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Dom Pedro Conti

Um pedaço de verdade

Certa vez, o Diabo saiu para passear com um amigo. Na frente deles, viram um homem que se baixava e recolhia alguma coisa do chão.
– O que aquele homem encontrou? – perguntou o amigo.
– Um pedaço de verdade – respondeu o Diabo.
– E você não está triste por causa disso?
– Não – respondeu o Diabo – vou deixar que, com aquilo que ele encontrou, invente uma nova religião.
Já estamos novamente no Tempo Comum da Liturgia e voltamos a ler trechos do evangelho de Marcos. Na página deste domingo, aparecem muitos personagens, além de Jesus e dos discípulos, alguns visíveis e outros, digamos, “invisíveis”, mas não menos importantes: Belzebu e o Espírito Santo. Ao redor de Jesus se reúne a multidão e ele fica tão ocupado que nem tem tempo para comer. Assim, preocupados, ou talvez interessados, chegam os parentes e os mestres da Lei. São esses últimos que espalham a acusação de que Jesus está agindo pelo poder de Belzebu, o príncipe dos demônios. Jesus responde com uma parábola que apresenta um raciocínio óbvio. Se os membros de um reino, ou de uma família, dividem-se uns contra os outros, aquele reino, ou aquela família, não sobreviverá. Qualquer divisão é sinal de fraqueza, nunca de força. Nesta altura, Jesus contrapõe-se ao “espírito mau”, pelo qual diziam que ele estava possuído, o “espírito bom”: o Espírito Santo. O pecado que não pode ser perdoado é, portanto, a incapacidade de reconhecer o bem que estava acontecendo, o amor de Deus Pai que Jesus tornava visível, e sustentar o contrário, como se o bem fosse um mal. Quem afirma que Deus é mau, ou que é causa do mal, está blasfemando. No final do trecho, reaparecem os familiares de Jesus, aqueles que queriam agarrá-lo. Não sabemos se era mesmo para protegê-lo da multidão e dos mestres da Lei ou, quem sabe, para tirar algum proveito daquele inesperado sucesso. Por isso, Jesus corta logo qualquer interesse escuso. Ele está começando a formar uma nova família, não mais unida pelos laços do sangue, mas pelo compromisso a cumprir “a vontade de Deus”, vontade essa que não é de divisão, lucro ou poder, mas de comunhão, fraternidade e serviço.
Volto a refletir sobre o pecado que, disse Jesus, não pode ser perdoado. Com certeza, nós não blasfemamos diretamente contra Deus, nem pensamos nisso. No entanto, tem uma maneira mais sutil, não sei se menos grave, de cair neste pecado: falar mal do bem que os outros fazem. Ou seja: pensar que o bem mesmo seja somente e exclusivamente aquele que é feito pelos nossos, os que pensam como nós, que são do mesmo partido, da mesma religião, do mesmo grupo. Todos os outros nunca fazem nada de bom, sempre fazem tudo errado.

Nesse caso, conscientemente ou não, alimentamos as divisões, os preconceitos, as exclusões. Cresce o desprezo, a não escuta do outro, o não querer ver. Como é difícil reconhecer o bem que os outros fazem ou que fazem de maneira diferente da nossa! Quanto bem, talvez, deixa de ser feito, de acontecer, porque não sabemos unir as forças, recusamos colaborar com quem tem outra crença ou mesmo nenhuma!

Hoje, a humanidade e o planeta vivem momentos dramáticos. Nunca iremos resolver, ou ao menos amenizar, a questão da fome de milhões de seres humanos se não juntarmos as forças e todos os países fazerem algo em prol disso. Igualmente a questão ecológica exige a disposição de todos para diminuir os consumos, a poluição, a produção de lixo, o uso indiscriminado da água potável. Neste momento, o bem importante é a sobrevivência de todos e não somente de alguns, é a responsabilidade com as futuras gerações a longo prazo e não a busca de uma saída temporária, superficial e insustentável. A maneira de agir e de falar de Jesus não se encaixava naquela dos mestres da Lei. Por consequência, eles julgaram que o que ele fazia só podia ser algo mau, errado, obra de satanás. Isso em nome da religião deles. Ainda hoje fanatismos, fundamentalismos e intolerâncias nos cegam. Assim, vida digna para todos, vida de paz e alegria, ficam para depois. O diabo agradece.

Promessas

Certa vez, após uma sangrenta batalha, Alfred, o rei da Inglaterra teve medo e fugiu. Se embrenhou numa floresta desconhecida até que encontrou uma casa humilde e uma mulher aceitou acolhê-lo. Para ela, o rei era simplesmente um soldado inglês cansado e faminto. A mulher lhe disse:

– Vou sair para buscar um pouco de leite das minhas cabras. Você promete que ficará reparando o pão que estou assando no forno, para que não queime? Alfred prometeu. No entanto, preocupado com as sortes do seu exército e do reino, se esqueceu de ficar olhando o pão. Ficou todo carbonizado e a cozinha cheia de fumaça. Quando a mulher voltou, deu-lhe um forte tapa na cara, reclamando pela desatenção. Alfred disse:

– Como se atreve a bater no seu rei! Mas a mulher replicou:
– O senhor tinha-me dado a sua palavra que ficaria olhando no forno. Devia tê-la mantida!
Conta a lenda que foi neste momento que o rei Alfred se lembrou do juramento feito quando subiu ao trono. Tinha prometido que iria defender o seu povo até ao custo de sua vida. Envergonhou-se de ter abandonado a batalha. Voltou, reorganizou as suas forças e ganhou a guerra.

