo da Quaresma, encontramos o próprio da Liturgia da Palavra deste ano. Deixamos o Evangelho de Marcos para ler algumas páginas do Evangelho de João, o qual segue uma reflexão teológica e um esquema temporal próprios. Jesus é a Palavra – de Deus – que s e fez carne, é o Filho que o Pai enviou. Aqueles que o encontram devem reconhecê-lo através dos sinais e dos gestos que ele cumpre.

Depois do primeiro sinal nas bodas de Caná (Jo 2,11), Jesus sobe a Jerusalém e vai ao Templo. Cheio de zelo, com um chicote de cordas, expulsa os vendilhões acusando-os de terem transformado a casa do Pai num comércio. Os judeus pedem explicações e Jesus fala de um Templo “novo” que será o próprio corpo dele. Eles o destruirão, mas “em três dias”, Jesus ressuscitará. Segundo o evangelista João, de agora em diante, quem quiser adorar e servir a Deus, não precisa de um lugar específico mas, sim, de uma pessoa: o Filho que o Pai enviou. Com sua paixão, morte e ressurreição, Jesus é o “caminho” que nos conduz a Deus. Os sacrifícios rituais antigos não servem mais. Para o evangelista João, Jesus morre na cruz, como os cordeiros pascais aos quais não deviam quebrar nenhum osso (Jo 19,36). Agora é ele o Cordeiro imolado que salva definitivamente do pecado e da morte. Qualquer “comércio” é substituído pela gratuidade do amor, pela vida doada de Jesus. Esse amor é oferecido a todos, basta acolhê-lo.

A atitude forte de Jesus com os vendilhões do Templo pode nos surpreender. O que nos interessa, porém, é salientar a coragem e a decisão de Jesus, nem tanto a violência, se assim queremos considerar o seu gesto. Qualquer escolha é sempre a exclusão de outras possibilidades. Se não fosse assim, ficaríamos sempre na dúvida. Talvez acomodados na incerteza, protelando ao infinito qualquer decisão. Toda escolha, sabemos, tem um custo.

O tempo da Quaresma é tempo de conversão. Precisamos tomar a coragem de escolher a quem seguir e em quem, afinal, acreditamos e confiamos. Hoje vivemos um tempo de muitas propostas religiosas, algumas que nos parecem mais atrativas, cativantes e capazes de nos fazer sentir bem. Nesse caso, prevalece o nosso gosto, algo gratific ante, mais do que a busca arriscada de um Deus “Outro”, diferente, que desafia as nossas convicções. Outras vezes somos tentados de julgar os nossos irmãos que pensam diferente, achando-nos os únicos certos, melhores, imaginando uma Igreja de perfeitos e iguais, porque todos pensam exatamente como nós. Quando é assim, somos tentados de expulsar os diferentes, achamos de antemão que o diálogo com eles seja improdutivo e que “os outros” não tenham absolutamente nada para nos ensinar. Nem prestamos atenção a quem fala, pode ser até o Papa; se não pensa como nós, está fora. Educadamente, chamamos isso de “polarização”. Um pouco mais honestamente, talvez, deveríamos chamar isso de arrogância ou, infelizmente, de “divisão”, que, lembramos, é o contrário da comunhão. Em tempos em que q ualquer um julga e condena qualquer um, é urgente reconhecer quem estende a mão, quem busca escutar, quem está aberto ao diálogo. De outra forma, rapidamente, quem pensa e age diferente deixará de ser um irmão para ser um inimigo que devemos desprezar e do qual devemos fugir. A “comunhão” passa pela humildade, a correção fraterna e o respeito que sempre devemos ter até com quem consideramos errado. Melhor expulsar da nossa vida o orgulho e deixar entrar a humildade. Como fez o sábio monge ancião, que reconheceu a mansidão, a bondade e a paciência do discípulo. Afinal somos todos “discípulos” do único Mestre Jesus.


O peixinho vermelho


Uma criança de oito anos escreveu: “Meu pai fica sempre porre porque está desempregado. Minha mãe não tem dinheiro, por isso me colocaram num instituto. A única criatura que me quer bem é um peixinho vermelho que tenho numa vasilha perto de mim, também quando durmo. A diretora me d isse que não posso ficar com o peixinho e assim, de noite, durmo com a vasilha do peixinho amarrada na minha mão, porque estou com medo de acordar e não o encontrar mais. Se me tirarem o peixinho, não tenho mais ninguém que me queira bem”.

