A outra metade do céu 


Era uma linda noite de verão. O pequeno Nico passeava com a mãe. Para ele tudo era encantador: as casas iluminadas, as &aacu te;rvores[U1] , o ar perfumado. Olhou o céu estrelado e, de repente, ficou pensativo. A mãe, sábia, ficou calada, até que percebeu que Nico queria dizer alguma coisa. Então perguntou:

– Nico, está pensando em que? A criança ficou mais um instante em silêncio, como se estivesse organizando os s eus pens amentos e depois respondeu:

– Se esta metade do céu é tão bonita, a metade do outro lado deve ser ainda mais maravilhosa!

A Páscoa de Jesus é uma brecha que nos permite enxergar um pouco as maravilhas do outro lado da Vida. Sim, aquela Vi da plena , que é a Vida de Deus. Jesus, com o seu amor, com a sua existência totalmente doada, do início ao fim, abriu-nos o caminho do céu. Não para fugir deste mundo, material, cotidiano e passageiro, mas para que aquela luz chegasse até nós e nós pudéssemos ser iluminados e guiados por ela. Se a Cruz sempre será “escândalo e loucura”, a Ressurreição sempre será “novidade”, algo tão surpreendente e inimaginável que até os evangelistas tiveram que inventar palavras para comunicar a boa notícia. Em si, os termos usados só significam levantar-se do sono, erguer-se, como o faz alguém que estava deitado. Logo, os cristãos aprenderam que isso não era suficiente, não explicava nada, aliás, escondia o mais importante. Assim juntaram outras palavras.

Começaram a dizer que Jesus tinha sido “sepultado”, ou seja, tinha realmente morrido porque a cruz n&atil de;o era ficção ou mentira. Depois disso, eis a novidade: ele tinha “ressuscitado” – levantado – dos mortos e agora era o Vivente. As mulheres que foram ao sepulcro escutaram as palavras: “Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito!” (Mt 28,6) ou: “Por que buscais entre os mortos o vivente?” (Lc 24,5). Pedro, após Pentecostes, dirá mais ainda: “Deus o ressuscitou, libertando-o das angústias da morte… (e) o constituiu Senhor e Cristo” (Atos 2, 24.36).

Depois, em Atos 10,42 (2ª leitura do Dia de Páscoa) dirá: “Deus o constituiu Juiz dos vivos e dos mortos”. Aquele homem Jesus, vergonhosamente crucificado, agora está glorioso “exaltado à direita de Deus” (Atos 2, 33) o qual “lhe deu o Nome que está acima de todo nome, para que, ao Nome de Jesus, todo joelho se dobre no céu, na terra e de baixo da terra&r dquo; (Fl 2,9-10).

Não foi nada fácil para os primeiros cristãos encontrarem as palavras certas que podiam expressar tamanha nov idade.&n bsp; Nós hoje as repetimos quando rezamos o Credo, a nossa profissão de fé, muitas vezes sem nos dar conta do que dizemos. Não é mais a humanidade a buscar descobrir e agradar, de tantas formas, um “deus” desconhecido. Não será o nosso esforço a nos aproximar mais de Deus. Em Jesus morto e ressuscitado nos foi aberto, uma vez por todas, o caminho para o encontro amoroso entre o Pai e nós, os seus filhos, ainda dispersos, mas que o Filho, o Bom Pastor, quer reunir num só rebanho para que, juntos cantemos a vitória sobre o mal e a morte. Quando nos reunimos para celebrar a nossa fé, nas nossas Liturgias, este caminho aberto se torna uma realidade que podemos experimentar. O nosso Deus continua a nos convocar, a nos reunir, a perdoar os nossos pecados, a falar, a nos dar a sua paz e o seu Corpo e o seu Sangue como antecipação do banquete final do Reino celeste. As nossa s Missas não acontecem para nos fazer esquecer as angústias do tempo presente e nem para melhorar o nosso bem-estar psicológico. A Liturgia serve para nos fazer enxergar a novidade do Reino, a beleza da Vida Nova que a Ressurreição de Jesus descortina à nossa frente. Nas Missas, contemplamos a Nova Cidade, a Jerusalém celeste, onde “a morte não existirá mais, e não haverá mais luto, nem grito, nem dor, porque as coisas de antes passaram” (Ap 21,4). Somente se nos deixamos iluminar por esta luz “divina” sempre generosamente oferecida, podemos entender as sombras que ainda escurecem a nossa vida pessoal e de toda a humanidade. Metas maravilhosas nos fazem desejá-las e nos comprometem a buscar meios para alcançá-las. Como a metade das estrelas de Nico.


Uma Semana Santa diferente


Quando escrevo estas palavras ainda não sabemos como será a Semana Santa que iniciamos com o Domingo de Ramos. Talvez tenhamos a possibilidade de realizar as celebrações previstas pela Liturgia, ao menos do Tríduo Pascal, nas Igrejas, com poucas pessoas, distantes entre si, ou nem isso. Talvez, por precaução e segurança, tenhamos que ficar em casa, esperando dias melhores. Por tudo isso e sem saber o que nos aguarda, posso afirmar, com certeza, que será uma Semana Santa “diferente”.