Lenda é lenda, acredite quem quiser, no entanto, lembra-nos que as promessas que fazemos não podem ser meras palavras jogadas ao vento. De maneira especial quando envolvem a vida de outras pessoas. Pensamos a tantos juramentos profissionais, quando alguém assume um cargo público, as promessas matrimoniais, da vida religiosa e consagrada e nos graus do sacramento da ordem. Antigamente, dizem, que bastava a palavra dada para selar alianças entre reinos e nos contratos comerciais. Talvez precisasse de algumas testemunhas, mas a palavra dada era fundamental. Hoje, assinamos papéis e mais papéis, mas a fidelidade às promessas parece ter ficado nos costumes do passado. Sem falar dos crimes praticados todo dia pela internet com a promessa de lucros extraordinários e com comprovantes que, depois, revelam-se inexistentes. Claro que estou generalizando muito e que tudo isso não vale para todos. Contudo estamos nos acostumando até com as declarações públicas de pessoas famosas que depois são regularmente desmentidas ou reviradas com explicações opostas. A prudência é uma virtude, assim como a sinceridade e a honestidade, mas o medo de sermos enganados cria, infelizmente, um clima de desconfiança e dúvida.

No evangelho de Mateus, deste domingo da Santíssima Trindade, Jesus envia os seus apóstolos a todos os povos, sem discriminação, para que, através do batismo, eles também se tornem seus discípulos. Uma missão sem limites, mas com uma promessa decisiva: “Eis que eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Se não compreendemos bem essas palavras e esquecemos de outras, podemos chegar a duvidar até das promessas de Jesus. Por exemplo, se entendemos que a presença de Jesus seja garantia de sucesso – no sentido mundano da palavra -, de multidões ou de poder, estamos redondamente enganados. É mais provável que a Comunidade dos discípulos tenha que passar por críticas e perseguições. Juntos com os bons frutos aparecem, também, as nossas fraquezas e falhas. O caminho do Evangelho será sempre o caminho da cruz, ou seja, do sofrimento, do sacrifício, da vida doada. Se for por amor, porém, antes ou depois, a bondade vencerá. Outro detalhe que não devemos esquecer: ser discípulos de Jesus não significa ter a exclusividade do bem. Com certeza, outros podem fazer melhor do que nós. A presença de Jesus vivo e ressuscitado não será medida simplesmente pelos resultados de uma ou de outra obra, mas pela capacidade de recomeçar sempre de novo. Porque é assim que acontece. Todos cansamos de sermos “bons”, tem hora que dá vontade de esquecer os pobres e tirar satisfação de quem nos ofendeu. Manter viva a esperança da força invencível do amor, essa é a nossa missão. Jesus não está entre nós para ganharmos sempre e de qualquer jeito. Ele está conosco para que nunca desanimemos e para que lembremos que o Reino é dele, não o nosso. “…E o seu reino não terá fim” (Lc 1,33).

A Verdade e a Mentira

Vivemos num mundo em transformação. A sociedade digital mudou tanta coisa que isso atingiu o nosso modo de pensar. O aspecto mais discutido é o que se chama de “a morte da verdade”. São tantas versões sobre um fato que não se sabe qual é a verdade.

Este problema não é novo. Sempre foi uma questão fundamental e está no centro do Evangelho. Pilatos pergunta a Cristo: “Tu és rei?” Jesus diz que veio para dar “testemunho da verdade”, e Pilatos retruca: “O que é a verdade?” O que acontecia era que falavam “línguas” diferentes: Jesus, a de Deus; Pilatos, a do poder.

Agora nos deparamos com o problema do testemunho, ou melhor, das testemunhas. Querem que elas digam a verdade, mas a verdade é que, para elas, já não existe a verdade. Ora a verdade é uma abstração, algo que lhes querem impor com nomes que lhes são alheios, como fatos, ciência, até mesmo mostrando-lhes gravações com uma imagem em que não se reconhecem. Ora é uma coisa que não foi dita para valer, foi dita para dizer o que querem ouvir.

Além da mentira, há o caso do mentiroso: mente quem diz a mentira ou quem construiu a mentira? Pelo menos é o que está lá no Montaigne: “Eu sei que os gramáticos distinguem dizer mentira de mentir; e dizem que dizer mentira é dizer coisa falsa, mas que se pensa que é verdadeira.” Como a definição da palavra em latim quer dizer ir contra sua consciência “isso só toca àqueles que dizem o contrário do que sabem”.

Mas acrescenta que mentir é “um vício maldito, pois somos homens e só temos uns aos outros pela palavra”; e que depois que se começa a mentir é difícil parar. “Se, como a verdade, a mentira só tivesse uma face, estaríamos em melhores termos. Porque tomaríamos por certo o contrário do que diria o mentiroso. Mas o contrário da verdade tem cem mil rostos e um campo indefinido.”