É muito difícil imaginar as marcas que ficam no coração e na mente de uma criança, quando chega a pensar não ter ninguém que a ame de verdade. Os pais devem amar os seus filhos, mas devem também dizer a eles que os amam. Isso porque o amor se manifesta de muitas formas que, nem sempre, podem ser agradáveis e condescendentes.

Pensei isso refletindo sobre o evangelho da Transfiguração deste Segundo Domingo da Quaresma. A voz do Divino Pai diz que aquele homem Jesus é o Filho “amado” e que devem escutar o que ele fala. Depois disso, tudo volta ao normal e recebem a ordem de não contar a ninguém o que tinham visto. Some nte depois da ressurreição de Jesus eles poderão falar porque, naquela hora, nem saberiam mesmo o que contar: não tinham a menor ideia do que queria dizer “ressuscitar dos mortos” (Mc 9,10).

Pouco antes, o evangelho de Marcos coloca o primeiro anúncio da paixão (8,31). Os discípulos podiam não compreender nada da ressurreição, mas sabiam muito bem o que representava a cruz. Era uma das mortes mais atrozes e vergonhosas daquele tempo. Na hora da paixão, os discípulos “abandonando-o, todos fugiram&rdq uo; (Mc 14,50). Mas o Pai? Como era possível que o Divino Pai dissesse que amava o Filho e, depois, o deixasse morrer na cruz? Onde estava o Pai na hora da paixão? Aquele era ou não era o Filho amado? Que amor de pai é esse? Parecem perguntas desrespeitosas ou curiosas demais, mas a nossa fé não pode se basear simplesmente em afirmações. Precisamos entender, ao menos um pouco, aquilo que está ao alcance da nossa inteligência. A questão do amor entre o Divino Pai e o Filho, incluindo nisso também o Espírito Santo, leva-nos ao mistério da Santíssima Trindade. Algo com certeza acima da nossa pobre compreensão humana. No entanto, bastaria lembrar as palavras do início do Evangelho de João: “E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós e nós contemplamos a sua glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e verdade” (Jo 1,14). Tudo foi feito por meio desta Palavra e “sem ela nada foi feito de tudo o que foi feito” (Jo 1,3). Portanto, o Filho “Unigênito do Pai”, desde sempre, participa do “fazer” de Deus que faz existir tudo o que existe. Igualmente, quando, no seu amor infinito, o Pai decide resgatar a humanidade do pecado e da morte, o Filho também está envolvido na obra da salvação. O Filho assume a nossa carne para reconciliar a humanidade, e toda a criação, com o Pai, e reconduzi-la definitivamente no caminho da Vida e da Luz. A cruz de Jesus não foi um preço a pagar ou uma cruel satisfação, foi a total e solidária participação do Filho, o Deus encarnado, com os demais “filhos” que o Divino Pai amoroso não queria perder. A cruz foi a entrega obediente d o Filho ao Pai, em plena comunhão com ele, para que aquele amor, que é a essência e a plenitude de Deus, chegasse a todos; e o desamor, com os seus frutos de morte, fosse derrotado uma vez por todas.

Jesus é de verdade o Filho muito amado e nele todos somos também amados. Por meio dele, o amor do Pai chega a todos os seus filhos e é oferecido novamente a todos. Por isso, João pode dizer: “De tal modo Deus amou o mundo, que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna&r dquo; (Jo 3,16). Sei que tudo isso é difícil para ser entendido. Mas não vamos dizer que ninguém nos ama. Nós participamos do amor do Pai ao Filho, amor este comprovado pela obediência da cruz. O “Filho amado” pelo Pai amou-nos “até o fim”. Quando nós também aprenderemos a nos amar como irmãos e nunca mais nenhuma criança diga que ninguém lhe quer bem? . ■


Os irmãos não precisam


Um nobre muito rico, que ninguém conhecia, chegou ao deserto de Sceti levando ouro consigo. Lá moravam alguns monges. Ele pediu ao responsável daquela comunidade para distribui-lo aos irmãos. Este respondeu:

– Os irmãos não precisam. Mas o nobre era muito insistente e não ficou satisfeito com a resposta do padre. Então, colocou o ouro numa cesta e a colocou na entrada da Igreja. O padre responsável disse:

– Qualquer um que precisar, pode pegar um pouco. Mas ninguém mexeu no ouro e nem o guardou. Então o sábio disse ao homem:

– Deus aceitou a sua oferta. Vá em paz e dê o ouro aos pobres! O rico foi embora cheio de satisfação.