Em primeiro lugar, porque muitas perguntas e novos sentimentos se ajuntam em nossas cabeças e em nossos corações. As previsões são sombrias, para alguns até catastróficas. Muitos acham que a humanidade, depois que essa tempestade passar, será diferente. Concordo, mas será melhor ou pior? Por melhor entendo uma humanidade mais solidária e fraterna consciente que as nossas divisões e fronteiras podem ser defendidas com muros, cercas, armas, leis e impostos, mas na realidade somos mais família humana do que pensamos. O vírus se espalhando provou que todas essas defensivas servem para pouco ou nada. Essas barreiras funcionam para as mercadorias, os migrantes, os que fogem das guerras inúteis, para povos inteiros deslocados das suas terras, mas não para um inimigo quase invisível. Pode ser, porém, que acordamos, um dia, piores. Preocupados com a nossa sobreviv& ecirc;nc ia, com a falência das empresas, com os negócios parados e os lucros sumindo; pode ser que tenhamos medo uns dos outros, como se todos fossem inimigos e nos roubassem algo que nos pertence. Será que iniciaremos grandes ou pequenas guerras pela água, pelo chão, pelos remédios capazes de nos proteger no futuro de novos vírus letais? Se assim acontecer esta pobre humanidade estará perdida.

Eu espero e acredito que teremos aprendido a unir mais as forças. Países de lados diferentes, com interesses e políticas opostas, não negaram ajuda a quem precisava. A quem especula complôs internacionais e disputas pelo controle do planeta, respondem os milhares de voluntários prontos a ajudar, arriscando as próprias vidas. Quantos aplausos e sinais de gratidão já ganharam os médicos e todo o pessoal dos hospitais? Muitos deles já pagaram com a vida o seu desprendimento. Sem contar todos aqueles e aquelas que acolheram desabrigados e moradores de rua, todos os que prepararam e distribuíram alimentos para a sobrevivência de quem não podia parar de trabalhar ou não tinha mais nenhum recurso financeiro. Saber que fábricas de automóveis se transformaram em fábricas de respiradores para atender às urgências dos doentes graves, é um sin al confo rtante. É verdade que alguns estão assaltando pedestres nas ruas desertas, outros querem lucrar acima do lícito vendendo máscaras protetivas, álcool em gel, alimentos, remédios e tudo o que, na falta, costuma ficar mais caro. Sempre haverá aproveitadores, como também profetas de desgraça. O caminho do bem é longo e difícil.

Eu quero ser testemunha da esperança, como Papa Francisco a nos repetir as palavras de Jesus, “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé”? Creio sim, na bondade de Deus, na sua paternidade e misericórdia. Não estamos sozinhos nesta luta. No entanto, devemos acreditar também em nós, na força do povo que descobre o seu potencial de generosidade e partilha. Quantos gestos de fraternidade e esperança nos surpreendem todo dia, talvez vindo de pessoas que tínhamos julgado insensíveis, gananciosas ou superficiais. Na Semana Santa que iniciamos, acompanharemos, mais uma vez, Nosso Senhor Jesus Cristo, no caminho do Calvário. Assim ele quis partilhar a condição humana, fraca e mortal. Deu-nos o exemplo, ensinou-nos a oferecer tudo, a não poupar nem a própria vida, para que outros passam viver mais felizes. Ele fez tudo isso por amor. É sempr e e some nte o amor que doa vida, ampara e consola. É o amor que transforma até a morte em vida nova. Após o silêncio da Cruz, cantaremos o Aleluia da Ressurreição. Acreditemos e nós também seremos uma humanidade nova e melhor.


Nunca perdi a coragem


Numa campanha para ajudar os doentes de câncer, uma contribuição substancial foi dada por uma viúva cega. A mulher não achava nada de extraordinário nisso. Quando foi entrevistada por uma jornalista ela disse: “Me ensinaram a confiar em mim mesma. Posso ainda distinguir a luz e a sombra, não sou totalmente cega. Posso ainda fazer muita coisa e, graças a Deus, nunca perdi a coragem. A minha cegueira chegou gradualmente e me considero com grande sorte por ter tido muitos anos de vista boa”.

Ao contrário dessa viúva generosa, o cego da página do evangelho de João, deste Quarto Domingo de Quaresma, nunca tinha enxergado na vida dele, era “cego de nascença”. Interessante, porque o cego, ao final, encontrará a luz plena e os que se achavam com a vista boa – os fariseus – serão declarados cegos. É evidente que o evangelista joga com a imagem, muito bíblica por sinal, da luz. É aquela do sol que nos permite trabalhar de dia e que o cego nunca tinha conhecido, mas também é a luz da fé. Assim aquele que agora enxerga, quando encontra novamente Jesus, pode dizer: “Eu creio, Senhor!”. Porque o “Filho do Homem” é a verdadeira “luz do mundo” (Jo 9,5) e aqueles que não o acolhem ficam, agora, na escuridão. Como lembrei domingo passado, estamos na segunda etapa do caminho para os catecúmenos que eram batizados na noite de Páscoa. Por que essas etapas? Porque à fé em Cristo, chegamos gradativamente, numa busca fadigosa e luminosa ao mesmo tempo. Por isso, como para a samaritana, o homem que antes era cego discute com os fariseus sobre Jesus. Às perguntas deles responde antes que aquele que lhe abriu os olhos é “um profeta”, depois um “mestre”, do qual, talvez, vale a pena ser discípulos. Enfim chama de “Senhor” o “Filho do Homem”.

Aquele “cego” ganhou a vista, ganhou a luz da fé e, ainda pode seguir o Senhor e fazer parte de uma nova comunidade, já que havia sido expulso daquela dos fariseus. É facilmente compreensível o itinerário da iniciação à vida cristã.