Assim vai andando a verdade, quer dizer, a mentira. Pois o mentiroso diz o que sabe que é falso, mas quando acha que o que é verdadeiro é falso, não sabe o que dizer, se a falsa verdade ou a verdadeira mentira. E eu podia terminar com o Padre Vieira: “Finalmente, reduzindo todo o discurso, ou discursos: mentem as línguas, porque mentem as imaginações; mentem as línguas, porque mentem os ouvidos; mentem as línguas, porque mentem os olhos; e mentem as línguas, porque tudo mente, e todos mentem.”

Mas, hoje, quando a sociedade se pauta pela rede social e admite várias versões da verdade, pode parecer que não se sabe mais onde está a verdade; no entanto a verdade, aquela que não é versão, mas fato, existe.

Eu mesmo sei uma verdade incontestável: o Brasil precisa vacinar toda a sua população, seguir as recomendações dos cientistas e salvar vidas. Pois há vidas a serem salvas, e com elas o País tem obrigações.

Não é especulação filosófica ou um jogo de palavras. É a realidade que estamos vivendo.

A capa rasgada

Certa vez, um soldado perguntou a um ancião:
– Deus concede o perdão aos pecadores? O ancião respondeu:
– Me diga, se a sua capa rasgar, você vai jogá-la fora? O soldado respondeu:
– Não, eu vou concertá-la e voltar a usá-la novamente. O ancião concluiu:
– Se você zela assim por sua capa, Deus não será misericordioso com o ser humano que é a sua própria imagem?
Com a solenidade de Pentecostes concluímos o Tempo Pascal. Fomos convidados a crescer na fé, a produzir bons frutos e enviados em missão até “os confins da terra” e até o fim da história.

Muitas coisas devem ser guardadas porque constituem a nossa “memória”, mas muitas outras precisam de renovação ou serão mesmo totalmente novas, nas formulações, no entusiasmo, na coragem. No início do “novo milênio”, proclamamos: Jesus Cristo ontem, hoje e sempre. No entanto a humanidade se renova a cada geração e nenhuma repete simplesmente o que recebeu das gerações que a precederam. A “sabedoria” para discernir o que não pode mudar e o novo que surge é obra do Divino Espírito Santo. Quando Jesus prometeu o dom do Espírito disse: “ele vos ensinará tudo e recordará tudo o que eu vos tenho dito” (Jo 14,26). O Espírito, portanto, nos garante a memória de Jesus, para que não cheguemos a anunciar alguém que não seja mais aquele único Senhor Jesus Cristo. Contudo, o mesmo Espírito nos “guiará a toda a verdade” e “anunciará coisas que hão de vir” (Jo 16,13), ou seja, algo “novo” que ainda não conhecemos.

Tudo isso porque nós acreditamos que algo, como a Encarnação, Paixão Morte e Ressurreição de Jesus, foram eventos que aconteceram uma vez por todas. Porém é também verdade que a cada ser humano que chega neste mundo deve ser oferecida, de uma forma ou de outra, diretamente ou indiretamente, a possibilidade de encontrar Jesus Cristo e, talvez, tornar-se seu discípulo ou discípula. Digamos: um encontro “novo” para pessoas “novas”.

No evangelho deste Domingo de Pentecostes, junto ao dom do Espírito Santo, encontramos mais três “presentes” de Jesus: a paz, a missão e o perdão. O envio da Comunidade expressa a vontade do Senhor que os seus seguidores continuem a mesma missão dele, a que o Pai lhe confiou: de fazê-lo conhecer e amar. Não, portanto, um Deus que afaste e amedronte, um Deus cobrador, castigador e imprevisível nos seus caprichos, mas um Pai amoroso e misericordioso, sempre pronto a doar paz e perdão. Isso não porque Deus seja um bonachão, fácil de se enganar, mas porque nos ama de maneira surpreendente a ponto de respeitar as nossas recusas e revoltas. Acredito que devemos testemunhar mais o nosso Deus, Pai de Jesus Cristo, construindo paz e perdão. Vivemos numa sociedade competitiva ao extremo, onde sobressair e se impor é o sonho e o esforço de muitos. A afirmação individual e a busca de privilégios nos tornam cegos com os mais desfavorecidos, os simples e os pobres.

Duvido que o sucesso, conseguido a qualquer preço, dê a paz do coração. Mais facilmente dá arrogância e desprezo para os demais. Paz é encontro, diálogo, escuta, respeito e valorização do outro assim como ele é, um ser humano também imagem de Deus por desfigurado que seja. A paz verdadeira vai junto com o perdão. Este não é simples esquecimento do mal que fizemos. Perdão é correção dos erros, conversão de valores, mudança de atitudes, devolução do que injustamente roubamos. Hoje, não furtamos somente dinheiro ou bens materiais, tiramos também possibilidade, fechamos portas, recusamos compaixão e misericórdia.

