Tem milagres e milagres


Um homem atravessou terras e mares para conferir pessoalmente a fama do mestre.
– Quais milagres opera o vosso mestre? Perguntou a um discípulo.

– Bom – respondeu o discípulo – Têm milagres e milagres. No seu país é considerado um milagre quando Deus realiza a vontade de alguém. No nosso país, é considerado milagre quando alguém cumpre a vontade de Deus!

A página do evangelho de Mateus deste domingo é, sem dúvida alguma, toda especial. Pode parecer, simplesmente, algo extraordinário que Jesus realizou e que os discípulos espalharam mais tarde. Assim ficou no evangelho: uma bela – e até fácil – profissão de fé, consequência de um acontecimento inédito e surpreendente. Ou, indo além do aparente relato, esse trecho do evangelho pode ser a apresentação de uma “experiência” que foi vivida naquele tempo e que, também se de formas evidentemente diferentes, se repete ainda hoje. Continuamos a duvidar muito e, assim, sempre e de novo, precisamos segurar na mão de Jesus, cada um pessoalmente, mas, sobretudo, como Igreja-comunidade. De outra maneira, nos perdemos nos labirintos da vida. O evangelista, através de uma linguagem simbólica, apresenta-nos uma situação que estava vivendo na Comunidade onde o evangelho dele foi amadurecido. O mar e a noite, em geral, representam, na Bíblia, todas as situações difíceis. Tempestades e escuridão sempre dão medo, mais ainda quando não sabemos como reagir, quando perdemos o controle da situação. A “barca”, onde estão recolhidos os discípulos, é a própria Igreja, agitada pelas ondas das dúvidas, das perseguições, de possíveis conflitos e divisões.

Surge, então, a pergunta, nesta hora: onde está Jesus? Abandonou a sua Comunidade? Não. Jesus chega desafiando as leis da natureza: caminha sobre as águas, porque é o Senhor que – o evangelista já sabe – ressuscitou, venceu o pecado e a morte. Ele alcança a barca. Mas, é um fantasma ou será ele mesmo? É a mesma dúvida dos discípulos a respeito de Jesus, após a ressurreição, que encontramos no evangelho de Lucas (Lc 24,37). Ele, porém, os conforta com as conhecidas palavras: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” (Mt 14,27). Nesse momento, Pedro, que, afinal, representa todo cristão, expressa a sua dúvida e pede uma prova: quer também caminhar sobre as águas. Dessa vez, Jesus concorda e aceita o desafio. No entanto, como era de se esperar, a confiança do apóstolo é fraca, dura pouco. O evangelho di z que ele: “sentiu o vento”. Pedro, percebe a loucura do que está fazendo e a absoluta novidade do que está acontecendo. Não era possível que o “impossível” estivesse acontecendo e começa a afundar. Invoca Jesus como “Senhor”, ou seja, faz um ato de fé, e pede para ser salvo. Jesus não está longe, está bem aí, pronto a segurar a mão de Pedro até subirem, seguros, na barca. Óbvia é a reprovação de Jesus. Sobrou dúvida, faltou fé. A proclamação seguinte é igual à profissão de fé do centurião após a morte de Jesus na cruz (Mt 27,54). Só resta prostrar-se e adorar o “Filho de Deus”. O medo e a escuridão da noite desapareceram. É tempo de bonança.

A mensagem é clara: o evangelista nos convida a confiar sempre em Jesus, não importam as tempestades e os momentos de escuridão em nossa vida e na vida da barca-Igreja. Quantas vezes, talvez, pensamos que tudo esteja desmoronando, que tantos esforços e iniciativas tenham sido em vão. Essa é a nossa fraqueza: queremos ver resultados e que as coisas aconteçam segundo os nossos planos pessoais e, muitas vezes, também comunitários. Gostamos de aparecer, estamos doentes de fama e sucesso. Ainda não entendemos que o Reino de Deus é, antes, obra dele e cresce no silêncio e no escondimento, como a semente de mostarda ou o fermento na massa. Contudo, o pior acontece quando seguramos na mão de Jesus, mas para sermos nós a conduzi-lo onde nós queremos e não o contrário. Devemos segurar sim, sempre, na mão dele, mas para nos deixar conduzir por ele. Onde for, sem medo de a rriscar. Esse, talvez, seja mesmo o único milagre do qual precisamos para não afundar: sermos nós a cumprir a vontade dele.


Crise alimentar, crise humanitária


“Nenhuma região do planeta está isenta de uma possível crise alimentar bem próxima causada pela pandemia covid-19. A Organização das Nações Unidas para a alimentação e a agricultura (FAO) em conjunto com o Programa Alimentar Mundial (PAM) prepararam uma lista de ao menos 27 países que correm o risco da fome e, em alguns casos, já estão vendo o desgaste da insegurança alimentar experimentando um aumento considerável do número de pessoas levadas à fome extrema”. Isso revela o relatório das duas Agências da ONU apresentado à imprensa alguns dias atrás.

Nos próximos meses, as previsões, para alguns países da Ásia, da América e da África, são das piores. Também porque alguns desses países já viviam uma crise alimentar grave antes da pandemia. As causas diversas: recessão econômica, instabilidade e insegurança, eventos climáticos extremos como seca ou inundações, pragas na agricultura. Como será o futuro? Quantos milhões de seres humanos morrerão pela fome? Quantas crianças não desenvolverão as suas capacidades por causa da desnutrição? O que acontecerá no Brasil?