Nesta altura da Quaresma, mas sobretudo da nossa vida, devemos nos perguntar o que aconteceu com a luz da fé que nos foi doada no dia do nosso Batismo, se ainda enxergamos Jesus como luz para o nosso caminho ou se já seguimos outras “luzes” que consideramos mais luminosas. Nos nossos dias, os cientistas da humanidade salientam um fato curioso. Moramos em cidades iluminadas. Em alguns lugares quase não se percebe mais se é dia ou se já chegou a noite. Muitos de nós, talvez até as crianças, esqueceram-se que existem as estrelas, ou nunca param para contemplá-las. Porque para ver o brilho das estrelas precisa da escuridão da noite. Não é para ter medo, mas para perceber, nem que seja por alguns instantes, que não existimos somente nós e que o universo é muito maior de todas as nossas manias de grandeza e de poder. Pior ainda se a maior luz que ilumina o nosso rosto é aquela de uma tela de computador. Nos exaltamos tanto com as “luzes” por nós mesmos produzidas que ficamos cegos, porque enxergamos somente isso. Sem dúvida, a humanidade pode ser orgulhosa de si mesma por muitas coisas, mas parece que não enxerga mais o desespero dos pobres, a fome dos pequenos, as vítimas das guerras que ela mesma produz. Quando a luz da nossa vida somos nós mesmos, esta luz pode nos tornar cegos, pela simples razão de vermos somente os nossos problemas, as nossas ambições, o nosso bem-estar. Os outros, e as estrelas vão junto, param de existir. Talvez, ainda crianças e jovens iniciamos a nossa vida de cristãos cheios de boa vontade, mas, gradativamente, a luz da fé foi se apagando. Começaram a brilhar outras luzes, outros interesses. Acabamos por seguir outros mestres, por escutar outras palavras. Nunca é tarde, porém, para resgatar o que sobrou da luz da fé em nossa vida. Não será um sinal de fraqueza, ao contrário, será um sinal da coragem – que talvez perdemos – de admitirmos a nossa pobreza humana. Sabemos muito, mas não sabemos tudo e não será nada vergonhoso pedir ao Senhor Jesus, luz do mundo, que abra mais os nossos olhos. Veremos muitas coisas esquecidas: as estrelas, talvez, mas, muito mais, os outros e Deus.


“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34)


Desta vez, achei melhor deixar a reflexão sobre a Campanha da Fraternidade, que iniciamos na Quarta Feira de Cinzas, para o Segundo Domingo da Quaresma. O evangelho da Transfiguração do Senhor é sempre um convite a mudar a nossa vida, a nos deixar iluminar pela luz do Crucificado-Ressuscitado para sermos, por nossa vez, mais luminosos lá onde somos chamados a testemunhar a nossa fé. O brilho dos discípulos de Jesus passa, sem dúvida alguma, pela compaixão e a misericórdia. Não é por acaso que no cartaz da CF, deste ano, é facilmente reconhecível a presença da Irmã Dulce, agora proclamada santa, no meio de crianças, pobres e doentes. O “anjo bom da Bahia” continua a espalhar a luz do seu exemplo para que outros não só continuem a obra por ela iniciada, mas, também, abram novos caminhos para socorrer os caídos à beira d as estradas da vida. Nós não vamos repetir o que ela fez, mas podemos aprender com o seu desprendimento, carinho e determinação.

A Palavra motivadora da CF 2020 é tirada da parábola do Bom Samaritano e o tema é: Fraternidade e vida: dom e compromisso. O Texto Base, que a Equipe da CNBB, nos oferece, segue o esquema tradicional, do ver, julgar e agir e é muito fácil perceber os passos a serem dados. Basta lembrar o texto da parábola. Todas as três pessoas que passaram “viram” o homem caído no chão, mas somente uma, o samaritano, depois de ver, teve compaixão, ou seja, se deixou tocar no íntimo pela situação desesperadora do homem. A primeira coisa que precisamos resgatar é aprender a ver o sofrimento das pessoas. Através dos nossos próprios olhos ou pela abundância das informações, tomamos conhecimento de muitas situações difíceis e injustas. O que sentimos? Podemos passar adiante, encontrar alguma desculpa mais do que compreensível, ou “sentir compaixão”. Esta, de fato, é a nossa maneira de julgar as mais diversas circunstâncias. Se chegamos à conclusão de que não temos nada a ver, é mais fácil silenciar a nossa consciência e apagar tudo da nossa memória. Ao contrário, podemos nos deixar alcançar pelas condições precárias de tantos nossos irmãos e irmãs. Nós cristãos deveríamos ser muito bem treinados na “compaixão”. A escuta da Palavra do Senhor e a Eucaristia são sempre a memória viva do seu amor e da sua vida doada até o fim. Portanto…Como é possível continuar indiferentes, jogar a culpa nos outros e não fazer nada? Deveríamos sentir uma saudável e amorosa inquietação e sermos impelidos por ela a agir.

O Bom Samaritano se envolveu com a situação do homem desafortunado ao ponto de carregá-lo e pagar para que fosse atendido. É o que cabe a todo ser humano que se sente ligado aos seus semelhantes com laços de fraternidade e solidariedade. Todos podemos fazer algo para amenizar o sofrimento alheio, dentro das nossas condições e responsabilidades. Para nos ajudar ainda mais, a CF, com o seu tema, lembra-nos que a vida, inclusive a nossa, é um dom que recebemos em comunhão com a vida dos demais seres existentes e devemos zelar por ela, porque estamos mais interligados do que pensamos.