Agradecemos quem nos dá atenção e é paciente conosco, porque carinho e solidariedade ficaram pérolas raras. Queremos tudo para nós, reclamamos da falta de amor, mas esquecemos a alegria de doar um pouco do nosso tempo, sem cobrar depois, sem jogar na cara o que fizemos e que, talvez, era nossa obrigação como pais, mães, filhos, irmãos, chefes, patrões… Perdão é “remendo” sim, para lembrar que podemos rasgar tudo novamente. Mas se é Deus que perdoa, podemos começar um caminho “novo”. Alegres e confiantes.

Dois passageiros

Um navio bateu de repente nuns recifes e uma das suas laterais se abriu. O alarme foi dado com atraso. Contudo a maioria dos passageiros conseguiu correr e pegar os botes de salvamento. Somente dois passageiros ficaram parados nas suas cabines. Chamavam-se: “Não vou dar conta” e “Não tenho nada a ver com isso”. Ambos se afogaram quando a embarcação afundou.

Chegando no final do Tempo Pascal, encontramos duas grandes solenidades: Ascensão e Pentecostes. A Liturgia acompanha o que encontramos escrito no livro dos Atos dos Apóstolos. Essa foi a forma de organizar cronologicamente – e quase visivelmente, no tempo e por etapas – fatos e situações tão novas que ficaram difíceis de ser relatadas aos que viriam depois. O acontecimento da paixão e morte de Jesus já tinha deixado todos os seus discípulos desnorteados e com medo. Tinham largado “tudo” para seguir aquele mestre, talvez cada um com suas expectativas particulares, mas todos encantados com o jeito diferente dele no falar e no agir. Como seria agora a vida deles sem aquele que se tinha apresentado como “o Caminho, a Verdade e a Vida”? Experimentaram momentos de desânimo e tristeza. Porém, novamente, a “ressurreição” do Senhor surpreendeu a todos, desta vez enchendo-os de alegria e esperança. Aos poucos foram entendendo o sentido de tudo quanto tinha acontecido e a extraordinária missão a qual Jesus os tinha chamado e que agora deviam levar para frente.

A “Boa Notícia” de Jesus e o seu mandamento do amor não podiam ficar trancados naquele pequeno espaço onde eles se encontravam fechados e medrosos. A pessoa dele, a sua mensagem, o seu exemplo, eram tão importantes, tão capazes de transformar a vida, de lhe dar um sentido grande e feliz, que, a partir daquele momento, “toda criatura” (Mc 16,15) de perto e de longe, do presente e do futuro, merecia conhecer e experimentar aquele Deus Pai que o Filho tinha desvelado para sempre. Eram poucos, pobres e fracos. Muito mal podiam imaginar o que os aguardava, os caminhos que iriam percorrer, os obstáculos que iriam encontrar para chegar “até os confins da terra”, lá onde Jesus os enviara. No entanto, de jeito nenhum ficaram “parados olhando para o céu” (At 1,11). Voltaram para Jerusalém. A vida deles estava envolvida e entrelaçada, uma vez por todas, com a vida de Jesus, o crucificado, que agora começaram a anunciar como aquele que “Deus constituiu Senhor e Cristo” (At 2,36). Somente a força do Divino Espírito Santo podia explicar tanta paixão e ousadia.

Esta, e não outra, será para sempre a missão da Igreja, a comunidade dos discípulos de Jesus: ir pelo mundo para anunciar o Evangelho (Mc 16,15). Para cumprir essa tarefa precisamos sempre e de novo vencer, ao menos, duas tentações: a de nos esquivar da responsabilidade e aquela de nos julgar incapazes. Seja num caso como no outro o resultado é o mesmo: ficar parados e acomodados em nós mesmos, nos nossos grupos e estruturas. Disputamos para ver quem fala mais bonito, quem tem mais seguidores, quem bate palmas mais forte. A pregação mais importante e valiosa não é aquela que fazemos entre nós, mas o Evangelho que anunciamos com a nossa vida, lá onde o Senhor nos colocou para sermos suas testemunhas. O cristão melhor não é aquele que fala muito de Jesus, mas aquele que vive como Jesus, aquele que sabe escutar o grito do pobre, acolher o irmão diferente, perdoar as ofensas. Quando refletimos sobre tantas situações das quais tomamos conhecimento, sobretudo quando são de sofrimento, abandono, violência e injustiça, devemos nos perguntar se por lá não tem cristãos capazes de agir de maneira mais justa, amorosa e fraterna. Só que o questionamento vale também para cada um de nós, se temos coragem de olhar à nossa família, ao nosso bairro, à nossa cidade. Nem passe pela nossa cabeça que não temos força para mudar as coisas. Onde ficou o Espírito Santo? E, se formos indiferentes, podemos ter certeza de que ele dará entusiasmo e ousadia a outros. Conosco ou sem nós, a missão continua.