No domingo do evangelho da “multiplicação” dos pães e dos peixes começo a minha reflexão com essas notícias. Não é uma historinha imaginária. É a duríssima realidade de milhões de seres humanos como nós, com as mesmas necessidades de alimento e de água. Com a mesma vontade de viver! Mas o que podemos fazer? Todos nós nos sentimos impotentes frente às dimensões da crise, no entanto a nossa consciência de cristãos e de pessoas “humanas” não pode nos deixar indiferentes. Se acreditamos, as palavras de Jesus podem nos ajudar a entender e, espero, também a agir.

A primeira palavra é “compaixão” (Mt 14,14). Ao sair do barco, Jesus vê o povo e se enche de compaixão. É o sentimento de quem abre o seu coração para deixar entrar o sofrimento dos outros. A dor alheia se torna também a nossa. Mexe conosco. O contrário, evidentemente, é fechar os olhos, virar as costas e esquecer ou a desculpa de sempre: eu não sabia! São tantas as formas para calar a nossa sensibilidade. Curioso: choramos e torcemos para que o bem triunfe assistindo a filmes e telenovelas, mas estamos prontos a julgar um pobre como preguiçoso e vagabundo. Quando desistimos de ser “humanos”, deixamos também de sermos imagem e semelhança de um Deus que se revelou amoroso e compassivo.

A segunda palavra de Jesus é um verdadeiro desafio para os discípulos: – Dai-lhes vós mesmo de comer! (Mt 14,16). Eles só têm “cinco pães e dois peixes”. Pouco demais para a fome da multidão. Contudo, dá para começar. Talvez o segredo esteja nisto: ousar algo novo, algo que parece impossível. Arriscar a partilha, arriscar uma nova economia mundial. Ilusão? Papa Francisco sempre nos fala para sermos criativos, de abrir caminhos novos, de não esperarmos pelos outros. Não é possível que uma humanidade tão fecunda de tecnologia nas comunicações, nas armas letais, nos gastos enormes para shows espetaculares, não saiba o que fazer para resolver a fome no mundo. Estamos chegando em Marte, mas estamos “perdidos” ainda por aqui, no planeta Terra, porque estamos “perdendo” milhões de vidas humanas.

A terceira palavra de Jesus é: – Trazei-os aqui (Mt 14,18). Ele pede que confiem nele, que acreditem que o impossível pode acontecer com a compaixão e a partilha. Mas não só naquele momento, por causa daquela fome, mas sempre. Jesus nos pede para aprendermos com ele a vencer o medo de sermos mais fraternos e solidários. É por isso que o evangelista Mateus nos deixa perceber, antecipadamente, os gestos da Eucaristia, o que Jesus fará na despedida da Última Ceia.

Esse é o “milagre” que não pode parar de acontecer: uma turma de discípulos que continua a manter viva a memória-presença de Jesus, reparte o Corpo e o Sangue dele, para construir uma humanidade “nova” de irmãos, sem ódio, sem ganância, sem fome.
A Eucaristia não é só a “comunhão” com Jesus Cristo sacramentado, é também comunhão com aqu ele Jesus que está com fome e que um dia vai nos dizer “foi a mim que o fizestes”.


O buraco na cerca


Uma ovelha descobriu um buraco na cerca e saiu do redil. Estava muito feliz por ter fugido. Foi bem longe e se perdeu. Descobriu, então, que estava sendo perseguida por um lobo. Ficou apavorada, correu, correu, mas o lobo estava sempre atrás dela. Até que enfim chegou o pastor. Salvou a ovelha e a reconduziu ao redil. Todos disseram para ele  consertar a cerca, mas o pastor não o fez. Deixou o buraco.

Com tantas parábolas de Jesus, por que mais uma historinha, tão pouco diferente daquela da ovelha perdida? É um convite a reconhecer o fio condutor das parábolas que já encontramos e das últimas que, neste domingo, concluem o discurso de Jesus. Se o pastor da nossa historinha não quis consertar  o buraco na cerca foi por uma razão muito simples: foi para que a ovelha conseguisse “administrar” a sua liberdade. Ela mesma devia aprender a decidir e a assumir as consequências das suas ações. Óbvio que estamos falando de nós humanos e não de ovelhas. Se não o quisermos, não somos obrigados a ser bons. Menos ainda se o fazemos por medo ou covardia. Deve ser uma decisão bonita, grande, que revela o que realmente vale mais do que tudo para nós na vida. Todas as nossas decisões, também as pequenas e ordinárias, manifestam o que de f ato estamos buscando.

Acredito que seja este o sentido das primeiras duas parábolas que encontramos no evangelho de Mateus deste domingo. Com certeza, parece-nos bastante exagerada a atitude do homem que encontra o tesouro, como também do comprador de pérolas, que vendem tudo o que têm para comprar aquele campo e aquela pérola preciosa. Para nós foram, no mínimo, imprudentes. E se estivessem enganados? Teriam perdido tudo! Mas é justamente isso que Jesus quer nos dizer. Quem errar o sentido da vida, perde tudo mesmo. Gastou à toa os seus dias, os dons que recebeu e que devia aprender a administrar.