A qualidade da vida melhora se, de fato, fica mais promovida, digna, saudável e respeitada para todos. Todo enriquecimento realizado às custas do sofrimento, marginalização ou exclusão de outros irmãos é injusto e desumano. Pode engordar a nossa conta no Banco, mas insensibiliza a nossa consciência e empobrece a inteira família humana. Por fim, o texto da CF deste ano nos lembra que, em nossa passagem neste mundo, partilhamos a casa comum, moramos no mesmo planeta, unidos com laços de vida, ou de morte, com a inteira Criação. O ser humano precisa da natureza, dos seus frutos e dos seus dons. Todos temos o compromisso sério de respeitar as demais criaturas e deixar o ambiente capaz de acolher e sustentar as novas gerações que sempre chegam, também quando nós partimos. Aprendamos a ver o tamanho das rachaduras da nossa Casa Comum, a avaliar a gravidade das do en&ccedi l;as do nosso Planeta, para ter compaixão e agir. Antes que “mais tarde, seja tarde demais”.


As palavras


“Têm palavras más e palavras boas. Palavras leves que voam e outras que pesam como pedras enormes. Têm palavras que ferem o coração e outras que o aquecem. Algumas fazem chorar, outr as sorri r. Têm palavras que fazem viver, porque dão coragem e dignidade. Com as palavras se pode errar, fazer sofrer, mas, depois, é possível corrigir o erro. Têm palavras carregadas de sentido como: ‘te amo’, ‘me perdoe’, ‘juntos’ … Têm também palavras de vida eterna. Mas, ainda as lembramos?”

Encontrei essa poesia, sem o nome do autor, e me lembrei da força das palavras da Escritura que Jesus usou para vencer as tentações. Foram chamadas de arma, de escudo. Penso que, mais uma vez, foram uma lição. Grande e simples ao mesmo tempo. No primeiro domingo da Quaresma, sempre encontramos a página dos 40 dias de Jesus no deserto. Entendemos que estas foram as tentações que o acompanharam ao longo de toda a sua vida. Podia ter sido um messias poderoso e triunfador, de acordo com a mentalidade e os sonhos do mundo ou, como foi, um salvador pobre e desconhecido aos olhos dos grandes, mas perfeito no amor e na entrega ao projeto do Pai.

A “lição” da página evangélica das tentações nos ilumina sobre o uso que fazemos das Escrituras e a maneiras de entendê-las. As consequências serão vis&iacu te;veis em nossas vidas. Hoje, por exemplo, somos tentados de pensar que com a ciência e a tecnologia, fruto da inteligência humana, tudo, ou quase, esteja ao nosso alcance. É possível reciclar até o lixo e ganhar dinheiro. Mas também é possível fabricar armas letais, silenciosas e microscópicas como um vírus sem cura. Milhões de seres humanos gostariam que as pedras se tornassem pão, porque morrem de fome. O que continua de pedra é o coração dos ricos e a ganância de um sistema que vive só pelo lucro. Poder, riqueza e sucesso continuam a ser os ídolos mais adorados da história humana.

Podemos usar as palavras da Escritura para lembrar as promessas grandiosas de Deus, a partir de Abraão, pai de uma multidão incalculável. Lembrar o compromisso que o reino de Davi não ter&aacut e; fim. Até o pobre Jó, tão sofredor, após aguentar os desaforos dos amigos para ficar fiel a Deus, recebeu como prêmio mais bens e mais filhos e filhas do que tinha antes. Teria sido tão simples para Jesus receber todos os reinos da terra, bastava dobrar ao menos um joelho. Tem mais uma palavra muito usada para quem continua achando loucura a cruz de Cristo: “Maldito todo aquele que for suspenso no madeiro” (Dt 21,23, citato em Gl 3,13).

Não precisa mexer com Satanás. Basta refletir um pouquinho para entender que podemos usar a mesma Escritura para explicar as coisas do mundo, para chamar riqueza e saúde de benção e pobr eza e do ença de castigo. Ou, deixar que seja o próprio Jesus a abrir a nossa inteligência, como fez com os seus discípulos após a ressurreição. É a lição exemplar da vida dele que dá luz às Escrituras e não o contrário. A Palavra de Deus deve ser um alimento que motiva a generosidade e não o egoísmo, a partilha e não a acumulação, uma economia solidária e não somente lucrativa. Também tentamos o Senhor quando o desafiamos a se mostrar com algo extraordinário, quando invocamos o seu nome para que ele faça aquilo que nós deveríamos fazer e não fazemos, ou seja, amar-nos e perdoar-nos mais. Não enxergamos mais o milagre da vida que acontece todos os dias de baixo dos nossos olhos. Deixamos de contemplar a natureza, com sua beleza e harmonia, assim esquecemos o primeiro livro, sempre aberto, que nos fal a de um Deus amoroso e providente. Aclamamos e dobramos os joelhos diante de falsos deuses, estrelas da mídia, salvadores de pátrias fabricadas com a propaganda e os números maquiados das pesquisas encomendadas. Jesus foi plenamente humano; aquelas tentações são sempre também as nossas. Se apresentam fascinantes. Mas nós fomos salvos porque ele não desceu da cruz, porque nos amou até o fim. Em tempo de Quaresma, precisamos de palavras verdadeiras, de vida e esperança, não de discursos tentadores e promessas falsas.
É o caminho da cruz, mas é a felicidade da vida doada.