Felicitas

Felicitas era uma ajudante da paróquia católica de Gisengi em Ruanda. Quando aconteceu o genocídio, tinha acolhido na casa dela um grupo de hutus que corriam o perigo de serem massacrados pelos tutsis. O irmão dela era coronel e a tinha avisado que estava arriscando a vida. Felicitas escreveu para ele: “Irmão muito querido, agradeço a sua ajuda, mas salvar a minha vida agora significaria abandonar as quarenta e três pessoas das quais me sinto responsável. Escolho, por isso, morrer por elas. Meu irmão, reza para que todos possamos chegar à Casa do Pai. Dá um abraço forte à nossa mãe velhinha e ao nosso irmão. Eu rezarei por ti quando estiver com Deus. Veja de preservar a sua saúde. Muito obrigada por ter pensado a mim. Tua irmã Felicitas Miyteggaeka”. Quando os soldados chegaram para prendê-la, junto com as pessoas que tinha protegido, disse: “Chegou o momento de dar o nosso testemunho. Vamos”.

Chegando ao final do Tempo Pascal, antes das solenidades de Ascensão e Pentecostes, a Liturgia da Palavra nos apresenta, através de trechos diferentes, o grande – e único – mandamento de Jesus: aquele de nos amarmos uns aos outros (Jo 15,17). O amor fraterno deve ser o sinal distintivo dos “amigos” dele e o fruto produzido deve permanecer, ou seja, continuar a florescer e frutificar para sempre. Todo amor verdadeiro é a consequência da generosidade, da doação que cada ser humano pode fazer de si mesmo em prol dos outros, mas, diz Jesus, o amor “maior” é de quem “dá a vida para os seus amigos”. A referência à entrega dele na cruz é evidente. Ele mesmo nos deu o exemplo desse amor maior. Por esse amor total deveríamos sempre ser agradecidos e firmes no seguimento de Jesus, convencidos que esta é a única possibilidade de resgate do ser humano de todos os tempos e de todos os lugares. Como o de Jesus, o amor verdadeiro não conhece fronteiras nem de espaço e nem de tempo. É um caminho que deve ser percorrido. Quem entra nele, sempre deixa rastros, atrai. Outros o seguirão, porque oferece uma alegria diferente, uma felicidade e uma paz que somente assim se encontram. Quem doa com generosidade e sem interesse, também recebe com fartura os “dons” reservados a quem “permanece” no amor do Senhor.

“Dar a vida” pode ser mesmo morrer para salvar alguém ou solidariedade com as vítimas numa trágica circunstância. A história tem muitos exemplos disso, alguns conhecidos, outros que ficarão guardados no coração amorosos de Deus. No entanto, o mandamento do amor não pode ser reservado para alguns raros momentos de heroísmo e desprendimento, deve tornar-se o jeito de viver ordinário do cristão. Jesus pede a todos para “dar vida”, ou seja, trabalhar, lutar e nos unir para que todos “tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Para entender isso é bom lembrar que o contrário de “dar vida” é tirar vida, limitar ou mesmo desprezar e desvalorizar a vida dos outros. Todos somos tentados a cuidar em primeiro lugar de nós mesmos. Talvez seja uma questão de sobrevivência, mas, muitas vezes, é fruto mesmo do egoísmo. Os antigos padres da Igreja já ensinavam que a roupa que guardamos no armário e não usamos é a roupa do pobre que não tem o que vestir. Quem deve decidir o que não lhe serve e que pode ser partilhado é cada um de nós. Acumular sem necessidade pode ser mesmo tirar o sustento de outros, condená-los a uma vida miserável. Não é isso, evidentemente, o que exalta a sociedade de hoje pela qual somos conduzidos a comprar e consumir muitas coisas das quais antes nem sentíamos falta, mas que depois se tornam indispensáveis à nossa vida. Desse jeito, vai sobrar muito pouco para os pobres.

A nossa irmã Felicitas foi heroína um dia, mas o seu amor e o seu martírio começaram muito antes, quando acolheu em sua casa os hutus perseguidos. Eram de outra raça e, naquele momento de guerra tribal, inimigos, mas ela nem pensou nisso. A generosidade não se improvisa. Se aprende aos poucos. Para nós cristãos, só olhando a Jesus.

Os frutos da obediência

Contavam por aí que, um tempo atrás, João o Menor ia fazer visitas a um ancião que vivia no deserto de Sceti. Certo dia, o mestre pegou um pedaço de madeira seca, o plantou no chão e lhe disse:

– Rega-o todo dia com uma garrafa de água até que dê fruto. A água, porém, estava tão longe daquele lugar que João devia sair à tardezinha e voltar na manhã seguinte. Três anos depois, a árvore começou a viver e deu fruto. O sábio, então, pegou alguns daqueles frutos e os levou para a igreja. Lá ele disse aos irmãos:
– Tomai e comei os frutos da obediência!

Um caso daqueles nos quais parece impossível acreditar ou que somente aconteciam nos tempos antigos. Hoje não mais. No entanto… No Quinto Domingo da Páscoa, deste ano, encontramos o trecho inicial do cap. 15 do Evangelho de João. É um exemplo tirado da natureza. É mais uma comparação, ou analogia, que Jesus faz de si mesmo para nos ajudar a entender os misteriosos laços que nos unem a ele. O Senhor diz que ele é a videira verdadeira, nós os ramos e o Pai o agricultor. Toda árvore serve se produz fruto, se não o faz, é cortada. No caso da videira, para que produza fruto, são necessárias duas coisas: a primeira, mais do que óbvia, é que os ramos estejam unidos ao tronco, porque é dali que recebem a linfa vital. A outra condição é a poda, absolutamente indispensável no cultivo da videira para que os ramos bons produza m uva gostosa.