Ao contrário, quem faz do “reino dos céus”, da sua busca e do seu crescimento, o sentido de sua vida, ficará “cheio de alegria”. Onde está a liberdade? No valor que damos ao “reino”! Se, para nós vale pouco, ficará às margens da nossa vida, só alguns minutos por semana ou uma missa ao ano. Ou talvez, todo domingo, fiéis no compromisso, mas tão distantes com a mente e o coração, que mal lembramos da Palavra de Deus ouvida e, menos ainda, da eucaristia – “comunhão” que não pode estar junto com brigas, egoísmos e divisões. O que Jesus nos pede é a coragem de tomar uma decisão sem equívocos, sem incertezas, sem arrependimentos, com muita liberdade e alegria interior. Por isso, Deus, na sua bondade nos deixa livres, porque somente uma escolha amorosa e sem constrangimentos tem valor. Confiamos tan to no Se nhor que, por causa dele, estamos dispostos a arriscar o sentido da nossa vida inteira. Ou seja: do nosso trabalho, da nossa família, da nossa posição social, da nossa participação na política, no sindicato, nas lutas pela dignidade e os direitos humanos, na própria Igreja. O “evangelho do reino” ou é uma luz que ilumina todos os recantos da nossa vida ou acaba na penumbra das indecisões ou no depósito  escuro dos projetos nunca realizados.

A última parábola dos peixes “bons” e dos “que não prestam” lembra aquela do joio e do trigo. Como bem sabemos, na variedade da vida tem de tudo e, facilmente, julgamos conforme as ideias e as circunstâncias do momento. Somos sujeitos a cometer muitos erros. O que parecia bom, talvez não o fosse tanto assim e o que parecia mau, na realidade, fazia parte de um projeto justo e valioso. Quantos condenados, ao longo da história, mais tarde foram chamados de herói e quantos pagaram por erros não cometidos. Primeiro entre todos o próprio Jesus, o inocente crucificado. No fim dos tempos, saberemos a verdade para o nosso arrependimento ou a nossa alegria. Jesus pergunta também a nós: “Compreendestes tudo isso?”. No entusiasmo, os discípulos responderam que sim. Mais tarde, porém, na hora decisiva, o abandonaram e fugiram (Mc 14,30). O buraco para desistir cont inua abe rto. Cabe a nós fechá-lo de vez se acharmos que vale muito mais fazer parte do “reino”.


O atalho


Um pai acompanhou seu filho à Universidade. Quando viu o plano dos estudos, meneou a cabeça em sinal de desaprovação. Conseguiu um encontro com o Reitor da Universidade e lhe perguntou:

– Meu filho deve seguir este programa? Não seria possível encurtar? Ele quer acabar logo.

O Reitor respondeu:

– Com certeza seu filho pode seguir um Curso mais breve. Tudo depende daquilo que ele quer ser. Quando Deus quer fazer crescer um carvalho, demora vinte anos. Mas gasta só dois meses para fazer crescer uma abóbora.

Uma historinha “da roça” para introduzir a parábola de abertura do capítulo 13 do evangelho de Mateus, a bem conhecida parábola do semeador que encontramos neste 15º domingo do Tempo Comum. Essa parábola é toda especial. É a primeira do “discurso em parábolas” e suscita, imediatamente, a curiosidade dos discípulo que querem saber por que Jesus ensina dessa forma e não com discursos eloquentes e claros.

Mais do que a explicação da parábola em si, que também encontramos no evangelho deste domingo, é, justamente, a resposta de Jesus à pergunta dos discípulos que deve chamar a nossa atenção. Segundo ele, as parábolas têm uma mensagem, digamos, escondida; são “os mistérios do Reino dos Céus”. No entanto, a alguns é dado entendê-las ( Felizes sois vós… Mt 13,16) e a outros não. Seria essa compreensão, então, um privilégio, uma discriminação ou outra coisa? Não. A explicação de Jesus é clara: não basta ter ouvidos para escutar e nem olhos para ver. A condição necessária para a compreensão das parábolas é ter, antes de tudo, um coração sensível e aberto. As parábolas não são en igmas in compreensíveis. O que falta é a vontade de se deixar questionar por elas e, portanto, a indisponibilidade a se converter e ser curado.

O que Jesus disse vale para sempre e para todos, porque serve para toda a Palavra de Deus! Não basta “ler” as parábolas – ou a Bíblia toda – para que elas consigam alcançar o mais profundo da nossa vida. Precisa algo mais. As parábolas, como os gestos, os ensinamentos e, sobretudo, a própria pessoa de Jesus, “revelam” a novidade surpreendente do Reino. Nele já está presente o Reino. Os “pequeninos” conseguem ver isso, mas não os “sábios e entendidos”, como dizia o evangelho de domingo passado. A maior verdade que Deus quis nos fazer conhecer, que afinal é o seu amor sem limites, é simples e pequena, como uma semente e, de muitas formas, é oferecida a todos. A semente que o semeador espalha, a Palavra, o anúncio do Reino, se não vem logo roubada, é fecunda, brota sempre, também em condições adversas. No entanto só pode produzir fruto quando os terrenos, que, afinal, somos nós – a humanidade – a defendemos, a cuidamos, dispomo-nos a deixá-la crescer. Pela parábola, aprendemos que o semeador não olha para os terrenos antes de jogar a semente. Ele a espalha assim mesmo, com abundância e até desperdício se temos uma visão gananciosa. Mas ao Pai e ao Filho, que ele enviou, não interessa poupar a semente, interessa alcançar os terrenos, as diferentes circunstâncias da vida, a diversidade das pessoas e dos seus corações. Somos sempre nós que reagimos, de tantas formas diferentes, à fartura da Palavra que nos é oferecida.