A pregação


Saindo do convento, frei Francisco encontrou frei Ginepro. Este era um homem simples e bom e Francisco gostava muito dele. Disse-lhe:
– Frei Ginepro, vamos pregar o evangelho!

– Meu pai – respondeu o frade – o senhor sabe que eu tenho pouca instrução. Como poderei pregar ao povo?

Mas, porque Francisco insistia ele foi junto. Andaram por toda a cidade, pregando em silêncio a todos aqueles que trabalhavam nas oficinas e nas hortas. Sorriram às crianças, especialmente aos mais pobres e maltrapilhos. Trocaram alguma palavra com os idosos. Acariciaram os doentes.

Ajudaram uma mulher a carregar alguns baldes de água. Depois de ter atravessado a cidade algumas vezes, Francisco disse a frei Ginepro:
– Está na hora de voltar para o convento.

– E a nossa pregação? – Perguntou o bom frade

– Já a fizemos, já a fizemos. – respondeu o santo sorrindo.

Depois de ter iniciado o sermão da montanha com a proclamação das Bem-Aventuranças (que teria sido o evangelho de domingo passado), o evangelista Mateus coloca duas afirmações de Jesus dirigidas aos discípulos. Ambas iniciam com um forte “Vós sois” e, logo em seguida, vêm as duas comparações: “sal da terra” e “luz do mundo”. Não são palavras de convite ou de exortação. É questão mesmo de identidade e de missão. Ou seja: ou os “cristãos” são “sal e luz”, em meio à humanidade, ou, a esta, faltará o gosto do tempero e o brilho iluminador. Por isso, Jesus continua explicando que se o sal perde o sabor não serve mais para nada e se a luz fica escondida também não cumpre o seu papel, torna-se inútil. O mais curioso das duas comparaç&ot ilde;es é que uma, o sal, quando se mistura, desaparece, ao passo que a outra, a luz, para iluminar deve ser bem visível. Parece uma contradição: afinal, os cristãos devem sumir ou chamar atenção?

A resposta está no próprio evangelho. O que vale não é o esquecimento ou sucesso dos cristãos em si, mas os frutos, as consequências do ser “sal” que tempera e preserva e ser “luz” que clareia ao seu redor. O que vale, para o sal, é que o alimento fique gostoso ou, lembrando o uso do sal para a conservação dos alimentos como era costume naquele tempo, que a fé, a Aliança, o amor a Deus e ao próximo sejam preservados. Se o sal nem tempera – não motiva mais a vida e nem salva do apodrecimento – a fé é abandonada. De fato, não serve para nada. Igualmente, as boas obras dos cristãos, podem ser até luminosas e chamar atenção, mas aqueles que as virem louvarão ao “Pai que está no céu” e não os cristãos em si. A alegria dos discípulos de Jesus n&ati lde;o de ve estar, portanto, na afirmação e no sucesso pessoal, mas na possibilidade de colaborar na memória viva e no louvor a Deus. Atitude da qual os próprios cristãos sempre devem zelar.

Aqui está a nossa fraqueza, mas também, acredito, a nossa consolação. O nosso defeito é querer ser reconhecidos, receber aplausos e elogios, nem que seja de um pequeno grupo de seguidores sempre prontos a bater palmas. De outra forma, não consigo explicar tantos grupos e grupinhos dentro e fora da Igreja. Parece que o sal, em lugar de preservar a unidade, serve mais para salvaguardar alguma posição ou poder. Temos medo de ser só e simplesmente “cristãos”. No entanto, esta qualidade é a consolação de muitos e muitas que nunca aparecem e nunca chamam atenção, mas são fiéis cada dia e cada hora nas coisas simples da vida e dos seus compromissos: na família, no trabalho, com os vizinhos, conhecidos ou não, e com qualquer outro que precise de ajuda. Quantas “obras” maravilhosas de amor, de serviço, de paciência e gratu idade são praticadas sem ser divulgadas por aí. A bondade, graças a Deus, não pede badalação, simplesmente age, faz acontecer. É muito bom que continue assim, porque se não fosse, o dia em que uma obra boa virasse manchete, poderia significar que nos acostumamos tanto com a violência, a corrupção e a morte, que seria o bem a parecer estranho. Não, por favor, que o bem continue a realizar a sua “pregação” humilde, simples e escondida e, seja o mal, infelizmente, a chamar a atenção. Claro, para nós todos, conhecendo-o, fugirmos dele.


Oculista ou Dentista?


Um jovem estudante recém-formado, desejava receber o conselho de um sábio eremita para escolher a faculdade universitária à qual queria escrever-se. Apresentou a sua dúvida ao homem de Deus com estas palavras: – Eu gostaria ser oculista, mas os meus parentes querem que eu seja dentista, porque dizem que se ganha mais. O que o senhor acha? – Meu fil ho – respondeu o sábio – ambas são profissões altamente remuneradas, mas lembra, os olhos são só dois, ao passo que os dentes são trinta e dois!