O evangelista João, para indicar a união dos ramos com o tronco da videira usa uma palavra-chave do seu evangelho: o verbo “permanecer”. Não é uma união casual ou temporária. É algo permanente, duradouro. Essa “união” se dá pela permanência das palavras de Jesus na vida da pessoa que adere a ele. Entendemos que a linfa vital que passa do tronco para os ramos e que garante a união com Jesus são, justamente, as palavras dele, ou seja, aquela maneira própria de viver e de amar da qual ele mesmo nos deu o exemplo. Isto porque os frutos que eventualmente conseguimos produzir, apesar das nossas infidelidades, não podem ser diferentes da “obra” de Jesus, a vida dele doada por amor com a qual “glorifica” o Pai. Nesse sentido entendemos a “poda” do Pai da qual claramente nos fala Jesus neste evangelho. Logo pensamos em castigos ou cois as semelhantes e ficamos com medo. Os frutos “bons” que interessam ao Pai são aqueles que manifestam e fazem crescer o Reino que Jesus inaugurou. Outras obras, outros frutos, resultado do nosso orgulho e ambição, por maiores que sejam, são como os ramos secos que serão “recolhidos, lançados no fogo e queimados” (Jo 15, 6). Mais uma motivação para procurar sempre “permanecer” unidos a Jesus, porque sem ele não podemos fazer nada. Longe dele não produzimos os frutos que servem ao Reino.

Em tempos de relações superficiais e passageiras, algo muito estável e duradouro nos espanta. Com Jesus deve ser diferente; precisamos nos agarrar a ele, nos segurar nele, beber sempre das suas palavras, para dar algum fruto para o qual valha a pena gastar a vida. Da mesma maneira, não devemos temer as “podas” do Pai, sobretudo se confiamos e acreditamos que servem para nos ajudar a acertar a meta dos nossos esforços e trabalhos. Umas “podas” necessárias hoje talvez sejam aquelas da pressa e da grande organização. Se não vemos logo os resultados, desanimamos e desistimos facilmente. Ou achamos que foram erros de planejamento, que esquecemos algum detalhe, que não tivemos todos os recursos tecnológicos e financeiros necessários, que, talvez, Deus não nos ajudou. Devemos aprender a buscar ao menos uma garrafa de água todos os dias na fonte de água vi va que é Jesus, na sua palavra e no seu exemplo. Pelo tempo que for necessário, porque não cabe a nós saber quando e como os frutos bons virão. Uma pergunta: será que o João o Menor, do caso do deserto, não dormia de noite porque ia buscar a água? Muita “obediência” mesmo. Mas, depois, até o galho seco deu fruto. Muita fé também.

Sonho, serviço, fidelidade

Todo ano, no Quarto Domingo de Páscoa, encontramos a página do evangelho de João que nos apresenta a figura do Bom Pastor. Igualmente somos convidados a rezar pelas vocações; todas, mas de maneira especial as vocações sacerdotais, religiosas e missionárias. Um dos “serviços” mais importantes no Povo de Deus é aquele dos pastores. São pessoas dedicadas à evangelização, à administração dos sacramentos e à própria organização geral das atividades da Igreja que, justamente, chamamos de “pastoral”. A Vida Religiosa e Consagrada, com as suas obras, mas também com o seu silêncio, oração e vida comunitária, lembra a todos os “conselhos evangélicos” da castidade, pobreza e obediência como caminho de santificação cristã, pessoal e de toda a Igreja em conjunto. Por fim, os Institutos Missionários nos ensinam a abrir sempre mais os horizontes da evangelização, sem esquecer que a missão de cada batizado e batizada já começa “em casa”, nas nossas famílias e nas nossas paróquias. O elã missionário garante que a Igreja toda nunca se feche na autossuficiência. Também rezaremos pelas demais vocações, sobretudo a familiar neste Ano Especial da “Amoris Laetitia”. Lembraremos, porém, as diferentes profissões com um carinho especial, nestes tempos difíceis, por aqueles e aquelas que se desgastam no cuidado da saúde dos enfermos com tanta dedicação e desprendimento. Todo ano, para este dia Mundial de Oração pelas Vocações, os papas oferecem uma mensagem para rezar e refletir. Desta vez, Papa Francisco aproveitou da figura de São José e eu não podia deixar de partilhar um pouco desta reflexão sobre a vocação e o nosso querido Padroeiro.

Na sua mensagem, Papa Francisco faz uma comparação entre o chamado de São José e as demais vocações. Aponta três palavras-chave para a vocação de cada um: sonho, serviço e fidelidade. O “sonho”.