Provavelmente todos nós já temos experimentado o entusiasmo que dura pouco, o medo das críticas e das zombarias, o sufoco das preocupações deste mundo. Nem precisa incomodar o Maligno para admitir o quanto pouco fica das missas, pregações e rezas das quais participamos. Continuamos o nosso caminho, indiferentes, como se tivéssemos ouvido e visto nada. Simplesmente distraídos ou superficiais. Graças a Deus, o “semeador” nunca desiste. Manda uma mensagem atrás da outra, na esperança que um dia possamos produzir algum fruto. Pode ser o simples “frango de rama”, como o nosso povo chama a abóbora , mas, que bom, quando a semente cresce até ser uma árvore frondosa. Mas esta já é outra parábola (Mt 13,31-32).


A escada da oração


Um famoso produtor cinematográfico suscitava a curiosidade de todos, porque tinha o costume de usar as escadarias de serviço do edifício onde trabalhava todo dia e nunca aproveitar do elevador.

Um dia, o pessoal quis saber o porquê dessa escolha. Ele simplesmente respondeu:

– Seria mais fácil usar o elevador, mas eu prefiro a minha “escada de oração”. Pela manhã, subo a escadaria devagar e, assim, tenho alguns minutos de oração. Peço a Deus que me dê luz para tomar as decisões certas ao longo do dia. Lembro-me dos milhares de pessoas que trabalham nas minhas empresas e os milhões que irão assistir aos nossos filmes. Ao entardecer, desço também a escada para ter tempo de agradecer ao Senhor pela sua ajuda.

Muitos devem ter pensado que era um esforço inútil e uma burrice. Podia rezar em outro lugar e em outro momento. Verdade. No entanto, para aquele senhor, muitas coisas se passavam por sua cabeça subindo e descendo as escadarias. Orar a Deus e preocupar-se com a situação dos demais tornava leve a sua fadiga. Quem age por amor, não sente, digamos, tanto assim, o peso do seu esforço. A certeza de ajudar alguém alegra o coração e multiplica as forças. Ao contrário, quando fazemos as coisas por obrigação, por interesse ou sem nenhuma motivação significativa, tudo fica mais cansativo e buscamos encontrar todas as formas possíveis para aliviar, ou mesmo burlar, os nossos compromissos. Este é, em poucas palavras, o ensinamento do evangelho deste domingo. Jesus fala do “jugo” e do “fardo” dele que, para quem os carrega com o mesmo espírito amoroso, tornam-se “suave” e leve”. Será que acreditamos nisso? Antes, porém, vamos lembrar outras palavras do trecho evangélico deste domingo, no qual Jesus louva ao Pai porque esconde certas “coisas” aos sábios e entendidos e as revela aos pequeninos. Que “coisas” serão essas?

Continuamos com a leitura do evangelho de Mateus. Jesus lamenta a incredulidade das cidades por onde passou. O anúncio do Reino foi acompanhado por sinais. Justamente aqueles que os profetas tinham apontado como distintivos do “messias”. Foi também lembrando esses mesmos sinais que Jesus respondeu à pergunta de João Batista se era ele, Jesus, o esperado ou se deviam aguardar outro. Com todas essas manifestações, os moradores daquelas cidades não deviam ter reconhecido e acolhido Jesus como o “ Cristo”? Não foi bem assim e nós conhecemos o desfecho da missão de Jesus. Com esta recusa já aparece, no horizonte, a sombra da cruz. Mas será que ninguém mesmo compreendeu a novidade que a própria pessoa de Jesus representava e realizava?

Eis a resposta do evangelho de Mateus: “os pequeninos”! Eles acolheram o profeta da Galileia! Com o título de “pequeninos”, algumas vezes, é indicado o pequeno grupo dos seguidores de Jesus, mas, neste trecho, quem está do lado oposto são os “sábios e entendidos”, ou seja, todos aqueles que se achavam autorizados a julgar o falar e o agir de Jesus. São os adversários de sempre: fariseus e doutores da Lei. Então, Jesus nos diz, hoje, algo maravilhoso: entender e acolher o Filho – e todas as “coisas” que ele nos trouxe – é dom do Pai que, gratuitamente, as revela a quem ele quer, preferencialmente, aos “pequeninos”, aos simples e aos pobres.

Por sua vez, o Filho, com o seu falar e agir revela o Pai. Mais uma vez, somos convidados a nos esvaziar dos nossos esquemas e preconceitos para pedir ao Pai que torne os nossos corações capazes de acolher Jesus.

Nesta altura, podemos entender que têm visões da vida e da sociedade que são pesadas, porque geram disputas, preocupações exageradas, brigas, confusões, “estresse”.

Os “pequeninos” começam a entender que um olhar e um agir mais amorosos e fraternos, consequência do seguimento de Jesus, conseguem tornar a vida mais leve, porque mais rica de sentido e valores. Nas subidas e descidas da vida, o cansaço de “lutar” por amor a Deus e ao próximo sempre será mais leve e gratificante do que gastar a vida atrás dos próprios interesses egoístas e gananciosos.


Amar a Igreja


A Solenidade de São Pedro e São Paulo é festa de toda a Igreja. Esta Igreja feita de santos e pecadores, cujo rosto muitas vezes nos parece inexoravelmente manchado e outras resplandecente de luz.