Mais uma brincadeira dos antigos sábios, homens de fé, sempre capazes de espalhar o sorriso ao seu redor. Contudo, aqui aparece uma questão, hoje, talvez mais que no passado, que, muitas vezes norteia a decisão dos jovens na busca do seu próprio caminho na vida: a remuneração ou compensação que seja. Vale a pena estuda r tanto para ganhar tão pouco? Quais as profissões – honestas – que dão mais lucro? Como em muitas outras situações parece que o desejo de “ganhar” esteja se tornando se não a maior, ao menos, uma das razões mais motivadoras das escolhas juvenis ou, também, daquelas pessoas que ainda buscam o seu papel na vida e na sociedade. Por isso as palavras de Jesus aos pescadores do mar da Galileia, que encontramos no evangelho de Mateus deste domingo: – Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens. – (Mt 4,19) não deixam de soar como muito diferentes, desafiadoras e, para tantos, talvez novas. Com certeza também é fácil entendê-las endereçadas aos outros, nunca a cada um de nós. Será?

Sem dúvida a página de Mateus apresenta o chamado dos primeiros discípulos. Mais tarde, Jesus escolherá “os doze”, um grupo menor entre o número maior de homens e mulheres que o seguiam. Ainda hoje entendemos que existe um chamado, uma vocação especial, para seguir Jesus assumindo, neste caso, as funções do minist& eacute;rio ordenado como pastores das Comunidades dentro da nossa Igreja Católica. Sempre rezamos e rezaremos para que não faltem “operários” para a messe do Senhor, ou seja, padres para servir ao Povo de Deus. No entanto, cada vez mais hoje entendemos que os convites de Jesus têm reflexos e valor, digamos, para todos e todas. Algo semelhante acontece, por exemplo, com a paternidade e a maternidade. Tantos homens e mulheres são pais e mães – e não só espiritualmente – porque amam e server irmãos e irmãs que precisam deles de uma maneira tão amorosa e familiar que, quase, disputam o afeto com os pais e as mães biológicos. Assim também na Igreja, hoje falamos muito de missão, de sermos, nós todos batizados “missionários”, enviados a dar o testemunho da alegria do Evangelho com a nossa vida lá onde as circunstânci as nos c olocaram. Ser “pescadores de homens” ou, digamos, “missionários”, não significa “arrebanhar” pessoas para o nosso grupo, movimento, comunidade ou mesmo Igreja. Ser missionários é, a meu ver, muito mais a capacidade de “lançar as redes para águas mais profundas” para alcançar quantos ainda não ouviram falar de Jesus ou ouviram falar dele tão mal e de maneira tão distorcida que ele foi rejeitado mesmo antes de conhecê-lo de verdade.

Estou convencido que a recusa da Boa Nova de Jesus, a rejeição da sua pessoa e da sua mensagem, não dependem da inutilidade ou banalidade da proposta dele, mas, decididamente, da maneira como ela lhes foi apresentada, através do testemunho daqueles e daquelas que declaram acreditar nele. Com certeza a culpa não é do Evangelho em si, porque , ainda hoje, ele motiva e anima a doação da própria vida de milhares de homens e mulheres por causa do Reino de Deus. A culpa das redes estar vazias, é nossa. Ficamos calculando as perdas e os ganhos. Estamos preocupados com a opinião dos colegas, de sermos apontados como beatos ou beatas, servidores de um lendário rei de outros tempos. Ao contrário, não temos receio de dizer que queremos ganhar a qualquer custo, que nos atraem as profissões mais lucrativas, melhor ainda se com bastante dias de folgas e muitos privilégios. A questão não é ser “oculistas ou dentistas”, mas querer amar e servir mais, lavando os pés a quem precisa. Sem cálculos.


Este padre é louco


São Filipe Neri era famoso pela sua capacidade de brincar e fazer sorrir. Todos o chamavam de “bom”. Por isso, como gesto de humilhação e para evitar que o bajulassem ou honrassem pela sua “santidade”, resolveu que, por uma semana, ia tirar a barba dele somente de um lado do rosto. O resultado foi óbvio. Todos aqueles que o encontravam riam de bom gosto e diziam: “Este padre é doido varrido! Devia ser internado”. Mas o alegre Filipe Neri, dentro de si, ficava feliz pelas gargalhadas dos outros.

Com o domingo do Batismo de Jesus concluímos o tempo litúrgico do Natal. Jesus, num gesto de extrema humildade e solidariedade, entra na fila dos pecadores e recebe o batismo de penitência oferecido por João Batista. A pomba que pousa sobre ele indica a presença do Espírito Santo e a voz do Pai confirma que aquele homem é o “Filho amado”. Todos os evangelistas são unânimes em nos dizer que, após este momento, inicia a vida pública de Jesus. O Pai o enviou e o Espírito Santo vai guiá-lo, nas palavras e nas ações, até a sua paixão, morte e ressurreição, em Jerusalém. O batismo no Jordão marca uma mudança decisiva na vida dele. De agora em diante, será um “mestre” itinerante chamando discípulos a segui-lo. Para alguns, será um profeta com palavras nunca ouvidas, palavras de “vida eterna”. Para outros, será julgado um falso profeta por vir da periferia, de Nazaré. Enfim, será considerado blasfemo, mas útil para dar uma lição exemplar aos facínoras, aos rebeldes, aos fora da Lei. Alguns o chamaram de louco e endemoninhado. Ao vê-lo morrer na cruz, o centurião romano dirá: “Verdadeiramente, este era Filho de Deus” (Mt 27,54). As mesmas palavras do Pai, no dia do batismo. A cruz de Jesus permanecerá para sempre “loucura” para os pagãos, “escândalo” para os judeus, mas sabedoria e poder de Deus para os que acreditam (1 Cor 1, 23-25).