No Primeiro Domingo da Quaresma, sempre encontramos o evangelho das tentações. Mateus e Lucas explicitam mais estas tentações, mas Marcos nos diz, simplesmente, que Jesus ficou no deserto durante quarenta dias “e aí foi tentado por Satanás” (1,13). Depois disso e da prisão de João Batista, ele inicia a sua itinerância na Galileia e o faz “pregando o Evangelho de Deus”. Mais uma vez precisamos buscar a mensagem particular e própria desse evangelista. A primeira impressão é que, afinal, estejamos na frente de uma única grande tentação: a de desistir e se desviar da missão que Jesus era chamado a cumprir. Ele precisava de coragem para vencer o medo de ser preso, como tinha acontecido a João Batista. Depois devia ser fiel ao “Evangelho de Deus” e, por fim, não podia deixar esse compromisso para outra vez, porque o tempo “se completou” (1,14), ou seja, aquele era o momento certo. Refletindo um pouco essas são as tentações de sempre e…de todos os cristãos.

A primeira, aquela de desistir da missão, pode ser motivada pelo medo de enfrentar dificuldades, críticas e oposições. Ou, pela simples razão de não sermos incomodados. Hoje, parece que o engajamento numa causa, mais ainda se religiosa ou pela justiça, sobretudo sem ganhar nada, seja um exagero. Em nome da moderação ou do comodismo somos tentados a ficar quietos, sendo mais espectadores que responsáveis. Espero que ninguém tenha dúvidas de que a primeira vitória do tentador acontece, justamente, quando ele entorpece e confunde a nossa consciência. Talvez consigamos expressar alguma ideia, mas assumir compromisso, estar na linha de frente, seria demais. No entanto, se aceitamos alguma responsabilidade, aparece a segunda tentação: aquela de pregar não “o Evangelho de Deus”, mas algo que seja uma boa notícia para nós, segundo as nossas ideias . Pode ser, sim, que estejamos na frente, mas não para anunciar o que deveríamos, sendo fiéis à Palavra do Senhor. Para isso, é necessário praticar a humildade de escutar sempre de novo o anúncio de Jesus e, mais difícil ainda, fazê-lo em comunidade, na fraternidade, na escuta dos irmãos de caminhada, para não perder ninguém ou, ao contrário, ficar isolados e “correr em vão”. Esse foi o medo de Paulo quando foi até Jerusalém para acertar a sua comunhão com Pedro (Gl 2,2). A terceira tentação é aquela de prometer fazer, planejar os detalhes, preparar as coisas, mas, depois, deixar tudo para outra vez. Ou seja: o tempo do compromisso verdadeiro, de arriscar, de sair em campo aberto, nunca chega. A imaginação nas desculpas é sempre extraordinária, muito menos criativa, é o nosso testemunho apagado. N&at ilde;o precisamos fazer grandes coisas erradas para cairmos nessas tentações, basta, não fazer nada. Basta desistir de anunciar o Evangelho de Deus com a nossa vida lá onde esta acontece, no dia a dia, nos encontros e desencontros com as pessoas.

A Quaresma é um tempo oportuno para avaliar a nossa caminhada, a solidez da nossa fé e do nosso compromisso com Jesus e com a nossa Comunidade-Igreja. A “conversão” é pessoal, mas é também de todos juntos. Divisões e oposições enfraquecem a nossa obra de evangelização. A luz do Evangelho fica escondida atrás dos nossos personalismos. Os irmãos verdadeiros não precisam do ouro, porque tem o tesouro da comunhão e da fraternidade. Unidos o brilho é bem maior. É o brilho de Jesus.