Encontrei umas palavras do Papa Paulo VI, agora santo, numa homilia de Pentecostes, quando ainda era arcebispo de Milão, em 1955. Elas chamaram a minha atenção porque ele foi um homem apaixonado pela Igreja e, muitas vezes, ensinou que devemos amá-la como amamos nossa mãe. Mas, naquela homilia, ele resumiu o amor maternal que ela, a Igreja, tem para conosco debruçando-se sobre qualquer situação humana e o fez com estas palavras: “crianças, nos acolhe; jovens nos exalta; adultos nos bendiz; idosos nos assiste; morrentes nos conforta; defuntos nos lembra; pobres nos prefere; doentes nos cura; pecadores nos alerta; arrependidos nos perdoa; desesperados nos recria”. Se a Igreja está sempre pronta a nos oferecer tudo isso, porque ofendê-la, criticá-la, desprezá-la? Deveríamos agradecer. A nossa “santa” Igreja tem defeitos e sempre precisa de convers&atild e;o e reforma. Por ser também humana, nunca será perfeita aqui neste mundo. Mas erramos quando pretendemos melhorá-la de longe, de fora. Não tenho dúvida, a Igreja toda será melhor se eu, se cada um de nós, for melhor, mais santo. Por isso, escolhi refletir sobre este assunto na festa de São Pedro e São Paulo, pedras fortes e colunas desta nossa, espero, amada Igreja.

Como qualquer cristão, nenhum dos dois nasceu santo, ambos erraram muito antes de acertar seguir Jesus mais de perto e até o martírio. Pedro deixou tudo para acompanhar o mestre, tinha jeito de líder, dava conselhos a Jesus para que entrasse no esquema de messias que ele, Pedro, sonhava. Possuía uma espada, guardada em caso de necessidade, mas, na hora do medo, bastaram as palavras de uma empregada para fazer-lhe negar o Senhor três vezes. Depois que Jesus olhou para ele, porém, envergonhou-se muito do que havia feito e chorou amargamente a sua traição. Foi um banho regenerador. Daquelas lágrimas nasceu um Pedro renovado, mais humilde, mais amoroso. O dom do Espírito Santo lhe deu a coragem de anunciar a ressurreição do Senhor a todos e de defendê-lo perante o Sinédrio. Seguiu firme até dar a sua vida, mártir, em Roma.

O caminho de Paulo foi diferente, quase o contrário. Começou com muita raiva dos cristãos, queria acabar com eles porque achava que, fazendo isso cumpria a vontade de Deus. Ele nunca escondeu a sua história. Sabia que ainda, muitos anos depois, desconfiavam dele e que os antigos amigos, os judeus, o odiavam, o perseguiam e queriam vê-lo morto. No entanto toda as suas certezas e seguranças ficaram lá, no chão, na estrada de Damasco. Reconheceu a sua cegueira e, quando reabriu os olhos, entendeu que tudo era bem diferente. Aquele Jesus, o crucificado – agora ressuscitado – o chamava para uma missão absolutamente nova: anunciar o Evangelho aos pagãos, justamente àqueles que ele, antes, considerava irremediavelmente perdidos e recusados por Deus. Foi o apóstolo certo porque conhecia a língua deles, as suas cidades e os seus costumes. Em Roma, também, derramou seu sangue.

É bonito, no dia de São Pedro e São Paulo, rezar pelo Santo Padre, Papa Francisco, pelos pastores, pelos animadores, pelos cristãos e cristãs que ainda hoje não podem manifestar livremente a sua fé e correm risco de vida. Precisamos ter um olhar grande, quando avaliamos a nossa Igreja. É bem antiga, vem lá do começo, dos apóstolos. Quantas ações maravilhosas já realizou! Quantas vezes teve que mudar, pedir perdão, curar feridas, buscar novos rumos!

Papa Francisco convocará um Sínodo sobre a “sinodalidade”. Quase para nos lembrar que devemos sempre mais aprender a caminhar juntos, a decidir juntos, a nos sentir parte viva da mesma família. Somos pecadores? – e quem não é? – a Igreja nos acolhe e perdoa.
Achamos-nos tão bons para julgar os irmãos? Partilhamos com eles as nossas virtudes e dons, mas, nunca, nunca, ficamos fora da mãe Igreja. Acabaríamos órfãos por escolha nossa, não por culpa dela.


O medo e o engano 


Os discípulos perguntaram ao mestre:
– Qual é o maior inimigo da iluminação?
– O medo. Respondeu o mestre.
– E de onde nasce o medo? Quiseram saber. – Do engano. Respondeu o mestre.
– Mas o que é o engano? Continuaram a questionar os discípulos. – Engano é acreditar que as flores ao nosso redor sejam serpentes venenosas.
– Mas então, como é possível conseguir a iluminação. Eles continuaram a indagar.
– Abram os olhos e reparem bem. Respondeu o mestre.
– Reparar o que, mestre? Falaram juntos os discípulos.
– Que aqui, ao nosso redor não tem  cobra nenhuma! Concluiu o mestre.

“Não tenhais medo!” São as palavras de Jesus repetidas três vezes no evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum. Mas por que ter medo? Depois da escolha dos “12”, o evangelista Mateus coloca mais um discurso de Jesus para orientar a missão dos apóstolos. Ele é o primeiro a saber que anunciar a novidade do Reino de Deus não será um trabalho fácil. Eles encontrarão muitas dificuldades, serão “como ovelhas em meio a lobos” (Mt 10, 16), serão rejeitados pelos próprios familiares e odiados por muitos. O que Jesus está pedindo é a participação deles numa missão audaciosa, com resultados duvidosos e prêmio imediato nenhum. Ele chega a dizer: “Se ao dono da casa chamaram de Belzebu, quanto mais aos membros da casa!” (Mt 10, 25). Eles teriam, portanto, todo direito de ter muito medo. Mas Jesus insiste: &ldq uo;N&ati lde;o tenhais medo”.