Neste domingo, a Igreja nos convida a lembrar o nosso batismo, não mais de penitência, mas de vida nova na Trindade Santa. Fomos batizados “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”. Após aquele dia, também nós deveríamos ter iniciado uma vida diferente, como cristãos, conscientes do dom recebido e da missão que nos foi entregue: continuar a anunciar a alegria do Evangelho e testemunhar, com a nossa vida, a presença do Reino de Deus. Vale a pena parar para lembrar e refletir. O nosso batismo, a nossa consciência de sermos cristãos, mudou e muda algo da nossa maneira de pensar, dos valores que norteiam a nossa vida, dos compromissos que assumimos em família e na sociedade? Tem alguma vez que somos chamados de loucos – se não na nossa frente, ao menos por trás – por causa da nossa fé? Estou falando sério. Não está em jogo o sermos exteriormente diferentes, ou não, dos outros, mas a diversidade radical com tudo aquilo que podemos chamar de “mundo”, no sentido evangélico da palavra. A primeira questão é, justamente, o valor que damos aos bens materiais, ao dinheiro e às demais posses. Jesus disse para “buscar” primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, o resto nos será dado por acréscimo, como dom da sua bondade. Ao contrário, muitos hoje se acham os donos de tudo, até do planeta que, porém, já encontramos feito e não, com certeza, para o nosso consumo exclusivo.

A segunda questão, talvez, seja aquela do orgulho que temos com as nossas ideias, a nossa interpretação da vida, da sociedade e até de Deus. Nos achamos tão importantes e sabidos para julgar o que está ao nosso redor, os acontecimentos e as pessoas. Um pouco mais de humildade nos faria bem. Talvez só olhando mais os pássaros do céu, os lírios dos campos…as maravilhas de Deus, enfim, mais do que sempre as nossas obras. Por fim, quero lembrar o tempo, como o administramos e o gastamos. Parece que temos tempo para tudo, mas bem pouco para agradecer a Deus, celebrar a nossa fé aos domingos, na comunidade, entre irmãos e amigos. Nem vou falar dos pobres. Falta um pouco mais de “loucura” como fruto do nosso batismo tomado mais a sério e menos como brincadeira, costume ou tradição. Falta coragem, sobra medo de sermos chamados “loucos” por causa de Cristo.


Viemos adorá-lo


Conta uma anedota da vida de Papa São João XXIII que, quando ele era ainda núncio apostólico em Paris, participou de uma recepção e lá se encontrou com o rabino Chefe da França. Quando chegaram na porta de entrada, que era bastante estreita, o patriarca deu a preferência ao rabino dizendo-lhe: “Por favor, é bom que passe na frente o Antigo Testamento, depois virá o Novo!”

Neste domingo, celebramos a solenidade da Epifania que significa “manifestação”. Os misteriosos “magos” que vêm do Oriente e seguem a luz da “estrela” representam, com bastante clareza, todos os povos, de qualquer origem e etnia, que virão para adorar o recém-nascido. Essa é uma forma, muito bonita e grandiosa, que o evangelista Mateus encontrou para apresentar e propor a pessoa de Jesus como irmão “universal”, solidário como a humanidade inteira e, para quem o acolher e acreditar, salvação oferecida a todos. Com efeito, sempre nos perguntamos por que após tantos séculos de preparação e de espera, que nós cristãos chamamos de Antigo Testamento, aquele povo escolhido não soube reconhecer o Messias? Ou, melhor, por que bem poucos o seguiram?

Diferentemente, o anúncio cristão se espalhou rapidamente pelas e stradas do então Império Romano e por outros tantos caminhos chegou até nós. Têm muitas explicações que, para quem acredita, não dependem somente das capacidades humanas. Nós acreditamos na força do Espírito Santo. Ele se antecipa à chegada dos próprios missionários e evangelizadores. É ele, o Espírito, que abre os corações ao dom da fé. No entanto, a solenidade da Epifania nos convida sempre a abrir também os nossos horizontes.

O Messias Salvador não é patrimônio somente de alguns, nem exclusividade para raros escolhidos. É verdade que foram poucos a iniciar a missão do anúncio do Evangelho, mas Jesus deixou claro que devia ser para “todas as nações” e “até os confins da terra”. Ou seja, sem distinções ou exclusões. A mensagem do Reino de Deus deve ser oferecida a todos e a variedade dos povos, línguas, raças e culturas, explica o nome de Igreja “católica” capaz de acolher tanta riqueza de diversidades. Podemos chegar à mesma conclusão, a partir de outro ponto de vista: não precisa mudar de costumes e de tradições para acolher o Evangelho de Jesus. Cada um de nós é chamado a viver a fé no Senhor a partir da sua real situação. É essa “condição humana”, com to das as suas diversidades e, ao mesmo tempo, com toda a sua universalidade que deve ser transformada pela Boa Notícia do Reino. Acreditamos que não serão costumes vindo de fora a mudar uma certa realidade. Será a luz do Evangelho a fazer reconhecer quanto uma cultura está mais perto, ou mais longe ainda, do mandamento do amor.