Acompanhando o evangelho de Mateus, já sabemos dessa comunicação extraordinária de Deus com São José. Os sonhos, em si, são sempre algo muito duvidoso. No entanto, São José se deixou guiar por eles porque confiava em Deus. Escreve Papa Francisco, “os sonhos introduziram José em aventuras que nunca teria imaginado… Assim acontece na vocação: a chamada divina impele sempre a sair, a dar-se, a ir mais além. Não há fé sem risco”. Toda vocação pede uma resposta. Adiar, titubear, repensar, pode ser natural, mas não deve se prolongar tanto que, afinal, não dê mais tempo para responder. São José teve que mudar seus planos, mas respondeu na hora certa e da maneira certa. A respeito do serviço, Papa Francisco convida a lembrar a total entrega de São José ao projeto de Deus. El e soube amar, sem reservar nada para si. É neste ponto que todos os que respondem a uma vocação devem amadurecer para passar do “sacrifício” ao serviço generoso. De outra forma, qualquer renúncia, grande ou pequena, parece insustentável e injusta, gera “infelicidade, tristeza e frustração”. Toda vocação matrimonial, celibatária ou virginal chega à maturação somente através do dom de si mesmo e assim resplandece pela beleza e a alegria do amor.

A terceira palavra é fidelidade. São José viveu sua vida de homem “justo” na perseverança no seu trabalho humilde, familiar e silencioso. Qual foi o seu segredo? Responde Papa Francisco: a fidelidade de José se alimentou “à luz da fidelidade de Deus”. Foi a resposta corajosa e firme às palavras ouvidas: “não temas” (Mt 1,20). Conclusão do Papa: “na casa de Nazaré reinava uma alegria cristalina… diária e transparente de simplicidade, a alegria que sente quem guarda o que conta: a proximidade a Deus e ao próximo”.

Por tudo isso, Papa Francisco chama São José de “guardião das vocações” porque gosta de pensá-lo como guardião de Jesus e da Igreja. “Que belo exemplo de vida cristã oferecemos quando não seguimos obstinadamente as nossas ambições nem nos deixamos paralisar pelas nossas nostalgias, mas cuidamos de quanto nos confia o Senhor, por meio da Igreja!”. Toda vocação precisa mesmo de um “cuidado” zeloso para que todos nós continuemos a ser um dom para quem encontramos nos caminhos da vida.

Só um grão de ervilha

Havia um homem que levava uma vida de penitência e não comia pão. Um dia, foi visitar um sábio. Aconteceu que também alguns peregrinos passassem por lá, naquele dia, e o sábio preparou para todos uma simples refeição. Quando se sentaram à mesa para comer, o monge que jejuava pegou somente um grão de ervilha e ficou mastigando-o longamente. Quando se levantaram, o sábio chamou o monge e, a sós, disse-lhe:

– Irmão, quando você visita alguém, não chame atenção para a sua maneira de viver. Se quiser manter a sua penitência, fique na sua cela e nunca saia de lá. Ele aceitou o conselho e, a começar daquele dia, agiu como os demais quando os encontrava.

O evangelho deste Terceiro Domingo de Páscoa é a continuação da página bem conhecida dos discípulos de Emaús. Após terem reconhecido Jesus naquele peregrino forasteiro, os dois voltam para Jerusalém e encontram os onze e os outros discípulos reunidos (Lc 24,33). Eles contam a experiência e lembram o gesto que abriu seus olhos: “ao partir o pão”. Os outros também confirmam: – Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão (v.34). É neste momento de alegria e fraternidade que aparece Jesus. O evangelista Lucas quer nos ajudar a entender que Jesus está sempre presente na comunidade reunida. Isso não é simples imaginação ou devaneio, é uma presença real também se através dos sinais que o próprio Senhor escolheu durante aquela Ceia derradeira e que deixou como seu “memorial”. Depois , de novo, como fez no caminho de Emaús, ele abre a inteligência dos discípulos para entender as Escrituras e, com isso, poder compreender tudo aquilo que aconteceu naquela última Páscoa. Por fim, entrega-lhes uma missão: serem “testemunhas de tudo isso” pregando a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações. Aqui termina a leitura da Liturgia deste domingo, mas, se lermos um pouco mais à frente, Jesus promete o dom do Espírito Santo e isso nos ajuda a entender por que o autor deste evangelho, com toda probabilidade, é o mesmo que escreveu o livro dos Atos dos Apóstolos, eles indo em missão, “até os confins da terra”.

Retomamos os principais gestos que são apresentados neste evangelho: a refeição em comum, a explicação das Escrituras e o testemunho. Não é muito difícil lembrar as nossas liturgias, sobretudo as Missas. A primeira coisa, importante é que a nossa fé nunca é individual ou “solitária”: deve ser sempre uma experiência fraterna. As motivações são muitas, mas uma é elementar: Deus não ama somente a mim, ama a todos nós e a cada um ao mesmo tempo. Eu posso esquecer dos meus irmãos ou não os reconhecer como tais, mas Deus nunca esquece de nenhum dos seus filhos. Talvez se lembre mais ainda daqueles que eu, no meu egoísmo, apago da minha memória ou penso que não mereçam a minha atenção. A fé viva e verdadeira é recebida dos outros, pelas explicações, mas sobre tudo pelo exemplo. De outra maneira, cada um decidiria o conteúdo e a vivência da fé a seu gosto e interesse. Algo semelhante vale também para a escuta das Escrituras. Disse “escuta” e não leitura. Porque o único que se revela e fala é o Senhor, o Mestre de todos.