Para vencer esse medo é necessário acreditar, ao menos, em três coisas. A primeira é a promessa que tudo o que ficou escondido será revelado. A referência pode ser as grandes ilusões que fascinaram e continuam a atrair grande parte da humanidade. Todo sistema se considera perfeito e toda ideologia infalível, por isso tem  um conjunto de “verdades” indiscutíveis que devem ser aceitas cegamente pelos seguidores. Quem não concorda é considerado um perigoso inimigo.

Outra possibilidade é que o evangelho fale das inúmeras calúnias levantadas contra os cristãos para eliminá-los. Por isso, logo depois, Jesus fala de não ter medo dos que podem matar o corpo, mas não a alma. Essa é a segunda afirmação na qual precisamos acreditar e nela acreditaram os mártires cristãos de todos os tempos. Preferiram desistir desta vida terrena que deixar de proclamar a própria fé em algo bem superior: aquela Vida plena que somente Deus pode dar aos seus amigos. Mártir significa “testemunha”. Quem não está disposto a sofrer por aquilo que acredita ser tão bom, justo e valioso ao ponto de arriscar perder a sua vida, deixa muitas dúvidas sobre no que acredita realmente. Que lição para nós, sempre dispostos a acomodar as coisas! Os mártires verdadeiros nunca foram atrás do mart&ia cute;rio , mas quando chegava o momento, não o consideravam uma punição, mas, nada menos, que um “dom” de Deus. Pediam força para vencer o medo, não para serem poupados.

Loucura? Não, fé luminosa, porque confiavam na infinita misericórdia do Pai. Essa é a terceira e a mais importante verdade na qual precisamos acreditar. É a decisiva. O Pai, diz Jesus, toma conta dos pássaros, conhece e ama a cada uma das suas criaturas mais do que pensamos.

O medo toma conta de nós quando nos encontramos na frente do desconhecido, daquilo que não entendemos e que escapa ao nosso controle. Por isso, os poderosos deste mundo querem saber tudo e todos os detalhes das manobras dos adversários. Nós também temos medo da opinião dos outros, de ser apontados como esquisitos, beatos, atrasados e tudo aquilo que muitas vezes escutamos. Isto não significa que devemos sempre apanhar, mas que vale mais a fidelidade nossa e de toda a Igreja ao Evangelho que um consenso duvidoso ou uns aplausos interesseiros. Ao contrário, o medo e a desconfiança de ser usados para outros fins que não sejam o bem comum e a justiça podem nos ajudar a sermos mais fiéis à causa de Jesus. Devemos sempre pedir a luz do Divino Espírito Santo para distinguir as cobras venenosas das serpentes inofensivas. Muito mais devemos apreciar o perfume das muitas flores ao nosso re dor, par a que a vida se torne um jardim para todos. Têm muitas pessoas de boa vontade, graças a Deus! Basta saber vê-las.


Sempre atento na estrada


Uma jovem mulher queria tirar a carteira de motorista e se inscreveu numa autoescola. Certo dia, durante uma aula de direção prática, numa rua com muito trânsito, o instrutor disse baixinho no ouvido dela:

– Ouvi bem? Você me chamou de “meu querido”?

– Senhor! – gritou espantada a jovem se virando para o lado do homem. O instrutor, sorrindo, disse para ela continuar olhando para a rua. Depois acrescentou: – Não se preocupe. Faço isso com todos os alunos, para lhe ensinar uma lição: não ligue para o que os outros lhe dizem. Quem dirige deve ficar sempre atento na estrada.

No 11º Domingo do Tempo Comum, retomamos a leitura do evangelho de Mateus.

Depois do grande discurso do Monte (cap. 5-6 e 7), o evangelista apresenta as “obras” do Messias, sobretudo as curas e a tempestade acalmada. No entanto Jesus não deixa de chamar pessoas a segui-lo, como faz com Mateus, o cobrador de impostos. É, porém, na página deste domingo que Jesus escolhe os “12”. Os nomes deles estão aí, para sempre, com as suas diversidades, dúvidas e medos, como veremos no próximo domingo. Era comum, naquele tempo, e hoje também, com as devidas diferenças, que um “mestre” tivesse ao seu redor discípulos dispostos a aprender com ele. “Seguidores” de verdade, prontos a partilhar a vida dele, não meros amigos virtuais, cada um sentados no sofá da sua casa, como acontece em nossos dias. Eles tinham deixado família e trabalho para segui-lo.

Essa tinha sido uma primeira virada na vida deles. Agora Jesus os envia em missão com algumas recomendações claras, inovadoras e muitos desafios. Antes, porém, o evangelista coloca novamente Jesus “vendo” as multidões. Na primeira vez, depois de “ver” as multidões, ele tinha oferecido o seu ensinamento (Mt 5,1-2). Dessa vez, o seu coração se enche de compaixão pelo povo cansado e abatido, parecendo “ovelhas que não têm pastor”. Ou, numa outra comparação, um campo pronto para a colheita, mas largado por falta de trabalhadores. Jesus convida a rezar, a pedir ajuda ao “dono da messe” e, ele mesmo, começa a escolher e a enviar os operários.