Qualquer ser humano, em qualquer lugar do mundo, está consciente da sua fragilidade, da seriedade das consequências das próprias escolhas entre os caminhos do bem e do mal, da beleza de ter mais amigos e nenhum inimigo, da força da solidariedade e da alegria da partilha. A humanidade toda sente um grande chamado à fraternidade, à paz, ao enriquecimento na troca dos saberes e sabores, das artes, das músicas e das danças. Não existe uma “cultura” verdadeiramente humana que não tenha em si os germes do Evangelho, a marca registrada daquela “imagem e semelhança” com o Deus criador, Pai de todos os povos e nações. Em época de globalização do consumo, do individualismo e da indiferença, precisamos resgatar a “globalização do amor”. Não importa se, como cristãos e católicos, formos muitos ou pouc os, o que interessa é apontar sempre o bem, a luz, a verdade, a justiça, além dos próprios interesses e vantagens. Todas as vezes que alguém descobre que a bondade, a misericórdia e a compaixão, são melhores que o ódio, a vingança e a violência, já está colaborando com a vitória do Amor. Não seremos nós, carregados com as nossas ideias e culturas a sermos “universais”, será ele, o único Senhor e Salvador de todos, Jesus Cristo, que os Magos finalmente encontraram e adoraram! O que nos cabe é apontar o Caminho, como a estrela. Felizes por sermos pequenas luzes.


Deus nos espera em Belém


São estas as palavras do refrão de um canto de Frei Fabreti. No tempo do Advento somos convidados a “aguardar” a chegada do Salvador. É tempo de preparação e de espera. Maior e mais importante é o evento, mais esmerados devem ser os preparativos.

Quem soube aproveitar de um pouco de silêncio e de reflexão e preparou num cantinho de sua casa um pequeno Presépio, com alegria, poderá colocar na manjedoura o Menino Deus.

Cada família poderá rezar, cantar e agradecer. Natal é a oportunidade que temos de renovar o nosso compromisso de acolher novamente o Senhor em nossa vida. Todos somos contagiados pela atmosfera do Natal, nos sentimos importantes: Deus veio ao nosso encontro.

Os amigos e parentes se lembram de nós e a troca de votos de um Feliz Natal manifesta o nosso desejo de uma convivência melhor. É bonito. É o “mágico” Natal, como diz a propaganda. Mais uma vez, porém, se não prestamos atenção, no centro de tanta animação e correria estamos nós e esta sociedade que construímos, com suas luzes e sombras.

A memória do nascimento de Jesus pode ser, afinal, somente a ocasião para festejarmos a nós mesmos e os passos dados ao longo do ano que termina. A “magia” passa e tudo vai recomeçar de novo. Igual.

Se Deus não entrou para valer em nossa vida na espera do Advento e na vinda dele no Natal, mais ainda ele corre o perigo de ficar de fora também no Ano Novo. “Pois não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2,7). A história se repete. Ainda bem que Deus tem muita “paciência” conosco. Ele sabe nos esperar.

A novidade do Natal é esta: quem espera não somos mais nós, é ele mesmo o nosso Deus feito criança. Os pastores vão a Belém; os Magos chegam de longe para encontrar “o rei que nasceu”.

Até os inimigos o procuram e, com certeza, não para adorá-lo. A espera da humanidade se tornou busca daquele que “existindo em forma divina, não considerou um privilégio ser igual a Deus, mas esvaziou-se, assumindo a forma de servo e tornando-se semelhante ao ser humano” (Fl 2,6-7).

No Natal, Jesus nos espera em Belém. Como criança, alguém pequeno e frágil, precisando de amparo e cuidados amorosos. Quem aguardava um Deus arrasador, que esmagaria os adversários, para organizar um reino de parte, ficou desiludido, frustrado.

Na Páscoa, Jesus nos espera no Calvário, entre dois malfeitores. Quem zombava dele não o viu descer da cruz. Somente na manhã radiante do “primeiro dia da semana” o túmulo vazio revelou a vitória dele sobre o mal e a morte. Desde quando Deus perguntou a Adão: “Onde estás?” (Gn 3,9), o homem se esconde, tem medo de Deus. Mas como é possível ter medo de uma criança?

Como é possível ter medo de um condenado a morte?

Adão se escondeu. Hoje a fuga pode ter outro nome. Se chama indiferença e é sempre uma manifestação de desumanidade que nos envergonha. Deve rí ;amos ter carinho e compaixão com os pequenos e os sofredores.

Deus continua a nos esperar em Belém, no Calvário e no Cenáculo, porque, apesar de tudo, continuamos a ser filhos amados. Porque Deus é como o pai que esperou tanto até, de longe, avistar seu filho que finalmente voltava.

Neste Natal deveríamos ter medo das aparências que enganam, da superficialidade que não deixa lembranças, do orgulho que nos impede de agradecer por tudo aquilo que tivemos e que não cultivamos, não construímos e, sobretudo, talvez não merecíamos.

Recebemos o amor da nossa família, o respeito de quem nos admira, o sorriso simples de uma criança a nos abraçar ou de um pobre que estende a mão.

Neste Natal, vamos nós ao encontro do Senhor. Para agradecer por tudo.

Pela vida e pela fé. Para lhe pedir perdão se nos esquecemos dele. “Deus nos espera em Belém”, somente ele pode preencher os vazios da nossa vida, porque ele não doa objetos, por valiosos que sejam, ele, sempre, doa a si mesmo.

Não tem presente maior. Feliz Natal para todos!