Apenas sete pessoas pararam


Em 2007, o violinista Joshua Bell deu um concerto no Teatro de Boston, lotado de apreciadores que pagaram, no mínimo, 100 dólares por ingresso. Dias depois, um jornal decidiu testar a cultura artística dos habitantes. Levaram o violinista para a estação central do metrô. Durante 45 minutos ele tocou Bach, Schubert, Ponce e Massenet. Eram 8 horas de uma manhã fria. Quatro minutos após iniciar o concerto subterrâneo, o músico viu cair a seus pés seu primeiro dólar, atirado por uma mulher que não parou. Durante todo o tempo do concerto, apenas sete pessoas pararam um instante para o escutar. No final, aos pés dele, estavam 32 dólares e 17 centavos. Quem mais lhe deu atenção foi um menino. Porém a mãe o arrastou embora. Quando Joshua parou de tocar, ninguém aplaudiu. Bell era considerado um dos melhores violinistas do mundo. No entanto, fora do Teatro, parecia mais um produto colocado na prateleira errada. Como se o fato de estar num lugar público tornasse a sua música de menor qualidade.

O que pensar do leproso do evangelho deste domingo? Quem dava atenção para ele? Melhor ficar longe. Jesus, porém, sente compaixão, supera as distâncias, estende a mão, toca nele e o cura. O evangelista Marcos continua a nos apresentar Jesus “pescando” os homens. Começou com os religiosos da sinagoga de Cafarnaum, depois encontrou o povo nas casas, nas ruas e agora está “fora da cidade” (Mc 1,45). Significa que o anúncio do Reino não tem limites de lugares, mas também não tem exclusão de pessoas.

A escolha do leproso é exemplar. Naquele tempo, a lepra não tinha cura. Mas, muito pior, por ser contagiosa e desfigurar os corpos, era considerada uma maldição, um castigo de Deus. Os doentes eram afastados não só da convivência humana, eram também desprezados, como se estivessem pagando por pecados inomináveis. Sabemos que Jesus ensina com o seu modo de sentir e os seus gestos. Ele, ao contrário de quem fugia dos leprosos, fica “cheio de compaixão” pelo sofrimento do homem que no desespero se joga aos seus pés e manifesta sua total confiança. O leproso clama: “Se queres tens o poder de curar-me”. Jesus atende o pedido do pobre, feito com tanta humildade e esperança. Só mais uma cura, como muitas outras? Não, mais um sinal do Reino que, com Jesus, está presente. Todas as curas são para a libertação: de “espír itos maus” que dominavam as pessoas, de males que tiravam da convivência humana, de doenças que impediam a comunicação, pela cegueira, a mudez e a surdez. A cura do leproso tem duas consequências, uma para o curado, outra para Jesus. O homem, agora sadio, desobedece a Jesus e divulga o fato. Dessa vez, porém, não é um espírito mau que está do lado oposto de Jesus. É um pobre homem que não consegue conter a sua alegria, alguém que apresenta a si mesmo como fruto da compaixão de Jesus. Ele, antes amaldiçoado, agora proclama o novo tempo das bençãos de Deus.

Para Jesus, as coisas são diferentes. Ele tocou no leproso, ficou contaminado – sabemos alguma coisa disso nestes tempos de coronavírus…- se tornou “perigoso”. Só pelo contágio? Não, é porque ele está nos “ensinando” a sermos próximo, está curando as pessoas da pior de todas as doenças: a indiferença, o não querer ver e reconhecer o sofrimento dos outros, o medo de ser incomodados e envolvidos. Jesus “quer” fazer o bem. Esse é um “poder” que todo mundo tem. Basta querer. Todos podemos nos solidarizar com alguém, tornar-nos próximos de alguém. O desinteresse e o descuido afastam, isolam, deixam morrer. A compaixão nos faz carregar o irmão. Hoje, talvez, sejamos nós a poder carregar, amanhã seremos carregados, numa corrente de amor. Infelizmente, nenhuma novidade, depois disso Jesus “ ficava fora, em lugares desertos” (Mc 1,45), como o leproso, antes. Ninguém ia visitá-lo? Se os da cidade, onde tinha curado muitos, não o querem mais…outros vêm “de toda parte”. Acontece: às vezes os cristãos, que deveriam saber “reconhecer” Jesus, não o fazem. Outros, surpreendentemente, sim. Poucos conseguem apreciar a música erudita. Mas de compaixão os cristãos deveriam ser mestre e doutores. Exemplos, enfim.