O que cabe a nós é nos ajudarmos uns aos outros a entender e a praticar a mesma Palavra ouvida. Pouco falamos entre nós da nossa fé, pouco partilhamos dos frutos da Palavra semeada em nós e que sempre deveria abrir as nossas inteligências. Os nossos corações não se aquecem como deveriam. Por consequência, também a nossa missão é fraca, desanimada, não sabemos o que dizer porque escutamos e aprendemos pouco. Confundimos o anúncio do Evangelho de Jesus com uma doutrina ou com a adesão ao nosso grupo, igreja ou movimento. É Jesus, a sua pessoa, a sua vida e o seu amor que devemos testemunhar, não a nossa organização, nossos hábitos e devoções. Se algo deve chamar atenção dos que ainda não conhecem o Evangelho não serão as nossas esquisitices – como comer só um grão de ervil ha – mas a alegria, o entusiasmo, a generosidade e, não esqueçamos, a capacidade de dialogar com todos para sempre ensinar e aprender. Com humildade.

As feridas

Um homem morreu e chegou às portas do céu. O anjo encarregado da acolhida lhe disse:
– Me apresente as suas feridas. Espantado o homem respondeu:
– Quais feridas? Eu não tenho nenhuma ferida. E o anjo falou:
– Nunca pensou que tivesse alguma coisa na vida para a qual valesse a pena lutar?
No Segundo Domingo da Páscoa, sempre encontramos a página do evangelho de João que fala de duas aparições do Senhor ressuscitado aos discípulos. A primeira, “ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana” (20,19) e a segunda “oito dias depois” (20,26). Em ambas as aparições, a saudação de Jesus é: “A paz esteja convosco” e, logo em seguida, ele apresenta “as mãos e o lado”, de maneira toda especial para Tomé, que não estava presente na primeira vez. É bastante fácil entender que o evangelista João quer nos ajudar a ter fé naquele Jesus crucificado e, agora, ressuscitado no qual nós também devemos crer, mas, sem o “terem visto” (20,29).

Feridas e paz, são duas coisas que parecem opostas. Como é possível ter feridas e estar em paz? Que paz é essa? A paz que Jesus deseja aos discípulos não é a da morte, do silêncio e da escuridão do túmulo, onde acabam todas as batalhas de todos os seres humanos. É aquela que, com a ressurreição, torna-se o grande anúncio pascal de vitória e de vida nova. Isso é possível porque as feridas de Jesus não são só as consequências dramáticas de uma morte terrível, de um sofrimento desumano, lá na cruz, no meio dos insultos e zombarias dos que passavam. Elas são os sinais daquela luta que Jesus travou, ao longo de toda a sua vida, contra todo tipo de mal e de pecado que nos afastam de Deus, Pai amoroso, e, com isso, impedem-nos de sermos o que todos deveríamos ser: imagem e semelhança dele.

No evangelho de João essa “luta” do bem contra o mal é apresentada de muitas formas. São as trevas que não querem acolher a luz (Jo 1,5). É a cegueira de quem não quer ver por que pensa que já sabe tudo (Jo 9,41). É a frieza de uma lei que julga cruelmente e é aplicada sem compaixão e misericórdia (Jo 8,11). É a recusa da verdade por parte de quem segue o “pai da mentira” (Jo 8,44). São os “ladrões e assaltantes” que as ovelhas não escutam ou os “mercenários” que fogem quando deveriam defendê-las dos lobos (Jo 10,8.12). É a inveja que sela o “pacto da morte” (Jo 12,10-11). É a frieza e a corrupção do traidor (Jo 18,2). Tomé sabia o valor das feridas do Crucificado. Tinha acompanhado Jesus nos caminhos da Galileia, nas disputas com os doutores da Lei, nos desafios com os f ariseus, quando tinha curado em dia de sábado, no escândalo com os sacerdotes, quando tinha expulsado os vendilhões do Templo. Tudo, porém, tinha sido em vão. Aquelas feridas, aquela morte, foram, afinal, uma grande derrota. Tomé não confiou nos outros companheiros, talvez porque já tinha desistido de crer e esperar.

É a ele, como a nós, sempre incrédulos, desconfiados e cheios de perguntas, que Jesus oferece a sua paz e apresenta as suas feridas. A luta não foi em vão, algo novo e surpreendente aconteceu, uma vida nova e diferente começou. A vitória já começa quando começamos a lutar, quando não desistimos da verdade, do bem e do amor, quando reconhecemos que o caminho é longo, cansativo e que somos tentados de desistir. Contudo, não abandonamos o campo da batalha porque não tem outro planeta mais cômodo e outra humanidade mais tranquila. É aqui, no dia a dia, que decidimos de que lado jogamos, quem e o que defendemos, para que estamos dispostos a ficar feridos e até a doar a vida. Estamos dispostos a enormes sacrifícios e renúncias para ganhar mais dinheiro e prestígio. Entregamos a nossa liberdade, a nossa capacidade crítica e até a nossa c onsciência. Calamos para não ser cobrados, lavamos as mãos para não ser incomodados. A paz de Jesus é para quem tem feridas. As feridas de quem luta pela vida, seguindo Jesus “o profeta de todas as causas justas”.