Com isso, entendemos que a Igreja é missionária por constituição. O dia que deixasse de evangelizar, deixaria de ser a Igreja que Jesus quis. Mas, atenção, junto com a ação vai também a oração, porque sem a força e a luz do Espírito Santo a missão se tornaria propaganda. Ela não é o resultado de um planejamento ou de um esforço de vontade nossa, como diz Papa Francisco, na sua mensagem para o Dia Mundial das Missões do próximo mês de outubro: “É Cristo que faz sair a Igreja de si mesma”.

Tudo isso, porém, não significa que a obra, nunca acabada, do anúncio do Evangelho seja algo improvisado, sem rumo, sem meta e sem conteúdo. Não. Jesus, é claro. Tem que começar pelas “ovelhas perdidas da casa de Israel”, o povo eleito. Depois virão também os samaritanos e os pagãos, como os apóstolos fizeram. Fundamental, contudo, é a mensagem que devem comunicar: “O Reino de Deus está próximo”. Deus não está longe, está aqui no meio da humanidade, deixa-se encontrar, porque fala, cura, doa vida nova, salva e liberta por meio do seu Filho Jesus. Por fim, um sinal inequivocável para reconhecer a autêntica ação evangelizadora: a gratuidade. A missão não é um “negócio”. Quem reconhece ter sido alcançado “de graça”, sem merecimento algum, pelo amor de Deus, por puro dom da sua bondade, deve também partilhar generosamente este bem tão precioso com quem o quiser acolher.

Esse é o “foco” da missão da Igreja: fazer saber à uma humanidade confusa e atraída por infinitas propostas de felicidade que o caminho para dar um sentido grande à vida é o seguimento de Jesus Cristo. Com ele, aprendemos a confiar no único “mandamento” que é o verdadeiro bem ao nosso alcance e que ninguém pode nos roubar: o amor doado que nos faz felizes alegrando os outros. O cristão é como um motorista que está dirigindo. Não pode se deixar distrair por qualquer conversa ao seu redor. O seu olhar deve ficar sempre atento na estrada. Jesus é, ao mesmo tempo, o caminho e a meta da viagem. Vamos lembrar.


A hora certa


Um sacristão ligava, todos os dias, para uma emissora de rádio da sua cidade para saber a hora exata. Certo dia, um dos operadores da rádio, intrigado, quis saber por que ligava para lá todos os dias.

– Quero estar certo com a hora de meio dia, quando devo tocar os sinos da torre. Respondeu o sacristão.

– Mas como? Rebateu o operador: – Eu regulo o relógio da Rádio com o toque dos sinos!

Afinal, quem regulava quem? Quem estava certo e quem errado? A conclusão é simples: todos precisamos de alguma coisa, ou de alguém, que nos faça sentir seguros, certos. Não para sermos dependentes, mas para ter alguma referência e não ficarmos perdidos na incerteza ou fechados na nossa orgulhosa e falsa infalibilidade.

Na primeira semana após Pentecostes, a Liturgia nos convida, todo ano, a celebrar o Domingo da Santíssima Trindade. É sempre uma oportunidade para refletir sobre algo de tão grande e misterioso que, com certeza, está acima do nosso pequeno entendimento. Não estou falando, porém, da nossa inteligência. No meio da humanidade, em todos os tempos e em todos os lugares existiram, e existem, grandes gênios, mas aqui não se trata disso. Nem é questão de ter estudado mais ou estudado menos. O que nós cristãos sabemos é o que, acreditamos, foi-nos revelado pelo próprio Deus. Com Jesus, ele, Deus, nos deixou “espiar” um pouco da sua intimidade.

O Filho feito homem, Jesus, disse que ensinava tudo o que tinha ouvido do Pai e que tudo o que era do Pai era também dele (Jo 16,13-15). Por sua vez, sempre o Filho, disse que o Espírito Santo teria lembrado “tudo” o que ele, o Filho, tinha ensinado, ou seja, nada mais disso. Dito em forma simples – e banal, me perdoem -: o Pai não tem segredos para o Filho e o Filho não tem segredos para o Espírito Santo. Todos se conhecem e se entendem maravilhosamente.

Quando algo semelhante acontece entre nós humanos, chamamos isso de amor, porque somente quem ama não tem nada para esconder e pode abrir totalmente o seu coração à pessoa amada. Sabemos disso desde as mentirinhas de crianças. Depois, crescemos, e, infelizmente, aprendemos a mentir, fingir e enganar. Na incerteza criamos defesas, alimentamos desconfianças, cultivamos suspeitas. Muitas vezes, temos medo de amar, ou de tomar decisões importantes, porque temos receio que alguém nos manipule e aproveite da nossa boa-fé. Na primeira carta de João lemos diferente: “No amor não há temor” (1 Jo 4,18). Em Deus Trindade a comunhão de amor é perfeita, a confiança é total, não há divisão, é um único Deus. É verdade que o Filho “obedece” ao Pai, mas, custe o que custar, o faz com adesão livre e absol uta. O E spírito também não “pensa” diferente. Nos ajuda a proclamar que “Jesus é o Senhor” e ora conosco o Pai. Tudo e sempre com amor e por amor, que afinal é a única verdadeira liberdade. Somente assim ninguém depende de ninguém porque todos comungam da mesma vontade, do único projeto de amor e misericórdia em nosso favor. Nós humanos, pobres coitados, pecadores, esquecidos e ingratos.

Quanto poderíamos aprender meditando sobre o “mistério” da Santíssima Trindade!

Entre nós funciona diferente, já sabemos. Estamos doentes para receber aplausos. Nos achamos importantes quando temos “seguidores” nas redes sociais. Bebemos avidamente de frases estrondosas quando pensamos que “todos” estejam gritando o mesmo. Espalhamos notícias “compartilhadas” por milhares ou milhões sem saber se vale a pena ou se é verdade. É mais cômodo repetir os outros que refletir com a nossa cabeça e decidir com a nossa vontade e responsabilidade. Claro que precisamos de lideranças, mas não de qualquer jeito ou somente para nos eximir das consequências das nossas escolhas pessoais. Jesus nos quer livres, capazes de colaborar entre nós, unidos e fraternos. A meta é a comunhão de amor. Temos um longo caminho a percorrer. E o relógio? Ainda bem que agora a hora certa vem pelo celular. Liberdade ou dependência?


O que será?


Os discípulos procuravam a iluminação, mas não sabiam o que era e como consegui-la. Disse o mestre:

– Não se pode consegui-la e nem agarrá-la.

Vendo, porém, o olhar desanimado dos discípulos o mestre continuou:

– Não fiquem tristes, não é possível também perdê-la.

A partir daquele dia, os discípulos estão em busca daquilo que não se pode perder, mas nem agarrar. O que será?
Parece uma brincadeira, mas não é. Só uma pergunta para despertar a nossa curiosidade e sem a pretensão de saber mais do que os outros. A resposta em si pode ser simples, mas o que tem a ver isso com o domingo de Pentecostes que estamos celebrando? Uma coisa por vez. Talvez o que não podemos agarrar e ao mesmo tempo perder é o amor de Deus. Esse amor sempre será um “dom” oferecido e dado e, portanto, só pode ser reconhecido e acolhido. Esse amor não pode ser perdido, porque Deus nos ama sempre, também quando achamos não o merecer ou que ele se esqueceu de nós.

Agora chegamos ao Divino Espírito Santo. Neste domingo, concluímos o Tempo Pascal e volta para nós, na liturgia, o evangelho de João do anoitecer daquele dia de Páscoa. A leitura dos Atos dos Apóstolos, com o vento e o fogo, é uma grande apresentação com imagens bíblicas da presença e da força de Deus. O importante é perceber o valor e a extraordinariedade do “dom” do Espírito Santo. Por esse “dom” os apóstolos, a Comunidade-Igreja, os cristãos, afinal, são chamados a continuar a missão do próprio Jesus. Será essa, em primeiro lugar, uma grande ação de perdão e reconciliação. O pecado de sempre e que deve ser perdoado, uma vez por todas, é o afastamento de Deus, o não reconhecimento do seu amor e da sua bondade.

Qualquer pecado, na Bíblia, é sempre idolatria: de nós mesmos, de outros, do poder, do dinheiro, de alguma “ideologia” transformada em absoluto. A conversão é difícil porque sempre seremos tentados a ter medo de Deus, a fugir dele, em lugar de nos deixar amar por ele, ou trocá-lo com algo, ou alguém, que nos atrai porque imediatamente visível e, pensamos, compensatório. Não tem como competir. As coisas, os bens, as pessoas estão à nossa frente. Deus parece estar longe, muito acima de nós pobres mortais peregrinos neste mundo, ele todo-poderoso, exigente, cobrador…Melhor nos virar aqui embaixo. Depois… sabe-se lá.

Perdoem a banalidade, mas aqui entra o papel único e “santificador” do Divino Espírito Santo, aquele que Jesus, no evangelho de João, chama de “defensor” – consolador, aquele que nos conduzirá no conhecimento da verdade (Jo 14-15). Por que “defensor”? O Espírito Santo vai nos ajudar a desmascarar os enganos dos que não são “deuses”, mas que se apresentam com todo o brilho possível, com todas as promessas de poder e felicidade. Do outro lado, o Espírito Santo nos ajuda a reconhecer como é o verdadeiro Deus, desfaz as falsas e distorcidas imagens dele e nos conduz a contemplar aquela beleza que só pode ser do único Deus verdadeiro. Aos poucos, nos caminhos da vida, o Espírito Santo abre os nossos olhos e o nosso coração para que, superando os enganos, encontremos a Verdade que, já sabemos, não é um conjunto de doutrinas, mas uma pessoa: Jesus, Caminho, Verdade e Vida. É o Pai que nos atrai para que nos aproximemos de Jesus (Jo 6,44). Ele quer que “ninguém se perca” (Jo 6,39). O Espírito Santo nos faz compreender a Deus como o Amor que nos ama sempre porque é bondoso e misericordioso. Ainda é o Espírito Santo que nos confirma na fé para que digamos, sem medo ou vergonha, que “Jesus é o Senhor” (1Cor 12,3b).

Tudo, portanto, a alegria da fé, do amor, da confiança, do perdão, tudo é “dom” de Deus. Não podemos perder o que nos é oferecido, cabe a nós acolher e agradecer. Que bom que seja assim, porque talvez a “fé” à qual, às vezes, nos agarramos tanto pode ser mais fruto das nossas ideias sobre Deus, do nosso orgulho, das simpatias com santos e santas, que, mesmo, do Divino Espírito Santo. Os “catecúmenos” que eram batizados (e crismados) na noite de Páscoa, depois do batismo eram chamados de “iluminados”. Assim deveríamos ser todos nós.